Sexta temporada da oficina “Trilhas e tons” começa dia 27 em Vitorino Freire

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Uma das edições de Trilhas e Tons, realizada no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho. Foto: Acervo Trilhas e Tons. Divulgação

Após certificar mais de 1.000 cursistas em mais de 50 municípios maranhenses, a oficina “Trilhas e tons: Teoria musical aplicada à música popular” chega este ano a sua sexta temporada, mais uma vez com patrocínio da Equatorial Maranhão, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Desta vez serão sete municípios maranhenses contemplados e o roteiro desta edição do projeto inicia seu trajeto pelo município de Vitorino Freire, onde a oficina acontece entre os próximos dias 27 de setembro e 1º. de outubro – as inscrições estão abertas e podem ser feitas na Escola de Música Maestro Zé Mitonho, onde também acontecerão as aulas. São oferecidas 30 vagas por turma, com inscrições e material didático gratuito.

“Trilhas e tons” tem carga horária de 20 horas aula, distribuídas em cinco dias de formação. A oficina de teoria musical aplicada à música popular é ministrada pelo cantor e compositor Nosly, com coordenação de Wilson Zara e assistência de Mauro Izzy, todos nomes reconhecidos por sua atuação de longa data na cena da música popular brasileira produzida no Maranhão.

Em Vitorino Freire, “Trilhas e tons” conta com parcerias locais, estabelecidas com o Coletivo Cultural de Vitorino Freire, Feeling Assessoria de Comunicação e Marketing, Secretaria Municipal de Cultura, Mulher e Turismo, além da própria Escola de Música Maestro Zé Mitonho.

Morador de Lago da Pedra, por onde a oficina já passou em edição anterior do projeto, foi o carioca Hugo Lima quem colocou o Coletivo Cultural e a produção em contato. “Fazer a ponte entre o projeto “Trilhas e Tons” e o Coletivo Cultural de Vitorino Freire foi apenas uma forma de contribuir para o fomento da cultura e expansão de apresentação de um estilo musical que vem sendo esquecido no nosso país”, declara.

Ele relembrou a passagem da oficina pelo município em que mora: “O acontecimento movimentou positivamente a cidade. “Trilhas e Tons” deixou mais que conhecimento musical na cidade: o projeto fomentou escola de música e loja de instrumentos musicais também; os frutos dessa iniciativa linda são colhidos até hoje em Lago da Pedra”.

“É a primeira vez que Vitorino Freire tem a honra de receber um projeto de música, teórico e prático, com direito a dar certificado aos participantes. É muito grandioso para nós, fazedores de cultura, e para nós, vitorinenses, recebermos o projeto que já tem uma visibilidade nacional. Nós conhecemos o trabalho do Wilson Zara e entendemos que ele tem muito a colaborar com todos nós. É um abraço, é um apoio a mais que Wilson Zara e o projeto “Trilhas e tons” estão trazendo para a juventude de Vitorino Freire alavancar um pouco mais nas suas ideias de músicos. Nós temos certeza que em Vitorino Freire há muitos músicos em potencial, que precisam apenas de um empurrão, de um incentivo, como esse que o projeto “Trilhas e tons” está trazendo ao município. Nós ficamos muito gratos”, afirmou o jornalista Salis Chagas, membro do Coletivo Cultural de Vitorino Freire e articulador local do projeto.

A oficina chega ao município logo após as comemorações do aniversário da cidade, dia 25 de setembro. “Vai ser também um presente para o município”, continua Salis, bastante entusiasmado com a iniciativa.

Serviço

O quê: oficina “Trilhas e tons – Teoria musical aplicada à música popular”
Quem: o instrutor Nosly, o coordenador Wilson Zara e o assistente Mauro Izzy
Quando: de 27 de setembro a 1º. de outubro
Inscrições: já abertas
Onde (inscrições e aulas): Escola de Música Maestro Zé Mitonho
Quanto: grátis (inscrições, aulas e material didático)
Patrocínio: Equatorial Maranhão, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão
Informações: contatowilsonzara@gmail.com, (98) 999753999, facebook.com/trilhasetons

Refletir(-se) (n)o outro: a essência da música de Rommel

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O cantor e compositor Rommel. Foto: divulgação

Essência é uma palavra que cabe bem para definir a musicalidade de Rommel. Cidadão do mundo, o artista tem alinhado em seu trabalho influências do pop e da diversidade da cultura popular do Brasil.

No próximo sábado, 25 de setembro, chega às plataformas digitais o segundo single de “Karawara”, disco que Rommel lança em novembro pela Biscoito Fino. Trata-se de “In essence”, faixa que tem influências do budismo, procurando enxergar para além do que se vê.

No videoclipe, Rommel vê e é visto por pares, num jogo de reflexão – literalmente –, de perceber o outro como uma extensão de si próprio. Em tempos de intolerância e individualismo, o artista passa uma mensagem altruísta. A música é um afrobeat com a rítmica inspirada nos Batás, tambores usados em ritos religiosos da cultura iorubá na Nigéria, mas também em Cuba, no Haiti e no Tambor de Mina do Maranhão.

O videoclipe de “In essence” foi rodado no Canadá, onde Rommel reside, e conta com a participação da dançarina Jade Maya, cujo bailado traduz o jogo da diversidade de que fala a música: “vozes múltiplas, cores, nuances do arco-íris”, diz a letra, cantada em inglês, em tradução livre.

O primeiro single de “Karawara”, “Agô”, lançado no último dia 4 de setembro, teve boa receptividade do público e foi destaque nos principais aplicativos e plataformas de streaming.

Serviço:

O quê: lançamento do single e videoclipe de “In essence”
Onde: plataformas digitais e canal do artista no youtube (Rommel Music)
Quando: sábado, 25 de setembro, às 23h
Quanto: grátis

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Veja o teaser e faça a pré-save do videoclipe:

Live celebra 15 anos de “Paisagem feita de tempo”

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Paisagem feita de tempo. Capa. Reprodução

Com a presença de poetas, acadêmicos e jornalistas, evento online celebra os 15 anos do livro de estreia de Joãozinho Ribeiro

Este ano o livro “Paisagem Feita de Tempo”, do poeta maranhense Joãozinho Ribeiro, completa 15 anos de lançamento, realizado em abril de 2006. A primeira edição do livro está completamente esgotada e atualmente o autor está buscando meios de viabilizar uma nova edição.

