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Teatro fantástico

Cláudio Marconcine e Jorge Choairy em cena em Velhos caem do céu como canivetes. Foto: divulgação

 

A curta temporada de Velhos caem do céu como canivetes encerrada ontem (4) marcou seu retorno à São Luís, após circulação por cidades do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, pelo programa Petrobras Distribuidora de Cultura. A peça está há cinco anos em cartaz e inicio este texto com uma espécie de mea culpa: como é que eu nunca a tinha visto antes?

Essa, aliás, deve ser a reação de qualquer um/a que assista esta ou qualquer peça da Pequena Companhia de Teatro pela primeira vez – foi o impacto que me causou, por exemplo, a também ótima Pai e filho, baseada em Carta ao pai, de Franz Kafka. A de ontem é baseada no conto Um senhor muito velho com suas asas enormes, de Gabriel García Marquez. Para o segundo semestre de 2018 o grupo anuncia uma adaptação teatral de Jorge Luis Borges.

A transposição de gêneros marca o trabalho da Pequena Companhia de Teatro e uma característica interessante, tanto de Pai e filho, quanto de Velhos caem do céu como canivetes, é o livre exercício da imaginação de Marcelo Flecha, dramaturgo autor de ambos os textos. A Carta ao pai kafkiana, nunca enviada, é originalmente um monólogo, obviamente, por tratar-se de epístola – ainda que nunca enviada; no conto do colombiano, a criatura alada que cai em um quintal não fala.

São os diálogos a grande força do fazer teatral da Pequena Companhia de Teatro. Tanto Pai e filho quanto Velhos caem do céu como canivetes, ambas encenadas por Cláudio Marconcine e Jorge Choairy, são basicamente conversas. Mas não há espaço para conversa fiada na obra de Flecha, embora na segunda haja espaço para um humor, ao menos a quem se dispõe a rir de si mesmo – e que fecho sensacional!

Digo basicamente conversas, mas é necessário apontar que isto não significa descuidar de todos os outros detalhes que compõem a cena: cenário, figurino, maquiagem, vozes, trejeitos, trilha sonora, iluminação, tudo a serviço do texto, da atuação do par de atores. A Pequena Companhia de Teatro só é pequena no nome e no número de componentes – além do trio já citado completa o time a diretora de produção Kátia Lopes. Esta trupe não apenas faz teatro: acima de tudo, pensa teatro.

Uma criatura alada cai, não se sabe de onde ou de quando, no quintal de um catador de materiais recicláveis. O embate se inicia com a estranheza do anfitrião à força, que não sabe se seu hóspede é um anjo, um demônio ou um frango – alucinação possível motivada pela fome. Sem nada para comer ou dar de comer, é tão somente uma lata d’água que ele oferece ao curioso e improvável visitante.

Velhos caem do céu como canivetes tem um caráter distópico e metafórico: não somos nós mesmos este catador de materiais recicláveis, ex-artista plástico? Ex por que estes foram banidos no tempo da ação, um futuro, breve ou distante, ou a égide do ilegítimo, não sabemos precisar. Tudo é muito bem costurado na trama de Flecha e aqui e ali pipocam críticas à sociedade de consumo, a governos ilegítimos, religiões e a mazelas como a fome, num texto também sobre exílios: a criatura alada fora de seu habitat e o catador exilado de sua condição de pessoa humana, sem o básico para sobreviver. Mas que fala bonito, como reconhece o visitante. “Leio”, o anfitrião usa o mesmo verbo para responder a diversas perguntas daquele, citando livros e dicionários que também catava.

Longe de hermética, para ver ou entender a peça não é preciso ter lido o texto original no qual se baseia Velhos caem do céu como canivetes. Mas é necessário estar disposto/a a pensar, a refletir, condição válida em qualquer encenação da Pequena Companhia de Teatro, uma verdadeira escol(h)a de resistência, a começar pela opção de manter uma sede – e ali encenar, inclusive às segundas-feiras – no Centro Histórico da capital maranhense, quando muitos têm feito um percurso contrário, mas este é outro assunto.

Máquina teatral

Automákina na Praça da Casa do Maranhão, ontem (2). Foto Raquel Durigon

 

Não há uma palavra em Automákina – Universo deslizante, apresentado ontem (2) na Praça da Casa do Maranhão. Espetáculo/instalação, uma engenhoca gigante, com que contracena Luciano Wieser, o Duque de Hosain’g, misto de carroça e castelo, é abrigo de um misto de bruxo (com os cabelos a la Ravengar), cientista louco e pescador.

Uma vaca alada encima a engenhoca, com oito metros de altura, fazendo girar um móbile – a montagem da estrutura, com cerca de cinco horas de antecedência ao início do espetáculo já fazia parte dele.

O conde adentra a cena calçando pesadas botas e sobe e desce por entre as ferragens, para deleite da plateia, sobretudo da criançada presente à praça. Bonecos autômatos pedalam bicicletas acopladas à engrenagem e interagem com o ator, ensimesmado em um universo particular – que ele mesmo, pedalando, faz entrar em cena. Deslizando.

Qual a estrutura, a trilha sonora é um espetáculo à parte, uma espécie de ópera-milonga-pós-moderna. Ver Automákina é uma experiência que induz o espectador a reflexões sobre a solidão, a criatividade, a fantasia, o amor e, por que não?, o momento político conturbado que o país atravessa.

Companhia teatral familiar, o grupo De Pernas Pro Ar, com sede em Canoas, no Rio Grande do Sul, já conta 30 anos de atividades, e chegou à São Luís com patrocínio da Petrobras, através da Lei Rouanet. No conturbado momento por que passa o Brasil, o caminhão com seus equipamentos chegou a ficar parado por nove dias no Tocantins – motivo pelo qual a apresentação de Automákina precisou ser adiada. Rodrigues, o motorista, foi saudado como herói e aplaudido de pé pelo ótimo público presente.

Em São Luís, integrantes da companhia realizaram intercâmbio e a oficina “O ator inventivo”. Daqui, seguem para Candeias e Ilhéus, na Bahia. O grupo teve sua A última invenção selecionada no edital Rumos, do Itaú Cultural. Esta contará com 10 maquinarias em cena.

A fome e outros dramas humanos

Cena de Caranguejo Overdrive no programa da peça. Reprodução

 

SÃO PAULO – O ambiente é enfumaçado, ajudando a criar certo clima de podridão, durante pouco mais de uma hora em que o público vai conviver com o drama de Cosme, homem-caranguejo, para evocar o clássico do pernambucano Josué de Castro, uma das inspirações de Caranguejo Overdrive, peça de Pedro Kosovski (autor da ótima Cara de Cavalo), com Aquela Cia. de Teatro, do Rio de Janeiro, em cartaz no Teatro Caixa Cultural (Praça da Sé, 111, Centro, São Paulo/SP), de quinta a domingo (até 1º. de abril), às 19h15, com entrada franca (os ingressos podem ser retirados no dia das apresentações, a partir das 9h).

Um power trio – guitarra, baixo e bateria – executa a trilha sonora ao vivo, reverenciando Chico Science e Nação Zumbi, como de resto todo o movimento MangueBit, as outras referências fundamentais de Caranguejo Overdrive. O texto e as atuações são fortes, num roteiro carregado de denúncia social contra toda uma ordem de desmandos dos poderosos.

Cosme é um ex-combatente do exército brasileiro na Guerra do Paraguai. Quando volta a seu lugar de origem, onde havia sido catador de caranguejo, o mangue não existe mais, aterrado em nome do progresso. Qual os bichos que outrora lhe deram sustento, Cosme não tem mais como viver. É um personagem à beira de um colapso, entre policiais insensíveis (quase uma redundância) e uma prostituta – personagens típicos de zonas (perdão do trocadilho) portuárias.

