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Cliques firmes e posição clara

“Começa matando a guavira e depois pra continuar desenvolvendo tem que matar o próprio índio. E mata mesmo”. Foto: Pablo Albarenga
Enterro do agente de saúde indígena Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza, 23 anos, Reserva Te’ykue, município de Caarapó. Foto: Ana Mendes
Indígenas Guarani Kaiowá realizam vigília em frente ao Supremo Tribunal Federal, em Brasília, durante um protesto contra o Marco Temporal, uma interpretação da Constituição que busca modificar as regras para a demarcação de terras indígenas no Brasil. Foto: Ana Mendes
Indígenas Guaraní Kaiowá. Foto: Pablo Albarenga

 

Não se sabe o que restará aos/dos indígenas numa eventual nova intervenção militar, conforme ameaçou um general da reserva em uma rede social. O Brasil deixou de fazer muitas lições de casa: não puniu sequer um agente da repressão, ao contrário de outros vizinhos latino-americanos que também viveram sob a égide de uma ditadura, e indígenas, infelizmente, ainda são lembrados apenas no 19 de abril quando nossas crianças têm o rosto pintado na escola.

Uma antológica reportagem de Laura Capriglioni, publicada no caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo, em 11 de novembro de 2012, dá conta da violência ao quadrado praticada pela ditadura militar contra indígenas: a criação da Guarda Rural Indígena obrigava indígenas à prática da tortura entre si, com demonstrações públicas do pau de arara, brasileiríssima contribuição ao arsenal mundial de técnicas de tortura. O volumoso Os fuzis e as flechas – História de sangue e resistência indígena na ditadura [Companhia das Letras, 2017, 518 p.], do jornalista Rubens Valente, aprofunda a abordagem da relação do Estado brasileiro com os indígenas – foram centenas de mortes – durante os anos de chumbo.

O tempo passa e nada mudou. É o que demonstra a exposição conjunta Mantenho o que disse, da fotógrafa brasileira Ana Mendes e do fotógrafo uruguaio Pablo Albarenga, que será inaugurada no próximo dia 14 de abril (sábado), em Montevidéu, no Uruguai. Os 80 painéis fotográficos da dupla contam a vida dos Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Ao lado das imagens, 15 frases de políticos brasileiros sobre a questão indígena, ditas publicamente.

“Vamos parar com a essa discussão sobre terra. A terra enche barriga de alguém?”; “Temos que produzir sustentabilidade. Ensinar a pescar”; e “Estão aninhados quilombolas, índios, gays, lésbicas, tudo que não presta, estão aninhados ali”, são algumas das “pérolas” proferidas por quem legisla e fala sobre o que não entende.

Realização do Centro de Fotografia de Montevidéu (CDF), Mantenho o que disse fica em cartaz até 11 de junho na Fotogaleria Prado. A programação da exposição inclui bate-papo com os autores e oficina de fotografia com João Roberto Ripper [que assina o texto de abertura da exposição; leia tradução ao fim do post] – veja a programação completa no site do CDF.

Ana Mendes está cursando Mestrado em Ciências Sociais na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e é coautora de Ostreiros [Pitomba, 2016, 120 p.], com Bruno Azevêdo. Ela falou com exclusividade a Homem de vícios antigos.

Ana Mendes em campo, na Aldeia Laranjeira Nhanderu, com o cacique Guarani Kaiowá Faride Mariano. Foto: Pablo Albarenga

Mantenho o que disse é fruto de três anos de trabalho. Suas idas às aldeias já imaginavam uma exposição ou você esteve lá por outro motivo e o material realizado acabou tornando-se esta exposição?
​​​Eu estive nos territórios por conta de reportagens que fiz pra alguns veículos, em especial a Amazônia Real, que em 2016 e 2017 se dedicou a acompanhar a questão dos Guarani e Kaiowá​. Mas como estratégia pra dar continuidade às documentações que estou fazendo, sempre aproveito o embalo de trabalhos e fico um tempo a mais nos locais. No Mato Grosso do Sul cada vez que ia ficava dois, três meses. E em duas dessas ocasiões estive nas aldeias com o Pablo. A gente se conheceu lá, na verdade, dividindo angústias, compartilhando medos e coragens. Ele é um fotógrafo uruguaio que nunca tinha documentado o Brasil, mas entrou de cabeça. E o convite pra fazer uma exposição partiu dele. Eu não acho que o trabalho esteja concluído, ao contrário, acho que é só o começo. Costumo dizer que faltam ainda 13 anos de documentação nos Guarani e Kaiowá. Isso porque fui formada enquanto documentarista pelo fotógrafo João Roberto Ripper e ele fotografou esse povo durante 16 anos.

