Caxias é o primeiro destino do Trio Zamoma, com a turnê “Acalanto”

Projeto com Wilson Zara, Mauro Izzy e Moisés Ferreira percorrerá oito municípios maranhenses

Wilson Zara e Mauro Izzy. Foto: divulgação

Caxias, a princesa do sertão, distante 360 quilômetros da capital, é o primeiro destino da turnê “Acalanto”, do Trio Zamoma, que reúne os músicos Wilson Zara (voz e violão), Moisés Ferreira (guitarra) e Mauro Izzy (contrabaixo).

Com patrocínio da Potiguar, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, o projeto tem uma premissa interessante: na medida do possível, as apresentações acontecerão em áreas residenciais ou suas proximidades, em praças de bairros, de modo que as pessoas, ou a maioria do público, possa ver o show, ouvir a música dos artistas de suas próprias calçadas e janelas, evitando aglomerações, tendo em vista que a pandemia, embora tenha diminuído os números de contágios e óbitos, ainda não acabou.

O repertório é formado basicamente por clássicos da música popular brasileira e do pop e rock internacional, além de clássicos do cancioneiro de artistas maranhenses, num arco que vai de Belchior, Fagner, Raul Seixas, Zé Ramalho, Roberto Carlos, Beatles, Bob Dylan, Cesar Teixeira e Geraldo Vandré, entre outros.

Com este e outros projetos, sempre gratuitos, Zara tem sido um dos nomes mais importantes na interiorização da música, em frentes como a educação musical e a formação de plateia.

A apresentação de “Acalanto” em Caxias acontece nesta sexta (20), às 21h, no Mirante da Balaiada (Memorial da Balaiada, Av. General Sampaio, 297-339, Cangalheiro), um dos mais belos cartões postais do município.

A abertura fica por conta da banda Nossa Terra, formada por Jhony Rios (saxofone), Jhonny Casa Nova (voz), Wallace (guitarra), Júlio Cesar (teclado) e Ellain (baixo e voz). O evento conta com parcerias locais da Prefeitura Municipal de Caxias e Secretaria Municipal de Cultura de Caxias.

Novas datas e locais da turnê serão anunciados em breve.

Serviço:

O quê: show da turnê “Acalanto”
Quem: Trio Zamoma, com Wilson Zara, Moisés Ferreira e Mauro Izzy. Abertura: banda Nossa Terra
Quando: sexta (20), às 21h
Onde: Mirante da Balaiada (Memorial da Balaiada, Av. General Sampaio, 297-339, Cangalheiro, Caxias/MA)
Quanto: grátis
Patrocínio: Potiguar, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão
Apoio: Prefeitura Municipal de Caxias e Secretaria Municipal de Cultura de Caxias

Divulgação

“Violivoz”: Chico César e Geraldo Azevedo para êxtase da plateia

Fotos: Hebert Alves. Divulgação

Foi uma noite de fartura.

O cearense Lucas Ló, radicado há cinco anos em São Luís, desfiou um repertório inteiramente nordestino, com especial destaque para o ídolo conterrâneo Belchior, com bastante personalidade.

Acompanhado por Jessé Fonseca, num teclado cheio de balanço e personalidade, passeou ainda por nomes como Fagner, Djavan, Carlinhos Veloz, César Nascimento, Sérgio Habibe e Josias Sobrinho.

Aos pedidos insistentes de “Barco de papel”, joia de sua autoria, respondeu com um educado “já rolou”; o pedido partia dos que adentraram a sala atrasados. Um dos nomes mais sofisticados da noite ludovicense, Ló se apresentou por cerca de hora e meia preparando o terreno para a noite inesquecível que viria, ao mesmo tempo sendo parte dela.

Não faltaram clássicos como “Apenas um rapaz latino-americano”, “Pequeno mapa do tempo”, “Alucinação”, “Fotografia 3×4”, “A palo seco” e “Mucuripe”, da lavra de Belchior, esta última em parceria com Fagner, “Noturno” (Graco/ Caio Silvio), “Serrado” (Djavan), “Ilha bela” (Carlinhos Veloz), “Ilha magnética” (César Nascimento), “Eulália” (Sérgio Habibe) e “Engenho de flores” (Josias Sobrinho).

“Se alguém me dissesse, há cinco anos, quando saí do meu Ceará, que hoje eu estaria aqui, abrindo o show dessas duas figuras centrais na minha formação, nesse teatro lotado, eu não acreditaria. É um momento muito importante para mim”, revelou Ló, agradecendo a presença do público, em cujo repertório se destaca ainda a também autoral “Ode a São Luís”, inédita, em que ele, de certo modo canta sua rota e a receptividade com que foi acolhido na ilha do amor. Uma avant-première aos atentos que chegaram cedo.

Quando Chico César e Geraldo Azevedo subiram ao palco, a cama estava pronta.

“Violivoz” é um show vigoroso e sincero. Sobem ao palco sem firulas, dizendo logo a que vieram: atacam a introdução de “Táxi lunar” (Alceu Valença/ Geraldo Azevedo/ Zé Ramalho), mas antes de cantarem, emendam a “Cantiga (Caicó)”, das Bachianas Brasileiras, de Heitor Villa-Lobos, sucesso de Teca Calazans, com alterações na letra, a homenagear suas terras natais e reafirmar a admiração mútua: “oh, mana, deixa eu ir/ oh, mana, eu vou a pé/ oh, mana, deixa eu ir/ para o sertão de Catolé”, começa Chico, referindo-se a Catolé do Rocha, na Paraíba, seguido por Geraldo: “oh, mana, deixa eu ir/ andar é minha sina/ oh, mana, deixa eu ir/ para o sertão de Petrolina”, e depois: “oh, mana, deixa eu ir/ oh, mana, eu vou cedo/ oh, mana, deixa eu/ cantar com Geraldo Azevedo” e “oh, mana, deixa eu ir/ andar com quem me preza/ oh, mana, deixa eu/ cantar com Chico César”. A determinada altura de “Táxi lunar”, Geraldo Azevedo solta um “vai, Zé!” e Chico César imita a voz de Zé Ramalho. E era apenas o primeiro número.

O vigor a que me referi diz respeito ao fato de a dupla cantar e tocar – e por vezes dançar – por duas horas e 15 minutos de espetáculo, de pé. A sinceridade é percebida na admiração mútua várias vezes declarada. Um é fã do outro, os dois se tornaram amigos e parceiros. Geraldo Azevedo, ao lembrar de como se conheceram, convidado a gravar uma música de Chico César em um disco produzido por Totonho, que homenageava as vítimas da chacina da Candelária, no Rio de Janeiro, nunca lançado, já percebeu ali suas qualidades. Depois, quando Chico lançou “Aos vivos” (1995), seu disco de estreia, revelou ter comprado 50 exemplares e distribuído a amigos, produtores, em suas turnês pelo Brasil e Europa. “O Belchior, que é da minha geração, dizia que “nossos ídolos ainda são os mesmos” e Chico César era um ídolo novo e eu queria apresentá-lo pra todo mundo”, disse Geraldo. Chico completou: “Belchior também dizia que “o novo sempre vem”” e revelou a influência exercida sobre o então adolescente pelo disco “Cantoria 1” (1984), que registrou o encontro de Geraldo com Elomar, Vital Farias e Xangai.

“Para mim é uma alegria muito grande dividir o palco com Geraldo Azevedo, é uma baita honra vê-lo cantando uma música minha”, declarou Chico, depois de cantarem juntos “Estado de poesia” (Chico César).

É um show de entrega. Não há momentos solo de um e outro artista. Eles cantam juntos o tempo inteiro o repertório um do outro e de artistas admirados, casos de Geraldo Vandré (“Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando)” é emendada a “Mama África”, de Chico), Milton Nascimento e Caetano Veloso (“Paula e Bebeto”, gravada por Geraldo em 1979) e Paul Anka (a versão de Fred Jorge para “Diana”). Ninguém se cansa: nem os artistas no palco, nem a plateia. Todo mundo em comunhão. Ou quase.