Objeto de vários estudos acadêmicos, com destaque para os da professora pós-doutora em Teoria Literária Silvana Pantoja (UEMA/UESPI) e do professor doutor Valmir de Souza (USP), a obra poética, com características autobiográficas, é uma verdadeira declaração de afetos pela cidade de São Luís, Patrimônio Cultural da Humanidade, e pelos seus habitantes.

Embora mais conhecido como compositor, Joãozinho Ribeiro tem também uma obra poética consistente, inédita em livro – a citar “Paisagem feita de tempo”, e outras que ainda anseiam por merecidas publicações. Uma curiosidade é que vários trechos da obra viraram música, casos de “Amália”, que homenageia sua mãe, “Rua Grande” (parceria com Zezé Alves), “Anonimato” (musicada por Chico César), em homenagem a seu pai, e o clássico “Milhões de uns”, gravada por Célia Maria.

No próximo dia 24 de setembro, às 19h, será realizada uma live para celebrar a efeméride, com as presenças dos professores Silvana Pantoja e Valmir de Souza; dos premiados poetas Celso Borges (que escreveu a orelha da edição original) e Hamilton Faria (que assinou o prefácio), do jornalista Zema Ribeiro, além do autor Joãozinho Ribeiro.

A transmissão acontecerá pelo canal da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) no youtube.

Divulgação

Serviço

O quê: live Tempo e paisagens: 15 anos de “Paisagem feita de tempo”
Quem: o poeta Joãozinho Ribeiro e convidados
Quando: dia 24 de setembro (sexta-feira), às 19h
Onde: canal da SMDH no youtube
Quanto: grátis

Single “Agô” antecipa “Karawara”, novo disco de Rommel

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Faixa chega às plataformas de streaming 3 de setembro; álbum sai em novembro

O cantor e compositor Rommel. Foto: divulgação

No próximo dia 3 de setembro (sexta-feira), chega a todas as plataformas de streaming a música “Agô”, primeiro single (pré-save aqui) de “Karawara”, álbum que o cantor e compositor Rommel lança em novembro, pela gravadora Biscoito Fino. O videoclipe de “Agô” será lançado no dia seguinte (4 de setembro, sábado) e no dia 5 de setembro será disponibilizado o mini-documentário “Agô – Até o sopro derradeiro”.

Composta por Rommel, em parceria com Enrico Lima e Orlando Macedo, “Agô” é um ijexá, ritmo pelo qual o artista sempre foi apaixonado. A música passeia pela cultura afro-brasileira, em diálogo com a sonoridade dos terreiros das religiões de matriz africana.

“Pedindo a paz de Oxalá/ dizendo agô aos Orixás/ Agô/ Levando flores para ofertar/ e as pegadas vão pro mar/ Amor”, diz um trecho da letra, que também reforça a importância da arte como uma forma de resistência, o que se manifesta em outras faixas de “Karawara”.

O videoclipe de “Agô” foi rodado no Rio de Janeiro, com a presença de Aline Valentim, professora de danças afro-brasileiras, e é dedicado ao centenário de Mercedes Baptista, bailarina e coreógrafa brasileira, pioneira no combate ao racismo.

“Karawara” tem canções em português, inglês e francês e conta com a participação de músicos do Brasil e do Canadá, onde o maranhense Rommel mora atualmente.

Em “Agô”, Rommel (voz e violão) é acompanhado por Carlos Bala (bateria), André Galamba (baixo e guitarra), Vovô Saramanda (percussão), David Ryshpan (teclado), Parrô Mello (saxofone), Márcio Oliveira (trompete), Debson Silva (trombone), Jordan Zalis e Pryia Shah (backing vocals).

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Leia a letra:

“Agô” (Rommel Ribeiro/ Enrico Lima/ Orlando Macedo)

Ijexá repica e retumba no fim da tarde
Um sonho que passa e o tempo corre ligeiro
Levada que arde ao sol da eternidade
Subindo a ladeira até o sopro derradeiro

Ijexá repica e retumba no fim da tarde
Um sonho que passa e o tempo corre ligeiro
Levada que arde ao sol da eterna Arte
Subindo a ladeira até o sopro derradeiro

Pedindo a paz de Oxalá
Dizendo agô aos Orixás
Agô
Levando flores para ofertar
E as pegadas vão pro mar
Amor

Didê, agô, didê
Didê, agô, didê
Agô
Didê, agô, didê
Didê, agô, didê
Agô

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Assista ao teaser:

SERVIÇO

O quê: lançamento do single e videoclipe “Agô” e mini-documentário “Agô – Até o sopro derradeiro”
Quem: o cantor e compositor Rommel
Quando: dias 3 (single), 4 (videoclipe) e 5 de setembro (mini-documentário)
Onde: nas plataformas digitais
Quanto: grátis

Quando o carteiro chegou e meu nome gritou com uma carta na mão

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Uma das figuras mais marcantes de minha infância certamente é Araújo, carteiro na cidade de Rosário/MA, onde morei até os sete anos. Percorria a cidade inteira numa bicicleta cargueiro, a sacola de correspondências no bagageiro da frente, de onde ele habilmente as tirava e entregava aos destinatários, após gritar “Correios!”, a anunciar-se de porta em porta.

Conhecia pelo nome e era conhecido idem pela cidade inteira. Uma tia, que fazia pedidos nos antigos catálogos Hermes, costumava servir-lhe água, para aplacar o calor e o suor que sempre empapavam seu fardamento azul e amarelo, numa época em que as cores da bandeira eram motivo de orgulho, e não da vergonha de terem sido usurpados pelo neofascismo tupiniquim.

Ao lado de professores, carteiros estão entre os profissionais por quem mais nutro respeito. Ou admiração. Ninguém é nada sem os primeiros, com raríssimas e honrosas exceções; os segundos sempre foram motivo de alegria, quando batem palmas, tocam a campainha ou, como um outro dia, telefonam, para não serem obrigados a devolver uma encomenda, dada a dificuldade em entregá-la, visto que moro em prédio sem porteiro.

Não raros são os carteiros que já viram meus olhos brilhando quando da chegada de alguma aguardada encomenda, em geral livros ou discos.

O anúncio da vitória da privatização da estatal na Câmara dos Deputados, ontem (5), por 286 a 173 (placar nada apertado), entristeceu-me profundamente. Trata-se de uma empresa pública, eficiente e lucrativa. Os que caíram na balela de que cobrar bagagem baratearia passagens aéreas ou que a reforma trabalhista ajudaria a gerar empregos, agora caem na esparrela de que a privatização (ou desestatização, no dizer de eufemistas em conversas para boi dormir) vai “modernizar” os Correios.

