Aperreio e as mazelas do Maranhão

Documentário encomendado por entidades do movimento social maranhense ganha vida própria percorrendo festivais Brasil afora

ZEMA RIBEIRO

O maranhense Aperreio, documentário de Doty Luz e Humberto Capucci, foi selecionado para a mostra competitiva do II CurtaCarajás – Festival de Cinema de Parauapebas, no Pará. Lá também o curta metragem já havia participado do Amazônia Doc. É, supomos, o início de uma vida longa de um filme que surgiu como encomenda do Comitê de monitoramento às políticas voltadas às vítimas das enchentes no Maranhão.

O agrupamento de entidades do movimento social maranhense, entre as quais a Associação Agroecológica Tijupá, Cáritas Brasileira Regional Maranhão, Fórum Carajás, Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) e União por Moradia Popular, entre outras, visa confrontar o discurso pró-grandes projetos com a realidade das populações no interior do Maranhão.

Os documentaristas percorreram diversos municípios constatando as mazelas provocadas pela alternância de secas e enchentes, efeitos das mudanças climáticas. O grande trunfo de Aperreio, aliás, é orientar-se pela máxima guevariana: endurecer sem perder a ternura. “Essa foi uma das grandes preocupações da gente: como fazer um filme desses sem falar só de desgraças?”, indaga-se, explicando, o cineasta Humberto Capucci, que até meados de 2009, atuou no Conselho Indigenista Missionário, o CIMI, que deixou após 14 anos – justo para dedicar-se ao cinema. O resultado está aí para quem quiser ver: os problemas são apontados pela ótica de populares, as próprias vítimas contando sua(s) história(s). Entre cenas desoladoras – inundações, casas destruídas –, lembranças doídas e a beleza da sabedoria e cultura populares dos maranhenses.

Aperreio, primeira realização concluída da Café Cuxá Filmes – produtora em que Luz e Capucci são sócios, outras produções iniciadas antes estão em fase de conclusão – extrapola o meramente institucional. “Uma preocupação muito forte, quando fazemos um trabalho, é não ficarmos falando para nós mesmos. Participar de festivais Brasil afora está sendo uma surpresa, não era a intenção inicial, mas se isso está acontecendo significa que conseguimos falar para um público além do das organizações que encomendaram o filme e do público atendido por elas”, afirma Capucci.

No Maranhão, o filme, até aqui, só teve exibição na noite de seu lançamento: na noite do último dia 28 de outubro, na sala de cinema da sede do jornal O Imparcial (conforme noticiado na página do Vias de Fato na internet). Espera-se que o mesmo seja visto por “tudo em quanto” é maranhense – para usarmos uma expressão genuinamente nossa que aparece no filme. A realidade de Aperreio bate à nossa cara e à nossa porta. Não adianta fingirmo-nos de cegos ou surdos.

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O texto acima saiu na edição de novembro do Vias de Fato, onde também escrevi sobre Tropa de Elite 2 (sobre o primeiro, já havia escrito também para O Debate, cuja redação deixei anteontem, por motivos de força maior).

Aperreio não está na programação da 5ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos da América do Sul, mas bem poderia, a exemplo de outros docs e curtas de ficção maranhenses – fica a dica para a produção, para outras edições. A seguir, a programação de hoje (íntegra pode ser acessada no site da Mostra e o catálogo da mesma pode ser baixado aqui).

13h30min
(sessão com audiodescrição para público com deficiência visual)

Pra Frente, Brasil, de Roberto Farias
Brasil 105 min 1982 ficção

Em 1970 o Brasil inteiro torce e vibra com a seleção de futebol no México, enquanto prisioneiros políticos são torturados nos porões da ditadura militar e inocentes são vítimas desta violência. Todos estes acontecimentos são vistos pela ótica de uma família quando um dos seus integrantes, um pacato trabalhador da classe média, é confundido com um ativista político e “desaparece”.

15h30min

A casa dos mortos, de Debora Diniz
Brasil 24 min 2009 doc

Bubu é um poeta com doze internações em manicômios judiciários. Ele desafia o sentido dos hospitais-presídios, instituições híbridas que sentenciam a loucura à prisão perpétua. O poema A Casa dos Mortos foi escrito durante as filmagens do documentário e desvelou as mortes esquecidas dos manicômios judiciários. São três histórias em três atos de morte. Jaime, Antônio e Almerindo são homens anônimos, considerados perigosos para a vida social, cujo castigo será a tragédia do suicídio, o ciclo interminável de internações, ou a sobrevivência em prisão perpétua nas casas dos mortos. Bubu é o narrador de sua própria vida, mas também de seu destino de morte.

Claudia, de Marcel Gonnet Wainmayer
Argentina 76 min 2010 doc

Claudia sai da prisão depois de vinte e seis anos. É seguida pela câmera em seu retorno à liberdade. A reconstrução de seus laços familiares, sua relação amorosa e sua presença cotidiana na cidade permitem analisar o que significa a reinserção social, os objetivos e o funcionamento do sistema penitenciário. Imagens históricas da prisão e os detalhes do duplo homicídio que a levou à detenção (e que inspirou um dos capítulos da série de televisão Mulheres Assassinas) são o contraponto de seus encontros com especialistas e personagens relacionados com o sistema penitenciário. O filme retrata problemas desse sistema, sua realidade e suas sequelas, encarnados na vida de uma mulher que enfrenta o desafio de viver em liberdade depois de mais de duas décadas atrás das grades.

17h30min

Aloha (exibido com audiodescrição na sessão de ontem, 13h30min)

Avós (idem)

Cinema de guerrilha, de Evaldo Mocarzel
Brasil 72 min 2010 doc

Cinema de guerrilha é um documentário sobre jovens de periferia que fazem cinema, realizam oficinas e promovem exibições alternativas de curtas-metragens para as comunidades.

19h30min

Kamchatka, de Marcelo Piñeyro
Argentina/Espanha/Itália 103 min 2002 ficção

Um garoto de 10 anos leva uma vida normal para qualquer criança de sua idade na década de 1970. No entanto, quando seus pais – um advogado e uma professora universitária – começam a ser perseguidos pela ditadura argentina, ele e sua família são obrigados a largar tudo na cidade e fugir para uma fazenda.

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