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Maria Aragão em tempos de golpe: atual e necessária

Uma subversiva no fio da história. Capa. Reprodução

 

O jornalista Emilio Azevedo lança na próxima quarta-feira (14), às 19h, o livro Uma subversiva no fio da história [2016, Ed. do autor; revisado por este blogueiro], um conjunto de nove reportagens sobre a vida e o legado de Maria Aragão, uma das mais importantes personagens da política no Maranhão no século XX.

Embora tenha elementos, o livro não se configura uma biografia. Foi escrito entre 2007 e 2009 e repousou numa gaveta até ser retomado pelo autor, este ano. Ele confessa: tinha críticas quanto à obra, para o qual os nove textos foram escritos. Depois de mais cinco meses de trabalho, uma espécie de reconciliação entre criador e criatura permite que a segunda chegue ao público agora.

A noite de autógrafos será movimentada: o Teatro João do Vale (Rua da Estrela, Praia Grande) receberá show da cantora Tássia Campos – com o mesmo título do livro –, além de esquetes do Gamar – grupo de teatro amador formado nas dependências de uma escola que leva o nome da médica comunista – e de Maria Ethel, cuja “encarnação” de Maria Aragão em A besta-fera é um hit do teatro local.

Emilio Azevedo parte de um exercício difícil: humanizar Maria Aragão, relendo-a e recontando-a para além da execração – os que a detestavam e tratavam-na por puta, besta-fera e que tais – ou da beatificação – os que a adoravam e consideravam-na uma espécie de santa. É a essência humana que move o jornalista através de suas nove reportagens, embora ele mesmo confesse tratar-se de um livro de fã.

Tendo Maria Aragão como personagem central e fio condutor, Emilio refaz um pequeno pedaço da história do Brasil e do Maranhão, ao abordar a época e a conjuntura em que a “médica comunista” – longe do clichê – realizou sua militância, sua ação subversiva. Estão lá Luiz Carlos Prestes, o PCB, a ditadura militar, a Igreja Católica, as oligarquias. É um livro ousado de um autor que não teme assumir-se de esquerda, num tempo em que há quem ouse dizer não existir mais esquerda ou direita – estes, sabemos de que lado estão.

A antropóloga Maristela de Paula Andrade, no prefácio de Uma subversiva no fio da história, defende a adoção do livro por escolas. “Esses heróis fabricados, artefatos políticos, ganharam bustos em praça pública e lugar certo, inquestionável, na formação escolar das crianças e da juventude. Foram heróis da classe dominante, dos que detiveram o poder em cada conjuntura histórica, mas inventados e cultuados como defensores de todos. Por que não contar aos jovens brasileiros a história de pessoas como Maria Aragão, que lutaram por igualdade, justiça, liberdade, por um mundo melhor para os explorados e oprimidos?”, indaga a professora da UFMA.

O questionamento é pertinente em tempos de golpe, quando tantos outros saem às ruas reivindicando uma intervenção militar. Emilio Azevedo mostra a atualidade do legado de Maria Aragão, mais que médica ou comunista, uma mulher que educava pelo exemplo. Sempre é tempo de aprender.

Emilio Azevedo conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

O jornalista Emilio Azevedo conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos. Foto: Altemar Moraes/ Vias de Fato
O jornalista Emilio Azevedo conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos. Foto: Altemar Moraes/ Vias de Fato

Uma subversiva no fio da história é seu terceiro livro, todos com uma posição à esquerda, o que é uma dificuldade do jornalismo, hoje. Qual a importância do jornalista assumir que tem lado?
Tem toda importância. É uma questão de honestidade com o leitor. Recentemente vi uma palestra do Caco Barcellos [na 10ª. Feira do Livro de São Luís], onde ele falava do jornalismo declaratório e de um outro jornalismo que eu não lembro agora como ele definia, um jornalismo imparcial, neutro, um jornalismo essencialmente informativo. Não sei como ela define o jornalismo feito por William Bonner, Alexandre Garcia ou Arnaldo Jabor. A verdade é que acho impossível você trabalhar com jornalismo e dissociar de uma posição política. A pauta já é ideológica, o veículo em que você trabalha é ideológico. O aspecto ideológico de uma reportagem nasce a partir da pauta, do lugar onde ela é publicada, veiculada. Se você faz um bom jornalismo dentro da Rede Globo, no geral você está referenciando, legitimando o mau jornalismo que a Globo faz. As coisas estão associadas. Eu não acredito em imparcialidade, sempre disse isso, escrevendo ou em mesas de debate. O jornalismo pode ser honesto e desonesto, mas será sempre essencialmente ideológico, político. Você pode ser honesto no seu fazer jornalístico, deixando clara sua posição. O leitor não é idiota, ele sabe filtrar os excessos porventura cometidos.

Quando você diz que alguém como Caco Barcellos, dentro da Globo, em vez de ser uma exceção, referenda o mau jornalismo praticado pela emissora, você não acredita em reserva moral ou que outro nome se queira dar para isso? Uma exceção, o fato de ele estar lá significando poder fazer o jornalismo que ele pratica chegar a mais gente?
Eu não vou dizer que ele está certo ou errado em trabalhar na Globo. Todo profissional tem que trabalhar e pagar suas contas. Não entro nesse tipo de patrulhamento. O problema é vestir a camisa do patrão. É tirar onda de bom moço e sair em defesa dos interesses da família Marinho. A merda tá bem aí. Nessa palestra, especificamente, Caco Barcellos pisou na bola ao dizer o seguinte: “pra todo mundo que fala mal de mim ou do veículo em que eu trabalho”, no caso, a Globo, “eu digo: “faça melhor!””. Encaro esse papo como uma piada de mau gosto. É certo querer tirar da sociedade a possibilidade de criticar um veículo que é uma concessão pública? É um ponto de vista completamente equivocado. Tem que ter muita crítica a todos os veículos, aos que são concessão pública, no caso das emissoras de TV e rádio, e também aos que não são. Uma coisa é a crítica, outra coisa é a agressão, a violência, a estupidez. A crítica é saudável. No caso dessa palestra específica, ele pediu que não criticasse a Globo, que fizesse melhor. A Globo tem rios de dinheiro. E de onde vem esse dinheiro, quem patrocina? Se ele tem estrutura pra chegar às três da manhã, na frente de todo mundo, com 10 carros, alguém está pagando essa conta. Isso não sai do bolso do Caco Barcellos, isso sai do bolso da empresa que tem patrocinadores x, y e z. Tudo isso tem que ser levado em conta. Qual o interesse do patrocinador? É só de vender seu produto?

Às vezes não fazer melhor que a Globo não é falta de vontade, há muita gente aí disposta.
Essencialmente é: quem paga a conta? Quem financia a Globo? A Record? A Veja? Todas as empresas têm interesses políticos.

Este é um ponto essencial: se as pessoas assumissem os patrocinadores, às vezes seria mais rápido e fácil descobrir de que lado os veículos estão, ideologicamente.
Isso é pouco debatido. Pouco se interessa por quem paga a conta.

Você está à frente, há sete anos, do Vias de Fato, que tem uma postura de independência, com seus parcos financiamentos, mas com uma postura ideológica clara. De algum modo isso dialoga com a experiência de Maria Aragão na Tribuna do Povo. A Tribuna do Povo de Maria Aragão, de algum modo foi ou é inspiração para o Vias de Fato?
São momentos distintos, projetos distintos. E uma coisa, essencialmente, os distingue: o projeto da Maria era ligado a um partido. Com toda dificuldade financeira, com todo isolamento, um isolamento à esquerda, mas tinha uma relação com o comitê central do partido, tinha esse tutor, que ficava no Rio de Janeiro. No caso do Vias, ele não é ligado a nenhum partido, nem é centralizado por ninguém. Trata-se de outro momento histórico, completamente diferente no que se refere à organização do campo progressista. A utopia hoje parte de um desejo de pluralidade e horizontalidade, onde todo mundo é passível de crítica, inclusive a própria esquerda. Agora, em relação às dificuldades operacionais, os dois são parecidos.

A Tribuna do Povo era um jornal de uma mulher só.
O Vias de Fato tem mais mulheres, tem mais gente [risos].

O Vias de Fato talvez tenha mais gente, mas ainda é uma equipe pequena. Nesse sentido, que outras semelhanças e diferenças você apontaria?
Semelhança é essa coisa do gueto, eu digo isso no livro, que a Tribuna do Povo é um jornal de gueto. Algumas pessoas fazem questão de dizer que o jornal de Maria não tinha nenhuma influência, mas o antropólogo Alfredo Wagner [Berno de Almeida] coloca a importância dele como uma fonte única naquele tempo. Aí acho que existe uma semelhança. O Vias está no gueto, assumidamente no gueto, mas também é, às vezes, fonte única para determinados assuntos, o que ninguém vai dizer, você vai encontrar lá, no Vias de Fato, o “panfleto” de esquerda. Aí tem um compromisso com a história, compromisso com o processo histórico. Os comunistas têm essa noção do processo histórico. O Vias, apesar de não ser marxista, também tem essa noção.

Emilio, você tem uma formação comunista, inclusive tem a mesma filiação partidária de Maria Aragão.
Desde 2009 estou afastado do partido. Sobre o assunto, vejo muita gente que não é comunista, se dizendo comunista no Brasil. Eu sou o contrário: sou tachado de comunista, mas não me considero marxista-leninista. Acabei me filiando, há quase 15 anos, talvez um pouco menos, ao PCB, por uma questão tática. Diferente de hoje, na época eu tinha interesse em atuar em um partido e pelo fato de ser de esquerda, queria um partido à esquerda. A conjuntura me empurrou para o PCB. Me filiei circunstancialmente, fui ficando. Tenho muito respeito pelo partido, muitos amigos por lá, aprendi muitas coisas, mas essencialmente não sou marxista-leninista. Não gosto de me rotular. Tenho influências cristãs, de esquerda, marxistas, mais recentemente até anarquistas, mas isso não me rotula. Não estudei o suficiente para carregar rótulos. O mínimo que se espera de um marxista é que ele tenha lido toda a obra de Marx, mesmo que não tenha sido em alemão [risos]. Eu fui católico, hoje sou agnóstico. Quando deixei de ser católico, rompi com dogmas. Me parece que todos esses ismos têm dogmas. Então, você fica preso a um determinado dogma e a partir disso cria uma determinada camisa de força, acho ruim. É ruim mesmo entre os intelectuais, o que não é o meu caso. O sujeito passa a pensa a partir de ideias pré-estabelecidas. Acho melhor transitar, pegar uma coisa aqui, outra ali e raciocinar por contra própria. A generosidade não é exclusividade de um só filosofo ou profeta.

Por falar em comunista, acabamos de perder um ex-comunista, o Ferreira Gullar.
Acho que Ferreira Gullar é ótimo como poeta e péssimo como político. Como poeta foi genial, como político se comportou como um oportunista qualquer. Fico à vontade para falar por que em 2001 fiz um artigo chamado A política suja de Ferreira Gullar. Este texto foi panfletado dentro de uma exposição que ele fez aqui em São Luís. A iniciativa da panfletagem não foi minha e eu não participei dela. Ele, um sujeito inteligente, não passou recibo. Não era o caso.