Ora, é justamente o fato de ser uma empresa pública – com toda a responsabilidade social efetiva (em vez de mera jogada de marketing) que isso implica – que permite aos Correios atender todos os mais de cinco mil municípios brasileiros, com tarifas justas. Que permite, por exemplo, a um sebista, enviar um livro cobrando um frete de menos de 10 reais, num prazo razoável (há opções mais caras para quem desejar agilizar o recebimento de suas encomendas).

É lógico que não esqueci a imagem que circulou e, por ocasião da triste notícia de ontem, tornou a aparecer nas redes sociais: funcionários da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) fardados queimando a bandeira do Partidos dos Trabalhadores (PT), defendendo o voto em Jair Bolsonaro, nas eleições de 2018. Não foi falta de aviso, mas não gosto de pensar em vingança, embora espere que tenham aprendido a lição – obviamente, também, é impossível generalizar ou atribuir responsabilidades a toda uma categoria pela irresponsabilidade (ou crueldade ou masoquismo) de alguns.

O que é impossível é compreender o patriotismo entreguista de um governo com pulsão de morte, que revelou o pior do brasileiro: como conceber um negro racista (há um na presidência da Fundação Palmares), uma mulher misógina (outra é titular do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos) ou um homossexual homofóbico?

“Faça chuva ou faça sol, o carteiro sempre cumpre o seu dever”, ouvíamos dizer um deles em um desenho animado. A privatização não mais permitirá: se o carteiro, este artista merecedor do Nobel, do Grammy ou do Oscar na arte de ir aonde o povo está, chegava aonde Judas perdeu as botas, gastando as suas, os funcionários concursados de uma empresa pública passarão, como empregados do setor privado, a ir tão somente aonde o lucro (da empresa, não dos carteiros) permitir-lhes.

Pessimismo? De jeito nenhum! Não conhecer o mínimo de História é estar fadado a repetir erros do passado, vide o espetáculo grotesco em que se transformou a política no Brasil, em que um presidente da República chama o presidente de um tribunal superior de “filho da puta” (aqui sem os pudicos asteriscos ou reticências da grande mídia). Não regozijo-me, no entanto, usando de escudo o “não foi falta de aviso” ou o “eu avisei”. O buraco é mais embaixo e nele acabamos todos, afinal. “Não há abismo em que o Brasil caiba”, como afirma o título do mais recente disco do mestre Jorge Mautner.

O placar de ontem não é o resultado final deste jogo bufão. Mas, realista, pouco espero do congresso nacional, que se apequena a cada dia, ao permitir ao despresidente continuar seu script de perversidades e falta de respeito com qualquer um/a.

Cachorros são mais dignos e coerentes: tidos como inimigos número um dos carteiros, os cães em geral são mais fiéis a seus donos que o centrão, cujo fisiologismo permite fidelidade a quem pagar melhor. O que infelizmente ajuda a explicar muita coisa neste país.

O professor me ensinou fazer uma carta de amor, mas muito em breve, a depender do endereço, ela poderá não mais ser entregue.

Subversão, um balanço

No mês que hoje finda fui escalado pela direção da Rádio Timbira AM para substituir o jornalista e historiador Marcus Saldanha no semanal História em debate, apresentado por ele aos sábados, às 10h.

Acompanho com entusiasmo a trajetória do colega na emissora desde pelo menos o Timbira Debate, que ele conduzia diariamente pelas manhãs, noutra época – certa vez cheguei a ser o entrevistado do programa, então na condição de presidente da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), já se vão alguns anos.

Disse e repeti, à direção da emissora, ao próprio Marcus Saldanha, e várias no ar, durante o desenrolar de meu papel, ao longo dos últimos cinco sábados: “difícil e honrosa missão” a de substituí-lo. Sou jornalista como ele, mas não sou historiador; e isto, para o História em debate, faz toda diferença.

Quem não tem cão caça como gato, diz o dito popular. Era preciso subverter, não a história, como querem alguns, não a verdade, como querem os mesmos. Desafio posto, eu precisava encarar (acabei, por tabela, assumindo também a vaga da Rádio Timbira AM na bancada do Giro Nordeste, às quintas-feiras). O jeito foi nadar em minha praia.

Tentei trazer, para o História em debate, ao longo do mês, a experiência acumulada em cinco anos de Balaio Cultural, com Gisa Franco, e o aproximadamente ano e meio que fizemos, eu e Suzana Santos, o Radioletra, um extinto programete semanal de 15 minutos em que basicamente entrevistávamos escritores/as.

O programa poderia ter passado a se chamar, ao menos temporariamente, Literatura em debate: conversei com seis escritores nos cinco programas, li mais de 800 páginas (dos livros mais recentes dos autores) para produzi-los, e costurei, a partir de suas obras, uma conversa que tentava perpassar a história do Brasil (e do mundo), entre temas como a ditadura militar brasileira, o governo neofascista de extrema-direita (não sei sinceramente se isto é uma redundância) de Jair Bolsonaro e sua política continuada de destruição e lesa-humanidade, o holocausto da Alemanha nazista, a pandemia de covid-19, assunto inevitável etc.

Passaram pelo História em debate, nos últimos cinco sábados, o escritor mato-grossense Joca Reiners Terron, que lançara recentemente a distopia “O riso dos ratos” (Todavia, 2021); o jornalista e escritor cearense Xico Sá, um dos textos mais elegantes do jornalismo brasileiro, o homem que encontrou no exterior PC Farias, o foragido tesoureiro do ex-presidente Fernando Collor; Gustavo Pacheco e André Nigri, que organizaram o belo volume “O conto não existe” (Cepe, 2021), reunindo entrevistas e ensaios de Sérgio Sant’Anna (1941-2020); a jornalista e escritora portuguesa Isabel Lucas, que lança semana que vem (3 de agosto) “Viagem ao país do futuro” (Cepe, 2021), um exercício ousado de tentar entender o Brasil através de sua literatura; ela passa uma temporada no Brasil, percorrendo paisagens e vidas de personagens dos lugares em que se passam livros de Euclides da Cunha, Machado de Assis, Miró da Muribeca e Dalton Trevisan, entre outros; e hoje (31), fechando, com chave de ouro, a paulista Noemi Jaffe, filha de imigrantes sobreviventes dos campos de concentração da Alemanha nazista, cujo livro mais recente, “Lili – novela de um luto” (Companhia das Letras, 2021), é uma declaração de amor à sua mãe, falecida ano passado.