Quando Chico César anunciou que cantaria “outra canção de amor, de nosso amor pela Terra, pelos pequenos agricultores, uma parceria minha com Carlos Rennó”, e atacou de “Reis do agronegócio”, um coro de “Fora Bolsonaro!” se ouviu no Centro de Convenções. Uma tentativa de vaia, raquítica, foi encoberta, e prevaleceu a vontade da maioria. Outros gritos de “Fora Bolsonaro!” vieram e Chico César, numa sequência demolidora, mandou, sempre acompanhado por Geraldo Azevedo, “Pedrada” (Chico César), cujo refrão diz: “fogo nos fascistas, fogo Jah!”. “Essa música, a primeira vez que eu cantei, foi em cima dum trio elétrico, num carnaval, aqui em São Luís, para 100 mil pessoas, e eu fiquei muito contente com a receptividade”, lembrou.

Em “Bicho de sete cabeças” (Geraldo Azevedo/ Renato Rocha/ Zé Ramalho), passaram perto de 10 minutos solando seus violões, até cada um cantar uma parte da letra, sem as sobreposições que a tornaram um clássico. Comentaram a pandemia, o isolamento social, a gênese do show, após Chico ter assistido a um show de Geraldo em São Paulo e terem ido para a casa do primeiro, depois do espetáculo, tocar violão na cozinha. Tocaram duas parcerias, uma inédita e o single “Nem na rodoviária”, já disponível nas plataformas de streaming.

São duas gerações de artistas, convivendo harmoniosa e respeitosamente, Geraldo aos 77 anos, Chico aos 58. Têm a mesma grandeza e importância. Nenhum se sobressai ao outro e o equilíbrio é também uma característica de destaque do show. São dois artistas que, cada um a seu tempo, souberam cativar o público de São Luís – suas apresentações por aqui são sempre marcadas por casas cheias e intensa interação das plateias. Ontem não foi diferente.

Perto do fim do show, Geraldo apenas ameaçou cantar “Terra à vista” (Carlos Fernando). Puxou o “San, san, san, São Luís do Mará” do refrão, que a plateia imediatamente repetiu em coro, mas deixou apenas a vontade no público. Alguém na plateia, insistentemente pedia “Pétala”, não o sucesso de Djavan, mas abreviando o título de “Pétala por pétala” (Chico César/ Vanessa Bumagny). “A gente vê muito homem ansioso, mulher é menos. A mulher goza melhor por que ela goza depois, goza mais e melhor; o homem é sempre aquela pressa, de querer gozar logo”, contou para gargalhadas da plateia e o não-atendimento ao pedido renitente.

Chico César citou vários amigos, maranhense ilustres, afirmando ser uma honra estar mais uma vez em sua terra: Papete, Rita Benneditto, Josias Sobrinho, Chico Saldanha, Flávia Bittencourt, Alcione. E Celso Borges, a quem fez especial deferência: “foi quem me apresentou a Zeca Baleiro. A gente já morava em São Paulo e ele um dia me disse: olha, tem um amigo meu, do Maranhão, vindo morar aqui, é meio doidinho assim que nem tu, não é bem compreendido em nossa terra; isso naquela época, e eu entendi de cara o que ele queria dizer”, contou, para risadas da plateia. Em seguida ofereceu-lhe “Você se lembra” (Geraldo Azevedo/ Pippo Spera/ Fausto Nilo).

Também cantaram juntos “Pedra de responsa” (Chico César/ Zeca Baleiro) e na sequência Geraldo puxou, a capella, o refrão de “Cadê meu carnaval” (Geraldo Azevedo), que ele cantou, modificando a letra: “Olê lê lê/ cadê meu carnaval?/ olê lê lê/ cadê meu carnaval?/ carnaval está chegando/ cadê meu carnaval?” – a letra original diz “carnaval está morrendo”. O público ficou cantando enquanto eles se retiraram do palco.

Aos gritos de mais um, retornaram, para delírio dos presentes, mandando o clássico “Dona da minha cabeça” (Geraldo Azevedo/Fausto Nilo), em arranjo de reggae. Já não havia mais ninguém sentado, praticamente todo mundo cantava junto e alguns casais arriscavam uns passos.

Um final apoteótico de um show antológico, de uma turnê adiada e interrompida pela pandemia de covid-19, indefinidamente prorrogada pela irresponsabilidade de uns poucos que insistem em querer um Brasil feio e triste, justamente o contrário do colorido das roupas dos artistas e da diversidade que sua música representa, afinal de contas o Brasil alegre e festeiro, que haverá de prevalecer. Espero que este dueto, esta cantoria, este grande encontro, vire disco. Oxalá!

Música de brincante

Fotos: Guta Amabile

“Todo brasileiro deveria ter um pandeiro”.

A manchete nunca me saiu da cabeça, uma fala de Antonio Nóbrega quando capa da revista Caros amigos, uma entrevista há quase 20 anos. Foi a frase de que me lembrei quando fui avisar minha esposa e enteada do concerto que ele e a Orquestra Ouro Preto deram ontem (3), no Teatro Arthur Azevedo.

“Tirando a casaca” é um desses espetáculos que não se deve perder por nada.

De certa forma, o encontro de Nóbrega, ex-Quinteto Armorial (que Ariano Suassuna inventou há mais de 50 anos), com a orquestra regida pelo maestro Rodrigo Toffolo, é uma conexão (nunca de todo perdida) com as ideias do dramaturgo, defensor de uma arte genuinamente nacional, que deram origem ao Movimento Armorial, de que o quinteto foi um dos maiores expoentes: a realização de uma música de concerto com raízes profundas nas tradições e na cultura popular brasileira, particularmente do Nordeste.

Não faltam fôlego e disposição ao quase setentão Nóbrega – ele completa 70 anos no próximo dia 2 de maio: canta, toca violino, dança e se diverte enquanto diverte e deleita a plateia. Sentada a meu lado, minha esposa puxou-me a mão para sentir-lhe o arrepio quando ele cantou sua “Excelência”, título que bem poderia referir-se à qualidade do repertório levado ao palco, quase completamente autoral.

São Luís foi a segunda cidade a receber o espetáculo. A temporada 2022 da formação foi aberta na capital mineira, após dois anos de eventos sem plateia, em decorrência da prolongada pandemia de covid-19. Os ingressos a preços populares (R$ 30,00 para qualquer setor do teatro) certamente colaboraram para que o público lotasse a casa – antes do espetáculo, parte dos presentes se deparou com uma espécie de “overbooking”, com alguns lugares tendo sido vendidos em duplicata pelo sistema digital que operava a venda de ingressos, mas logo o problema foi resolvido; este repórter, com ingressos para uma frisa, acabou na plateia. A turnê tem patrocínio do Instituto Cultural Vale, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.

O que se viu foi uma verdadeira comunhão entre público e plateia: a alegria estampada nos rostos, duas violinistas cantarolando o repertório enquanto cumpriam suas funções, o público cantando os refrões quando provocado por Nóbrega, que chegou a se deitar no palco, tão à vontade estava, e mesmo a descer dele para cantar à altura do público. Quando solou uma peça acompanhado apenas de pandeiro e zabumba, chegou a desamarrar o cadarço do tênis do pandeirista e atirá-lo à plateia.

Tudo era literalmente brinquedo.

Nóbrega dedicou a apresentação a Mestre Zumbi Bahia, capoeirista, e ao antropólogo gaúcho Norton Correa, ambos adotados por São Luís. Foi comovente também ouvi-lo cantar “O trenzinho do caipira”, tema de Heitor Villa-Lobos que ganhou letra no “Poema sujo” do maranhense Ferreira Gullar.