E Maria Aragão como personagem? Você tem uma abordagem que foge das duas mais comuns: os que não gostam, para quem ela era a puta, a besta-fera, ou os que gostavam e a colocam num altar, Santa Maria Aragão. Você tira Maria Aragão destes dois lugares, digamos, mais fáceis, tratando-a como uma pessoa comum, que fez o que fez. Você acha que faltam Marias Aragões no mundo?
Não sei se consegui humanizar Maria Aragão. Tentei. Mas acho que, no fundo, o livro tem algo de exaltação. É um livro de fã. Tentei, já na última etapa do trabalho, retirar essa carga toda. Talvez o último capítulo, de alguma forma, critique o próprio livro. Meu amigo Wagner Cabral, que é historiador, não gosta de biografias. Meu livro não é uma biografia, são nove reportagens, mas sem dúvida é um recorte biográfico. Então, você acaba se apaixonando pela personagem, é uma coisa natural. Fiz um esforço de humanizar, não sei se consegui. Não digo isso no livro, mas acho que existem muitas anônimas iguais a Maria Aragão. Sem querer idealizar uma classe, te digo que nas camadas populares encontram-se muitas mulheres lutadoras, corajosas, generosas e solidárias. Na periferia de São Luís vi de perto o que exaltamos em Maria Aragão. Vi mulher apanhando e outra indo lá e se metendo no meio do casal, para defender a agredida. Vi isso mais de uma vez. Tem muita gente assim. E o grande desafio, no caso de Maria, é não beatificar, é não transformar em santa, é mostrar que é possível fazer como ela fez. Foi uma grande mulher, mas é possível ser como ela, fazer o justo, fazer o correto, cometer erros e acertar algumas vezes. Não aceitar injustiças. Saber escutar. Não desistir. Foi o que ela fez.

O nome que você pensou originalmente para este livro foi Maria Aragão no fio da história. Por que a troca para Uma subversiva no fio da história?
Ao tratar de “uma subversiva” estou falando da própria Maria Aragão – que foi subversiva –, da ação política dela e do processo em que ela estava inserida. É também uma forma de estimular o debate em torno da subversão. Estamos precisando disso. São pessoas e ações subversivas, transgressoras, que andam a margem ou na contramão, que têm o poder de mudar o curso da história e melhorar as coisas. Normalmente o desejo de liberdade e a subversão caminham juntos.

Se não de mais Marias Aragões, você acha que hoje o Brasil precisa de subversão?
Nos últimos anos, quando nosso país viveu sob o comando do PT e do lulismo, ficaram expostos conflitos que historicamente estiveram presentes na sociedade brasileira. Conflitos de valores, conflitos de origem política. Uns ligados às classes sociais e outros relacionado à moral e aos costumes. Neste contexto atuam setores elitistas e conservadores, acrescidos de fariseus e fascistas. Atuam também os que defendem direitos e/ou vivenciam discriminações seculares, neste caso os pobres, negros, mulheres, indígenas e homoafetivos. Isso vai além da disputa entre partidos ou desse maniqueísmo que reduz tudo a “coxinhas” e “petralhas”.

E o subversivo nesse contexto?
Está presente em várias situações. Veja a atual ocupação das escolas e das universidades. É desobediência civil. É algo que subverte a ordem estabelecida. É uma desobediência saudável e necessária, diante dos abusos e da violência cometida pelo atual governo federal e pela maioria do Congresso Nacional. E essas ocupações estão sendo protagonizadas por jovens que vivem esses problemas históricos. São exatamente pobres, negros, mulheres e homoafetivos. Até onde vi, são eles que compõem a maioria desse movimento.

Você poderia dar outro exemplo?
Hoje, no Maranhão, acho emblemática a ação dos indígenas da etnia Gamela, na região de Viana. Em meados do século XX eles foram considerados extintos. Agora, através de uma teia de povos e comunidades tradicionais, que reúne também quilombolas, eles se rearticularam e ocuparam três fazendas. Os Gamela entraram numa terra que é deles. E fizeram isso sem esperar pelo Estado, pela Justiça, por cartório, por burocratas ou pela Funai. Enfim, sem esperar por instituições que hoje, notoriamente, enfrentam sérios problemas de credibilidade. A questão envolvendo recentemente Renan Calheiros e o Supremo mostra bem isso.

Você falou também dos costumes…
Este ano, no Rio de Janeiro, um garoto foi barrado na escola por que estava vestindo saia. No outro dia, todos os meninos da turma dele foram de saia e a escola teve que ceder. O caso repercutiu no país. Ouvi conservadores dizendo que estamos no “final dos tempos”. É interessante perceber que entre essas pessoas, muitos não se preocupam com a devastação ambiental ou com a miséria absoluta de parte da humanidade. É o modo de vestir de alguns que, para eles, indica “o final dos tempos”. Bem, mas diante do mesmo caso, os mais arejados disseram que trata-se apenas de uma roupa, de uma questão de liberdade individual e que cada um deve ter a possibilidade de se vestir como quiser. Diante de um tema tão simples, isso gera conflito e acirrados debates. Em São Luís, numa escola particular do Renascença, soube que uma menina foi impedida de entrar porque estava com um turbante. Houve repercussão nas redes sociais. O racismo, a misoginia e homofobia estão aí, mas a reação a essas antigas formas de violência, de alguma forma, tem crescido.

Emilio, você fez esse livro mais ou menos na época em que Jackson Lago foi governador.
Foram dois períodos: 2007 a 2009 é o primeiro período. Em 2016 eu trabalhei ainda cinco meses nele.

Mas aí já foi uma fase mais de ajustes, revisão. A pesquisa em si foi lá atrás.
Sim, 90 e tantos por cento da pesquisa foi feita nesse período.

Por que demorar tanto a finalizar e publicar?
Em parte o projeto Vias de Fato me tomou muito tempo. Talvez este seja o motivo maior, mas eu também tinha algumas críticas ao livro e hoje eu tenho menos, graças ao trabalho que fiz este ano.

Todas aquelas reportagens são inéditas?
Todas são inéditas. No capítulo das oligarquias, deve ter 10 a 12 laudas o capítulo todo, eu aproveito umas quatro de um artigo que saiu no Jornal Pequeno, em 2006.

Então quando você escreveu essas reportagens já estava pensando em livro.
Sempre! Foram todas feitas para o livro. À exceção dessa introdução das oligarquias. Neste livro acabo juntando a fome com a vontade de comer. Ao mesmo tempo eu tenho admiração e respeito por Maria Aragão, mas é uma forma também de contar um pouco a história recente do Maranhão, a história recente do Brasil, falar de assuntos que eu adoro discutir e que eu acho que são importantes para essa geração saber, minimamente. Eu não sou historiador, sou jornalista, mas acho que um compromisso que o jornalista tem é de deixar registros para a história. Eu estou falando de uma história muito recente, uma coisa que não é história de historiador, é história de jornalista, que é de 40, 50 anos pra cá. As fontes estavam todas vivas ainda, são 51 entrevistas.

Mais que médica, mais que militante partidária, comunista, Maria Aragão foi uma educadora. Uma educadora que educava pelo exemplo.
Essa coisa da educadora eu peguei no processo do livro, eu construí o último capítulo pensando no legado. Essa reportagem não estava prevista, acabou servindo como uma conclusão, esse legado da educação popular, como a esquerda chama, de formação, de educar pelo exemplo. Na minha avaliação está tudo relacionado. Maria Aragão teve uma vida ligada aos pobres e miseráveis, as periferias urbanas e também aos camponeses. Quando foi dirigente da CUT, no Maranhão, a hegemonia era de trabalhadores rurais. Antes do golpe de 1964, principalmente na década de 1950, ela também atuou junto à organização de lavradores. No plano moral, Maria Aragão foi vítima da violência de farisaicos e fascistas, que lhe chamavam pejorativamente de puta, pelo fato dela ter tido uma filha sem estar casada e por ter vivido com um homem sem passar pela igreja. E Maria foi pra cima dos hipócritas. Enfrentou. Ela não abaixou a cabeça diante das violências que sofreu.

No entanto, como você afirma no livro, ela não era feminista.
Como me disse a professora Mary Ferreira, em entrevista para este livro, a vida de Maria Aragão representou, na prática, aquilo que as feministas defendem. E ela se aliou às feministas em várias ocasiões. Maria, a comunista, foi uma mulher livre, que não se submeteu a opressores. Agora em dezembro, num evento ocorrido em São Luís, promovido pelo Fórum Maranhense de Mulheres e que denunciou e debateu a violência contra a mulher, foi colocada uma polarização entre transgressoras e recatadas. Nesse debate, a vida de Maria Aragão, a subversiva maranhense, tem um grande valor pedagógico. Maria foi, de várias maneiras, transgressora. Subversão e transgressão normalmente caminham juntas.

Maristela no prefácio defende que teu livro seja adotado em escolas. Você tem essa pretensão, esse desejo?
Não tenho nem pretensão nem canais [risos]. Quem sabe depois de morto [risos]. Uma coisa que eu quero fazer é debater esse tema, esse tempo, a partir de uma ação subversiva. Discutir hoje o que é subversivo à luz de Maria.

Deixa eu tentar fazer um exercício de presentologia, já que, como Maria já faleceu, não dá para fazer de futurologia: pelo teu mergulho na vida e no legado de Maria Aragão para a feitura do livro, como você acha que seria seu comportamento em relação ao momento político que o Brasil atravessa?
É até um atrevimento. Certamente ela estaria contra o governo Temer, isto é uma obviedade. Seria contra os tucanos, isso é outra obviedade. Acho que ela teria críticas ao PT. Dizer mais do que isso eu não me atrevo. Não seria correto da minha parte.

Tua ideia de lançar o livro com o show de mesmo nome, Uma subversiva no fio da história, retoma uma tradição importante. Lembro O Pasquim, que era uma experiência de esquerda no jornalismo brasileiro e esta, com certeza, influencia o Vias de Fato, em uma determinada época encartava discos. O livro vai trazer encartado um show de Tássia Campos, cantando um repertório de revolucionários ou que Maria Aragão ouvia em casa. Tássia é uma das cantoras dessa “nova” geração da música do Maranhão muito competente, muito interessante, com uma postura ideológica alinhada a Maria Aragão. Como foi costurar essa noite de autógrafos?
A ideia do show começa com o trabalho da Carabina Filmes. Começa no vídeo que eles fizeram para anunciar o lançamento de Uma subversiva no fio da história, a partir da visita que Tássia fez ao memorial Maria Aragão. O trabalho de [os cineastas] Leide [Ana Caldas] e Inácio [Araújo], somado à interpretação da Tássia, foi o primeiro ato, antes mesmo de chegar ao palco do teatro. No Brasil, livro impresso é coisa de elite. É um objeto caro e consumido por poucos. Ao misturar o livro com diferentes linguagens artísticas temos a possibilidade de popularizar o trabalho, ampliando a mensagem e sua função social. E é uma relação de mão dupla, pois livro também pode provocar. Em 2006, quando lancei O caso do Convento das Mercês, esse livro inspirou o Vale Protestar, movimento que juntou teatro e música e que projetou a personagem “Rosengana”, a partir de uma reunião de vários artistas, entre eles Cesar Teixeira, Kátia Dias, Moizés Nobre, Rejane Galeno, Nadnamara Rocha, Valberlúcio Pereira, Claudia Santos e Raimunda Lopez. Hoje, com Uma subversiva no fio da história, espero, junto com os artistas, fazer algo diferente de uma tradicional noite de autógrafos. O protagonismo deles amplia a proposta do livro, aumenta a provocação, aumenta o diálogo com a sociedade. Repito: livro, no Brasil, é uma coisa pra elite, uma coisa cara, pra uma elite intelectual, econômica. Não fiz livro pra intelectual, apenas. Eu respeito os intelectuais, mas não quero meu livro limitado a eles. Quero um livro que possa, minimamente, interagir com a sociedade, provocar a sociedade de alguma forma, conseguir cumprir uma função social mais ampla. Aí eu acho que música, cinema, teatro, tudo isso facilita a possibilidade de ampliar a função social do livro.