Recentemente Walter Firmo esteve em São Luís, ministrando uma oficina. Em uma palestra inaugural, comentou a liberdade que passou a ter quando abandonou o fotojornalismo em 1985. Você é fotojornalista, atuando em veículos independentes. Como você avalia o cenário, nestes tristes tempos de fake news?
​Eu acho que na roupagem tradicional o jornalismo reprime mesmo as possibilidades de comunicar histórias múltiplas. Mas a reinvenção recente do jornalismo, que vem a partir da internet e da falência de certos jornalões, não nos permite mais pensar o jornalismo como prisão. Eu sou uma entusiasta da comunicação! E me encantam as experiências concretas de comunicação popular – quando os narradores das histórias são o próprio povo. Sobre fake news, acredito que isso não é novo, certo? Novas são as ferramentas. Mas os pregadores da moral e bons costumes sempre estiveram aí difamando as cabeças rebeldes e livres.

Na exposição que você divide com o Pablo, há um atrito entre as imagens e as legendas, estas retiradas de falas de políticos, em tese representantes do povo brasileiro, mas sempre negando direitos dos indígenas, ao contrário das fotografias, que re-afirmam estes mesmos direitos. Como surgiu a ideia e como foi desenvolvê-la até chegar a este resultado?
​Eu acho que certas experiências só têm porta de entrada. E esse é o nosso caso com a questão indígena. Uma vez que você testemunhou coisas profundamente tristes e coisas profundamente felizes ao lado de um povo, você troca as lentes com as quais vê o mundo. O sentido das coisas se inverte. A Dona Miguela, uma índia de quase 80 anos, nunca mais comeu guavira – porque a monocultura é o único horizonte da Terra Indígena Guyraroká, onde ela vive, no município de Caarapó. A saudade de um pé de planta, do gosto de uma fruta, nunca vai ter importância pra uma política de Estado. Mas o apagamento das memórias é o primeiro passo do genocídio de um povo. Começa matando a guavira e depois pra continuar desenvolvendo tem que matar o próprio índio. E mata mesmo. Prova disso são essas frases de cunho racista que incitam o ódio. Isso gera morte real, concreta. Por conta da gravidade dessa campanha anti-indígena que ocorre no país nos pareceu necessário trazer as frases, apontar quem disse o quê e quando. Não me lembro como a ideia surgiu, eu sei que o acervo de frases só cresce desde que começamos a pesquisar. Na exposição colocamos 15, mas existem muitíssimas mais, infelizmente.

O cenário ainda é bastante incerto no Brasil, mas há uma pré-candidatura à presidência da República que conta com a indígena Sônia Guajajara como candidata a vice, na chapa. O que você pensa a respeito?
Eu acho que Sônia pode fomentar o debate sobre a questão indígena, trazer o assunto finalmente pra pauta.  Mas eu sou bastante cética com a política partidária. Eu me afino mais com movimentos contra-hegemônicos. E acredito que alguns povos indígenas vêm ganhando autonomia, criando novos jeitos de fazer política. Os Ka’apor, também do Maranhão, são um exemplo. Não significa que não vá haver bons frutos pra se colher nesse momento de debate eleitoral com Sônia, uma liderança importante, uma mulher indígena. Com certeza estarei atenta aos passos de Sônia e vou vibrar se a candidatura dela causar incômodo e minimamente abalar as estruturas ocupadas há tantos séculos pelos mesmos nomes.

Verso do postal da exposição. Reprodução

MANTENHO O QUE DISSE

POR J. R. RIPPER

“Ana Mendes e Pablo Albarenga são fotógrafos com grande domínio técnico e conhecimento tanto do jornalismo quanto do documental. Estudam o tema que fotografam e tomam uma posição clara. Não ficam atrás das cercas nem empregam essa hipócrita imparcialidade que tanto se ensina nas escolas de jornalismo. Suas fotos proclamam a defesa dos direitos humanos e, em particular, dos direitos das comunidades indígenas.

Seu trabalho rende homenagem à história de grandes fotógrafos. “As pessoas são mais importantes que as fotos”, dizia [o fotógrafo Henri-Cartier] Bresson. Seu compromisso me recorda [os fotógrafos] Eugene Smith e Lewis Hine. Às vezes suas câmeras fotografam com o coração, noutras, colocam a cabeça em frente à câmera e não atrás, como dizia [o fotógrafo] Oliverio Toscani.

