Arquivo da tag: super-8

Maré Memória

MURILO SANTOS
ESPECIAL PARA O BLOGUE

Já me perguntaram se essa foto é de minha autoria. Acho que sim. Coordenei o Departamento de Cinema e Fotografia do Laboratório de Expressões Artísticas (Laborarte), desde a sua fundação até meados de 1975. Antes disso, fiz parte do grupo que deu origem ao Laborarte, o Tefema, Teatro de Férias do Maranhão, fundado por Tácito Borralho em 1971. Desde então passei a fotografar e fazer iluminação de espetáculos. No Laborarte fiz fotos durante nossas pesquisas de campo e de espetáculos. A iluminação das peças também ficava a cargo do Departamento de Fotografia e Cinema. Lembro de ter feito uma foto semelhante a essa, desse mesmo ângulo. Lembro de ter aproveitado a placa de “proibido fumar” do Teatro Arthur Azevedo, enquadrando somente a palavra “proibido”, para sublinhar o tom de protesto do espetáculo e das músicas de Cesar Teixeira e Josias Sobrinho. Coisas da época. Se de fato a foto é de minha autoria, ela certamente foi feita durante um ensaio no Arthur Azevedo, momento em que eu aproveitava para sair da cabine de iluminação e fazer fotos para registro interno e divulgação dos espetáculos.

Com a adaptação da obra de José Chagas, Maré Memória, o Laborarte concretiza o sonho de integrar as diferentes linguagens desenvolvidas pelos chamados departamentos: Cênicas; Dança; Música; Fotografia e Cinema; Artes Plásticas e Artesanato; Propaganda; Imprensa.

O mastro que se vê na foto representa uma festa de São Benedito. Além das músicas compostas especialmente para o espetáculo, era cantado o tradicional bendito de São Benedito. Lembro que nesse momento os atores aceleravam progressivamente o cântico e o andamento de uma procissão em torno do mastro, até tornar-se uma correria. Geniais coisas do Tácito!

Para esse espetáculo, realizei dois filmes curtos em Super-8 filmados nas palafitas do bairro da Liberdade. Um documentário e outro que poderíamos chamar de experimental. A exemplo das músicas que eram cantadas e tocadas pelos músicos protagonistas da foto, assumindo personagens na cena, como forma de integrar também, o cinema ao espetáculo teatral, os filmes eram projetados num lençol estendido num momento determinado em um varal dessa palafita cenográfica que aparece na imagem. A ideia era fazer com que as imagens externas e reais compusessem a encenação no palco. Algo inédito para aquela época. Portanto, é em 1974, quando experimentamos de fato um laboratório de expressões artísticas integradas com Maré Memória é que se inicia o ciclo do Super-8 no Maranhão. Um início que tem na projeção desses filmes talvez as primeiras e únicas exibições para um público pagante

O curta experimental, se assim podemos classificá-lo, durava menos de três minutos. Neste filme, as imagens, quase sempre em closes, associavam estacas de palafitas aos buracos de caranguejos na lama, banhados pelo leve vai e vem das ondas da maré. O filme era projetado no instante em que o casal protagonista do espetáculo entrava em casa e se recolhia às suas intimidades. O público da peça pode ver o que podemos considerar talvez o único filme erótico do ciclo Super 8.

Guardo esta foto que registra as filmagens dos curtas para o espetáculo Maré Memória. No cenário de mangue e lama, a câmera Super-8 (uma Canon 1014 recém doada ao Laborarte) acha-se protegida por um saco plástico.

De pé no mangue (e lama) filmando para Maré Memória, o cineasta Murilo Santos fotografado por um palafitado

Maranhão quilombola: olhares do cinema na década de 1970

[Não costumo pendurar releases acá. Mas quebro a regra, pois o assunto vale a pena e estes dias a correria não tem sido pequena]

Mostra de documentários de Jean-Pierre Beaurenaut e Murilo Santos

Nos dias 20 (quarta) e 21 (quinta-feira), às 19 horas, na Aliança Francesa (Rua do Giz, Praia Grande), o fotógrafo e cineasta Murilo Santos apresenta dois documentários realizados em meados da década de 1970 sobre comunidades negras rurais. No primeiro dia será exibido o documentário Le Bonheur Est Là-bas, em face, um média metragem (filmado em película 16mm) do cineasta francês Jean-Pierre Beaurenaut e, no segundo dia, A festa de Santa Teresa, um curta metragem de autoria de Murilo Santos, filmado em película Super-8 – ambos os documentários podem ser considerados as primeiras obras cinematográficas a abordarem comunidades negras rurais no Maranhão.