O artista esbanjou versatilidade e aqui e acolá arriscou uns passos de frevo e maracatu, ritmos que dominam o repertório do concerto, passeando por várias fases de sua carreira, desde o Quinteto Armorial até temas quase inéditos, executados também na apresentação inaugural da turnê.

Todo brasileiro deveria ter um pandeiro. E poder ir, ao menos uma vez, a uma apresentação de Antonio Nóbrega.

Palco Mundo e a alegria do reencontro com a boa música

O Gabriel Grossi Quarteto. Foto: Zema Ribeiro

O baixista Nema Antunes dedicou seu show a seus pares de instrumento Arthur Maia (1962-2018) e Mauro Sérgio, falecido ano passado, vítima de covid-19. Com ele, no palco, um sexteto formado no Maranhão, para a apresentação, incluindo dois integrantes do Quarteto Buriti – de que o contrabaixista Mauro Sérgio, ex-professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, fez parte: Ronald Nascimento (bateria) e Daniel Cavalcanti (trompete e flugelhorn), este também professor da Emem. Ao piano, Marcelo Carvalho, autor de um dos números instrumentais do roteiro, gravado por Nema em “Plúmbeo”, seu disco mais novo. O grupo se completava com Israel Dantas (guitarra), Ricardo Mendes (saxofone) e Renato Serra (teclado) e demonstrou, ao longo da apresentação, que a prática leva à perfeição, tal a qualidade da performance.

Era o show de abertura do Palco Mundo 2022, projeto que integra o circuito Lençóis Jazz e Blues Festival, normalmente realizado em paralelo ao evento, no segundo semestre, com apresentações em Barreirinhas e São Luís. Nenhuma das seis atrações do line up dos dois dias do evento é novidade na produção de Tutuca Viana: todos já se apresentaram em edições anteriores do LJBF. Mas valeu a pena o reencontro de artistas com a plateia, sentimento recíproco traduzido em palavras ouvidas tanto no palco como entre o público.

Os artistas celebravam esse reencontro, após dois anos de lives e esporádicas apresentações presenciais. Não sei se isso potencializou a ranzinzice do repórter, cada vez menos tolerante com aqueles que vão a teatros para ver o show através da tela do smartphone ou que aproveitam qualquer intervalo para ver ou ouvir, obviamente sem fones de ouvido, para azar da vizinhança, o último vídeo do tik tok ou a última mensagem de áudio enviada no grupo da família. Depois não me venham reclamar de Zé da Chave, que obviamente chegou na metade da primeira apresentação, instalou-se na frisa mais próxima à direita do palco e atacou com seu molho.

A apresentação seguinte era do gaitista brasiliense Gabriel Grossi, acompanhado por Eduardo Farias (piano e teclados), Michael Pipoquinha (baixo) e Sérgio Machado (bateria), outro super grupo.

O show foi pautado no repertório de seu disco mais recente, “Re disc cover”, um trocadilho esperto que joga com o fato de ser um disco de releituras de clássicos do pop rock das décadas de 1960 a 90 e sua redescoberta, seja por um público mais jovem, seja por amantes da música instrumental brasileira com pouca relação com bandas como Oasis, Nirvana, Queen e Jackson 5, entre outras – em maio do ano passado ele conversou com Gisa Franco e este repórter, no Balaio Cultural, da Rádio Timbira AM, sobre o álbum.

Grossi se entrega completamente no palco, entre despir o repertório das letras que estamos acostumados a cantar e vesti-lo com sua gaita, quase à beira do esgotamento físico: seu rosto se avermelha, os joelhos dobram, e entre um solo e outro dos músicos que lhe acompanham, muitos goles d’água, para dar conta do recado. De “Isn’t she lovely”, de Stevie Wonder, passando por “Smells like teen spirit”, do Nirvana, “Wonderwall”, do Oasis, “Ben”, do Jackson 5, “Message in a bottle”, do Police, e “Another one bites the dust”, do Queen. Ao reafirmar o prazer de estar em São Luís e falar da força da cultura do Maranhão, lembrou-se que a ilha do amor é também a Jamaica brasileira, antes de atacar de “Redemption song”, de Bob Marley.

Foi o grande show da noite, numa noite de três grandes shows. A quinta-feira seria encerrada com a apresentação do majestoso Filó Machado, setentão paulista mais conhecido e respeitado fora do Brasil, como tantos de nossos gênios. Cantor, compositor, arranjador e multi-instrumentista, apresentou um show autoral, em que prestou homenagens a “Vadeco” (o título da música remete a seu professor de violão), e lembrou a importância do aprendizado oferecido pela experiência de tocar na noite, em bares e boates.

“Se eu não tivesse tido essa experiência, agora eu estaria nervoso, me perguntando o que fazer”, disse, senhor da situação e arrancando risos e aplausos da plateia. Quando um roadie assomou ao palco para corrigir uma sobra de frequência no violão de Felipe Machado (seu neto, que cantou dois bonitos sambas autorais), ele tornou a divertir o público: “eu sou curioso. Eu fiquei vendo aqui e até esqueci de vocês”, disse, para mais gargalhadas. E continuou, num jogo de melismas e onomatopeias repetido pelo público, elogiado pelo artista. Nessa brincadeira, cantou sem o microfone, sempre acompanhado pelo público, e assim, desceu do palco e deu uma volta ao redor da plateia até retornar para junto do grupo que o acompanhava, que se completava com o mesmo baterista de Gabriel Grossi, Sérgio Machado (seu filho), Fábio Leandro (piano e teclados), Carlinhos Noronha (baixo) e Jota P (saxofones).

A programação do Palco Mundo continua hoje (25), a partir das 19h, com apresentações de Gabriela Marques, Bebê Kramer e Arismar do Espírito Santo. A entrada é gratuita e as pulseiras de acesso ao teatro podem ser retiradas na bilheteria, desde as 14h de hoje, sugerindo-se a troca por um quilo de alimento não perecível. A arrecadação será doada à ONG ludovicense Pouso Obras Sociais.

Acalanto: música pelas praças, sem aglomeração

[release]

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A pandemia de covid-19 foi prorrogada para além de qualquer expectativa: nem os mais pessimistas poderiam acreditar que estaríamos onde estamos praticamente dois anos depois de sua eclosão.

O distanciamento social, medida necessária para a contenção do contágio, provocou mudanças de hábitos e, nesse sentido, atividades culturais provaram, ou melhor dizendo, reafirmaram sua importância.

Foi uma explosão de lives e exposições online, entre outras atividades, que ajudaram a população a permanecer mais tempo em casa. Quem dispunha de uma boa biblioteca ou de uma razoável coleção de discos, também delas se valeu, tornando a travessia do período mais suportável.

O poeta Ferreira Gullar dizia que “a arte existe por que a vida não basta”, sentença atestada na prática pelos poucos exemplos aqui trazidos.

A pandemia ainda não acabou. Isolamento e distanciamento social, bem como uso de máscaras e constante higienização das mãos com álcool em gel e/ou água e sabão continuam sendo necessários.

A classe artística foi uma das mais afetadas pela pandemia. Shows, exposições, peças, noites de autógrafos, entre outras, são atividades que promovem aglomeração, em sua essência, exigem contato físico, um prato cheio para a proliferação do vírus.

O cantor Wilson Zara, o baixista Mauro Izzy e o guitarrista Moisés Ferreira são três dos mais conhecidos artistas da noite de São Luís e também sentiram os impactos das medidas restritivas.

“De uma hora pra outra, simplesmente tudo parou, parecia uma profecia de Raul Seixas, embora na música dele a Terra pare por apenas um dia. A gente precisou respeitar, se apropriar de novos mecanismos, repensar o nosso fazer artístico, além de se cuidar, para poder voltar a toda, quando isso fosse possível”, comenta Zara.