Foram conversas inspiradoras e de muito aprendizado. A quem acompanhou ou deseja rever/reouvir as conversas, deixo a seguir os vídeos, agradecendo a confiança dos que me delegaram a missão e o carinho da audiência. A trabalheira intensa vale muito a pena por vocês. Com o fim do mês acabam as férias de Marcus Saldanha e, com o titular absoluto de volta ao gramado, o reserva recolhe-se ao banco, de onde seguirá espectador atento e colaborador eventual.

Uma masterclass de responsa

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Cansado de telas, com a vida se resumindo a lives e que tais, acabo esquecendo de ver shows, debates, peças, filmes, olimpíadas, seja de gente amiga, seja de artistas de minha admiração, quando não as duas coisas juntas.

Tela, tela, tela sobre tela: a prorrogação indefinida do isolamento social decorrente da pandemia de covid-19 acabou, em certa medida, resumindo a vida a aparelhos de televisão, computadores e smartphones. É por ali que você fica sabendo de tudo, do noticiário sobre o novo (velho?) coronavírus, política, olimpíadas etc.

Até mesmo o chope após essas lives (isto quando não as perdemos), para aquela aguardada e merecida resenha com os amigos, tem sido mediado por uma tela: em geral, trocam-se mensagens comentando tal coisa, um amigo de um lado, outro de outro, cada qual bebericando o que mais lhe agrada no conforto de suas residências.

Já já – sei que escrevo em cima da hora –, às 15h, tem o lendário Otávio Rodrigues, vulgo Doctor Reggae, um de meus professores, de rádio, mas não só, no que eu chamaria de “aula-espetáculo”, sem nenhum receio de exagerar. A masterclass de Doc acontece na twitch @centroculturalolido, com acesso gratuito.

Para quem não conhece, Otávio Rodrigues é um dos pioneiros na divulgação e consolidação da música jamaicana no Brasil. Criou e apresentou programas como “Disco reggae” e “Bumba beat”, além do pioneiro “Roots rock reggae”, em 1982, o primeiro no dial brasileiro dedicado ao gênero from Jamaica, que foi ao ar pela Excelsior FM, de São Paulo, com direção de Maurício Kubrusly.

Foi Otávio Rodrigues quem grafou pela primeira vez na imprensa do Brasil a expressão “Jamaica brasileira”, com que São Luís viria a se tornar conhecida; em 1988 ele veio pela primeira vez ao Maranhão, onde acabaria morando uma época, escrever uma reportagem sobre o reggae por estas bandas para a revista Trip.

Na live de daqui a pouco, Doc vai rolar o fino, com alguns sons que ajudaram a escrever a história de quase cinco décadas de reggae no Brasil.

Que a pandemia seja superada e logo possamos voltar a frequentar os clubes de reggae como estávamos acostumados – até por que, aqui no Maranhão, se dança reggae agarradinho, algo que as regras de segurança sanitária ainda não permitem.

Jah bless!

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p.s.: em tempo: por falar em reggae (e cultura negra), hoje, às 19h, no Giro Nordeste, estarei na bancada, representando a Rádio Timbira AM, integro a bancada do programa, que entrevista Lazzo Matumbi, que amanhã disponibiliza, nas plataformas de streaming, seu novo disco, “Àjò” (lê-se “Ajô”), com que celebra seus 40 anos de carreira. A transmissão do Giro Nordeste acontece pela TVE Bahia e um pool de emissoras públicas nordestinas.

Um catálogo de responsa

A exuberante Bárbara Lennie em cena de "Maria (e os outros)". Reprodução
A exuberante Bárbara Lennie em cena de “Maria (e os outros)”. Reprodução

A plataforma de vídeo sob demanda Belas Artes à La Carte existe desde antes da pandemia de covid-19 e o isolamento social decorrente desta acabou por modificar e aprofundar as relações entre cinéfilos e uma das salas de cinema de rua mais charmosas e queridas do Brasil, o Cine Petra Belas Artes.

Dispondo atualmente de um catálogo com mais de 400 títulos nos mais variados gêneros, entre lançamentos e clássicos, a plataforma acaba funcionando também como uma espécie de curadoria para além de algoritmos.

São os casos das mostras “Volta ao Mundo: Espanha” e “Cine Clube Italiano”, em cartaz desde ontem (3) e hoje, respectivamente.

A primeira tem uma seleção de filmes da terra de Carlos Saura, cineasta homenageado em “Saura(s)” [Espanha, 2017, documentário, 86 minutos], de Felix Viscarret, constante do catálogo.

Em “Volta ao Mundo: Espanha” destaca-se também o ótimo “Maria (e os outros)” [Espanha, 2016, drama, 90 minutos], de Nely Reguera, que acompanha a trajetória da personagem-título (interpretada por Bárbara Lennie), entre cuidar do pai em tratamento de um câncer, o golpe do anúncio do novo casamento dele, conflitos com os demais irmãos, a ilusão do sexo sem amor, o trabalho em uma pequena editora e a escrita de um romance.

“Maria (e os outros)” é inédito em salas de cinema brasileiras e foi indicado ao Goya, mais importante prêmio do cinema espanhol, nas categorias melhor direção e melhor atriz (para a protagonista). É a estreia de Nely Reguera como diretora de longa-metragem; ela foi assistente de direção de “Perfume: a história de um assassino”, de Tom Tykwer, baseado no livro de Patrick Süskind. Lennie protagonizou também “Uma espécie de família” (2017), de Diego Lerman.

A edição deste mês do Cine Clube Italiano, parceria do Belas Artes à La Carte com o Instituto Italiano de Cultura de São Paulo, apresenta “De volta para casa” [Itália, 2019, drama, 107 minutos], que poderá ser assistido até o dia 10 de junho por assinantes e não assinantes do serviço de streaming.

O filme de Cristina Comencini aborda, de maneira interessante, as relações de Alice (Giovanna Mezzogiorno e Beatrice Grannò na adolescência da personagem) com seu próprio passado, ao retornar, por conta do funeral de seu pai, à casa onde passou a infância e a adolescência.

A trama costura a insurgência de Alice contra a opressão do pai militar e sua rigidez excessiva na criação das filhas, embora a opressão (e, por que não dizer, violência) não estivesse apenas dentro de casa. Em seu retorno, ela reencontra o sombrio Marc (Vincenzo Amato), que obsessivamente acaba por embaralhar o jogo da memória, com lacunas, dúvidas e tensão.