O Vias de Fato já produziu outros shows, por exemplo, o Tarja Preta, ano passado.
Pois é, no ano passado, para comemorar os seis anos do Vias de Fato, o jornal organizou o Baile Tarja Preta, num processo que juntou pessoas da música, do teatro e do cinema. Naquele baile, por exemplo, o ator Lauande Aires fez uma leitura dramática junto com Rejane, tratando de temas comuns ao Vias. Hoje, o show inspirado no livro sobre Maria Aragão é consequência dessa mistura, que passa pelo Tarja Preta e já vem desde 2006. Agora, no dia do lançamento desse livro, teremos a apresentação de duas esquetes teatrais, antes da apresentação de Tássia. Uma com estudantes da Unidade Integrada Maria José Aragão, da Cidade Operária, e outra com a atriz Maria Ethel, com um trecho do espetáculo A besta-fera. E no show de Tássia haverá uma participação do cantor Claudio Lima, que vai interpretar composições de Marcos Magah.

Voltando um pouquinho, como Tássia entrou na história?
Por uma questão de identidade. Os shows que ela montou a partir de Nara Leão, Sergio Sampaio, Belchior, algumas músicas que ela canta no show que faz junto com Camila Boueri e Milla Camões expressam essa identidade. Além do talento evidente, Tássia me remete a sensibilidade, inquietação, insubordinação. Uma subversiva no fio da história tem relação com isso. Eu e ela também nos tornamos amigos, mas a escolha para este projeto vai além disso.

A partir dessa constatação, de que forma você pensa em tornar o livro mais acessível, do ponto de vista do preço, da distribuição.
Em termos de circulação a maioria dos livros hoje vai ter dificuldade. Principalmente em tempos de microcomputador travestido de celular.

Você pensa em disponibilizar o livro para download?
Num segundo momento, sim. Nesta primeira etapa, preciso pagar o projeto, então preciso circular com o livro em 2017, dentro e fora do Maranhão. Em São Luís vou botar em bancas, livrarias, em alguns pontos da cidade, e circular, debater a questão da ação subversiva nesse tempo de hoje. Acho que publicar um livro hoje já é, por si só, um ato subversivo.

As lutas de Clara. E nossas

Aquarius. Cartaz. Reprodução
Aquarius. Cartaz. Reprodução

 

Creio ainda não ser possível mensurar se a polêmica envolvendo a equipe de Aquarius [drama, Brasil, 2016, 145 minutos; em exibição no Cine Praia Grande] em Cannes, que protestou contra o golpe que cassou a presidenta Dilma Rousseff, ajudou ou atrapalhou os números da bilheteria do novo filme de Kléber Mendonça Filho. Independentemente disso, trata-se de uma obra-prima do cinema nacional.

Dono de uma voz bastante particular, o cineasta pernambucano soa talvez profético em Aquarius. É a história de Clara (Sônia Braga), jornalista aposentada, que venceu um câncer e agora luta sozinha contra os tubarões da especulação imobiliária na grande Recife. É o prédio em que Clara mora, na praia de Boa Viagem, e do qual não quer sair, que dá título ao filme.

Quem assistiu O som ao redor certamente também o aprovará. Os filmes têm alguns paralelos: ambos têm Recife como cenário, repetem alguns atores da predileção de Kléber Mendonça Filho (Irandhir Santos e Maeve Jinkings, entre outros), são divididos em capítulos, têm mais de duas horas de duração, não possuem uma moral da história explícita – ao fim o espectador crê que a história não acaba ali e se pergunta que rumos tomam os personagens após os créditos.

No microcosmo de seu enredo o cineasta acaba trazendo à tona problemas brasileiros bastante comuns. Clara é quilombola, negra, indígena, ribeirinha, camponesa, quebradeira de coco, presidenta da República apeada do poder. Clara são todos os que significam algum obstáculo ao desenvolvimento, ao progresso, à modernização – mesmo que modernizar seja apenas botar um nome espalhafatoso (e ridículo) em inglês e instalar umas câmeras de segurança.

A protagonista representa todo esse povo sofrido, mas estamos longe de alguém sem instrução ou desprovida. Viúva, possui cinco apartamentos – poderia se mudar para qualquer um ou mesmo comprar outro em qualquer lugar com o dinheiro que lhe é oferecido pela construtora que, afinal de contas, já comprou todos os outros apartamentos do edifício Aquarius.

É uma questão não de birra, mas de resistência e memória. “Esse apartamento é onde vocês foram criados”, diz durante uma visita dos três filhos. Clara passa a sofrer as investidas de quem quer por força despejá-la, numa espécie de guerrilha psicológica – e biológica.

Aquarius critica as elites do país e os reacionários que acham que tudo pode se resolver na base do dinheiro. “A questão não é dinheiro”, diz Clara noutra cena, investindo na contraofensiva.

Drama com ares de suspense e uma trilha sonora também emocionante, que ajuda a contar a história – Clara possui uma invejável coleção de vinis, embora não nutra desprezo por mídias digitais. O tema, afinal, é mote para uma crítica ao jornalismo contemporâneo, quase sempre mais preocupado com manchetes sensacionalistas que com (a veracidade d)o conteúdo publicado – os jogos de poder travados nos bastidores do jornalismo também comparecem à trama.

A luta solitária de Clara não se encerra em si mesma, como nenhum problema brasileiro está isolado e o filme toca em questões sensíveis como a violência (o filho da empregada atropelado enquanto volta do trabalho) e a ausência (ou o desinteresse) de um debate sobre a questão das drogas (o pequeno traficante branco e classe média acima de qualquer suspeita), ingredientes de nossa barbárie cotidiana.

Independentemente de questões extra-cinematográficas – o protesto em Cannes, a classificação indicativa com tons de censura militar e/ou o boicote na indicação do título nacional ao Oscar – boicotar Aquarius, como de resto qualquer obra de arte, é burrice. Ou medo. De o cinema ser espelho e se ver refletido nalgum daqueles papéis. Ou de perceber que está errado e nem sempre quem fala bem ou anda arrumadinho é o melhor para desempenhar determinada função na imensa engrenagem chamada Brasil. Longe de ser panfletário, Aquarius é também um convite à luta pelo que acreditamos.

A pintura da fachada do edifício, autorizada por Clara que, afinal de contas, agora mora ali sozinha, é um novo ponto da guerra travada pela construtora, do qual a personagem precisa se defender, juridicamente inclusive. É também uma alegoria: há tanto para descascar em Aquarius que dificilmente uma resenha dará conta. Sobretudo nestes tristes tempos de Fla x Flu político, em que o filme tem sido injustamente reduzido ao que não é: Aquarius é maior que o protesto de sua equipe em Cannes e outros eventos cinematográficos mundo afora e bem maior que a minha e a sua opinião ou posição político-ideológica neste momento conturbado e sempre.

Veja o trailer:

Cesar Teixeira: um artista político

[íntegra da entrevista publicada hoje (10) nO Imparcial]

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Para o artista, sua arte engajada é decorrência da consciência de que “o artista pode, também, ser uma ferramenta de mudança”

TEXTO, ENTREVISTA E FOTOS: ZEMA RIBEIRO

A reportagem de O Imparcial encontrou o compositor Cesar Teixeira ensaiando para uma apresentação no arraial do Largo de Santo Antonio. Era manhã de sábado, em São Luís, e o artista encerraria sua participação na temporada junina, após alguns shows solo e a presença em diversas apresentações no espetáculo que homenageou o LP Bandeira de aço, gravado pelo cantor e percussionista Papete, recém-falecido, grande homenageado do São João 2016.

Cesar é autor de três faixas – além da faixa-título, Boi da lua e Flor do mal – de Bandeira de aço, lançado em 1978 pela Discos Marcus Pereira. Mas o artista, que atua em várias frentes, já estava em cena bem antes: como artista plástico venceu um salão intercolegial de pintura ainda em 1969; em 1972 participou de festival de música com Salmo 70, parceria com o poeta Viriato Gaspar, mesmo ano em que ajudou a fundar o Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão (Laborarte), onde conviveu com nomes como Sérgio Habibe e Josias Sobrinho – outros compositores de Bandeira de aço; o grupo se completa com Ronaldo Mota – além de artistas de outras linguagens: fotografia, cinema, teatro, artes plásticas.

Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) na década de 1980, Cesar passou pela redação de O Imparcial, onde foi editor de Cultura (1986-88). Em 1985, interpretada por Cláudio Pinheiro e Gabriel Melônio, sua Oração latina venceu o Festival Viva de Música Popular do Maranhão. Em 2010 foi homenageado pela escola de samba Favela do Samba.

Dono de vasto repertório, a obra de Cesar, a partir da experiência laborarteana, é impregnada de elementos da cultura popular do Maranhão, de que é um pesquisador, e de crítica e denúncia social, constituindo-se num conjunto único de uma arte bastante engajada, entre música, poesia, pintura, cordel e teatro.

Foi este componente político que pautou a entrevista que o artista concedeu a O Imparcial após o ensaio.

O Imparcial – O engajamento na arte sempre foi uma preocupação tua? Você nunca conseguiu fazer nada despreocupadamente, arte pela arte?
Cesar Teixeira – Sempre fiz. Mas eu sempre tive uma consciência de que o artista pode, também, ser uma ferramenta de mudança.

Você se sente obrigado a fazer uma arte mais politizada?
Não. A minha politização está na faixa da normalidade poética [risos]. Então eu não me obrigo, não me amarro, tanto que eu não pertenço a partido nenhum até hoje. Sou uma cara com uma consciência, com uma formação livresca socialista, sempre fui. Mas como não existe partido socialista, só na sigla, no Brasil, me preocupo mais em estudar e aprender com os exemplos. Isso de certa forma influencia minha arte, claro, não tem como. Você exterioriza aquilo que está em seu espírito, em seu conhecimento. Involuntariamente eu posso fazer um verso que pode ser considerado engajado, proposital, por que é música de protesto. Não! Eu fiz por que eu achei que era minha inspiração naquele momento. É como você ver uma pessoa pedindo esmola e fazer um verso, aquilo é uma atitude política. Não precisa dizer que [muda a entonação, como a imitar alguém que recita:] “é por que o país”… não! Você vai falar de outra forma, “um dia cairá uma estrela em suas mãos”, por que todo mundo joga moeda, eu tou inventando isso agora.

Um ótimo exemplo disso é Dolores, que Flávia [Bittencourt] gravou [em Sentido, seu disco de estreia, 2005]. Uma música de uma poesia exuberante, com uma denúncia social fortíssima. Você está denunciando uma série de coisas ali.
É, uma música engajada, mas não perde a ternura. Uma linguagem metafórica muito rica.