As idas e vindas das curvas de contágio e número de óbitos promoveram um efeito sanfona ou gangorra, num estica e puxa, sobe e desce, vai e vem, com a retomada gradual de atividades (artísticas, inclusive) e novos passos atrás.

Zara, Izzy e Ferreira, parceiros de longa data e de outras empreitadas, se uniram no Trio Zamoma, e irão percorrer oito cidades maranheses com o projeto Acalanto.

“A música tem esse poder de acalentar as pessoas, não no sentido de botar pra dormir, mas de instigar sentimentos, recordações, momentos. É esse o espírito”, revela Zara.

As apresentações acontecerão prioritariamente em áreas residenciais, em praças de bairros, de modo que as pessoas, ou a maioria delas, possa ouvir a música dos artistas de suas próprias calçadas e janelas, evitando aglomerações.

As normas de segurança sanitária serão observadas e é possível que em algumas cidades a transmissão seja realizada em modo online, a partir de algum logradouro do município.

Acalanto tem patrocínio da Potiguar, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão. “Ao realizar este projeto e fomentar a cultura nos municípios, a Potiguar cumpre um mandamento constitucional, que qualquer empresa deve guardar, que é sua função social, demonstrada através da preocupação com impactos que vão além dos econômicos, sobretudo durante a pandemia, com o entristecimento do espírito e da alma das pessoas que vivem nos lugares”, comenta Moisés Ferreira, que além de músico é advogado e estudioso de mecanismos de incentivo à cultura.

Gratuitas e abertas ao público interessado em geral, as apresentações terão inicio ainda em fevereiro e os destinos serão divulgados em breve.

“Andarilho Parador” e o reencontro de Djalma Chaves e Nosly com o público

[release]

Artistas se apresentam na Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen), dia 7 de novembro (domingo), às 19h

Nosly e Djalma Chaves voltam a se encontrar com o público no próximo dia 7. Foto: Zema Ribeiro

O show “Andarilho Parador”, de Djalma Chaves e Nosly, realizou duas temporadas, entre 2015 e 2018, percorrendo cidades do interior do Maranhão, e capitais brasileiras, como Teresina/PI, Belém/PA e Brasília/DF.

Já havia algum tempo que os amigos não subiam juntos ao palco – situação agravada pela infelizmente ainda vigente pandemia de covid-19 –, mas obedecendo todos os protocolos de segurança sanitária, Djalma Chaves e Nosly voltam a se apresentar neste domingo, 7 de novembro, às 19h, na Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen), em São Luís.

O show tem entrada franca, graças ao patrocínio da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma), com recursos da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc.

“Tivemos todos que parar de trabalhar durante a pandemia. Isso aconteceu com toda a cadeia produtiva da cultura e também fazemos parte disso. Agora, seguindo todos os protocolos recomendados, voltaremos a desfrutar do calor da plateia”, entusiasma-se Nosly.

“Djalma Chaves é uma das minhas referências e tocar ao lado dele, pra mim, é uma honra muito grande. São muitos anos de amizade fraterna e andanças musicais. Então, resolvemos juntar, levar tudo isso pro palco”, continua.

O nome do show surge a partir da junção do título de dois discos dos artistas: “Andarilho”, de Djalma Chaves, e “Parador”, de Nosly, que depois deste já lançou “Sambas”, inteiramente dedicado a este gênero musical.

““Andarilho Parador” é nosso moto contínuo, nossa engrenagem, amor, afeto e música no palco. Estamos acompanhados, nesse show, de grandes amigos, músicos de altíssimo nível”, elogia Nosly (voz e violão), referindo-se a, além de Djalma Chaves (voz e violão) e ele próprio, Murilo Rêgo (teclados e direção musical), Rui Mário (sanfona), Sued (guitarra), Mauro Travincas (baixo) e Fleming (bateria). A produção é de Tatiana Ramos.

Para Djalma Chaves, a volta aos palcos é motivo de “uma ansiedade muito grande: o artista não vive sem a troca de energia com o seu público. No decorrer da pandemia, eu e Nosly trocamos muitas ideias, virtualmente, e vamos finalmente poder colocá-las em ação nesse reencontro presencial com o nosso público”.

“O repertório do show será composto por músicas autorais, parcerias, além de algumas pérolas do genial conterrâneo João do Vale, com uma mescla de ritmos como pop, xote, bumba meu boi, baião e reggae. Será um show pra cima, com um momento relax onde faremos duas músicas no estilo “um banquinho, um violão””, antecipa Djalma Chaves.

“Tem algumas músicas novas também. O repertório está super alinhado com nossa proposta, de proporcionar à plateia o nosso melhor”, finaliza Nosly.

Serviço

O quê: show musical “Andarilho Parador”
Quem: Djalma Chaves, Nosly e banda
Quando: dia 7 de novembro (domingo), às 19h
Onde: Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen), São Luís/MA
Quanto: grátis
Patrocínio: Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma), com recursos da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc
Informações: facebook.com/andarilhoparador

Raul Seixas terá tributo no ano em que a Terra parou

[release]

Cantor Wilson Zara realizará show em homenagem ao artista baiano em formato live, no próximo dia 15

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Era uma vez um baiano que acabou ganhando o apelido de Maluco Beleza, por conta do título de um de seus inúmeros clássicos. Esse roqueiro, fã de Elvis Presley e Luiz Gonzaga, previu “O dia em que a Terra parou”, canção que dá nome a seu álbum lançado em 1977.

Raul Seixas (1945-1989) não viveu para ver a pandemia de covid-19 fazer o planeta parar, não por um dia, mas por quase um ano. 2020 foi o ano em que ninguém pode dizer que não cumpriu a lista de resoluções de ano novo por pura falta de vontade. Muitos planos, quase todos, tiveram que ser adiados.

Foi assim também com o já tradicional “Tributo a Raul Seixas”, show anual realizado pelo cantor maranhense Wilson Zara, que desde 1992, quando estreou “A hora do trem passar”, em Imperatriz/MA, presta-lhe as devidas homenagens, sempre por volta da data de seu aniversário de falecimento, em 21 de agosto.

Mas o Tributo vai acontecer, se não nos moldes a que os fãs-clubes – de Raul Seixas e Wilson Zara – estão acostumados, do jeito que o ano e a pandemia permitem: no próximo dia 15 de dezembro (terça-feira), às 19h, em uma live transmitida a partir dos estúdios da TV Guará, raulseixistas de toda parte – graças à transmissão pela internet – poderão acompanhar o desfile de clássicos e lados b, num longo passeio pela vasta obra de Raulzito.

Além de músicas já citadas ao longo deste texto, Wilson Zara e banda – Mauro Izzy (contrabaixo), Moisés Profeta (guitarra), Marjone (bateria), Dicy e Heline (vocais) – passearão por repertório que inclui “Ouro de tolo”, “A maçã”, “Sessão das 10”, “Rockixe”, “Eu nasci há 10 mil anos atrás”, “Meu amigo Pedro”, “Gitâ”, “Sociedade alternativa” e “Cowboy fora da lei”, entre muitas outras. Um show que certamente vai deixar satisfeitos todos os que gritam “toca Raul!”.

Serviço – Realização da Zarpa Produções, o “Tributo a Raul Seixas” tem patrocínio da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma), com recursos da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc. A transmissão da live acontece dia 15 de dezembro (terça-feira), às 19h, a partir dos estúdios da TV Guará, pelo site da emissora, além de seus perfis no youtube e instagram, e pelo perfil de Wilson Zara no facebook. A TV Guará apresentará o show em sua programação em data a ser confirmada posteriormente.