O espetáculo é bem humorado – seria cômico se não fosse trágico – ao refazer a trajetória do Brasil desde a abertura, apontando idiossincrasias de nossos governantes e dos que os rodeiam. Ao biografar o país, os atores dAquela Cia. fazem verdadeiras caricaturas ao vivo de todos os ocupantes do Palácio do Planalto. De José Sarney ao ilegítimo, ninguém escapa do humor ferino e da crítica afiada de Kosovski.

Em cena, um homem se transforma literalmente em caranguejo, o corpo nu coberto de lama, que ele mesmo prepara durante o desenrolar dos acontecimentos. É importante frisar: sempre há ao menos duas ações transcorrendo simultaneamente em Caranguejo Overdrive, o que exige atenção e escolhas por parte da plateia. E, portanto, participação.

“Vocês pensam que é confortável ficar tanto tempo assim?”, ele indaga à plateia, referindo-se à posição incômoda em que se mantém durante certo tempo, demonstrando ótimo preparo físico, mas no fundo fazendo uma metáfora à fome e à inanição a que o personagem foi condenado. “Este corpo de lama que tu vê é apenas a imagem”, volta a Chico Science.

O dedo cavouca uma ferida que o Brasil havia superado, a fome, a cujo mapa o país foi devolvido pelos golpistas de plantão, que tomaram o poder de assalto. A fome, cujo primeiro tratamento sociológico e acadêmico foi dado justamente por Josué de Castro, autor de, entre outros, Geografia da fome e da ficção Homens e caranguejos. O texto do programa, aliás, afirma o desejo da companhia de que esta temática abordada em Caranguejo Overdrive se torne datada.

Com a pose prolongada do ator, a peça também debate, de modo sutil, o próprio fazer teatral: emular um caranguejo é dureza, como escrever e encenar espetáculos consistentes, longe do riso fácil e/ou de artistas consagrados em emissoras de televisão.

Caranguejo Overdrive é dinâmica e, como a lama metafórica de sua concepção e execução, incorpora os detritos sociais que são, afinal, elementos de denúncia do texto de Kosovski. À encenação a que assisti (sexta-feira, 23), por exemplo, já comparecia o assassinato brutal e covarde da vereadora carioca Marielle Franco, num dos momentos mais impactantes (e não são poucos) da peça.

Ousadia e atualidade

Maria e o Cristo, morto e nu. Foto: Valdeir Limaverde/ Divulgação

 

Paixão segundo nós é um espetáculo ousado. Se já o era quando de sua primeira encenação, há quase 30 anos, o momento político nefasto que atravessa o Brasil torna-o ainda mais.

O espetáculo gira em torno do julgamento de Cristo (Luís Ferrara), com Pôncio Pilatos (Domingos Tourinho) entre a angústia e o desespero da sentença que condena o protagonista.

Tácito Borralho (texto, direção e cenografia), sobre textos de Gibran Khalil Gibran, do Evangelho segundo Mateus e dos Evangelhos apócrifos, traz inevitavelmente o martírio de Cristo para a reflexão sobre as fake news (no fundo um eufemismo para mentiras) e a inversão de valores que se tornou comum em nossos tempos.

O espetáculo da Coteatro humaniza o Cristo, como trazendo-o à nossa realidade. Em ano de Copa do Mundo, mas não só, costumeiramente se apregoa por aí que Deus é brasileiro. Em Paixão segundo nós, mais que nunca: Cristo é negro, o diabo é homem (Raimundo Reis) e mulher (Isa Everton), Maria (Lúcia Gato), mãe de Cristo, também é negra.

A dramaturgia de Tácito Borralho corajosamente nos faz lembrar que o filho de Deus era, no fundo, um defensor das minorias – ou dos direitos humanos, expressões que causam reações quase sempre virulentas nos que se dizem cidadãos de bem.

ServiçoPaixão segundo nós estreou hoje (27), Dia Mundial do Teatro, e fica em cartaz amanhã (28) e quinta-feira santa (29), sempre às 20h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro). Os ingressos, à venda na bilheteria do teatro, custam R$ 40,00 e R$ 20,00 (meia entrada para estudantes e demais casos previstos em lei).

Conflito kafkiano – e a resistência quixotesca da Pequena Companhia de Teatro

O diretor Marcelo Flecha ladeado pelos atores Cláudio Marconcine (E) e Jorge Choairy. Foto: Rose Panet

 

Ontem, ao fim da sessão de Pai e filho, quando teve início o debate com o diretor e o par de atores da peça, calei. Não era apenas o receio de antecipar algo deste texto. Era o impacto do espetáculo.

Ninguém é obrigado a participar do debate. Ao fim da apresentação, a porta é aberta, mas o exercício é interessante: Marcelo Flecha (dramaturgia e direção), Cláudio Marconcine (o pai) e Jorge Choairy (o filho) bateram um papo informal com o bom público presente à sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande; lotação: 45 lugares). Mais que “gente do teatro”, são pensadores do Teatro, com T maiúsculo.

A noite de ontem foi histórica: estava presente o espectador número 10.000, após 148 apresentações de Pai e filho em 62 cidades de 22 estados brasileiros, desde 2010, quando a peça foi encenada pela primeira vez. Pode parecer pouco, mas o Teatro da Pequena Companhia de Teatro é realizado para pequenas plateias e também por isto merecem aplausos estes quixotes.

Baseada na Carta ao pai, de Franz Kafka, Pai e filho mereceu todos os prêmios que conquistou, e não foram poucos: Myriam Muniz/Funarte e Sated Maranhão, para citar apenas dois, além da participação em diversos festivais e mostras. Foi o primeiro espetáculo maranhense selecionado para o projeto Palco Giratório, do Sesc.

Volto a mim, ao fim do espetáculo. A primeira sensação foi a de tempo perdido: como pude levar tanto tempo para ver a peça?

Este texto, agora, diz tudo o que eu poderia ter dito ontem ao trio (bem como aos demais integrantes da Pequena Companhia de Teatro), mas não o fiz.

A começar pelos parabéns pela transposição da literatura ao palco. Se adaptações em si já não são fáceis pelas comparações quase sempre sem sentido – o livro é fiel à peça? A peça é melhor que o livro? Ora, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Mas a adaptação de Flecha é feliz ao transformar uma carta não enviada pelo escritor a seu pai, ou seja, um monólogo, já que, se não foi enviada, não teve resposta, em um diálogo.

Intenso diálogo, diga-se. Marconcine e Choairy agigantam-se no palco. Sua entrega é tamanha, suas máscaras estão para muito além da maquiagem. Um deles, cito de memória, revelou, em entrevista ao Balaio Cultural, programa que tenho a honra de apresentar na Rádio Timbira AM, com Gisa Franco por companheira de bancada, que na dramaturgia de Flecha não há um fio de cabelo fora do lugar.

É impressionante como isso diz bastante sobre o que vi ontem. Mais que vi: senti.

O pai é um lojista-alfaiate e o filho um escritor, “o intelectual”, como desdenha ironicamente o primeiro. Eles estão o tempo todo em movimento, quem ainda não viu não perca tempo imaginando, pensando em monotonia ou coisa que o valha, longe disso.

Não há excessos, mas em cena, Marconcine e Choairy parecem vestir não só outros corpos, mas outras vidas. Está tudo milimetricamente calculado: as vozes e trejeitos de um e de outro, a lida do pai com linhas e panos e do filho com livros e cadernos.

