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O baú do Baleiro

Arquivo_Duetos 1. Capa. Reprodução

 

Zeca Baleiro lança em todas as plataformas digitais nesta sexta-feira (1º. de setembro) o disco Arquivo_Duetos 1. Ao menos por enquanto o álbum não terá edição física. A compilação reúne 11 gravações que o maranhense divide com nomes nacionais e estrangeiros: em ordem alfabética, Alessandra Maestrini, Bernard Fines, Blubell, Dandara, Edgar Scandurra, Fagner, GOG, Higo Melo, Kana, Nicola Són, Paulo Monarco, Samantha Navarro, Susana Travassos e Wado (veja o repertório do disco e o clipe de Que amor é esse? ao final do post).

“Em 2017 meu primeiro disco completa 20 anos. Eu resolvi remexer nos arquivos que eu tenho e havia um material consistente, que valia a pena botar no mundo. Assim surgiu essa série de lançamentos, eu não sei quantos álbuns serão. A primeira ideia que surgiu foi o álbum de colaborações, de duetos, por que havia muitos. Coisas que fiz para trilhas de filmes, colaborações em discos de outros artistas, outros artistas que colaboraram em discos meus, projetos especiais. Nesse primeiro volume tem dois franceses, a uruguaia Samantha Navarro, a portuguesa Susana Travassos, a japonesa Kana, é um disco bem colorido, cheio de nuances, foi isso que me moveu a fazer essa coletânea. Dá para fazer pelo menos uns quatro álbuns com essas coisas de arquivos desses 20 anos”, revelou o cantor e compositor em entrevista coletiva concedida esta tarde, através do youtube.

 

Foto: Silvia Zamboni

O disco faz parte das comemorações pelos 20 anos de carreira de Baleiro, contados a partir do disco de estreia, Por onde andará Stephen Fry?, lançado em 1997. “Eu já trabalhava com música 10 anos antes, pode-se dizer que eu tenho 30 anos de carreira. Quando se fala em carreira geralmente se fala em carreira discográfica, essa fase anterior não conta muito, em termos gerais. Mas pelo menos desde 1987 eu trabalho com música profissionalmente, primeiro fazendo trilhas para teatro lá em São Luís do Maranhão. Eu tenho uma demo que talvez eu transforme num vinil, precisa de muitas autorizações. Foi a demo que gerou a gravação de meu primeiro disco”, continuou abrindo o baú.

É a primeira vez em 20 anos que um disco de Baleiro não terá edição física. Indago-lhe se é um sinal dos tempos ou um ponto fora da curva em sua carreira. “Sinal dos tempos, uma experiência. O artista tem que estar aberto para essas coisas. Eu sou dos mais apegados com o formato físico. Eu sou um colecionador, um cara que tenho apego pelo formato, pelo encarte, por ler as letras, mas você tem que se permitir certas experiências. Nem digo se moldar, pois não estou me moldando a nada. Quando surgiu essa conversa eu achei interessante, vamos ver até onde isso chega. Lançar uns dois ou três álbuns com material de acervo e ver até onde isso vai”.

Ele não prevê uma turnê específica para Arquivo_Duetos 1. “É um show difícil de levar para turnê, eu teria que levar pelo menos 11 artistas junto comigo. São 11 faixas, algumas com dois cantores. O que eu devo fazer é incorporar algumas dessas canções no repertório de meus shows, isso naturalmente vai acontecer. Mas uma turnê específica desse disco, não. É um retrato, um instantâneo de um período da carreira”, ponderou.

Lançamento de seu próprio selo, o Saravá Discos, Arquivo_Duetos 1 tem de jazz cigano (Que amor é esse?, dueto com Alessandra Maestrini) a rap (O peso da palavra, com GOG e Higo Melo), passando por versão em francês para composição de Baleiro (Le reste on s’en fiche, para Skap, com Bernard Fines). Indago-lhe algumas ausências sentidas, entre tantas notáveis parcerias. Ele responde mantendo a habitual elegância: “Infelizmente não dá para botar tudo. Alguns critérios você tem que criar. Um deles é a própria qualidade da faixa. Às vezes você até gosta da música, mas se não gostei da minha performance ali, é um critério. Não quero fazer durar este desconforto. Outra é quantidade: é uma limitação numérica. Mesmo sendo digital, não acho aceitável fazer 16 músicas. Tem que haver a perspectiva de um disco físico. 35, 40 minutos no máximo, que é o tempo que eu acho que as pessoas têm disponível. Os critérios são muito pessoais”.

Ele deu pistas do que os fãs podem esperar num segundo volume de duetos, já em vias de finalização, além de outros discos com faixas pescadas de seu baú. “O volume 2 terá as gravações que restaram e um terceiro volume de dispersas ou raras e dispersas, que foram canções que ficaram no meio do caminho. Por exemplo, gravei Baioque, do Chico Buarque, para a trilha da novela Joia rara, mas a música não foi aprovada. Eu fiz um rock e a expectativa era de uma coisa mais acústica, o briefing não foi bem dado. Eu li que o Roberto [Carlos] ia fazer um disco só com novos compositores, fiz uma canção e mandei. Tempos depois eu fiquei sabendo que a música não chegou às mãos do Roberto. Depois revi a demo e fiz ao vivo com meu pianista, o [Adriano] Magoo, e por que não? O Roberto não vai gravar mesmo [risos]. Sobras de estúdio, uma música do Tom Zé que eu gravei e não foi ao disco. Bem alinhadas dá para construir uma quase narrativa”, antecipou.

O primeiro single de Arquivo_Duetos 1 a ser disponibilizado no youtube foi Que amor é esse?, composto para a trilha sonora do filme O amor no divã, de Alexandre Reinecke, que Baleiro interpreta com Alessandra Maestrini. Narra a briga de um casal que se separa. Lembrei-me de Tua cantiga, de Chico Buarque, que antecipou Caravanas, seu novo disco, e rendeu ao compositor uma polêmica nas redes sociais e adjetivos como “machista” e “antiquado”. Perguntei ao maranhense se ele havia acompanhado a repercussão e sua opinião sobre o assunto. “Acompanhei com certa preguiça, achei falta de assunto. Polêmica nas redes geralmente é falta de assunto. É difícil você ver algo que vá fazer diferença em nossas vidas. É um verso inócuo, é um personagem. O poeta tem a liberdade da fala, abre as picadas para quem não tem essa voz. Se você começa a se vigiar demais, onde a gente vai chegar? Eu me preocupo, em certa medida. Eu tenho uma patrulha em casa, dois filhos adolescentes, que têm uma preocupação com o politicamente correto. Eu já não tenho nenhuma [risos]”, finalizou.

*

Repertório de Arquivo_Duetos 1

  1. Que amor é esse? – com Alessandra Maestrini
  2. A tardinha – com Blubell
  3. Corações ternos – com Nicola Són e Edgar Scandurra
  4. O peso da palavra – com GOG e Higo Melo
  5. O mundo – com Susana Travassos
  6. A canção brasileira – com Fagner
  7. Le reste on s’en fiche – com Bernard Fines
  8. Arenal – com Samantha Navarro
  9. Zás – com Wado
  10. Tem dó – com Paulo Monarco e Dandara
  11. O primeiro passo – com Kana

Veja o clipe de Que amor é esse?:

 

Bloco do Baleiro: “o ritmo, a dança, a alegria”

Foto: Rama de Oliveira
Foto: Rama de Oliveira

 

Teve ótima receptividade mês passado o anúncio, pelas redes sociais, do Bloco do Baleiro, em que o anfitrião maranhense terá como convidados o paraibano Chico César e a paraense Fafá de Belém, além dos DJs Ademar Danilo e Jorge Choairy.

Os poucos que contrariaram o coro questionavam o pagamento dos cachês dos artistas, inventando uma falsa oposição entre a presença de três artistas renomados nacionalmente e a manutenção de manifestações da cultura popular, como escolas de samba e blocos tradicionais, entre outros.

Procurada pelo blogue, assim manifestou-se a Secretaria de Estado da Cultura e Turismo do Maranhão (Sectur), em nota: “o evento é realizado pelo Governo do Maranhão e pela Prefeitura de São Luís com o patrocínio da Skol, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão. Pela parceria, o Governo do Maranhão ficou responsável pelos cachês dos artistas, a Prefeitura de São Luís pelo trabalho de bloqueio de vias e ordenação do trânsito, e a Skol pela produção do bloco”. A questão parece encerrada.

Nome fundamental no cenário da música popular brasileira ao menos nos últimos 20 anos – quando lançou Por onde andará Stephen Fry? [MZA, 1997], seu disco de estreia –, Zeca Baleiro é maranhense para além da geografia: ao longo de duas décadas de carreira tem sido um verdadeiro embaixador da arte e cultura maranhenses, produzindo discos, fornecendo composições e/ou participando de trabalhos de artistas locais, nomes entre os quais podemos citar – com o risco de esquecer muitos outros –, Antonio Vieira, Bruno Batista, Celso Borges, Chico Saldanha, Criolina, Flávia Bittencourt, Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho, Lena Machado, Lopes Bogéa, Patativa, Rita Bennedito (antes Ribeiro) e Rosa Reis.

A realização do Bloco do Baleiro será certamente mais uma importante contribuição de Zeca à cultura do Maranhão. Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Rama de Oliveira
Foto: Rama de Oliveira

Como surgiu a ideia e como foram as negociações para a realização do Bloco do Baleiro neste carnaval em São Luís?
Esse é um projeto antigo que eu e Samme Sraya, prima querida e produtora atuante no front cultural de São Luís, planejamos fazer há tempos. Mas só agora estamos tendo a chance de concretizá-lo. A ideia é fazer um grande baile num caminhão, uma “jardineira”, como os que deram origem aos trios elétricos, num circuito entre as praças da Casa do Maranhão e Maria Aragão. Um baile onde cantaremos de tudo, não só músicas “de carnaval”, mas música dançante em geral, de Tim Maia a Reginaldo Rossi. Será uma experiência, algo inédito, uma tentativa de aproximar o nosso show/bloco da tradição do carnaval de rua maranhense, ao invés de copiar modelos de carnavais de outros estados. Uma festa popular e gratuita. O único critério para entrar no cordão será estar fantasiado.

A principal força do carnaval da capital maranhense é a tradição do carnaval de rua, com suas diversas manifestações. Você passou a infância e a adolescência em São Luís. Quais as suas principais lembranças do período momesco na ilha?
Gostava muito de ver os blocos, os fofões, mascarados de rua… Nunca fui um grande folião, mas gostava de ver a festa. Tive um vizinho querido, o poeta e jornalista Paulo Nascimento Moraes, que saía todo domingo de carnaval fantasiado de fofão pelas ruas do Monte Castelo, uma figuraça. É uma lembrança muito lúdica e bonita que eu tenho da festa. E lembro também de alguns sambas-enredos antológicos, que quero homenagear no Bloco, como Haja Deus, da Flor do Samba, de Chico da Ladeira e Augusto Tampinha, e Bodas de ouro, de Zé Pivó, da Turma de Mangueira.

