“Violivoz”: Chico César e Geraldo Azevedo para êxtase da plateia

Fotos: Hebert Alves. Divulgação

Foi uma noite de fartura.

O cearense Lucas Ló, radicado há cinco anos em São Luís, desfiou um repertório inteiramente nordestino, com especial destaque para o ídolo conterrâneo Belchior, com bastante personalidade.

Acompanhado por Jessé Fonseca, num teclado cheio de balanço e personalidade, passeou ainda por nomes como Fagner, Djavan, Carlinhos Veloz, César Nascimento, Sérgio Habibe e Josias Sobrinho.

Aos pedidos insistentes de “Barco de papel”, joia de sua autoria, respondeu com um educado “já rolou”; o pedido partia dos que adentraram a sala atrasados. Um dos nomes mais sofisticados da noite ludovicense, Ló se apresentou por cerca de hora e meia preparando o terreno para a noite inesquecível que viria, ao mesmo tempo sendo parte dela.

Não faltaram clássicos como “Apenas um rapaz latino-americano”, “Pequeno mapa do tempo”, “Alucinação”, “Fotografia 3×4”, “A palo seco” e “Mucuripe”, da lavra de Belchior, esta última em parceria com Fagner, “Noturno” (Graco/ Caio Silvio), “Serrado” (Djavan), “Ilha bela” (Carlinhos Veloz), “Ilha magnética” (César Nascimento), “Eulália” (Sérgio Habibe) e “Engenho de flores” (Josias Sobrinho).

“Se alguém me dissesse, há cinco anos, quando saí do meu Ceará, que hoje eu estaria aqui, abrindo o show dessas duas figuras centrais na minha formação, nesse teatro lotado, eu não acreditaria. É um momento muito importante para mim”, revelou Ló, agradecendo a presença do público, em cujo repertório se destaca ainda a também autoral “Ode a São Luís”, inédita, em que ele, de certo modo canta sua rota e a receptividade com que foi acolhido na ilha do amor. Uma avant-première aos atentos que chegaram cedo.

Quando Chico César e Geraldo Azevedo subiram ao palco, a cama estava pronta.

“Violivoz” é um show vigoroso e sincero. Sobem ao palco sem firulas, dizendo logo a que vieram: atacam a introdução de “Táxi lunar” (Alceu Valença/ Geraldo Azevedo/ Zé Ramalho), mas antes de cantarem, emendam a “Cantiga (Caicó)”, das Bachianas Brasileiras, de Heitor Villa-Lobos, sucesso de Teca Calazans, com alterações na letra, a homenagear suas terras natais e reafirmar a admiração mútua: “oh, mana, deixa eu ir/ oh, mana, eu vou a pé/ oh, mana, deixa eu ir/ para o sertão de Catolé”, começa Chico, referindo-se a Catolé do Rocha, na Paraíba, seguido por Geraldo: “oh, mana, deixa eu ir/ andar é minha sina/ oh, mana, deixa eu ir/ para o sertão de Petrolina”, e depois: “oh, mana, deixa eu ir/ oh, mana, eu vou cedo/ oh, mana, deixa eu/ cantar com Geraldo Azevedo” e “oh, mana, deixa eu ir/ andar com quem me preza/ oh, mana, deixa eu/ cantar com Chico César”. A determinada altura de “Táxi lunar”, Geraldo Azevedo solta um “vai, Zé!” e Chico César imita a voz de Zé Ramalho. E era apenas o primeiro número.

O vigor a que me referi diz respeito ao fato de a dupla cantar e tocar – e por vezes dançar – por duas horas e 15 minutos de espetáculo, de pé. A sinceridade é percebida na admiração mútua várias vezes declarada. Um é fã do outro, os dois se tornaram amigos e parceiros. Geraldo Azevedo, ao lembrar de como se conheceram, convidado a gravar uma música de Chico César em um disco produzido por Totonho, que homenageava as vítimas da chacina da Candelária, no Rio de Janeiro, nunca lançado, já percebeu ali suas qualidades. Depois, quando Chico lançou “Aos vivos” (1995), seu disco de estreia, revelou ter comprado 50 exemplares e distribuído a amigos, produtores, em suas turnês pelo Brasil e Europa. “O Belchior, que é da minha geração, dizia que “nossos ídolos ainda são os mesmos” e Chico César era um ídolo novo e eu queria apresentá-lo pra todo mundo”, disse Geraldo. Chico completou: “Belchior também dizia que “o novo sempre vem”” e revelou a influência exercida sobre o então adolescente pelo disco “Cantoria 1” (1984), que registrou o encontro de Geraldo com Elomar, Vital Farias e Xangai.