Na próxima quarta-feira (9), às 18h30, haverá um bate-papo ao vivo sobre o filme, com o crítico de cinema Miguel Barbieri Jr. e o gerente de inteligência do Belas Artes Grupo Léo Mendes.

De volta ao microfone da Timbira

Operador de áudio da emissora desde 2011, ele produzirá e apresentará “Tambores do Maranhão”, que vai ao ar aos sábados, às 21h

Luiz Barreto volta à programação da Rádio Timbira. Foto: Leno Edroaldo. Divulgação

Neste sábado (5), às 21h, a Rádio Timbira AM (1290KHz) estreia, em sua grade, mais um programa voltado à cultura. Trata-se de “Tambores do Maranhão”, que marca o retorno do operador de áudio Luiz Barreto ao microfone da emissora da Rua da Montanha Russa.

O programa se soma aos esforços de valorização da cultura pela emissora, que já tem em sua grade “Coisa Nossa” (de segunda a sexta, às 17h, com José Raimundo Rodrigues), “Balaio Cultural” (aos sábados, das 13h às 15h, com Gisa Franco e este repórter), “Baião de dois” (domingos, ao meio-dia) e “Forró para todos” (domingos, das 13h às 15h), estes dois últimos em cadeia com a Educadora FM baiana e outras emissoras públicas nordestinas, repetindo molde e êxito do Giro Nordeste, com foco na música popular produzida na região.

Luiz Barreto começou a trabalhar na emissora em 2011, como estagiário da Faculdade Estácio São Luís, onde estudou jornalismo. Firmou-se na função e desde 2012 ele apresentou o “Timbira Amanhece”, depois “Viva nossa gente” e finalmente “Maranhão especial”, até meados de 2015. Vem daí o apelido-bordão “o seu camarada”, que o acompanha até hoje.

No programa de estreia, Barreto entrevistará o violonista e cantor Roberto Ricci, que aproveita a ocasião para lançar seu novo disco, “Mágica visão”. O programa terá ainda um quadro, intitulado Poesia à beira-mar, dedicado a poetas consagrados e revelações e deve ir além de manifestações como o bumba meu boi e o tambor de crioula, abrindo espaço para nomes da nova geração, dos mais variados estilos.

Também cantor e compositor, com experiência em grupos de bumba meu boi e blocos tradicionais, Luiz Barreto conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

ZEMA RIBEIRO – O que significa para você, operador de áudio da Rádio Timbira, voltar a apresentar um programa voltado à cultura popular do Maranhão?
LUIZ BARRETO – É motivo de grande satisfação e alegria, já que tenho 20 anos dedicados à cultura popular como cantor e compositor, ou seja, me identifico bastante com nossas manifestações, além do que, o tempo em que apresentei o “Viva nossa gente”, que depois passou a se chamar “Maranhão especial”, foi um momento importante, quando novamente pude contribuir com a cultura de nosso estado, desta vez na comunicação social. Vejo essa nova oportunidade como um reencontro com os apreciadores e fazedores de cultura popular no Maranhão.

ZR – “Tambores do Maranhão” é um ótimo nome. Como você chegou a ele? Alguma influência d'”Os tambores de São Luís”, clássico de Josué Montello?
LB – Sim. Teremos um quadro de poesia no programa, apresentando poetas maranhenses já consagrados e abrindo espaço para novos poetas mostrarem seu trabalho. Sem falar que nossa cultura tem enorme influencia dos tambores indígenas e dos negros escravizados, portanto, “Tambores do Maranhão” me pareceu um nome bastante sugestivo.

ZR – Roberto Ricci é o entrevistado do programa de estreia, uma estreia com o pé direito. Qual a importância deste inspirado violonista para a cultura popular do Maranhão?
LB – Ricci é um ícone da nossa música e da cultura popular maranhense. Um cara que já cantou nos principais grupos de bumba meu boi, nos sotaques de orquestra e matraca, como Axixá e Maracanã. Vários blocos tradicionais já venceram carnavais com sambas compostos por ele. Enfim, fico muito feliz de poder entrevistá-lo no primeiro programa, oportunidade em que será lançado seu novo cd, intitulado “Mágica visão”.

ZR – O que mais o teleouvinte da Timbira pode esperar de “Tambores do Maranhão”?
LB – Muita música, entrevista, poesia, dicas, sempre com muito alto astral. Teremos um quadro que já pensei, estamos elaborando para ir ao ar, mas não posso dar detalhes ainda. É surpresa, mas prometo que será muito bacana.

ZR – “Tambores do Maranhão” tem como foco a cultura popular do Maranhão, mesma pauta do “Coisa Nossa”, de José Raimundo Rodrigues. Qual será o diferencial, além do dia e do fato de ser semanal e da duração?
LB – Zé Raimundo é um ícone da comunicação. Eu cresci vendo essa grande mestre se destacar em tudo que fez, ele é referência para muita gente, e não teria como não ser pra mim também. Aliás, sinto orgulho enorme em hoje em dia, tê-lo como colega de profissão, e estar ao lado dele de segunda a sexta no “Coisa Nossa” da Timbira, onde sempre tento colaborar com o repertório ou uma ideia. Para o “Tambores do Maranhão” estamos preparando um programa bem dinâmico, sempre com um entrevistado para falarmos de cultura popular e buscando, a cada sábado, novidades para atrair os ouvintes.

ZR – “Tambores do Maranhão” se alia a programas culturais consolidados, como o “Coisa Nossa”, apresentado por José Raimundo Rodrigues, o “Balaio Cultural”, que eu faço com Gisa Franco (e é invariavelmente operado por você), e os programas “Baião de dois” e “Forró para todos”, que a emissora realiza em cadeia com a Educadora FM baiana e outras emissoras públicas nordestinas. O Nordeste acabou se tornando um foco de resistência cultural diante do desmonte sistemático de políticas públicas para o setor pelo governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, a começar pela extinção do Ministério da Cultura. O que você tem a declarar sobre o assunto?
LB – É, de fato, lamentável a forma como nossa cultura tem sido tratada, mas como você mesmo disse na pergunta, o nordestino é resistente, e eu garanto que resistiremos, e permaneceremos, enquanto eles passarão.

Era uma vez em streaming

Robert De Niro é Noodles em “Era uma vez na América”; clássico de Sergio Leone está disponível em streaming no Belas Artes à La Carte. Reprodução

Obra-prima de Sergio Leone (1929-1989), o épico “Era uma vez na América” (“Once upon a time in America”, EUA/Itália, 1984, 229 minutos) é uma espécie de romance de formação de uma gangue, acompanhando a formação e firmação de um grupo de moleques desde pequenos golpes na vizinhança até roubos monumentais, com doses de ação, tensão e violência que agradam seus apreciadores em telas de qualquer tamanho.