“Por que você tem medo de mim?”, a pergunta do pai norteia o diálogo, recheado de violência, pontuado de bom humor, não o do riso fácil e gratuito e por isto Pai e filho merece mais aplausos: a longevidade de um espetáculo que não é entretenimento puro e simples.

Os personagens travam uma conversa – ou tentativa de – em que os argumentos se anulam. O pai quer sempre ter razão, mesmo sendo incoerente, e o filho, se/quando responde, se arrepende e pede desculpas. Ou simplesmente silencia.

O poeta Roberto Piva dizia que não existe poesia experimental sem vida experimental. A julgar por esta carta levada ao palco, a própria vida de Kafka foi kafkiana, o autor já praticava a autoficção tão em voga atualmente.

Pai e filho é uma metáfora das relações familiares e sociais, uma crítica a hierarquias e a estruturas de poder convencionadas. Um convite à rebeldia – como é o próprio fazer artístico da trupe da Pequena Companhia de Teatro, a quem desejamos teimosia e merda!

Serviço

Pai e filho tem duas novas sessões hoje (4) e amanhã (5), às 19h, na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande). Os ingressos, à venda no local, meia hora antes de cada sessão, custam R$ 20,00 (meia para estudantes: R$ 10,00).

Hilário e comovente

Foto: Zema Ribeiro

 

Goste-se ou não do ABBA, o grupo sueco está nos escaninhos da memória coletiva mundial: basta tocar um de seus hits no rádio para fazermos uma viagem particular no tempo, lembrando da infância, dos discos que nossos pais ouviam, ou de versões como Fernando, sucesso no Brasil com a paraguaia Perla.

É a este universo que nos conduz Mamma Mia!, “o musical baseado nos hits do ABBA”, como anuncia o programa. A peça tem direção musical de Paulo Cardoso, direção geral de Josué da Luz e coreografia de Rebeca Carneiro.

Com grande elenco – são 26 atores no palco – a Vertu Casa de Artes, após êxitos de público com A bela e a fera (três sessões esgotadas no Teatro Arthur Azevedo em 2015) e A família Adams (duas em 2016), encenou ontem (3), também para um TAA lotado, o musical com composições de Benny Andersson e Björn Ulvaeus – a metade masculina do ABBA, autores dos hits do roteiro. O grupo que se completava com Anni-Frid Lyngstad e Agnetha Fältskog, sendo o nome do grupo um acrônimo com as iniciais dos nomes de seus integrantes –, e versão brasileira de Claudio Botelho para o libreto de Catherine Johnson, já adaptado ao cinema em 2008, com direção de Phyllida Lloyd e Meryl Streep no papel de Donna Sheridan.

São duas horas de espetáculo, em dois atos, com a memória afetiva passeando por versões em português (são raros os números cantados na língua original) de sucessos radiofônicos como I have a dream, Honey, honey, Money, money, money, Chiquitita, Dancing queen, S.O.S., The winner takes it all e Waterloo, além da música que dá nome ao espetáculo, entre muitas outras.

Entre os números musicais costura-se a trama da comédia, de não poucos momentos de gargalhadas gerais: Sophie (Lara Sabbag), de 20 anos, mora com a mãe, Donna Sheridan (Jéssica Monteiro), dona de um pequeno hotel nas ilhas gregas, onde se passa toda a história. Lendo o diário da mãe, descobre que esta teve relacionamentos com três homens – Sam Carmichael (Leonardo Fernandes), Bill Austin (João Carvalho) e Harry Bright (Nestor Fonseca) – e, por conta própria, convida os três para seu casamento, a fim de descobrir qual deles é seu pai e ser levada até o altar.

Também merecem destaque as atuações hilariantes de Kerlys e Bricia Queiroz, que interpretam Tanya e Rosie, amigas de Donna, com quem tiveram uma banda na juventude, além dos Pedros Monteles (Sky, noivo de Sophie) e Danilo (Pepper, empregado do hotel de Donna).

Entre as angústias em torno da descoberta da paternidade de Sophie, muitas lembranças do passado vêm à tona, nesta comédia romântica que emociona e faz sorrir – nunca em doses pequenas.

Serviço

A Vertu Casa de Artes apresenta hoje (4), às 19h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), a última sessão de Mamma Mia! Os ingressos, à venda na bilheteria do teatro, custam entre R$ 25 e 40.

À guisa de retrospectiva

[breve comentário nO Imparcial de hoje, com os destaques na Cultura do Maranhão em 2017, a pedido da queridamiga Patrícia Cunha; minha lista de melhores do ano ainda vem, a pedido de Marcelo Costa, para o listão do Scream&Yell, baita honra]

Manuel Bernardino: o Lenin da Matta. Frame. Reprodução

Prefiro apontar apenas destaques, por que a cultura por si só já é tão golpeada, que nas atuais circunstâncias merece ser valorizada toda iniciativa neste campo, com ou sem patrocínio, com leis de incentivo ou às próprias custas s/a, desde que nutrida de verdade e amor. Os destaques do ano são as produções gratuitas que ocuparam logradouros públicos, como o Festival BR 135, que, na contramão da crise nacional, dobrou sua duração, o RicoChoro ComVida na Praça, o Bloco do Baleiro no carnaval, o Festival Elas, o Lençóis Jazz e Blues Festival, entre outros, realizados com recursos garantidos através das Leis de Incentivo, além da Aldeia Sesc Guajajara de Artes e a Quinta do Reggae, na Praia Grande. Entre os lançamentos musicais, os discos de Chico Saldanha (Plano B), Claudio Lima (Rosa dos Ventos) e Pão Geral – Tributo a Tribuzi, reunindo vários artistas sob produção do incansável Celso Borges, que ainda presenteou a cidade com o livro São Luís em palavras, também reunindo vários nomes. Outro livro que merece celebração é O risco do berro: Torquato neto Morte e loucura, de Isis Rost. No cinema eu não poderia deixar de destacar Manuel Bernardino: o Lenin da Matta, da cineasta Rose Panet, que traz à luz um personagem pouco conhecido e bastante atual e, sob a égide do golpe, ainda conseguiu ser exibido em algumas tevês públicas e festivais, recebendo menção honrosa em Mumbai, na Índia. No teatro, o musical João do Vale – O gênio improvável foi um fecho com chave de ouro.

Há 32 anos o sol se levanta para o Teatrodança

No próximo dia 30 (sábado), às 19h, o grupo Teatrodança apresenta três performances no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). A entrada é franca, mas doações são aceitas, conforme avisa o material de divulgação, que promete gengibaça, uma mistura de cachaça com gengibre, ao público presente.

Trata-se da celebração pelos 32 anos do grupo. Não à toa Trinta e dois é o nome de uma das performances, por Alex Costa, Eline Cunha e Thayliana Leite. As outras são Ilhadas, por Júlia Emília, e TRANSgressão, por Victor Vihen. A jornalista Talita Guimarães (editora do blogue Ensaios em foco e idealizadora e coordenadora do projeto Literatura Mútua, de que Júlia Emília já foi convidada) abrirá a noite, com Menestréis, um misto de performance e cerimonial.

As performances são espécies de “resumos” dos espetáculos homônimos. Somadas têm duração média de 45 minutos. Resumindo-as, em possíveis sinopses, temos Ilhadas como um exercício de preservação de memória e a construção de uma crítica que investiga dramaturgias com as matrizes das expressões populares maranhenses, TRANSgressão abordando a violência contra quem não se enquadra nos ditos padrões de gênero (em pleno século XXI) e Trinta e dois é, também segundo o material de divulgação, um “musical performático que remete ao trabalho, arte e vida do grupo Teatrodança”.