O trabalho que apresentam é fantástico. Desnuda o bruto e vigente genocídio que se está levando a cabo no Brasil e, com ele, a postura assassina que toma os poderes em meu país”. (Tradução: Zema Ribeiro)

Martírio é talvez o mais importante filme sobre a questão indígena já realizado no Brasil

Martírio. Frame. Reprodução
Martírio. Frame. Reprodução

 

Um policial é assassinado e causa comoção em membros da bancada ruralista, após a viralização de um vídeo em que agoniza dizendo-se amigo de indígenas. Os conflitos entre Guarani-Kaiowas registram um placar de ao menos 50 lideranças indígenas assassinadas ao longo dos últimos 30 anos contra três policiais, embora a questão não seja relativizar ou hierarquizar a importância de vidas.

Martírio. Cartaz. Reprodução
Martírio. Cartaz. Reprodução

Nada é excessivo nas quase três horas de Martírio [Brasil, 2017, 160 min.], documentário em que o antropólogo e indigenista francês radicado no Brasil Vincent Carelli – narrador da película –, Ernesto de Carvalho e Tita registram a luta por terra da população indígena sul-mato-grossense, entre os rios Paraná e Paraguai. O filme amealhou entre outros prêmios os de melhor longa-metragem (especial do júri e do júri popular) no 49º. Festival de Brasília e melhor documentário (do público) na 40ª. Mostra de Cinema de São Paulo.

É talvez o mais importante filme sobre a questão indígena já realizado no Brasil. Embora se concentre nos Guarani-Kaiowas e nos últimos 30 anos de História, cobre mais de 100 anos de luta indígena (as reivindicações pouco mudam, variando o grau de violência empregado contra os povos originários), abordando desde a criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), em 1910, o decreto de Getúlio Vargas que institui 19 de abril como Dia do Índio, espécie de “prêmio de consolação” pelo “embranquecimento” promovido pelo Estado, passando pela criação da Fundação Nacional do Índio (Funai), durante a ditadura militar, e a fatídica guarda indígena, quando indígenas recebiam treinamento militar para a prática de torturas, até a Assembleia Constituinte, que só garantiu aos indígenas o papel de sujeitos de direitos graças às suas mobilizações.

Vincent Carelli tem cerca de 40 anos de atividade indigenista e Martírio é um filme fartamente documentado – afirmação que pode soar redundante, já que estamos tratando de um documentário. Isto é: vai além da colheita de depoimentos de indígenas – alvo de críticas aos antropólogos e seus laudos pelos ruralistas e simpatizantes de plantão – mostrando a realidade nua, crua e quase sempre sangrenta. Tudo lhe serve de fonte: de documentos históricos a imagens de arquivos de emissoras de tevê, passando por filmagens dos próprios indígenas, com câmeras e celulares – para espanto de alguns, que os imaginam como se ainda estivéssemos em 1500. Em determinados momentos o espectador se vê no meio de um conflito, inclusive entre a religiosidade e o modo de viver indígena e o capitalismo.

Sem muito esforço, Martírio mostra também o que há de mais retrógrado no Congresso Nacional, ao exibir trechos de reuniões de empresários do agronegócio e da bancada ruralista, formada por alguns daqueles ou seus lobistas, em sua sanha pela retirada dos direitos dos indígenas, sem poupar munição verborrágica contra antropólogos, organizações internacionais, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) – braço da Igreja Católica para a questão indígena –, e até mesmo a Funai, órgão do governo que pretendem desmantelar para mudar as responsabilidades pela demarcação de terras indígenas.

O documentário é, como são os bons filmes do gênero, uma espécie de longa reportagem, em que os diretores demonstram que a questão indígena é um problema complexo e, longe de ser responsabilidade exclusiva dos governos federais do Partido dos Trabalhadores, mostra o quão pouco foi feito nos mandatos de Lula e Dilma, situação que piora após sua destituição pelo golpe parlamentar-jurídico-midiático.

Martírio acompanhou o drama que levou a região e a etinia a um dos mais altos índices mundiais de suicídio – entre os indígenas Guarani-Kaiowas, ocasião em que muitos usuários adotaram o sobrenome indígena em seus perfis em redes sociais, embora o problema exista desde muito antes da invenção do facebook.

Martírio integra a programação da Sessão Vitrine Petrobrás e está em cartaz no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com sessões às 15h20 (de terça a sexta-feira). Os ingressos da Sessão Vitrine Petrobrás custam R$ 12,00 (meia entrada: R$ 6,00).