O filme é ambientado em Nova York, na quadra histórica localizada entre a lei seca americana e seu fim, mas mais que acompanhar planos e suas execuções, entre saques, perigos e prazeres, aborda relações de afeto, amizade e amor.

Último filme de Sergio Leone, que faleceria cinco anos depois de seu lançamento e, 12 anos antes, havia recusado a proposta de dirigir “O poderoso chefão” (Francis Ford Coppola, 1972), do que viria a se arrepender, se vale do uso de flashbacks com habilidade, recurso que já tinha sido utilizado com maestria no segundo filme daquela franquia. O tema também evoca aquela recusa: é um filme de gangsters, em que um deles, judeu, volta ao local onde se iniciou na criminalidade para lidar com seu passado, entre fantasmas, dúvidas e arrependimentos.

Presença constante em listas de melhores filmes de todos os tempos, “Era uma vez na América” tem cenas memoráveis, daquelas que conseguem sobreviver para além dos filmes em que estão inseridas, sempre lembradas por cinéfilos, que também não cansam de apontar as atuações exuberantes de Robert De Niro (David Aaronson, o Noodles) e James Woods (Maximilian Bercovicz, o Max) e a trilha sonora de Ennio Morricone.

Para além da brutalidade do contexto narrado no filme, há generosas doses de delicadeza, mesmo – ou deveria dizer justamente? – em meio à violência. Um clássico absoluto que merece ser visto por neófitos e revisto por apreciadores da sétima arte.

Serviço: “Era uma vez na América” está disponível a partir de hoje (27) no Belas Artes à La Carte, serviço de streaming do Cine Petra Belas Artes. Criado no fim de 2019, já conta com cerca de 400 títulos em catálogo. Também estão disponíveis a partir de hoje na plataforma os seguintes títulos: “Henrique V” (The chronicle history of King Henry the Fifth with his battell fought at Agincourt in France, Reino Unido, 1944, direção: Laurence Olivier), “Humor à italiana” (Risate all´italiana, Itália, 1964, direção: Camillo Mastrocinque e Registi Vari) e “Os frutos da paixão” (Les fruits de la passion, França/Japão, 1981, direção: Shuji Terayama).

Amabile, gentile, adorabile

Meu sol iluminado por outro. Retrato: ZR

Obviamente ela não é São Francisco de Assis, tampouco devota, mas destina especial atenção a plantas, cachorros e passarinhos, que cria soltos, vindo estes pousar e bicar em bebedouros que pendura nas janelas do apartamento – conversa com todos eles.

A que, com apreço especial pelo rock’n’roll desde a infância e juventude, em parte passadas na Itália, tem se descoberto igualmente apreciadora de música popular brasileira, com predileção pelo “Clube da esquina”, o disco que Milton Nascimento e Lô Borges lançaram juntos em 1972 – e especialmente pela canção “Um girassol da cor de seu cabelo” (Lô Borges/ Márcio Borges), disparada sua preferida no universo comumente envolvido pelo rótulo MPB –, e por Vanguart, discos que invariavelmente cata em meio à minha (hoje nossa) modesta coleção e bota para tocar por iniciativa própria.

A que, aqui e acolá, se pega cantarolando “quando cheguei, tudo, tudo, tudo estava virado/ apenas viram, me viram” e eu boto todo o “Acabou chorare” (não por acaso lançado no mesmo ano do “Clube da esquina”) para tocar, enquanto lembro que foi isso mesmo: “quando vi você me apaixonei”.

A que às vezes devora livros e HQs que me chegam antes mesmo de eu conseguir folheá-los. A perfeccionista que nunca consegue fazer uma única foto ou sempre acha que um vídeo pode ficar melhor – eu, geralmente sem paciência, quero sempre enviar o primeiro, por força de algum compromisso profissional.

Ano passado, no dia de seu aniversário, estávamos confinados, naquele que até então achávamos que seria o momento mais difícil da pandemia. Escritórios armados em casa, entre trabalho, testes de receitas e muitas fotos das experiências em grupos de família, “loucura, chiclete e som”.

Um ano depois, cá estamos nós, quase na mesma, talvez um pouco mais experientes, sem dúvidas mais conscientes das escolhas que fizemos e fazemos cotidianamente: das séries que maratonamos no streaming a questões menos prosaicas, o equilibrar-se no slackline das finanças.

Mas “o novo sempre vem” e eu espero que o “compositor de destinos” nos permita todos os aniversários juntos e a possibilidade de comemorações menos restritas.

Feliz vida, minha doce Guta!

Tribo futurista, a tribo de um presente urgente

Rita Benneditto e Beto Ehong em colagem sobre fotos de Márcio Vasconcelos e Emílio Sagaz. Divulgação

A “Tribo futurista” em que Beto Ehong e Rita Benneditto se encontram é, na verdade, uma tribo do presente, ou, antes disso, uma tribo da urgência. Mais que a soma de dois enormes talentos, o encontro de dois artistas compromissados com a arte para além de mero entretenimento. Que não se eximem de suas responsabilidades de artistas enquanto formadores de opinião e tocam os dedos nas feridas. A sonoridade de mina eletrônica dando voz a minorias e rebelando-se contra discursos de ódio que se tornaram corriqueiros em nossos tristes tempos precisa reverberar entre as paredes das cidades atravessando as cabeças ocas de quem insiste em negar o óbvio. Som para dançar com a cabeça e pensar com o corpo inteiro. Tambores que batem dentro do peito e eriçam cada pelo: arrepio de quem não perdeu a capacidade de se emocionar diante do belo – apesar de toda tragédia que nos cerca. Coisas de que somente são capazes aqueles que realmente manjam dos paranauês.

*

Escrevi o textinho acima a pedido do cantor, compositor e produtor Beto Ehong. O single “Tribo futurista” pode ser ouvido nas plataformas de streaming.

O videoclipe será lançado no próximo dia 22 de abril e você poderá assistir abaixo, na data:

O testamento de Judas 2021

por Cesar Teixeira, jornalista e compositor

Foto: Luiz Barreto

Outra vez sou enforcado
num tribunal ignaro,
mas meu crime prescreveu,
diz um pergaminho raro.
Quem exterminou Jesus
e botou culpa no SUS
foi Messias Bolsonaro.