Uma noite libertária

Foto: Isaque Mota
Foto: Isaque Mota

 

O palco do andar de cima do Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande) ficou pequeno para Vinaa e sua grandeza – literalmente: trajando uma jaqueta jeans sem mangas e uma saia branca com flores vazadas, ele chegou a bater a cabeça no forro ao dançar. Nada grave, nem que comprometesse o descontraído espetáculo que apresentou ontem (15). Cantou, conversou e brincou com a plateia, passeando pelo repertório de seus dois discos – Bordel de amianto e a glória dos loucos por sex appeal (2017) e o recente Elementos e hortelã na terra dos eucaliptos (2019) –, além de releituras.

Vinaa estava literalmente em casa. Talvez por reprisar um formato experimentado há 10 anos, na garagem da casa dos pais, quando talvez sequer pensasse em levar a sério a carreira musical. O que é uma ilação de minha parte: o próprio artista categorizou a plateia entre os que o acompanham desde sempre, os que começaram agora e intermediários entre coisa e outra. Este repórter só começou pelos discos.

“A música popular é como uma estrada. Alguém abre caminhos, pavimenta, depois vêm outros atrás. Eu tenho pena do Vinaa de me ter como referência, podia ter coisa melhor, mas eu já o vejo, daqui a alguns anos, influenciando outras pessoas, não só aqui no Maranhão. É talentoso, cantor e compositor, e sua trajetória vai acontecer, já está acontecendo”, referendou, em determinada altura do show, Zeca Baleiro, convidado da noite, entre a sinceridade, a (auto)ironia e o bom humor característicos.

“A liberdade sexual é uma pauta importante. Eu tenho certeza que esse governo que está aí é horroroso também por isso: é um monte de gente reprimida, mal resolvida”, continuou, para a plateia retrucar com o coro de “ei, Bolsonaro, vai tomar no cu!”.

As três primeiras músicas que cantou tinham esta pauta como tema: Saga de um eterno seguidor, que narra as venturas e desventuras de relacionamentos online, Três lençóis, “para os que gostam de um ménage a trois”, e Nunca mais transe comigo, de título mais que explícito.

Entre as reverências que prestou ao longo da noite, começou pelo grupo As Bahias e a Cozinha Mineira, de quem interpretou com muita intimidade Uma canção pra você (Jaqueta amarela). “Quem nos media/ dia-a-dia o nosso sexo amor/ o anexo/ o nexo/ o “x” da nossa dor/ O amor eu aposto no jogo entre cartas, cerveja, fogo e queijo coalho/ no baralho jogo os ais/ te embaralho, sou dama de paus/ (caralho!)”, diz trecho da letra de Assucena Assucena, uma das vocalistas (transexuais) do grupo.

Depois seguiram-se covers de Alceu Valença (La belle de jour emendada com Girassol), Cazuza (Codinome Beija-flor, dele com Ezequiel Neves e Reinaldo Arias) e Tim Maia (Primavera (Vai chuva), de Cassiano e Silvio Rochael). “Uma vez, lá no começo, me chamaram para fazer um tributo a Tim Maia. Eu me indaguei e indaguei ao contratante: mas eu não tenho nada de Tim Maia. “Faça do seu jeito!”, ele me disse. Fomos. A casa cabia umas 500 pessoas e tinha 10 pessoas na plateia: nossas mães, as namoradas dos músicos. Mas eu tive a sorte de uma pessoa estar lá: o Cury. Ao final do show ele foi me cumprimentar no camarim e eu naquela correria, no momento não caiu a ficha, eu não reconheci. Mas depois ele mandou um “vamos trabalhar juntos!””, contou sobre o primeiro encontro com o autor de hits como Aparências (sucesso de Márcio Greyck) e O que me importa? (gravada por Tim Maia, Renato Braz e Marisa Monte), que acabou produzindo seu disco de estreia e ontem estava na plateia novamente.

Por falar em hits, Semideus e Escuderia armada, faixas do segundo álbum, e Moço bonito, foram cantadas a plenos pulmões pela plateia. Quando Zeca Baleiro subiu ao palco, após uma breve pausa enquanto preparavam-lhe o terreno, foi acompanhado pelo percussionista Luiz Cláudio, que se somou a Filipe Façanha (violão) e André Ótony (piano). Cantaram juntos Mamãe oxum (em meio à qual subiu o convidado), Bandeira – ambas, faixas do disco de estreia de Baleiro, Por onde andará Stephen Fry? (1997) –, de que Vinaa errou a letra, e Cicatriz (No regresa), faixa em que o convidado da noite registra sua participação especial no novo disco de Vinaa.

Volta pra casa é outra que foi cantada a plenos pulmões pelo bom público que compareceu ao Buriteco. Na sequência, Vinaa ainda cantou Tempos modernos (Lulu Santos), dando boa noite e despedindo-se. Aos pedidos de mais um, continuou o show com Você me vira a cabeça (Me tira do sério) (Chico Roque e Paulo Sérgio Valle), sucesso de Alcione – “já gravei com Zeca Baleiro, a próxima é Alcione!”, brincou, a sério, entusiasmado.

Ainda deu tempo de apelar para a memória afetiva mesmo de quem diz não gostar do pagode romântico dos anos 1990 com Essa tal liberdade, sucesso do Só Pra Contrariar, não por acaso (ou por acaso?) do mesmo par de compositores e também (re)gravada por Alcione. Para cantar Cidade das meninas, single que gravou com a adesão do Trio 123, formado por Camila Boueri, Tássia Campos e Milla Camões, chamou a terceira, que estava na plateia. A música é um recado direto e contundente, abarcando temas como a violência contra a mulher e feminicídio, de modo geral, e o assassinato da vereadora Marielle Franco, cujo crime segue impune após quase dois anos.

A voz de Vinaa – que por vezes ao longo do show me lembrou Johnny Hooker – segue sendo um instrumento de denúncia, ao mesmo tempo em que pode nos fazer dançar – no bom sentido. Pensar e dançar: um perigo real e uma proeza em 2020 no Brasil.

Gildomar Marinho apresenta inéditas em show em São Luís

Músico grava novo disco na ilha e se apresenta no Buriteco Café, dia 1º

O cantor e compositor Gildomar Marinho. Foto: Rômulo Santos
O cantor e compositor Gildomar Marinho. Foto: Rômulo Santos

Maranhense radicado em Fortaleza/CE, o cantor, compositor e violonista Gildomar Marinho foi recentemente agraciado com o Prêmio Grão de Música Popular Brasileira, em cerimônia realizada na Sala Olido, em São Paulo. Ele está na coletânea deste ano do prêmio, a que comparecem também nomes como Alessandra Leão, Josyara Lélis, Marlui Miranda, Mateus Sartori e Rolando Boldrin, entre outros.

Gildomar teve escolhida sua Alegoria de saudade, samba-choro de seu disco de estreia, Olho de boi (2009), gravada com a adesão da mineira Ceumar, que este ano completa 20 anos de carreira e acaba de lançar disco novo, Espiral (Circus, 2019).

Disco novo – Gildomar está em São Luís, onde grava novo disco, Estradar. Trata-se do sexto disco de sua carreira, embora o fã clube só tenha ouvido três: o citado Olho de boi, Pedra de cantaria (2010) e Tocantes (2013). É que, embora gravados há alguns anos, Porta sentidos e Mar do Gil permaneciam inéditos e somente agora serão disponibilizados pelo artista nas plataformas digitais.

“Não era falta de vontade de lançá-los antes. É que ficamos durante muito tempo acalentando o sonho de lançá-los em cd, em suporte físico, já que sou um artista à moda antiga. Mas as condições não favoreceram e não faria sentido gravar disco novo tendo inéditos na gaveta, então vamos colocar no mundo como é possível”, revelou Gildomar.