“Para mim é uma alegria muito grande dividir o palco com Geraldo Azevedo, é uma baita honra vê-lo cantando uma música minha”, declarou Chico, depois de cantarem juntos “Estado de poesia” (Chico César).

É um show de entrega. Não há momentos solo de um e outro artista. Eles cantam juntos o tempo inteiro o repertório um do outro e de artistas admirados, casos de Geraldo Vandré (“Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando)” é emendada a “Mama África”, de Chico), Milton Nascimento e Caetano Veloso (“Paula e Bebeto”, gravada por Geraldo em 1979) e Paul Anka (a versão de Fred Jorge para “Diana”). Ninguém se cansa: nem os artistas no palco, nem a plateia. Todo mundo em comunhão. Ou quase.

Quando Chico César anunciou que cantaria “outra canção de amor, de nosso amor pela Terra, pelos pequenos agricultores, uma parceria minha com Carlos Rennó”, e atacou de “Reis do agronegócio”, um coro de “Fora Bolsonaro!” se ouviu no Centro de Convenções. Uma tentativa de vaia, raquítica, foi encoberta, e prevaleceu a vontade da maioria. Outros gritos de “Fora Bolsonaro!” vieram e Chico César, numa sequência demolidora, mandou, sempre acompanhado por Geraldo Azevedo, “Pedrada” (Chico César), cujo refrão diz: “fogo nos fascistas, fogo Jah!”. “Essa música, a primeira vez que eu cantei, foi em cima dum trio elétrico, num carnaval, aqui em São Luís, para 100 mil pessoas, e eu fiquei muito contente com a receptividade”, lembrou.

Em “Bicho de sete cabeças” (Geraldo Azevedo/ Renato Rocha/ Zé Ramalho), passaram perto de 10 minutos solando seus violões, até cada um cantar uma parte da letra, sem as sobreposições que a tornaram um clássico. Comentaram a pandemia, o isolamento social, a gênese do show, após Chico ter assistido a um show de Geraldo em São Paulo e terem ido para a casa do primeiro, depois do espetáculo, tocar violão na cozinha. Tocaram duas parcerias, uma inédita e o single “Nem na rodoviária”, já disponível nas plataformas de streaming.

São duas gerações de artistas, convivendo harmoniosa e respeitosamente, Geraldo aos 77 anos, Chico aos 58. Têm a mesma grandeza e importância. Nenhum se sobressai ao outro e o equilíbrio é também uma característica de destaque do show. São dois artistas que, cada um a seu tempo, souberam cativar o público de São Luís – suas apresentações por aqui são sempre marcadas por casas cheias e intensa interação das plateias. Ontem não foi diferente.

Perto do fim do show, Geraldo apenas ameaçou cantar “Terra à vista” (Carlos Fernando). Puxou o “San, san, san, São Luís do Mará” do refrão, que a plateia imediatamente repetiu em coro, mas deixou apenas a vontade no público. Alguém na plateia, insistentemente pedia “Pétala”, não o sucesso de Djavan, mas abreviando o título de “Pétala por pétala” (Chico César/ Vanessa Bumagny). “A gente vê muito homem ansioso, mulher é menos. A mulher goza melhor por que ela goza depois, goza mais e melhor; o homem é sempre aquela pressa, de querer gozar logo”, contou para gargalhadas da plateia e o não-atendimento ao pedido renitente.

Chico César citou vários amigos, maranhense ilustres, afirmando ser uma honra estar mais uma vez em sua terra: Papete, Rita Benneditto, Josias Sobrinho, Chico Saldanha, Flávia Bittencourt, Alcione. E Celso Borges, a quem fez especial deferência: “foi quem me apresentou a Zeca Baleiro. A gente já morava em São Paulo e ele um dia me disse: olha, tem um amigo meu, do Maranhão, vindo morar aqui, é meio doidinho assim que nem tu, não é bem compreendido em nossa terra; isso naquela época, e eu entendi de cara o que ele queria dizer”, contou, para risadas da plateia. Em seguida ofereceu-lhe “Você se lembra” (Geraldo Azevedo/ Pippo Spera/ Fausto Nilo).