Quando chegar no Inferno
ele não terá guarida,
pois o Diabo não aceita
gente de língua comprida
com barriga de jumenta,
cabelo de cu na venta
e fama de genocida.

Deixo ao Profeta do Caos
bula do Billy the Kid,
pois, quando bota ministro
na Saúde, há quem duvide:
– Será Marcelo Queiroga
um novo tipo de droga
que vem no Kit-Covid?

O tratamento precoce
é fim que não principia,
mais parece uma garrafa
de aguardente vazia.
Só traz insuficiência
renal e resiliência
da alma em hemorragia.

Deixo pro Ricardo Salles,
que a natureza atazana,
os restos mortais do gado
que acreditou no sacana.
Jogou no abismo a boiada,
que passa, desgovernada,
achando que a Terra é plana.

Para a ministra Damares,
que só trepa em goiabais,
vou deixar o Kama-Sutra
dos traumas celestiais.
Pra massagear o ego
de um pobre Judas cego,
deixo os órgãos genitais.

Deixo na Universidade
o cordel do ABC.
Hoje em dia estudante
só consegue o que dizer
na voz dos mestres Foucault,
Walter Benjamin, Nivô,
Apolônio e Bordieu.

Antes que o Testamento
se torne monografia,
uma camisa-de-força
deixarei para o Messias,
pois agora o rei está nu
entubado pelo cu,
de onde caga ideologia.

Vou deixar uma vacina
de cereais e verduras
pro nosso Mao-Tsé-Tung
não desabar das alturas
ao subir no Sputnik,
depois de um piquenique
com muito doce e gordura.

Para não cair partido
em Rocha capitalista
deixo a foice e o martelo
de cravar nazifascista
e, sem disparar um tiro,
enterrar mais um Vampiro
da corte terraplanista.

Pro ex-ministro Sérgio Moro
da Lawfare se salvar
eu vou deixar o triplex
com sua “conge” em Guarujá.
Pato já virou boneco,
agora é a vez do marreco
cantando Edith Piá.

Deixo para o Presidente,
doutor em Necrofilia,
o cadáver da Amazônia
cujos pulmões esvazia.
E o verde, se despindo,
de luto vai se vestindo,
numa triste asfixia.

Pagar na mesma moeda
em Aurizona eu pretendo,
pois lá a Equinox Gold
o terror vem promovendo.
Leva o ouro pra Gaudéria,
deixa a lama da miséria
em cada cova escorrendo.

É preciso demarcar
nossa herança por inteiro,
interditar o garimpo
e algemar fazendeiro.
A Funai não auxilia,
é pior que epidemia
para o índio brasileiro.

Deixo a Flávio Bolsonaro
a mala de um mascate
para esconder a grana,
sem que Queiroz o delate
por crime de peculato,
lavando dinheiro a jato
em pia de chocolate.

Na Assembleia deixarei
emenda legislativa
que impede o deputado,
em corrupção ativa,
pular cerca da vizinha
pra comer a rachadinha
da amiga Patativa.

Pois cabaço, meus amigos,
hoje é sigilo fiscal
que no Brasil ninguém quebra
se for presidencial,
por isso a mulher do Arruda
vai proteger a Papuda
do governo federal.

Deixo pras Forças Armadas
a batina dos vigários.
Não há generais rebeldes,
pois, muito pelo contrário,
a velada demissão
é a farsa do escorpião
no cangote de otário.

Assumiram Três Patetas,
no cinema um sucesso.
Para o filme “Bolsotralha
e os Três Porquinhos Perversos”
deixo esquadras de papel,
caminhões de carretel
e uma FAB de processos.

Para Kátia Abreu entrego
um cabresto em Testamento
pra botar o ex-chanceler
Ernesto pastando ao vento.
Nos restaurantes da China
carne que tem vitamina
é a carne de jumento.

Bolsonaro é repetente
desde seu Grupo Escolar,
e foi gazeando aula
que se tornou militar.
No quartel só lhe convinha
brincar de explodir bombinha,
e acabou por se queimar.

Na defesa, Braga Netto,
Paulo Guedes, o zagueiro;
no ataque, Bolsonaro,
Augusto Heleno, goleiro.
Com esse time oficial,
que só tem perna-de-pau,
o Brasil tá no atoleiro.

Ele não toma vacina
nem bota anel de tucum.
Na mão de Chico Gonçalves
não terá Direito algum.
Bozo tem medo é de agulha,
da seringa que borbulha
apontando o seu bumbum.

Deixo pro Fernando Cury
um sutiã de mamão
para ficar apalpando
seis meses de suspensão.
Essa pena é pequena,
em respeito a Isa Penna
caberia a cassação.

Para a amiga Rosa Reis
entrego meu borderô,
mantendo o Cacuriá
na UTI do Labô.
Messias pode surtar,
mas temos que vacinar
nosso Jacaré Poiô.

Vou deixar no Laborarte
minha máscara de linho.
No Inferno não tem vírus,
mas o Cão não tá sozinho.
Lá já se espalhou o mito
da língua do Nélson Brito,
herdada pelo Nelsinho.

Deixo para Joãozinho
enfrentar o lockdown
um litro de catuaba
pra de mim não falar mal.
Também deixo um ingresso
pra ele fazer sucesso
dançando no Xirizal.

No Planalto já deixei
a ceia do Capitão:
patê de ivermectina,
azitromicina, pão,
cloroquina e Leite Moça.
Já lavaram até a louça,
que não tem licitação.

Deixo orelhas de burro
nessa ave de rapina,
que negou o Butantan
por causa de uma vacina.
Fez do Brasil um velório
pra vender supositório
de hidroxicloroquina.

Insumos quero deixar
pra ajudar a Fiocruz,
oxigênio em Manaus,
farinha d’água e cuscuz.
Mas, para o mito bandido
deixo um pequi roído
no cocho dos urubus.

O curral não quer tomar
a vacina comunista.
Vitor Hugo e Zambelli
fazem parte dessa lista.
Por isso, deixo a mimosa
vacina de aftosa
pro gado bolsonarista.

A imprensa, que viveu
no AI-5 amordaçada,
por um louco outra vez
está sendo censurada.
Vou botar uma chupeta
com remédio tarja preta
nesse Boca de Privada.

Vou deixar na CCJ
da Câmara Federal
um despacho pra afastar
o atraso, a dor e o mal.
Incentivando motim,
Bia Kicis é pra mim
um verme no lamaçal.