O Bloco do Baleiro terá como convidados Chico César e Fafá de Belém. Como será a participação deles e o que você diria a quem, por preconceito, torcer o nariz, dizendo tratar-se de artistas não identificados diretamente com o carnaval?
A quem torcer o nariz, sugiro que fique em casa, vendo o carnaval do Rio pela Globo. Mas para quem quiser se juntar a nós e celebrar com alegria, irreverência e música o carnaval, digo que venha. Eu, Chico e Fafá somos artistas identificados com o ritmo, a dança, a alegria. Isso deveria bastar. Mas, como diria Dias Gomes, quem abre caminho enfrenta as cobras.

São Luís parece despertar finalmente para experiências bem sucedidas como o carnaval do Recife, isto é, abrindo o leque, ampliando as possibilidades e realizando um carnaval verdadeiramente multicultural?
O carnaval de Recife é um grande exemplo de como a festa do carnaval pode servir de palco pra todo tipo de música ou manifestação cultural. Já toquei lá em mais de 10 edições, e sempre tem música pra todo gosto. Na mesma noite você pode ter shows de Ira!, Nação Zumbi, Zélia Duncan, Spok Frevo Orquestra, Elza Soares, Alceu Valença, rap, samba, frevo, rock, blues, tudo junto. E isso é lindo como proposta cultural.

Sua presença na programação do carnaval de São Luís tem um quê de afetividade, tendo em vista você ter nascido aqui, a evocação das memórias de que você já tratou. O que você e seus convidados estão preparando para o Bloco do Baleiro?
Sim, tem um quê de afetividade, de culto da memória também. Ainda vamos ensaiar, mas a ideia é dar um giro pela música dançante brasileira, do carimbó ao funk, do brega ao reggae. Estou preparando versões divertidas de clássicos da música pop também. O importante é louvar a alegria de viver num tempo tão obscuro como este em que vivemos.

Assista O abadá, versão bem humorada de Zeca Baleiro para Ob-la-di, ob-la-da (Lennon/McCartney), dos Beatles:

Zeca, Baileiro

Há tempos digo e reafirmo: Zeca Baleiro é o maior trabalhador da música popular brasileira em atividade. Só este ano, já lançou o cd Era domingo, o dvd A viagem da família Zoró e o livro Quem tem medo de Curupira? [Companhia das Letrinhas, 2016, 80 p.; leia um trecho] – os dois últimos, respectivamente, videoclipes animados para 11 das 28 faixas do disco Zoró – Bichos esquisitos, que lançou há dois anos, e um livro com o texto da peça escrita para o grupo ludovicense de teatro amador Ganzola, no longínquo 1988, quando sequer tinha se mudado para São Paulo ou gravado seu disco de estreia [Por onde andará Stephen Fry?, 1997]. De temática infantil, dvd e livro foram lançados neste mês das crianças.

Justo no dia das crianças (12 de outubro) estreou, no Canal Brasil, sua mais nova empreitada: o programa Baile do Baleiro, que transita entre apresentações do maranhense com artistas convidados interpretando músicas autorais (dos convidados, no caso) ou alheias e os bastidores, em que aparecem o clima descontraído dos ensaios, os encontros de Zeca com as visitas e ligeiras entrevistas que ele faz com os mesmos, sobre suas referências e memórias musicais (e) afetivas.

O programa de tevê enquadra um formato de show que Baleiro apresenta há mais de uma década – quando passou pelo Maranhão teve como convidada a sambista Patativa, de quem ele viria a produzir Ninguém é melhor do que eu, seu disco de estreia.

Sem preconceito de estilo ou faixa etária participaram do primeiro programa a cantora Blubell e o soulman Hyldon, que fizeram bonito em músicas como o tango Bandido, dela, e as clássicas As dores do mundo e Na rua, na chuva, na fazenda (Casinha de sapê), ambas dele. Com ela, Baleiro dividiu Mamãe passou açúcar em mim (Wilson Simonal) – sozinho, ele abriu o programa com Segura esse samba, ogunhé (Osvaldo Nunes).

Cantadas sozinhas ou em dueto com o anfitrião, as músicas acabam convertendo-se em, além de festa, uma espécie de almanaque da música dançante (com inteligência) brasileira, a partir da revisitação a baús particulares e à grande tradição da canção popular, para usarmos termo parecido à justificativa da academia sueca em premiar Bob Dylan com o Nobel de Literatura – prêmio festejado tanto por Zeca Baleiro quanto pelo modesto repórter que ora lhes comenta seu novo programa.

Baile do Baleiro vai ao ar às quartas-feiras às 21h (horário de Brasília; hora local: 20h), com reprises aos sábados às 16h30 (no horário de verão) e às terças às 12h30 (idem). O segundo episódio, no próximo dia 19, terá como convidado Odair José. Em outros episódios Baleiro receberá ainda Edy Star, Guilherme Arantes, Jurema, Luiz Ayrão, Maria Alcina, Wado e Zizi Possi.

Veja o teaser do programa:

10 músicas (+1) para viver São Luís

[publicado originalmente nO Imparcial de hoje (8)]

Uma playlist afetiva com repertório que tem a Ilha capital como inspiração

Economista de formação marxista, quase padre, o jornalista Bandeira Tribuzi acabou alçado à condição de poeta oficial da cidade de São Luís do Maranhão: são dele a letra e música de Louvação a São Luís, hino da capital maranhense. Triste ocaso/acaso, ele morreria aos 50 anos, em 1977, exatamente no dia em que a capital maranhense, segundo as contas oficiais e afrancesadas, completava 365 anos. “Oh, minha cidade, deixa-me viver!”, começa sua mais conhecida criação.

Qual um Damião que busca visitar o trineto, palmilhando a ilha madrugada adentro, no romance Os tambores de São Luís, de Josué Montello, percorreremos aqui uma playlist: 10 músicas para lembrar São Luís, singela homenagem à cidade por seu aniversário – há controvérsias!

Lances de agora, o antológico elepê de Chico Maranhão gravado em quatro dias na sacristia da secular igreja do Desterro, é impregnado de São Luís do Maranhão, cidade onde ninguém nasce e vive impunemente, como cravou solenemente em texto na contracapa o produtor Marcus Pereira, responsável pelo registro, em 1978. Entre outras, lá está Ponta d’Areia, de um dos versos mais bonitos da história da MPB: “caranguejeira namorando a parede”.

Durante muito tempo, a Ponta d’Areia reinou absoluta entre as praias da capital maranhense: mais próxima do centro da cidade, com fácil acesso a partir de barcos ou ônibus – antes ou depois da construção da Ponte do São Francisco –, era a diversão barata dos finais de semana de minha infância. Também é lembrada pelo compositor Cesar Teixeira em Ray-ban: “na Ponta d’Areia eu vendi protetor/ dei uma de cego na igreja, doutor/ no dia do eclipse eu vendi meu ray-ban”, diz a letra, que lembra também o Cine Rialto, outrora instalado na Rua do Passeio, Centro, onde os fundadores assistiram ao filme que viria a batizar o mais longevo bloco carnavalesco da cidade: Os Fuzileiros da Fuzarca.

Em 1996, quando lançou seu segundo disco, Cuscuz clã, Chico César invadiu o dial e causou alguma estranheza com uma parceria com Zeca Baleiro: tratava-se de Pedra de responsa, batizada por uma gíria para classificar os melhores reggaes, que agitam a pista em clubes de São Luís, mas gravada pelo paraibano como um carimbó. “É pedra, é pedra, é pedra/ é pedra de responsa/ mamãe, eu volto pra ilha/ nem que seja montado na onça”, diz o refrão. No ano seguinte, em seu disco de estreia, Por onde andará Stephen Fry?, o maranhense registraria a composição como reggae, dedicando-a aos compositores Cesar Teixeira, Josias Sobrinho e Joãozinho Ribeiro.

Não há ludovicense que não se balance ou não comece a assobiar Ilha bela, ao ouvir seus primeiros acordes: “que ilha bela/ que linda tela conheci/ todo molejo/ todo chamego/ coisa de negro que mora ali”. Pernambucano que foi beber nas águas musicais do Rio Tocantins, em Imperatriz, Carlinhos Veloz, é um dos artistas mais respeitados de nossa música popular, sucesso de público por onde passa.

Outra faixa irresistível neste quesito é Ilha magnética, de César Nascimento, maranhense por acaso nascido no Piauí. A canção faz jus ao título e magnetiza o ouvinte ao lembrar as belas paisagens, sobretudo litorâneas, da capital maranhense, numa época em que o município de Raposa, citado entre as praias, ainda não havia sido emancipado: “Ponta d’Areia, Olho d’Água e Araçagy/ mesmo estando na Raposa/ eu sempre vou ouvir/ a natureza me falando/ que o amor nasceu aqui”.

A ilha é mesmo tão magnética que desperta paixão até em quem nunca pisou a areia de suas praias ou os paralelepípedos de seu Centro Histórico. “É o tambor de crioula/ é a Casa de mina/ é a estrela do norte/ boi bumbá que me ilumina”, acerta em cheio o compositor Paulo César Pinheiro no misto de bumba meu boi e tambor de crioula São Luís do Maranhão, música gravada por Alexandra Nicolas em Festejos (2013), seu disco de estreia. Adiante, ele “se encanta-nos” com as “ruas de pés de moleque” e “casario de azulejos”.

Alê Muniz e Luciana Simões, o duo Criolina, em parceria com o poeta Celso Borges, erguem uma bela ponte poético-musical até a ilha de Cuba em São Luís-Havana, faixa de Cine Tropical (2009). Nela, mesclam-se paisagens das ilhas maranhense e caribenha, além de mestres da música cubana e do bumba meu boi: é linda a participação do terceiro autor, recitando os nomes de, entre outros, Compay Segundo, Coxinho, Omara Portuondo, Zé Olhinho, Pablo Milanés e Humberto de Maracanã.

Outra parceria com a assinatura de Celso Borges que não poderia faltar a esta playlist é A serpente (outra lenda), dele com Zeca Baleiro e o percussionista argentino Ramiro Musotto, já falecido. Com participações especiais do saudoso compositor Antonio Vieira, que recita trecho de um sermão do padre escritor seu xará, Chico Saldanha e Josias Sobrinho, a música acabou ganhando uma dimensão política, por versos ácidos como “eu quero ver/ quero ver a serpente acordar/ pra nunca mais a cidade dormir”.