Sobre o grupo Teatrodança, sua trajetória e a comemoração de seus 32 anos, Júlia Emília falou com exclusividade a Homem de vícios antigos.

A artista em performance durante lançamento carioca de Vivendo Teatrodança. Ao fundo, o percussionista maranhense radicado no Rio de Janeiro Cacau Amaral. Foto: Julia Araújo/ Faculdade Angel Vianna

Júlia, são 32 anos de grupo Teatrodança. Um aniversário nunca é apenas um aniversário. Qual a sensação de chegar até aqui?
Contentamento pela resistência, mas melancolia pelo destrato em situações que nos tornam ainda mais vulneráveis.

Para festejar vocês apresentarão três esquetes, de espetáculos que marcaram a trajetória do grupo, “enxutos” especialmente para a ocasião. Como se deu essa seleção?
Pelo repertório disponível. Inicialmente pensamos no trabalho novo sobre o permanente extermínio das culturas da compaixão e alteridade. Depois que era melhor fazermos um painel das propostas do Teatrodança. Separamos dois trabalhos performáticos elaborados a partir do que chamamos de “dança-denúncia”. Inicia com Ilhadas, processo sobre a violência contra o feminino, e segue com TRANSgressão, que retrata o preconceito que aniquila, e terminamos com Trinta e dois, apresentando nossa proposta de combinar drama, sonoridade e cena. Aí teremos Eline Cunha em toda sua versatilidade.

Você recentemente realizou lançamentos de Vivendo Teatrodança, livro que aborda a trajetória do grupo, publicado há dois anos, no Rio de Janeiro. Como foram os eventos e a receptividade do público por lá?
Boa parte de minha vida se passou no Rio de Janeiro. A formação, a profissionalização como artista, minha obra prima que é meu filho foi concebida e nasceu lá. Precisava voltar para homenagear seres humanos importantes nos meus esforços e sonhos. Incrível foi vê-los presentes nos lançamentos, poder realizar as intervenções, conversar e abraçar cada uma. Houve momentos inesperados. Fui procurada ano passado pelo biógrafo de Ferreira Gullar na montagem da exposição no Museu de Arte Moderna. Conversa vai e vem me convidou para participar do Terça Converso, no teatro Gláucio Gil. Maravilhoso estar tão perto de poetas e escritores de variadas procedências. E voltar para o local da Mestra Angel Vianna, que abriu espaços para criadores inquietos e insatisfeitos, preocupados em encarnar as realidades e visões oníricas. Rever o mestre Luiz Carlos Vasconcelos, refinado em sua arte dramatúrgica, as organizações e coletivos com quem trabalhei. Trânsito lindo! Encarnação próspera!

O grupo Teatrodança é muito identificado com você: quando falamos em Teatrodança já visualizamos o rosto de Júlia Emília e vice-versa. Como é a organização do grupo e quem o integra atualmente?
Visualize o corpo inteiro. Quem nos abandona é a dança. Eu passo. Ela fica. Nesta vida persisto como virose. Luto pelo que acredito. Forço entendimentos nos quais ninguém está pensando. Por exemplo, quando trabalhei com Julia Varley, outra mestra maior, percebi sua briga pelo lugar do feminino como dramaturga, e comprei a briga. Basta observar na ilha. Outra: faço parcerias com quem aceita. Passe os olhos em nossa trajetória e vai encontrar de tudo. No final dos anos 1990 fechei a Oficina do Corpo e corri mundos. De lá para cá trabalho em periferias. Atualmente a Associação Cultural foi acolhida pelo Centro Ozaka, parceiro saudável e amigo. Mais antigos nos processos temos Eline Cunha, musicista-atriz-dançarina, Thayliana Leite, Alex Costa, capoeiristas, dançarinos, pesquisadores. Recentes temos Angelo Gonzaga e Victor Vihen, tônus ascendentes para o que virá.

No Brasil vivemos tempos sombrios, e as adversidades atingem direta, frontal e fortemente o campo das artes, seja com a diminuição de recursos, o descaso com as políticas públicas de cultura e, mais recentemente, as trevas, com o cancelamento de exposição por atentado à moral e aos bons costumes. Como você avalia este contexto?
Quando a Oficina foi fechada coreografamos Maiakovsky: “necessariamente todo dia o sol se levanta”. E com Gregório de Matos decidi, quando montei Espirais, em 2004, que trabalharíamos corpo como imperativo de autenticidade e cena para discussão dos problemas coletivos. Entristeço muito em ver as atitudes de fuga, de apatia, de desmonte. Sem forças contra o poder do capital, que nos tornou um país dependente, leiloado, destruído e espoliado. O sabor amargo do conservadorismo pós-modernista infecta as veias latino-americanas, Galeano que o diga. São martirizadas as culturas que resistem em salvar, amar, preservar. Elas veem o futuro. Temos de fortificar a imaginação em busca do poder, sem lamentações. Embargam hoje, amanhã se expõe, se dança nu e põe tarja, coreografa de novo. A cena para além da representação. Minha compaixão irada vai para quem produz mediocridades. Mulher bárbara é o nosso tempo que sobre nós se abate. E eu sou uma. Porque virão outros depois de nós…

E como você imagina a existência e atuação do grupo Teatrodança pelos próximos 32 anos?
Se ele conseguir sobreviver ao próximo ano elevo gratidão aos Protetores!

Touchê em turnê: uma divertida aventura literária

O autor cercado por atrizes da Xama Teatro e estudantes de uma escola pública em Santa Inês/MA. Foto: Sheury Neves

 

Com a Caravana Passeios pela História e Cultura do Maranhão o escritor Wilson Marques está circulando diversas cidades maranhenses, acompanhado da trupe da Xama Teatro e de Touchê, seu personagem infantil que angaria leitores por onde passa.

Na última quinta-feira (1º.), foi a vez de Pedreiras, terra de João do Vale, já biografado pelo autor – e recentemente tema de biografia-mirim lançada recentemente pela jornalista Andrea Oliveira. O município encerrou a primeira etapa do projeto, que, com patrocínio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, já passou, além de Pedreiras, por Imperatriz, Açailândia, Timon, Caxias, Pinheiro, Viana e Santa Inês.

O kit Touchê. Reprodução

“Para quem escreve, o contato com seu público é quase tão importante quanto publicar livros. É bom para o pequeno leitor, que ao final desmistifica a ideia de que o escritor é uma figura distante, inacessível. E, para o autor, uma oportunidade de se retroalimentar, se energizar”, comenta o escritor. Em suas viagens, os lançamentos têm sido realizados em escolas públicas ou espaços culturais, com distribuição dos kits de Touchê, com seis livros, ilustrados por Kirlley Veloso: Touchê em a invasão francesa e a fundação de São Luís, Touchê em uma aventura pela “Cidade dos Azulejos”, Touchê em a revolta de Beckman e nos tempos de Pombal, Touchê em uma aventura em noite de São João, Touchê em o mistério da serpente e Touchê em Balaiada, a revolta.

Indago se estreitar este convívio com os pequenos leitores é uma tentativa de virar o jogo: livros perdem cada vez mais espaço na disputa de preferência com tablets e celulares, entre outros. “Com relação aos eletrônicos, acho que o mal uso deles pode ser bastante daninho principalmente para mentes em construção. Por outro lado, acredito que não devemos demonizá-los, ou criar cabos de guerra tendo de um lado livros e do outro tablets, etc. Acho sim que podemos tirar partido deles a fim de difundir cada vez mais os bons conteúdos, pois ao final é isso que realmente importa”, opina.

