Arquivo da tag: raposa

Beleza silenciosa para deleite e superação de preconceitos

Divulgação

 

Se uma imagem vale mais que mil palavras, como diz o ditado, quantos sinais de Libras valerão uma imagem?

Há algo de inestimável na escrita da luz das pessoas surdas que puseram seu talento e sua arte à prova nesta Impressão do silêncio, muitos/as deles/as envolvendo-se com fotografia pela primeira vez.

A proposta em si já foge do óbvio e os fotógrafos foram além, revelando detalhes que poderiam passar despercebidos a olhares menos atentos. Deus e o diabo moram nos detalhes, para quem crê num ou noutro. Ou em ambos. Ou em nenhum.

Alcântara, Raposa, São José de Ribamar e São Luís são vistas por outros ângulos. Pedra de cantaria, paralelepípedo, piçarra, asfalto, cimento e mar, entre isto e o céu infinitas possibilidades.

Gente, paisagem, religiosidade popular, patrimônio cultural, gastronomia. Tudo é inspiração e tema para o olhar atento e sui generis dos artistas aqui revelados e reunidos.

Em tempos de instagram e da instantaneidade de um narcisismo em que a exposição e o número de likes quase sempre são preocupações maiores que a qualidade da fotografia, este livro prova que fotografar é bem mais que apertar um botão.

Eternizar o efêmero, uma das traduções da arte fotográfica. O resultado poético que temos em mãos é fruto de trabalho e persistência. Temos aqui 15 novos artistas da fotografia – é mais coerente falar em artistas que em profissionais, embora eles estejam aptos para atuar no mercado – revelados pela disposição de Veruska Oliveira em ensinar o que sabe e aprender o que muitos de nós ainda precisamos: deficiência não é um limite. Ao menos não deveria ser.

Portanto, além do deleite, além de apreciarmos a beleza e a diversidade capturadas pelas lentes desta turma, sua contribuição primeira está para além do que vemos, contribuindo para a superação de preconceitos.

Este livro revela ao mundo o talento de novos fotógrafos, mas é muito mais que um belo cartão de visitas. Transpondo Leminski para a ocasião, seu poema poderia afirmar: “vai vir o dia em que tudo que eu veja seja poesia”. Eis que este dia chegou.

*

Baita honra fazer parte deste belo e necessário projeto, a convite da querida, talentosa e imprescindível Veruska Oliveira. O texto acima é um dos que escrevi pro livro, que será lançado na próxima sexta-feira, conforme o serviço da imagem abaixo.

Divulgação

Vai ter peitinhos! E muito mais!

França, Marçal e Dinucci, o Metá Metá. Foto: divulgação
França, Marçal e Dinucci, o Metá Metá. Foto: divulgação

 

A programação completa ainda não está fechada, mas o Sesc/MA já anunciou os shows de abertura e encerramento da programação da 10ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, que acontece entre os próximos dias 25 de novembro e 3 de dezembro, em diversos espaços em São Luís e Raposa (este blogue voltará ao assunto em momento oportuno).

O show de abertura será do Metá Metá, formado por Thiago França (saxofone), Kiko Dinucci (guitarra, violão e voz) e Juçara Marçal (voz). É um dos mais interessantes grupos brasileiros em atividade, com um caldeirão sonoro em constante ebulição, onde cabe de tudo. Atualmente o trio prepara o terceiro disco e em maio passado liberou um EP de aperitivo para download.

O encerramento fica por conta do show Selvática, em que Karina Buhr lança seu terceiro disco – a pernambucana nascida na Bahia esteve em São Luís em outubro, quando participou da Feira do Livro. O álbum foi financiado por crowdfunding e pode ser baixado no site da artista. A ex-Comadre Florzinha é uma das mais autênticas artistas brasileiras: plural, é compositora, atriz, cantora, escritora, desenhista, feminista, enfim, uma mulher de atitude.

Encarnado. Capa. Reprodução
Encarnado. Capa. Reprodução

Uma curiosidade é que tanto Karina Buhr quanto Juçara Marçal sofreram censura por terem estampado peitos nas capas de seus mais recentes discos – no caso da integrante do Metá Metá o álbum solo Encarnado (2014, disponível para download no site de Juçara).