Também cantaram juntos “Pedra de responsa” (Chico César/ Zeca Baleiro) e na sequência Geraldo puxou, a capella, o refrão de “Cadê meu carnaval” (Geraldo Azevedo), que ele cantou, modificando a letra: “Olê lê lê/ cadê meu carnaval?/ olê lê lê/ cadê meu carnaval?/ carnaval está chegando/ cadê meu carnaval?” – a letra original diz “carnaval está morrendo”. O público ficou cantando enquanto eles se retiraram do palco.

Aos gritos de mais um, retornaram, para delírio dos presentes, mandando o clássico “Dona da minha cabeça” (Geraldo Azevedo/Fausto Nilo), em arranjo de reggae. Já não havia mais ninguém sentado, praticamente todo mundo cantava junto e alguns casais arriscavam uns passos.

Um final apoteótico de um show antológico, de uma turnê adiada e interrompida pela pandemia de covid-19, indefinidamente prorrogada pela irresponsabilidade de uns poucos que insistem em querer um Brasil feio e triste, justamente o contrário do colorido das roupas dos artistas e da diversidade que sua música representa, afinal de contas o Brasil alegre e festeiro, que haverá de prevalecer. Espero que este dueto, esta cantoria, este grande encontro, vire disco. Oxalá!

Zeca Baleiro relê assuntos populares e lados b de Zé Ramalho

Chão de giz. Capa. Reprodução
Chão de giz. Capa. Reprodução

 

Há quase 20 anos, quando estreou no mercado fonográfico com Por onde andará Stephen Fry? [1997], Zeca Baleiro já mostrava a que veio. Revelou-se compositor de talento, acima da média, além de intérprete original. Em um disco quase completamente autoral, gravou Essas emoções (Donato Alves), toada do bumba meu boi de Axixá.

Parte da crítica, mais acomodada e afeita a rótulos, não hesitou em cravar no artista que então aparecia a alcunha de “o novo Zé Ramalho” ou coisa que o valha, talvez por conta da proximidade temática de Heavy metal do senhor, que abre a estreia do maranhense, e A peleja do diabo com o dono do céu, faixa título do segundo disco do paraibano – a análise, com quase duas décadas de distância, é do próprio Zeca Baleiro, em texto de apresentação de seu novo trabalho.

Em Vô imbolá [1999], seu segundo disco, Zé Ramalho daria as caras – e a voz. Cantariam juntos Bienal, música de Baleiro inspirada no universo dos repentes e violas, em que tira um sarro do mercado de artes.

Chão de giz – Zeca Baleiro canta Zé Ramalho surgiu após um desafio aceito pelo primeiro, não após certa hesitação. Com curadoria de Monique Gardenberg, o projeto BBCovers, do Centro Cultural Banco do Brasil, teria diversos artistas interpretando a obra alheia, e ao maranhense cabia justamente a obra do “admirável bardo” paraibano. Há alguns anos, Baleiro havia dividido um disco de inéditas com Fagner [Raimundo Fagner e Zeca Baleiro, de 2003], outro nome da chamada geração Nordeste 70, outro artista admirado pelo garoto nascido na terra de João do Vale na década anterior.

Lançado em cd e dvd, Chão de giz passa por grandes hits de Zé Ramalho, repetidos à exaustão por qualquer cantor em qualquer barzinho, mas traz também lados b. “Um “tributo” a um cara como Zé, com cerca de 40 anos de carreira e um repertório consolidado, não poderia omitir seus sucessos populares, concorda? Mas fazer um show só com os hits seria tedioso e acomodado. Juntei as canções-estandartes, como Avohai e Admirável gado novo a lados b que gosto muito, como Um pequeno xote e Kamikaze, além de algumas pérolas esquecidas”, contou Baleiro com exclusividade ao blogue.