A rota de Wilson, Touchê e do Xama Teatro, que faz apresentações baseadas nos enredos das obras, após um descanso, será retomada em agosto, quando visita São José de Ribamar (dia 2), Paço do Lumiar (14) e São Luís (23), encerrando o passeio.

“Em todas as cidades em que passamos a receptividade superou minhas expectativas, tanto por parte de alunos como professoras, diretoras e gestores de educação municipais. Isso tem sido muito legal porque demonstra que existe em todos um interesse, uma necessidade inata por arte, por histórias, por teatro, por livros. Por outro lado, revela um aspecto que me entristece um pouco: o fato de a Caravana despertar ainda mais interesse na medida em que muitas escolas se encontram em estado de carência no que diz respeito à oferta desse tipo de ação. De qualquer maneira o projeto tem ajudado a reacender essa chama, e isso a gente pode constatar pelo entusiasmo e alegria com que somos recebidos”, comenta.

Jornalista de formação, Wilson Marques, além de João do Vale, já biografou o violonista João Pedro Borges. Seu personagem de maior sucesso, no entanto, é mesmo Touchê, através do qual ele aborda aspectos da história e da cultura do Maranhão. Pergunto se o incomoda o fato de a faceta infantil de sua obra ser mais conhecida que o trabalho, digamos, adulto.

“Nunca tinha pensado nisso e acho que vou continuar sem me preocupar com esse aspecto do meu trabalho. Mesmo porque esse raciocínio pode levar à ideia de que um tipo de fazer literário é mais nobre que o outro. Tipo, escrever para adultos é mais nobre do que escrever para crianças. E não me parece que seja assim. Uma coisa, entanto, posso afirmar: pra mim, escrever para crianças é muito mais divertido do que escrever para adultos. E, no final das contas, o que vale é a gente se divertir”, finaliza.

Cora comovente

Lília Diniz encarna Cora Coralina. Foto: divulgação
Lília Diniz encarna Cora Coralina. Foto: divulgação

 

Já era mais que hora da atriz Lília Diniz estrear em São Luís. Só Cora dentro de mim: plantando roseiras e fazendo doces, a maranhense de Imperatriz já encena há 17 anos. Se demorou, a estreia foi triunfal: um primor de espetáculo.

Há muito de Cora em Lília, duas mulheres que não aceitaram ser rotuladas pelas sociedades em que vive(ra)m. Poeta que também é, Lília encarna Cora, não como uma tradução, mas como se a goiana se materializasse para além da poesia, da casa e do exemplo que deixou, após inventar seu pseudônimo justamente para fugir da opressão familiar. A cena em que acende uma vela em frente a um livro de Cora Coralina dá ideia da devoção da atriz em cena a poeta que encena.

Não é preciso ser versado em Cora Coralina para assistir e se emocionar com o monólogo. Com os sagrados corações de Maria e Jesus na parede, somos convidados a uns bons dedos de prosa na cozinha da casa da senhora, passando por poesia, música e vida.

Lília Diniz adentra o teatro cantando, vinda de trás da plateia, em procissão, pedindo bênção ao Rio Vermelho, como Cora Coralina fazia todas as manhãs e registrou em poesia. Está acompanhada por Maísa Arantes (rabeca, pífano e voz) e Léo Terra (viola e percussão), com quem tomará café no palco, enquanto desfia o rosário de conversa, nunca enfadonho.

Quando criança Cora gostava de conversar com gente mais velha, o que lhe valeu sofrer bullying antes do uso corrente do termo. Na plateia somos todos crianças e desistimos dos celulares para prestar atenção na conversa, com que a senhora atriz nos prende a atenção enquanto prepara um doce de banana – e não se trata de mera cenografia. No palco, até o fogo do fogareiro é verdadeiro.

O cenário aparentemente simples nos dá grandes lições. Engana-se quem pensa que é preciso de muito para ser feliz. Seu baú parece mágico: é só um baú, mas como tira coisas e memórias dali. Seu baú é mágico. E Cora dentro de mim é simplesmente comovente.

Cora se lembra da violência da palmatória, de quando fugiu de casa, de quando voltou, costura, cozinha, brinca de boneca, joga amarelinha, se emociona, nos emociona. Transporta-nos a outro tempo e lugar, conectando-nos à beleza e verdade de sua obra e vida.

Cora dentro de mim é peça que dura mais que sua hora de duração. Artista consciente de seu lugar e papel, Lília Diniz conversa com o público sobre os mais variados temas: a descoberta da poesia de Cora Coralina, a montagem do espetáculo, a viabilização desta circulação – que passará ainda por São Paulo/SP, Rio de Janeiro/RJ e Ceilândia/DF –, através do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC/DF), a necessidade de vigília permanente, não só de artistas, para a garantia de direitos culturais, sobretudo diante do atual momento político por que passa o país, e acessibilidade: o espetáculo conta com audiodescrição e intérprete de Libras.

Em São Luís Cora dentro de mim: plantando roseiras e fazendo doces tem mais uma sessão hoje (26), às 19h, no Cine Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy, Rua do Egito, Centro), com entrada franca e degustação de doces do chef Thiago Brito (Casa d’Arte) ao final do espetáculo. Os ingressos devem ser retirados na bilheteria do teatro a partir de 14h. Longe de qualquer clichê: imperdível!

Arte, violência e política

“A violência gera fascínio. É o principal agente da espetacularização da vida. Eu te pergunto: quem é que comanda o discurso da violência? A mídia e a indústria do entretenimento. Vemos um filme violento ou a cobertura da imprensa sobre um caso policial e pensamos: “A realidade é exatamente assim.” Mas não é. O discurso da violência se impõe como um realismo espetacular que nos fascina, mas não cria saídas. Vamos esquecer o Cara de Cavalo e vamos falar de agora. Lá nos Estados Unidos, um cara vestido de Coringa invade a pré-estreia do filme Batman armado até os dentes e faz uma chacina real! A fantasia explode a tela e mata pessoas de verdade. E quanto a nós, sujeitos comuns, acabamos como vítimas ou espectadores? Como se posicionar artisticamente diante disso?”.

Cara de Cavalo. Capa. Reprodução
Cara de Cavalo. Capa. Reprodução

Ao responder sobre a relação entre arte e violência, acima, o Entrevistado, uma personagem de Cara de Cavalo [Cobogó, Coleção Dramaturgia, 2015, 66 p.], o texto da peça de Pedro Kosovski, encenada pel’Aquela Cia. de Teatro (RJ), dá a real em um vídeo, antes de a encenação propriamente dita começar. Cara de Cavalo, sabemos, é o controverso personagem imortalizado por Hélio Oiticica na bandeira que traz seu retrato morto, com a inscrição “seja marginal, seja herói”.

Agora o Entrevistado comenta a relação entre arte e política: “Hoje em dia, a política se expressa na arte mais pela forma do que pelo conteúdo. Mas se a gente olha a história da arte, não é bem assim. É fácil observar obras que elegem uma certa causa ou tema como bandeira, assumindo normalmente um tom denuncista, ou didático. Um exemplo histórico: o CPC, dos anos 1960, onde uma elite intelectual santificava o pobre, o excluído. Outro caso mais interessante: uma carta de Graciliano Ramos para Portinari. Como se sabe, esses artistas retrataram em suas obras a miséria no Brasil. Nessa carta, Graciliano questiona Portinari e afirma que vive uma séria crise, já que, se não existisse a fome e a pobreza, talvez ele não tivesse força para se tornar artista. Compreende a dimensão do problema?”.