No recém-lançado Bagaça (2016), seu quarto disco, Bruno Batista presta bela homenagem a capital em A ilha, desmistificando ícones e totens. Nela, lembra o poeta Nauro Machado, cujas barbas saem para passear, na letra. Autor de mais de 40 livros, falecido em novembro passado, ele próprio confundia-se com a cidade, parte integrante de sua paisagem.

Bonus track – Outro “estrangeiro” que homenageou maravilhosamente São Luís foi o pernambucano Carlos Fernando, autor de um hit do repertório de Geraldo Azevedo, habitué de palcos da cidade. Em seus shows por aqui nunca falta Terra à vista. Quem nunca se emocionou ao ouvir os versos “Sã, sã, sã, São Luís do Mará”, das duas uma: ou não é ludovicense ou nunca ouviu a música, falha que deve ser corrigida agora mesmo. Como a maior parte do repertório aqui apresentado, é fácil de encontrar no youtube. Buscar!

Era domingo: pop para qualquer hora do dia, qualquer dia da semana

Era domingo. Capa. Reprodução
Era domingo. Capa. Reprodução

 

Aos quase 20 anos de carreira, isto se contarmos apenas a partir do lançamento de seu disco de estreia, Zeca Baleiro é um dos maiores trabalhadores da música popular brasileira. Desde Por onde andará Stephen Fry? [1997], o maranhense nunca se acomodou, nem nunca fez dois discos iguais. Ou seja: sempre se arriscou a testar o gosto, a paciência e a fidelidade do público que cativou desde então. Ainda remontando ao início de sua carreira discográfica, basta lembrarmos as quebras que significaram entre si os seguintes Vô imbolá [1999] e Líricas [2000].

Estas rupturas seguem presentes: após um disco infantil [Zoró – Bichos esquisitos, de 2014], um disco especial dividido com Paulo Lepetit e Naná Vasconcelos [Café no bule, de 2015] e outro dedicado ao repertório de Zé Ramalho [Chão de giz – Zeca Baleiro canta Zé Ramalho, também de 2015], Baleiro apresenta ao público seu disco mais pop: Era domingo [Fidellio/Som Livre, 2016].

Todas as 11 faixas são facilmente assobiáveis e plenas candidatas a hits de rádio – imaginemos um mundo livre do jabá. Quando parece não haver o que inventar, o artista se reinventa e lança a si mesmo o desafio: cada faixa tem um produtor diferente. Ou um par. Sim, o disco tem mais de 11 produtores/arranjadores: Tuco Marcondes, Pedro Cunha, Rogério Delayon, Kuki Stolarski, Marcelo Lobato, Marcos Vaz, Fernando Nunes, Haroldo Ferreti, Henrique Portugal, André Bedurê, Rovilson Pascoal, Érico Theobaldo e Adriano Magoo. O resultado, no entanto, é coeso.

Era domingo, a faixa-título, abre o disco, traduzindo o granulado voyeurismo de celular estampado na capa: uma foto praieira feita pelo próprio Baleiro. “Toda beleza/ na Fortaleza/ de um céu cheio de azuis/ música bela/ pela janela/ soava feito um blues”, diz a letra.

Ela parou no sinal e seu naipe de sopros ecoa os momentos mais dançantes dos dois volumes de O coração do homem bomba [2008]. De mentira lembra o adágio do poeta português Fernando Pessoa: “você se diz poeta/ mas é só um fingidor/ finge tão completamente/ que até crê na sua dor/ tanta é a dor que mente”, arremata.

A presença de outro poeta no repertório do disco é mais uma prova de que Zeca Baleiro não se contenta com caminhos fáceis ou atalhos para o sucesso. A letra de Desesperança, penúltima faixa do disco, parceria dele com Paulo Monarco, é trecho do poema homônimo do maranhense Sousândrade, do livro Harpas selvagens [1857]. A outra parceria do disco é Deserta, com Lokua Kanza.

A hiperbólica Pequena canção remete ao Roberto Carlos de Eu te darei o céu [Roberto e Erasmo Carlos]: “eu te daria o Polo Norte/ qualquer brinquedo/ o meu segredo/ o samba-enredo/ das minhas penas/ te dava a Grécia/ te dava Troia/ a maior joia do meu garimpo/ o meu cavalo, o meu Olimpo”, promete a letra.

Desejo de matar é dor de cotovelo digna de Lupicínio travestida de rock’n roll: “você me transformou/ num cão vulgar e sujo/ um fulano vagabundo/ um maldito o dito cujo/ de quem todos falam/ sem nenhum respeito/ o pilantra, o pilintra/ o vilão, o feio, o mau sujeito” é o cartão de visitas do protagonista da letra que cita Charles Bronson.

Em Homem só, O amor é invenção e Ultimamente nada, com seus femininos gritos de gozo no grand finale, Baleiro tira um sarro da vida pequeno-burguesa, cujas ambições rotineiras parecem bobagens para poetas, sonhadores e que tais. “Os amigos falam que é isso, brou?/ nunca mais passou no café, no bar/ tenho trabalhado pra caramba e/ o trabalho é que/ pode nos salvar”, afirma o artista, que apenas finge se contentar.

Ouça Desejo de matar:

O lugar (acentuadamente pop) de Bruno Batista

Bagaça. Capa. Reprodução
Bagaça. Capa. Reprodução

 

A ilha, faixa que encerra Bagaça [2016, disponível para download no site do artista], quarto disco de Bruno Batista, é uma das mais bonitas declarações de amor a São Luís jamais escritas. O artista foge de clichês ao citar lendas e o cotidiano da cidade. “As barbas de Nauro saem pra passear” e “Montserrat Caballé não entendeu quase nada” estão entre os versos que trazem nativos e turistas que um dia pisaram suas ruas de paralelepípedos.

Nenhum homem é uma ilha e somente em seu quarto disco Bruno Batista abre seu leque de parceiros: Dandara, Demetrius Lulo e Paulo Monarco em Caixa preta, Alê Muniz e Luciana Simões (o casal Criolina) em Pra ver se ela gosta, e Zeca Baleiro em Nigrinha.

Bagaça é seu trabalho mais desbragadamente pop. Nas 11 faixas do álbum é possível perceber a bagagem de influências que moldou o cantor e compositor ao longo destes 12 anos de carreira, se contarmos a partir de sua estreia no mercado fonográfico, com o homônimo Bruno Batista [2004].

Maranhense nascido em Pernambuco, com férias da infância passadas no Piauí, hoje radicado em São Paulo após temporada no Rio de Janeiro, esta geografia afetiva se traduz musicalmente em Batalhão de rosas, toada de bumba meu boi rockificada que lembra a “areia branca” tema do caroço de Tutoia de Dona Elza, de saudosa memória. A faixa batizará o terceiro disco da cantora Lena Machado, a ser lançado este ano. A romântica Caixa preta evoca o Caetano político de Podres poderes.

O tambor de crioula ganha acento pop em Pra ver se ela gosta e Nigrinha tem ares caribenhos, de “amor sincero” em “novela das nove”, em diálogo com o “cinemúsica” de Blockbuster, a sétima arte uma das paixões confessas de Bruno Batista, que em álbuns anteriores já prestou homenagens a Quentin Tarantino [Tarantino, meu amor, de Eu não sei sofrer em inglês] e Michel Gondry [em Rosa dos ventos, de ].

Cerca-se dos mais requisitados instrumentistas da chamada “nova MPB” – rótulo que, como quase todo rótulo, não dá conta da turma – alguns dos quais com quem já tinha trabalhado em discos anteriores: Rovilson Pascoal (guitarra), produtor de Bagaça, Gustavo Ruiz (guitarra), Meno del Picchia (contrabaixo), Felipe Roseno (percussão), Ricardo Prado (contrabaixo e rhodes) e Guilherme Kastrup (bateria e percussão) compõem o núcleo, em disco que conta ainda com participações especiais de Swami Jr. (violão sete cordas no bolero Você não vai me esquecer assim), André Bedurê (vocais em Você não vai me esquecer assim e Guardiã), Marcelo Jeneci (piano em Turmalina) e Felipe Cordeiro (guitarra em Nigrinha).

“O teu lugar, o teu lugar/ é o meu”, derrama-se em Turmalina, feita para sua esposa. Na faixa divide os vocais com Dandara, que compareceu em boa parte de , seu disco anterior. O lugar de Bruno Batista é nos ouvidos de fãs cativos desde a estreia – ali já havia se firmado como um dos mais talentosos artistas de sua geração – e cada vez mais outros, conquistados álbum após álbum.

Confira o videoclipe de Nigrinha (Bruno Batista e Zeca Baleiro):

Serviço

Bruno Batista lança Bagaça em show gratuito hoje (10), às 20h, no Mandamentos Hall. O espetáculo conta com abertura da Pédeginja, discotecagens de Franklin e Pedro Sobrinho e participações especiais de Criolina e Flávia Bittencourt.

Coleção de delicadezas

Bons ventos. Capa. Reprodução
Bons ventos. Capa. Reprodução

 

Quase 20 anos após sua estreia no mercado fonográfico, Bons ventos [Na Music, 2015] é nome apropriado para o segundo disco da cantora Anna Claudia, paraense radicada no Maranhão há mais que isso.

Também radicado há muito por aqui, o percussionista Luiz Claudio, irmão de Anna, além de tocar no disco, estreia como produtor, dividindo os arranjos com Israel Dantas (violões de seis e sete cordas), Márcio Glam (violão aço e guitarras em Vai), Norlam Lima (guitarra em Presente) e Nosly (violão em Guetos da Ilha, Vou dançar meu afoxé, parcerias com Gerude, Teu lugar e Noves fora).

Comparecem ainda a Bons ventos Carol Cunha (ukulele em Canção em alfa), Mauro Sérgio (contrabaixo), Rui Mário (teclados e sanfona), Mauro Travincas (contrabaixo em Teu lugar), Jamilson Denys (guitarra em Presente), Djalma Chaves (violão em Paixão e razão), Wendell Cosme (bandolim em Guetos da Ilha) e Sávio Araújo (sopros em Vou dançar meu afoxé).

Bons ventos é uma coleção de delicadezas e uma ponte entre o Pará natal e o Maranhão adotivo de Anna Claudia. O disco é “um belo tributo à rica tradição da canção brasileira”, atesta Zeca Baleiro em texto no encarte do disco, que abre com o reggae Canção em alfa (Ronald Pinheiro), hit local oitentista.