Para Ave de prata, que abre Chão de giz, Zeca Baleiro (voz, violão, ukelele e guitarra) chega de capa e chapéu, acompanhado por Adriano Magoo (teclados, acordeom, violão e vocais), Fernando Nunes (contrabaixo, violão sete cordas, triângulo e vocais), Kuki Stolarski (bateria, pandeiro, zabumba, violão e efeitos), Pedro Cunha (teclados, acordeom, sampler, escaleta e vocais) e Tuco Marcondes (guitarra, violão, mandolin, sitar, banjo e vocais).

O próprio Zeca Baleiro considera a experiência curiosa, já que em sua fase de barzinhos, antes de deixar São Luís e estrear em disco, não lembra de ter cantado Zé Ramalho. “Não me lembro de ter cantado Zé quando cantava na noite. Meu repertório era muito insólito, talvez por isso não tenha feito “sucesso” como músico de bar [risos]. De todo modo, é certamente uma volta à origem, à época da minha formação, de quando começava a tocar violão e surgia essa turma do Nordeste – Zé, Belchior, Fagner, Ednardo, Alceu [Valença], Geraldo [Azevedo], Vital [Farias]”, enumera.

No dvd há projeções de Ivan, o terrível [1944], de Sergueï Einsenstein, ilustrando Kriptônia, e Powaqqatsi [1988], de Godfrey Reggio, em Admirável gado novo, num interessante diálogo visual com as músicas, de certo modo ajudando a garantir certo tom sombrio, talvez apocalíptico, profético, para ficar em adjetivos quase sempre usados para se referir ao repertório ramalheano. “É estranho, porque não é Brasil, mas tem tudo a ver”, afirmou Baleiro sobre a segunda, como nos conta a diretora Monique Gardenberg em texto de apresentação ao projeto.

Em alguns momentos Baleiro suaviza Ramalho, noutras mantém os arranjos próximos aos originais, sempre com uma pegada original, sem se contentar com o conforto da posição de cover. Ele é parceiro de Zé Ramalho em O rei do rock, música já gravada pelo homenageado em Parceria dos viajantes [2007]. “Eu escrevi a letra de O rei do rock inspirada no Zé, na sua persona artística, esse misto de caubói, profeta, justiceiro, visionário. Ele musicou e gravou, numa onda meio “rock cigano”, mas refiz o arranjo e o rock ganhou uma pitada de rap”, comentou. Em Bicho de sete cabeças [Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Renato Rocha], Baleiro opta pela versão instrumental, anterior à com letra, que já tinha gravado para a trilha do filme homônimo [2001], de Laís Bodanzky.

Em roteiro bem construído e edição caprichada, Chão de giz guarda ainda ótimos momentos em seus extras. Quando canta Frevo mulher cita Bob Dylan – artista reverenciado tanto por Baleiro quanto por Ramalho – e é imediata a cumplicidade da plateia; lá também está o registro da única música não composta por Zé Ramalho, mas cuja gravação definitiva, inclusão em trilha de novela e execução à exaustão, fazem muita gente crer nisso: Entre a serpente e a estrela [de Frevoador, 1992], versão de Aldir Blanc para Amarillo by morning (Terry Sttaford e P. Fraser).

O próprio Zeca, antes de aceitar o convite para reler a obra do autor de Vila do sossego, afirmou, também no texto de apresentação, a admiração pela obra de outros nomes da música brasileira, entre os quais Luiz Melodia, Martinho da Vila, Tom Zé, Jackson do Pandeiro e Sérgio Sampaio, de quem já produziu disco póstumo [Cruel, de 2005] e relançou Sinceramente [1982], por seu selo Saravá Discos.

Sabedor de sua citada admiração por outros nomes, sobretudo os nordestinos surgidos na década de 1970, indago-lhe se há algum outro artista com quem Baleiro tenha vontade de dividir disco, show e/ou se tornar parceiro. Ele responde, terminando a conversa com um sorriso: “Todos. A obra de Belchior merece um belo tributo. Mas minha carreira de “crooner da caatinga” se encerra aqui [risos]”.