Se há um ministro escroto
é o da Tecnologia,
viu que a Terra é redonda
sem informar a Chefia.
Deixo um foguete da Nasa
pra bem longe desta casa
despachar Jair Messias.

Nas paredes de Alcântara
já colei o personagem,
com o chapéu do Tio Sam
Bolsonaro fez chantagem.
A distribuição de título
foi mais um falso capítulo,
a mais pura maquiagem.

Deixarei a própria corda
que hoje me decide a sorte
de herança aos editores
que publicam minha morte.
Ganhando dinheiro fácil,
me esculhambam no prefácio
sem me dar vale-transporte.

Auxílio Emergencial
deixo até o fim do ano
para os artistas da Feira
que estão se esforçando,
fazendo até hora extra
entre a segunda e a sexta
no bar do Corinthiano.

Em ano de lockdown
e quarentena de Judas
todos querem fazer live,
virou um “deus nos acuda”.
Mire o seu QR Code,
ou então me compre um bode,
no final tudo é ajuda.

Pra acabar com a pandemia
temos que participar
das batalhas contra o golpe
que espalha cepas no ar.
Contra a fome e a impunidade,
o manjar da liberdade
é o Impeachment, Já!

FIM?

Croniqueta em tempos de pandemia

De den’do hospital ela me fotografa à sua espera. Foto: Guta Amabile

Um segurança do hospital impediu minha entrada, em nome das restrições impostas pela prolongada pandemia. Fiquei do lado de fora, em pé, envergando o tijolo “Menino sem passado”, do Silvano Santiago. Havia cadeiras vazias, que o distanciamento social e as marcações recomendavam não usar. Encostei-me no corrimão da rampa por onde sobem veículos e pedestres e lia, enquanto táxis, ubers, carros de passeio e ambulâncias deixavam e levavam passageiros e pacientes.

Um homem cuja idade era difícil precisar, trajando máscara, camisa do Flamengo e luvas, entregou-me um papel. Desavisado, peguei, mesmo contra a recomendação dos protocolos de segurança sanitária. Interrompi a leitura para ler: era um apelo para ajudá-lo a construir sua casa, ele, mudo de nascença, como dizia no pequeno pedaço de papel, como aqueles que inspiraram Valêncio Xavier em “Rremembranças da menina de rua morta nua e outros livros”. Indicava os valores de um, dois ou três reais para a contribuição. Enquanto ele distribuía e recolhia dos outros acompanhantes, devolvi-o quando de sua passagem, sem colaborar. Eu realmente estava sem trocado nem lenço, nos bolsos só havia documentos.

Uma senhora encostou a meu lado, aproveitando uma pausa na leitura para checar o celular. Por ele me comunicava com ela, lá dentro fazendo os exames. “Seu celular faz ligação para qualquer operadora?”. “Sim”, respondi imediatamente, me arrependendo tão ou mais rápido e pensando: “ela vai pedir o celular para ligar para alguém e eu vou ter que pegar de volta, sem álcool em gel. E se ela estiver com covid?”, perguntei-me, paranoico – ou não. Bingo! “O senhor pode fazer uma ligação para minha filha? É para ela pedir um uber pra mim, eu saí de casa e esqueci o celular”. Já ia entregar-lhe o aparelho quando ela mesmo sugeriu: “o senhor mesmo liga” e me deu o número e o nome da filha. Liguei um par de vezes e em ambas a ligação caiu na caixa postal. “A senhora vai pagar o uber em dinheiro?”. “Sim”. “Posso pedir um para a senhora”, ofereci-me, no que ela concordou, me passando o endereço. Aguardamos o carro, de que lhe indiquei modelo, cor e placa, apontando-lhe quando ele chegou. Ela agradeceu e me estendeu um papel, com 50 centavos. “Se o moço aparecer o senhor entrega para ele”, pediu e me agradeceu mais uma vez. Fiquei vendo-a pegar o uber de volta para casa com o marido adoentado e esperei mais um pouco por ela, que terminava de coletar sangue para os exames.

O homem não voltou e não o alcancei, mesmo lançando meu olhar a 360 graus, procurando-o. Quando ela saiu, descemos a rampa até onde o carro estava estacionado. Coloquei o papel amarrotado no bolso de trás da calça idem e paguei o flanelinha com os 50 centavos. “Obrigado e vá com Deus!”, ainda consegui ouvir antes de subir o vidro da janela e ela ligar o rádio.

Pena capital ao genocida

Em memória dos mais de 255 mil brasileiros vítimas da covid-19 e da irresponsabilidade do presidente genocida de extrema-direita Jair Bolsonaro

“O que é roubar um banco comparado a fundar um banco?”
Bertolt Brecht

“Se números frios não tocam a gente/ espero que nomes consigam tocar”
Bráulio Bessa/ Chico César

Uma estaca cravada no prepúcio
ainda é pouco pra este genocida.
Se a facada não lhe tirou a vida
é preciso tirar-lhe já o poder.
Quantos ainda precisarão morrer
no Brasil, hoje sinônimo de desgraça?
Bolsonaro, vá embora e leve a sua raça!
Meu povo não aguenta mais sofrer.

Uma corda em volta de seu pescoço,
um patíbulo, um grito desumano:
será que ao morrer faria o gesto insano
da arminha e elogio a torturador?
Quero que Bolsonaro saiba o que é dor
pra que enfim, acabe de vez a nossa.
Que o Brasil volte a ser o país da bossa,
do samba, do carnaval e não mais do horror.

Um tiro no meio de sua testa
distanciando seus olhos de facínora
sem empatia, cujo significado ele ignora.
Haverá quem chore por este desgraçado?
Milhares de corações dilacerados
pelas mortes de pais, mães, filhos e avós.
Precisamos, e logo, desatar os nós
da cilada em que nos meteu seu gado.

Cínicos, uns dizem “eu não sabia”.
Não foi falta de aviso, digo e repito.
Todos sabíamos no que daria falso mito
em lugar que deve ser ocupado por gente,
não por falso herói nada eloquente.
Faltará borracha pra apagar tamanho erro
e aqui e acolá ainda se ouve o berro
do gado que aplaude quem fode a gente.

Impeachment é nada e cadeia é pouco:
Bolsonaro merece passagem só de ida
para sofrer por toda eterna vida
em companhia de ídolos como Hitler e Ustra.
Nem no inferno o diabo quer esses filhos da puta
que tanto mal fizeram à humanidade.
Nem na lata de lixo da história lhes cabe.
Contra suas fake news, eis a verdade absoluta.