O disco novo será uma volta às origens sonoras. “Sou maranhense e entre idas e vindas entre o Ceará e o Maranhão por conta do trabalho [ele é bancário], gravei meu primeiro disco no Maranhão, com músicos maranhenses; todos os outros foram gravados no Ceará, com músicos cearenses, embora eu nunca tenha escondido minhas raízes. Mas sentia que era hora de fazer algo com os pés nos terreiros do Maranhão e para isso eu convidei o experimentado [percussionista] Luiz Cláudio“, antecipa Gildomar sobre o trabalho que terá por base os ritmos da cultura popular do Maranhão.

Show – Aproveitando a passagem pela Ilha, Gildomar Marinho se apresenta nesta sexta-feira (1º.) no Buriteco Café, às 19h. A base do repertório são músicas autorais, entre faixas de seus discos e inéditas. O artista será acompanhado por Luiz Cláudio (percussão). “É sempre um prazer tocar para os conterrâneos. Não podia perder a oportunidade. Como eu e Luiz estaremos em estúdio, descansaremos carregando pedra: nos intervalos das gravações a gente ensaia para apresentar um show bonito, entre músicas de meus álbuns, teste de repertório, antecipando ao público o que virá em Estradar e clássicos da MPB, revelando e reverenciando artistas de minha predileção, nomes importantes em minha formação”, antecipa Gildomar.

Serviço

O quê/quem: show de Gildomar Marinho
Onde: Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande)
Quando: sexta-feira (1º./11), às 19h
Quanto: R$ 10,00 (couvert artístico individual)

Acontece hoje (29) última sessão de show de Zeca Baleiro para crianças

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

 

Zoró Zureta é um espetáculo comovente. Um show para crianças de todas as idades, com o perdão do clichê. Reúne canções dos dois álbuns infantis – que dão nome ao show – de Zeca Baleiro, numa apresentação interativa, entre parlendas, trava-línguas e preferências no universo das histórias infantis.

Ainda em São Luís, antes de se mudar para São Paulo e ganhar o merecido reconhecimento nacional, o cantor e compositor começou a carreira compondo para trilhas de teatro infantil. Zoró Zureta é, portanto, uma volta às origens.

Quando se tornou pai, Baleiro não ninava os dois filhos com cantigas tradicionais. Compunha suas próprias cantigas, a partir de observações, por vezes poéticas, dos próprios filhos.

“Uma vez a gente estava viajando e no avião meu filho apontou: “olha, pai, uma árvore de nuvem”. Era uma nuvem em forma de árvore, mas ele viu de um modo poético. Aliás, a única fase em que as pessoas podem ser malucas sem correr o risco de internação é na infância”, disse o artista em entrevista coletiva, quinta-feira passada.

A música infantil produzida por Baleiro irmana-se em conteúdo e qualidade às experiências de artistas como Adriana Partimpim (a Adriana Calcanhotto para crianças), o grupo Pequeno Cidadão (que reúne pais e filhos artistas, entre nomes como Arnaldo Antunes, Edgar Scandurra e Taciana Barros), Palavra Cantada (Paulo Tatit e Sandra Peres) e a “música de brinquedo” do Pato Fu.

Alguns dos citados, no entanto, não necessariamente compõem para crianças, mas dão uma roupagem infantil a um repertório consagrado, casos, particularmente de Partimpim e Pato Fu – estes últimos tocam um repertório que vai de Tim Maia a Roberto Carlos, passando por Ritchie e Queen, entre muitos outros, com instrumentos de brinquedo.

“O problema da música produzida para crianças, em geral, é tratar as crianças como seres desprovidos de inteligência, débeis mentais”, afirmou Zeca Baleiro, que cita entre suas preferências na produção musical para a petizada discos como Vila Sésamo (trilha sonora do programa televisivo), Os Saltimbancos (versões de Chico Buarque para músicas do argentino Luis Enriquez Bacalov e do italiano Sergio Bardotti) e Arca de Noé (composições de Vinicius de Moraes), “eu sou antigo”, diverte-se.

A música de Baleiro passeia entre bichos esquisitos – tema de Zoró, primeiro álbum infantil de sua carreira –, brincadeiras, e temas menos infantis, como a questão ambiental (tema de Pula canguru, que “quer ir pro Tibete/ pra virar guru”, mas acaba virando gari para ajudar a limpar “este mundo imundo”), além de personagens – Coitado do lobo mau homenageia “um personagem por quem eu tenho muito carinho; ele é malvado, mas sempre se dá mal no fim das histórias”, revelou.

Com pouco mais de uma hora, Zoró Zureta tem coreografias, algumas músicas são executadas com a exibição dos videoclipes e um capricho cênico-visual: quando vai cantar A filha do ogro, ele senta-se numa poltrona, toma nas mãos um livro enorme em cuja capa se lê “Histórias que a vovó contava” e é cercado pelas vocalistas com quem divide o espetáculo; quando cantam Girafa rastafári usam toucas com as cores da bandeira jamaicana e dreadlocks postiços.

Três das vocalistas – Simone Julian (flauta, flautim e saxofone), Tata Fernandes (percussão) e Vange Milliet (percussão) – cantaram com Itamar Assumpção, o que aproxima a experiência de Zoró Zureta de Zeca Baleiro (violão e contrabaixo) da Vanguarda Paulista, sua sonoridade algo próxima de discos como os três volumes de Bicho de sete cabeças (1993), do autoapelidado Nego Dito. A banda se completa com Nô Stopa (vocal e percussão), Pedro Cunha (teclado, sanfona e programações) e Rogério Delayon (violão, guitarra, contrabaixo, bandolim e cavaquinho).

Parte da renda de Zoró Zureta será revertida em favor do projeto Canhoteiro, desenvolvido pelo Instituto de Estudos Sociais e Terapias Integrativas (Iesti), que trabalha a inclusão social de crianças e jovens por meio do esporte, na Vila Tamer, região do Araçagy, em São Luís. Zeca Baleiro é padrinho do projeto, que leva o nome de um pouco conhecido jogador de futebol maranhense, a quem ele já dedicou música (em parceria com Fagner, Fausto Nilo e Celso Borges). A quarta e última sessão do espetáculo, apresentado desde ontem (28) no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), acontece hoje (29), às 18h.

Rock de Balsas na ilha

A cantora Amanda Soulthier. Foto: divulgação
A cantora Amanda Southier. Foto: divulgação

 

Em 2014, quando completou 40 anos de carreira, o paulista Edvaldo Santana meteu o pé na estrada. Com o case do violão às costas percorreu, de ônibus, todas as capitais nordestinas, apresentando em cada uma delas um show de voz e violão. Em São Luís, cantou para pouco mais de 30 pessoas, no Teatro da Cidade de São Luís, o antigo Cine Roxy. Quem estava lá, até hoje lembra do show, memorável.

Mês passado, em Teresina, cobrindo a Balada Literária e vendo, por exemplo, o show do parnaibano Teófilo Lima, antes de Rita Benneditto, na última noite do evento, tornei a me perguntar: por que é que o Maranhão não consegue, ou o faz raramente, dialogar com seus vizinhos Pará e Piauí? Por que não vemos com mais frequência artistas paraenses e piauienses se apresentando em São Luís e vice-versa?

Todo artista tem de ir aonde o povo está, já cantou o poeta, e às vezes ir aonde o povo está é uma questão de cara e coragem, glamour zero, artista igual pedreiro, como no título do álbum do Macaco Bong.

Digo tudo isto para dizer que quem está na ilha é Amanda Southier, cantora brasiliense radicada em Balsas, no sul do Maranhão. Ela se apresenta hoje (20), às 21h, no Talkin Blues (Cohajap), e amanhã (21), no mesmo horário, no Velho John Music Pub (Holandeses, Calhau). Em ambos os shows ela será acompanhada por Joabi Nalvi (contrabaixo), Marcio Glam (guitarra) e Bruno Montechese (bateria).