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Confiram Zeca Baleiro em Não existe molhado igual ao pranto [Zé Ramalho e Lula Côrtes]:

Subiu o grande Dominguinhos

Embora o nome artístico fosse um diminutivo, Dominguinhos foi grande. Talentoso e plural, modernizou a música nordestina, que tem ainda em Luiz Gonzaga, nosso primeiro artista pop, seu maior representante, de quem o saudoso sanfoneiro é o maior discípulo.

Dominguinhos é autor de um sem número de clássicos da música brasileira, em parceria com nomes tão diversos quanto Abel Silva, Gilberto Gil, Moraes Moreira, Nando Cordel, Chico Buarque, Djavan, Fausto Nilo, Manduka, Yamandu Costa, os irmãos Clodo, Climério e Clésio, Guadalupe e, quiçá a mais constante, Anastácia, entre outros.

Sua sanfona passeava pelo forró, xote e baião nordestinos, mas também espraiava-se com igual desenvoltura por choros, sambas, tangos, baladas e o que mais aparecesse – para executar ou inventar. Seu talento de melodista é conhecido de todos nós, que por vezes assobiamos, aqui e ali, músicas suas, muitas vezes desconhecendo sua autoria.

Sabem quando uma música é tão cantada e tocada em todo canto que a noção de autoria fica um pouco perdida? Aquela sensação que nos leva a perguntar: como é que isso sai da cabeça (coração e mãos) de uma pessoa? E a afirmar: gênio! Eis aí um adjetivo perfeitamente cabível a Dominguinhos.

Além de talentoso, Dominguinhos era generoso: teceu merecidos elogios a Rui Mário, em uma apresentação no Rio Grande do Sul, história que ele contou à Chorografia do Maranhão [O Imparcial, 7 de julho de 2013, em breve penduro acá no blogue], e tocou nos dois primeiros discos de Flávia Bittencourt, o segundo, Todo Domingos, inteiramente dedicado ao repertório do sanfoneiro. “Ele foi [participar do disco] numa boa, super atencioso. […] Tem uma coisa de alma, você bate mais com umas pessoas que com outras, foi isso que aconteceu com Dominguinhos. […] Ele me apoiou, me emprestou os discos todos, ajudou na liberação das músicas. […] Vou agradecer sempre a participação dele ativa nesse processo todo”, a cantora me contou em entrevista.

Depois de seis anos de luta contra um câncer de pulmão, o filho mais ilustre de Garanhuns – perdoem-me os lulistas, é apenas uma opinião – partiu ontem para o colo de Santa Luzia, onde certamente já se juntou com Sivuca e o velho Lua Luiz Gonzaga – iluminados pela lua que nos guia com seu sorriso em noite escura.

A festa no céu começou agora, embora alguns apressados já tivessem decretado sua morte, dado o coma em que esteve por sete meses – algo parecido com o que fizeram recentemente com Zé Ramalho, outro artista com quem tocou. Hora de atualizarmos o Choro de pássaros de Ubiratan Sousa, homenagem a Luiz Gonzaga em cuja gravação Dominguinhos desfilou seu talento: “Galo de campina soltou/ sabiá escutou e transmitiu/ que o Dominguinhos/ disse adeus, partiu”.

Viva Paulinho da Viola!

Paulinho da Viola completou 70 anos ontem. Não houve estardalhaço como para outros setentões de 2012 (ou como imagino que haverá, não imerecidamente, para Chico Buarque daqui a dois anos). Não é de hoje a diminuição quase sempre imposta a este grandessíssimo artista, em geral tido apenas como sambista (como se isso fosse coisa menor) e não como um artista da MPB (o que é MPB? Samba não é música?, não é popular?, não é brasileiríssimo?).

Paulinho da Viola é fundamental! Artista de nobre linhagem e rara elegância, merece figurar em qualquer panteão da música brasileira. Se a mídia não deu a devida atenção, mesmo que apenas por ocasião da efeméride, o artista anuncia shows (no Rio, de graça, na Madureira berço de sua Portela do coração, e no Carnegie Hall) e caixa com discos, informações que li na Folha de domingo, onde soube também que a Portela irá homenageá-lo na avenida em 2013.