Outra regravação é Teu lugar (Nosly), mas embora revisite o passado, Bons ventos é um disco do Presente (Zeca Baleiro e José Reinaldo), como diz a letra de uma das faixas, talvez a explicar a demora entre um disco e outro: “você me trouxe mais/ do que eu esperava/ você trouxe a palavra/ que faltava em minha boca”, com sutil citação de Libertango (Astor Piazzolla). Outra presença sorrateira é a de Flores em você, sucesso dos roqueiros paulistas do Ira! que encerra Vai (Allan Carvalho). A releitura de Noves fora (Zeca Baleiro e Nosly) ganha ares de mina. O paraense Allan Carvalho comparece ao repertório com mais duas composições: Sete cordas (parceria com Paulinho Moura), tributo ao instrumento imortalizado por Dino, Raphael Rabello e Yamandu Costa, e o bucólico Choro fulô (parceria com Ronaldo Silva), ornado apenas por violão e percussão.

Os afoxés que encerram o disco, Guetos da Ilha e Vou dançar meu afoxé, representam a negritude ludovicense, maranhense, paraense, brasileira, homenageando deuses, casas e blocos afro.

“Quando o amor campeia/ não há redenção/ é a voz da sereia/ teia e arpão/ que pega na veia/ vai ao coração/ que é cego e tateia/ outra ilusão”, diz a letra de Paixão e razão (Djalma Chaves e Lupe Albano), que também ajuda a explicar a urdidura de Bons ventos. Evidentemente há alguma razão na seleção de repertório, assinada pelos irmãos Anna e Luiz com Suzana Fernandes (esposa deste); mas reside ali muito de paixão: primeiro da cantora (e dos que a cercam neste trabalho), depois de quem a ouve.

Marcos Magah e Bruno Batista lançam videoclipes

Os cantores e compositores Marcos Magah e Bruno Batista disponibilizaram esta semana seus novos videoclipes.

Rodado na Praia Grande, o primeiro, O dia em que o homem lúcido e perigo quase encontrou Henry Dave Thoureau em São Luís do Maranhão, é faixa de O inventário dos mortos (ou Zebra circular), com que Magah venceu o mais recente Prêmio Universidade FM, na categoria melhor cd de música pop.

O segundo, Nigrinha, parceria de Zeca Baleiro com Bruno Batista, é faixa de Bagaça, novo disco que este lança em 2016.

Assista os videoclipes.

Zeca Baleiro relê assuntos populares e lados b de Zé Ramalho

Chão de giz. Capa. Reprodução
Chão de giz. Capa. Reprodução

 

Há quase 20 anos, quando estreou no mercado fonográfico com Por onde andará Stephen Fry? [1997], Zeca Baleiro já mostrava a que veio. Revelou-se compositor de talento, acima da média, além de intérprete original. Em um disco quase completamente autoral, gravou Essas emoções (Donato Alves), toada do bumba meu boi de Axixá.

Parte da crítica, mais acomodada e afeita a rótulos, não hesitou em cravar no artista que então aparecia a alcunha de “o novo Zé Ramalho” ou coisa que o valha, talvez por conta da proximidade temática de Heavy metal do senhor, que abre a estreia do maranhense, e A peleja do diabo com o dono do céu, faixa título do segundo disco do paraibano – a análise, com quase duas décadas de distância, é do próprio Zeca Baleiro, em texto de apresentação de seu novo trabalho.

Em Vô imbolá [1999], seu segundo disco, Zé Ramalho daria as caras – e a voz. Cantariam juntos Bienal, música de Baleiro inspirada no universo dos repentes e violas, em que tira um sarro do mercado de artes.

Chão de giz – Zeca Baleiro canta Zé Ramalho surgiu após um desafio aceito pelo primeiro, não após certa hesitação. Com curadoria de Monique Gardenberg, o projeto BBCovers, do Centro Cultural Banco do Brasil, teria diversos artistas interpretando a obra alheia, e ao maranhense cabia justamente a obra do “admirável bardo” paraibano. Há alguns anos, Baleiro havia dividido um disco de inéditas com Fagner [Raimundo Fagner e Zeca Baleiro, de 2003], outro nome da chamada geração Nordeste 70, outro artista admirado pelo garoto nascido na terra de João do Vale na década anterior.

Lançado em cd e dvd, Chão de giz passa por grandes hits de Zé Ramalho, repetidos à exaustão por qualquer cantor em qualquer barzinho, mas traz também lados b. “Um “tributo” a um cara como Zé, com cerca de 40 anos de carreira e um repertório consolidado, não poderia omitir seus sucessos populares, concorda? Mas fazer um show só com os hits seria tedioso e acomodado. Juntei as canções-estandartes, como Avohai e Admirável gado novo a lados b que gosto muito, como Um pequeno xote e Kamikaze, além de algumas pérolas esquecidas”, contou Baleiro com exclusividade ao blogue.

Para Ave de prata, que abre Chão de giz, Zeca Baleiro (voz, violão, ukelele e guitarra) chega de capa e chapéu, acompanhado por Adriano Magoo (teclados, acordeom, violão e vocais), Fernando Nunes (contrabaixo, violão sete cordas, triângulo e vocais), Kuki Stolarski (bateria, pandeiro, zabumba, violão e efeitos), Pedro Cunha (teclados, acordeom, sampler, escaleta e vocais) e Tuco Marcondes (guitarra, violão, mandolin, sitar, banjo e vocais).

O próprio Zeca Baleiro considera a experiência curiosa, já que em sua fase de barzinhos, antes de deixar São Luís e estrear em disco, não lembra de ter cantado Zé Ramalho. “Não me lembro de ter cantado Zé quando cantava na noite. Meu repertório era muito insólito, talvez por isso não tenha feito “sucesso” como músico de bar [risos]. De todo modo, é certamente uma volta à origem, à época da minha formação, de quando começava a tocar violão e surgia essa turma do Nordeste – Zé, Belchior, Fagner, Ednardo, Alceu [Valença], Geraldo [Azevedo], Vital [Farias]”, enumera.

No dvd há projeções de Ivan, o terrível [1944], de Sergueï Einsenstein, ilustrando Kriptônia, e Powaqqatsi [1988], de Godfrey Reggio, em Admirável gado novo, num interessante diálogo visual com as músicas, de certo modo ajudando a garantir certo tom sombrio, talvez apocalíptico, profético, para ficar em adjetivos quase sempre usados para se referir ao repertório ramalheano. “É estranho, porque não é Brasil, mas tem tudo a ver”, afirmou Baleiro sobre a segunda, como nos conta a diretora Monique Gardenberg em texto de apresentação ao projeto.

Em alguns momentos Baleiro suaviza Ramalho, noutras mantém os arranjos próximos aos originais, sempre com uma pegada original, sem se contentar com o conforto da posição de cover. Ele é parceiro de Zé Ramalho em O rei do rock, música já gravada pelo homenageado em Parceria dos viajantes [2007]. “Eu escrevi a letra de O rei do rock inspirada no Zé, na sua persona artística, esse misto de caubói, profeta, justiceiro, visionário. Ele musicou e gravou, numa onda meio “rock cigano”, mas refiz o arranjo e o rock ganhou uma pitada de rap”, comentou. Em Bicho de sete cabeças [Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Renato Rocha], Baleiro opta pela versão instrumental, anterior à com letra, que já tinha gravado para a trilha do filme homônimo [2001], de Laís Bodanzky.

Em roteiro bem construído e edição caprichada, Chão de giz guarda ainda ótimos momentos em seus extras. Quando canta Frevo mulher cita Bob Dylan – artista reverenciado tanto por Baleiro quanto por Ramalho – e é imediata a cumplicidade da plateia; lá também está o registro da única música não composta por Zé Ramalho, mas cuja gravação definitiva, inclusão em trilha de novela e execução à exaustão, fazem muita gente crer nisso: Entre a serpente e a estrela [de Frevoador, 1992], versão de Aldir Blanc para Amarillo by morning (Terry Sttaford e P. Fraser).

O próprio Zeca, antes de aceitar o convite para reler a obra do autor de Vila do sossego, afirmou, também no texto de apresentação, a admiração pela obra de outros nomes da música brasileira, entre os quais Luiz Melodia, Martinho da Vila, Tom Zé, Jackson do Pandeiro e Sérgio Sampaio, de quem já produziu disco póstumo [Cruel, de 2005] e relançou Sinceramente [1982], por seu selo Saravá Discos.

Sabedor de sua citada admiração por outros nomes, sobretudo os nordestinos surgidos na década de 1970, indago-lhe se há algum outro artista com quem Baleiro tenha vontade de dividir disco, show e/ou se tornar parceiro. Ele responde, terminando a conversa com um sorriso: “Todos. A obra de Belchior merece um belo tributo. Mas minha carreira de “crooner da caatinga” se encerra aqui [risos]”.

*

Confiram Zeca Baleiro em Não existe molhado igual ao pranto [Zé Ramalho e Lula Côrtes]:

Santo de Casa lança três inéditas de Chico Saldanha

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

 

O compositor Chico Saldanha, 70, anunciou para ainda este ano o lançamento de Plano B, seu quarto disco. O aguardado sucessor de Emaranhado (2007) está praticamente pronto.

“Quando voltar de uma viagem vou colocar as últimas vozes, Zeca [Baleiro] gravará sua participação e vamos para as fases de mixagem, masterização e prensagem”, anunciou Saldanha, com exclusividade, ao blogue. Ele irá à Suíça, acompanhar o nascimento de uma neta.

Um disco novo de Chico Saldanha é sempre um acontecimento. O intervalo entre um e outro ajuda a explicar o esmero com que cada álbum é feito. Intitulado Chico Saldanha, seu vinil de estreia, gravado em São Paulo, quando o artista morou lá, foi lançado em 1988, e emplacou ao menos um hit: Itamirim, interpretada por Tião Carvalho.

Aquele álbum trazia também Linha puída, sua canção mais regravada. O segundo disco, Celebração, foi lançado 10 anos depois. O álbum começa com uma homenagem à sua cidade natal, Parabéns, Rosário (Ribamar Marques), que remonta às origens do sotaque de orquestra do bumba meu boi.

Em Emaranhado ele contou com as participações especiais de Zeca Baleiro, Josias Sobrinho, Gerude, Inaldo Bartolomeu e Lenita Pinheiro. Este terceiro disco transita por uma veia pop, sem tirar o pé do brega (Mara), passando por bolero (Babalu), bumba meu boi (a faixa título), blues (Cover de blues) e choro (Branco).

Hoje (23), amanhã (24) e segunda-feira (27) o programa Santo de Casa, na rádio Universidade FM (106,9MHz) apresentará em primeira mão três faixas de Plano B, todas de autoria de Saldanha: Afeganistão, carinhosa e divertidíssima homenagem a um saudoso bar da Madre Deus, bastante frequentado por ele, este blogueiro e outros bambas, Ella, homenagem a Ella Fitzgerald, diva do jazz, e Buriti, em que homenageia os “geniais artífices” do interior do Maranhão que transformam a fibra dessa palmeira em obras de arte. A faixa tem participação especial da cantora Lena Machado.