Autor, diretor e ator de teatro carioca, Kosovski cerze com tons de ficção e atualiza a lenda de Cara de Cavalo – infelizmente bastante atual: Manoel Moreira, seu nome de pia, foi morto pelo esquadrão da morte carioca na então recém-instalada ditadura civil-militar que assombrou o país por 21 anos. O motivo? Justiçamento pela morte de um agente da polícia que usou do cargo e da farda para defender interesses pessoais de um bicheiro. De pequeno traficante, cafetão e contraventor, o morador da Favela do Esqueleto passaria imediatamente a ser o bandido mais procurado do Rio de Janeiro. Qualquer semelhança com as milícias contemporâneas não é mera coincidência.

Novamente o Entrevistado, sobre a relação entre Hélio Oiticica, artista plástico de quem a Tropicália de Caetano, Gil e companhia pegaria emprestado o nome, e Cara de Cavalo: “A relação entre Cara de Cavalo e Hélio Oiticica é interessante para se pensar o problema atual da violência. Nesse caso, ninguém é refém da violência. Quando ele cria a obra em homenagem ao Cara de Cavalo, ou quando ele cunha a famosa frase “Seja marginal, seja herói”, há uma tomada de posição. Ele poderia se render ao “bandido bom é bandido morto”, mas não. “Seja marginal, seja herói” é um chamado para um momento ético”.

“O jornalismo não se ocupa de verdades. Você sabe”, afirma a Entrevistadora a certa altura. Com críticas aos comportamentos da velha mídia e da polícia, Cara de Cavalo é uma peça necessária e atualíssima, um convite à reflexão.

O baile da Banda Mirim

Cena de Sapecado. Foto: Georgia Branco

 

Oito anos depois de sua montagem original, o espetáculo Sapecado, da Banda Mirim, chega à São Luís nesta quarta-feira (15), graças ao apoio da Petrobras – a montagem original foi possível graças ao apoio do Programa de Ação Cultural, da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.

Em 2008, ano da primeira montagem, Sapecado levou diversos prêmios: Associação Paulista de Críticos de Arte de melhor texto e melhor espetáculo, Femsa de Teatro Infantil e Jovem de melhor trilha sonora original e melhor espetáculo infantil, Cooperativa Paulista de Teatro de melhor espetáculo juvenil e melhor trilha original, Júri Guia da Folha de melhor espetáculo infantil e Revista Veja de melhor espetáculo infantil.

A trilha sonora e direção musical, um espetáculo à parte, são assinadas por Kléber Albuquerque e Tata Fernandes. A trupe é formada por elenco estelar, que mescla atores e músicos, entre os quais nomes que figuram em fichas técnicas de discos e shows de artistas como Ceumar, Chico César, Itamar Assumpção e Zeca Baleiro, todos figuras de destaque na música brasileira, parceiros dos autores da trilha.

Marcelo Romagnoli assina texto e direção do espetáculo. Baseada em São Paulo, a selva de aço e concreto, a Banda Mirim, 12 anos de estrada, cai na estrada com um espetáculo que tem uma estrada por cenário: Assunta Felizarda de Jesus (Claudia Missura) vive sozinha na roça, acompanhada apenas por seu cachorro Rex (Edu Mantovani). Um dia recebe um convite, trazido pelo carteiro Adauto (o excelente cantor Rubi), para ser madrinha do casamento da comadre Dete Mandioca. Juntos, os três cruzam a estrada do Bromongó até a Vila do Sapecado para participar do baile.

Parte dos 70 minutos do musical infantil se passa na viagem até a festa. As lembranças de uma infância vivida no interior forneceram elementos para Romagnoli construir o texto. “Lá a música rodeava tudo. Era dupla que cantava, era baile na igreja, sanfoneiro pelo caminho, rádio AM. Tinha história de mata cerrada, rio, bicho, noite escura, estrada de terra, que nem a estrada do Bromongó, onde a alma é grande e a gente é pouca”, conta o diretor em release distribuído aos meios de comunicação.

Cena de Sapecado. Foto: Andrea Pedro
Cena de Sapecado. Foto: Andrea Pedro

Amizade, fraternidade e respeito são valores que permeiam o espetáculo, no fundo pensado para crianças de qualquer idade. “São temas que para nós, da Banda Mirim, são legados importantes, para dizer às crianças o que nós acreditamos como adultos: que o amor, a amizade e o sublime ainda são possíveis”, continua.

A ida de Assunta, Adauto e Rex ao baile é ilustrada musicalmente por parcerias de Kléber e Tata, entre um fox de trilha sonora para o namoro de vacas e sapos no brejo ou o desafio-repente entre a Benzedeira e o Coisa-Ruim na mata fechada. “Uma das coisas mais prazerosas deste trabalho foi podermos mergulhar musicalmente nesse universo da música caipira, na poesia, no humor, nas danças, nos ritmos deste Brasil profundo, desse lugar que é um outro tempo”, revela Albuquerque.

Com elenco formado por 11 artistas, a apresentação da Banda Mirim acontece nesta quarta-feira (15), às 15h e às 19h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), ambas com entrada franca – ingressos devem ser retirados com uma hora de antecedência na bilheteria do teatro.

A primeira sessão é voltada a alunos de escolas públicas e instituições de defesa dos direitos da criança e do adolescente; a segunda, aberta ao público em geral. A trupe realizará ainda em São Luís dois encontros artísticos: um com grupos de teatro, músicos, estudantes de artes cênicas e agentes locais dedicados às artes para crianças e jovens, no espaço Re(o)cupa (Rua Afonso Pena, 20, Centro); outro com crianças, mestres e brincantes do tradicional Bumba Meu Boi de Maracanã, na sede da agremiação, na comunidade homônima.

Na passagem pela Ilha a Banda Mirim fará ainda doações de CDs, livros e revistas a escolas públicas, instituições, associações comunitárias, grupos de teatro e cultura popular participantes dos encontros, artistas, músicos e entidades envolvidas nas atividades realizadas nas cidades da turnê, que passa também por Belo Horizonte, Brasília e Goiania.

Assista clipe do musical:

Ficha Técnica

Texto e direção: Marcelo Romagnoli
Trilha sonora e direção musical: Kléber Albuquerque e Tata Fernandes
Elenco: Claudia Missura, Rubi, Tata Fernandes, Simone Julian, Nina Blauth, Nô Stopa, Foquinha, Olívio Filho, Lelena Anhaia, Edu Mantovani e Alexandre Faria
Figurinos: Verônica Julian
Assistente de figurinos: Maria Cristina Marconi
Cenário e desenho de luz: Marisa Bentivegna
Cenotécnicos e contrarregras: Luiz Cláudio Fumaça, Jean Marcel e Rodrigo Oliveira
Engenheiro de som: Ernani Napolitano
Danças brasileiras: Silvia Lopes
Consciência corporal: Gisele Calazans
Direção de movimento: Cláudia Missura
Produção executiva: Andrea Pedro
Assistente de produção: Bianca Muniz
Apoio: Governo do Estado de São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura, Programa de Ação Cultural (PAC) de 2008
Patrocínio Circulação 2016: Petrobras

Serviço

O quê: Musical Infantil Sapecado
Quando: quarta-feira (15), 15h (sessão especial para alunos de escolas públicas e crianças e adolescentes atendidos por instituições de defesa dos direitos da criança e do adolescente) e 19h (sessão aberta ao público). Apresentações com intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras)
Onde: Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro)
Quanto: entrada franca. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início da apresentação.
Classificação indicativa: livre. Recomendado a partir de cinco anos.
Duração: 70 minutos

Comédia musical piauiense tem duas apresentações gratuitas em São Luís

Cena de A república dos desvalidos. Foto: Margareth Leite
Cena de A república dos desvalidos. Foto: Margareth Leite

 

Hoje (4) e amanhã, às 19h30, no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy, Rua do Egito, Centro), o Grupo de Teatro Pesquisa (Gutepe), fundado em 1976 em Teresina/PI, apresenta a comédia musical A república dos desvalidos. A peça é uma homenagem a José da Providência, um dos diretores do grupo, já falecido. O espetáculo circula com apoio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Piauí.