O maranhense João Pedro Borges, que tocou em A obra para violão de Paulinho da Viola, dividindo o disco com o artista e o pai dele, César Faria (violonista do conjunto Época de Ouro que acompanhou Jacob do Bandolim), já afirmou que é bastante valiosa a contribuição do músico para a escola brasileira do instrumento. Esta sua faceta, de compositor de choros sofisticados, é bem menos conhecida que a de sambista, porém não menos importante. O disco citado é hoje tão desconhecido quanto raro: foi distribuído como brinde de fim de ano aos clientes de uma empresa em meados da década de 1980, nunca tendo chegado ao formato digital.

Um dos momentos de maior emoção na vida do músico aconteceu quando sua Foi um rio que passou em minha vida foi cantada no aquecimento, o “esquenta”, o samba que anima os membros da escola antes de a mesma entrar na avenida. Isso foi em 1971, o disco lançado no ano anterior, espécie de resposta que Paulinho dava a si mesmo, depois de ter escrito Sei lá, Mangueira (parceria com Hermínio Bello de Carvalho), enaltecendo a rival.

Até hoje há quem acredite que sua Sinal Fechado, regravada por, entre outros, Fagner e Chico Buarque, seja de autoria do último.

Para um amor no Recife já teve regravações de Marina Lima e Zé Ramalho, alguém aí ainda desconfia que Paulinho é só do samba (o que não seria pouco)?

Paulinho é também presença constante nos discos de Marisa Monte, seja emprestando obras primas do quilate de Para ver as meninas e Dança da solidão, seja tocando um violão aqui, um cavaquinho acolá.

Acompanhada do grupo Semente, Teresa Cristina estreou em disco há 10 anos, com um trabalho inteiramente dedicado à obra do mestre: o duplo A música de Paulinho da Viola.

Ainda há muito por dizer e muito mais com o que ilustrar este post. Paulinho da Viola tem obra vasta e bem mais merecem as celebrações e homenagens por seus 70 anos. Uma frustração? Nunca ter sido gravado por Aracy de Almeida, “uma das maiores cantoras de samba” que o Brasil já (ou)viu. Uma historinha? Já cansada de ser sempre cobrada para cantar o repertório de Noel Rosa, sua maior intérprete um dia confessou estar cansada de “carregar o peso desse morto nas costas”, disse, referindo-se, “sei lá, não sei”, ao samba de Noel ou ao próprio compositor. Caetano Veloso compôs um samba novo, A voz do morto, em que homenageia Paulinho da Viola, “viva Paulinho da Viola”, vivíssimo, atuante e elegante aos 70.

Separados pelo nascimento

E pela saudade do João que já partiu:

João do Vale (1981), produzido por Chico Buarque, Fagner e Fernando Faro, com participações especiais de, entre outros, Tom Jobim, Alceu Valença, Jackson do Pandeiro, Zé Ramalho, os dois primeiros produtores, e…

Oásis de Bethânia (2012), o ótimo disco novo da Maria que lhe batiza em verso de Carta de Amor, de Paulo César Pinheiro, “Meus pés recebem bálsamos/ Unguento suave das mãos de Maria, irmã de Marta e Lázaro/ No oásis de Bethânia”, na letra mais longa entre as dez do disco.

Quem sacou a semelhança foi a cantoramiga Lena Machado.

O choro que voz me nordestes

Amanhã (13) este blogueiro tem a honrosa e difícil missão de substituir Ricarte Almeida Santos no Chorinhos e Chorões (Rádio Universidade FM, 106,9MHz). O programa vai ao ar às 9h. O titular do programa está viajando a trabalho.

Este aí do título o mote inventado para conceber o script, que acabo de redigir. A ideia: mostrar a influência do choro na criação de alguns artistas nordestinos, não necessariamente tidos como “chorões” por nós, muitas vezes.

No cardápio sonoro da seleção musical que preparei: Novos Baianos, Tom Zé, Zé Ramalho, Fagner, Josias Sobrinho, Chico Saldanha e Chico Maranhão, isto é, um passeio por um pedaço do Nordeste: Bahia, Paraíba, Ceará e Maranhão. É claro que há(via) muito mais a mostrar/tocar, mas em uma hora…

Que os poucos-mas-fieis leitores nos ouçam! Agradecemos a audiência, a preferência, a paciência… Que os muitos-e-fieis ouvintes de Ricarte idem. Deixe aí um comentário e ouça seu nome no Alô, Chorão!

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