A ginga da Pedeginja em Contos cotidianos, seu disco de estreia

Ainda lembro bem que da primeira vez em que ouvi falar – ou da primeira vez em que fui a um show, a ocasião já não lembro bem – entendi errado: em minha cabeça a banda se chamava Pé de Ginga. Isto por que, visto o show, notei que ginga não lhes faltava, gingado de sobra mesmo em momentos mais lentos, menos dançantes, em que o vocalista e guitarrista Paulo César Linhares encarna um bardo a recitar em meio às melodias, embora as alternâncias entre, digamos, dança e poesia, não delimitem necessariamente o momento de dançar e o momento de pensar, de se ligar nas letras da banda. Tudo é forte e bem amarrado, as forças poéticas e melódicas características interessantes da Pedeginja, este sim o nome real e interessante do grupo.

A trupe sem os metais

E que grupo! Uma superbanda: André Grolli (bateria), Jéssica Góis (voz), João Vitor de Miranda (o Jovi, voz), Paulo César Linhares (voz e guitarra, principal compositor), Pedro Vinicius (guitarra) e Sandoval Filho (contrabaixo). A formação se completa com um poderoso trio de metais, outra característica que se sobressai na sonoridade da banda: Bigorna (trompete), Davi Neves (saxofone tenor) e Paulo Vinicius (saxofone alto). A turma estreia agora com Contos Cotidianos, disco que brota maduro, pronto para o consumo de apreciadores de boa música. De jovens para jovens de todas as idades.

Conto de um pé de ginja, faixa de abertura do disco, antecipa seu conteúdo, funcionando como um cartão de visitas do grupo, que diz a que veio neste prefácio, para usarmos uma referência literária, fazendo jus ao título desta estreia. Longa demais para ser uma vinheta, é autorreferente e tira um sarro de São Luís, terra natal da galera. “Um pé de ginja furou os azulejos/ e lombrou o azul colonial ludovicense/ com a pujança de seus ramos multiformeados”, diz a letra. E promete: “seus frutos percebidos não hão de ter donos/ espalharão sementes onde quer que haja ouvidos atentos”.

“Se você me dissecar não vai sobrar tom sobre tom”, diz a letra de Salsa de um ex-amor, em que o compositor parece querer enganar-se de propósito: dissecando a Pedeginja restam Tom Jobim, cujos ecos bossanovistas podem ser ouvidos também na faixa seguinte – Condução, em que transparece o bom humor da banda – e em Quadro somático, além da referência explícita a Caetano Veloso e seu antológico Transa.

Vovó de férias no séc. XXI é uma versão bem humorada, provavelmente carregada de pitadas biográficas, de alguma parenta mais velha da turma, com recados sutis a gente da laia de Jair Bolsonaro e Marco Feliciano: “a família já não é mais a trindade/ tem pai com pai e mãe com mãe,/ bem à vontade”.

Candidata a hit radiofônico, Pernas curtas é, como entrega o título, uma canção sobre as mentiras que todos nós contamos, “pode ser por muito/ ou por algo banal”. Talvez é sobre relacionamentos entre amigos, musicalmente um mergulho na surf music: “talvez eu tenha/ aquilo que você precisa/ para amar alguém”, começa a letra. E mais adiante: “talvez só falte/ um belo caqueado”. E ainda: “por mais que a chaga/ de ser seu melhor amigo/ e a sua fama de mulher/ sem coração me digam não”. Poeticamente um salto no abismo entre o bolero e a tragédia grega.

Se “a cachaça/ já perverteu este momento” a Pedeginja o traduz em O pensamento, outra música sobre relacionamentos. Não poderia faltar um reggae e Tire o seu cavalo da chuva é um recado direto, bilhete de fim de caso pra que não reste qualquer esperança: “e se você espera/ que eu vá voltar/ tire o seu cavalo da chuva/ que ele vai se resfriar/ de tanto me aguardar”. Mas a esperança, essa espécie de fênix teimosa – redundância intencional –, é novamente acesa antes do fim do disco, na valsa Sobre falsas musas: “a lama que cobre as ruas/ não ofusca um sorriso seu”. Também sobre relacionamentos, O velho violeiro fecha um ciclo.

A Pedeginja nasce assim. Brota entre os azulejos, vem “di cum força”, para dar um passo além na paisagem sonora do pop rock que se produz no Maranhão. Sem perder o gingado.

Serviço: Contos cotidianos, disco de estreia da banda, será lançado em show nesta sexta-feira (15), às 19h30min, no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy). Ingressos e discos – a produção não informou o valor – à venda na bilheteria do teatro.

Barulhinho Bom: palco de reencontros

Os músicos durante a turnê pelos CCBNBs

O guitarrista Chiquinho França esteve recentemente representando o Maranhão no VIII Festival da Música Instrumental, realizado nos Centros Culturais do Banco do Nordeste em Fortaleza e Juazeiro do Norte, no Ceará, e Sousa, na Paraíba.

Nas ocasiões, o músico tocou acompanhado de Luiz Jr. (violão) e Carlos Pial (percussão), este atualmente radicado em Brasília/DF.

O público ludovicense, que, se muito, só ficou sabendo das apresentações pelos jornais e redes sociais, terá a oportunidade de conferir uma única apresentação do trio, amanhã (16), às 21h, no Barulhinho Bom (Lagoa).

Sob o sugestivo título de Reencontro, o espetáculo terá, no repertório, clássicos do choro e da música brasileira e mundial, de compositores como Armandinho, Ernesto Nazareth, Vitorio Monte e Waldir Azevedo, para citar alguns.

Reencontro terá ainda participações especiais de Aquiles Andrade e Milla Camões. Os ingressos custam R$ 15,00 e podem ser adquiridos no local.

OUTRO REENCONTRO – Outro reencontro musical que acontece no palco do Barulhinho Bom é o do cantor e compositor Djalma Lúcio (que assina os desenhos deste e-flyer) com o DJ Franklin. Eles já tocaram juntos em 2010.

No show, que acontece sexta-feira (17), às 21h, Djalma Lúcio passeia pelo repertório de seu EP solo Conforme prometi no réveillon, mostra músicas inéditas e alguns covers afetivos, acompanhado de Rodrigo Smith (guitarra), Sandoval Filho (baixo) e Thierry Castelli (bateria).

DJ Franklin tira exclusivamente de vinis  samba, reggae, hip hop, drum’n bassmanguebeat e house: é a Radiola Muderna, que conquista mais e mais apreciadores a cada giro do vinil n’agulha. Os ingressos também custam R$ 15,00, à venda no local.