Selvática. Capa. Reprodução
Selvática. Capa. Reprodução

Enquanto a capa de Selvática (2015) estampa foto da cantora com os seios à mostra e foi censurada pelo facebook, a de Encarnado traz uma mulher com o rosto coberto por um véu vermelho e os mamilos expostos. O iTunes recusou-se a disponibilizar o álbum, sugerindo à cantora modificar a capa – desenhada por Dinucci – para veiculá-lo na plataforma. Obviamente Juçara Marçal se recusou.

Os episódios envolvendo as artistas, a rede social e a plataforma refletem os tempos sombrios em que vivemos, em que avança uma onda neoconservadora, infelizmente não apenas no Brasil. Ainda bem que ainda podemos contar – e ver e ouvir – com artistas “de peito”. Literalmente!

Confiram Karina Buhr em Eu sou um monstro (Karina Buhr):

Confiram Metá Metá em Trovoa (Maurício Pereira):

O Dondon do Araçagy

Chegamos ao local meio que por acaso, como quase sempre quando resolvemos descobrir lugares novos. É na doida, mesmo. “Vamos comer num lugar diferente”, decidimos, sem nunca ter lido nada a respeito ou sequer ouvido a indicação de qualquer amigo ou conhecido.

Assim rodamos um pedaço da Raposa até baixar no Bar e Restaurante O Dondon. Cantarolei o refrão “no tempo que Dondon jogava no Andaraí”, pagode que pesco numa k7 imaginária, com “clássicos do pagode” escrito a mão na lombada, tudo na minha cabeça. Troco o Andaraí da letra original por Araçagy.

O Dondon, o bar e restaurante, é uma espécie de megaquintal onde, em dias como ontem, é possível estacionar o carro na sombra das muitas palmeiras que ornam o local – a cada touceira, samambaias aos pés. Um brejo ao fundo termina de completar o frescor do lugar, garantindo uma temperatura agradável em meio ao calorão ilhéu. Acima dele se ergue uma espécie de flutuante, embora a estrutura seja fixa, com um tablado de madeira.

Sentamos sob uma das muitas barracas e pedimos uma cerveja enquanto a garçonete nos apresentava o cardápio, de preços muito bons. Por exemplo, uma peixada por 35 reais ou 40, no caso, acrescida de camarões. Ficamos na pescada frita, cuja satisfatória porção nos saiu pela bagatela de 25 reais, acompanhada de baião de dois, farofa e vinagrete. A porção de pirão, por fora, sai por menos que a cerveja, esta a cinco, aquela a apenas três reais.

Um senhor magro e de bigode aparece e comento que “aquele deve ser o Dondon”, ao que minha mulher retruca que “não tem cara”. Era ele. Atencioso – deve ser o tipo de dono de bar que conhece os fregueses pelo nome –, foi cumprimentar o casal que nunca havia visto. Conversamos um pouco. Elogiei-lhe o ambiente superagradável, perguntei se ele morava ali mesmo. “Sim, ali na frente”, respondeu, apontando uma casa ao lado do longo portão por onde entramos e já havíamos visto crianças correndo, brincando.

Dondon diz achar estranho o pouco movimento àquela hora, “aos domingos é sempre mais movimentado”. Eu já havia perguntado à garçonete o horário de funcionamento, “de terça a domingo, segunda é o descanso”, sempre do almoço “até coisa de seis, seis e meia”.

O nome de batismo de Dondon eu descobriria depois, num cartão que ele me deu, ilustrado com pequeníssimas fotografias da paisagem e de algumas iguarias servidas em seu estabelecimento.

De acordo com o cartão, a especialidade da casa é a galinha caipira ao molho pardo, mas é outra iguaria que Adonias Brasil, o Dondon, anuncia, quando perguntei se ele não fazia festas no local. “No último domingo de maio a gente faz o Festival do Peixe Serra”, diz, anunciando as bandas Tropical, Digital e Andréia Alves como atrações da grande seresta. “O ingresso é dez, dez”, diz, repetindo o valor, anunciando os preços pagos por homem e mulher. “Você paga o ingresso e a cerveja: o peixe é de graça, de meio dia à meia noite”, afirma.

Quando voltar por lá, levarei a máquina fotográfica para mostrar aos poucos-mas-fieis leitores deste blogue o espaço e as delícias. A quem não quiser esperar, taí o endereço: o Dondon fica na Rua São Sebastião, 47, Araçagy, Raposa/MA. Dica: vão lá. Sabor e brisa ainda não podem ser fotografados.