A trama se passa no sertão nordestino, em um conjunto habitacional chamado Itararé que, de acordo com o texto da peça, “é só um nome que poderia ser de milhões: existem centenas de Itararés pelo Brasil”, e aborda o inchaço das periferias e a decadência de famílias tradicionais.

A brincadeira – séria, como adverte a trupe – mescla comédia, tragédia, drama, melodrama e revista, em linguagem popular e humor jocoso, tirando onda da hipocrisia religiosa, da política e de si própria.

A montagem é de 1983 e converteu-se num clássico da companhia. A música, de Aurélio Melo mistura choro, rock e tango, entre outros gêneros.

A apresentação é gratuita e os ingressos devem ser retirados com uma hora de antecedência na bilheteria do teatro.

Veja a ficha técnica do espetáculo:

Texto: Afonso Lima
Música: Aurélio Melo
Direção: Arimatan Martins
Elenco: Fábio Costa, Lari Sales, Vera Leite, Eliomar Carvalho, Bid Lima, Marcel Julian e Edith Rosa
Músicos: Aurélio Melo, Paulo Aquino, Wilker Marques, Gustavo Baião e Gilson Fernandes
Figurinos: Bid Lima
Cenários: Manu
Programação Visual: Paulo Moura
Fotografia: Margareth Leite
Camareira: Rosa Costa
Operador de som: Júnior e Jocione Borges
Operador de luz: Assai Campelo
Produção: Afonso Lima, Maicon Fernandes e Adélia Lima
Maquiagem: Wilson Costa
Trabalho de Corpo: Fernando Freitas
Trabalho de Voz: Gisleine Daniele
Produção Local: Carol Marques
Classificação indicativa: 12 anos

Serviço

O quê: Comédia musical A república dos desvalidos
Onde: Teatro da Cidade
Quando: 4 e 5 de março, às 19h30
Entrada gratuita. Retirada de ingressos com uma hora de antecedência na bilheteria do teatro.

Prece para corações cansados encerra temporada 2015 do grupo Teatrodança

A artista e pesquisadora Júlia Emília em ação. Foto: divulgação
A artista e pesquisadora Júlia Emília em ação. Foto: divulgação

 

O Grupo Teatrodança encerra as atividades de 2015 com a apresentação, nesta sexta (18), do espetáculo Prece para corações cansados, na Livraria Leitura (São Luís Shopping), às 19h, de graça – na ocasião o livro Vivendo Teatrodança – Investigações de uma artista maranhense para crianças de qualquer idade será vendido por R$ 20,00.

Coordenado pela artista Júlia Emília, o grupo Teatrodança foi fundado em 1985, embora os trabalhos de investigação da proposta diferenciada em dança, unindo corpo, cena, literatura e música, tenham começado antes. “O trabalho com os dançarinos-atores-criadores se caracteriza pela experiência continuada e progressiva que passa pelas memórias, consciências, trânsitos e experimentações em determinados momentos das vidas de cada um ou do coletivo artístico do qual somos parte. Praticamos e estudamos em trabalho exigente porque nos colocamos à disposição da criação”, explica.

Ao longo de 2015 foram diversas as apresentações do grupo, dialogando com noites de autógrafos do livro Vivendo Teatrodança, que reúne os estudos e experimentações que resultaram nos espetáculos Bicho Solto Buriti Bravo, O Baile das Lavandeiras e Meninos em Terras Impuras.

“A sabedoria decorre da experiência. Não há nada proibido, nãohá punições, há apenas um momento e a vontade de saboreá-lo para responder ao chamado do que se passa em nossas almas. Somos abençoados porque estamos cansados de sentir a ignorância e o sofrimento se alastrando nas vidas. Digamos chega! Sejamos livres para retomar o caminho do espírito!”, diz trecho do texto sobre o espetáculo distribuído à imprensa.

Flaira Ferro muito além do frevo

A atriz, cantora e dançarina no show de lançamento de Cordões Umbilicais, Teatro de Santa Isabel, Recife. Foto: divulgação
A atriz, cantora e dançarina no show de lançamento de Cordões Umbilicais, Teatro de Santa Isabel, Recife. Foto: divulgação

 

Com os dois pés fincados nos terreiros da dança e do teatro, Flaira Ferro resolveu mostrar também sua faceta de cantora e compositora. Cordões umbilicais, seu disco de estreia, é um álbum autoral e autobiográfico, em que a artista dá roupagem pop a diversos elementos de sua formação cultural: frevo, cavalo marinho, caboclinho e maracatu, pernambucanidades temperadas com pitadas de erudito.

Flaira veio ao mundo no meio do carnaval do Recife, tendo se iniciado na dança ainda criança, aos seis anos de idade. Filha de pais foliões, foi aluna do lendário Nascimento do Passo, formou-se em Comunicação Social pela Unicap (Recife) e hoje é professora, pesquisadora, dançarina, atriz e cantora, ufa!, do Instituto Brincante, de Antonio Nóbrega, sediado em São Paulo, onde está radicada desde 2012.

No refrão de Atriz, cantora ou dançarina? (letra e música dela), a pergunta que muitos lhe fazem e farão, este repórter inclusive: “ô menina/ o que é que você vai ser?/ atriz, cantora ou dançarina?”. “Mundo, continente, país, estado,/ cidade, bairro, casa, eu./ Somos tantos mundos/ dentro de outros mundos mais/ e estamos ligados por/ cordões umbilicais”, comunga a letra da faixa-título, parceria de Flaira e Igor Bruno.

Ela assina letra ou música em 10 das 11 faixas, incluindo Contra-regra (pré-novo acordo ortográfico), calcada em versículos bíblicos. A única música que não assina é (mais ou menos) sobre ela. Na verdade é sobre Filhos – o título – em geral. A letra é do ex-deputado federal Fernando Ferro, seu pai: “Filhos são frutos,/ filhos são parte do nosso caminho,/ filhos são flores e são espinho,/ filhos são nós, e nós que atam e desatam./ Filhos são nossa parte, fazendo arte,/ filhos são doces pimentas do ser,/ filhos são nosso prêmio e pranto,/ filhos são surpresas,/ em cada canto./ Filhos não pedem pra nascer…”, reza a letra.

Em Me curar de mim (letra e música dela), literalmente desnuda-se: “E dói, dói, dói me expor assim/ dói, dói, dói, despir-se assim/ Mas se eu não tiver coragem/ pra enfrentar os meus defeitos/ de que forma, de que jeito/ eu vou me curar de mim?”, indaga-se/nos.

Cordões umbilicais. Capa. Reprodução
Cordões umbilicais. Capa. Reprodução

Disponível para download gratuito no site da artista, Cordões umbilicais foi gravado entre agosto de 2013 e abril de 2014 e lançado no Recife em janeiro passado, dentro da programação do Festival Janeiro de Grandes Espetáculos, em cuja 17ª. edição Flaira já havia sido premiada como melhor bailarina, por O frevo é teu?, seu primeiro espetáculo solo, dirigido por Bella Maia.

O disco tem produção musical e arranjos de Leonardo Gorosito e Alencar Martins (seu parceiro em Lafalafa e Contra-regra) e participações especiais do maestro Spok (saxofone) e Léo Rodrigues (percussão). Por e-mail ela conversou com o blogue sobre o álbum, seu trânsito livre entre a música, o teatro e a dança, a porção autobiográfica de sua obra e projetos futuros.