A vinda de Amanda à ilha tem a ver com um sentimento de gratidão de Wilson Zara, que abre o show de hoje. “A gente percorre o Maranhão e é sempre tão bem recebido por onde passa, mas é raro conseguir trazer artistas de outras cidades para tocar em São Luís e dar a recíproca do mesmo tamanho. Começa que trazer muita gente é caro, a coisa já esbarra no preço das passagens de ônibus. Mas conseguimos firmar algumas parcerias e realizar essa microturnê”, afirma. A pequena turnê ilhéu de Amanda Southier tem apoio da JR 4000, empresa de ônibus de Balsas que faz a linha até a capital, churrascaria Barriga Verde e Adventure Hotel.

A cantora já é um nome reconhecido da cena pop, tendo aberto shows de Biquini Cavadão e Detonautas, com quem dividiu o palco em julho passado, em Balsas, no encerramento do Festival de Verão da cidade.

O repertório de Amanda Southier passeia por clássicos do pop nacional e internacional e músicas autorais – Raul Seixas, Adele, Bruno Mars, Black Sabbath, Iron Maiden, Led Zeppelin, Nirvana, Rolling Stones. Vã realidade, seu ep de estreia, lançado em 2017, tem seis faixas, sendo quatro autorais, além de Se você fosse do mal, de Nosly, e um cover de Dream on, do Aerosmith.

O público de São Luís tem duas oportunidades de conhecer ou prestigiar ao vivo a música de Amanda Southier. Torço para que a vereda aberta por ela faça chegar à capital mais artistas do interior e que mais artistas da capital consigam se apresentar em municípios do interior.

Adriana Calcanhotto gravará dvd em São Luís

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

 

Tudo remete ao mar em Margem, show que Adriana Calcanhotto apresentou ontem (7), no Teatro Arthur Azevedo, em São Luís. Do cenário, um grande pano azul pendurado, fazendo às vezes de uma grande onda, a uma espécie de grande echarpe que lhe cobria o vestido preto, remetendo a uma rede de pesca – durante o show ela se desfaria de parte dela.

Margem, o novo disco, encerra a trilogia marítima de Adriana Calcanhotto, iniciada com Maritmo (1998) e continuada com Maré (2008).

Um roadie espalhafatoso, trajando uma espécie de capa amarela e gorro vermelho, lembra um personagem de filme litorâneo estrelado por Ricardo Darín. Ele entra e sai de cena a servir Adriana Calcanhotto do violão com que toca algumas músicas e instigando a plateia a acompanhar determinadas músicas batendo palmas ritmadas.

Além das nove faixas de Margem, em cerca de hora e 15 minutos de show, a gaúcha (que muita gente pensa ser carioca), repassou ainda grandes êxitos de sua carreira, como Devolva-me (Renato Barros/ Lilian Knapp), Vambora (Adriana Calcanhotto), Esquadros (Adriana Calcanhotto), Mais feliz (Dé Palmeira/ Bebel Gilberto/ Cazuza) e Quem vem pra beira do mar (Dorival Caymmi). Também exaltou o Chico Buarque de Futuros amantes.

Quando cantou Maritmo, apresentou a banda, borrifando-lhes um líquido. Enquanto eles tocavam incidentalmente Bananeira (João Donato/ Gilberto Gil), ela prestou as devidas reverências a grandes brasileiros de saudosa memória: “evoé, João Gilberto! Evoé, Marielle Franco! Evoé, Anderson [Gomes]! Evoé, Ferreira Gullar!”. E disparou, borrifando o líquido na plateia: “salvemos a Amazônia!”. Foi bastante aplaudida.

Nem os pequenos deslizes ao cantar a letra de O príncipe das marés (Péricles Cavalcanti) afastou o show do status de sublime: som e luz perfeitos, a banda irretocável, três quartos da Tono, com que Jorge Mautner gravou Não há abismo em que o Brasil caiba (2019): Bem Gil (guitarra), Bruno di Lullo (contrabaixo) e Rafael Rocha (bateria, percussão, percussão eletrônica e kazoo), “o bico doce”, como a cantora se referiu a ele, dada a qualidade de seus assovios.

O espetáculo atesta por que Adriana Calcanhotto nasceu grande ao estrear em disco com Enguiço em 1990 e consegue se manter entre os grandes da música popular brasileira quase 30 anos depois. Exuberante.

Antes de terminar, um anúncio pegou a plateia de surpresa: a cantora gostou tanto da energia ludovicense que voltará para gravar o dvd ao vivo de Margem no Teatro Arthur Azevedo. A previsão é que o novo show aconteça em dezembro.

Amor ao mar

Margem. Capa. Reprodução
Margem. Capa. Reprodução

 

Adriana Calcanhotto aparece mergulhada num mar de lixo – plástico, sobretudo garrafas pet – na capa de Margem (2019), disco que encerra sua trilogia “do mar” – iniciada com Maritmo (1998) e continuada em Maré (2008).

O disco dialoga com os demais dedicados ao mar – que comparece a sete das nove faixas –, entre ondas de amor, compositores de sua predileção e repertório autoral, escoltada por banda base formada por Rafael Rocha (bateria, percussão e bases eletrônicas), Bruno di Lullo (contrabaixo e synth) e Bem Gil (guitarra, guitarra acústica, violão, tres cubano, flauta).

Os ilhéus (Antonio Cicero e Zé Miguel Wisnik) provoca uma reflexão sobre certa desesperança com o futuro que paira no Brasil que devasta a Amazônia impunemente: “uma onda pode vir do céu/ imponderável como as nuvens/ e cair no dia feito um véu/ ou a tampa de um ataúde/ e nada impede que se afundem/ neo-Atlântidas e arranha-céus/ ou que nossas cidades-luzes/ submersas se tornem mausoléus”, diz a letra.

Dessa vez (Adriana Calcanhotto) e Era pra ser (Adriana Calcanhotto) têm ecos do conterrâneo Lupicínio Rodrigues, a cujo repertório a cantora dedicou Loucura (2015).

Um dos destaques do álbum, Tua (Adriana Calcanhotto) é séria candidata a hit radiofônico, algo corriqueiro para a gaúcha, desde que lançou Enguiço (1990) e ganhou os dials brasileiros com Naquela estação (Caetano Veloso/ João Donato/ Ronaldo Bastos). A música passeia por referências e autorreferências: os versos “dentro da noite voraz” e “dentro da noite feroz” ecoam o Dentro da noite veloz de Ferreira Gullar, tornado verso de Vambora, faixa de Maritmo. O “breu das noites brancas de hotel” ecoa o Caetano Veloso de Noite de hotel. “Dentro da noite fulgás” lembra a parceria dos irmãos Marina Lima e Antonio Cicero. A faixa tem reforço da guitarra portuguesa de Ricardo Parreira e do flugel e trompete de Diogo Gomes.

Ogunté (Adriana Calcanhotto) dialoga com o candomblé, homenageando o orixá-título e Iemanjá/Odoyá, denunciando os flagelos da migração, da ostentação e do consumo desenfreado (de petróleo, mas não só). O funk Meu bonde (Adriana Calcanhotto) encerra o disco dialogando diretamente com Remix século XX (Adriana Calcanhotto), faixa de Público (2000), e Pista de dança (Adriana Calcanhotto e Wally Salomão), faixa de Maritmo.

Serviço

Reprodução
Reprodução

Adriana Calcanhotto apresenta o show Margem em São Luís neste sábado (7), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro). Os ingressos custam entre R$ 80,00 e R$ 160,00, à venda na bilheteria do teatro e no site Ingresso Digital. A produção é de Moraes Jr.

