Arquivo da tag: sambira

Sambira

Retrato: Zema Ribeiro
Retrato: Zema Ribeiro

 

Raimundo Nonato Lopes da Silva tem 63 anos e nasceu em Guarimã, povoado de São Benedito do Rio Preto/MA, onde mora até hoje.

Ganhou o apelido de Sambira numa pelada jogada na juventude, num campo de futebol ainda existente e em uso na comunidade. Então goleiro, fez uma defesa e caiu abraçado à bola. “Parece uma mambira!”, gritaram alguns, de sua equipe e da adversária, comparando-o a uma espécie de tamanduá – ou gambá.

“Eu sou é a mãe bira, a mãe de vocês!”, retrucou o alcunhado, cuja reação e zanga inicial bastaram para que o apelido fosse mudado e pegasse para sempre.

Sambira é filho de dona Sebastiana, 83, a moradora mais antiga da comunidade centenária, cujos mais de 400 hectares são agora requeridos por uma suposta proprietária em ação de reintegração de posse. Basta uma visita e um passeio rápidos pela área para perceber quem são os verdadeiros donos da terra, os homens e mulheres-árvores, há tanto tempo ali enraizados.

Mael, um sobrinho de Sambira, está se formando em História e tem pronta uma monografia, que defenderá por estes dias, em que remonta a ocupação da área, desde o século XIX.

Um misto de Charles Bukowski, Pepe Mujica, Gabriel Garcia Marquez e Urtigão, o bronco barbudo da Disney, não necessariamente nessa ordem, nos lembrou sua feição, aos colegas de trabalho e a este cronista improvisado – viajei com outra tarefa, já cumprida, mas desde que o vi, ouvi e fotografei, a vontade de escrever sobre o personagem ficou me martelando o juízo.

Sambira vive da venda de peixes que cria em quatro tanques. Apesar da iminente ameaça de despejo, não perde o bom humor. O ótimo humor, eu diria. Riu e nos fez rir bastante ao longo da tarde em que passamos no local, tratados qual paxás, a peixe frito e juçara farta.

Ao ver um dos colegas passar por trás de uma jumenta e fazer um gesto, talvez por medo dum coice, mandou, para gargalhada geral: “esse aí é acostumado a pegar jumenta. A bichinha quando olha para ele já pergunta: “por que é que tu não veio onte, oooonte, oooooooonte!””, a corruptela do pretérito tornando-se onomatopeia do zurrar da fêmea do equus asinus.

Entre diversas outras – vez por outra me pego rindo sozinho –, contou ainda a história de um advogado que soltou dois presos em Chapadinha. Os apelidos dos liberados, que garantem a graça da história, são impublicáveis aqui, mas o causo foi recontado várias vezes ao longo da viagem, ou entre nós, ou pelo próprio Sambira, inclusive a secretários de Estado.

Sambira é daqueles que devolve a palavras como “gaiatice” e “molecagem” a nobreza que merecem, aquela porção menino que nós adultos deveríamos guardar para sempre.