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Fábula contemporânea ironiza sociedade que aplaude celebridades miojo

Lionel Asbo. Capa. Reprodução
Lionel Asbo. Capa. Reprodução

 

O novo romance de Martin Amis é uma fábula contemporânea sobre o mundinho deslumbrado e tresloucado das celebridades fast food e o ridículo que as cerca.

Lionel Asbo [Companhia das Letras, 2014, 360 p., tradução de Rubens Figueiredo; leia trecho], antes Pepperdine, ganha este nome ao assumir sua “condição de comportamento antissocial” (na sigla em inglês), depois de reiteradas passagens por prisões, graças a crimes em Diston Town, subúrbio londrino em que vive.

Para a criminalidade o personagem-título demonstra predisposição e talento. Não à toa cria dois pitbulls, Joe e Jeff, “ferramentas de trabalho”.

O sobrinho Desmond, que vive com ele, chama-o carinhosamente de Tio Li. O garoto consegue algum futuro justamente seguindo às avessas os conselhos recebidos de Asbo, sobre trânsito – dirige perigosamente – e a universidade – o tio não a valoriza, é semianalfabeto e tem problemas de dicção; o sobrinho torna-se um aluno de destaque, enquanto faz bicos de taxista para se sustentar. O que não o torna um santo: por várias vezes, escondido do tio, Des faz sexo com a própria avó.

Na loteria, um jogo que costuma classificar de “para otários”, Lionel ganha 140 milhões de libras, por meios não convencionais. Torna-se celebridade instantânea, qual um ex-BBB, paparicado por paparazzi e outras engrenagens dessa indústria, o que não o livra de novas confusões.

Ele desperdiça dinheiro com futilidades como as suítes mais caras de hotéis de luxo, farras megalomaníacas e prostitutas, enquanto sua mãe agoniza num asilo. A narrativa é conduzida com bom humor e leva o leitor a reflexões sobre a distância entre gestos e palavras – quantos aspiram tornar-se celebridade no fantasioso mundinho das redes sociais? –, além de ironizar a relação da mídia e da sociedade com astros e estrelas meteórica e artificialmente fabricados.

Vísceras sociais vomitadas a uma caixa preta

Com capítulos e páginas numerados de trás pra frente, Sobrevivente [Leya, 2012, 353 p., tradução de Tatiana Leão], segundo romance de Chuck Palahniuk, conta a história de Tender Branson, fanático religioso que sequestra um avião – para irmos direto ao ponto. A contagem regressiva é o tempo de os motores pifarem e a aeronave cair, o tempo em que ele aproveita para registrar sua própria história de vida, que narra à caixa preta.

Branson é o único sobrevivente – daí o título – de uma seita religiosa fanática e o autor se utiliza disso para construir uma obra satírica, criticando costumes e valores da sociedade ocidental. O protagonista, por exemplo, alimenta seu peixinho de estimação com valium, usa ele mesmo um sem número de drogas para manter as aparências, afinal de contas, é um líder religioso que precisa conquistar e convencer, principalmente pelo que expõe em cadeia nacional de tevê.

É também ele um incentivador de potenciais suicidas a consumarem o ato, por telefone. É mais um elemento irônico do texto: qualquer um pode ser promovido a qualquer coisa, tudo depende da intensidade da cobertura da mídia, para citarmos uma passagem em que ele questiona mesmo o martírio de Jesus Cristo. Como convém, a obra é recheada de passagens bíblicas.

Também recheiam as páginas de Sobrevivente dicas domésticas, os afazeres do lar outra das funções do personagem principal, antes de sua vida virar. Com uma narrativa frenética, o livro, que também diverte, talvez seu objetivo primeiro, acaba revelando bastidores de um circo em cuja plateia só se veem palhaços: eu, você, seus leitores e todos aqueles de quem bancos, governos, igrejas e instituições em geral riem da cara a cada quebra de recorde nos lucros.