*

Ouça Margem:

Tássia Campos e Ana Marques reverenciam Adriana Calcanhotto e Marisa Monte em “Onde andarás”

[release]

O show no Clube do Chico passeará por diversas fases das obras de duas das mais importantes cantoras e compositoras surgidas no Brasil nos últimos 30 anos

Desde o final da década de 1980, Marisa Monte e Adriana Calcanhoto consolidaram-se como duas das mais talentosas cantoras e compositoras surgidas no Brasil em todos os tempos. A carioca estreou em disco em 1988, com a explosão do hit Bem que se quis, versão de Nelson Mota para E po’ che fa’ (Pino Daniele); a gaúcha, dois anos depois, com Enguiço, disco do hit Naquela estação (Caetano Veloso/ João Donato/ Ronaldo Bastos), a que compareciam ainda regravações de nomes tão diversos como o conterrâneo Lupicínio Rodrigues, além de Eduardo Dussek e Roberto Carlos.

Não é exagero dizer que influenciaram todo mundo que veio depois, como o fizeram Gal Costa e Maria Bethânia mais de 20 anos antes. Versáteis, Adriana Calcanhotto e Marisa Monte seguiram trilhas distintas, mas com obras com traços em comum: a permanente qualidade de seus discos e shows, as carreiras paralelas (Marisa com os Tribalistas e Adriana com o Partimpim, voltado ao público infantil, mas também encantando adultos), a constante presença na programação do rádio e o permanente diálogo com a poesia – Marisa trouxe Eça de Queiroz para sua Amor, I love you (parceria com Carlinhos Brown), Adriana musicou Ferreira Gullar e Mário de Sá-Carneiro e é parceira de Antônio Cícero.

Adriana Calcanhotto e Marisa Monte serão lembradas em um show dedicado a seus repertórios. As talentosas Tássia Campos e Ana Marques irão passear por várias fases de suas carreiras, entre grandes sucessos e músicas menos conhecidas. Na ocasião serão acompanhadas por Jhoie Araújo (violão sete cordas), Rui Mário (sanfona e teclado) e Richard (bateria).

Tássia Campos tem seu nome reconhecido como uma das cantoras mais requisitadas da cena MPB de São Luís. Tem no currículo, entre outros, os troféus “Revelação” e “Show do ano” (com o Trio 123), do extinto Prêmio Universidade FM, então a maior honraria da música produzida no Maranhão. Ana Marques, sócia-proprietária do Clube do Chico, reservava seus dotes artísticos apenas para amigos, em jam sessions após os shows da casa, mas resolveu, agora, colocar seu talento a serviço do público em geral. Já não era sem tempo.

Onde andarás, que dá título ao show, é parceria de Caetano Veloso com o poeta maranhense Ferreira Gullar (1930-2016). A música já foi gravada por ambas, além de pelo próprio Caetano e pela irmã Maria Bethânia. Outros números do repertório da homenagem a Adriana Calcanhotto e Marisa Monte são Clandestino (Mano Chao), Esquadros (Adriana Calcanhotto), Inverno (Adriana Calcanhotto) – gravadas por Adriana Calcanhotto –, Balança pema (Jorge Benjor), Dança da solidão (Paulinho da Viola) e Na estrada (Carlinhos Brown/ Marisa Monte/ Nando Reis) – gravadas por Marisa Monte. No fim das contas, o show, além de uma homenagem a elas, é também um tributo a seus parceiros e a compositores eternizados em suas vozes.

Serviço

Divulgação
Divulgação

O show Onde andarás – Homenagem a Adriana Calcanhotto e Marisa Monte acontece no Clube do Chico (R. Uirapuru, 17, Parque Shalon), dia 2 de agosto (sexta), às 21h. Os ingressos custam R$ 20,00 (antecipados; R$ 25,00 na hora). Reservas pelo telefone: (98) 98113-5547.

Em nome dos mineiros

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

 

O mineiro Toninho Horta subiu ao palco do Teatro Arthur Azevedo com um papel na mão, que colocou sobre a mesa onde já repousava um copo d’água, com as bordas cobertas por um guardanapo.

Sentou-se, empunhou o violão e agradeceu por estar ali, “em nome dos mineiros, Lô Borges, Beto Guedes, Bituca, é muito bom estar aqui, abrindo a 11ª. edição do Lençóis Jazz e Blues Festival, num tempo em que é grande a representatividade da música instrumental brasileira lá fora”, apontou.

Revezando-se entre temas cantados e instrumentais, começou o show com Durango Kid (parceria dele com Fernando Brant), gravada por Milton Nascimento na década de 1970. Em Aqui ó (da mesma dupla) citou o tambor de crioula, elogiando a grandeza da cultura popular do Maranhão.

Seguiram-se Igreja do Pilar, dedicada a Ouro Preto, e Meu amor infindo,  homenagem a mãe, falecida em 2013. “Ela foi a primeira a reconhecer meu talento, tocava bandolim na banda ​​de meu avô”, lembrou.

Ainda sozinho ao violão tocou Ville kids friends, que compôs durante um curso que ele ministrou na Escandinávia. Em seguida convidou Marcelo Carvalho para assumir um dos dois teclados dispostos no palco. Com ele tocou Waiting for Angela.

Na sequência, somam-se ao duo Israel Costa (violão), anunciado como guitarrista, e Renato Serra (teclado). O quarteto toca Diana (outra parceria com Fernando Brant), sucesso do Boca Livre. “Se tiver alguma Diana na plateia, peço desculpa, mas essa música foi feita para uma cachorrinha. Já que Manuel era um jipe”, lembrou, fazendo a plateia rir, antecipando outro hit que não faltaria ao set list.

Leonel Almeida (contrabaixo) e Ronald Nascimento (bateria) acabaram de completar o grupo enquanto Toninho Horta troca o violão pela guitarra. Atacam de Voo dos urubus, com Horta a princípio tocando de costas para a plateia, a reger o grupo. Depois é a vez de Summertime (Ira e George Gershwin), “já que a gente está num festival de jazz e blues”.

A banda sai e Horta torna ao violão. Presta uma homenagem a João Gilberto. Lembra que influenciado pelo baiano fez uma música aos 13 anos, O barquinho vem, “embora mineiro não tenha mar”, brincou. Canta Desafinado (Tom Jobim e Newton Mendonça), acompanhado pelo coral da plateia.

Ao elogiar novamente o Teatro Arthur Azevedo, lembra-se do dia em que foi ao Carnegie hall ver a Filarmônica de Viena regida por Leonard Bernstein. “Eu fiquei no sétimo ou oitavo andar, vendo os músicos lá embaixo. Esse Teatro Arthur Azevedo não brinca em serviço”, afirmou, antes de tocar um tema de Henry Mancini.

A banda volta e Toninho Horta troca o violão pela guitarra no meio da música, enquanto cita Josias Sobrinho, Nosly e Papete. Lembrou-se de Leandro Gomes, “meu primeiro produtor em São Luís na década de 1980, há quase 40 anos. Essa eu dedico aos grandes talentos do Maranhão”, oferece antes de tocar Beijo partido.

Já em clima de bis, mandou Manuel, o audaz (mais uma parceria com Fernando Brant), para delírio da plateia. E agradeceu: “Quero saudar o Tutuca”, o produtor já havia tentado trazê-lo em outras edições do festival. “Minas agradece vocês pelo bom gosto. Esse estado é um país”, finalizou.

Serviço

O 11º. Lençóis Jazz e Blues Festival acontece dias 16 e 17 de agosto (Circuito São Luís, Concha Acústica Reinaldo Faray, Lago da Jansen); e dias 23, 24 e 25 de agosto (Circuito Barreirinhas, Av. Beira-Rio). Entre os destaques da programação – acesse completa – estão Paula Santoro, Trio Corrente, Bebê Kramer, Zé Paulo Becker (com participação especial de Roberta Sá), Blues Etílicos, Afrôs, Mahmundi, Gildomar Marinho, Elizeu Cardoso, Quarteto Buriti (com participações especiais de Gabriela Marques, Célia Maria e Milena Mendonça), Dani Black, Rita Benneditto e Wilson Zara (que encerra a programação com seu tradicional Tributo a Raul Seixas).

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