As três faixas enviadas pelo artista à rádio têm execução de Luiz Jr. (violão, guitarra e arranjos), Mauro (contrabaixo), Rui Mário (sanfona e teclados) e Wanderson (percussão). Afeganistão tem sopros de Daniel Miranda, Daniel Cavalcanti e Elton Nascimento.

O Santo de Casa vai ao ar de segunda a sexta às 11h, com produção de Paula Brito e apresentação de Gisa Franco.

Júlia Emília lança livro com vivências do Teatrodança como parte das comemorações dos 30 anos do Grupo

Vivendo Teatrodança - Investigações de uma artista maranhense para crianças de qualquer idade. Capa. Reprodução
Vivendo Teatrodança – Investigações de uma artista maranhense para crianças de qualquer idade. Capa. Reprodução

 

A história do Grupo Teatrodança se confunde com a própria vida da artista – difícil enquadrá-la em apenas um ramo das artes – Júlia Emília, que o fundou em 1985 e o dirige desde então. Mas seu envolvimento com as artes começa bem antes.

Hoje (26), às 19h, no Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão (Rua do Giz, 59, Praia Grande, próximo à Praça da Faustina), ela lança Vivendo Teatrodança – Investigações de uma artista maranhense para crianças de qualquer idade [2015, R$ 20,00 no lançamento], publicado através da seleção no edital de literatura de 2014 da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema), em que (re)conta parte dessa história. No lançamento Eline Cunha, Luciana Santos, Sandra Oka e Victor Vieira apresentarão intervenções originais sobre suas relações afetivas com o Grupo Teatrodança e temáticas da nova investigação em processo.

A própria Júlia Emília se apresenta, na orelha da obra: “Filha de família intelectualizada tive um pé na sapatilha clássica e outro nos terreiros das culturas populares maranhenses, sem populismo postiço”. Bem lhe traduz também um poema, não por acaso citado no livro, do dramaturgo alemão Bertolt Brecht: “Eu era filho de pessoas que tinham posses./ Meus pais puseram um colarinho engomado ao redor de meu pescoço/ E me educaram no hábito de ser servido/ E me ensinaram a arte de dar ordens./ Mas, mais tarde, quando/ Olhei ao redor de mim,/ Não gostei das pessoas de minha classe/ Nem de dar ordens, muito menos de ser servido./ E abandonei as pessoas de minha classe/ Para viver ao lado dos humildes”.

Sobre ela, assim se refere o poeta Ferreira Gullar: “Júlia é uma artista muito autêntica, trabalhando no resgate de um tipo de aproximação da cultura popular de maneira muito sensível”. O cantor e compositor Zeca Baleiro endossa: “É uma artista muito intensa, muito verdadeira”. O segundo musicou os versos de cordel do primeiro e ambos assinaram a trilha de Bicho solto buriti bravo, uma das investigações abordadas em Vivendo Teatrodança – longe de soar pedante, é realmente difícil classificar o trabalho de Júlia Emília como espetáculo de dança ou espetáculo de teatro. Simplesmente os rótulos não lhes comportam.

No livro, a autora remonta brevemente os 30 anos de história do Grupo Teatrodança, antes passeando por sua trajetória artística, confessando influências – Angel e Klauss Viana, Teresa D’Aquino, Stanislavski e Grotowski, entre outros – e vivências – o Teatro Ventoforte, o Centro de Criatividade do Méier, além do Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão (Laborarte) e do Estúdio Pró-Dança, entre outros. A obra se completa com os textos das investigações O baile das lavandeiras e Meninos em terras impuras e aborda desde a fundamentação das peças, elencos, apresentações, dramaturgias e partituras. Na música se misturam nomes como Apolônio Melônio – do bumba meu boi da Floresta, atualmente internado em estado grave –, Carlinhos Veloz, Chico Maranhão, autos do pastor maranhense e do pastoril pernambucano e, entre muitas outras referências, as bandas de pop rock R.E.M. e Coldplay. Também soam pelas páginas de Júlia Emília e palcos frequentados pelo Teatrodança, também devidamente listados na obra, os tambores de mina e crioula, o lelê de São Simão, a dança de São Gonçalo, a poesia da escritora Maria Firmina dos Reis e a lenda da serpente (ou a serpente da lenda), para citar algumas de nossas melhores tradições.

Mas não é – ou ao menos não deveria ser – só ao “povo” do teatro e da dança que interessa a obra de Júlia Emília (e do Grupo Teatrodança): ao longo destes 30 anos e, especificamente nas vivências abordadas em Vivendo Teatrodança, estão colocadas, de forma mais ou menos sutil, preocupações políticas e ambientais – a terceira investigação, “Meninos em terras impuras, dentro da noção de corpo ambiental foi escrito em 2011, para denunciar a degradação a que a área metropolitana da Grande Ilha está submetida”.

Retornamos ao texto da orelha, em que Júlia Emília admite não ter “vergonha de nascer em terra espoliada, de expor meus exercícios de aculturação, de registrar dramaturgias que nem sei se serão publicadas exatamente por acreditar que o texto eterniza a cena”. O lançamento de Vivendo Teatrodança é parte das comemorações de 30 anos do Grupo homônimo, que continuam ao longo de todo 2015 (e sobre as quais este blogue voltará, em momentos oportunos). Os que conhecem os trabalhos e batalhas do Teatrodança e de sua fundadora-diretora lhes desejarão vidas longas. Aos que não, terão hoje mais uma oportunidade. Cabe a pergunta: estão esperando o quê?

Celso Borges e Nosly celebram longeva parceria

Os parceiros no misto de ensaio e entrevista. Foto: Zema Ribeiro
Os parceiros no misto de ensaio e entrevista. Foto: Zema Ribeiro

 

Uma das parcerias mais recentes de Celso Borges e Nosly é A ceia do mundo, em que ambos musicaram poema de José Chagas, cantada pelo segundo, em disco produzido pelo primeiro com Zeca Baleiro em tributo ao poeta [A palavra acesa de José Chagas, de 2013], falecido meses depois do lançamento: “A esta mesa sozinho, eu me sento em vão./ Não bebo deste vinho nem como deste pão./ Falta-me convite para a paz da ceia,/ e humano apetite ante a comida alheia/ Eu busco outra mesa onde muitos estão,/ sob uma gula acesa de outro vinho e outro pão/ Mesa onde se permite uma fome tão forte,/ que nos dá apetite até para a morte”.

Uma das primeiras parcerias é Proposta de quase eternidade [1984], deles com Zeca Baleiro, gravada pela cantora Rosa Reis em seu disco de estreia. “Era a época do show Um mais um, que Nosly faria com Zeca, a primeira vez que Zeca subia num palco”, recorda-se Celso Borges. “Eu vi esse poema publicado no jornal [O Estado do Maranhão, Celso à época era funcionário do Sistema Mirante], a gente acompanhava sempre, fim de semana rolava um poema, um poeta”, lembra Nosly.

Parceiros há 31 anos, eles apresentam neste sábado (25), às 19h, na Livraria Graúna [Rua Riachuelo, 337, telefone: (99) 35211873], em Caxias/MA, Palavra tem som, espetáculo com cerca de hora e meia de duração, misto de show musical e recital poético, com entrada franca. Na ocasião, autografarão livros e cds a interessados.

O blogue foi à casa de Celso Borges em uma tarde chuvosa da semana passada. Presenciou um ensaio – ou quase isso – bastante despojado, em que os parceiros brincavam entre si, tentavam lembrar letras e melodias de suas parcerias e respondiam a algumas perguntas, por exemplo, sobre como surgiu a ideia do show. “Pintou de um puxão de orelha que eu dei em Nosly, “poxa, a gente nunca fez nada em Caxias, tu é de lá”. O lançamento é um misto de show, recital e bate papo sobre nossa parceria”, antecipou Celso. A ideia é realizar apresentações em outros locais.

Palavra tem som é dividido em quatro partes: na primeira, Celso Borges diz alguns poemas, com intervenções de Nosly ao violão; na segunda, comentam suas parcerias, interpretadas por Nosly; na terceira, contam com a participação de um artista local [o nome não havia sido confirmado até o fechamento desta matéria]; na última, Nosly canta parcerias suas com outros poetas e músicos, entre as quais Noves fora, com Zeca Baleiro, Nome, com Olga Savary, Para uma grande dama, com Fernando Abreu, Voo noturno, com Sérgio Natureza, Sancho Dom Quixote, com Ferreira Gullar e Parador, com Gerude e Luis Lobo.

A tarde corre e a chuva para; as lembranças continuam: “Blues para um anjo torto foi nossa primeira parceria pelo Correio”, recorda Celso, que em seguida conta a história de uma letra que fez para a primeira filha de Nosly: “Gabriela é depois de June [outra parceria de ambos]. A história dela é linda. As histórias de minhas parcerias com Nosly são as mais lindas possíveis: eu fui para Belo Horizonte lançar um livro e estava em uma mesa na Universidade [Federal de Minas Gerais]. Conversando com a menina que produz, soube que ela era ex-namorada de Nosly, mãe de Gabriela, a primeira filha dele. Aí ela disse: “olha a foto dela” e eu vi a foto de uma menina de óculos, com sete anos. Quando eu vi aquele retrato eu fiz uma letra e mandei pra Nosly: “fiz pra tua filha”. [Cantarola/recita a letra:] “Menina que foi e veio/ carinha que vejo pelo meio/ pela frente, pelo dente, pela foto/ pelo fio do vestido de fivela/ eu sei quem é ela/ é Gabriela/ menina eu vi, viu?/ frente a frente/ distante tua fonte/ Belo Horizonte/ tua pele de princesa bela/ eu sei quem é ela/ é Gabriela/ a alma dela está ali/ sonhando além daqui/ daqui perto de mim/ como tinta numa tela de aquarela/ como boca num beijo de novela/ é ela que vai e vem/ colorindo seu estilo/ na berlinda linda das estrelas”. Em seguida Nosly se junta a ele, acompanhando a melodia ao violão.

 

Indago sobre a quantidade de parcerias e Nosly arrisca “que sejam umas 40”. “Muitas [estão] perdidas”, confessa Celso Borges. A já citada June é outra feita por correspondência. Ele relembra: “Nosly estava em Belo Horizonte, eu em São Paulo. Depois ele me liga: “CB, fiz a música”. Quando eu mandei a letra, eu já sugeri a incidental de Alegria, alegria [de Caetano Veloso; cantarola:] “por que não?/ por que não?”. Nosly complementa: “eu estava em casa estudando Sons de carrilhões, de João Pernambuco. Essa música, eu acho que foi um transe tão grande que hoje eu não me sinto capaz. Eu não conseguiria fazer essa melodia hoje. Na carta, é capaz de eu ter essa carta em casa, ele já sugeriu um aboio”.