É interessante: você falou que socialismo no Brasil só na sigla. Eu costumo brincar dizendo que um dos problemas do Brasil é etimológico: as siglas estão falando em socialismo, comunismo, mas os socialdemocratas na verdade são neoliberais, quem é democrata é reacionário, quer dizer, não existem, na sigla, o partido homofóbico, o partido misógino, o partido machista, o partido militar, mas estas categorias estão representadas politicamente.
Na prática… existe uma história de pessoas que eu respeito, que eram competentes, como [Carlos] Marighella, como Gregório Bezerra, Maria Aragão, esses eram socialistas, de fato. Hoje em dia o partido são os caras que são figurões, medalhões, que de certa forma roubam esse caráter, de certa forma incorporam uma coisa que não é deles. Em nome do socialismo se comete tanta atrocidade que é caracterizada pelo capitalismo, por ser um capitalismo selvagem, e a pessoa corrupta, preconceituosa, nada que se assemelha a um ideal, eu não considero utopia, todo sonho pode ser realizado. Mas nem se aproxima, é como se estivesse andando pra trás, então por que não muda o nome do partido? Partido de direita. O partido, na minha opinião, nem sempre representa os interesses da população. Por exemplo, o PT. Eu poderia ter sido membro do PT naquela época, até cheguei a me inscrever, perderam minha ficha, eu digo, “pô, perderam minha ficha?” Eu dei graças a Deus, eu estava certo. Quando eu cheguei, uma das sedes provisórias, eu discuti a reforma agrária, pra mim até hoje é uma coisa séria. Mas eu não notei nenhum interesse. Eles queriam divulgar, nos jornais que eles faziam mimeografados as ideias de Lenin. Eu disse: “olha, o povo não vai compreender isso. Vocês estão tirando praticamente do livro, copiando, tem que ter um trabalho de educação política, antes”. Foi a primeira coisa que eu vi e condenei. Aí eu fui logo rejeitado. Tipo: “ah, é um artista, um bêbado”. Eles não sabiam que eu tinha uma cultura política, e faço questão de preservar. E sempre fui rejeitado, não só por esse partido, mas por outros que tentaram, várias vezes fui convidado a participar de partidos.

Jornalista de formação, com essa cultura política que faz questão de preservar, como você avalia, sente, como jornalista e artista, esse momento turbulento por que passa o país, com a cassação de Dilma, a ascensão de Temer ao poder?
Isso tem muito a ver com tudo o que falei agora. O PT se proclamou, embora não tivesse socialismo no nome, levantou a bandeira da democracia e democracia é uma palavra forte, tem muito a ver com a participação da população. A transformação de Lula em um mito foi um prejuízo muito grande para o movimento social. Por que se imaginava que sua liderança e competência, inclusive eu ajudei na campanha, ajudando a pintar paredes, comi mocotó frio de madrugada.

A campanha de 1989?
As campanhas, de modo geral, eu participei de todas, desde a anistia. Eu estava em todas, nem sei contabilizar isso aí, mas eu tava lá. Depois disso, o PT, que seria uma esperança, se pensava que seria uma coisa nova, não tem socialismo no nome, comunismo, mas pode ser uma alternativa forte de inserção de algumas ideias socialistas no Brasil, que se perdesse o vínculo com os rancores do passado, com os partidos comunistas, coisa que ainda existia. O PT era uma coisa nova. Mas não. Quando eu vi, eu disse: “isso vai dar em merda!” Se criou um mito. Depois dessas eleições conturbadas não se conseguiu resolver os problemas de base.

Em sua opinião, qual é o momento da criação do mito? As greves operárias do ABC, a primeira campanha em 89 ou a primeira eleição em 2002?
As greves!

Muito antes de Lula chegar ao poder.
É uma figura importante. Quando assume o poder os movimentos sociais tocam foguete, comemoram, tomam cerveja.

E grande parte dos quadros dos movimentos sociais vai para dentro do governo.
E o movimento, veja só, fica estagnado. Movimento, a palavra já está dizendo, é uma coisa dinâmica. Os movimentos ficaram paralíticos. Pensaram: agora vamos ter reforma agrária, vamos ter as terras indígenas preservadas, vamos ter a água preservada. O essencial. Talvez uma reforma política, que também era essencial, nunca foi feita. Nunca aconteceu nada disso. Sabe o que aconteceu? O bolsa-família, que eu acho que é uma negação de direitos humanos. Ajuda, por que tem pobreza. Mas tem pobreza por que não tem reforma agrária. O cara lá do interior recebe bolsa-família por que ele não pode plantar, por que ele não tem emprego. Então, isso vai ficar por quanto tempo? Se você não dá cidadania, se você não dá condições de o cara sobreviver, essa cesta básica me parece uma coisa de coronel. Minha crítica é muito dura com relação a isso. Evidente que as pessoas que me ouvem, ligadas aos partidos, vão me recriminar com muito furor. Mas minha posição sempre foi essa. Não se construiu, pelo menos não se aproximou, da ideia de um socialismo. Não precisa ser um socialismo convencional. Ainda mais num país que depende de outros, de um capitalismo que é interligado, um país querer se separar do resto, como uma ilha.

Mesmo uma ilha enorme como o Brasil.
Mesmo uma ilha enorme e com condições de sobrevivência, por que Cuba não tinha. Aqui você tem ouro, prata, aquilo que Portugal não levou e os americanos não levaram, sobrou alguma coisa. As terras, a cultura, a natureza exuberante, mas isso ficou paralisado. Hoje quem estuda a nossa flora são companhias estrangeiras, que de repente levam toda essa informação que os índios, por exemplo, têm, para investigar lá fora. No Amazonas não se tem uma escola, uma faculdade para formar pessoas pra trabalhar a questão da floresta, não para derrubar e depois plantar eucalipto, mas para transformar essa informação. Tem animais e tem plantas que ninguém nem sabe o nome, mas que podem representar a cura de um câncer. A gente sabe que a química e a farmacologia dependem da natureza para existir. O cara não inventa uma fórmula dentro de um laboratório, sem nada. Com o quê que ele vai trabalhar? Isso no Brasil não se faz. Então muita coisa, fora os direitos negados, da própria Constituição, que não se exerce. Daí a decadência desse governo petista. Não é por nada, ninguém forçou a barra, eles mesmos se destruíram, foi essa autofagia, o partido se devorou a si próprio. Não resta mais nada, só osso.

Com toda essa crítica ao governo do PT não dá para legitimar o governo Temer.
Uma coisa não tem a ver com outra. Talvez seja um outro ponto que tem que ser considerado: a contribuição do PT para o retrocesso. Se tivesse feito uma coisa bem feita não haveria retrocesso. Temer, PSDB, DEM, é retrocesso! Por que isso aconteceu? Por causa do fracasso das pessoas bem intencionadas, entre aspas. Hoje a gente poderia estar respirando melhor no país. E hoje a direita bate palmas. Você vê um deputado que elogiou um torturador em plena sessão aberta, com canais de televisão, e o cara não foi preso, está aí. E só foi processado por que o povo foi para a rua e começou a debater. Tem pessoas que não podiam nem se candidatar. Por isso eu acho que tem que ter uma reforma política: o sujeito que cometeu crimes, que tenha interesses econômicos, deputado nem devia ganhar tanto quanto ganha. Eles vão pensar: “o que eu vou fazer lá, se eu não vou ganhar tanto?” O idealista vai. Hoje em dia o cara vai lá por que ele vai ter imunidade, se ele é ladrão, lá ele vai conseguir se salvar, se elege para escapar da justiça, chega lá não faz porra nenhuma, nem assina o ponto. Outros estão ali para manter seu partido vivo, por que seu partido é um balcão de negócios. Então a política não serve pra nada, nesse sentido. Esse modelo político é que deveria ser trabalhado, mas veja só como as forças reacionárias é que mandam, os fazendeiros, os empresários. Não foram os empresários que elegeram a maioria desses deputados que estão aí? Esse interesse capitalista não tem muito a ver com a natureza humana. O nosso planeta vai ser reduzido a um cocô por conta desses caras. Eles querem desmatar. Pra que serve o dinheiro? Eu questiono. Porra nenhuma! Pra que serve o poder? Pra nada! Se as pessoas dissessem “vamos organizar esse poder pra gente sobreviver mais um milhão de anos”, pra não faltar água. O espírito humano é muito hedonista, niilista e narcisista. O político se ama, ele não ama a população. Ele quer ver dinheiro. Ele não quer saber se a pessoa está passando fome, se o índio é feliz ou não, se estão desmatando. Basta a escravidão que houve quando o Brasil era colônia de Portugal, aquilo era um crime hediondo.

E o governo Flávio Dino, um ano e meio depois?
Flávio Dino carrega nas costas um grande abacaxi. Ele vai ter que resolver, descascar. Ele tenta. É um cara que a gente conhece de perto, mas que lida com os mesmos vícios, antigos. Você não consegue trabalhar em um ambiente contaminado. É tipo você estar em Chernobyl, a cidade que foi abandonada, você vai ter uma contaminação, alta ou baixa. Olha, fazem 30 anos de Chernobyl, aqui fazem 50 anos de Sarney. A contaminação não acabou. Como administrar isso, eu gostaria até de conversar com Flávio, conversei uma vez rapidamente, no Bar do Léo, depois daquele show que eu fiz. Eu falei da reforma agrária. É claro que um governador depende de decisões federais para fazer alguma coisa. O Iterma [Instituto de Terras do Estado do Maranhão] era um instituto paralítico. Eu, na época que fui empregado da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos [foi assessor de comunicação da entidade entre 1989 e 2002], vi funcionários do Iterma negociando lotes, envolvendo especuladores, como se a terra fosse propriedade do Estado, e não é. O Estado está ali para administrar. Tem que ter competência e respeito pelo cidadão que já está lá. Minha opinião não mudou nada nesse sentido: tem que avançar em relação à questão da reforma agrária, principalmente. Muita gente quer que eu assuma alguma postura em relação ao novo governo. Não! Eu acho que a gente tem que apostar no futuro. O passado foi muito doloroso, a gente tem que se afastar do passado. Se não tiver essa transição… Eu procurei ajudar na música, no jornalismo, escrevi muito texto contra a família Sarney, muitas vezes fui uma voz solitária. Um grupo diferente chega, já é um alívio. Eu sou um dos caras que está na expectativa. Não conheço a estrutura desse governo, mas eu posso cobrar de perto, tem pessoas conhecidas minhas e eu vou cobrar o tempo todo. Eu não mudei, não mudo, o meu comportamento vai ser o mesmo.

Socialista insurgente

Fenômeno das redes sociais, referência de um jornalismo que se assume de esquerda, a jornalista Cynara Menezes, editora do blogue Socialista Morena, estará em São Luís terça-feira que vem (19) para um debate sobre “Mídia, poder e democracia”, promovido pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop).

O evento “Diálogos insurgentes” acontece na Galeria do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), às 17h, gratuito e aberto ao público. Ela dividirá a mesa com Francisco Gonçalves, titular da Sedihpop, professor doutor do departamento de Comunicação da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), e Ricarte Almeida Santos, sociólogo e radialista, secretário executivo da Cáritas Brasileira Regional Maranhão, produtor e apresentador do dominical Chorinhos e Chorões, na Rádio Universidade FM (106,9MHz).

Formada na Universidade Federal da Bahia (UFBA), Cynara já passou por grandes redações, como Folha e O Estado de S. Paulo, Veja, Isto É/Senhor, Vip e CartaCapital. Atualmente é colunista da revista Caros Amigos, onde assina o Boteco Bolivariano.

Zen Socialismo. Capa. Reprodução
Zen Socialismo. Capa. Reprodução

Inaugurou o Socialista Morena em 2012, assumidamente esquerdista. Em sua casa na internet, prega um socialismo à brasileira, mestiço, moreno, como defendiam Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, a quem ela homenageia em seu espaço, o primeiro veículo de comunicação brasileiro a ter uma editoria de “maconha” – ousadia imperdoável para os reacionários que não perdem tempo em agredi-la por… pensar.

No blogue, ao contrário da regra geral da internet – sim, há exceções –, busca escrever textos que sobrevivam à pressa e instantaneidade típicas da rede. Ano passado reuniu os melhores em Zen Socialismo (os melhores posts do blog Socialista Morena) [Geração Editorial, 2015, 240 p.; leia o primeiro capítulo], que ela autografará após o debate.