A artista no clique de Patrícia Black
A artista no clique de Patrícia Black

 

Zema Ribeiro – O que melhor define você: atriz, cantora ou bailarina?
Flaira Ferro – Essa resposta está na letra da música que te inspirou a pergunta. Meu caminho é o da busca. Nela procuro os lugares onde moram meus desafios. Quem se dispõe a olhar para dentro de si, na tentativa de entender seu papel no mundo, há de se deparar com muitas questões da existência. A dança está na minha vida há mais tempo, mas ela foi um pontapé inevitável para o teatro e para o canto. O que me interessa mesmo é a ponte que existe entre as três linguagens. Todas elas têm o corpo como instrumento e o movimento como impulso para ações e intenções. A possibilidade de me expressar misturando tudo isso é o que me define hoje.

Com uma consolidada carreira como bailarina e atriz foi preciso cortar algum cordão umbilical com aquelas artes para dedicar-se à música enquanto cantora? Ou tudo se soma e uma expressão ajuda a outra?
Elas são complementares e sem dúvida uma ajuda a outra, principalmente na compreensão de execução. Pra cantar é preciso respirar corretamente, coisa que a dança trabalha bastante. Pra interpretar uma dança ou música a atuação é um recurso importante na escolha das intenções, enfim.

Cordões umbilicais traduz uma reelaboração pop de ritmos tipicamente pernambucanos, como frevo, cavalo marinho, caboclinho e maracatu, e traz além de pitadas eletrônicas, referências eruditas. Como foi o processo de composição e gravação do álbum?
Tudo começou no final de 2012. Em um processo lento e atento às minhas verdades, juntei todas as composições que eu tinha feito ao longo da minha vida e convidei, por afinidade e entrosamento, os músicos Alencar Martins e Leonardo Gorosito para pensarmos na elaboração das músicas. Durante um ano nos encontramos semanalmente na casa de Alencar. Eu mostrava as letras e melodias e os dois criavam os arranjos. Dessa brincadeira saíram duas parcerias, Lafalafa e Contra-regra, com letras de minha autoria e música de Alencar. Depois de tudo arranjado, eles escolheram a dedo os músicos que formariam a banda para gravar no estúdio e foi quando conheci Jota Jota de Oliveira (baixo), Gabriel Zit (bateria) e Ciro de Oliveira (teclado). Fizemos alguns ensaios e gravamos o disco em dois estúdios: Cia do Gato e Ilha da Lua, ambos em São Paulo. Gustavo do Vale foi o técnico responsável pela gravação, mixagem e masterização. Além da banda, o disco contou com a participação especial dos músicos maestro Spok, Léo Rodrigues, Taís Cavalvanti, Danilo Nascimento, Sandra Oakh, Ramiro Marques e meus pais. Também tive parceiros fundamentais na autoria de algumas letras, são eles: Camila Moraes, Igor Bruno, Ulisses Moraes e minha irmã Flávia Ferro. Apesar de eu ter idealizado o projeto, Cordões Umbilicais foi feito por muitas mãos e jamais teria a cara que tem se não fossem todas as pessoas que mencionei acima. Tive a sorte de contar com músicos, familiares e profissionais que foram verdadeiros portais para esse sonho ser compartilhado.

Em Templo do tempo se indaga: “será que saberei um dia/ o que vou ser quando crescer?”. Nenhum risco de Cordões umbilicais ser teu único disco, não é? Ainda é cedo, mas já se pegou pensando no sucessor da estreia?
Sem dúvida. A composição é um exercício e uma necessidade constante. Tem muita música nascendo e em algum momento irei desaguá-las em um novo disco. Mas ainda vai levar tempo. Quero curtir esse primeiro filho com calma, rodar com shows, digerir e processar essa descoberta com carinho.

A letra de Contra-regra tem versículos bíblicos, sem nem de longe pagar de gospel. Você é religiosa? É católica? Que papel tem a Igreja em sua vida?
Até o mais ateu dos ateus não nega: deus é um tema irresistível. Não sou católica, muito menos religiosa. Levo uma vida sem misticismos ou superstições. A meu ver, dignidade vem com trabalho, bom humor e uma boa dose de teimosia. Acredito na espiritualidade como um tipo de inteligência que qualquer um pode ou não desenvolver e, para mim, a conexão com o divino é um estado de discernimento e expansão de consciência sobre o todo. Nasci num país onde os preceitos da cultura judaico-cristã predominam e de alguma forma me sinto influenciada por isso. Sou fascinada pela mensagem intrigante de amor incondicional pregada por Jesus Cristo. Quem consegue amar ao próximo como a si mesmo? Quem é capaz de dar a outra face se alguém o bater? Eu não consigo. A meu ver, o verdadeiro artista é um devoto às questões da alma. Neste sentido Jesus é pra mim um artista revolucionário e transgressor da maior ordem e, por isso mesmo, acredito que sua mensagem está longe de ser compreendida pela ganância e hipocrisia que regem o sistema político e cultural do Ocidente. Fico imaginando o que Jesus faria se presenciasse as atrocidades irreparáveis que os homens fazem em seu nome. É tanta intolerância, homofobia, racismo e violência dentro das igrejas que tenho dificuldade de me sentir representada plenamente por alguma instituição. Mas acho importante compartilhar experiências coletivas de fé para fortalecer a crença individual, seja ela qual for. Procuro me cercar de pessoas generosas que estejam dispostas a olhar a vida sem dogmas e moralismos e são nestas relações que minha igreja reside em essência. Identifico-me profundamente com a lógica de agradecimento presente nas manifestações populares como o Cavalo-marinho e o Reisado [maiúsculas dela]. Fui batizada em igreja batista, sempre que dá frequento a IBAB, o templo budista da Monja Coen e as sambadas do Instituto Brincante.

Diversas faixas têm um quê autobiográfico. O quanto dói se expor assim, como você afirma em Me curar de mim?
Não sei se existe uma dimensão para medir nossas dores. Acredito que todo processo de transformação demanda algum tipo de sofrimento, o que é saudável e natural. No meu caso, a exposição de minhas fraquezas dói o necessário para me fazer perceber o que preciso trabalhar.

Por falar em exposição, sua participação no projeto Apartamento 302, do fotógrafo Jorge Bispo, ganhou repercussão na seara política, ao que parece com veículos de comunicação querendo atingir seu pai. O que achou de participar do projeto e qual a sua opinião sobre essa repercussão enviesada?
Participar do projeto foi uma experiência interessante para lidar com a auto-imagem, o lugar do feminino e o julgamento externo. Sinto que a repercussão distorcida e maldosa só fortaleceu a importância de agir a partir da fidelidade às minhas próprias questões. O artista nem sempre vai ser compreendido, então, avante. Quando a gente se entrega de coração a alguma coisa, a paz que vem da escolha feita com verdade é absurda. O autoconhecimento é um tema que me seduz muito, desde pequena. Procuro viver atenta às minhas necessidades e todos os dias me faço a pergunta: estou investindo meu tempo tentando ser o melhor de mim mesma? A partir dela vou encontrando respostas para tomar decisões que independem do que os outros vão dizer ou achar.

Em Atriz, cantora ou dançarina você afirma: “Por ora agora gosto de cantar/ mas se amanhã isso bastar/ serei fiel ao que me der vontade”. O que Flaira ainda não fez e tem vontade? Muita coisa, né? Mas das que estão no topo da lista, tenho muita vontade de organizar uma viagem intensa pelo Brasil para fazer uma pesquisa de campo sobre os ritmos e as danças populares de cada região do país.

Assista o clipe de Lafalafa: