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Chorografia do Maranhão: Celson Mendes

[O Imparcial, 22 de fevereiro de 2015]

Aviador e violonista, Celson Mendes é o 48º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Celson Afonso de Oliveira Mendes Filho nasceu em Barreirinhas/MA em 25 de janeiro de 1952, pelas mãos de freiras da paróquia local. É o mais velho de oito irmãos. Com menos de dois anos foi levado pelo pai para o Rio de Janeiro, morando depois no Recife e em diversas outras cidades brasileiras – incluindo Cururupu/MA, onde chegou a administrar uma destilaria de álcool.

A vida do violonista é feita de aventuras e acasos. Aviador, ele se tornou músico profissional por acidente – não aéreo; é que mesmo tendo descoberto o talento desde muito cedo, ele não tinha essa pretensão, até participar por acaso de um show de Joãozinho Ribeiro [compositor].

Filho de Celson Afonso de Oliveira Mendes, economista e estatístico, e de Maria Leônia Dias Mendes, Celson Mendes concedeu seu depoimento à Chorografia do Maranhão na nova praça de alimentação do São Luís Shopping, onde se apresentaria àquele sábado no projeto Arte Musical do Maranhão, que teve quatro noites dedicadas a ritmos, instrumentistas, vozes e compositores maranhenses, valorizando e apresentando a diversidade da produção musical do estado.

Ao longo da bem humorada entrevista, ele lembra a participação em grupos como o Bom Tom e o Regional Caixa de Música – quando venceu o Prêmio Universidade FM de melhor músico violonista –, as aventuras da vida de aviador, como guardou uma carteira de cigarros de Baden Powell como souvenir e sua relação com João Donato e Antonio Vieira.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Como era o universo musical na tua casa? Onde você identifica as primeiras influências? Foi meu pai. A gente morava no Filipinho, e ele era o camarada que agregava. Sempre gostou muito de cultura, artes, esportes. Era estatístico, depois se formou em Economia. Logo depois da Estatística ele resolveu fazer Odontologia. No último ano, os estudantes, formandos, iam para um hospital e operavam pessoas carentes gratuitamente. Uma das pessoas que ele estava tratando, ele arrancou um dente, a pessoa teve uma hemorragia, quase morre. Ele gastou uma grana preta para tratar da pessoa e resolveu que nunca mais [risos]. Quando ele foi para o Rio, tinha uns tios, ele se hospedava no apartamento desses tios, e eles tinham acabado de perder um filho. Aí se apaixonaram por mim, pediram para me criar. Ele falou com minha mãe, “pode ser muito bom para ele”, eu me mudei para Copacabana aos um ano e oito meses de vida, isso em 1953, final de 53. Peguei aquela época boa do Rio de Janeiro, em termos, quando dei por mim, lá por 61, 62, com 10 anos de idade, lembro de muita coisa de quando eu tinha cinco, seis anos. Lembro do célebre assassinato da Aída Cury [atentado violento ao pudor, tentativa de estupro e homicídio, o crime aconteceu na noite de 14 de julho de 1958, em Copacabana], lembro da repercussão sobre o atentado da [rua] Tonelero, de Carlos Lacerda [uma tentativa de homicídio contra o jornalista e político ocorrida na madrugada de 5 de agosto de 1954], era pertinho de onde eu morava. Eu morava a um quarteirão de um prédio onde moravam quatro vascaínos [jogadores do Vasco]. Eram eles: Barbosa [Moacir Barbosa, goleiro da seleção brasileira quando da derrota para o Uruguai, na final da Copa do Mundo de 1950, no Maracanã], o goleiro, Bellini [Hilderaldo Luís Bellini, zagueiro, capitão da seleção brasileira campeã mundial em 1958, na Suécia], parecia um artista de cinema, Sabará [Onofre Anacleto de Souza, atuou 12 anos – a maior parte de sua vida profissional – no clube carioca que lhe deu o apelido], eles moravam no mesmo prédio, na esquina de Nossa Senhora de Copacabana com Barão de Ipanema [não chega a dizer o nome do quarto jogador]. Eu vinha passar férias aqui. Meu pai centralizava. Todo domingo de manhã, ele acordava, tinha uma vitrola enorme, até hoje eu tenho discos dele, e ele colocava discos de música erudita durante uma hora, uma hora e meia, tomava café, depois disso começava a tocar Românticos de Cuba, e lá pelas 10, 11 horas, os amigos começavam a chegar com sacolinhas de cerveja, ficavam ouvindo aquele som e isso ficava até umas duas horas da tarde, sentados numa varandinha. Tio Maniquito tocava bem violão, minha vó dizia que o pai dela também tocava. Isso [as reuniões musicais do pai com amigos] desenvolveu, eu tinha duas irmãs de criação que adoravam música. Quando eu fui para Recife, meu sonho era ser aviador. Eu passei para o Colégio Militar do Rio de Janeiro e não me deixaram entrar, por que eu não era filho de militar. Fui pra Recife, passei de novo, nessa época meu pai era superintendente adjunto da Sudene, trabalhava com Celso Furtado [economista paraibano, autor de Formação Econômica do Brasil]. Ele disse: “venha pra cá e faça o exame de novo”. Passei e Celso Furtado foi lá e disse “agora ele entra”. Ao entrar no Colégio Militar, conheci um rapaz, loirinho, tivemos afinidade, ele gostava de basquete, eu também, de música ninguém sabia nada, ele gostava de tocar bateria, e ele disse “eu tenho um tio que é músico, muito famoso”. Eu não sabia de quem se tratava, ele dizia o nome, eu não sabia quem era. Até que um fim de semana ele me convidou para passar na casa dele. O pai dele era médico, coronel da aeronáutica, fui passar o final de semana na frente da praia de Piedade, onde tinha uma vila militar. Quando chega o irmão da mãe dele. Sabe quem era o cara? João Donato [pianista, um dos mentores da bossa nova]! Um dia eu estou passando por uma rua no Centro de Recife e ouço um som de violão que eu nunca tinha escutado. Uma tia compra o disco [Sambas e marchas da nova geração, de 1967] pra mim, Paulinho Nogueira, tocando Roda [faixa de abertura do disco], de Gilberto Gil. Foi meu primeiro elepê. Peguei esse disco, quase furo de tanto ouvir. Uma tia minha, que cantava muito bem, resolve aprender a tocar violão. Eu assistia as aulas, quando acabava, eu pegava o violão, ia lá para o quarto, e comecei a aprender violão assim. Um belo dia fui procurar um professor, ele me botou para tocar, “você leva jeito para a coisa, eu vou te dar umas aulas. Depois conforme seja, a gente vê o valor”. Eu era doido para aprender música, adorava aquele negócio de alguém botar as bolinhas [as partituras] na frente e sair tocando. Eu disse “eu quero aprender isso”. E ele: “primeiro vamos ver se realmente você tem queda”. E um belo dia eu roubei uma partitura dele. Uma semana depois eu voltei tocando aquele negócio. “Quem foi que te ensinou isso?” “Eu aprendi lendo”. Ele nunca me cobrou. Aí veio a perseguição política, meu pai teve que ir embora pro Chile, por conta da ligação dele com Celso Furtado, ele era padrinho de um irmão meu, inclusive. Meu pai foi embora, minha mãe foi para o Rio de Janeiro, com todo mundo, menos eu, por conta do Colégio Militar. Aí fui adotado pela irmã do João Donato, por isso eu a chamo Tia Eneida. Seguimos juntos, passamos para a Escola de Aeronáutica, eu e o Amim [sobrinho de João Donato], passamos para a preparatória, para a academia, depois me botaram para fora. Incompatibilidade de gênios.

O que foi, especificamente? A tia Eneida resolveu, em comum acordo, ela e o coronel Amim, resolveram se separar. Nessa época era a ditadura pesada, 1970. Nós éramos obrigados a nos recolher às 10h da noite, depois disso não podíamos sair, a não ser em toque de emergência. Eu era de uma turma, A, Amim era da turma H, tinha que atravessar, ele foi lá, chorando, e me disse: “nossos pais se separaram”. Botamos uma roupa, pegamos a carteira de cigarros, fomos para o pátio fumar e conversar. Nessa hora me chega um capitão, a gente vivia pendurado, aprontava muito. Eu era atleta, jogava basquete, jogava vôlei e isso me aliviava. Ele não, o negócio era ser músico, vivia tocando a bateria dele. O capitão disse: “cadeia pra vocês!”. Eu chamei o capitão e disse: “vamos fazer um acordo”. Com o número de dias que ele ia dar para nós, ele estava fora. Eu disse: “me dê os 10 dias de cadeia”, eu não sairia ainda, eu tinha uma reserva [risos], mas não faça isso com ele. Ele disse: “vou dobrar a dele e manter teus 10 dias”. Ele tinha uma .45 bem aqui [aponta para a cintura]. O que eu fiz? Dei um murro no nariz dele. No dia seguinte o brigadeiro comandante chamou: “vou fazer um acordo contigo. Fica aí até o fim do ano, pede teu desligamento”, faltavam dois ou três meses, “se não isso vai prejudicar sua vida toda, vai dar expulsão, e vou segurar o Amim, que é filho do brigadeiro e quem deu o murro mesmo foi você”. Numa boa, eu já estava de saco cheio mesmo. Saí da vida militar, seis meses depois o Amim pediu o desligamento dele também, foi chamado para a Transbrasil. Eu já fiz meu curso para aviação civil, era piloto da Votec [companhia aérea brasileira adquirida pela TAM em 1986], voava para a Petrobras, plataforma. Uns seis meses depois dessa história, mais ou menos isso, ele teve um acidente [chora, sem conseguir completar a informação de que o amigo faleceu].

Quem foram teus outros mestres no violão? Um cego em campos, foi professor também de uma cantora muito bonita, a Marina De La Riva. Os De La Riva eram usineiros, amigos de meu pai, meu pai eventualmente trabalhava para eles. Foi o maior tempo de aula com um professor particular. Depois eu estudei também na Escola Villa-Lobos. Estudei um pouco com João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], tive aqui o Pixixita [o músico José Carlos Martins, professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo] como professor de harmonia. Minha vida de aviador não me permitia ter cursos regulares. Eu andava com o violão no avião. Depois proibiram. Eu cheguei a ter nove violões em lugares diferentes, ficavam no hotel. Eu ficava danado da vida quando me mandavam para um lugar onde eu não tinha um [risos].

Quanto tempo você passou nessa vida de aviador? De 1973 a 1980.

E depois? Em 1980 meu pai me fez uma proposta indecente. Eu estava indo pros Estados Unidos com a noiva, ele me apresentou um amigo, que estava precisando de alguém de confiança para recuperar um avião dele. Era urgente. Ele cobria a passagem, hospedagem no melhor hotel de Salvador e mais uma grana que cobria qualquer coisa. Acabei não indo, terminei o noivado. Eu tinha recebido proposta da Vasp na época, estava esperando terminar um curso, se não eu ia primeiro para a Táxi Aéreo Marília, que hoje é a TAM. O cara disse que ia pagar todos os meus cursos, era presidente do Santa Cruz [Futebol Clube], o maior advogado e maior fazendeiro de Pernambuco, usineiro em Alagoas, e tinha um projeto enorme no interior da Bahia. Tinha duas filhas, não tinha filhos. Ele me pagava um salário de piloto de Boeing, eu ficava voando, todo final de semana. O escritório era uma coisa familiar, de noite uísque rolava. Ele ia comprar uns tratores, acabou me contratando também para cuidar da parte técnica, foi esperto, pagava um para fazer o serviço de dois [risos], mas foi bom para mim também, continuei voando. Eu resolvia toda a questão técnica, ganhei um bocado de dinheiro, não tinha onde gastar, não tinha tempo. Depois meu pai resolveu montar uma destilaria de álcool em Cururupu, onde ele tinha, tem, um terreno. Vim pra cá, cheguei aqui 10 de outubro de 1980. Por que eu lembro? Primeira notícia que eu tive aqui foi que tinha afundado um barco chamado Lima Cardoso, com metade do povo de Cururupu, inclusive parentes e amigos meus. Isso fez meu retorno ao Maranhão, lembro bem desse sentimento, tinha passado minha vida toda fora, Minas [Gerais], São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Norte e Pernambuco.

Nessa época você morava em Cururupu? Sim, eu morava na fazenda, a 10 quilômetros da [sede da] cidade.

Voltando um pouco, você viveu no Rio numa época de bastante efervescência, sobretudo na cena musical. Como isso reverberou em você? Quando eu me entendi por músico meus colegas de turma tinham banda. A música que eles tocavam eram Beatles. Eu achava bonito, interessante, a banda. Mas a música que me tocava era escutar Tom Jobim, Chico Buarque, João Donato, que eu passei a ter acesso aos discos. Eu ia para a casa da tia Eneida, ela tocava muito bem acordeom, cansei de vê-la, João Donato no piano, ela no acordeom, depois eles revezavam. O Amim ficava numa bateria atrapalhando todo mundo [risos]. Eu escutava aqueles temas, ficava encantado. Muitas músicas até se perderam, bolavam na hora, aquelas pegadas jazzísticas. A primeira vez que eu ouvi Samba da bênção [de Vinicius de Moraes e Baden Powell], eu fiquei alucinado. Depois eu me apaixonei por música francesa, era a época de Pierre Barouh [ator, compositor e cantor francês], que também tinha uma ligação com a bossa nova, cinema francês. Nós tivemos recentemente falecido, já com quase 90 anos, foi até um dos percussores da bossa nova, grande compositor, gravou com Rosa Passos [cantora], inclusive: Henri Salvador [cantor, compositor e guitarrista francês]. Ele gravou um disco com uma moça, não lembro se sueca ou norueguesa, chamada Lisa Ekdahl [cantora sueca]. É lindo, lindo, lindo [repete, enfático]! A bossa nova e o jazz, através da influência desse primeiro professor de violão. Minha ligação não era com o jazz, com exceção de Glenn Miller, que eu pai botava e eu ouvia. Meu pai comprou uma usina em Campos, e tinha uma roda de choro. Eu fui lá, eles em volta de uma mesa tocando. Eu me aproximei e fiquei observando. Uma hora eles pararam, conversaram, eu continuei parado. Uma hora sem me dar nem boa tarde. Aí entra no recinto, um galpão, Ivon Curi [cantor, compositor e ator]. Ele chega por trás de mim, botou a mão e disse: “esse camarada aqui toca violão também”. Ele, muito gente boa, simples, dava o show dele, depois sentava do teu lado. Aí os caras me olharam, “é mesmo?”, eu achei de uma indelicadeza, eu era um jovem, eles, todos senhores, eu achei de uma arrogância tão grande, saí e fui jogar sinuca. Mas aquilo me marcou. Foi o contrário do que aconteceu com Paulo [Trabulsi, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013]. Paulo quando foi sacaneado por Zé Hemetério [multi-instrumentista e compositor], botou na cabeça e disse “eu vou mostrar que eu posso”. Eu fiz exatamente o contrário, me desinteressei, me afastei. Eu comecei a observar que havia dois comportamentos distintos: o pessoal mais ligado ao jazz, à bossa, gostava de agregar, o pessoal do choro era “se sabe, sabe, se não sabe, cai fora e nem faz barulho”.

E como se deu a escolha pelo violão? Foi por causa desse disco [Sambas e marchas da nova geração, de Paulinho Nogueira]. Eu completei 15 anos, meu pai tinha um relógio Mido de ouro, eu botava os olhos, achava lindo, todo mundo elogiava aquele relógio. Quando eu fiz 15 anos, eu acordo, ele começou: “vou lhe dar um presente” [imita o pai, sacudindo o relógio]. Aí ele disse: “se eu fosse lhe dar um presente, do que você gostaria?”. Eu respondi: “um violão”. Ele murchou [risos]. Ele parou e pensou: “é um idiota. Em vez de ganhar um relógio, que vale não sei quanto, quer um violão”. Fomos a A Guitarra de Prata [loja de instrumentos musicais na Rua da Carioca, Centro do Rio de Janeiro]. E ele: “traga o melhor violão que você tiver”. Na cabeça dele, um violão não podia custar o preço de um relógio. Aí veio uma caixa, com o violão, eu olhei o violão, aquela boca de madrepérola, tinha um senhor no balcão, afinou o violão, começou a tocar, parecia uma escola de samba, meu pai ficou olhando: “O senhor é um artista!”. Era o Codó [violonista, cantor e compositor baiano]. Tocou uma música chamada Boladinho [de Codó], me deu um disco, eu tenho até hoje. Quando papai perguntou quanto era o violão, levou um susto: “é só um, eu não vou montar uma orquestra” [risos]. Mas fez o cheque, levou, foi meu primeiro violão. E ainda comprou um baita dum estojo, muito caro também. “Não adianta ter um violão desses e ficar jogado” e já queria me matricular no outro dia, aí eu falei: “calma!”. Eu não queria entrar em escola, queria voltar para meu professor no Recife, eu não queria ser músico profissional, nunca tive essa ideia.

Por que você não queria ser músico profissional? Nunca tive essa pretensão. Eu vim para cá, eu tocava com Anna Cláudia [cantora], com Léo [Capiba, cantor e percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de maio de 2014], e Anna Cláudia precisou fazer um disco, pediu para que eu fizesse um projeto. Eu comecei a ser profissional numa circunstância interessante: num show de Joãozinho [Ribeiro], comemorativo de 40 anos dele. O diretor musical dele tinha ido embora e Arlindo Carvalho [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013] tinha me visto tocar em algum lugar e disse a ele que eu quebrava o galho dele. Eu passei 48 horas acordado para fazer três dias de show no Teatro Alcione Nazaré. Outro dia eu postei uma foto, estávamos eu, Zé Américo [maestro, arranjador, multi-instrumentista], Rui Mário [sanfoneiro, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de julho de 2013] começando, um dos primeiros shows dele. Eu nunca tinha aceitado cachê na minha vida, mas dessa vez a grana era tão boa, e você se diverte. Hoje eu vivo em torno da música, eu não vivo só de tocar: trabalho com projeto, um estúdio de gravação.

Teu pai nunca ofereceu resistência a você seguir a carreira de músico? Não. Ele era muito do “não quero saber o que você vai fazer. Agora, faça bem”. Eu fui campeão brasileiro de pouso de precisão. Ele tinha uma certa restrição com a coisa da aviação. Ele achava que eu era muito afoito. Quando eu estava na força aérea, sempre tinha uma turma que ia para a esquadrilha da fumaça. Ele tinha pavor de que isso pudesse acontecer, ele sabia que se eu fosse eu ia morrer. Nas décadas de 1950 e 60 morreu muita gente da esquadrilha, hoje bem menos, a técnica é outra, os equipamentos são mais modernos. Mas eu gostava mesmo é de loucura, passar embaixo de ponte, quinze minutos invertido, o motor falha, você voltava, essa era a farra.

O músico que mais te influencia do ponto de vista do estilo é Paulinho Nogueira? Não, eu tenho uma admiração pela limpeza do violão do Paulinho Nogueira. Lógico que ele também tem uma técnica, é uma pessoa que nunca entrou numa escola, aprendeu com um irmão, quem escrevia suas partituras era um rapaz aqui do Ceará, o André Jereissati [violonista]. O que mais me influencia é Baden Powell. Eu cheguei a assistir o mesmo show de Baden Powell 11 vezes. Ainda roubei a carteira de cigarros dele [risos], levei para Cururupu, minha mulher jogou fora – depois de quase 20 anos –, foi uma confusão danada. Eu era apaixonado. Baden fazia de tudo, tem uma coisa que me lembra muito o Yamandu [Costa, violonista sete cordas gaúcho]: ele saía desse plano, saía de órbita quando tocava. Ele tinha a habilidade de violonista, a sensibilidade de compositor, normalmente o grande músico não é um bom compositor. Ele conseguiu fazer coisas simples e belíssimas. Baden tinha um ritmo, era um sujeito miudinho, franzino, fumava desbragadamente, no palco, fumava e bebia. Eram sempre dois bancos, num ficavam a carteira de cigarros e o copo de uísque.

Que grupos musicais você já integrou? Nós tivemos tribos. Por incrível que pareça, minha primeira tribo era exatamente a do choro. Era Paulo Trabulsi, era Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Zeca [do Cavaco, cantor e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013], Serrinha [Serra de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], era o [Regional] Tira-Teima, basicamente. Na época tinha o Teles, já falecido, tocávamos no fundo do quintal da casa de Paulo. Foi onde eu conheci Carlinhos Veloz [cantor e compositor], Léo Capiba também fazia parte, Anna Cláudia, que na época era casada com Paulo. Como grupo de formação profissional, o primeiro grupo foi o Ensaio Três. Foi uma história muito engraçada: trabalhávamos eu, Léo e o Mariano Aguado, que era assessor chefe da presidência do Instituto de Planejamento. Nós éramos muito ligados, Mariano gostava de tocar timba, Léo de tocar pandeiro e cantar, e eu, violão. Uma sexta-feira, deu duas da tarde, o presidente nos dispensou, era véspera de um feriado, alguma coisa. A gente acostumado a trabalhar até seis, passei em casa, peguei o violão, passamos na casa de Léo, pegou o pandeiro, compramos uma timba para Mariano, no caminho, ainda não tinha essa estrutura da [avenida] Litorânea hoje, compramos uma garrafa de uísque, gelo, isopor. Chegamos lá, Léo começou a desfiar o repertório dele. Lá pela trigésima música, eu pensei: “já dá um show”. E disse: “se tu aguentar, a gente podia fazer uma história”. E ele disse: “eu tenho música é pra fazer 10 shows”. Resultado: saímos da praia quase 11 da noite, já com quase 100 músicas tonalizadas. Voltamos sábado de manhã, outro litro de uísque. No outro sábado, de novo. Foram três ensaios. Depois do terceiro já arrumamos um contrato, fomos tocar no Pelicano, já tínhamos umas 300 músicas. Durou um tempo, depois do Ensaio Três, agregamos Paulo Lima, grande baixista, violonista, grande músico, depois o filho dele, Athos, guitarrista, grande músico também. Durante um bom tempo o Pelicano era o ponto de encontro, todo mundo que vinha de fazer show, o ponto de encontro era lá. Já montei muitos quartetos, quintetos, veio o Bom Tom. O Bom Tom é o seguinte: nós montamos o Estúdio Bom Tom, e um dia o Marcelo Bianchini, eu nem sabia que ele cantava, ele deu uma canja no Dom Calamar, eu fiquei encantado com a voz dele, e disse que ia montar um grupo só para acompanhá-lo, acabamos montando o Bom Tom, era um quarteto, depois virou quinteto, já chegou até a hepteto. A ideia era um grupo para acompanhar intérpretes, eventualmente tocamos música instrumental, não somos solistas natos.

E tua participação no Regional Caixa de Música [grupo que acompanhou Joãozinho Ribeiro no Circuito Samba da Minha Terra, entre 2002 e 2003], quando você ganhou o prêmio Universidade FM de melhor violonista? Eu reconheço que aquele prêmio foi mais pelo conjunto da obra, o grande mérito é de Joãozinho Ribeiro, um projeto complicado, de meio de rua, feito com sacrifício, mas aquilo foi fantástico. Para mim, pessoalmente, me deu conhecimento de pessoas da cidade, mais uma vez comprovei que qualquer lugar que você chegue com boa música, do Olho d’Água ao Anjo da Guarda, a boa música será apreciada. Uma história que eu sempre me emociono quando lembro: eu estava tocando num lugar, chegou um senhor, pediu uma garrafa de vinho. Sentou na nossa frente, ele estava pra baixo, arriado. A gente tocando, eu bem de frente pra ele. Eu comecei a prestar atenção que a cada música que a gente tocava ele levantava um pouquinho. Secou a primeira garrafa de vinho, pediu outra, não tomava depressa. Perto de a gente acabar, ele não bebia mais, a feição era outra. Acabamos de tocar, comecei a arrumar meu violão, ele: “posso falar com o senhor? Me acompanha numa taça de vinho?”, chamou o garçom, pediu um prato de frios e outra taça. Ele passou uns 30 segundos olhando para minha cara, o garçom veio, me serviu, e ele disse: “em primeiro lugar eu quero agradecer. Não só o senhor, todo o grupo, mas eu estava prestando muita atenção no senhor. Eu cheguei aqui com um firme propósito, era minha última garrafa de vinho”. Eu disse: “que bom, parar de beber”. Ele frisou: “não, minha última garrafa de vinho. Mas não será mais minha última garrafa de vinho, tanto que eu já pedi outra”. Ele sério, eu gelei: tinha ido ali beber, sair dali e jogar o carro contra um poste, me disse que tinha tido uma decepção muito grande, não entrou em detalhes. Depois ele me disse: “olha, se existe alguma coisa nobre, é o que vocês fazem. Foi Deus que me trouxe aqui. Se eu tivesse ido pra outro lugar… mas vocês tocaram meu coração”.

E discos gravados, participação em discos? Não tenho muitos, não sou um músico de estúdio. Gosto mais de palco. A última agora foi com Vieira [O Natal Azul de Antonio Vieira, com vários intérpretes, lançado em dezembro de 2014], o Memória [Música do Maranhão, de 1997] eu pensei, coordenei o projeto, mas não toquei. Registramos vários compositores da velha guarda. Há ali uns registros muito interessantes. O Canta Cidade, um dia Dr. Jackson [Lago, ex-prefeito de São Luís, ex-governador do Maranhão] chegou muito irritado na Prefeitura, ele tinha ido a um evento, pediu para tocar o Hino da Cidade [Louvação a São Luís, de Bandeira Tribuzzi] e ninguém sabia, aí ele mandou fazer um disco.

Você também teve um papel importante na realização do Festival Internacional de Música de São Luís, infelizmente até aqui, de única edição. Para mim foi a coisa mais importante, musicalmente, que eu já fiz na vida.

Para você, o que é o choro e qual a importância dessa música para a música brasileira? Não concordo que seja a única música brasileira, mas a importância é inegável. Se você olhar hoje, no Brasil, os melhores músicos que nós temos passam pelo choro. Ou pelo menos pelo erudito. E mesmo no erudito, não tem jeito, passa ao menos por Ernesto Nazareth [pianista e compositor]. O choro tem um pé no erudito, um pé no popular, e hoje, com essa turma nova, já pisa em outros terrenos.

Você se considera um chorão? Não, eu não tenho essa pretensão. Se eu dissesse que sim seria muito pretensioso. Não posso de jeito nenhum dizer que sou um chorão. Na realidade, não posso dizer que eu sou um chorão, que eu sou um jazzista. Na verdade, se prestar bastante atenção no que eu faço, talvez seja possível dizer que eu sou um sambista. É, a coisa que eu mais gosto de tocar é samba. Na verdade, como dizia Maestro Nonato: “esse pessoal fica pedindo pra tocar choro. É samba!” [risos].

Para finalizar, gostaria que você falasse um pouco de sua relação com seu Antonio Vieira. Por duas vezes eu fiz essa observação: Vieira foi meu segundo pai. Ele foi um cara que me mostrou muita coisa do mundo. Era um sujeito aparentemente simples, mas era de uma sapiência. Nós viajamos muito, convivemos muito, 24 horas, ficávamos no mesmo apartamento, andávamos, ensaiávamos, tocávamos, três, quatro dias, eu não me cansava nunca dele [emocionado]. Fizemos muitos shows juntos, viajamos o Brasil inteiro. Hoje eu conheço muita gente fora por causa de Vieira, por ter ido acompanhando, ele me deu essa visibilidade, me botou em outro patamar. Eu tenho aproximadamente 50 MDs [minidiscs] de Vieira, isso vai dar mais de 80 horas de Vieira cantando, falando, conversando. Às vezes a gente sentava, ele falava: “tu já vai ligar tua besteira?”. Era uma figura!

Choro em dose dupla – ou quádrupla

[remix dum release já distribuído]

RicoChoro ComVida terá duas edições extras, na mesma noite, dentro da programação da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia no Maranhão. Apresentações de Chorando Callado, Regional Tira-Teima, Anna Cláudia e Luciana Simões são gratuitas e acontecem na Praça Maria Aragão

Apreciadores de boa música nunca estão satisfeitos com o dito popular “tudo o que é bom dura pouco”. Frequentadores assíduos de RicoChoro ComVida sempre reclamam: ou a festa mensal é curta; ou deveria ser semanal. Por outro lado, reconhecem a importância do projeto, nos moldes do saudoso Clube do Choro Recebe, então semanal, no Bar e Restaurante Chico Canhoto, com breves passagens pela Pousada Portas da Amazônia/ La Pizzeria, na Praia Grande, e Associação do Pessoal da Caixa (APCEF), no Calhau.

A este coro de mais ou menos descontentes, um motivo de alegria está agendado para a semana que se inicia: amanhã (20), às 20h, de graça, na Praça Maria Aragão, nada menos que dois shows – ou melhor, quatro – poderão ser presenciados, sob produção de Ricarte Almeida Santos, na programação da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia no Maranhão – que acontece entre os dias 19 a 25 de outubro –, evento promovido pela Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovação, pasta cujo titular é Bira do Pindaré (PSB).

A noite desta terça (20) terá nada menos que o retorno do Chorando Callado – um dos grupos surgidos por ocasião do Clube do Choro Recebe, celebrando 10 anos de estrada – e o Regional Tira-Teima, mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão, prestes a lançar seu disco de estreia. Os grupos receberão, respectivamente, as cantoras Anna Cláudia – com disco novo pronto, a ser lançado em breve – e Luciana Simões (do duo Criolina), com repertório baseado em Dalva de Oliveira (1917-1972), Carmen Miranda (1909-1955) e Noel Rosa (1910-1937).

O Regional Chorando Callado – cujo nome homenageia Joaquim Antonio Silva Callado, considerado um dos pais do choro – é formado por Wendell Cosme (bandolim e cavaquinho), Wanderson Silva (percussão), João Eudes (violão sete cordas) e Lee Fan (flauta e saxofone). O Tira-Teima – batizado por um choro de Ubiratan Sousa, um de seus fundadores, ainda na década de 1970 – é atualmente integrado por Paulo Trabulsi (cavaquinho solo), Zeca do Cavaco (voz e cavaquinho centro), Luiz Jr. (violão sete cordas), Zé Carlos (voz e percussão), Serra de Almeida (flauta) e Henrique (percussão).

Wendell Cosme revela a alegria em participar do projeto: “Estamos felizes em participar do RicoChoro ComVida. A gente já estava conversando há algum tempo e, na verdade, nós estamos comemorando os 10 anos de Chorando Callado. Parece que o Ricarte adivinhou. Estamos com o projeto de um show e da gravação de um disco para festejar essa data. Será um grande prazer começar essa comemoração acompanhado a Anna Cláudia”, revelou.

Wanderson também revela empolgação em participar do projeto e admiração por Anna Cláudia: “Nós estamos todos felizes com o convite, [Anna Cláudia] é uma cantora que tem um perfil que se encaixa com o Chorando Callado, bem alegre, extrovertida e profissional, assim como nossa maneira de fazer música”, declarou.

O violonista João Eudes reforça a importância das amizades para a consolidação do grupo: “É uma sensação prazerosa, esta reunião é uma relação de amizades concretas e sinceras que só o tempo constrói. Acompanhar Anna Cláudia é uma emoção: além de uma grande amiga, sua voz e afinação são impecáveis”, elogiou.

A cantora Anna Cláudia durante canja em edição do projeto RicoChoro ComVida. Foto: Rivanio Almeida Santos
A cantora Anna Cláudia durante canja em edição do projeto RicoChoro ComVida. Foto: Rivanio Almeida Santos

 

A paraense, há muito radicada no Maranhão, por seu lado, devolve o entusiasmo e antecipa um pouco do que será sua apresentação: “Participar desse projeto é uma honra. O repertório é todo formado por músicas de compositores maranhenses”, contou, antecipando nomes como Djalma Chaves, Gerude, Nosly, Ronald Pinheiro e Zeca Baleiro entre os autores que gravou em Bons ventos, segundo disco de sua carreira, cujo lançamento oficial arquiteta para breve.

O violonista Luiz Jr. já vinha há algum tempo substituindo Francisco Solano [violão sete cordas] em apresentações do Regional Tira-Teima no Hotel Brisamar [em cujo terraço o grupo toca às sextas-feiras] e em outros projetos do grupo. “Pra mim é uma honra, um prazer, integrar um grupo que conheço desde a época em que eu frequentava a roda de choro no Monte Castelo, Bateau Mouche [apelido do bar que abrigava o encontro]. Eu era criança, estava começando, mal tocava violão, na verdade eu não tocava nada, e já acompanhava esse grupo desde aquela época, com a presença de Zé Hemetério e grandes chorões de São Luís e do estado do Maranhão”, lembrou.

“Isso [sua presença efetiva no grupo] vai reforçar mais minha afirmação em relação ao [violão] sete cordas, meu estudo do sete cordas, diariamente ensaiando com Paulo [Trabulsi, cavaquinista do grupo]. Esse grupo é referência em relação ao choro, não só no estado, mas no Brasil, pelo trabalho de pesquisa em relação aos autores maranhenses, está com novos projetos, disco que está vindo, preparando uma turnê para tocar em outros estados, esse grupo vai chamar muita atenção país afora e espero que cresça muito mais”, adiantou.

Sobre a participação na edição extra de RicoChoro ComVida, garantiu: “esse show vai ser interessante, com a Luciana Simões, grande intérprete da música brasileira, já reconhecida em São Paulo e outros eixos. Pra gente vai ser muito interessante, contemplando o ambiente muito agradável da Praça Maria Aragão, aquela beleza de visual da ponte, da lua, de Gonçalves Dias, que é outra fonte de inspiração. Quem for vai gostar muito. A alegria e a felicidade são maiores ainda em saber que o projeto RicoChoro ComVida, tão necessário, está se expandindo”.

A cantora Luciana Simões. Foto: Renan Perobelli
A cantora Luciana Simões. Foto: Renan Perobelli

 

Luciana Simões, que também cantará nomes como Lupicínio Rodrigues (1914-1974), Humberto Teixeira (1915-1979), Lopes Bogéa (1926-2004) e Cesária Évora (1941-2011), ressalta a importância do projeto e a honra em participar desta edição: “fiquei muito feliz com o convite. Sinto-me honrada em fazer parte deste projeto único, de extrema importância para a cidade, tanto para o público apreciar essa música preciosa que é o chorinho, quanto para o músico tocar esse repertório e incentivar outros projetos que já existem, como é o caso do próprio Tira-Teima”, afirmou.

E reafirmou: “para mim é uma honra ser acompanhada por estes músicos, por quem tenho o máximo respeito. Ao ser convidada fui logo reouvir umas músicas de que gosto muito, nas grandes vozes da era de ouro do rádio”. Luciana anunciou ainda a participação especial do marido, Alê Muniz, durante sua apresentação: “ele canta uma ou duas comigo”, antecipou.

Para o produtor Ricarte Almeida Santos “a importância da presença do projeto RicoChoro ComVida, com essas atrações e encontros de artistas de linguagens diversas, na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, se dá pela compreensão de que a prática da arte, da música, é uma importante dimensão da produção de saberes e técnicas distintas e, portanto,  de trocas de informações, de influências e de culturas. Portanto espaço da produção de novos conhecimentos e de reinvenção das identidades”, declarou.

Serviço

O quê: edição especial de RicoChoro ComVida
Quem: Regionais Chorando Callado e Tira-Teima, Anna Cláudia e Luciana Simões
Quando: dia 20 de outubro (terça-feira), às 20h, na programação cultural da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia no Maranhão
Onde: Praça Maria Aragão (Centro)
Quanto: grátis

Chorografia do Maranhão: José Luís Santos

[O Imparcial, 8 de fevereiro de 2015]

Clarinetista, saxofonista, professor de música e língua portuguesa e escritor, José Luís Santos é o 47º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

José Luís Carvalho dos Santos nasceu em Teresina, capital do vizinho Piauí, em 16 de abril de 1948. É saxofonista, clarinetista, professor de música e de língua portuguesa e escritor, autor de, entre outros, Cotidiano II [vencedor do Prêmio Literário Gonçalves Dias, da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão, em 2008], volume de contos e crônicas, e do romance Oceano. Está prestes a lançar Português: tirando dúvidas de quem tem, espécie de gramática prática.

Zé Luís é filho de Luís José dos Santos, “regente da banda de música da Polícia Militar do Piauí e professor de língua portuguesa da rede estadual”, que “chegou a ser diretor de uns dois ou três colégios por lá, é nome de rua, nome de praça”, e Adélia Carvalho Santos, que “cuidava dos afazeres domésticos, papai não admitia que mulher dele trabalhasse para ninguém, aquela mentalidade da época”.

Lembrando seu pai, falecido em 2010, aos 85 anos, ele comenta: “quando ele se reformou da Polícia Militar foi direto para a Escola Técnica fazer uma banda de música que até hoje existe por lá, ficou lá como regente, professor de língua portuguesa”.

O 47º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão é o mais velho de 13 irmãos, numa família em que todos desenvolveram aptidões musicais. Sua irmã, Beth Moreno, é considerada “a Marrom do Piauí”, em alusão à cantora maranhense Alcione, a “Marrom”. O mesmo gosto foi herdado pelos seis filhos de Zé Luís, entre os quais a cantora Virna Lisi, o pianista Carlinhos Carvalho e o violonista Luiz Jr. [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013].

José Luís venceu os seguintes festivais: Festival de Música Popular do Estado do Piauí, promovido pela TV Clube, em 1975, com a música Reconstrução; V Encontro Nacional do Compositor de Samba, Riotur, 1975, com Melhor pra quem sorrir no final; Festival do Sesi/MA, 2011, com Samba e chorinho na Madre Deus; Festival de Música dos Correios, 2011, obtendo o primeiro lugar nas eliminatórias de São Luís, Belém e Belo Horizonte com a música No peito e na raça.

Durante a entrevista, realizada no Bar do Léo em uma tarde de sábado, Zé Luís estava acompanhado de Maria das Dores Lima de Sousa, mais conhecida como Dora, funcionária dos Correios, com quem vive há 15 anos. O técnico agrícola, professor e médico Jonas Eloy da Luz, organizador de festas de forró pé de serra, acompanhou parte da entrevista, marcada por encontros: também apareceu por lá o mergulhador Daniel, neto do lendário Bigode, saudoso proprietário do bar a que emprestou o apelido, que ainda resiste, sob administração de João José, na Praça das Flores, no Renascença.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Quando você veio para o Maranhão? Cheguei aqui em 17 de dezembro de 1981, definitivamente para morar.

Você já tinha vindo antes? Tinha parentes? O que o trouxe em definitivo? Já, passava três, quatro, cinco dias de férias na minha juventude, mas estava bem afastado. Tinha alguns parentes. Eu era professor da então Escola Técnica Federal do Piauí e me transferiram para cá. Em uma viagem que eu fiz, um final de semana, gostei muito da cidade, “acho que venho morar aqui”, conversei com o diretor da Escola, passei um dia a mais, um dia útil, e ele disse: “se você quiser vir, já pode se considerar transferido”. E eu vim no intuito de ficar por uns três anos e estou até hoje [risos].

Na Escola você era professor de música? Não. Na Escola eu era professor de língua portuguesa. A música eu sempre pratiquei fora da Escola Técnica Federal. Lá em Teresina eu dava aula tanto na Escola Técnica Federal quanto nos colégios do Estado, mas sempre como professor de língua portuguesa.

Como era o ambiente musical de sua infância, em sua casa? Foi um ambiente muito musical. Meu pai além de tudo ainda tinha uma escola particular, ele mantinha em casa. Muitas pessoas estudavam lá, tanto música, quanto preparatório para exames de admissão, ele tinha uma escola registrada na Secretaria de Educação, a Escola Dom Pedro I, inclusive foi lá que eu dei minhas primeiras aulas.

Na Escola Técnica Federal do Maranhão você chegou a se aposentar como professor? Não, na Escola Técnica Federal, não. Ela mudou de nome, como todas, virou Cefet, Centro Federal de Educação Tecnológica, e depois Ifma, Instituto Federal de Educação Tecnológica. Eu me aposentei no último ano de Cefet, praticamente, em julho de 1998.

Em algum momento de sua vida você chegou a viver de música? Ou a música sempre foi um hobby, uma coisa paralela à questão da língua portuguesa? Sempre foi um hobby. Nunca vivi de música, assim, tocando na noite. Toquei na noite, criei um conjuntozinho com meus filhos, mas nós não vivemos daquilo, eu tinha meu salário, tanto federal como estadual, e depois quando eu vim para cá, São Luís me adotou, e eu era professor de quase todos os grandes cursinhos daqui, por exemplo o José Maria do Amaral, Meng, Anglo, colégios particulares como o Dom Bosco, uns se acabaram, o Dom Bosco ainda está aí. Eu era professor, ainda sou da rede estadual, através de concurso público. Não deu para viver de música, mas com minha escola eu devo reconhecer que ganhei um dinheirinho até bom, como professor de música da minha escola particular.

Você continua na ativa como professor de língua portuguesa? Sou professor de língua portuguesa da rede pública estadual. Ensino no bairro do Anjo da Guarda, no Vicente Maia.

Quem foram teus principais mestres? Quem te influenciou a ir para a música? De tanto passar, vendo meu pai dando aula de música, eu fui aprendendo naturalmente a ler, escrever e tal. Comecei a tocar clarinete bem cedo, e depois meu pai me tirou o clarinete, que não era mais para eu tocar, pois eu não estava indo bem no colégio.

Era o instrumento dele? Ele tocava que instrumento? Não. Ele era trompetista. Tocava trombone também muito bem, bombardino, mas o forte dele era o trompete.

Você aprendeu o clarinete autodidaticamente? Autodidaticamente, mas sempre acompanhado de uma partitura. eu aprendi a ler antes da prática do instrumento.

Pelo que você conta, seu pai tinha resistência em você seguir a carreira musical, mesmo ele sendo músico? Tinha uma certa resistência. Tanto que eu fui da Polícia Militar do Piauí, mas eu entrei lá através da Escola de Oficiais. Passei três anos e desisti, pois vi que não era minha vocação. Aí fui para o magistério.

Nessa tua passagem pela polícia, tinha alguma questão com música? Não, nenhuma questão. Era Academia Militar do Ceará. Eu era do Piauí, mas era custeado para estudar na Academia do Ceará, eu sairia de lá aspirante, mas nem cheguei a terminar o curso, desisti.

Você aprendeu clarinete autodidaticamente, seu grande mestre, ainda que involuntariamente foi seu pai. Quem era tua referência no clarinete? A figura que você via e achava que era uma influência positiva para você? Eu comecei cedo, mas meu pai me interrompeu os passos. Eu tinha uma admiração por um clarinetista chamado Abel Ferreira. Foi a pessoa que me fez voltar ao clarinete. No dia da morte dele, eu estava ouvindo rádio quando se deu a notícia de que ele havia falecido, o grande músico, compositor e maestro Abel Ferreira. A partir daquele momento eu disse para mim mesmo: vou me tornar um clarinetista. Ele foi minha referência. Eu fiquei tão comovido que prometi a mim mesmo me tornar um clarinetista. Peguei um clarinete da Escola Técnica Federal do Piauí e fui treinar diariamente. Terminava o expediente e eu ia treinar.

Que outros nomes foram referência para você? Para todos os clarinetistas: Paulo Moura e Severino Araújo.

Se ouviam muitos discos em sua casa? Papai era um romântico, ouvia muitos discos, não faltavam Waldick Soriano, as grandes orquestras, Ângela Maria fez parte de nosso acervo, Nubia Lafayette, Maysa, Dolores Duran, Cauby Peixoto, esse era o pessoal que circulava lá por casa, através de seus discos, suas gravações, suas músicas.

E rádio? Também se ouvia muito? Muito rádio! Aliás, na nossa rua a primeira casa a ter uma radiola [risos] foi a nossa, aquela do bracinho, com aquela agulha, a gente substituía quando gastava, foi a primeira casa a ter, antes da geladeira, por sinal [risos].

Quer dizer, a música era mais importante. Pois é. Meu pai como regente, ele acabou criando muitas bandas de colégios da rede pública estadual. Era um professor de música, muita gente que passou por ele e agradece isso, gente das forças armadas, aeronáutica, polícia, gente daqui mesmo, uma turma do Piauí que veio para cá. O pessoal de lá do Piauí costuma dividir a música em antes e depois de Luís Santos.

Ele é um personagem importante na história da música piauiense. Sim, na história da música piauiense. É nome de rua, nome de praça. Ainda está recebendo várias homenagens por lá. Faleceu em 2010, aos 85 anos. Compositor, muitas músicas gravadas.

Então você não teve escolha: herdou geneticamente tanto a coisa da música como da língua portuguesa. É. Foi uma condenação [risos]. Eu nasci condenado a ser músico. Pena que eu não consegui ser um músico formado. Já tentei três vezes. Sou da primeira turma de música da Universidade Federal do Piauí, da primeira turma da Universidade Federal do Maranhão, nunca terminei o curso, estou lá, passei naquele vestibular, embora sendo formado, fiz vestibular. Nem tranquei. Por que em seguida veio minha nomeação como professor do Estado, e chocavam os horários.

Você gosta de dar aulas? É o que eu fiz a vida inteira, vou fazer a vida inteira, sinto falta quando paro. Eu costumo dizer para meus alunos que meu maior prazer não era morrer em casa ou no hospital, mas dentro da sala de aula [risos]. Se um infarto me pegasse, que me pegasse dentro da sala de aula.

Além de músico e professor, você também é escritor. Sim. Eu sempre gostei de literatura. Quem colocou os primeiros livros, que posso chamar de literários nas minhas mãos, foi minha mãe, que era uma boa leitora. Ela colocou revistas, livros e tudo, aqueles personagens, As viagens de Gulliver [do escritor irlandês Johathan Swift], A volta ao mundo em 80 dias [do escritor francês Julio Verne], aquilo ficou, “um dia eu vou escrever um livro, um dia eu vou escrever um livro”. Hoje eu tenho vários livros publicados e tem um no prelo, para sair nos próximos dias.

Quantos livros? Uns seis ou sete. Esse agora é na área didática. Eu tanto faço na área didática, quanto na área artístico-literária. O título é Português: tirando dúvidas de quem tem. São mais de 300 dúvidas e, questões aleatórias, os colaboradores do livro são as pessoas que conversam comigo nas mesas de bar, ou elas acertam uma linguagem difícil, que pouca gente acerta, ou erram a linguagem que não deveriam errar. Tudo isso está no livro, claro que sem citar o nome de personagem nenhum.

Recentemente você ganhou um concurso literário. Sim, com Cotidiano II. Eu ganhei aqui e no Piauí, primeiro lá, depois aqui. É um volume de crônicas e contos. Tenho um romance publicado, Oceano, ambientando no Piauí. Tenho um inédito ambientado aqui, ainda não está terminado, chamado A hora fatal.

Se você fosse escolher um dos ofícios para dizer que se realiza mais em um ou outro, é possível escolher um? Dar aulas, a música ou a literatura? É meio difícil. O que está em terceiro plano mesmo é o ofício de escritor, requer uma dedicação maior, exclusiva, e eu ainda não posso me aposentar por que não preciso mais de dividendos, não: eu trabalho por que eu preciso trabalhar. Eu faço por prazer, mas também por obrigação.

Você acha que estes ofícios, em alguma medida, se ajudam, se atrapalham ou não têm nenhuma relação? Eles sempre se ajudam. Por que escrever não é uma coisa muito fácil, a pessoa tem que acreditar no que está escrevendo, até ter um estilo, um estilo próprio.

Em alguma medida você consegue separar o Zé Luís escritor, do Zé Luís professor do Zé Luís músico? Ou eles estão sempre misturados? Eu sou muito acusado de autobiográfico, de me meter nas obras que eu faço. Muita gente vê, por exemplo, o Marcos Alencar [personagem de Oceano], as pessoas veem o Zé Luís por trás dessa história. Eu procurei fugir de mim mesmo, são realmente figuras literárias de ficção, mas muita gente acha que eu me meto em minhas músicas e em minha literatura. Eu já paguei caro, já fui acusado de certas coisas que nem fiz, mas como eu escrevi, o pessoal “não, isso aí é ele mesmo” [risos].

Na sua escola de música seu filho Luiz Jr. acabou aprendendo como você aprendeu: de tanto ver e ouvir o pai ensinando. Que outros nomes de destaque passaram pelas suas mãos? Eu comecei a ensinar música aqui, foi onde eu comecei a levar a música a sério. Eu tocava violão, era um seresteiro, boêmio. Eu cheguei a ter alunos como Roberto Ricci [violonista], uma figura conhecidíssima aqui, o Marquinho Duailibe [cantor]. Muita gente passou pela Escola de Música Vinicius de Moraes, era em frente à Lusitana [supermercado] da [rua das] Cajazeiras, onde hoje é a Ponto Branco [loja de roupas]. Aquela casa parece que nasceu com uma vocação musical, hoje é da Selma Delago [cantora, compositora e empresária, proprietária da Ponto Branco].

Você falou em clarinete, violão e sabemos que você toca também saxofone. Você toca os quatro naipes de saxofone? E que outros instrumentos você toca? Eu toco sax alto, eu toco os outros, mas não vivo tocando, o tenor, tenor eu nem tenho em casa, tenho o soprano, gravei algumas músicas com o sax soprano.

Falando em gravar, em que discos podemos ler teu nome na ficha técnica? Tem um disco chamado Talentos da Educação, gravado em Fortaleza, eu estou lá. Tem também o V Encontro Nacional do Compositor de Samba, fui um dos vencedores. Inclusive ele tem aqui [informa que o Bar do Léo, onde acontece a entrevista, tem o disco em seu vasto acervo]. E vários outros discos.

E composições, você tem quantas? Mais de 200 músicas.

Quando você faz, faz letra e música? Por que imagino que, como entende de música, toca, é professor, e ao mesmo tempo é professor, dá aula de português, isso ajuda? Você faz letra e música? Tenho poucas parcerias, o resto tudo eu fiz letra e música. Meu percentual de música sem letra é muito pouco. A maioria tem letra. Tenho uma música conhecida no Nordeste inteiro, chamada Grito do professor, onde homenageio a classe e ela é o hino do Sindicato dos Professores do Ceará. Ela roda todo sábado em Fortaleza, num programa dos professores. No Piauí também. Não sei por que não roda aqui.

Além de instrumentista e compositor, você desenvolve outras habilidades na música? Os arranjos das músicas que eu faço são também meus. A não ser quando alguém quiser gravar, pode cuidar disso. Eu faço arranjo, fiz um curso básico de piano, dá para extrair partituras para outros instrumentos.

Você se considera mais saxofonista ou clarinetista? Eu sou mais clarinetista. Durante muito tempo o saxofone foi visto como consequência do clarinete. O pai do sax é o clarinete. Na Europa, um grande músico cujo nome não lembro agora, recomendou que quem quisesse aprender saxofone que começasse pelo clarinete. Coisa que já dizíamos aqui há tempos. Quem toca clarinete, quando pega o sax, é questão de semana para aprender a tocar. O clarinete é um instrumento dificílimo.

Qual a sua percepção sobre Luiz Jr., seu filho, um virtuose do violão, uma figura reconhecida? Como você percebe o papel dele na cena chorística, musical do estado? Quando Júnior tinha mais ou menos 11 para 12 anos de idade ele, na verdade, era um cantor mirim. Aquela música do Jessé [o cantor José Florentino dos Santos], [cantarola trecho de Solidão de amigos, de Eunice Barbosa e Mário Maranhão] “Lenha na fogueira”, ele disse que ia cantar na escola. “Eu queria que o senhor fosse me acompanhar”. Eu tinha três provas para corrigir, eu disse assim: “eu vou pegar o violão, vou te ensinar uns acordes e você mesmo se acompanha”. Ensinei três acordes, fui dar aula, quando eu voltei, ele estava realmente se acompanhando, eu acrescentei mais um acorde, pronto, foi a única aula que eu dei para ele. Ali eu percebi a aptidão dele para o violão, percebi que ele seria um grande violonista. Eu disse para ele que ele não podia deixar a escola, fiz como meu pai fez. Se ele não demonstrasse desenvolvimento dos dois lados eu teria que tomar o violão dele. Só que ele só queria saber de música, deu um trabalhão na escola, nunca terminava o ensino médio, professor já olhava com vontade de reprovar, ele tinha preguiça de fazer os trabalhos, mas o violão crescendo. Um dia eu cheguei para ele e perguntei: “mas o que é mesmo que você quer ser?”. E ele: “papai, eu só quero ser músico”. E eu disse: “olha, uma coisa é você ser músico, outra coisa é você viver de música. Antes você tem que pelo menos terminar esse ensino médio”. Mas foi o que me disse que queria mesmo ser músico, assumiu isso e eu disse para ele todas as dificuldades. Júnior é o meu orgulho! Eu me sinto satisfeito em ele representar tão bem o Maranhão onde ele vai. Por acaso eu ainda estava no Piauí quando ele nasceu, ele nasceu lá mas é maranhense. Você é sua cultura: Júnior é maranhense.

Você se considera um chorão? Sim. Aliás, eu sou chorão inclusive literalmente [risos]. Pra eu chorar é daqui pra li. Eu sou meio bruto também, hoje não, mas eu tenho o coração muito mole, qualquer coisa, acabou.

RicoChoro ComVida se consolida no calendário cultural de São Luís

Próxima edição do projeto acontecerá 3 de outubro, no Barulhinho Bom

O passeio de Célia Maria acompanhada pelo Trítono Trio, então um quinteto. Foto: Rivanio Almeida Santos
O passeio de Célia Maria acompanhada pelo Trítono Trio, então um quinteto. Foto: Rivanio Almeida Santos

 

O DJ Pedro Sobrinho registrou a emoção com o convite. Jornalista de formação, escreveu em seu blogue, dois dias após a segunda edição de RicoChoro ComVida (sábado, 5 de setembro): “um momento de realização pessoal e profissional”, declarou, agradecendo ao produtor Ricarte Almeida Santos a oportunidade de participar do projeto, num texto que acaba por se transformar em um manifesto contra os preconceitos que puristas têm por DJs.

Célia Maria e os integrantes do Trítono Trio também registraram deferências ao produtor, no palco do Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande), que abriga a temporada – mais cinco apresentações estão previstas até dezembro de 2015, a próxima tendo como atrações o grupo Urubu Malandro, a cantora Alexandra Nicolas (interpretando repertório consagrado por Carmen Miranda) e o DJ Joaquim Zion, mas isto é assunto para outro texto, específico sobre a noite de 3 de outubro próximo.

Rui Mário (sanfona) destacou a importância do projeto para a valorização da música e dos músicos do Maranhão, não só do choro. O Trítono Trio, completado por Robertinho Chinês (bandolim) e Israel Dantas (violão), na ocasião substituído por Luiz Jr. (violão sete cordas), recebeu os reforços de Ronald Nascimento (bateria) e Mauro Sérgio (contrabaixo). O resultado foi um repertório refinado em execuções idem. Nada de conformismo ou mesmice. Tico-tico no fubá (Zequinha de Abreu), por exemplo, ganhou ares de tango, sem perder a essência da música ligeira que exige habilidade e técnica apuradas de quem encara o desafio de tocá-la.

Célia Maria agradou o público ao mesclar em seu repertório, clássicos do cancioneiro nacional, músicas de seu disco de estreia e do próximo disco, ainda sem data de lançamento. Entre outras, A banca do distinto (Billy Blanco), um libelo contra o racismo, Ingredientes do samba (Antonio Vieira), Milhões de uns (Joãozinho Ribeiro), ambas de seu disco de estreia, Saiba, rapaz (Joãozinho Ribeiro), música que cantou no disco de estreia do compositor, Adeus, Billie (Cesar Teixeira), inédita que está em seu disco novo, que cita a diva jazz Holiday, e Balança pema (Jorge Benjor).

As canjas, inspiradas, contaram com as presenças de Paulo Trabulsi (cavaquinho), Luiz Cláudio (percussão) e Alberto Trabulsi (voz e violão). A exemplo da primeira edição, certamente as canjas dão ideia das edições futuras – nenhuma é igual a outra. Esta contou inclusive com a canja surpresa do mineiro Paulinho Pedra Azul, que havia feito show no Teatro Arthur Azevedo na quinta-feira anterior, celebrando os 30 anos de namoro com a capital aniversariante. Entre choros seus e de Godofredo Guedes, pai de Beto Guedes, além do clássico Jardim da fantasia, o artista não poupou elogios ao projeto e à militância chorona de seu idealizador, produtor e apresentador, além dos músicos que o acompanharam, de improviso, dizendo-se feliz em estar ali. A plateia foi ao delírio.

Com patrocínio da Fundação Municipal de Cultura (Func), Gabinete do Deputado Bira do Pindaré, TVN e Galeteria Ilha Super, apoio do Restaurante Barulhinho Bom, Calado e Corrêa Advogados Associados, Sonora Studio, Clube do Choro do Maranhão, Gráfica Dunas, Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt e Musika S.A. Produções Artísticas e produção de RicoMar Produções Artísticas, RicoChoro ComVida já está consolidado no calendário cultural de São Luís: o projeto manteve um bom público, mesmo com a programação gratuita alusiva ao aniversário da capital que já acontecia na cidade.

Chorografia do Maranhão: Márcio Guimarães

[O Imparcial, 25 de janeiro de 2015]

Cavaquinista do Cantinho do Choro e um dos articuladores da cena choro em São Luís, o herdeiro musical de Six é o 46º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Márcio Henrique Guterres Guimarães é um dos novos militantes da cena choro em São Luís do Maranhão, cidade em que nasceu em 12 de novembro de 1981. Há cerca de dois anos “sentou praça” na praça Gonçalves Dias, cartão postal também chamado de Largo dos Amores, no Centro da capital maranhense.

Com recursos do próprio bolso e a ajuda de amigos fundou o movimento Cantinho do Choro, que realizou no logradouro apresentações gratuitas aos sábados, aproveitando a beleza da vista do por do sol no lugar. Sem patrocínio e estrutura, o projeto foi forçado a acabar. Mas guerrilheiros fiéis do gênero seguiram o comandante e fundaram o grupo Cantinho do Choro, que se apresenta semanalmente às quartas-feiras no Salomé Bar, novo point da Lagoa.

Márcio Guimarães é filho de José Henrique da Silva Guimarães, engenheiro, e Maria Raimunda Guterres Guimarães, funcionária pública. É sobrinho-neto de Francisco de Assis Carvalho da Silva, o Six, advogado e cavaquinista falecido, a seu tempo, um dos agitadores do gênero no país – entre outros feitos, fundou o Clube do Choro de Brasília.

Casado com Thaís Monteiro Frias Guimarães, a musicista e produtora cultural Tathy Estrela, que acompanhou a entrevista, e pai da pequena Luna, Márcio foi o primeiro aluno formado em cavaquinho na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM].

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Quais as tuas primeiras lembranças de música na infância? Eu fui me envolver mesmo com música aos 15 anos, quando eu saí em bloco tradicional. Fui começar a tocar cavaquinho aos 19. Sempre envolvido com música. Eu tinha um tio, que eu me lembro vagamente, não tive oportunidade de tocar com ele, que é o Six, um dos fundadores do Clube do Choro de Brasília. Era meu tio. Cheguei a presenciar algumas rodas de choro dele aqui em São Luís, na casa de meus parentes.

Teus pais gostam de música? Meu pai é boêmio, sempre gostou de música. Minha mãe é mais parada, na dela, mas sempre gostou de ouvir aquele estilo de música, Roberto Carlos, mais MPB.

E se ouvia muita música em tua casa? Teus pais compravam muitos discos? Muita música. Houve uma época, há uns 15 anos eu era dj, e ficava pesquisando estilos de música da época e o que havia de novo. Depois que eu comecei a namorar com Thaís, já estamos há 10 anos juntos, eu passei a consumir mais MPB, por que Thaís tem um acervo muito grande de MPB, e tocar com ela. Começamos um projeto que era mesclar violão e cavaquinho, era algo que não tinha aqui, ela tocava violão e cantava e eu improvisava, a partir de umas aulas que eu tive na Escola de Música com o professor Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014]. Mas quem me ensinou isso aí foi João Soeiro [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 30 de março de 2014]. Foi meu primeiro professor na Escola.

Você atribui a Six a sua maior influência em sua escolha pelo choro? Ah, sim. A veia musical familiar eu atribuo a ele. É primo legítimo da minha vó, foi criado lá em casa. Tem um tio meu que era muito boêmio, vivia lá em casa, infelizmente faleceu ano passado, era pandeirista, ele sempre falava para mim: “meu filho, não dá pra você ser boêmio, por que tu não quer virar a noite, nem quer beber” [risos]. Eu não bebo. Mas ele sempre gostou de música, música instrumental. Era aficionado.

Você falou que veio tocar cavaquinho aos 19 anos. Antes, você passou por outro instrumento? Eu comecei a me envolver com violão aos 17, 18 anos, comecei a fazer aula, fiz três meses, só que o cara enrolava, eu comecei a ser autodidata. Comecei a ver uns amigos meus tocando cavaquinho, aquele som, me encantei, foi paixão à primeira vista. Eu comprei meu primeiro cavaquinho dum amigo meu, chamado Gustavo Smith, passei dois anos pesquisando, autodidata, fiz prova para a Escola e passei, de primeira, graças a Deus. Daí continuei, ainda peguei dois anos de aula quando era ali na Beira-Mar. Quem fez a prova comigo foi o professor Charles, na época. Foi uma oportunidade muito boa, por que quando a gente vai estudar música a gente vê que não sabe de nada, e até hoje, eu te digo: eu ainda estou aprendendo. Cada profissional que chega, como a gente já teve vários cursos de choro, eu até acho bom vir mais cursos de choro para São Luís. Teve um que a Petrobras trouxe, e a Vale, foi o primeiro [curso] de choro que teve aqui, que veio a [cavaquinista] Luciana Rabello. Tu é louco! Uma didática de palheta, que eu fiquei: “cara, eu não sei nada”. Depois fiz o segundo, e nunca parei de estudar. Comecei em bloco tradicional, e tal, quando entrei na Escola vi que não sabia nada, e comecei a estudar choro.

Você concluiu o curso de cavaquinho na Escola? Concluí o curso em 2007 e ao concluir o curso eu fui saber por meu professor, o Juca, que eu era o primeiro aluno a formar na história da Escola de Música, eu não sabia. “Olha, eu tenho uma surpresa pra ti: você é o primeiro aluno a se formar [em cavaquinho] na Escola”. E eu, “pô, professor, bacana”. É uma pessoa por quem tenho muita afeição e até hoje é meu mestre. Eu sou fã dele, uma pessoa humilde, simples. E ele morava lá perto da casa da minha vó. Eu morava na Praça da Alegria e Juca morava na Rua do Norte, amigo do pessoal lá, amigo do pessoal da família de Thaís também. Eles se reuniam, faziam roda de choro lá na praça.

Além de músico, você tem outra profissão? Eu sou formado em Sistemas de Informação, bacharel em Informática. Mas hoje eu larguei a informática, só vivo de música, só vivo para a música. Sou músico profissional.

Dá para viver de música? É difícil demais. Mas com projetos, dando aulas, eu dou aulas, sou professor de música, tem o chorinho, tenho minha banda, em paralelo, a gente toca em casamentos etc. A gente toca tudo da atualidade, dos anos 1960 à atualidade. Mas eu amo chorinho, chorinho para mim… eu ouço todo domingo o Chorinhos e Chorões [programa dominical apresentado por Ricarte Almeida Santos às 9h na Rádio Universidade FM (106,9MHz)], alivia, relaxa. Meu maior sonho é trazer um conservatório de música para São Luís. Eu soube de um para Imperatriz, aprovado na Lei de Incentivo [a Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão].

Você passou pelo violão. O que te fez escolher o cavaco? O violão eu toquei nível básico. O cavaco foi paixão à primeira vista, olhando as pessoas solando, me encantou. As pessoas pensam que o cavaquinho, por ter só quatro cordas, é um instrumento limitado. Engano. Quem estuda realmente, cada instrumento é um mundo diferente. O cavaquinho pra mim não é limitado, dá para fazer muita coisa. Se se estudar tem muita coisa de campo harmônico para fazer.

Quem você considera seus principais mestres? Em São Luís Juca é meu mestre. Fora a Luciana Rabello, tive oportunidade de pegar aula com ela, excelente aula, meu sonho pra mim é o [cavaquinista] Henrique Cazes. Na Escola de Música a gente estudou pelo método dele e ele outro método que ele está lançando.

Teus pais sempre apoiaram tuas escolhas? Apoiaram pouco no começo. Sempre falavam “vai estudar, música não dá futuro” e tal. Quando eles olharam que eu me interessei, me dedicava àquilo, começaram a apoiar. Depois de um ano, o presente de natal que meu pai me deu foi um cavaquinho, um Paulistinha da Rossini, nunca esqueço, ainda tenho esse cavaquinho. Meu primeiro cavaquinho foi um tonante Trovador, que eu comprei desse Gustavo. Quem também me deu uma força foi Michael, um amigo meu, me incentivou, eu tirava umas dúvidas com eles.

Qual o bloco tradicional em que você tocava? Cavaquinho eu toquei n’Os Vingadores, percussão em 1995, eu tive a oportunidade de tocar percussão n’Os Versáteis, fui tricampeão pel’Os Versáteis, fui levado por meu primo, Henrique Machado, que hoje mora em Brasília. Em 1999 eu toquei pel’Os Vingadores, 1999, 2000, em 2001 eu fui para Os Feras. Toquei n’Os Feras de 2001 até 2004, 2005. Depois eu saí de bloco tradicional. É um ritmo sensacional! Adoro o ritmo de bloco tradicional. Tem um cd carnavalesco meu, um projeto paralelo nosso, o Mixiricu, que no meio de músicas eu botei o bloco tradicional, o tambor de crioula, que pra mim é um dos ritmos mais lindos do Maranhão. Tive oportunidade de fazer aula percussiva com Lazico [o percussionista Lázaro Pereira], a gente fez um curso só de ritmos maranhenses, para se aprofundar mais, é uma oportunidade de valorizar mais a música do Maranhão. Aqui no projeto a gente toca não só choros conhecidos, mas também músicas de compositores maranhenses, como Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Domingos [Santos, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014], Osmar do Trombone [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013], dia 28 [de janeiro] ele vai estar aqui, com Osmarzinho [Osmar Jr., filho de Osmar do Trombone, saxofonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 5 de janeiro de 2014], que se formou agora em BH, gente fina, caras que tocam muito e são humildes. Gosto disso neles, somam e a gente vai aprendendo. Em termos de dar aulas, para mim foi muito bom. É um incentivo não só para estudar, mas para ver outras vertentes. Tem aluno que tu tá ensinando uma coisa para ele e ele te mostra outro caminho.

Você hoje tanto faz [cavaquinho] centro como solo? Sim, tanto centro como solo. Na Escola eu fazia mais centro, hoje estou estudando os dois.

Você considera o Juca teu grande mestre. Ele toca muito no estilo Waldir Azevedo. Você também segue esse estilo? Não. Hoje estou tentando me adequar por causa do grupo. O Juca ele domina tanto o centro quanto o solo, eu era mais centro. Hoje faço os dois. É mais um motivo pra gente estudar cada vez mais.

A Luciana Rabello também tem um estilo próprio, não é? Sim. Eu gostei muito, no estilo dela, da divisão de palheta, que ela faz no cavaquinho, que ela puxa as duas de cima, as duas de baixo [demonstra, no cavaquinho]. Ela divide o som, dá outro som. A gente explora, no grupo, música nordestina, muito Josias Sobrinho [compositor]. A gente está valorizando os compositores da terra. Aqui tem vários compositores excelentes. O Maranhão não perde para outros estados, e sim soma. O pessoal tem é que acabar com a cultura, uma cultura musical que eu não gosto, o pessoal quer ganhar como profissional, mas não age como profissional. Em termos de horário, por exemplo: o ensaio é tal hora e as pessoas não chegam; não são todos, é claro. Outra coisa: lá fora, todo mundo é unido. Se briga como qualquer um, mas defendem uma bandeira, não te queimam. Aqui em São Luís é cada um querendo puxar o tapete do outro, isso tem que acabar. Minha maior briga cultural mesmo é esse negócio: ser profissional. Às vezes a pessoa não é profissional aqui, tem que pensar que é tua empresa. Em tua empresa você chega bem arrumado. A Tathy Estrela, nossa produtora, padronizou a vestimenta da gente [aponta o bordado Cantinho do Choro no peito direito da camisa], já estamos pensando em outras roupas para outros horários. Isso dá estrutura para o trabalho da gente, a gente sempre estudando, faz com que sejamos valorizados.

Aqui há um grupo que passou a ter uma postura mais organizada, profissional e passou a influenciar outros grupos: o grupo Argumento. É outra postura em relação a contratos, já influenciou o pessoal do Bossa Nossa, vários grupos estão se estruturando. Outra influência para nós é o Calhau Jazz, do meu amigo Arlindo Pipiu [multi-instrumentista], que dá muita força pra gente, é uma pessoa que, desde o começo apoiou o trabalho da gente, além da Tathy e do Monteiro Jr. [cardiologista e violonista]. Ele está ali, paralelamente com a gente, sempre dando ideia, desde o começo, quando o projeto era na praça, sempre somando. São pessoas que chegam para ajudar a gente.

Qual a formação do Cantinho do Choro, hoje? Eu no cavaco, no bandolim o Raul, se formou agora, no violão seis cordas, o Carlos Reis, na percussão Nonatinho [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 6 de julho de 2014], na flauta transversa João Neto [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014], e no sax o Ricardo.

O Raul começou em um projeto do Sesc. Está tocando muito. Humilde, estudioso, dedicado. Tem tudo para crescer, muito futuro. É um talento que vem aí para abraçar o choro também.

O grupo nasce com aquele projeto da praça [Gonçalves Dias]? Conta pra gente a origem do Cantinho do Choro. O Cantinho do Choro foi um projeto que a gente colocou na praça, eu e Tathy Estrela. A gente chegou para agregar, chamando amigos, alunos da Escola, professores. Até o diretor da Escola foi um que abraçou, o Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], “pô, Márcio, eu vou lá pra te dar uma força”, meu amigão. Estávamos fazendo do bolso, tirando, o pessoal indo pelo choro. Por que paramos? Não tem estrutura, o local estava sendo depredado, todo pichado, uma bagunça, estava tendo assalto. Houve um assalto com homicídio, não no choro, mas a gente parou justamente com medo. Ali estava tão bom o local, a gente pega o por do sol, a praça é belíssima. O pessoal do centro turístico já estava começando a parar, enchendo de turistas, e a gente sem estrutura. Aqui em São Luís, como em todo lugar, o Estado devia garantir banheiros químicos, às vezes senhoras de idade não tinham onde sentar. O choro em São Luís não é consumido só por pessoas de idade, crianças que gostavam iam, ficavam dançando no meio da roda, muito massa! Contagia todas as pessoas o chorinho. Pra gente continuar com esse projeto na praça, teria que ter essa estrutura, justamente pra gente dar um conforto às pessoas, não só ao grupo. A gente fez um projeto, esse projeto a gente levou para a Secretaria de Cultura, passamos na Lei de Incentivo e infelizmente não conseguimos patrocínio, de jeito nenhum. Até agora, tudo o que a gente conseguiu foi do bolso. Monteiro Jr. colaborou, Selma Delago [cantora e empresária], da Ponto Branco, até hoje, essa camisa que eu tou, essa branca aqui [aponta para o bordado], bordado dela, a Ponto Branco é patrocinadora forte da gente hoje em dia, são pessoas que agregam por que gostam do projeto. Infelizmente não há empresários grandes que chegam para investir. Outras pessoas a quem a gente deve muitos são vocês, o Ricarte divulgando nossa agenda no Chorinhos e Chorões, desde o começo observando como está o projeto. A gente começou esse projeto por que aqui em São Luís acabou o Clube do Choro. Acabou, parou. E a gente sentiu necessidade de estudar o choro, saindo daquele âmbito de Escola de Música. Uma época a gente foi para a Bahia. Na Bahia todo dia tem recital de música. Na Escola de Música eles só vão fazer recital no final do semestre. Eu voltei com um projeto lá, não é meu esse projeto, o Sexta Musical. Quando eu saí, graças a Deus que Jair [Torres, guitarrista] continuou. Era um projeto em que todos os alunos tocavam. A gente desenvolveu esse projeto para agregar essas pessoas, alunos e professores terem a oportunidade de chegar junto e estudar.

Fora o Salomé Bar, vocês têm outra agenda atualmente? Não. O Salomé Bar é um parceiro. O Cantinho do Choro já tem dois anos, a gente estava correndo atrás de casa [para tocar]. A gente está fechado com o Salomé. Foi a primeira casa que abriu para a gente fazer um projeto de choro, viu o projeto, abraçou, e está sendo um sucesso, cada vez mais cheio. Todas as quartas, a partir das 20h. Era das 20h às 22h, às vezes tem que reservar mesa. Nós já estamos fazendo das 20h às 23h, três horas de choro aqui. É como o Clube do Choro, faz duas horas de chorinho e um convidado. A gente está chamando os mais conhecidos do choro, mas também pessoas novas. Nessa quarta agora vai ter o Monteiro Jr., tive a oportunidade de trabalhar com ele, fazer centro para ele. Até hoje a gente se reúne e toca. É bom ter essas pessoas que gostam do choro aqui em São Luís.

Você é cavaquinista e falou em composições. Além destas, há outras habilidades que você desenvolve na música? Eu trabalho mais arranjos no trabalho de Tathy Estrela, ela fazendo violão e eu improvisando. No cd de carnaval eu faço meus arranjos dando a ideia e transfiro para o metal [o naipe de metais]. Noutros trabalhos também. Como compositor fui um dos classificados para a Exposamba, entre 800 concorrentes, eu já estava entre os 160, já estava na terceira etapa, e parou. Eu e Selma Delago, grande compositora, está vindo com um cd de samba excelente, compõe maravilhosamente bem. Ela é tia de Tathy Estrela, a família é musical, isso já te estimula a tocar.

Além de blocos tradicionais e do Cantinho do Choro, você já integrou outros grupos? Eu já toquei em grupos de samba. O primeiro foi na Liberdade, chamado Supersamba, toquei num do Centro que era Samba Ponto Com. O último em que toquei foi o Pra Ficar, com o Dinho, que canta no Argumento. A gente passou um tempo, o Junior [Henrique Cardoso, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de agosto de 2014], que está no Bossa Nossa, fazia o violão.

E de choro? Choro eu toquei nesse de Monteiro, Tocando com o Coração, toquei em recitais da Escola de Música, e agora no Cantinho do Choro.

Já tem quanto tempo o Cantinho do Choro? O projeto tem uns dois anos. Agora esse grupo que a gente está tem uns seis meses. São pessoas que frequentavam lá, não deixaram o projeto na mão e ficaram com a gente.

Como tem sido a dinâmica do Cantinho do Choro? Vocês se reúnem durante a semana, definem repertório? O repertório de uma semana não é igual ao de outra? Toda terça-feira estamos nos reunindo. Não, a gente sempre acrescenta cinco músicas novas e estuda as da pessoa que vai participar. Por exemplo, Osmar com o Cinco gerações, nós vamos tocar com ele o cd Cinco gerações.

Você tem participação em discos? De chorinho no disco de Monteiro Jr. De samba, Selma Delago, gravei agora um cd com composições próprias para carnaval, tem dois, um é o Mixiricu, com músicas para carnaval e São João. Passei com um baião no Sesc [a mostra de música Onde canta o sabiá?], ficou entre as 12, está indo para um disco agora, o nome da música é Na pisada do baião, foi selecionada, defendi-a agora. Não foi concurso, foi seleção. Ano passado a gente ficou em segundo lugar no concurso de marchinhas carnavalescas [do Sesc/MA], e eu harmonizei a de Selma Delago que foi a campeã. E eu e Tathy ganhamos como melhores intérpretes. A gente vai começar a gravar um disco de choro e quem vai produzir é Arlindo Pipiu, um disco de choro do Cantinho do Choro.

Para você o que é o choro e qual a importância dessa música? O choro não é só estudo, mas também é um modo de eu ganhar mais agilidade, mais técnica. É uma biblioteca musical. Eu acho que todo músico devia estudar choro, aquilo te dá um leque de possibilidades para trabalhar a música. E é uma música de qualidade. O choro é uma escola complexa de música, por que o choro abrange todos os estilos.

Uma pergunta que pode soar óbvia, mas que é de praxe fazermos: você se considera chorão? Eu sou um mero estudante [risos]. Mas eu me considero chorão por que eu amo o choro. Eu amo o choro, toco choro até em casa. Outro dia mesmo eu peguei o cavaquinho, estava tocando pra minha filhinha de quatro meses, e ela olhava para o dedilhado e eu “ah, essa vai ser musicista”, ela não piscava [risos].

RicoChoro ComVida (sobre a edição passada e a próxima)

[Escrevi no Medium os dois textos abaixo; rependuro-os aqui (com pequeníssimas edições), caso você não tenha lido lá, para ir entrando no clima…]

MAGIA MARCA ESTREIA DE RICOCHORO COMVIDA

Foto: Rivanio Almeida Santos

Uma alta dose de expectativa foi gerada em torno da estreia do projeto RicoChoro ComVida, desde seu anúncio. Em parte explicada pela orfandade musical deixada pelo saudoso Clube do Choro Recebe, realizado entre 2007 e 2010, também produzido por Ricarte Almeida Santos — para alguns o novo projeto é uma continuidade daquele.

A proposta e a dinâmica são quase as mesmas, sobretudo o diálogo entre o choro e ritmos da cultura popular maranhense e outras vertentes musicais, através do encontro de instrumentistas e cantores e, agora, DJs.

O Barulhinho Bom, palco da nova empreitada, estava completamente lotado para a inauguração do RicoChoro ComVida. As expectativas foram todas superadas em uma noite carregada de magia.

Entre vinis e o laptop, o DJ Franklin abriu os caminhos, os trabalhos, as trilhas da noite, tocando o melhor do samba e do choro, entre nomes como Paulinho da Viola, Cartola, Nourival Bahia, Clara Nunes, Nelson Cavaquinho e outros bambas. Ficou até fácil para o quarteto formado por João Neto (flauta), Luiz Cláudio (percussão), Luiz Jr. (violão sete cordas) e Wendell Cosme (bandolim e cavaquinho).

Fácil é modo de dizer, que música é trabalho duro e sério, e o quarteto inaugural do projeto passeou por um repertório de choros clássicos, entre nomes como Pixinguinha e Waldir Azevedo, incidentando, aqui e ali, sutilmente, a ginga e a malemolência da cultura popular do Maranhão.

Luiz Jr. pegou o microfone e ao declarar a emoção de estar ali, foi às lágrimas. “Eu me sinto honrado em estar aqui. Muito obrigado ao Ricarte, um eterno batalhador do choro e da nossa música. Esse projeto traduz a minha luta de quase 30 anos, pois tenho orgulho de dizer que me dedico exclusivamente à música, que é justamente o reconhecimento da nossa música”, declarou, antes de voltar ao ofício.

O convidado da noite era o cantor Cláudio Lima, que cantou sentado, obrigado por um aparelho ortopédico que trazia na perna esquerda. Esbanjou versatilidade, passeando por nomes como Cesar Teixeira, Marcos Magah, Acsa Serafim, Celso Borges, Alê Muniz e Bruno Batista, entre outros. O adjetivo “visceral” não é nenhum exagero: sentindo fortes dores durante a apresentação, o artista levou o show até o final, foi elegante ao negar o bis — “eu emendei tudo, por que com a perna desse jeito, sair e voltar ia dar trabalho”, disse sorrindo — e saiu do palco para o hospital.

Um momento muito aguardado do RicoChoro ComVida era também o das canjas, algo outrora tradicional no Clube do Choro Recebe: é o momento em que instrumentistas e cantores da plateia sobem ao palco, para uma jam sem ensaio. É a hora dos encontros, dos improvisos e de novo deleite da plateia. Sábado passado deram o ar da graça Serra de Almeida (flauta), Paulo Trabulsi (cavaquinho), Osmar do Trombone, Osmar Jr. (saxofone) e Zé Carlos (pandeiro), além da cantora Célia Maria, próxima convidada do projeto, na edição de 5 de setembro, véspera de feriado.

Produtor e apresentador da empreitada, Ricarte Almeida Santos agradeceu aos deuses da música e aos patrocinadores (Fundação Municipal de Cultura e Gabinete do Deputado Bira do Pindaré), apoiadores (Restaurante Barulhinho Bom, Calado e Corrêa Advogados Associados, Sonora Studio, Clube do Choro do Maranhão, Gráfica Dunas, Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt e Musika S.A. Produções Artísticas) e equipe de produção (RicoMar Produções Artísticas).

Quem achou pouco, talvez tenha razão, ainda mais que, ao contrário do semanal Clube do Choro Recebe, RicoChoro ComVida terá periodicidade mensal. Mas no fim da noite, o DJ Franklin já começou a abrir os caminhos, as trilhas para a próxima edição. Como diria o filho do chorão Godofredo: “quando entrar setembro”…

Veja fotos da edição inaugural de RicoChoro ComVida aqui.

*

VOCÊ SABE O QUE É TRÍTONO?

Trítono? No dicionário é o “intervalo de três tons”. É um conceito musical, mas mesmo na música, pode ir além. E vai. É quando se juntam Israel Dantas (violão), Robertinho Chinês (bandolim e cavaquinho) e Rui Mário (sanfona): é o Trítono Trio.

Foto: Divulgação

A formação é recente na cena musical instrumental da cidade, mas somadas as trajetórias individuais de cada um, é possível falar em vasta bagagem e experiência de sobra, talento idem.

O Trítono Trio surgiu espontaneamente, nos intervalos de ensaios, shows e gravações em que seus membros se encontravam, com esta formação oportunizando a cada músico mostrar suas veias de instrumentista — de acompanhamento ou solista –, arranjador e compositor.

Vindo de searas diferentes da música, os componentes do Trítono Trio apresentam ao público suas releituras para clássicos e músicas menos conhecidas do repertório do choro e da música popular brasileira, além de composições próprias, com influências do jazz, da bossa nova, do baião e de ritmos da cultura popular do Maranhão.

Somados aos talentos de Ronald Nascimento (bateria) e Mauro Sérgio (contrabaixo acústico), o Trítono Trio é o grupo anfitrião da próxima edição do projeto RicoChoro ComVida, que acontecerá dia 5 de setembro (sábado), às 18h, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande).

A trinca de ases com dois coringas receberá a dama Célia Maria, dona de um timbre inconfundível, desfilando sucessos de artistas do Maranhão e do Brasil, entre choro, bolero, samba canção, bossa nova e música popular brasileira em geral.

RicoChoro ComVida tem produção de RicoMar Produções Artísticas, patrocínio de Fundação Municipal de Cultura (Func) e Gabinete do Deputado Bira do Pindaré, e apoio de Barulhinho Bom, Clube do Choro do Maranhão, Gráfica Dunas, Músika S.A. Produções Artísticas, Calado e Corrêa Advogados Associados, Sonora Studio e Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt.

Chorografia do Maranhão: Marcelo Moreira

[O Imparcial, 28 de dezembro de 2014]

Fundador do Instrumental Pixinguinha e ex-diretor da EMEM, violonista é o 45º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

“Já tá valendo tudo?”, indagou Marcelo Moreira ao perceber o gravador ligado sobre a mesa. Radicado no Maranhão desde 1981, o violonista carioca, ex-diretor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM] conversou com a Chorografia do Maranhão no Cafofo da Tia Dica, charmoso restaurante por detrás da Livraria Poeme-se (Praia Grande).

Modesto, adverte os chororrepórteres: “minha participação nessa história é pequena”, diz, sobre sua relação com o choro. Marcelo Moreira de Oliveira chegou à terra do bumba meu boi pelas mãos da cantora Olga Mohana, ex-diretora da EMEM. “Ela estava iniciando um projeto importante, inédito no Maranhão, em relação à educação musical”, conta o capricorniano nascido em 8 de janeiro de 1961.

Marcelo estudou violão clássico na Proarte, à época um curso livre. Filho de Benvenuto Batista de Oliveira e de Judite Moreira de Oliveira, ele se lembra da oposição dos pais entre si em relação à sua opção pela música. O pai não se opôs, chegando a conseguir-lhe uma bolsa na instituição. “Era um curso livre, Seminário de Música Proarte, ficou em questionamento no MEC, se iam reconhecer. Era uma escola que na época tinha grandes músicos, Nicolas de Souza Barros [violonista], Marcelo Caiate [violonista], minha primeira apresentação foi com ele, ganhou praticamente todos os prêmios internacionais”, lembra. “Papai era apaixonado por música, quando estava em casa estava ouvindo ópera, baiano, cozinheiro, maître, mão fantástica, cozinhava maravilhosamente bem, cozinhava para um magnata, o dono do Oton, uma cadeia de hotéis, a gente ouvia violão, Rádio MEC”, continua. Da mãe lembra-se da “voz bonita, cantava muito em casa, não gostava muito da ideia de eu fazer música”. O irmão Leonardo também era bastante musical, “tocava flauta e percussão, mas foi ser engenheiro”.

Casado com Cristine e pai do pequeno João Marcelo, Marcelo Moreira riu bastante ao longo da entrevista, despertando também os risos dos chororrepórteres. Depois ainda mandou um e-mail complementando informações: passou o ano de 1992, quando da realização da Eco 92, de licença no Rio de Janeiro, ocasião em que realizou um curso de arranjo com o lendário Ian Guest. Informou ainda que acompanha, ao violão, a esposa, que canta na missa aos domingos, além de dar aula de violão popular a crianças da comunidade católica a que pertence.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Como se deu sua vinda para São Luís? Eu estudava na Proarte, fui aluno de de Léo Soares, violonista, já tinha uma carreira internacional, foi professor de Bertoldo Vaz [do Água de Moringa], de Nicolas de Sousa Barros, foi professor de muita gente importante. Eu tinha 20 anos, tinha começado meu curso de História e um belo dia o Léo me chamou e disse: “olha, tem uma pessoa lá no Maranhão que está fundando uma escola e eu quero saber se você quer ir dar aula lá”. Eu com 20 anos, doido para sair de casa, ter minha independência, com música, não pestanejei, o salário era bom, eram mil dólares na época, o dólar lá em cima, isso em 1980, meu pai não tinha nem condição de dizer nada, eu ia ganhar mais do que ele. Ele achava que eu tinha que concluir a faculdade para ir trabalhar, ele não queria que eu interrompesse.

Você chegou a concluir algum curso fora da música? Rapaz, não. Eu entrei no curso de História, quando eu vim eu trouxe o curso de História mas não terminei. Eu estudei na UFMA.

Essa formação, digamos, mais acadêmica, da Proarte, foi tua formação ou você chegou a continuar isso? Eu me considero um músico clássico, erudito. Minha formação é basicamente isso. Fora um professor que tocava rock e um amigo meu, que a gente improvisava, a minha formação basicamente foi essa, de partitura, com repertório erudito.

Mas a pergunta é: depois da Proarte você não teve um estudo formal de música? Não! Depois eu fui fazer isso agora, já depois de muitos anos, concluí a licenciatura. Em 2000 eu fui para Fortaleza, passei uns anos lá e finalmente fiz minha graduação. Isso, poxa, 20 anos depois de trabalhar, graças a uma política, um interesse da instituição de qualificar, existia um problema muito sério com o corpo de professores da Escola de Música por que ninguém tinha formação acadêmica, todo mundo era curso livre, autodidatas e tal, todo mundo era assim. então tinha essa necessidade. O primeiro cara que saiu da Escola para fazer assim foi o Ciro de Castro, foi para a Espanha, fez o curso de canto dele, depois foi Ana Neuza, foi para o Rio, fez a graduação dela em piano. Eu fui o terceiro. Depois de mim houve uma porção. De uns anos para cá, finalmente com a inauguração da graduação aqui, na UEMA, aí os professores aderiram, poucos professores não têm ainda a graduação.

Você veio para cá em 1981. Você continuou indo frequentemente para o Rio? Como é tua relação? Todo ano eu vou, até hoje. Há dois anos houve uma interrupção, meu filho nasceu, muito pequenininho, eu não queria viajar com ele.

Primeiro filho? É. Fui ter o primeiro filho [gargalha, interrompendo-se].

Você veio para o Maranhão trazido por Olga Mohana. Quem foi o primeiro amigo que você fez aqui? Pixixita [José Carlos Martins, professor da EMEM, falecido], claro! [gargalhadas]. Na Escola de Música os violonistas que eu encontrei eram muito poucos. O professor anterior, não lembro, quem conhece é Joaquim Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013], é luthier, violonista, mora numa cidade em Minas, era o professor que eu substituí. Ele ficou pouco tempo e o trabalho dele foi pequeno, tinha um menino que eu tava outro dia lembrando, não mora mais em São Luís. Dessa geração, os alunos que eu herdei dele, nenhum continuou músico. Os primeiros alunos formados na Escola de Música por mim, violonistas, são Domingos Santos [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014] e o Raimundo Nonato Privado [violonista], que são professores da Escola. Numa segunda leva, são guitarristas hoje, Norlan [Lima], Diógenes Torres. A Escola de Música tinha um problema muito sério naqueles primeiros anos, com o programa, a concepção do curso, eu queria falar uma coisa a esse respeito. Olga Mohana tinha um projeto acabado de educação musical, tinha uma proposta concreta para por em prática. Ela queria resgatar aquela memória que havia sido esquecida, da tradição erudita maranhense, a obra do João Mohana, aquelas missas de Antonio Rayol, ela queria que aquilo fosse executado, que houvesse músicos capazes de tocar aquele repertório. Ela queria montar uma orquestra sinfônica, então a ideia da Escola era essa, trabalhar a música erudita. Ela tinha uma ideia de que a música popular, nessa época existia um conflito de concepções pedagógicas no Brasil todo, dos conservatórios, da música europeia, daquele sistema positivista de ensino, aquela coisa evolucionista, eurocêntrica, e tinha uma concepção mais nova se delineando, uma coisa que hoje se chama de abordagem sociocultural da pedagogia musical, era um conceito que estava se formando. Aqui o choque foi esse, eu não tinha uma formação assim muito grande, do ponto de vista didático, eu ensinava como eu tinha aprendido, eu não tinha passado pelo banco da universidade, com disciplinas específicas sobre didática, sobre essa discussão toda, que na época ainda era pequena, mesmo nas universidades ainda era uma coisa confusa, isso começo dos anos 1980. O que acontecia: eu, ao mesmo tempo em que não tinha uma concepção acabada sobre isso, tinha uma coisa que me incomodava no meu trabalho com os alunos, eles não ouviam música erudita, não tinham a mínima ideia de como diferenciar, tocar Bach e aquilo não parecer um samba, como tocar um compositor clássico e não transformar numa coisa esquisita, meio caricatural, por que não tinham referências estilísticas, estéticas. O Maranhão carecia demais disso. Na época ninguém ouvia música erudita.

Você lembra o que tentou fazer na época para superar esse dilema? Isso daí foram anos. Eu, na verdade, nunca consegui uma solução. Quando eu vejo meus colegas hoje se deparando com os mesmos problemas, que eu vou tentar dizer “vai por aí”, e as pessoas não ouvem, inclusive eu não dou aula mais de violão na Escola de Música, muito em função dessa dificuldade de compreensão dessa diferença, da necessidade de você ter um método que seja realmente sintético, que considere essa coisa viva. Você vai fazer um cara tocar música erudita, tocar Bach, estudar, tocar, é difícil, só fica bonita se for perfeito, tem um conceito, uma norma, o cara passa anos… você pega um garoto sem referência, não acontece. O que aconteceu foi que eu não tinha a teoria, mas eu tinha Koellreutter, da necessidade do novo, você ter honestidade para abarcar o problema, não fantasiar, ser sincero.

Durante muito tempo se ouviu uma crítica muito forte à Escola de Música por conta dessa erudição. Parece que de uns anos para cá, ela deu uma popularizada, necessária, eu diria, embora ela tenha sido pensada inicialmente para dar vazão a essa coisa do popular no Maranhão. Pois é, eu acho que a importância do grupo Pixinguinha [o Instrumental Pixinguinha] é essa: vamos trabalhar técnica, trabalhar música brasileira, popular. Foi a primeira vez que um grupo quebrou a coisa do clássico lá dentro da Escola. Mas ainda existia muito preconceito, e não era só eu, tinha outros professores, com outras cabeças. O fato é que na década de 80 estavam acontecendo umas coisas, globalização pesando, aqui em São Luís surgiram os primeiros estúdios de gravação. Quer dizer, existia Nonato. Depois surgiu Pitomba e papocou pela cidade toda, Edinho [Bastos, guitarrista] da guitarra veio, montou o estúdio dele, Duailibe [Henrique Duailibe, pianista], Marcelo Carvalho [tecladista]. Aí começou a acontecer outra coisa diferente daquilo que eu encontrei, que era Josias [Sobrinho, compositor] com o Rabo de Vaca, Cesar Teixeira tocando violão. Foi nessa época. Essas pessoas que estavam vindo, tinham um conceito do que era música popular e tinham certa força dentro da cidade. Eu lembro que Laura Amélia [Damous] era secretária de cultura e nomeou Marcelo Carvalho diretor da Escola de Música e ele tinha essa ideia de que era importante que a música popular fosse ensinada, que a Escola fosse um veículo para isso, mas ele não tinha uma coisa de didática, política de ensino, essa coisa mais técnica. Acabou não dando certo. Dessa época surgiu o Instrumental Pixinguinha e surgiu também a Big Band, que foi também uma guinada nessa ideia. Como Olga saiu, depois de uma transição, chegou à direção da Escola de Música o Padilha [Antonio Francisco de Sales Padilha, trompetista, ex-secretário de Estado da Cultura], ele é um músico de sopro, e pensou “não, orquestra de cordas, não, vamos formar banda, orquestra de sopro”, e começou a investir nisso, a orquestra de sopros precisava de uma cozinha, aí se abriu curso de bateria, aí começou a refrescar um pouco a coisa, mas a resposta para a cidade era pequena ainda.

Se você tivesse que indicar teus mestres, quem são essas figuras? Primeiro de tudo eu tenho um amigo chamado Fernando Garcia, músico, no Rio, compositor, violonista fantástico, um artista incrível, foi um alento antes de eu entrar na Escola. Depois eu tive o Léo Soares, foi meu mestre, me ensinou a ler partitura, me ensinou repertório erudito, me ensinou estética. Ele me dizia: “eu não sou professor de violão, eu sou professor de música”, era esse o bordão do Léo Soares. Ele me deu aquele livro, História Social da Arte e Literatura [Arnold Hauser], eu tinha de 15 para 16 anos. Depois do Léo Soares foi a época que eu vim para São Luís. O grande músico que eu encontrei aqui, Mércia Pinto, grande concertista, a importância da disciplina, a música é um sacerdócio, o cara que é músico, ela tinha uma concepção que diferia muito da música como, do músico boêmio, para ela o músico era um operário, trabalhador, alguém que ralava, foi uma pessoa importante. Em Fortaleza, em 2000, quando fui morar lá, conheci o Heriberto Porto, flautista, líder do Syntagma e do Marimbanda, que trabalha jazz e música brasileira. Eu viajava muito, conheci esses violonistas todos. Marco Pereira, quando eu conheci, era um professor da Universidade de Brasília, muito metódico, compositor muito sério, foi maravilhosa a minha convivência. Conheci o Turíbio Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013]. Outro professor que foi importante para mim foi o João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013]. Ele quando veio para São Luís, eu achei muito legal, eu estava aqui sem pai e sem mãe, eu não tinha concluído meus estudos de violão clássico. As peças que eu toquei, eu fiquei num nível intermediário, não tocava as coisas mais cabeludas de violão. A ideia era ficar aqui dois anos, três anos. São Luís, eu não sei, tem uma coisa. A primeira vez que eu vi bumba boi, Pixixita me levou para a Vila Palmeira, eu fui lá, quando eu vi aquilo, eu não conseguia sair de dentro daquilo, eu fiquei completamente tomado.

Então você se considera um erudito mas tem uma paixão pela cultura popular. É. Eu não consigo ser insensível. Quando eu vi boi de orquestra, quando eu vi Leonardo, aí eu fiquei pirado, a polifonia, a ritmia daquilo, é incessante, é intenso, cada um fazendo uma célula. Tem um negócio que eu nunca entendi, tem uma hora que dá um barato. Aquelas partes individuais, quando eles estão tomados por aquela atmosfera, aquele transe, que aquelas dezenas de percussionistas entram em sintonia, um faz uma coisa, o outro completa o outro, o outro completa o outro, cara!, produz um efeito, meu Deus!

Antes de vir para o Maranhão você era frequentador de rodas de choro? Como era tua relação com essa música? Não. Eu vi choro, meu professor tocando choro, achei uma coisa ridícula, ele era um músico fantástico, mas não é músico de choro, pegou a partitura e tocou.

Mas você achou ridículo choro em si ou a execução dele? Eu não soube identificar, mas foi uma coisa que… eu vi ele tocando música espanhola, a música popular deles lá, aquela coisa, vi ele tocando Bach, depois vi tocando choro, não achei nada. Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013] foi o cara que me apresentou realmente o choro. Solano e Jansen [César Jansen, bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de setembro de 2014].

E quando você ouviu com eles? Tua percepção mudou? Com certeza! Eram músicos autênticos, que tocavam choro com a alma, com propriedade, tocavam choro, aquilo era espontâneo. É diferente, passa, você tem um conteúdo. Por que música não é nota, não é instrumento, música é outra coisa, imaterial, impalpável. Você consegue exprimir ou não. Eu lembro, Vibrações [Jacob do Bandolim], eu ouvi com Solano e Jansen solando isso. Aí Solano: “tu gostou? Ouve isso aqui!”, aí me passou o disco Vibrações. Eu conhecia Pixinguinha, Carinhoso, essas coisas. Em música popular o que me chamava a atenção, que eu gostava, era Milton Nascimento, naquela época eu já ouvia Egberto Gismonti, já ouvia Hermeto [Pascoal].

Em todas essas referências há certa sofisticação, certa erudição. Sim, exato. Aquela música descompromissada.

Descompromissada com o mercado. Sim. E de fazer perfeito e tal, aquela alegria, aquela atmosfera, tipo “eu não estou aqui para sentar num palco e tocar com os melhores, ser comparado”.

Você sempre viveu de música? Graças a Deus! A minha primeira profissão foi como músico, me conservo até hoje. Eu tive uma sorte que muitos colegas talvez não tiveram, de ter um emprego, assim, com salário, professor de música. Isso me deu uma tranquilidade na minha vida pessoal.

Você chegou a tocar na noite? Aqui ou no Rio? Sim. Aqui! Eu vim do Rio muito novo.

Qual a tua relação afetiva com essa terra? Eu me considero maranhense. Eu não sei o que é isso. Eu adoro, gosto demais. Foi uma coisa que me tocou muito, a diferença das pessoas, aqui e lá, o jeito de ser. Aqui parecia que as pessoas eram mais humanas, ouviam mais. Lá parece que é cada um na sua e você é um inimigo em potencial, todo mundo desconfiado de todo mundo. Eu tive uma adolescência problemática no sentido da sociabilidade, muito introspectivo, muito tímido. Quando eu cheguei aqui eu desabrochei como pessoa, primeiro o pessoal da Universidade. Na UFMA conheci o pessoal do movimento estudantil, depois o pessoal do PT [Partido dos Trabalhadores], eu fui da primeira direção da CUT [Central Única dos Trabalhadores].

Conte um pouco de sua participação no Instrumental Pixinguinha. A gente tinha o seguinte objetivo: tocar Radamés [Gnattali, compositor, pianista, maestro e arranjador gaúcho]. Biné do Cavaco [Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014] tinha um amigo em Recife, Marcos César [bandolinista], conseguiu as partituras; Solano conseguiu várias partituras de outros arranjos de Radamés, arranjos de Wagner Tiso, aquele repertório da Camerata [Carioca, grupo liderado por Radamés Gnattali] a gente conseguiu. Durante um ano, mais ou menos, a gente ensaiou sistematicamente. O nome do grupo não é à toa: tinha a ideia de que o grupo era de choro mas não era um regional, a gente queria fazer música brasileira camerística, queria dar um salto, tinha Radamés como referência, Suíte Retratos [de Radamés Gnattali, em quatro movimentos – os retratos –, homenageia Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga], Choro de mãe [de Wagner Tiso], a gente tocava aquilo, aquilo é lindo demais! É uma obra-prima do choro. Solano, eu, a gente tinha essa coisa, quando falou Instrumental, vamos trabalhar música instrumental brasileira, era essa a ideia. Quando a gente fez o show, Homenagem à velha guarda, tocamos finalmente depois de um ano, notamos que criou uma ressaca violenta depois. Para continuar com aquela ideia era muito difícil para muito dos colegas manter um trabalho daqueles, muito ensaio, foram criadas algumas dificuldades. O grupo foi gravar seu primeiro disco muito tempo depois de eu ter saído, inclusive era ideia minha essa coisa do repertório maranhense, à época eu consegui música com Biné do Banjo [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 31 de março de 2013], tinha umas coisas que eu fazia lá, Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] sabe. Depois que eu saí do Pixinguinha eu tive a felicidade de ao ir para Fortaleza, conhecer, lá na UECE [Universidade Estadual do Ceará] o Heriberto Porto, que era o líder do grupo Syntagma. Era um grupo que trabalhava o elo entre a música nordestina, dos cantadores, repentistas, aquela coisa modal, e a música europeia da idade média, dos menestréis, dos cantadores, das rabecas, dos alaúdes. Eles tocam música nordestina com viola da gamba, cravo, tem arranjo, por exemplo, de Asa Branca [Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira], pô! Conheci lá um grande músico, não pessoalmente, o trabalho, os arranjos, Liduíno Pitombeira. Ele é um gênio! Mas não tem uma produção que o promova, não é conhecido. Ele ganhou o prêmio da sinfonia do descobrimento do Brasil, o MEC fez um concurso quando o Brasil fez 500 anos, ele foi o ganhador.

E fora o Pixinguinha, você integrou algum grupo aqui? Eu acompanhei Rosa Reis [cantora], vez em quando as pessoas chamavam, acompanhei Anna Cláudia [cantora], fiz noite, participei de alguns festivais.

Você vem de uma formação mais erudita, de violão clássico, mas na sua opinião, o que significa o choro para a música brasileira? A gente está vivendo uma época de muitas tendências na música brasileira. Graças a Deus o choro ganhou uma força enorme dos anos 1980 para cá, com novos compositores, compondo coisas absolutamente inéditas, não é a coisa de pegar o modelo e fazer, mas linguagem nova, propor novas concepções para o choro, instrumentistas virtuoses incríveis. A música instrumental brasileira cresceu também com influências do jazz, do fusion com música modal, eletrônica. Eu andei ouvindo umas coisas de choro com guitarra, bateria, teclado. É música brasileira, tudo bem, mas choro é regional, cara!

Então você é tradicional? [Risos] Não, eu sou camerístico, eu adoro música eletrônica. Agora quando eu fico vendo bateria, guitarra, eu acho massa, mas é outra coisa. Tem muita coisa acontecendo. Eu acho que a renovação da linguagem no choro não tem a ver necessariamente com o abandono das formas tradicionais, e estou falando especificamente do instrumental, do tipo de instrumentos que produz, daquela sonoridade.

Além de O chá [registrada em Choros Maranhenses – Caderno de Partiruras, organizado por Zezé Alves], você tem outras composições? É, tenho umazinhas, até tenho um projeto com Zezé Alves, ele começou a editar [as partiruras], tem choros que eu compus na época, com o Pixinguinha, quero ver com ele se eu consigo editar, tirar do manuscrito.

Você foi diretor da Escola de Música. Como você avalia a experiência? Rapaz, eu saí de lá com depressão [gargalhadas]. Você tem uma instituição que você não tem recursos para botar a coisa pra frente, projeto, é uma dor de cabeça. Na época em que eu estive lá eu consegui colocar a nível interno uma discussão que talvez para a sociedade não importe muito, mas vai importar ainda, que foi a necessidade da modernização, de descartar aquele velho programa e ter um programa atualizado do curso de música. Eu não consegui fazer, mas consegui botar a semente naquelas cabeças, e fluiu depois. Falta ser aprovado. Eu sou feliz por isso, iniciei uma discussão que deu frutos. A questão política é muito frustrante.

Você acha que a Escola de Música deve estar, como está, vinculada à secretaria de Cultura ou deveria estar vinculada à secretaria de Educação? Do ponto de vista da gestão, da autonomia financeira, administrativa, eu acho que a Escola de Música deveria ser criado era uma fundação, uma coisa específica. Essa coisa de verbas é o problema central, problemas de contratação. Você abre um concurso para alunos novos, se inscrevem três mil jovens, cinco mil jovens. Quantas vagas? 200 vagas, 150 vagas. Isso não pode, é um desrespeito total. Uma instituição que tem essa demanda não pode ser tratada assim. Se não houver concurso para a Escola e dotação, esteja onde estiver vai ter problemas.

Você se considera um chorão? Considero. Me considero um chorão no seguinte sentido: amo música instrumental, amo música brasileira [enfático], gosto de ver performance. Quando eu vejo um instrumentista tocando bem música brasileira eu acho muito legal. Nesse sentido eu sou. Se eu tiver que fazer música eu quero fazer choro.

Ricarte Almeida Santos estreia projeto no rastro do Clube do Choro Recebe

[release que eu já tinha publicado aqui; agora com novas informações]

Divulgação
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RicoChoro ComVida acontecerá mensalmente no Barulhinho Bom (Praia Grande) e mantém formato que estimula diálogo do choro com ritmos da cultura popular do Maranhão e outras vertentes musicais

Tido como o mais longevo projeto musical independente da noite de São Luís, o Clube do Choro Recebe deixou saudades ao ser encerrado, em 2010, após aproximadamente três anos de existência.

Entre março de 2013 e maio passado, Ricarte Almeida Santos inventou, com o irmão-fotógrafo Rivanio Almeida Santos e o jornalista Zema Ribeiro, a série Chorografia do Maranhão, que entrevistou 52 instrumentistas de choro naturais de/e/ou radicados no Maranhão. O projeto agora está em fase de captação de recursos e um volume reunindo os depoimentos publicados no jornal O Imparcial deve sair em livro em breve, em edição da Pitomba! Livros e Discos, do irrequieto Bruno Azevêdo.

Órfãos daquele projeto, majoritariamente sediado no Bar e Restaurante Chico Canhoto (Cohama), com breves passagens por La Pizzeria/Pousada Portas da Amazônia (Praia Grande) e Associação do Pessoal da Caixa (APCEF, Calhau), sempre reclamaram da ausência de um palco adequado para a fruição do choro, não obstante a resistência de grupos e experiências como o Regional Tira-Teima – o mais antigo em atividade no estado – e o Cantinho do Choro, ainda em voga.

Foi atendendo a inúmeros pedidos que Ricarte Almeida Santos resolveu, através da RicoMar Produções – dele com a gestora cultural Marla Silveira –, voltar à produção de um espetáculo mensal, nos moldes do saudoso Clube do Choro Recebe, em que o choro dialogue com os ritmos da cultura popular do Maranhão e outras vertentes musicais – proposta que norteou as noites de sábado daquele projeto, então semanal.

Atrações – O projeto RicoChoro ComVida estreará no próximo dia 1º. de agosto (sábado), às 18h, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande), tendo como atrações o Quarteto de Aço, formado por João Neto (flauta e flautim), Luiz Cláudio (percussão), Luiz Jr. (violões de seis e sete cordas, viola e guitarra) e Wendell Cosme (bandolim e cavaquinho). O convidado da noite será o cantor Claudio Lima, um dos mais versáteis intérpretes da música brasileira produzida no Maranhão.

“A formação do Quarteto de Aço é quase a gênese do Choro Pungado, um dos grandes acontecimentos do Clube do Choro Recebe, que incorporou em seu repertório o diálogo do choro com as manifestações de nossa cultura popular. Claudio Lima, com dois discos gravados, é um artista de extrema sensibilidade, gosto apurado, com grandes serviços prestados à música brasileira, seja por seus registros sonoros, seja pelos belos projetos gráficos que assina em trabalhos alheios”, elogiou Ricarte Almeida Santos, produtor do RicoChoro ComVida.

Quem também sobe ao palco da primeira edição do projeto é o Dj Franklin, com uma trilha de “samba, choro e outros baiões”, pescados de sua vasta coleção de vinis. Ele é um dos mais respeitados djs ludovicenses, com um profundo trabalho de pesquisa musical. Sua alegria contagiante é um dos temperos do cardápio com que ele prepara cada apresentação, em especial esta inaugural do RicoChoro ComVida. Franklin tocará antes e depois das apresentações do Quarteto de Aço e Claudio Lima.

Neste semestre inaugural a frequência do projeto será mensal. Novas datas e novas atrações já estão fechadas, mas, por enquanto, a produção prefere guardar segredo. Os ingressos para as apresentações custarão R$ 20,00, cada.

Nova casa – O palco da nova produção de Ricarte é o Barulhinho Bom, que mudou de endereço há alguns meses. Antes localizado na Lagoa da Jansen, já contando alguns bons serviços prestados à boa música, além de bar e cozinha diferenciados, veio juntar-se à teimosia e resistência do bairro da Praia Grande, um dos três do centro histórico ludovicense, cartão postal tombado como patrimônio cultural da humanidade.

“O sucesso do projeto depende da parceria e solidariedade de um monte de gente envolvida, desde os artistas que se apresentarão a cada edição, a equipe de produção, patrocinadores, apoiadores, a casa que abriga os espetáculos e, é claro, o público, razão maior de tudo isso”, enumera Ricarte.

O projeto RicoChoro ComVida tem patrocínio da Fundação Municipal de Cultura (Func) e do Gabinete do Deputado Bira do Pindaré, e apoio cultural de Dunas Gráfica, Sonora Studio, Clube do Choro do Maranhão, Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt, Calado e Corrêa Advogados Associados e Restaurante Barulhinho Bom.

Serviço

O quê: estreia do projeto RicoChoro ComVida
Quem: Dj Franklin, Quarteto de Aço (João Neto, Luiz Cláudio, Luiz Jr. e Wendell Cosme) e Claudio Lima
Quando: 1º. de agosto (sábado), 18h
Onde: Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande)
Quanto: R$ 20,00
Maiores informações: (98) 981920111 (Ricarte Almeida Santos, produção), 988265617 (Marla Silveira, produção) e/ou 991668162 (Zema Ribeiro, assessoria de comunicação)
Fan page: facebook.com/ricochorocomvida

Chorografia do Maranhão: Hermelino Souza

[O Imparcial, 30 de novembro de 2014]

Técnico em contabilidade de profissão, o violonista Hermelino Souza é o 44º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Técnico em contabilidade de formação, Hermelino de Jesus Souza nasceu em São Luís, dia 19 de abril de 1938, filho do comerciante Julio Souza, e Domingas dos Santos Costa, doméstica. Seu pai faleceu quando ele tinha apenas 16 anos, mas foi um dos responsáveis pelo gosto que tomou pelo violão.

Aos 76 anos, Hermelino revelou à Chorografia do Maranhão estar diminuindo o ritmo de trabalho na contabilidade – atende em um escritório no Edifício Catu, no Centro da capital maranhense e é conselheiro do Conselho Federal de Contabilidade – para dedicar-se mais à música.

Presenteou a chororreportagem com o cd O violão através dos tempos, fruto do resgate de fitas k7 em que toca repertório clássico e uns poucos choros. A entrevista aconteceu no Bar do Léo, que tocou repetidamente Ninguém é melhor do que eu, disco de estreia da compositora Patativa, que havia sido recém-integrado a seu acervo.

Os chororrepórteres com Léo, Hermelino e sua esposa. Foto: Rivanio Almeida Santos
Os chororrepórteres com Léo, Hermelino e sua esposa Maria Iracema. Foto: Rivanio Almeida Santos

O proprietário do bar posou para uma foto, junto ao entrevistado e aos chororrepórteres, usada para divulgação da série nas redes sociais, e recebeu um elogio do violonista: “esse é o homem da cultura musical”.

Hermelino estava acompanhado de Maria Iracema Aquino, sua esposa, que revelou já o ter visto tocando Sons de carrilhões [João Pernambuco] dormindo. Ela contou também que a reação do marido, um dia, ao chegar e ver a casa arrombada, foi botar as mãos na cabeça e exclamar: “meu violão!”. O instrumento estava intacto.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Além de músico, o senhor hoje tem alguma outra profissão? Várias. Além de músico, eu posso contar umas histórias? A história disso é a seguinte: desde a mais tenra juventude, como se diz, todo mundo tem uma noção de instrumento, a coisa com a família, papai cantava alguma coisa, aquela influência toda, me levou a admirar o violão. Mais tarde, meu pai morreu, eu fiquei pequeno. Eu fui desenvolvendo o violão, tocando, aprendendo com um, com outro, por ali. Eu tinha um irmão, Odimar, tocava cavaquinho muito bem. Por influência dele, fizemos um regional, eu já devia ter uns 18 anos, Regional Caçula, acompanhava programa de calouros. Era eu, meu irmão e mais três outros irmãos.

Quanto tempo durou o Caçula? Uns três anos. Depois eu comecei a trabalhar, lá por 1963, num escritório, eu era auxiliar. Tirei o curso técnico de contabilidade, foi meu primeiro emprego.

Depois de contabilidade o senhor estudou outra coisa? Nada.

E hoje? Está aposentado? Não. Trabalhando normal. Estou reduzindo um pouco.

O ambiente em sua casa era muito musical? Era. Nunca me disseram se fazia bem ou mal, mas me acompanhavam. Eu fazia o que eu queria, tinha livre arbítrio.

Seu pai gostava de música? Tocava? Tocava violão.

Comprava discos? Ouvia muito rádio? Não. Nunca vi discos por lá. Nem rádio, naquela época. Nem ele tocando, ele cantava com a turma dele na rua e nem isso eu via.

O senhor lembra com que idade começou a pegar em instrumento? Eu devia ter uns 16 anos, talvez um pouco menos. Era nessa faixa.

A sua principal influência para escolher o violão foi teu pai? Foi.

O que o senhor ouvia em termos de violonistas brasileiros? Quem mais te chamava a atenção? Naquela época eu não sabia, não conhecia ninguém. Na época desse regional, era zero à esquerda. Só tocava.

Vocês tocavam choro e samba? E acompanhávamos. Choro e samba solados por cavaquinho. E acompanhávamos os programas de calouros, em rádios. Naquela época tinha comédias, pastores, uma coisa tradicional, pastor ainda tem até hoje. No desenrolar desse tempo, papai morreu, mamãe morreu, eu fui criado por uma mãe de criação. Ela me orientou de uma forma, mas eu tive que fazer as coisas de acordo com meu pensamento, ela não se metia. Em termos de trabalhar, profissão, aprender alguma coisa, nada. Me botaram para estudar num colégio público, tirei o primário, depois o ginásio, depois fui para a antiga Escola Técnica [hoje Ifma], cursos profissionalizantes na época. Cheguei num ponto tal: “rapaz, o que eu vou fazer na vida?” [risos]. Eu mesmo. Fui fazer um curso médio. Antes disso aconteceu outra coisa interessante. Eu tinha aprendido um bocado de coisa interessante no violão, e andei ensinando um pouco, precariamente. Fui estudando e entrei para um colégio, chamado Academia de Comércio [na Rua Afonso Pena, Centro]. Eu nem sabia o que era contabilidade, mas só tinha vaga lá. Eu ensinava, com o dinheiro do violão pagava o curso. Na escola consegui uma bolsa, pagava uma parte. Consegui tirar o diploma. Concomitantemente, nessa época, eu já estava tocando na rádio Ribamar. Conheci uma pessoa muito importante, um barbeiro, ele queria ser chamado de cabelereiro [risos], seu Wilson, famosão aqui.

Eu queria que o senhor falasse do papel que algumas barbearias cumpriram para a prática do choro e do violão. Fundamental! Eu vivi uma vida com ele lá. Naquela época, toda barbearia, violão tava lá. Wilson era um barbeiro, sabia tocar um pouco, gostava demais de violão. Tinha um professor conhecidíssimo na época, Luiz Almeida. Ele ensinava Wilson. Eu havia estudado música com o maestro Godofredo Rosa, na Vila Bessa, teoria, divisão, aquela coisa toda. Estudei um pouco de flauta com ele, depois clarinete. Aquilo me deu uma base de música. Quando eu cheguei na casa de Wilson, ele me apresentou um método da escola de Tárrega [Francisco Tárrega, compositor, pianista e violonista espanhol]. Ele ia para a barbearia, sentava na cadeira com o violão, isso durou anos e anos. Luiz Almeida eu conheci na barbearia. Eu não podia pagar professor de violão, mas ele me deu umas dicas, eu fiquei amigo dele, comecei a pedir partituras, eu já tinha uma base. Luiz me dava, eu tinha que copiar tudinho. Depois disso foi que veio o programa de rádio. Eu tive que aprender rápido, fui fazer um programa próprio. Nesse programa, Acordes de um violão, naquela época não se desenvolvia muito choro aqui; se desenvolvia música clássica, violão erudito, em termos populares se tocavam algumas marchas e valsas, o repertório de Canhoto, Américo Jacomino. Wilson se transformou, para mim, não vou dizer pai, por que a diferença de idade não era tão grande, mas era como um irmão mais velho. Eu já era da família, não saía de lá.

O programa de rádio era em que ano? 1963, por aí. Na rádio Ribamar, no Apicum.

Como o senhor começava o programa? Esse programa teve vários apresentadores. Um deles foi Jairo Rodrigues, outro, eu gostava muito, era um poeta de mão cheia, Marcos Vinicius, um cara de alta cultura literária, ele ficava tão empolgado.

Quem o senhor elegeria como seus mestres? Indiretamente seu Wilson, Luiz Almeida.

Indiretamente. Então o senhor se considera um autodidata? É, um autodidata com uma porcentagem de 80 a 90%.

Essas duas situações, primeiro o regional, depois o músico de rádio: foram suas primeiras experiências profissionais com música? Não. Não, por que eu nunca me tornei profissional. Foram oportunidades que eu tive.

Isso é modéstia. Não, eu nunca fui mesmo.

Mas na rádio tinha um cachê. Por esse lado era profissional, não? Tinha, mas era tão pequeno. Mas eu estava lá e fiz. Digamos que, de certa forma, seja profissional. Mas eu não considero.

O que te despertou para a música clássica? Wilson. Papai tocava violão, mas eu não via. Eu tocava violão. O que me despertou de música, eu ouvi um rádio de uma vizinha, essa música me marcou até hoje, passei muito tempo para arranjar essa partitura, arranjei, e ainda não criei coragem para estudar. Um dia hei de tocar: Os patinadores [ele solfeja a valsa do compositor francês Émile Waldteufel], todo dia de manhã tocava numa rádio.

O senhor foi acompanhante, depois desperta para o violão erudito, mas depois passa a compreender o choro, as grandes referências do violão popular brasileiro. Quem são essas referências? O choro é uma música de alta elaboração, de alto nível. Eu, naquela época, de música brasileira, tocava algumas valsas e algumas marchas. Eu tocava a Marcha dos marinheiros, de Américo Jacomino. O choro veio mais tarde. Eu aprendi um ou outro, toquei também a Marcha triunfal, de Canhoto. Depois apareceu Dilermando. O choro, pra mim, começou com Dilermando Reis [violonista], mas eu fiquei com os dois lados, nunca consegui me separar, eu continuava com o erudito. Depois eu cheguei a uma conclusão: a música é uma só, muda o ritmo e a preferência de cada localidade, cada pessoa. A música clássica é uma música essencial, ali está toda técnica de ensino, exercícios, dentro da própria música tem. Um dos grandes problemas do choro, que ainda se enfrenta até hoje, são pessoas que devido à época, não tiveram a oportunidade de estudar música, tocam de ouvido, a maioria. Hoje é diferente. O próprio Waldir Azevedo [cavaquinista], o próprio Jacob [do Bandolim]; Jacob veio se esmerar em música depois que conheceu Radamés [Gnattali, pianista, compositor e arranjador], que deu para ele a Suíte retratos [que em quatro movimentos homenageia Anacleto de Medeiros, Pixinguinha, Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth].

O senhor já viveu de música? Não. Só na época da rádio Ribamar, eu ganhei alguns trocados. Só isso.

Além do Caçula o senhor participou de algum outro grupo musical? Eu não lembro.

O senhor já integrou algum grupo acompanhando artistas? Não. Sempre era violão solo. Acompanhando assim, às vezes em duo, eu e Biné [do Cavaco, Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014], eu e Fernando Cafeteira [violonista, falecido, integrou a primeira formação do Regional Tira-Teima]. Eu gravei um disco [Hermelino presenteia os chororrepórteres com exemplares de O violão através dos tempos]. Esse disco tem uma história, foi feito com o irmão de Biné, Denizal, o mais velho. Ele foi outro irmão meu, tocava bem violão. Nesse cd eu botei umas músicas que eu gravei com Denizal. Eu tinha em fita k7, descobri isso, ouvi, tava bom. Falei com Gordo [Elinaldo, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013] e ele passou isso aqui pra cd.

Como foi a gravação dessas músicas? Quando foi? Eu tinha umas fitas que eu guardei. Eu estava em Belém e gravei, nós gravamos em casa, no hotel.

E por que o senhor não gravou de novo? Eu não estava mais tocando essas músicas. E queria ter a memória. Isso aqui foi uma transição. Eu estou largando o serviço [de contabilidade], diminuindo. Eu pego o violão todo dia em casa.

Como eram as reuniões nas barbearias? Quem frequentava? Como se dava a dinâmica da música? Tem umas histórias de violão e barbearia. Wilson tinha outro cliente, seu Morais. Eu comecei a tocar músicas de Dilermando Reis, Xodó da baiana, Sons de carrilhões [de João Pernambuco], Interrogando. Seu Morais era doido por isso. Ele ouvia clássico, ouvia por que é bonito mesmo, mas a paixão dele era o popular, Dilermando Reis. Um dia ele me chamou para tocar com eles, a gente ficou tocando, tomando um vinho, na casa do poeta Carlos Cunha, lá no Monte Castelo. As barbearias eram uma salinha pequena, o violão ficava lá, alguém pegava. Quando chegava cliente, tinha uns que gostavam, quando não estavam cortando cabelo, estavam tocando. Depois de muito tempo, chegaram João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], Ubiratan [Sousa, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], Wilson primava pela coisa, só iam os bons. Ele era muito rigoroso.

Alguma outra barbearia nas lembranças? Quando eu estive em Belém conheci outras duas. Eu conheci um camarada lá que era barbeiro, era louco por violão. Eu fui pra barbearia dele, ele tocava pra clientela, o pessoal gostava muito, era muito bom [posando para fotos, Hermelino toca um trecho da Marcha dos marinheiros, de Canhoto].

Além de instrumentista o senhor tem outras habilidades na música? A minha maior vontade é escrever, fazer arranjos para violão. Eu comecei a fazer [mostra uma partitura para os chororrepórteres]. Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] fez um álbum [Choros maranhenses – caderno de partituras] só com choros maranhenses. Tem um choro de seu Nuna [Gomes], pai de Biné [do Cavaco], Um sorriso. Eu tinha vontade de tocar esse choro, mas não conseguia pegar de ouvido. Aí eu fiz [o arranjo], mandei para Zezé criticar. Eu fiz primeiro de um jeito, depois mudei um pouquinho, para facilitar mais [executa Um sorriso].

O que é o choro para o senhor? O choro é uma das músicas mais importantes do nosso país. É a única música, ou uma das únicas, verdadeiramente brasileiras, nasceu no Brasil, no Rio de Janeiro. É o som que nós queremos ter e viver.

Na sua opinião, quem é o grande violonista brasileiro em todos os tempos? Nós temos muitos. Para escolher um é difícil. Um camarada que eu admiro muito é Henrique Annes [violonista]. Outro violonista erudito, também aqui do Maranhão, é João Pedro Borges. Turíbio Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013]. Tinha Raphael Rabello [violonista], que faleceu.

E no Maranhão? O senhor tem acompanhado a cena choro? Aqui tem um cara que eu admiro, acompanho a obra dele, que eu considero de vanguarda, chama-se Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013]. Nesse meu disco eu quero chamar Luiz Jr. e Domingos Santos [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014]. De Luiz Jr. eu tenho uma música linda, chamada Choro pro Guinga.

O senhor se considera um chorão? Também. No Brasil quem não é chorão? Ainda mais quem lida com o instrumental, violão, bandolim, cavaquinho, flauta, é um chorão, queira ou não queira.

Alvíssaras! Ricarte Almeida Santos inaugura novo projeto musical

Rico Choro Com Vida terá primeira edição dia 1º. de agosto, no Barulhinho Bom

Arte: Nuna Neto
Arte: Nuna Neto

 

Talvez o Clube do Choro Recebe tenha sido o mais longevo projeto musical já realizado em São Luís/MA, em seus moldes. Os encontros musicais semanais realizados no Bar e Restaurante Chico Canhoto, na Cohama, com rápidas passagens pela Pousada Portas da Amazônia/ La Pizzeria (Praia Grande) e Associação do Pessoal da Caixa (APCEF, Calhau), eram feitos com baixo orçamento, e muito do que aconteceu em aproximadamente três anos, entre 2007 e 2010, tempo de duração do citado projeto, foi fruto das doações de alguns.

E não se fala aqui só em dinheiro. Fatores como tempo, energia, amor e carinho também se somaram para seu êxito – coisas que não têm preço, nem figuram em comerciais de cartões de crédito. Equipamento de som, cachês de músicos, produção e assessoria, embora pequenos, eram garantidos por pequenos patrocínios, além do apurado com a bilheteria da casa, sempre praticando preços populares.

Tive a honra, o prazer e o privilégio de, à época, ser assessor de comunicação do exitoso projeto – até hoje, vez por outra, ouço a indagação: “quando é que o Clube do Choro vai voltar?”. A abreviatura do nome do projeto na pergunta se justifica pela estreita relação, à época, do produtor Ricarte Almeida Santos com o Clube do Choro do Maranhão, apesar de o Clube do Choro Recebe ser bastante identificado como algo do apresentador do Chorinhos e Chorões na Rádio Universidade FM (106,9MHz) – e não agiam errados os que cometiam esta personificação.

Idealizador do projeto a partir de uma visita do músico mineiro Paulinho Pedra Azul à Ilha, em 2007, era Ricarte Almeida Santos o responsável por articular grupos e artistas convidados para os saraus semanais que viraram sinônimo de música de qualidade em São Luís, já que o formato pensado, proposto e realizado, embora privilegiasse o choro, não se fechou ao gênero, abrindo diálogos bastante interessantes e importantes, sobretudo com os ritmos da – e com os artistas que a fazem – cultura popular do Maranhão. Também era ele que corria em busca de patrocínios, que “perturbava” os músicos para garantir os ensaios que se traduziam em intimidade musical entre grupos e convidados no palco, além de ser o mestre de cerimônias que, sábado após sábado, apresentava grupos e artistas e outras informações pertinentes, já que – e isso também merece destaque – o Clube do Choro Recebe cumpriu uma função pedagógica. E se houvesse outras tarefas, certamente seriam desempenhadas com o mesmo capricho e zelo.

Não é raro também encontrar entre os que tenham passado pelo projeto, em seu palco ou plateia, os que elogiem a atenção do público presente à música, principal atração das noites daqueles sábados. “As pessoas iam ali para ouvir música”, costumam afirmar, em oposição a lugares em que a música é apenas um detalhe, quando o que importa para as pessoas é tocar sua própria percussão, batendo talheres em pratos ou estalando selfies (praga menos avassaladora naqueles idos).

O fato é que, passados três anos, com a inexistência de apoio dos poderes públicos e os escassos patrocínios da iniciativa privada, o projeto teve que ter um fim decretado, deixando muitos órfãos, incluindo o produtor e este que vos perturba.

Três anos depois, em março de 2013, iniciamos, os irmãos Almeida Santos, Ricarte e Rivanio, este responsável pelas fotografias, e este que lhes toma o tempo com estas mal traçadas, a série Chorografia do Maranhão, publicada quinzenalmente aos domingos (com raras falhas na periodicidade) no jornal O Imparcial, que gratuitamente nos cedeu duas páginas de seu caderno Impar e recebeu, também gratuitamente, por mais de dois anos, até aqui, 52 entrevistas com instrumentistas de choro nascidos ou radicados no Maranhão.

A Chorografia do Maranhão contempla um panorama único e inédito, constituindo-se na maior série de entrevistas já publicada por um jornal no Maranhão – apesar da pausa, seu trio de realizadores não deu ainda o trabalho por encerrado, por entender que algumas figuras fundamentais para a história e o desenvolvimento do choro no estado ainda estão de fora.

Por outro lado, somado o entusiasmo do escritor e editor Bruno Azevêdo e de sua Pitomba! Livros e Discos, já está sendo trabalhado o lançamento do material em livro – oxalá que na próxima Feira do Livro de São Luís (Felis) – para o que estamos correndo atrás de patrocínio.

Mas as coisas não param por aí. Ainda bem!

Durante um show do compositor Cesar Teixeira – com participações especiais de Flávia Bittencourt e Célia Maria – no Bar do Léo, no último sábado (4), e em seu programa, ontem (5), Ricarte Almeida Santos anunciou: dia 1º. de agosto, ele inaugura o projeto Rico Choro Com Vida, que acontecerá aos sábados, uma vez por mês, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande), sempre das 18h às 21h.

O projeto manterá o formato do Clube do Choro Recebe: um grupo apresenta repertório instrumental por uma hora, recebendo depois um convidado. Na sequência, palco livre para as tão charmosas canjas. Para a primeira edição, o embaixador do choro no Maranhão anunciou o nome do cantor Cláudio Lima, que será acompanhado por Luiz Cláudio (percussão), Luiz Jr. (violões de seis e sete cordas, guitarra e viola), Robertinho Chinês (cavaquinho e bandolim) e Rui Mário (sanfona), o mesmo quarteto que acompanhou Cesar Teixeira no show de sábado. A formação é quase o Quartetaço (que tinha o flautista João Neto em vez de Robertinho Chinês), que batizado por Aço, de Bruno Batista, foi formado justamente para acompanhá-lo quando de uma apresentação no Clube do Choro Recebe, e engendrava o Choro Pungado, quinteto que acabou reunindo todos eles ao redor da fogueira do fazer choro, mesclando o gênero a tudo o que se possa imaginar em termos de ritmos da cultura popular do Maranhão, certamente uma das maiores invenções daquele projeto – infelizmente, de existência ainda mais meteórica que o próprio.

Os ingressos custarão R$ 20,00 e poderão ser adquiridos no local. Ao novo ciclo que se inicia, desejamos vida longa: Rico Choro Com Vida, Rico Choro Com Vida longa!

Chorografia do Maranhão: Giovani Cavalcanti

Membro de diversos conjuntos no auge da era dos bailes, o violonista é o 43º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Giovani Alves de Cavalcanti chegou antes da hora marcada para prestar seu depoimento à Chorografia do Maranhão, o 43º. da série. Ele foi entrevistado por Ricarte Almeida Santos e Zema Ribeiro e fotografado por Rivanio Almeida Santos na quitanda de Seu João, na esquina das ruas da Viração e do Machado, próximo à avenida Beira-Mar, no Centro de São Luís.

Filho do psiquiatra Odilon Rezende Cavalcanti e de Eli de Assis Cavalcanti, doméstica com dotes artísticos, o violonista nasceu na rua São José, no bairro do João Paulo, em 4 de setembro de 1950. “Minha mãe esculpia, fazia pintura, chegou a escrever para jornal, alguns artigos, crítica contra a administração pública, tipo Caema, Cemar. O título era Canivetadas e ela assinava lá embaixo O Canivete. Fazia artigos em linguagem sertaneja e em rimas com o mesmo objetivo, sempre de malhar o sistema, as deficiências administrativas do Estado. E também compôs algumas músicas”, conta.

Ele estudou na escola técnica desde o ginásio industrial e cursou Química. Aposentou-se como técnico sênior em eletrônica na Telecomunicações do Maranhão S.A (Telma). Suas primeiras memórias musicais remontam a discos de gêneros os mais diversos, ouvidos pela mãe, e a um cavaquinho de plástico onde começou a dar as primeiras dedilhadas.

Na conversa com a chororreportagem Giovani lembra o convívio com figuras fundamentais para o choro no Maranhão, como Zé Hemetério e Nuna Gomes, além de várias histórias do auge das bandas de baile, ele que integrou algumas, além de grupos de samba.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Além de músico qual a sua outra profissão? Eu fui um técnico em telecomunicações. Entrei na Telma no setor administrativo em 1975, trabalhei cinco anos lá, depois descobriram que eu tinha aptidões técnicas. Passei num concurso para a Embratel e a empresa para não me perder para a Embratel decidiu me reaproveitar no setor técnico. Mas eu tinha que cumprir algumas exigências da empresa, fazer cursos de eletricidade, eletrônica, embora eu já soubesse, mas eu tinha que me sujeitar às condições da empresa. Passei para auxilitar técnico e terminei minha carreira, já com a privatização da empresa, como técnico sênior em eletrônica, que é nível superior.

Hoje você está aposentado? Aposentado.

Observa-se uma paixão muito grande em tua vida que é o radioamador. Fale um pouco dessa paixão. O radioamador é interessante. Eu não sabia nada sobre radioamadorismo. Ainda trabalhando no setor administrativo, fiz amizade com o gerente da área técnica, o Pontes. Um dia peguei uma carona com ele e ele tinha um radiozinho lá, um aparato de comunicação. E no teto uma antenazinha, aquela coisa toda. A gente chegou perto da cabeceira da ponte do São Francisco e ele perguntou: “tu tá ouvindo esse cara aqui? Esse cara tá falando de Copacabana”. Aí ele começou a se comunicar com esse cara em Copacabana. Eu fiquei impressionado, como é que um rádio, um pouco maior que uma carteira de cigarros, conseguia se comunicar diretamente com a pessoa lá no Rio. E ele disse que não era só o Rio, mas qualquer cidade distante de São Luís aproximadamente 2.000 quilômetros. Foi aí que eu passei a me interessar, comprei equipamento, tirei minha licença na Anatel e entrei na chamada Faixa do Cidadão. Anos depois, já agora na era 2000, foi que eu realmente ingressei na Labre, a Liga Brasileira de Rádio emissão, e aí tive que me submeter a prova, inclusive de telegrafia. A telegrafia é mais ou menos igual a música, eu estudei sozinho. A música, como a telegrafia, antigamente era uma caixa preta, quem sabia não ensinava. Mas eu já falei com diversos países do mundo todo, muitas cidades do Brasil. O que está acima de 2.000 quilômetros.

Você também gosta muito de rádio AM. Eu gosto, eu sou coruja. Eu tenho vários rádios de ondas curtas. Foi um vício que eu adquiri de infância. Na minha casa tinha aqueles rádios a válvula da Philips, de noite eu não tinha para onde sair, a criação era bem diferente de hoje, você custava a sair, acima de 15, 18 anos é que você ia para festas. Hoje não, moleque de 12 anos já está por aí. Eu tinha que ficar em casa, inclusive aquelas expedições lunares, aquela corrida espacial dos Estados Unidos, tudo aquilo a gente ouvia pelo rádio. Então eu adquiri essa mania.

Como era o universo familiar, musical? O que te influenciou? Tua mãe tinha dotes artísticos. É o seguinte: minha mãe, o primeiro brinquedo que ela comprou, ela sempre gostava de comprar brinquedos musicais, flautinha doce, uma gaita. Teve uma época que ela comprou um cavaquinho da Troll, o slogan da Troll era “brinquedos de verdade”, e esse cavaquinho, mesmo sendo de brinquedo, de plástico, ele afinava. Você não afinava na altura, não tinha diapasão. Ela sabia afinar o cavaquinho e começou a me dar umas noções. Minha influência musical mesmo é que naquela época era muito eclética. Ela botava um disco de Luiz Gonzaga agora, daqui a pouco tirava e botava um Lenny Everson, Valdir Calmon, pra mim foi um dos maiores arranjadores de música popular no Brasil. Até hoje eu tenho na cabeça aqueles arranjos de Valdir Calmon, onde ele mistura samba e choro, fazendo aqueles pot-pourris, modulando, mudando de uma música para outra, muito bom o cara. A minha formação mais ou menos é essa, meu gosto.

Teus pais, então, eram colecionadores de discos, compradores de discos, ouviam muita música em casa. É, minha mãe ouvia muita música. Mamãe tinha Luiz Gonzaga e, por exemplo, disco da Banda Real Inglesa, Banda da Marinha dos Estados Unidos. Na época da semana da pátria só se ouviam hinos, aqueles dobrados militares. Música de natal, toda época ela tinha música. Mas mamãe gostava de música sertaneja, música clássica, Marinês e sua gente, Luiz Gonzaga, esse pessoal.

Quando ela presenteava vocês com esses brinquedos musicais, ela tinha pretensão de que vocês seguissem a carreira artística? Não, não. Era uma coisa informal, sem pretensão.

Mas ela te estimulou a participar de programas de calouros. Ah, sim. Nem todo mundo sabe, mas antigamente todas as rádios de São Luís tinham auditórios. Era obrigatório. E essas rádios tinham programas de auditório, ao vivo, pessoas na época muito faladas, tipo Lima Jr., da Rádio Difusora, que inventou O domingo é nosso. Todas as rádios, Ribamar, Timbira, Difusora, todas tinham auditórios. Nesses auditórios se apresentavam também os cantores que vinham de fora, Nelson Gonçalves, Orlando Silva, e também os cantores da terra, tipo Orlandira Matos, Alcione, Escurinho do Samba. E até eu. [risos] por que não eu? Me inscreveram na Rádio Timbira, num programa mirim, só a garotada, era à tarde. Me botaram em cima de uma cadeira pra eu poder alcançar o microfone. A música que foi escolhida para mim foi O jarro de barro [O jarro da saudade, de Daniel Barbosa, Geraldo Blota e Mirabeau]: começa [cantarola] “Iaiá, cadê o jarro?/ o jarro que eu plantei…” Então, eu cresci, o nosso lazer antigamente em São Luís era cinema, dia de semana à noite, a tarde, os vesperais, e praia. Até praia era difícil. Pra ir pra Ponta d’Areia tinha que ir de canoa, Olho d’Água não tinha nem asfalto.

Como você entrou profissionalmente na música? Nós, todos os músicos da minha época, éramos amadores. Não tínhamos as oportunidades que a galera de hoje tem, como várias escolas de música, internet. Nós éramos músicos práticos, só tínhamos dom, talento. Eu comecei assim: depois que minha mãe me deu a noção de como obter determinadas notas na escala do cavaco, se mudou lá para a minha rua uma família de Rosário: seu Nuna Gomes [multi-instrumentista]. Um cidadão que sabia tudo de instrumento de cordas, também prático, um cara lá do campo, do interior. Ele era barbeiro. Geralmente todo barbeiro antigo tinha alguma coisa, ou para música ou para dama. A casa dele era daquelas casas que a janela fica na parede da rua, eu sempre via aquelas reuniões de músicos, sempre pintava lá Sinhozinho [João Pedro Borges, o Sinhô, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], Ubiratan [Sousa, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], se juntavam lá com os filhos dele, Denizal, que faleceu há pouco tempo, era um exímio violonista, se diferenciava, como Sinhô, que também estudou música. Eu ficava invocado, como era que o cara corria o dedo naquela escala, sabia onde parar. Um dia, seu Nuna, ele chamava todo mundo de capitão, podia ser uma criança de 10 anos. Ele me perguntou: “capitão, o senhor não gostaria de aprender a tocar violão?”. “Eu quero”. “Então o senhor vem pra cá, tem um método aí”. Eu estudava de manhã, de tarde eu ia pra lá.

Você tinha quantos anos? 15 anos, 14 e uns quebrados. Era a época da Jovem Guarda, aqueles conjuntos, Golden Boys, Os Vips. A gente reunia uma turma na escola, um ensinava uma nota pro outro, a gente pegava a mesma música e começava. Era assim, ninguém tinha escolaridade. Depois que eu peguei todas essas tonalidades de uma forma bem simplificada nesse método, que era um tal de Bandeirantes, o nome do método, eu passei a me arriscar a tentar ouvir uma música e tirar o acompanhamento. Eram coisas de Roberto Carlos. Um dia eu peguei uma revista e tinha uma nota que eu nunca tinha visto. Era um D com um ozinho pequenininho lá no expoente. Eu sabia que era um ré. Mas quando eu botava o ré não dava com a melodia ali naquele trecho. Eu comecei a levar para os colegas e era estranho para todo mundo. Alguém me disse, acho que até o Bastico [Gomes]: “só tem um cara que pode tirar essa tua dúvida: é Zé Hemetério [multi-instrumentista]”. Eu conhecia Zé Hemetério de passagem, passava sempre com o violino dele na mão, pendurado, para tocar nos bares, na noite. Eu fui lá, bati, nunca tinha tocado uma palavra com ele, a sede de aprender. Mostrei para ele, tem essa música de Roberto Carlos, é aquela música Esqueça [Forget him, de Mark Anthony, versão de Roberto Corte Real, cantarola:] “esqueça se ele não te ama”. Ele disse: “isso é ré com sétima diminuta”. E eu: “o que é isso?”. Ele foi lá dentro e voltou com um método dessa grossura [indica o tamanho com os dedos da mão], parecia uma bíblia. Era um Bandeirantes. Foi um método que foi elaborado por alguns músicos profissionais do Rio de Janeiro, que veio a facilitar o estudo da harmonia através da cifra. Era um método para piano, acordeom e violão no mesmo fascículo. Eu perguntei: “como é que eu consigo isso?”. E ele: “rapaz, isso não tem em São Luís, eu mandei buscar no Rio de Janeiro”. Passaram-se alguns meses, Bastico foi convidado para tocar no AC7 [conjunto musical], de Ataíde. Bastico foi tocar contrabaixo, como estava faltando guitarrista, Bastico me convidou. Eu nunca tinha pegado uma guitarra, só meu violãozinho ali de bossa nova. Mas eu fui, comecei a ensaiar com essa banda e comecei a tocar profissionalmente, de 1969.

Foi teu primeiro grupo? Meu primeiro grupo.

Se a gente fosse definir teus principais mestres, seriam Nuna e Zé Hemetério? O Zé Hemetério foi o cara que me deu essa dica, eu não sabia que existia acorde dissonante. Me despertou. O Nuna foi a pessoa que, depois, mais na frente, depois que eu toquei no AC7, depois a gente desfez o grupo, mudou pra Som Livre, eu fui tocar nOs Fantoches, como guitarrista, junto com Agnaldo [Sete Cordas, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013]. Nós formamos um grupo justamente com os filhos de seu Nuna, são todos meus amigos, considero irmãos, Bastico, Biné e Zequinha [violonista, cavaquinista e saxofonista, Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014], mais alguns colegas de fora, Almir que era o cantor, Joaquim na bateria e por último entrou Pinheirinho, o Chico Pinheiro, arranjador, maestro. Eu não saía de lá da casa, os ensaios eram na casa de seu Nuna. Lá, enquanto a gente não estava ensaiando, ele pegava o bandolim dele, e começou a ensaiar comigo os choros dele, valsas, às vezes Bastico pegava o outro violão. Ele me ensinou a criar amizade, intimidade com o choro dele. Eu não tocava choros de outros compositores até então. Eu conhecia Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, mas não tocava. Eu me lembro que quando esse grupo ia tocar em Rosário, a gente se hospedava na casa deles em Rosário, ele costumava me acordar de manhã cedinho e dizia: “Capitão, vamos treinar o negócio do choro”. Nessa época, por incentivo de outro colega, Zé Nilson, foi professor de matemática, hoje é engenheiro, nós fizemos um grupo de choro. Chamava 20 Cordas no Choro, eu não sei de onde saiu essa história de 20 cordas, por que somando não dava. Era um grupo pra gente brincar, aí a gente começou, nesse grupo eu tocava cavaquinho, Biné era bandolinista e Bastico fazia o violão. E Marciano era o pandeirista e Celso, já falecido, fazia marcação. Chegamos a nos apresentar algumas vezes no programa de Moreira Serra na Rádio Ribamar, fizemos algumas brincadeiras em casas de pessoas, Zé Maria do Amaral, que tinha um cursinho, às vezes aniversários, coisas de família. Meses depois eu saí da banda, do Curtisom, o nome da banda lá da família era Curtisom. Saí e voltei para tocar com Ataíde já no Som Livre.

A gente pode dizer que sua paixão pelo choro começa com essa amizade com seu Nuna? É. Ele e a família dele. Depois, na Cohab, no bar do Eustáquio, era uma verdadeira tribuna artística, eu conheci uma figura extraordinária, músico de muito talento chamado Careca. Tocava bandolim muito bem. Nos encontrávamos quase que todos os finais de semana nesse bar, e sempre estávamos juntos com Agnaldo. Eu no seis cordas, Agnaldo no sete e Careca na bandola [bandolim]. O Six [Francisco de Assis Carvalho da Silva, advogado e cavaquinista], quando chegava aqui, mandava logo buscar o Careca. Então como o seu Nuna, o Careca me exercitou muito no choro. Isso tudo em meados dos anos 1970 até meados dos anos 80. Foi a época que mais toquei chorinhos com essa galera.

Tua família sempre te estimulou? Ou quando você decidiu seguir pela música houve uma resistência? Não. Minha mãe não me proibiu, a gente sempre soube que o ambiente musical profissional sempre rolou álcool e às vezes outras coisas, mas minha mãe sempre confiou em mim. O único entorpecente que eu já digeri foi álcool.

Você vive ou já viveu de música algum tempo? Pra viver nunca deu. Sempre foi um paralelo. Eu nunca comprei nada com dinheiro de música, de valor relevante. Eu tinha meu emprego, paralelo a isso, na noite, uns cachezinhos, pra comprar uma bobagem ali, um negócio. Às vezes você levava um mês para fazer uma festa. O conjunto de ponta que eu toquei aqui foi o Som Livre, depois o Curtisom, tinham agendas mais cheias. Interessante que nessa minha caminhada de músico profissional de banda, eu tive a satisfação de ser obrigado, contratualmente falando, a acompanhar grandes figuras da música popular brasileira.

Quem, por exemplo? Waldick Soriano, no Cine Monte Castelo, ainda na época do AC7, isso tudo sem ensaio, era aquela coisa “empurra o cara, se ele morrer afogado é problema dele” [risos], Luiz Gonzaga, o Gonzagão, fiz um show com ele aqui no Hotel São Francisco, Elizeth Cardoso no Casino Maranhense. E outros cantores, tipo Emílio Santiago, Alcione, recentemente eu fiz vários shows com Marquinhos Satã, Mário Sérgio, ali no Porto da Gabi, com Bola Sete, do Rio de Janeiro.

De que outros grupos você já participou? Aí é dividido em duas partes. Tem as bandas, começou com o AC7, depois Curtisom, Os Fantoches e Som Livre. Depois que eu saí do Som Livre vem a parte do samba. Meu violão, eu passei praticamente uns 12 anos sem nem pegar. Um dia minha cunhada foi morar comigo, olhou o violão dentro do guarda roupa, abandonado, e pediu para eu ensiná-la a tocar. Isso foi em 1992, 12 anos que eu nem pegava no violão, nem para tirar poeira. Como músico de banda nunca ganhei dinheiro, às vezes levava um mês para fazer uma festa, às vezes toda semana.

E os grupos de samba? Eu fiquei esse tempo todo sem tocar, nem dentro de casa. Depois eu fui fazer um curso, tinha um violão no clube, eu entrei lá, tinha uma turma tocando, comecei a tocar umas coisas de música aqui do Maranhão. Depois eu passei umas lições para minha cunhada, aí criou bolhas nos dedos e ela largou. Final de semana eu me sentava numa cadeira e começava a recordar aqueles antigos sucessos, Os Pholhas, um sambinha e tudo. Um dia Valter Nunes passou lá, eu tava tocando uma bossa nova, e “cara, tu não quer tocar domingo com a gente ali?”. Isso era uma terça-feira, eu estava por fora de samba, eu não conhecia um samba de Zeca Pagodinho, nada. Eu arranjei um captador, botei no violão. Tinha lá vários pagodeiros. E eu passeando, escorregando na manteiga o tempo todo, eu não conhecia as músicas, um esforço mental doido para não fazer feio. Quando terminou alguém disse que eu nunca mais podia sair do conjunto [risos]. A primeira coisa que eu acabei foi com esse negócio de tocar sentado, tem que tocar em pé, jogar o corpo, animar quem está lá. Aí nós começamos a dominar a praça com o Sambando na Praia. Depois eu fui para o Sem Dimensão. Quando eu estava no Sambando na Praia, o Vinicius foi embora. Foi uma dificuldade, ele cantava e tocava. Aqui era difícil gente cantar e tocar, a gente começou a andar atrás de músicos que fizessem as duas coisas, aí a gente contratou Ivan para cantar e Neto Peperi para fazer o cavaco. Tínhamos contrato fixo com o bar O Luar, ali na [avenida] Litorânea, o cachê lá era muito bom.

Você integra algum grupo atualmente? O Sob Medida, nós estamos ensaiando. Fizemos um pré-lançamento no programa do Ricardo Baty.

Na sua opinião o que significa o choro? Qual a importância dessa música? O choro, para mim, é uma música que não foi feita para qualquer um. O choro, o músico tem que ter muito conhecimento, nem eu tenho. Já vi muito músico tocar só com o talento, mas o choro exige do músico muito preparo técnico, conhecimento teórico e prático da coisa, do instrumento, da música. É uma música realmente emocionante. Eu me arrepio, me emociono escutando choro. Já tive oportunidade de tocar, de brincar, com pessoas de muito conhecimento, tipo Marco César [bandolinista], lá de Recife, com Jorge Cardoso [bandolinista], ainda em início de carreira.

Você se considera um chorão? Eu me considero um chorão mais como ouvinte, admirador. Se bem que no violão eu toco uns chorinhos. Muita coisa eu já esqueci, até de autores famosos, justamente por causa do samba. É aquela coisa, por que o chorinho, você pega um choro, você tem que estar tocando ele. Com o tempo você vai saindo. É como se fosse um satélite, manda um sinal para corrigir a órbita. Se você aprende uma música hoje, daqui a um ano você está tocando diferente. Agora, se não tocar, você esquece. Aquilo você cria uma espécie de memória mecânica, a posição, a sequência, como vai levando os dedos, a mão.

Chorografia do Maranhão: Carbrasa

[O Imparcial, 19 de dezembro de 2014]

O percussionista, que já integrou grupos como o Regional Tira-Teima, Instrumental Pixinguinha e Espinha de Bacalhau, é o 42º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Mais conhecido como Carbrasa, o percussionista João José Pinto Silva não sabe a origem do apelido. Um vizinho começou a chamá-lo e pegou.

Nascido em Cururupu, em 17 de abril de 1954, Carbrasa aportou na Ilha capital aos 13 anos de idade, motivado pela vontade de estudar. Aos 18, como carteiro, começou nos Correios, de onde ainda é funcionário.

Carbrasa é filho de João Pedro Silva, proprietário de embarcação, “tinha o Iate São João e transportava mercadorias”, e Maria Ferreira Pinto Silva, doméstica.

O percussionista participou de alguns dos grupos mais importantes do samba e choro no Maranhão, tendo integrado o Instrumental Pixinguinha – primeiro regional maranhense a gravar um cd, já sem ele na formação –, Regional Tira-Teima – o mais longevo em atividade, prestes a lançar disco de estreia – e o Espinha de Bacalhau.

Hoje Carbrasa integra o Três no Choro, formado por três Joões: ele, João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014] e João Eudes [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de fevereiro de 2014].

Fazia uma tarde nublada em São Luís quando Carbrasa concedeu seu depoimento à Chorografia do Maranhão, o 42º. da série, na Fonte do Ribeirão.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

De onde vem o apelido Carbrasa? Meu nome é João José Pinto Silva e eu venho de uma cidade do interior chamada Cururupu. Lá, se você verificar, tem bastante pessoas que são músicos, compositores. Um exemplo disso é Tião Carvalho. Vim pra São Luís, aqui estou há mais de 50 anos. Na minha adolescência eu vim morar num bairro chamado Boa Vista, entre o Monte Castelo e Camboa. Depois fui morar num bairro chamado Vila Bessa. Nesse bairro, na Rua Nova, precisamente, defronte à minha casa tinha uma pessoa que nós fizemos uma grande amizade. Ele toca violão, e nós estudantes de segundo grau, depois vestibular, ele foi ser bioquímico e farmacêutico. Mas ele era daqueles camaradas que gozava de todo mundo. Não sei por que cargas d’água ele me colocou esse apelido de Carbrasa. Aí ficou no bairro: Carbrasa, Carbrasa, Carbrasa… Lá perto, no bairro, tinha um restaurante, naquela época, aqui chamavam restaurante de base: Base do Germano, Base do Rabelo… essa era a Base do Edilson, um senhor que tomava de conta, era o dono da base, ele e a esposa dele. Eu tinha começado a trabalhar, hoje ainda sou funcionário dos Correios, e nos finais de semana, principalmente aos sábados, nós íamos para a Base do Edilson tomar cerveja e fazer uma brincadeira lá, de violão e percussão. Lá nós, eu e mais três amigos, Joacilo [Frota, cavaquinista, hoje perito criminal em Imperatriz], Luiz Carlos, começamos a fazer uma roda, violão e percussão, um ganzá, um tamborinzinho, e as pessoas gostavam, tanto é que a conta nós não pagávamos. As pessoas que estavam nas mesas e gostavam de nossa apresentação musical pagavam. Daí essa coisa foi evoluindo. Depois esse meu amigo aprendeu a tocar cavaquinho, já fazia umas coisas de choro, aqueles choros de Waldir Azevedo, próprios para cavaco, ele já fazia aquilo ali.

Como era o ambiente musical de tua infância? O que você ouvia quando era criança? Lá no interior era música popular brasileira da época. Nelson Gonçalves, Jamelão, Orlando Silva. No interior acontecia o festejo, Nossa Senhora das Graças, e o Carnaval. Quando viemos para São Luís eu já comecei a separar, já fui ouvir Chico Buarque, principalmente, Caetano, Gil, a nata da música popular brasileira. Mas também não deixando de lado o que se chamou na época de Jovem Guarda, Roberto Carlos nem tanto, mas o resto da Jovem Guarda.

Você ainda lembra muito da infância em Cururupu? Recordo. Na verdade eu vim embora para São Luís com 13 anos. Lembro de colégio, das brincadeiras de roda. Meu lugar, eu nasci num povoado, Valha-me Deus, numa das ilhas do arquipélago de Maiau, nas reentrâncias maranhenses, são várias ilhas, cada uma um povoado. Era uma ilha que eu considero um paraíso, guardadas as devidas proporções. Eu volto lá até hoje, meu irmão tem casa lá, eu até convido vocês para irem um dia visitar o lugar. Tem um festejo lá, o Festejo de Nossa Senhora das Graças, em maio, é uma festa grande. Vai muita gente de São Luís, tanto conterrâneo como pessoas do entorno, de outros povoados, Ajerutiua. A atividade de sustento das famílias era a pesca, somente pesca. Como é uma ilha, não permitia você ter plantios, a força mesmo era a pesca. Na minha família são cinco irmãos, quatro homens e uma mulher.

Não tinha muita musicalidade envolvida? Não tinha. Lá só tinha um serviço de alto-falante. Não lembro se nesse serviço de alto-falante tocava choro, por exemplo. No rádio, meu pai comprou um rádio, a gente ouvia principalmente a rádio Educadora e a Difusora, que tinham uma potência maior na transmissão, aqueles programas que rodavam música popular brasileira. Quando eu vim embora para São Luís, lá onde eu morava tinha Seu João, acho que ele já até morreu, esse senhor, e nos finais de semana ele botava os discos dele de choro, Jacob [do Bandolim], Carlos Poyares.

Aquilo já te chamava a atenção? Que idade você tinha? Já. De 13 pra 14 anos. Me chamava a atenção, pô, que música é essa?

Com 13 anos de idade o que te trouxe à São Luís? A vontade de querer estudar.

Você veio sozinho, então? Vim sozinho, morar com uma tia. Fui estudante de colégio público, Universidade. Sou bacharel e licenciado em Geografia.

Você chegou a exercer a profissão? Não. Eu fui trabalhar nos Correios e eu não fui para o lado de professor.

A partir de quando e de que estímulo você passou a se envolver com música? A partir da minha adolescência, quando eu fui morar na Vila Bessa e eu conheci esse amigo. Antes, já tinha um grupo de pessoas no Caminho da Boiada, apesar de eu não morar lá, mas conheci as pessoas, no carnaval nós saíamos nos blocos de rua. Depois, no Caminho da Boiada, existia um bloco chamado Turma do Lamê, um dos primeiros blocos organizados, eu participei desse bloco, durante vários anos. Era aquela coisa do samba enredo, nós fazíamos aquela coisa do samba. A música, o que me despertou maior interesse, foi exatamente o samba. Daí, consequentemente, veio o choro, junto.

Você sempre foi percussionista? Que instrumentos você toca? Sempre fui percussionista. Toco pandeiro, na verdade, meu primeiro instrumento percussivo profissional foi um instrumento chamado timba. É um atabaque atravessado na horizontal tocado com uma vassourinha de aço, a mão direita na vassourinha, a mão esquerda no couro. Esse instrumento, eu tive contato com ele quando Roberto Rafa [cantor e compositor], que morava também lá na Vila Bessa, essa coisa de ele me conhecer tocando lá na Base do Edilson, com Joacilo, a gente fez amizade, ele sempre participava de festivais de música popular maranhense, e ele me chamava, às vezes, para fazer um zabumba, e eu ia com ele. Depois ele começou a tocar na noite, num barzinho chamado Duas Nações. Do lado da Prefeitura [o prédio sede da Prefeitura Municipal de São Luís, na Praça Pedro II, Centro] tem um local agora que é uma coisa de tambor de crioula [o Centro Cultural Mestre Amaral], era a Base da Lenoca, e antes era o Bar Duas Nações. Lá tinha uma música ao vivo e Roberto Rafa foi pra lá. Como ele precisava de uma percussão, ele me chamou.

Isso era mais ou menos quando? Década de 1980. Ele viu uma pessoa chamada Biriba, que tocava essa percussão, dessa forma. Biriba viu alguém no [Hotel] Quatro Rodas tocando isso [timba], um cidadão chamado Paulo Tripa, era paulista, veio com o irmão, Joran Coelho, tocar no Quatro Rodas. Lá em São Paulo essa coisa era muito difundida, essa timba. Ele aprendeu, aí, “Carbrasa, Biriba aprendeu a tocar uma percussão, tu não quer aprender com ele?”. Eu disse que precisava do instrumento, a vassourinha, para saber como era a levada. Biriba foi lá em casa, me passou a informação, em meia hora eu já estava tocando, modéstia à parte. Isso foi numa quinta, quando foi na sexta, a gente já foi para o bar, lá pro Duas Nações. Aí começamos a fazer MPB.

Você começou fazendo MPB com Roberto Rafa. E tua inserção nos grupos de choro, deu-se a partir de quando? Com essa coisa de tocar com Joacilo, fui conhecendo outras pessoas, aí já me apresentaram um pandeiro. Só que o pandeiro, na época, não existia pandeiro em São Luís. Existiam uns pandeiros com uma platinela diferente, não era pandeiro como é hoje. As platinelas eram diferentes do que são essas platinelas, hoje côncavas. Fui apresentado a uma pessoa, não lembro o nome, ele me passou a forma de como se toca o pandeiro hoje. A minha namorada, que hoje é minha esposa, foi para o Rio e de lá ela trouxe um pandeiro da Ao Bandolim de Ouro [famosa loja carioca de instrumentos musicais, reduto de chorões]. Mas antes, para eu tocar, eu comprei um pandeiro que tinha as platinelas diferentes, e tinha uma pessoa, Joquinha, do 310 [o Regional 310, famoso grupo de samba e pagode do circuito ludovicense], ele fazia, não sei de que forma, as platinelas côncavas, e a gente ouvia esse som que se ouve hoje. Também não me passou a forma de como ele fazia, a gente entregava o pandeiro para ele, ele arrumava, e ia. O pandeiro melhor que eu tive, eu ganhei de presente, da Ao Bandolim de Ouro. Aí já comecei a tocar pandeiro, aí chegou Paulo Trabulsi [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], começando a tocar cavaquinho, eu já comecei a conhecer as pessoas, tipo Biné [do Cavaco], Zequinha [do Sax], os Irmãos Gomes [o trio se completa com o violonista Bastico, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014], conheci Agnaldo [Sete Cordas, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013], conheci mestre Sampaio [violonista sete cordas], mestre Serra da Flauta [Serra de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], e outros que tocavam, que já morreram, que tocavam choro. Dos que estão vivos aí, mestre Pitoco, tocava sax, com esses todos eu toquei choro, participei de rodas. Grupos mesmo foi quando fui convidado para compor o Regional Tira-Teima.

Então você chegou a compor o Tira-Teima durante uma época? Sim. Lembro muito bem que era bandolim, Adelino Valente [bandolinista e pianista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 20 de julho de 2014], violão era mestre, o mestre dos mestres, que eu considero, Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], Fernando Cafeteira [violonista], Vieira [Antonio Vieira, compositor e percussionista], na percussão, Hamilton Rayol [cantor], que fazia voz, o cavaquinho base era Paulo Trabulsi. Aí depois eu saí. Até hoje o Tira-Teima se mantém, com outra formação. Depois disso eu já conheci Jansen [o bandolinista César Jansen, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de setembro de 2014] e outros mais novos do choro, Juca do Cavaco [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], a gente tinha um grupo, a gente sempre saía. Aqui na Rua do Ribeirão existia um barzinho, onde é a secretaria [pensativo, tenta lembrar], como é o nome dessa secretaria aqui? [os repórteres respondem: Fundação Municipal de Cultura]. Embaixo dessa secretaria tinha um bar chamado Cafofo, lá nós nos reuníamos, eu, Juca, Vadeco [percussionista], Natan, todas essas pessoas tocavam choro. Tocam choro! Nós com nossas namoradas, éramos um grupo grande, mais de 10 pessoas. Todo fim de semana ou estávamos no aniversário de alguém, ou no Cabeça Branca, um bar que tinha na Ponta d’Areia. Depois veio o grupo Alma Brasileira, que teve vida curta, muito curta mesmo, depois fui para o Regional Pixinguinha [o grupo Instrumental Pixinguinha]. Na época que a Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo] era na Rua Antonio Lobo, esse grupo ensaiou a Suíte Retratos [do maestro gaúcho Radamés Gnattali], era a peça principal, e outros choros, para compor o repertório do espetáculo, que apresentamos no teatro [Arthur Azevedo]. Acho que foi o show de choro, em São Luís, que eu participei, e o melhor que eu já vi, acabamento, arranjos, detalhes. Tanto é que ensaiamos quase oito meses.

Então você é um dos fundadores do Pixinguinha? Sim, fundador do Pixinguinha. Eu, Jansen, Biné, Paulinho [Santos, flautista], Solano [o violonista sete cordas Francisco Solano, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Domingos [Santos, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014] e Marcelo [Moreira, violonista]. Esse era o Regional Pixinguinha.

Quando você aprendeu a tocar já estava praticamente adulto. Ainda estava morando com teus pais? Eles não criaram nenhum problema nessa tua opção pelo batuque? É, eu tinha por volta de 17 anos. Não criaram, até me incentivaram.

Você conciliou os estudos? Estudos, trabalho. Eu já trabalhava na época, era carteiro. Fiz o concurso dos Correios com 18 anos, foi logo meu emprego.

Se você tivesse que definir quem foi o seu principal mestre, quem você apontaria? Percussão? [pensativo] Deixa eu pensar. Que me ensinou percussão, assim, eu não tive um professor específico. Eu ia pela coisa da intuição e do interesse de aprender, de ouvir, colocar o ouvido naquilo ali e depois fazer e executar. Logicamente que eu rendo graças a essa pessoa chamada de Biriba, que me ensinou e daí eu fui desenvolvendo. Com essa percussão eu toquei durante muito tempo, com [os cantores] Lula Bossa, com J. Nogueira. Nos bares da vida, na noite de São Luís, praticamente com todo mundo, com Betto Pereira [cantor, compositor e artista plástico], principalmente com ele. O primeiro local em que tocamos foi um bar chamado Cabeça de Peixe, na Camboa, começamos lá, eu e Betto, violão e timba. Depois fomos incorporando outras pessoas ao grupo, Zezé da Flauta [Zezé Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Jeca de percussão e Mauro Travincas de contrabaixo. Eu lembro muito bem que a gente fez até uma bandinha chamada Amor de Canela. Nós ensaiávamos essa banda lá na casa de Betto, a gente passava o repertório para tocar no Cabeça de Peixe. Depois fomos tocar no Bar Ruínas, na avenida Beira Mar, subindo a Rua do Egito. Era Ruínas por que lá eram só pedras, sem reboco. Tocamos em outros locais. A noite de São Luís acontecia ali na [avenida] Castelo Branco. Eu, Betto Pereira e Zezé fomos tocar na inauguração de um bar, chegou um cidadão e ele simplesmente pegou o extintor de incêndio, bêbado, abriu, aquele pó químico e sujou todo mundo. Era o bar Trem das Onze. Depois esse barzinho acabou, mas não em função deste episódio, mas aconteceu isso [Carbrasa batuca o pandeiro posando para fotos].

Você já viveu de música? Ou a música sempre foi uma atividade complementar? A música para mim sempre foi uma atividade complementar, nunca sobrevivi de música. Já recebi cachês, que complementam a minha renda familiar. Eu continuo tocando, não com a mesma intensidade que era na época. Hoje eu participo de um grupo de choro chamado Três no Choro, eu, João Eudes e Neto, a gente toca todo sábado na Caves du Vin. São três Joões. Como Neto viajou, acho que foi defender a dissertação dele lá em Minas, aí nesse mês agora, quem vai tocar lá é Robertinho Chinês [bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013].

Além de grupos como o Tira-Teima, Instrumental Pixinguinha, Alma Brasileira e Três no Choro você também já participou de grupos de samba. Quais foram? De grupo profissional eu participei do Arco Samba. Por que Arco Samba? Arco era nossa associação dos Correios, uma associação recreativa. A associação na época comprou os instrumentos pra gente, éramos eu, Jansen, Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], Josebel, que saiu dos Correios, Bento, que era funcionário dos Correios, mas morreu, Djalma, que tocava ganzá. Foi feito pra gente fazer uma coisa informal na associação, a gente se reunia para tomar cerveja, as pessoas foram conhecendo e chamando a gente para tocar, nas casas de São Luís. E teve também o Espinha de Bacalhau, eu, Vadeco, Chico Chinês [percussionista], Benivaldo [percussionista], o violão sempre quem tocava era Costa Neto, era considerado no violão. Às vezes ele não ia, chamavam João Eudes, Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013] Se bem que Luiz Jr. quando foi, eu já tinha saído. Dos novos eu já tive contatos, amizades com todo mundo, Robertinho, Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], mais recentemente Rafael Guterres [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de maio de 2014], ele organiza grupos para tocar em eventos, me chama para tocar.

Hoje você está só no Três no Choro? O Espinha de Bacalhau acabou? É. Do Espinha de Bacalhau eu saí. Atualmente eu só integro o Três no Choro.

Além de percussionista você desenvolve outras habilidades na música? Não. Só toco percussão. Qualquer dos instrumentos populares brasileiros, os instrumentos de samba todos.

Você já participou de gravações de discos? Lembra alguns? Já. [pensativo]. Não sei se esse disco já está pronto, mas do grupo Café com Leite e Pão, um grupo de samba que é Neto, Quirino [percussionista]. Gravei no primeiro disco de Rosa Reis, com o Pixinguinha, ela gravou Estrela, de Joãozinho Ribeiro, o grupo participou. Disco de carnaval, eu fiz um ano toda a parte de percussão.

E shows? Que artistas você acompanhou além de Roberto Rafa? Betto, Lula Bossa, passei seis anos tocando com ele. Desses que hoje são famosos praticamente todos. Com Lula Bossa foi aí que me apurou mais o ouvido para a questão da bossa nova. Nós fomos também colegas de colégio. De figuras nacionais participei de shows de Dona Ivone Lara e Diogo Nogueira. Fiz participação tocando também com J. Nogueira, hoje ele mora em Londrina, grande voz. Eu participei também de um grupo que não tinha nome, era eu, Paulo Trabulsi, Serra e Sadi [Ericeira, violonista], irmão de Paulo.

Para você o que significa o choro, qual a importância dessa música para você? Em termos de música brasileira, instrumental, é a principal música para mim. É a música que eu mais gosto de tocar. Ela exige muito.

Você se considera um chorão? Eu me considero. Pela experiência que eu tenho, pelo tempo vivido tocando choro, a coisa formal, a informalidade, as rodas de choro. Só por isso aí eu já me considero um chorão.

As visões de Chico Nô

Divulgação
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Às margens do Rio Tocantins, Imperatriz tornou-se famosa por aglutinar um grupo de músicos, a partir de meados da década de 1980, responsáveis por uma estética particular. Nomes como o paraense Neném Bragança, o tocantinense – como entrega o sobrenome artístico – Zeca Tocantins, o potiguar Nando Cruz, o pernambucano Carlinhos Veloz e os maranhenses – nenhum nascido lá – Erasmo Dibell, Chiquinho França, Luis Carlos Dias, Wilson Zara e Gildomar Marinho, entre outros.

Dos mais simpáticos músicos já surgidos no Maranhão, Chico Nô é dos poucos de fato nascidos em Imperatriz, embora já há muito radicado na capital maranhense. Também já viveu no Rio de Janeiro, onde aprofundou os estudos e aproximou-se do universo de Noel Rosa, uma de suas mais importantes referências.

No entanto, ao contrário do carioca falecido pouco antes dos 27, engana-se quem pensar numa figura eminentemente boêmia, de vida desregrada ou coisa parecida. Apesar do sorriso constante e do jeito simples, Chico Nô é também um dos mais dedicados artistas militantes, figura em extinção num estado em que a política – sobretudo a cultural – é, ainda, fortemente marcada pelo clientelismo e pela troca de favores. Não é raro vê-lo envergando um boné do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), envolvido em eventos organizados pelo próprio, entre outros movimentos e organizações sociais.

Conhecedor de um invejável repertório de terceiros, capaz de fazer inveja a qualquer profissional da noite e do “som do barzinho”, Chico Nô é também um admirável compositor, dono de obra robusta, em volume e qualidade. Para ficarmos em poucos exemplos, citemos Chorinho de herança (com letra de Ricarte Almeida Santos) e Pequenininho, ambas gravadas por Lena Machado em Samba de minha aldeia (2009), além de Taperoá voou, homenagem ao genial e pouco falado Vital Farias, Baião dos excluídos, gravada em Regar a terra (2005), disco coletivo que celebrou os 20 anos de MST no Maranhão, e Visões de Lampião (as três em parceria com Bruno Gueiros e Vergara), que dá nome ao show em que ele faz o pré-lançamento do disco homônimo, dividido com o músico e produtor Zé Paulo.

Note-se o equilíbrio de seu repertório, tanto afeito aos problemas sociais quanto à festa, quando não às duas coisas.

Visões de Lampião, o show, acontece hoje (29), às 21h, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande), e terá participações especiais de Patativa e do grupo Xaxados e Perdidos, além de discotecagem de Girleno. Os ingressos custam R$ 20,00 e podem ser adquiridos no local.