O som original dos Passarinhos do Cerrado

Origens. Capa. Reprodução
Origens. Capa. Reprodução

 

Passarinhos com raízes ou árvores que voam são boas metáforas para definir o grupo goiano Passarinhos do Cerrado, que aos 10 anos de carreira, chega ao segundo disco, o ótimo Origens [2016], realizado com recursos captados pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Goiânia/GO e por crowdfunding.

Rodrigo Kaverna, Cleber Reizin, Milca Francielle e as irmãs Bruna Junqueira e Nádia Junqueira dividem-se entre vozes e percussões, passeando por cocos, cirandas, torés, divino e folia de reis, demonstrando ao Brasil que a cultura goiana é bem mais que o comumente visto e ouvido em rádios e tevês.

Os Passarinhos do Cerrado não se fecham em si em busca de suas raízes – como poderia sugerir o nome deste segundo disco –, dialogando com ritmos nordestinos, sobretudo o coco que passa a predominar no repertório do grupo desde o álbum de estreia, Coco de folia [2014].

Passarinhos do Cerrado em foto de Ney Couteiro
Passarinhos do Cerrado em foto de Ney Couteiro

É música festiva, para agradar espíritos dançantes, mas com conteúdo fortemente político, na melhor acepção da palavra. “Já ouvi o chamado/ eu vou/ atrás de minha origem/ eu vou/ origem de um povo sofrido/ eu vou”, cantam em Origens/ Toré de abertura, de Rodrigo Kaverna, que sozinho ou em parceria assina a íntegra do repertório.

Este conteúdo político a que me refiro diz respeito também às participações especiais: na faixa citada, por exemplo, os indígenas Inkrer – Cukõn Krahô e Honcrepoj – Xauty Krahô. Uma resposta – política, nunca é demais frisar – ao genocídio indígena cujos rankings no Brasil Goiás lidera há tempos.

No belo projeto gráfico, assinado por Luana Santa Brígida, pousam e voam os que lhes dão nomes, vários passarinhos do cerrado, muitos deles citados em letras, por exemplo a de Pica pau (parceria de Rodrigo Kaverna com Léo Ápice, ex-integrante do grupo, e Sutor Ápice), que abre o disco, pródiga em espécies. Além da que lhe batiza voam por lá arara azul, arara vermelha, coruja caburé, coruja buraqueira, papagaio, periquitinho maracanã, jacucu, canarinho, aracauã, juriti, tucanuçu.

Em busca de suas origens, não faltam participações especiais: todas as faixas têm uma. Siba (ex-Mestre Ambrósio) é o mais conhecido: canta e toca rabeca em Folha amarela (outra parceria de Kaverna e Léo Ápice).

Nesta volta às Origens, mais asas que raízes para os Passarinhos do Cerrado: para quem já foi até a África do Sul em 2010, quando participaram do Festival Mundial da Juventude, sua música merece ser mais conhecida em seu país de origem – por centros e periferias.

Ouça Toré de abertura (Rodrigo Kaverna):

Cesar Teixeira transborda poesia no vazio do Ceprama

[Sobre apresentação de Cesar Teixeira, ontem (3), no Ceprama]

“E o carnaval?” é pergunta que costumo ouvir e que tenho respondido com um “ainda não estou no clima do bumbumpaticumbumprugurundum”.

Depois de convidado para ir verouvir o Monobloco na Praça Deodoro, declinei. O grupo me interessa, tenho discos em casa, mas fujo de multidões.

Preferi ir verouvir Cesar Teixeira no Ceprama (ontem, 22h). Minha primeira saída “carnavalesca” em 2013. Ele o artista de quem seguramente mais vi shows na vida.

Ele que ontem fez uma apresentação quase perfeita. Mas o que não tirou nota dez foi o som, algo que lhe foge ao controle, impossível culparmos o artista naquele entra e sai do palco, as apresentações em sequência (grade), entram músicos (bandas) saem músicos, tudo tem que ser trocado muito rapidamente.

Este, aliás, outro aspecto do carnaval que precisa ser repensado, explico. Cesar Teixeira é exceção: fez uma apresentação de cerca de 50 minutos, com repertório completamente autoral, inédito e carnavalesco. Resgatou a nau catarineta (auto nordestino, catalogado por Mário de Andrade), do toré (ritmo indígena) e do baralho, além de frevos, marchas, marchas-rancho, sambas e até salsa, entre o bom humor, as homenagens (a Faustina e Rosa Papagaio) e a política (o congresso nacional sempre merecedor de críticas, piadas e avacalhação).

Os poucos que estavam no Ceprama puderam deliciar-se com um repertório original e diferente. Ou seja: em geral, o modelo sequencial das apresentações patrocinadas pelo governo em praças e quaisquer outros espaços públicos, acaba dando ao folião que se demorar por mais que um show por ali mais do mesmo: vários artistas cantarão e tocarão os mesmos clássicos carnavalescos que incluem aí de Moraes Moreira ao Bicho Terra, passando por Carmen Miranda e Chico Buarque, entre outros.

O Monobloco de graça na praça Deodoro, fazia o “carnaval da mistura” em horário próximo ao em que Cesar Teixeira fazia seu ótimo show para um Ceprama esvaziado, certamente não pela qualidade de seu espetáculo, em que ele se mostrava em plena forma artística, com repertório inédito, adequado ao período. Lá, no panteão sem bustos, o grupo carioca era escoltado pelos apadrinhados de sempre, cujos nomes mais se repetem nas programações oficiais. Perto da continência espúria o que significam qualidade e relevância artística?