Em 1975, Murilo Santos, então cinegrafista da TV Educativa do Maranhão, teve como professor de cinema Jean-Pierre Beaurenaut, cujas influências o inspiraram em seu trabalho no que tange à forma de fazer documentário, num período também de grande culto ao etnólogo e cineasta francês Jean Rouch. Jean-Pierre filma alguns personagens da comunidade de Ariquipá, antigo engenho e fazenda de cana de açúcar no município de Bequimão, que se deslocam para São Luís em busca de melhores condições de vida – o subemprego surge como única alternativa.  O título Le Bonheur Est Là-bas, em face traduz a frase de um dos personagens ao justificar seu êxodo para a cidade: “a felicidade está lá na frente”.

O documentário de Murilo Santos foi realizado no município de Alcântara, na comunidade quilombola de Itamatatíua – não muito distante de Ariquipá – e aborda a tradicional Festa de Santa Teresa. Ao contrário do filme anterior, este documentário enfoca a comunidade num período em que seus moradores, residentes em São Luís, retornam ao seu local de origem para a festa.  O documentário A Festa de Santa Teresa conta com a participação da antropóloga Maristela de Paula Andrade e de Joaquim Santos que, nessa época, iniciava suas pesquisas no campo da etnomusicologia. A equipe de Jean-Pierre Beaurenaut teve como diretor de fotografia o cineasta Yves Billion, autor de Guerra de Pacificação na Amazônia (1973).

Os dois filmes trazem em seus cenários reais algumas preciosas particularidades. No filme de Murilo Santos o destaque, quanto à raridade de imagens, vai para as cenas do baile em Itamatatíua, ao som de uma das primeiras radiolas de reggae. Em Le Bonheur Est Là-bas, em face Jean-Pierre mostra um antigo engenho de cana de açúcar na baixada maranhense, cujas máquinas vindas de  Liverpool na Inglaterra ainda funcionavam. Outras imagens preciosas em seu filme são locais da capital, hoje completamente transformados, como a região do cais da Praia Grande, o bairro do João Paulo com o Cine Rex ainda em funcionamento e o trem trafegando pela antiga Estrada da Vitória, desde a estação da Rffsa (Rede Ferroviária Federal S/A) na região, onde hoje se situa a Praça Maria Aragão.

Desde então, Murilo Santos não teve mais contato com seu ex-professor Jean-Pierre Beaurenaut, embora tenha estado no Brasil em 1990 para filmar, juntamente com Jorge Bodanzky e Patrick Menget, A Propos de Tristes Tropiques, documentário sobre Claude Lévi-Strauss, com foco em sua presença no Brasil entre 1935 e 1939.

Durante anos Murilo Santos alimentara a esperança de obter uma cópia do filme francês e exibi-lo em Ariquipá, porém, recentemente soube do lançamento na França do documentário de Beaurenaut e conseguiu adquirir uma cópia em DVD. O interesse de Murilo Santos com a comunidade de Ariquipá se dá a partir de um documentário sobre o reggae, para o qual filmou em 1996 os funerais de Antônio José, até então um dos mais famosos Djs de radiolas de reggae, morto em acidente de trânsito. Além disso, Antonio José – “O Lobo” da radiola “Estrela do Som” – era sobrinho de Pedro Silva “Calango”, líder sindical que Murilo Santos conhecera na década de 1970 quando produzia materiais audiovisuais para as ações educativas da Comissão Pastoral da Terra.
 
Pedro Silva e outro companheiro de Ariquipá aparecem ao lado do cineasta Jean Pierre Beaurenaut, na fotografia deixada pela equipe francesa durante as filmagens 1975. Esta imagem, ainda hoje existente na comunidade, é uma espécie de relíquia, que durante décadas parece corporificar a esperança de seus moradores de um dia ver as imagens filmadas pelo francês, especialmente os mais antigos.

A programação do evento na Aliança Francesa inclui fotografias e outras peças audiovisuais que ilustram o relato da experiência empreendida por Murilo Santos ao levar, de forma voluntária, esses dois filmes às comunidades, em 2008 e 2010, possibilitando um encontro dos personagens com suas imagens “congeladas” em películas cinematográficas por mais de 30 anos.