Nosly afirma ter “um calhamaço, com parcerias, algumas inacabadas, com Gerô [o artista popular Jeremias Pereira da Silva, morto pela Polícia Militar em 2007], Zeca, Joãozinho [Ribeiro], Lobo [de Siribeira], Celso Borges. Tem mais de 10 anos que não abro, um dia eu mostro pra vocês”.

Celso Borges revela ter um punhado de fitas com parcerias deles gravadas e puxa da gaveta um hd externo, onde repassa, na tela de um laptop, nada menos que 83 parcerias, todas prontas, com Nosly, Zeca Baleiro, Gerson da Conceição, Chico César, Fagner, Otávio Rodrigues, Alê Muniz, Lourival Tavares, Mano Borges, Papete, César Nascimento, Tutuca, Djalma Lúcio e Madian. Empolgado, cantarola trechos de algumas letras e recita outras – em algumas tem mais dificuldade; talvez estivessem no rol das que ele já considerava perdidas.

“Essa aqui [In, gravada por Nosly no livro/cd XXI, de Celso, lançado em 2000] eu tinha feito a letra, um poema de amor [declama:] “te ponho dentro do poema/ entre vírgulas, parênteses/ tua pele passa/ e brilhas folha a folha/ te vejo entre aliterações e rimas/ teu corpo vivo/ nu no verso/ teu corpo verso, viva o verso/ no universo de teu corpo vivo”. Eu estava em Niterói, a segunda parte eu sabia [arrisca-se ao violão, cantarolando:] “o futuro não é delicado com a gente/ mas delicado multiplica-se nas páginas/ tu és o livro do mundo e ponto final”, eu fiz isso, mas eu não sabia fazer o começo”, remonta a feitura, esta com os parceiros lado a lado.

 

Os dois rememoram ainda Motor [gravada por Vange Milliet em Música, livro/cd de Celso, lançado em 2006] e Aldeia [parceria registrada em Parador, de 2011]. A primeira, realizada por e-mail; a segunda, uma morna com boi de zabumba: “eu fiquei vários dias ruminando isso [cantarola:] “as flores do norte perfumam/ juro que sei de onde vem”. Quando ele foi fazer o disco, eu cheguei, “tá quase pronta!”, Zeca gravou com ele. Ficou linda!”, derrete-se Celso.

Pergunto sobre a importância da parceria e ambos não escondem a admiração um pelo outro. “Eu tenho a sorte de ter parceiros muito musicais e Nosly não foge à regra. Hoje ainda conseguimos sentar e compor, conversar”, vibrou Celso. “Celso é um dos caras que mais incentivou a gente, lá no começo. Eu e Zeca, ele foi o primeiro cara que realmente nos impulsionou para a composição. A gente ficava acompanhando no jornal os poemas que ele publicava, a gente se identificava, gostava de ler. Ele despertou na gente essa coisa da composição. Nosso contato com o instrumento não era só o afã de tocar um pouquinho mais, passou a ser também o de compor, o de criar melodias. Depois ele fez um programa, Contatos imediatos, a gente ia, gravava, e ele botava no ar. Sempre estivemos muito próximos, embora depois eu tenha ido para Belo Horizonte, ele ficou aqui, depois eu fui para o Rio, ele para São Paulo, mas a gente nunca perdeu esse contato”, devolveu Nosly.

Chorografia do Maranhão: Luiz Cláudio

[O Imparcial, 8 de junho de 2014]

Nascido no Pará e radicado no Maranhão desde 1981, o percussionista Luiz Cláudio é o 33º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

O paraense Luiz Cláudio Monteiro Farias participou de alguns processos revolucionários da música produzida no Maranhão. Nascido em 17 de março de 1964, o músico aportou na Ilha no início da década de 1980 para trabalhar como intérprete em um hotel e nunca mais voltou à terra natal – a não ser a passeio e, recentemente, para gravar o disco do trio Loopcínico, que mistura os tambores do Maranhão a bases eletrônicas.

Filho de Cláudio da Silva Farias e Maria de Nazaré Monteiro Farias, é casado com Susana Almeida Fernandes, que o acompanhou à entrevista que concedeu à série Chorografia do Maranhão na Quitanda Rede Mandioca. Eles têm três filhos: Luiz Cláudio Filho, Leonardo e Luana.

Em paralelo ao ofício musical, Luiz Cláudio hoje continua trabalhando como tradutor e intérprete – a camisa que usava quando conversamos trazia a expressão “drums”, que pode ser traduzida como “tambores”. Ele carregava um derbak, instrumento egípcio e lembrou do arrebatamento que foi ver e ouvir o Tambor de Crioula de Mestre Leonardo pela primeira vez, numa longínqua manhã de domingo de carnaval.

Um dos mais requisitados percussionistas destas plagas, Luiz Cláudio já tocou e gravou com inúmeros artistas e não esconde serem os ritmos da cultura popular do Maranhão sua principal escola – mesmo quando o assunto é tocar choro, o que foi fundamental para o meteórico Choro Pungado, outra formação importante que integrou.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Quais as primeiras memórias musicais de tua infância? O que te tocou pela primeira vez? Foram as big bands americanas. Meu pai havia herdado do meu avô vários LPs. Meu avô trabalhava na Icome, uma empresa em Macapá, durante a segunda guerra mundial, ele trabalhava com código morse, numa base lá. Nessa interação com os aliados, era um ponto de abastecimento dos aviões americanos. Esses americanos começaram a trazer pra ele muitos LPs, aquela época de Glenn Miller [trombonista americano], Tommy Dorsey [trombonista e trompetista americano], isso foi herdado por meu pai, ele tocava isso na radiola em casa, a gente criança, e ele ficava dançando com a minha mãe o tempo todo, ouvindo aquilo. E a gente ouvindo aquela música boa. Claro, além daquilo a gente ouvia muita música brasileira, ele gosta muito de música brasileira. Dolores Duran, Maysa, Lupicínio Rodrigues, aí vai, Pixinguinha…

Com que idade você veio ao Maranhão? E o que te trouxe? Com 17 anos de idade. Eu vim trabalhar aqui como intérprete.

Já nessa idade? Já, já era formado em inglês, eu comecei muito cedo. Eu fui convidado pra ser o intérprete aqui, acho que o primeiro intérprete, na época era o [hotel] Quatro Rodas, hoje é o Pestana, passou por várias gestões. Um tio meu passou em casa, foi uma coisa do acaso. É o destino. Esse tio passou em casa numa noite, “olha, teu filho fala inglês, eu tou com um gerente amigo meu lá, indo morar em São Luís para ser gerente de um hotel, e precisa de um intérprete, que ele não fala português, tem que ter uma pessoa para treinar e cuidar da recepção. Teu filho não quer ir?”. Eu estava sentado na porta de casa, sem pretensão nenhuma, sem saber o que tinha no Maranhão, o que estava me esperando musicalmente, isso é uma coisa interessante, em um dia eu dei a resposta, em três dias eu estava morando aqui e nunca mais voltei.

Quando você chegou ao Maranhão, já tinha algum envolvimento com música ou isso apareceu aqui? Semiprofissionalmente, vamos dizer, aqui. Em Belém eu saía nas escolas de samba tocando tamborim, ainda naquela época de couro de gato, existiam fábricas famosas. Aqui é que eu tive o primeiro contato de tocar numa banda.

Você disse que não sabia o que te esperava em São Luís. O que era que te esperava em São Luís? A cultura popular, os tambores, que é minha principal escola.

Numa de tuas primeiras vindas ao Maranhão, na [praça] Deodoro, houve uma cena impactante. Exatamente. Havia um ônibus que eu tomava, o Calhau, que passava, passa até hoje, na frente do hotel, e deixa você no Centro da cidade. Me falaram, “olha, você quer conhecer o Centro? Você pega esse ônibus, você vai descer bem na Deodoro”. Eu tava de folga do hotel, fui embora. Era uma manhã de carnaval, época em que os tambores de crioula, naquela época iam muito às ruas tocar o carnaval. Nesse domingo eu desci na Deodoro e vi aquele tambor ecoando de longe, andei, fui chegando mais perto do som, era o Tambor de Mestre Leonardo. Aquilo foi um impacto, um raio, um clarão que abriu na minha cabeça. É isso aí que eu quero! Vou pesquisar, vou correr atrás. Em Belém o carimbó, as manifestações, os ritmos do Pará não aparecem, não estão tão presentes no contexto urbano, misturados com a cidade quanto aqui no Maranhão. Eu acho que aqui é mais que qualquer lugar do Brasil. [O impacto] foi uma coisa inexplicável, eu me aproximei, perguntei onde era a sede. Uma semana depois eu já estava lá frequentando para começar [a aprender a tocar].

Hoje você é um percussionista reconhecido não só aqui, mas nacionalmente. Quem você considera seus mestres? Quem te ensinou esse ofício da percussão? A minha formação musical não foi erudita, formal. Foi muito empírica, muito de ver, ouvir e depois levar para casa e fazer o dever de casa. Naquela época celular nem existia, a gente usava um gravador k7. Os mestres para mim foram Mestre Leonardo, do tambor de crioula, Mestre Felipe, também do tambor de crioula, e o Bibi, tocador chefe lá da Casa de Nagô, na Rua Cândido Ribeiro [Centro]. Eu os considero mestres por que eu não estudei música formalmente, então o que eu aprendi com esses ritmos me serve até hoje. Quando eu comecei a descobrir novos estilos musicais, como o choro, o jazz, que eu comecei a estudar música mesmo, esses ritmos daqui servem até hoje como a principal base, o principal alicerce. Neles você encontra todas as matrizes rítmicas africanas. Não só africanas, mas ibéricas, indígenas, você consegue absorver uma quantidade de informações rítmicas, tocando esses ritmos do Maranhão. O boi e o tambor, principalmente, eles têm uma polirritmia, é muito difícil. Quando você consegue entender a complexidade daquilo, tudo o que vem pela frente é fichinha, entendeu? Quando eu comecei a aprender outros estilos, eu pensava “eu já vi isso”. Tudo isso veio desses ritmos daqui, que são ancestrais, vieram da África, do Oriente Médio.

Quando é que você foi para São Paulo? Já tocava profissionalmente? Já. O primeiro grupo que eu participei foi o grupo Asa do Maranhão: Sérgio Brenha, Mano Borges, Chico Poeta, Celso Reis. Era uma movimentação muito forte, Rabo de Vaca, Terra e Chão, era um grupo da Universidade [Federal do Maranhão], Arlindo [Carvalho, percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013] fez parte. O Rabo de Vaca, que era uma escola, era Jeca [percussionista], Josias [Sobrinho, compositor], Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013]. O Asa do Maranhão foi um dos últimos e eu comecei no Asa, no Colégio Marista, ali no Centro. Depois vieram César Nascimento, o primeiro artista com quem eu toquei aqui, Mano Borges. Eu fui para São Paulo no final da década de 1980.

Foi a música que te levou para lá? Foi.

Você tem uma carreira paralela de tradutor e intérprete com a de músico. Houve alguma fase em que você tenha vivido exclusivamente de música? Muito. Em São Paulo eu vivi quase inteiramente de música. Nas horas vagas é que eu trabalhava como tradutor e intérprete, mas eu priorizava a música.

Lá você participou de vários trabalhos, gravação de discos. Muitos. Eu tive a sorte de cair num berço musical da boa música de São Paulo. Nada contra, mas quase não toquei em bares, quase não toquei em bandas cover. Só trabalhei com os grandes compositores, tanto na música instrumental quanto na cantada.

Cite alguns nomes. Vamos lá! Eu comecei com a Ceumar [cantora e compositora mineira hoje radicada na Holanda], vocês conhecem Dindinha [primeiro disco de Ceumar, lançado em 1999, produzido por Zeca Baleiro], a Rita Ribeiro [cantora maranhense radicada em São Paulo, hoje Rita Beneditto], gravei nos dois primeiros cds dela, Juliana Amaral [cantora paulista], Chico Saraiva [violonista carioca], Grupo A Barca, Nelson Aires, pianista, é muita gente! Gerson Conrad [compositor, ex-Secos e Molhados], que acabou voltando para a arquitetura, e Zeca Baleiro! Além de tocar e gravar com toda essa galera boa, eu participei de muitas oficinas e workshops com músicos e manifestações do Oriente Médio. Foi aí que eu conheci e fiz oficinas de música árabe, africana, cubana. Aí eu comecei a ver o Maranhão lá dentro. A bagagem, o que eles tocavam, eu dizia, “olha, isso tem lá no Maranhão”, mas não de forma arrogante. Eu levava o pandeirão, fazia um Boi de Pindaré, as células são muito parecidas com música marroquina. Uma coisa que eu sempre gostei foi fazer essa, vamos chamar de fusão, palavra batida, esse diálogo entre estilos e instrumentos musicais, misturando outras linguagens com as daqui. Pra mim a música é universal, então você pode fazer no pandeirão outros ritmos que não os tradicionais daqui, pode tocar no pandeiro outras coisas além de samba. Daí que vieram vários arranjos para o Choro Pungado.

Por falar em Choro Pungado, além dele e do Asa, que outros grupos você integrou? O Quinteto Calibrado, o Choro Pungado, o grupo Asa do Maranhão, o Duo Sound, com Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013], Som na Lata, Loopcínico, mais recente. Acho que foram estes.

E artistas com os quais você tocou? Ah, aqui em São Luís teve a Flávia Bittencourt [cantora], teve [os cantores e compositores] César Nascimento, Tutuca, Carlinhos Veloz, a gente fez uma excursão interessante pelo Projeto Pixinguinha [da Funarte]. Taí: eu toquei muito samba pelo Projeto Pixinguinha, na época eu encontrei [os sambistas] Luiz Carlos da Vila, Luizinho Sete Cordas e Moacyr Luz. Fizemos oito capitais do Nordeste, três dias em cada cidade. Toquei nos discos de Celso Borges [XXI, de 2000, e Música, de 2006]. Toquei no disco de Lena Machado [Samba de Minha Aldeia, de 2010], de Cesar Teixeira [Shopping Brazil, de 2004]. Cesar Teixeira e Josias Sobrinho pareciam, para mim, antes de conhecê-los pessoalmente, eram como deuses. Eu não sou daqui. Quando eu cheguei, eu morei na esquina de São João com Afogados, ao lado do Chico Discos, no mesmo prédio. Eu descia e parava na casa de Arlindo, que eu posso dizer que foi o meu primeiro grande influenciador na coisa da percussão moderna, me inspirou muito, a coisa do set, eu já falei isso pra ele, ele não acreditou [risos]. Ele me abriu a cabeça. Voltando a Cesar, de repente ele me chama para gravar, acho que é o único registro dele até agora, foi o maior presente da música maranhense, ter gravado nesse cd.

Quais os discos mais importantes nos quais você já tocou? Cesar Teixeira, Ceumar, Dindinha, Som na Lata, que é um projeto social, um cd muito bom, Loopcínico, pra mim é um marco, um divisor de águas, embora não compreendido, mas um dia a gente vai ser [gargalhadas]. Vô imbolá [de Zeca Baleiro] e Rubens Salles, foram dois cds que eu gravei, Liquid Gravity e Munderno, um gravado em São Paulo e o outro em Nova Iorque.

Vamos falar de choro. O que significou para você integrar o Choro Pungado e o Quinteto Calibrado? Aprendizado. O Quinteto Calibrado, os caras, a veia deles é muito forte, tradicionalistas, é importante beber na tradição. O moderno você pode vir com milhões de ideias novas, mas você não pode trabalhá-las sem entender como é feito originalmente. Essa é a base, em cima dessa base, que não pode ser mudada, alterada, você pode inserir outros elementos. Por isso é importante conhecer e tocar com os caras que entendem isso. Foi muito bom. Daí, amizade com Luiz Jr., Rui Mário [sanfoneiro, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de julho de 2013], pensamos em criar um grupo diferente, de choro, respeitando as tradições, o original, mas dialogando com essa rítmica maranhense. Daí surgiu o Choro Pungado, que era um laboratório vivo de criação. Nós íamos lá para casa ensaiar, comer os quitutes que a Suzana fazia, acho que é por isso que os ensaios rendiam muito [risos]. Lá em casa eles fizeram duas músicas, uma foi Fim de tarde, do Robertinho Chinês [bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], parece que o Nicolas Krassik [violinista francês radicado no Rio de Janeiro] gravou [Krassik tocou violino na faixa, no disco Made in Brazil, de Robertinho Chinês]. O Choro Pungado pra mim foi também um divisor de águas na minha cabeça, eu achava que choro tinha que ser tocado só daquela maneira, que é lindo, maravilhoso. Eu cheguei a assistir em São Paulo o [Conjunto] Época de Ouro, ainda com o pai do Paulinho da Viola [o violonista César Faria, falecido], e ele tocando junto. Quando eu vi isso foi uma coisa de louco! O Choro Pungado serviu também, pra mim acho que foi o maior legado dele, ele desencadeou interesse em alguns dos músicos por essa coisa de buscar o novo sem ter medo. Posso dizer, acho que ele vai concordar quando ler, o Rui Mário, ele já era um grande músico, mas abriu mais ainda a cabeça dele. quando nós trouxemos o Rui pro Choro Pungado, ele ainda tem a veia do baião, do forró da família, tradição. Eu lembro de ter apresentado pra ele dois caras: o Piazzolla [o falecido compositor e bandoneonista argentino Astor Piazzolla], colocamos Libertango no repertório, depois o Toninho Ferragutti [sanfoneiro], com quem eu já havia gravado e tocado em São Paulo, com Nelson Aires. Eu acho que isso foi uma alavanca para ele enveredar por essa coisa que ele faz hoje, que é misturar o jazz, um pouco de erudito, sem deixar de lado as raízes dele. O maior legado do Choro Pungado acho que é esse. Robertinho fez um cd logo depois aproveitando essas influências. João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014] já era um grande músico, hoje está melhor ainda.

Para você, o que é o choro? Eu acho que o choro é o retrato da nossa cultura popular brasileira, da música de massa, da música da rua, com esse tratamento mais sofisticado da música erudita, não vou dizer do jazz. Eu acho que os choros originais, os primeiros, não têm essa influência jazzística, tem mais essa influência erudita, clássica. É isso, essa união dessa influência barroca, da música clássica no Brasil, com nossas raízes africanas, principalmente, a síncope do samba, souberam fazer esse casamento muito bem.

Quem hoje no Brasil te chama a atenção? Que você ouve e para para escutar? [O grupo] Nó em Pingo d’Água, gosto do Hamilton de Holanda [bandolinista]. Dos atuais, que estão aí. Paulinho da Viola [cantor, compositor e instrumentista] tem um lado chorístico muito forte.

Voltando a antes do Choro Pungado e do Quinteto Calibrado: como foi que você caiu no choro? Você lembra de um marco? Lembro. Antes desses grupos, a gente fazia música de um modo mais espontâneo. Centro da cidade, acho que já existia a ponte, mas não existia o outro lado, não havia música, movimento. Eu lembro de sair da porta do Laborarte [o Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão], grupo que eu fiz parte, outra escola muito importante da minha vida, gestão Nelson Brito [dramaturgo, falecido], quando ele assumiu. Lá nós saíamos sete horas da noite, eu, Jorge do Rosário, na percussão. Era uma percussão de choro, pandeiro, atabaque de couro e madeira, um cavaco, era um sambista da antiga, usava uma boina, Bonifácio, e um sete cordas, irmão de Sávio Araújo, seu Nato [Araújo]. A gente saía tocando choro e samba, pelo prazer de tocar e ganhar algum trocado para tomar cachaça. Olha o nosso percurso: a gente saía do Laborarte, encostava no Rui [o Bar do Rui, vizinho ao Laborarte, na Rua Jansen Müller, no Centro de São Luís], tocava, passava o chapéu, era assim, uma maravilha! De lá a gente ia pro Hotel Central [na Praça Benedito Leite, Centro, hoje desativado], o chapéu rodava, a grana ia toda pra comida e bebida. Nessa peregrinação, a gente fazia uns três, quatro bares num fim de semana, numa sexta-feira. Minha escola começa aí. O Nato era nosso guarda costas, ele era fortão. De vez em quando tinha uma treta nesses bares e a gente botava “Nato, vai lá e resolve!”. Ele não levava desaforo pra casa.

Você se considera um chorão? Sim, me considero. Acho que todo músico brasileiro tem que se considerar chorão, por que é o estilo musical que conseguiu sintetizar em um só bom gosto e elegância, nos arranjos executados, além de uma percussão muito forte, que é a marca nossa. Com todo respeito ao baião, mas dos estilos brasileiros é o mais bem lapidado e acabado. É uma música muito detalhista. Eu gosto de ser chorão, mas ainda não sou chorão: se você absorver e conseguir, eu não consegui ainda, tocar aquilo com domínio total, você consegue tocar qualquer outra música. Muita gente não gosta, mas todo músico brasileiro deveria passar pelo choro. É uma escola maravilhosa.

Como você avalia o choro praticado hoje em São Luís? Muito bom, muito fértil. Acompanho pelos jornais, eu não saio muito à noite. A velha guarda, os tradicionais continuam aí, Tira-Teima, Pixinguinha, e tem vários grupos novos que eu ainda não tive oportunidade de assistir. Só o fato de ainda estarem criando grupos novos significa que a linguagem continua firme e forte. Duas faculdades de música, os músicos dentro dessas faculdades, alguns integrantes de grupos estudam nestas faculdades. Para a cena está faltando voltar o nosso Clube do Choro [Recebe].

Qual a importância daquele projeto? Foi decisivo. Não só pro choro, mas pra música instrumental como um todo. Lá você permitia que nós tocássemos o choro, o samba e trabalhos autorais. Acompanhamos o Criolina [os cantores e compositores Alê Muniz e Luciana Simões], Bruno Batista [cantor e compositor] e outros cantores que foram lá, com ou sem influência do choro. E grupos instrumentais que além do choro tocavam outros gêneros. Tinha aquele aspecto muito informal, o público frequentava, prestava atenção, e foi gravado, muita memória ali, muitos grupos tocaram, acabaram, outros se formaram a partir dali. Foi um marco que precisa voltar.

Eu queria que você comentasse rapidamente o Som na Lata e o Loopcínico, os discos, os processos. O Som na Lata foi, ainda é até hoje, a gente vive numa cidade muito injusta socialmente, uma inquietação a partir de meu dissabor em ver muitas crianças desocupadas, mas com ritmo, talentosíssimas. Daí eu comecei a fazer oficinas no GDAM [o Grupo de Dança Afro Malungos, sediado no Parque do Bom Menino], a convite do Adão [liderança do GDAM]. Esse trabalho começa com oficinas de educação ambiental, ética, disciplina, a gente passa esses conceitos para as crianças, depois entra na parte musical, muito forte, culminando com a formação de uma banda e o cd. Eu concluí todas essas fases e saiu aquele cd, nós fomos premiados pela Universidade FM, melhor hip hop, tinha essa categoria. Uma das músicas [Shopping Brazil] de Cesar Teixeira fala no som da lata, [cantarola:] “o quê que tem? Se eu como na lata?”. A música tinha tudo a ver e ele, com aquela cabeça maravilhosa, cedeu esse espaço [parte dos músicos do Som na Lata participou da gravação da faixa-título do disco Shopping Brazil]. O Som na Lata tem que voltar e nós vamos voltar em breve. O Loopcínico vem de outra inquietação: quando eu estava em São Paulo eu conheci a música eletrônica, entre os anos 1980, 90, tocava lá nos clubes, nas casas noturnas, fazia produção com alguns djs, como o Érico Teobaldo, que produziu um dos cds [PetShopMundoCão] do Zeca [Baleiro], mas não tinha conseguido ainda uma forma de trabalhar a música eletrônica que fosse completamente dominado pela música maranhense. Eu consegui com o Loopcínico, ali eu consegui dar voz aos tambores. O disco foi gravado em Belém, no estúdio Ná Music, mas com a linguagem maranhense. O disco foi indicado agora ao Prêmio da Música Brasileira 2014. Entre quase cinco mil cds nós ficamos na pré-seleção entre cento e poucos. Pra mim já foi um prêmio. Eu chamei Beto Ehongue [cantor, compositor e dj] e Lobo de Siribeira [cantor e compositor], foi a formação inicial. O Loopcínico era um sonho antigo como percussionista, instrumentista. A concepção dele é muito nova, não a base, a eletrônica já existe há muito tempo, mas a concepção desse cd, inserido no nosso contexto, ainda está sendo muito nova. Muita gente não percebeu que os tambores foram gravados ao vivo, eles não foram sampleados, há uma diferença. Muita gente ainda não conseguiu entender por que aqueles tambores estão ali misturados com as bases eletrônicas.

Música com Z. Com dois ZZ

Foto: Joelma Santos
Foto: Joelma Santos

 

Para alguns a fórmula voz e violão pode estar desgastada. Para outros pode ser um momento de maior intimidade entre artista e público, sobretudo por que permite mostrar as canções mais próximas de sua feitura, além do risco maior ao erro – não há “cozinha” para encobrir qualquer vacilo. O formato enxuto permite ainda maior atenção às letras – o que deve sempre ser valorizado em se tratando do encontro de dois grandes compositores brasileiros.

É quase certo que todas as almas que lotaram completamente o Teatro Arthur Azevedo ontem (18) concordam que o formato “apartamento” do show intimista de Zélia Duncan e Zeca Baleiro enquadra-se na segunda categoria. O espetáculo será reapresentado hoje (19), às 21h, mas parece que os ingressos também já estão esgotados.

Duncan e Baleiro relembraram grandes sucessos seus e músicas importantes para sua formação, contaram causos – principalmente ele –, entre muitos gracejos mútuos, com um quê de teatral, mas bastante espontâneos.

O show que tem circulado por várias cidades brasileiras nasceu de um projeto abortado. Seria no mítico Teatro Castro Alves, em Salvador/BA, e reuniria várias duplas mais ou menos inusitadas. O projeto não aconteceu, mas a turnê do par de Zês, sim.

Como tudo começou na Bahia – como alguns advogam ao falar de samba e de Brasil – logo eles tinham na mão uma letra do lendário Galvão, letrista dos Novos Baianos. Parceria a três, Zélia e Zeca assinaram a melodia de Fox baiano, um dos pontos altos do show, em que Baleiro toca ukulele – a música já é hit em rádios e no youtube.

Por falar em Bahia, ela ataca de Eu queria ela (Amor proibido), de outra lenda viva do samba baiano, Clementino Rodrigues, vulgo Riachão, que ela apresentou dizendo tratar-se de um daqueles compositores populares na verdadeira acepção da palavra, daqueles que fazem músicas que dá vontade de sair cantando junto à primeira audição. Muitos dos presentes certamente não conheciam a música, mas quando Zélia repetiu a primeira estrofe, já cantaram junto com ela: “eu queria ela/ eu queria ela/ mas ela não me quis/ ela não me quer/ é problema dela”. Uma delícia!

“Vou cantar uma de um grande poeta aqui do Maranhão, Fernando Abreu”, Zeca anunciou Alma nova, parceria deles. “Deixa eu ser, por uns instantes, parceira de vocês. Posso, Fernando?”, pediu Zélia humildemente antes de dividirem os vocais.

“Quando começamos a montar o show, cada um trouxe coisas de seu baú afetivo. E eu adorei quando a Zélia trouxe essa aqui, do Roberto e do Erasmo, acho que mais do Erasmo, um lado b, o que em se tratando de Erasmo é quase um lado c”, contou Zeca antes de começarem a cantar Grilos.

Outra história contada por Zeca para gargalhada geral do público foi a seguinte, resumidamente: “uma vez uma colunista social foi entrevistar a Maria Creuza [cantora] e mandou: “como é ser casada com Antonio Carlos e Jocafi”?”. Ele ilustrava a mania quase geral – na qual ele mesmo se incluiu ao anunciar que iria cantar uma música “do Antonio Carlos e Jocafi” – de tratar a dupla como se fossem uma pessoa só. E mandou Você abusou.

Ela também contou um causo: “quando Catedral [versão dela e Christiaan Oyens para Cathedral song, de Tanita Tikaran] estourou eu comecei a rodar o Brasil. E eu sempre tive uma mania de visitar um lugar que muita gente aqui não conheceu, chamado loja de discos. E eu estava em uma loja de discos em Curitiba, sozinha, lá no fundo, quando um rapaz entrou e pediu: “eu quero uma música que tá tocando na novela”. E o vendedor perguntou: “é lenta ou é rápida?”. E ele: “é lenta”. “Quem canta é homem ou mulher?”. E o rapaz: “não sei”. Eu levantei o dedo e falei: “sou eu””.

Um vídeo exibido antes do espetáculo e uma fala idem, apresentando sua ficha técnica, traziam advertências sobre o uso de celulares para fotografá-lo e filmá-lo, devidamente desrespeitadas pela plateia. Com a elegância e o bom humor peculiares, tiraram onda e cantaram o samba inédito Ah, Eugênio (parceria deles com outro novo-baiano, Paulinho Boca de Cantor), sobre facebooks, iphones, selfies e a dependência nossa de cada dia de tecnologias e remédios controlados.

Não faltaram a parceria inaugural da dupla, Se um dia me quiseres, gravada por ela em Pelo sabor do gesto. Daquele disco, pescaram ainda Tudo sobre você (parceria dela com John Ulhoa). Nos momentos em que ficaram sozinhos no palco, primeiro ela, depois ele, ela cantou Tevê, parceria dele com Kléber Albuquerque, e Quase nada, parceria dele com Alice Ruiz, e ele cantou Nos lençóis desse reggae, parceria dela com Christiaan Oyens.

Aplaudidos de pé, voltaram para o bis em que cantaram assim, ampliando a comunhão com a plateia. Ajudados um pelo outro, e em uníssono pelo público, novamente de pé, cantaram Catedral, sucesso dela, e Telegrama, dele, em meio ao qual couberam, incidentais, Engenho de flores (Josias Sobrinho) e Vassourinha meaçaba (Chico Maranhão), fora a incidental natural Estrada do sol (Dolores Duran e Tom Jobim), cujos versos “me dê a mão/ vamos sair pra ver o sol” pareciam iluminar a noite ludovicense com o sol de Leminski: aqueles dois ZZ juntos não significam nem dão sono.

Adiado show de Patativa

Figa pra espantar o mau olhado. Foto: Beto Matuck
Figa pra espantar o mau olhado. Foto: Beto Matuck

 

O show que a compositora Patativa apresentaria neste sábado (14), no novo Barulhinho Bom (Praia Grande), foi adiado. Maria do Socorro Silva, a Patativa, “foi acometida por uma virose e não teria condições de cantar”, informou a produção.

Em novembro passado ela lançou seu disco de estreia, Ninguém é melhor do que eu, em show no Porto da Gabi. A ideia da apresentação cancelada era proporcionar ao público ludovicense nova oportunidade de vê-la no palco. Mês que vem ela deve realizar uma turnê no circuito Sesc/SP, com produção de Zeca Baleiro.

Em momento oportuno, a produção informará nova data para o show de Patativa, o que este blogue terá o maior prazer em divulgar.

Março fazendo água – É o segundo show adiado em São Luís este mês. Sexta passada (6), o lançamento de Milhões de Uns – vol. 1, de Joãozinho Ribeiro, que inauguraria uma temporada do compositor, anunciado para o Bar do Léo, não aconteceu. A produção do compositor também deve anunciar a nova data de estreia em breve.