Por e-mail, Cynara Menezes conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos.

A Socialista Morena Cynara Menezes. Foto: João Fontoura
Cynara Menezes, a Socialista Morena, em clique de João Fontoura

Você tem feito a defesa do mandato da presidente Dilma Rousseff, com as devidas críticas a seus governos e aos de Lula. Na sua opinião, o PT é vítima de uma armadilha que criou para si, ao não democratizar a comunicação e as verbas de publicidade governamental?
Acho que o PT cometeu um erro de estratégia ao repetir a aliança com o PMDB em 2014. Não lhe acrescentou nada, pelo contrário. Estaria muito melhor hoje se Dilma tivesse sido eleita numa chapa puro sangue. Quanto à democratização da mídia, ainda que ela não tivesse se concretizado, seria possível ao partido (não ao governo) investir em mídias próprias, em vez de gastar tanto dinheiro em marketing político durante a campanha eleitoral. Para mim, a existência da internet é, em si, uma democratização da mídia. O PT e as esquerdas em geral poderiam ter avançado mais nos últimos anos em busca de meios de comunicação próprios.

O Socialista Morena é, hoje, um fenômeno nas redes sociais, algo raro para um site assumidamente de esquerda. Sua iniciativa é sustentada por seu público leitor. A que você credita essa preferência?
Acho que toquei num ponto que muitos órgãos da grande mídia parecem não perceber: a carência do leitor por textos bacanas, curiosos, sobre fatos atuais ou históricos. Invisto no meu blog em posts atemporais justamente por isso; os posts noticiosos acabam ficando “datados” rapidamente, de certa forma repetem o impresso, que no dia seguinte já estará embrulhando o peixe. Também me situei num nicho existente: a demanda por leituras de esquerda, que os jornalões não contemplam de forma alguma. Pode-se dizer que ninguém de esquerda hoje se sente representado pela mídia hegemônica. E somos metade da população, pelo menos.

O blogue surgiu em paralelo à sua atividade na imprensa, como repórter de CartaCapital. O hobby virou um compromisso mais sério? Você é adepta do pensamento de que “quem trabalha com o que gosta vive eternamente de férias”?
Nunca foi hobby, sempre foi um plano B para mim. Quando comecei o blog, já tinha em mente que estava iniciando meu veículo de comunicação. Quem trabalha com o que gosta é mais feliz, sem dúvida. Eu trabalho pacas, jamais podia dizer que estou eternamente de férias.

A transparência entre quem escreve e quem lê deveria ser um pressuposto da prática jornalística, não é? Raramente se vê um veículo ou profissional assumir de forma explícita posição político-ideológica, escondendo-se sob o falso manto da imparcialidade. O cenário está mudando?
Sim, depende do veículo. Alguns jornais e revistas proíbem que seus jornalistas se posicionem politicamente nas redes sociais, caso da Folha. Mas vejo, por exemplo, que os profissionais do jornal O Globo são mais liberados para falar o que pensam, assim como os repórteres dos canais esportivos, mesmo os da Globo. Recentemente vi também jornalistas da TV Globo e GloboNews assumirem posturas ideológicas, tanto mais progressistas quanto mais à direita. Acho isso bom, fica mais transparente.

De uns tempos para cá, muita gente tem migrado de veículos para profissionais, isto é, deixado de acompanhar jornal A ou B para acompanhar jornalista X ou Y. A seu ver, quais as vantagens e desvantagens deste modelo?
A vantagem é que os jornalistas se firmam sem a necessidade de estar vinculados a grandes veículos. Para o leitor, facilita na orientação do que ler: quando você confia em alguém como guia de leitura, evita perder tempo com conteúdos desinteressantes ou com os quais a pessoa não se identifica. A desvantagem é que ainda somos poucos, isso reduz o espectro da informação. Quando formos muitos informadores autônomos, haverá um leque mais amplo de escolha para o leitor.

Quais as suas melhores e piores lembranças de seus tempos de grande mídia?
Trabalhei muito bem na Folha de S. Paulo, tive grandes oportunidades lá. Pude entrevistar alguns dos escritores mais importantes do país e fiz muitas matérias divertidas. O chato para mim na Folha era o veto ao pensamento político próprio. Isso, depois de certa idade, se torna insuportável. Minha pior lembrança é, sem dúvida, minha passagem de oito meses pela revista Veja, uma escola de como não fazer bom jornalismo.

Seu claro posicionamento ideológico tem um preço: ataques, grosserias e toda sorte de péssimos comportamentos de quem não consegue tolerar sua postura. A veiculação de mentiras sobre sua pessoa é uma constante. De vez em quando você anuncia processos na justiça contra a perpetuação dessa prática. É possível fazer um balanço das causas? Dá para comprovar, como parte, a lentidão e seletividade da justiça brasileira?
É muito difícil penalizar alguém. O máximo que a gente consegue é dar um tranco, enviando interpelações judiciais a caluniadores. No caso do senador Ronaldo Caiado, pedi direito de resposta em seu twitter por ter me caluniado. A ação está correndo na Justiça.

Uma trincheira de sua luta é a defesa de um modelo alternativo de socialismo, mais à brasileira, mestiço, moreno, evocando figuras como Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, a quem o nome de seu blogue homenageia. Mais que possível, é um socialismo necessário?
Eu vejo a existência do socialismo como uma condição sine qua non para o equilíbrio do planeta. Imaginem se no mundo só houvesse capitalistas! Acho que as teorias em torno do socialismo estão mudando. Não sou nenhuma teórica, mas percebo que talvez o socialismo não seja, como se pensava, um modelo de sociedade, e sim um sistema de governo. Talvez sejam possíveis governos socialistas e não uma sociedade socialista.

Você visita o Maranhão governado por Flávio Dino, primeiro governador eleito pelo PCdoB na história do Brasil, após décadas de dominação da oligarquia Sarney. É possível, à distância, fazer uma avaliação do mandato do comunista?
Não me chegam muitas informações, mas o que conheço, gosto. Sobretudo por ele ter sido capaz de desmontar a oligarquia Sarney. Acompanhei recentemente a abertura de concurso para professores com salário inicial de 5 mil reais na rede estadual. Valorizar os professores é sempre um bom sinal. Darcy Ribeiro aprovaria.

O processo de impeachment de Dilma Rousseff lembra, guardadas as devidas proporções, a cassação do governador maranhense Jackson Lago, em abril de 2009, através de um golpe judiciário. Após pouco mais de dois anos de governo, o pedetista tinha certo desgaste com alguns setores e contou com pouco apoio popular. Que conselhos você daria a Flávio Dino para um mandato realmente popular, democrático e progressista?
Governar com a participação dos movimentos sociais. Dilma se afastou deles nos dois mandatos, foi um de seus principais equívocos. Saber ouvir as pessoas, principalmente os jovens, que estão muito interessados em participar das gestões e das decisões. Acho que toda secretaria deveria ter um conselho de jovens. Temos que ouvir os jovens, eles estão na rua o dia todo, estão na escola, na universidade, têm contato com a insegurança, com a polícia. Um governo de esquerda também tem que ser criativo, buscar sempre novas soluções para os problemas, e deve estar atento para a mobilidade urbana, uma questão fundamental do século 21.

A menina vinda do interior da Bahia que venceu na vida: passou por grandes redações, morou na Espanha e hoje tem um dos blogues mais respeitados do país. Num tempo em que o jornalismo parece se esfarelar em sua mesquinhez movida por interesses outros que não a notícia e a verdade em si, o que você diria a jovens estudantes que serão jornalistas num futuro breve?
Que procurem investir em sua formação intelectual. Aprender idiomas, ler boa literatura, bons ensaios e bons conteúdos na rede. Fuçar, não perder a curiosidade, sempre. Procurar conhecer os mestres também é importante. Tudo isso vai ajudá-los a se tornarem profissionais diferenciados no meio. Gente despreparada não terá lugar no jornalismo, ou fará mais do mesmo.

Stédile critica governo de Dilma Rousseff mas defende sua permanência

Bem humorado e otimista, sua postura reafirma a coerência do MST, que em 2009 defendeu a manutenção de Jackson Lago no governo do Maranhão

Jonas Borges e João Pedro Stédile, representantes do MST estadual e nacional, no auditório da Faculdade de Arquitetura da Uema. Foto: ZR (8/4/2016)
Jonas Borges e João Pedro Stédile, representantes do MST estadual e nacional, no auditório da Faculdade de Arquitetura da Uema. Foto: ZR (8/4/2016)

O coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) João Pedro Stédile esteve ontem (8) em São Luís. Pela manhã a liderança cumpriu agenda no Palácio dos Leões, onde foi recebido pelo governador do Maranhão Flávio Dino e diversos secretários de Estado. Em pauta a execução do programa de alfabetização Sim, Eu Posso, em oito dos 30 municípios de menor índice de desenvolvimento humano (IDH) do Maranhão, pelo MST, através de parceria com a Universidade Estadual do Maranhão (Uema) e as secretarias de Estado da Educação (Seduc) e dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop).

À noite, Stédile participou de atividade da Frente Brasil Popular no auditório da Faculdade de Arquitetura da Uema (Rua da Estrela, Praia Grande). A FBP é um coletivo de militantes e organizações sociais, entre as quais o MST e a Via Campesina, que tem se manifestado contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT).

Em evento intitulado “Análise de conjuntura: os rumos do Brasil frente a crise política atual”, Stédile falou para um auditório completamente lotado, refletindo sobre o atual momento político vivido no país e tentando traçar alguns cenários possíveis.

“A massa trabalhadora ainda não percebeu os riscos que corre com um eventual impeachment. O que os apoiadores e financiadores do golpe querem é a redução de direitos trabalhistas. Até agora, só fomos para a rua nós, militantes. No dia em que os 120 milhões de trabalhadores do Brasil saírem às ruas vai faltar rua”, comentou.

Ele, no entanto, não poupa críticas ao governo Dilma. “Vimos uma inércia em relação à reforma agrária e à titulação de territórios quilombolas. Agora que ela assinou uns poucos decretos, o que é uma merreca”.

Stédile defendeu a reestatização da Vale: “se não por qualquer outro motivo, pelo crime ambiental em Mariana. Mataram pessoas e mataram um rio de mais de 700 quilômetros. Isso tudo é impagável”, defendeu.

O intelectual orgânico do MST, um dos maiores em atividade no Brasil, pregou ainda outra relação do homem com o meio ambiente e o consumo. “Nós da esquerda costumamos culpar o Alckmin pela falta de água em São Paulo, por que é mais cômodo. É claro que ele tem sua parcela de culpa, como representante do grande capital, mas o problema foi a morte das nascentes. Pode chover o quanto chover em São Paulo, o problema não se resolverá. E por que mataram as nascentes? Para dar lugar aos monocultivos de cana de açúcar e eucalipto”.

Stédile reconheceu avanços sociais conquistados nos governos do PT, ainda insuficientes. “O Minha casa, minha vida precisaria de muito mais unidades habitacionais por ano para resolver o déficit acumulado. No ensino superior, seis milhões disputam pouco mais de um milhão de vagas em instituições públicas e privadas. E os cinco milhões que sobram? Eu digo para eles se juntarem ao Levante Popular da Juventude e irem para as ruas. Mas eles não me ouvem”, disse para aplausos e risos da plateia.

A grande mídia também não foi poupada por Stédile, principalmente a Rede Globo. “São os porta-vozes dos interesses dos que querem tomar o poder e, uma vez lá, reimplantar o neoliberalismo, a retirada de direitos dos trabalhadores e de recursos públicos para a saúde e a educação no Brasil, inclusive o petróleo, última riqueza coletiva do país”.

“É preciso defender o mandato de Dilma Rousseff e, uma vez mantida no cargo, ela precisa refazer o governo. Compor um ministério de notáveis, gente que tenha entendimento dos assuntos e seja reconhecida e respeitada pela sociedade. Ir mais para a esquerda”, apostou.

Stédile lamentou ainda o assassinato de trabalhadores sem terra no Paraná. “O Paraná é governado pelo PSDB. É uma amostra do que vem por aí. Passando o impeachment o ministro do desenvolvimento agrário será o Raul Jungman [PPS/PE]”, arriscou um prognóstico referindo-se ao hoje deputado federal. Presidente do Ibama no governo de Fernando Henrique Cardoso, Jungmann foi descoberto ano passado mantendo simultaneamente dois mandatos: não deixou a câmara municipal do Recife para assumir a vaga na Câmara dos Deputados, em Brasília/DF.

Com diversos atos previstos em várias cidades do país, ele previu ainda que a próxima será uma semana histórica para o futuro do Brasil.

A postura crítica de Stédile, intelectual menos conhecido do que deveria, em geral tachado de “guerrilheiro” e “terrorista” pela velha mídia que critica, reafirma a coerência do MST que representa: em 2009, quando da cassação do governador do Maranhão Jackson Lago, através de um golpe judiciário, os sem terra estavam na linha de frente na defesa do mandato conquistado legitimamente através do voto popular.

“A história se repete como tragédia ou como farsa”, como dizia um intelectual que também lhe serve de inspiração, mais barbudo que ele.

Para que serve a UFMA?

FLÁVIO SOARES*

O professor Flávio Soares durante o encontro "Pensando na fronteira: leituras cruzadas de Ribamar Caldeira". Foto: ZR (17/6/2013)
O professor Flávio Soares durante o encontro Pensando na fronteira: leituras cruzadas de Ribamar Caldeira. Foto: ZR (17/6/2013)

 

“A crítica é a morte do rei”
(R. Koselleck, Crítica e Crise)

“A quem serve a UFMA?” poderia ser indagação mais precisa para título desse texto, nascido numa situação difícil de urgência pessoal.

Mas um infortúnio individual, sobretudo no trabalho, pode revelar ou confirmar aspectos mais amplos da pobreza e cegueira institucional onde se vive.

Às vezes, talvez, seja preciso sofrer o trauma no corpo e vivenciar o absurdo em série para perceber a presença fria dessa besta – em forma de incompreensão e miséria – na Universidade Federal do Maranhão.

Uma coisa é falar da “crise” em sala de aula ou livro; outra é sentir no osso sua crueldade numa UPA do Bacanga, nos corredores velhos de um hospital ou nos labirintos administrativos da sua própria universidade, em São Luís.

Por isso, o acidente também pode abrir brechas para reforçar questionamentos e reagir.

Até se precisar do ambulatório “HUzinho” pode se supor que ali seja uma “unidade de atenção à saúde do estudante e do servidor”. Não está escrito na placa? Até se ir à unidade Presidente Dutra do Hospital Universitário é capaz de se permanecer na incerteza ou ilusão quanto à existência por lá de um centro de referência qualificado. Não se ouve falar assim?

Existem sempre exceções admiráveis, mas absurdos e desacertos são normalidades no estado de emergência.

Aparecem de várias maneiras: na cena do velho cadeirante, dentro do hospital, apressado para ir ao banheiro, mas preso na porta porque a largura desta não lhe deixa entrar; na daquele senhor tentando marcar, sem êxito e há meses, simples consulta de poucos minutos; em outro necessitando e não conseguindo fazer cirurgia reparadora que já devia ter ocorrida há muito tempo; na imagem do rapaz humilde e trabalhador sofrendo num leito à espera da imediata ressonância que nunca acontece porque a máquina está quebrada; nos desencontros (propositais?) entre a direção e suas próprias decisões ou “bilhetes de recomendação”; nas imperícias da perícia; no médico – coronel do sistema – a atender apenas durante uma hora a cada semana.

Ao expor o domínio de práticas arcaicas e a exclusão do incluído, o acidente desvela a propaganda da “inovação e inclusão” pelo seu lado triste de horror e farsa.

Vozes solícitas surgem na urgência para lembrar a força de um “pedido do Reitor”, fazendo sentir o círculo do medo e da servidão voluntária que move as hierarquias em torno da Reitoria. O sinal transmitido é que o Reitor não é lugar do direito e sim do pedido; é mais negócio, portanto, cortejar o poder e seus favores.

Conclusão imediata: não há inteligência substantiva nem independência possíveis dessa forma.

*

Um parêntese sobre a questão da expansão da UFMA.

O problema nunca foi o seu crescimento em si, que mais ou menos sempre houve.

Com 30 anos nesta universidade (como aluno e professor) somos testemunha de que ela sempre cresceu, mesmo nos tempos difíceis do governo FHC, na década de 1990.

Não foram nestes anos a construção do atual CCH?

No período Lula, na última década, qualquer um pôde perceber o crescimento da UFMA, nas suas estruturas físicas e atividades básicas.

Difícil foi observar que essa expansão teve mais a ver com uma conjuntura de “falsa euforia” nacional – quando universidades federais cresceram no país inteiro – do que com méritos e virtudes de qualquer gestão competente e suas figuras iluminadas. Isto poderia até ser o caso se o aporte de recursos oriundos da adesão a programas federais emergenciais, como o REUNI, fosse canalizado para uma virada de página no destino da universidade, e não para a reiteração de um modelo superado (cf. Flávio Reis).

O problema, portanto, sempre foi o da natureza da expansão: autoritária, precária, desorganizada e de qualidade duvidosa.

*

É incrível, mas se partirmos do pressuposto de que deveria haver um mínimo de correspondência entre as situações da universidade e do estado, a observação imediata é de que quanto mais a universidade federal ampliou seu espaço físico e aparato técnico-administrativo e atividades de ensino, pesquisa e extensão, mais os índices sociais do estado foram para baixo.

Pois há décadas essa universidade diploma educadores, médicos, advogados, engenheiros, administradores, etc., e há décadas são sempre piores os índices estaduais da saúde, justiça, infraestrutura, serviços públicos, educação.

Há anos desenvolve programa de pós-graduação em políticas públicas, por exemplo, mas alguém se lembra de alguma política “pública” oriunda da UFMA – tocada mesma numa simples prefeitura?

Não é possível que só a UFMA melhore e o Maranhão não.

*

A emergência reitera a miséria e alienação universitárias.

Revolve a ferida de uma existência submissa, sem autonomia e, assim, sem movimento e pensamento próprios.

Certifica um fato: a Universidade Federal do Maranhão, principal lugar do ensino superior no estado, é incapaz de se pensar e, assim, olhar o Maranhão e o país.

Lembro José Ribamar Caldeira como exemplo significativo de um mestre inquieto com as dificuldades para a vida do pensamento, da crítica sem amarras e da inovação real, e pergunto: a professora Maria de Lourdes, da mesma geração, poderia escrever São Luís do Maranhão: corpo e alma (2012) dentro da cidade universitária?

*

No campo das ciências humanas, nas últimas décadas, apenas três estudos conseguiram fecundar alguma coisa para além de si, quebrando o círculo negativo da inveja e do silêncio. A Ideologia da Decadência, de Alfredo Wagner, esforço de repensar a tradição dos antigos estudos maranhenses, elaborado fora da UFMA, inspirador de várias pesquisas, inclusive na universidade; Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão, dissertação de mestrado de Flávio Reis feita pela Unicamp reavaliando a formação política do estado, cujo impacto, além de acadêmico, foi político (“oligarquia” virou mantra na guerra político-partidária); A fundação francesa de São Luís e seus mitos, elaborado pela professora Lourdes Lacroix quando aposentada da UFMA, questionando a construção da memória histórica da cidade e ferindo a fundo os nervos do sistema intelectual local. Academia Maranhense de Letras, Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão e Sistema Mirante que o digam.

Tais obras fizeram figura de exceção especialmente quanto à amplitude do impacto interno gerado.

Outros livros, pela qualidade, poderiam ter tido efeito semelhante, mas não tiveram e não sabemos exatamente por que.

Apesar da divulgação, das festas de lançamento, do tamanho, dos prêmios e honrarias, não produziram discussão pública alguma. E nem adiantou apadrinhá-los com nomes de fora ou de dentro mais conhecidos, injetar valor antecipado pela invenção curricular de autoridade, copiar sem pejo as obras citadas invertendo os sinais, ou se fazer aparecer em algum periódico ou programa televisivo nacional (ou, agora, apelar pra rede “social”.). No máximo são discutidos entre pares e compadres; ou em situações de orientação de pesquisa e ensino, quando o orientador ou professor-doutor pressiona o aluno a ler suas obras ou então o próprio autor busca se promover, falando de si, pondo-se na bibliografia da sua disciplina e coisas do tipo.

20 anos de acúmulo de profissionalização, pós-graduação, grupos de pesquisas, etc., não foi bastante para fazer sair do Centro de Ciências Humanas sequer um estudo que se aproximasse (atualizando criticamente), por exemplo, da História do Comércio do Maranhão, não o título de uma coletânea, mas de um clássico local, escrito por Jerônimo de Viveiros na década de 1950; ou O Sertão, de Carlota Carvalho, escrito em condições mais difíceis ainda.

Mencionando tais obras queremos dizer o seguinte. Pode se concordar ou não sobre livros como História do Maranhão, de Mário Meireles, inclusive quanto ao seu baixo teor crítico, mas toda sua produção historiográfica foi representativa, a seu jeito, de uma ordem maior de problemas e ideias acerca da sua realidade.

Desgraçadamente, o Maranhão nunca foi prolífico em obras como estas (no sentido indicado da representatividade de uma ordem maior de problemas), que, no entanto, praticamente desapareceram desde que a UFMA surgiu, na aurora do regime militar e do Maranhão Novo (para não esquecer a hora macabra em que ela nasceu).

O ganho, quando há, é quase sempre quantitativo, apesar da estratégia midiática do poder universitário de vender gato por lebre – como se, por exemplo, a publicação de “x” artigos na revista “y” significasse em si avanço real do saber.

A questão, porém, está longe de ser simplesmente numérica. Se fosse já teria sido equacionada. Comparar, não a quantidade, mas a qualidade da produção anterior do conhecimento (reconhecida como tradição) à da universidade é brincadeira.

Fora qualquer juízo, a produção dos “antigos” inventou o Maranhão conhecido. A dos “novos”, especializada e técnica, consegue apenas ser miseravelmente medíocre.

É triste, mas perto de fazer 50 anos a Universidade Federal do Maranhão não vale uma frase do velho João Lisboa.

Fábrica de espíritos pequenos, servis e vaidosos, a universidade jamais reconhecerá isso.

A UFMA nunca foi fonte de qualquer campanha e debate realmente engrandecedor, formador da opinião pública no estado, em qualquer área (saúde, tecnologia, educação, etc.).

Poderia ter desempenhado papel direcionador em questões como a do desenvolvimento regional, da educação, do meio ambiente, da violência, ou até mesmo na elaboração de um ponto de vista original sobre o Brasil, mas isso nunca aconteceu.

*

É que o modo como na prática ela funciona é algo muito distante da vontade coletiva de superação dos problemas de sua trágica realidade por meio das artes, ciências e tecnologias.

Presa entre imitação pobre de modelos teóricos estrangeiros e idiossincrasias locais, a UFMA nunca passou duma aberração burocrática “colonizada”, dependente, cada vez mais reduzida à meio de transformar verbas federais em giro eterno dos recursos num balcão de negócios e troca de favores de todo tipo.

A combinação de burocratismo e orçamento não explica tudo, mas, em grande parte, ajuda a entender a situação.

Onde impera o toma-lá-dá-cá como estilo de gestão, aliado ao espírito do negócio, não há possibilidade para a vida do pensamento, da criação e da crítica.

*

Talvez as bases sociais e propósitos da UFMA possam ser realçados se pensarmos na história da principal universidade do país.

Todos sabem que no século XX, a partir da década de 1930, em São Paulo chegou a se criar uma verdadeira universidade – a USP – e um centro de ciência humanas (FFCL) que mudou o padrão nacional do conhecimento. Fruto da combinação entre influência estrangeira, sentido de engajamento social e tradição local viva (Mário de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. e outros), formou-se nova massa crítica, num contexto de transformações sociais profundas daquela região do país (cf. Antônio Candido, O mundo coberto de moços). Tal processo resultou numa instituição de saber efetiva, que fez escola no Brasil, embora hoje se assemelhe mais a uma organização empresarial (cf. Paulo Arantes).

Longe de ser fruto de uma história de superação crítica, onde se retoma, repensa e atualiza a herança cultural e intelectual recebida, a UFMA foi produto de um tipo de “renovação” baseada na justaposição de faculdades com histórias distintas, espécie de agregação de alhos e bugalhos, dada em consonância com a corrente política-ideológica estabelecida com o Golpe de 1964, fundamento de um organismo hoje cada vez mais indeterminado, caótico.

Por quê?

Porque a UFMA, na sua constituição, nunca deixou de ser fiel a velha conjunção entre igreja e sua teologia reacionária, estado oligárquico e sua burocracia patrimonialista, e tradição mental conservadora arraigada, bacharelesca, avessa ao espírito crítico; conjunção fortalecida, agora mais como simulacro de representação, com o progresso-catastrófico de uma sociedade senhorial e bárbara na etapa final do nacional-desenvolvimentismo brasileiro.

Medicina, direito e letras indicam bem a sua natureza.

Na área de humanas (principalmente nos departamentos de economia e sociologia), numa atmosfera de direita, surgiram reflexões de esquerda, sobretudo marxistas, mas frágeis, confusas, pouco criativas e sem expressão política dentro da universidade.

Até hoje é comum, no centro de ciências humanas, o fenômeno esquizofrênico dos professores bifrontes, vários oriundos das classes baixas, oscilando entre o público e o privado, entre a lei e a malandragem, entre discursos de esquerda em sala de aula e projetos de pesquisa para alunos, e a prática político-administrativa diária de direita para a reitoria da vez.

O atual governador – ex-aluno e professor de direito da UFMA -, fruto da queda do sarneismo e das lutas entre facções, talvez seja exemplo sugestivo de que não haverá o que esperar ou temer da parte dessa universidade, gestada dentro do mundo daquela oligarquia, quanto a qualquer capacidade de aproveitamento do momento para ajudar o Maranhão a se perceber e superar criticamente seus dilemas seculares.

Apresentando-se sob a graça de deus como expoente do primeiro governo comunista do Brasil, almeja chegar à terra prometida do “Maranhão de todos” através da fundação da república, da “revolução burguesa” e do capitalismo. Indicando a amplitude geral do atual pântano mental, onde tudo é possível, tal projeto-zumbi – repita-se: a criação divino-comunista de uma república burguesa capitalista no Maranhão – foi defendido a sério em jornais da província e do sudeste, sem provocar espanto algum. Nem lá e nem cá.

Se a construção de uma capacidade crítica própria tivesse vingado no Campus da UFMA – salvo ilusão retrospectiva, possibilidade talvez existente na virada da década de 1970 para a de 1980 -, não há dúvida de que a ideia de Maranhão hoje poderia não ser a mesma e os seus desdobramentos nas artes, ciências e na política seriam outros.

A palavra “crítica”, aliás, é impossível de ser compreendida nesse ambiente. Como se gosta de dizer, crítica só “construtiva”, o resto é “falar mal”.

Mas, quem sabe, ela não esteja se refazendo agora em outros lugares?

*Flávio Soares é professor do departamento de História da UFMA

[texto roubado do perfil do professor no facebook, onde o mesmo é anunciado como “ruminado e escrito no primeiro semestre de 2015, num momento pessoalmente muito difícil, mas que queríamos transformar numa forma de reflexão mais ampla, forma de registro e de luta. Saiu como um desabafo depois esquecido. Um amigo do facebook lembrou que hoje é aniversário da UFMA, dando um click”]

Vinis e resistência

Divulgação
Divulgação

 

Logo mais às 16h eu participo deste ato, rolando uns vinis e dizendo umas coisas, sem ensaio nem “traje condigno”.

Quem quiser colaborar é bem vindo/a! Apareçam!

Em tempo: A Controladoria Geral da União (CGU) disponibilizou um relatório de auditoria que aponta uma série de irregularidades na gestão de Natalino Salgado.

O reitor Edgard Santos e nós

FLÁVIO REIS*

Pode causar estranheza o título deste artigo em plena reta final de campanha da consulta eleitoral na UFMA para a indicação aos cargos de reitor e vice-reitor no período 2015-2019. Afinal de quem se trata?

Edgard Santos, médico, foi reitor da Universidade da Bahia num longo período, entre 1946 e 1962. Oriundo das elites provinciais, mas com uma percepção que ia muito além do provincianismo, fez uma leitura do momento enquanto possibilidade de “recolocar a Bahia no mapa do Brasil” através da cultura, tornando a universidade o dínamo de uma agitação cultural, favorecendo o florescimento de iniciativas variadas no amplo arco da produção estético-intelectual. Apesar de uma noção de cultura ainda herdeira do iluminismo, sem consciência da riqueza do universo antropológico da Bahia, teve abertura suficiente para criar o pioneiro Centro de Estudos Afro-Orientais, e, principalmente, não se dobrou ao nacionalismo mais estreito da época, abrindo as portas para o vanguardismo estético, abrigando figuras iconoclastas nos campos da música, do teatro, da dança, do design.

A geração que participou dessa experiência foi a juventude inquieta e criativa de Glauber Rocha, Caetano Veloso, Tom Zé, Waly Salomão, Rogério Duarte, Helena Ignez, João Ubaldo, Carlos Nélson Coutinho e tantos outros que estariam entre os da linha de frente na revolução cultural desencadeada no final dos anos 60. Na germinação do processo, o encontro entre uma cultura popular viva, diversa e uma instituição universitária que não se submetia simplesmente aos cânones demarcados pelo Ministério da Educação, estando aberta à experiência criadora. Depois de Edgard Santos, logo vieram os militares, a truculência e a uniformização, a burocratização e a burrice. Reestabeleceu-se a desconexão entre as energias da sociedade e a vida universitária.

A Universidade Federal do Maranhão, às vésperas do primeiro cinquentenário, é mais recente que sua congênere baiana, muitos gostam mesmo de enfatizar sua infância frente às latino-americanas, mas, para os padrões nacionais, ela já possui idade suficiente para ter os traços característicos impressos em padrões de atuação bem discerníveis. Neste trajeto é possível detectar dois períodos de reitorados longos: Cabral Marques (1979-1989) e Natalino Salgado (2007-2015), que coincidem com dois momentos de expansão da universidade brasileira a partir das políticas do governo federal. No primeiro caso, sob o domínio da ditadura e, no segundo, sob os recentes governos de Lula e Dilma. O ponto a destacar: a expansão sempre se deu a reboque do estímulo externo e feita a toque de caixa, no ritmo do aparecimento das verbas e ao sabor do que era imposto ou oferecido pelas decisões do Ministério da Educação, com escassa fermentação interna.

Nascida numa sociedade ainda largamente oligárquica, vale dizer, numa sociedade extremamente desigual, onde o compadrio, o clientelismo e o predomínio dos laços de dependência patrimonial, com sua teia de favores através da utilização da máquina estatal, são características indisfarçáveis, a universidade funcionou todo esse tempo quase em circuito fechado, sendo controlada a partir de um núcleo administrativo que comanda com rédea curta o Conselho Universitário. Com pequenas variações essa foi a realidade mesmo depois da ditadura, pois os ventos da real modificação da estrutura administrativa nunca foram além da mera intenção anunciada.

Se olharmos mais de perto, vivenciamos no último longo período até uma regressão chocante neste quesito, pois uma das marcas da gestão de Natalino Salgado foi, sem dúvida, a concentração de decisões, o velho autoritarismo de raiz oligárquica, mas com um matiz ainda mais agressivo, expresso, entre outros, no esvaziamento dos órgãos colegiados, mesmo tradicionalmente submetidos a suas determinações, no desrespeito recorrente ao calendário eleitoral para escolha de Diretorias de Centros, Chefias de Departamentos, Coordenações de Curso ou, mais abertamente, nas ações truculentas de intervenção no Colégio Universitário e na intransigência diante da luta pela moradia estudantil no próprio campus do Bacanga.

No primeiro caso, foi derrotado nas eleições para a nova diretoria do COLUN e, no segundo, derrotado pela força do protesto, pela ação interna de apoio realizada na ação conjunta da APRUMA e do DCE e pela pressão de setores da sociedade civil e da opinião pública em favor dos estudantes. Fora estes dois momentos, no geral reinou soberano, concentrando, de fato, muito mais poderes que no período da ditadura, quando Cabral ainda fazia cumprir determinadas liturgias, já abertamente descumpridas por Natalino Salgado. Lembremos apenas o absurdo do Conselho Universitário ter que ser convocado por interveniência da mesma APRUMA junto ao Ministério Público, pois o reitor simplesmente já nem o convocava.

Não foi à toa, de resto, que tentou algo inusitado, construindo a partir da reitoria chapas que concorreram (e perderam), em duas ocasiões, eleições para a diretoria da associação sindical dos docentes. Por fim, patrocinando abertamente a criação de outro sindicato, com a finalidade de enfraquecer aquele que foi o único espaço institucional não submetido ao domínio centralizador da reitoria.

Mas tal traço de centralização pode ser igualmente identificado na forma como remodelou a bel-prazer o campus universitário, com uma série de construções, várias ainda inacabadas ou mal acabadas, todas sempre muito além do prazo previsto. Atrasos, frise-se, contados não em meses, mas em anos. E obras cujo resultado final chega a ser escandalosamente inferior ao prometido nos projetos arquitetônicos, alardeados em vasta utilização da comunicação institucional para fins de propaganda pura e simples. Nada de consultas, nada de transparência nos gastos, nada de explicações sobre os atrasos, no melhor estilo “faço e desfaço”, como um senhor em sua casa.

Logo na entrada da rebatizada cidade universitária, temos a monumentalidade inacabada  do prédio da Biblioteca Central, obra contratada em 30 de outubro de 2010, ao custo inicial de R$ 10.798.253,24 e prazo de execução de 720 dias, completados em setembro de 2012. É interessante comparar o projeto arquitetônico impresso em propaganda institucional e a situação em que ele ainda se encontra, quase três anos (e sabe-se lá quantos aditivos) depois da data prevista para a entrega. Atente-se que a foto não permite visualizar a situação real do interior do prédio, com todo o acabamento por fazer. Sem dinheiro para concluir a construção, deram um jeito de “terminar” nos últimos dias a imponente escadaria para sustentar propaganda eleitoral e sugerir a entrada num prédio inacabado.

O projeto arquitetônico da Biblioteca Central, prometido num "Guia do Servidor" de 2010...
O projeto arquitetônico da Biblioteca Central, prometido num “Guia do Servidor” de 2010…
E  situação atual da construção, com a escada terminada a toque de caixa, sustentando uma faixa da chapa apoiada pelo reitor. Foto: ZR 20/5/2015
…e a situação atual da construção, com a escada terminada a toque de caixa, sustentando uma faixa da chapa apoiada pelo reitor. Foto: ZR 20/5/2015

 

Configura mesmo um escárnio a faixa com a propaganda da candidata da reitoria, ostentando como troféu, na maior cara dura, algo que deveria ser objeto de averiguação do Tribunal de Contas da União. Ou quando estabelecemos a mesma comparação entre o projeto apresentado e utilizado nas propagandas institucionais e eleitorais e o choque da realidade, na Casa da Justiça, obra contratada em 1º. de setembro de 2010, com prazo de entrega de oito meses, recebendo os aditivos de praxe e entregue apenas recentemente. É de doer os olhos.

Projeto arquitetônico da Casa da Justiça. Guia do Servidor, 2010
Projeto arquitetônico da Casa da Justiça. Guia do Servidor, 2010
Casa da Justiça. Foto: ZR 20/5/2015
Casa da Justiça. Foto: ZR 20/5/2015

 

Na mesma linha de desencontros de dimensões surreais, o que dizer, então, do projeto da Concha Acústica, obra cujo contrato inicial era de 2009, com prazo de entrega em 180 dias, que recebeu um aditivo em 2011 e foi inaugurada na SBPC, no ano seguinte?

Projeto arquitetônico da Concha acústica. Guia do Servidor, 2010
Projeto arquitetônico da Concha acústica. Guia do Servidor, 2010
Concha acústica. Foto: ZR 20/5/2015
Concha acústica. Foto: ZR 20/5/2015

 

Note-se que a UFMA possui cursos de música, de teatro, de artes visuais e a cidade é identificada como espaço de variadas manifestações da cultura popular, mas a própria universidade não tem um teatro, uma galeria, não favorece as trocas, não cultiva espaços de encontro, não aproveita o enorme potencial de gerações que são literalmente amputadas de qualquer anseio criativo. E isto num estado onde as secretarias de cultura são fracas, quase apenas balcões de acesso de grupos organizados às minguadas verbas do setor. Preocupada em construir grandes auditórios para convenções, a reitoria fez pouco caso de toda uma área estratégica para a nossa própria identidade. Manteve firme o pacto de mediocridade com as velhas academias de letrados e a mídia predominante em torno do autoelogio, sem dúvida a expressão mais acabada de nossa esclerose, passando ao largo de qualquer crítica da cultura. Essa concepção pautada no espetáculo, na concessão de honrarias, no discurso vazio e nas solenidades, desconectada dos processos sociais, está sintetizada no projeto de utilização do prédio da antiga Faculdade de Farmácia e Odontologia para instalação do “Palácio da Ciência” (sic). Em pleno século XXI, isso tudo é de um anacronismo de causar espanto.

Fiquemos com estes três, mas a referência aos projetos inacabados poderia ser muito mais ampla, passando pela TV UFMA, de 2008, alardeado na última campanha como “uma realidade para 2012”. Até hoje continua na promessa. Ou pelo já histórico prédio da Biologia, obra contratada em 2010, objeto ainda há pouco de matéria televisiva provocada por alunos fartos de tanta enrolação, obrigados a trabalhar amontoados em laboratórios indignos de tal denominação. Poderíamos enfocar o anexo do CCET ou até mesmo prédios bem modestos, como o do Núcleo do Fígado, no entorno do HU, promessa antiga que nunca se efetiva. Exemplos não faltam.

É um retrato tímido do nível de desperdício de dinheiro público a que chegamos nesta administração, alicerçado na total autonomia que o reitor exerceu sobre todo o processo. É o resultado da negação da própria natureza da administração colegiada que, por princípio, deveria reger a universidade. Falo do que vejo cotidianamente e nos agride há anos, mas o que não se verá nos outros campi? De pequenos relatos sabe-se das carências de funcionamento dos cursos, o mesmo enredo de desencontros entre o prometido e o realizado.

Tudo isto foi acompanhado de uma utilização intensa da ASCOM, que deveria ser instância de comunicação institucional, transformada em agência de publicidade da reitoria. Durante seu primeiro mandato, inclusive, abríamos a página da UFMA e dávamos com um retrato na coluna intitulada “Palavra do reitor”. Os alunos, é claro, não perderam a piada cortante, chamando a página de blog do Natalino. O que está em jogo aqui é a própria função da comunicação institucional, posta a serviço da construção da imagem do reitor e de sua administração. Basta atentar para o vasto material que foi distribuído ao longo destes anos com propaganda institucional, agendas, pastas, folders, todas repletas dos maravilhosos projetos arquitetônicos, tabelas sobre a ampliação do número de alunos, de cursos de graduação e pós-graduação etc. Além da utilização aberta da máquina burocrática da reitoria em períodos eleitorais, como vimos em 2011 e seguramente veremos com violência ainda maior neste pleito.

Por baixo do mundo das imagens, no entanto, a realidade cotidiana vai se mostrando outra, a universidade carece de vida, o aumento dos números não esconde o esvaziamento constante do campus, existe pouca articulação entre suas unidades, falta autonomia aos departamentos, os funcionários são insuficientes e as lacunas supridas com a exploração de bolsistas, os alunos são praticamente ignorados, com uma péssima prestação de serviços, seja de restaurantes, bibliotecas, espaços de convívio, disponibilidade de equipamentos, transporte. A cidade universitária possui igualmente outra face, cada vez mais evidente, de circo de horrores. As filas gigantescas do RU e o sufoco das paradas de ônibus, ocasionando as cenas de romarias a pontos distantes na busca de um lugar, são as imagens mais chocantes, mas nem de longe as únicas, do verdadeiro tratamento de gado dispensado aos estudantes.

A negação de qualquer espaço para debate tomou tons dramáticos quando foi colocada a questão da criação de uma empresa para gerir os serviços prestados pelos hospitais universitários. Em que pese a delicadeza do tema e as implicações da decisão a ser tomada, em uma área cuja situação é de clara emergência, o reitor agiu como sempre, atropelando os trâmites, cerceando a discussão e concluindo o acordo na base de um ato administrativo da direção do HU, sem apreciação pelos colegiados superiores.

O mandonismo de velha cepa oligárquica apareceria ainda com força no “toma lá, dá cá” que passou a dominar o próprio encaminhamento de solicitações na esfera administrativa, pois “falar com o reitor” é o verdadeiro passo para conseguir qualquer coisa, tudo é tratado de forma muito pessoalizada, e também na vergonhosa imposição do desligamento do professor Ayala Gurgel, do Departamento de Filosofia, por dano à “imagem” da UFMA, em processo frágil, eivado de erros e derrubado em instância liminar. Para isto contou, é bom frisar, com a falta de autonomia e até de brios de um Conselho Universitário acovardado, novamente com exceção honrosa da representante da APRUMA, que foi voz solitária no repúdio àquele ato arbitrário.

Não obstante este quadro, onde apenas foram alinhavados fatos que são do conhecimento de todos, a ideia que sua máquina publicitária construiu é de uma gestão de “crescimento com inclusão e participação”. A imagem que muitos inadvertidamente encampam é a do agente modernizador, a gestão com “eficiência comprovada”, permanecendo em segundo plano a observação sobre a natureza desta modernização, suas pontes de contato e reprodução com as velhas práticas exclusivistas, numa palavra, os traços patrimoniais e oligárquicos que cumpre ultrapassar. Houve crescimento, mas a qualidade e a forma precisam ser seriamente discutidas; a inclusão foi tímida, exatamente pelo desencontro entre o prometido o funcionamento efetivo dos programas; e a participação foi quase inexistente, restringindo-se, quando muito, à mera encenação.

A UFMA encontra-se novamente diante de uma encruzilhada que guarda similitudes com a disputa do ano de 2007, justamente quando Natalino Salgado tornou-se reitor. Na ocasião, abriu-se um vazio decorrente da desistência do então reitor e candidato considerado natural à disputa pela reeleição, Fernando Ramos, surgindo a candidatura do professor Francisco Gonçalves, então apenas coordenador do curso de Comunicação Social. Nome conhecido, profissional respeitado e pessoa aberta ao diálogo, vindo da experiência dos movimentos sociais, como num feixe de luz, a sua candidatura ganhou força e foi se contagiando em alegria, configurando uma possibilidade bem diferente do que havíamos visto até ali na história da universidade, pois a escolha de reitores sempre foi resolvida entre eles, os da administração superior, de tal modo que fazer parte deste circuito era condição essencial a qualquer aspirante. Isto e o apoio do reitor em fim de mandato. No fundo, apesar das diferenças, os reitores foram quase saindo um de dentro do outro, configurando um verdadeiro Monstro do Mesmo, pois os eventuais atritos nunca foram suficientes para quebrar esse fosso que se colocou entre a administração e a comunidade universitária.

Infelizmente, naquela ocasião a APRUMA e o DCE, por um erro grande de percepção das possibilidades abertas, preferiram optar por não participar do pleito e pregaram o boicote à consulta, alegando a ilegitimidade decorrente do peso do voto dos professores equivaler a 70% do total, restando os outros 30% divididos igualmente entre os segmentos de alunos e funcionários. Uma das bandeiras centrais da candidatura de Chico Gonçalves, no entanto, era implantar a paridade, o peso igual para os três segmentos, o que já significaria grande avanço mesmo pra quem defendia o voto universal, como era o caso das diretorias das duas instituições.

Ao cabo de oito anos, limitado por seu próprio centralismo personalista, Natalino Salgado teve dificuldade em deixar fluir o processo sucessório, terminando por indicar como candidata, tal como um czar da instituição, a Diretora do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, Nair Portela. Sem nenhuma autonomia frente ao atual reitor, o horizonte que ela oferece a esta universidade é sombrio, a de um reitorado fantoche, justo no momento em que todas as IFEs sofrerão sérias restrições orçamentárias. Como herança a ser encarada temos a penca de prédios e obras não acabadas/mal acabadas, a expansão galopante sem correspondente infraestrutura e a necessidade inadiável de repensar seu próprio lugar na sociedade, principalmente a insuficiência de suas relações com a realidade maranhense. Mais do que nunca o pensar conjunto e a ação transparente serão os antídotos contra as decisões arbitrárias.

A UFMA, apesar de toda insuficiência, se transformou no correr das décadas e possui trabalhos em diversas áreas que não podem ser ignorados. Fruto do esforço de vários, muitas vezes lutando contra amarras burocráticas até inacreditáveis, formaram-se grupos de pesquisa, cursos de pós-graduação, inciativas bem sucedidas de extensão, levadas quase a ferro e fogo por seus proponentes. Neste soar do cinquentenário, uma nova possibilidade de driblar o curso normal da história e iniciar um caminho diferente, de ativação de forças de participação, de maior autonomia, volta a se colocar e com uma novidade importante em relação às disputas de 2007 e 2011, quando as candidaturas aguerridas de Sirliane Paiva e Cláudia Durans expressaram a existência de pontos de resistência importantes a esse projeto autoritário que se pretendia hegemônico. Em 2015, a junção desses pontos esteve na base da formação do Movimento UFMA Democrática (MUDe), um movimento de participação transversal, criado contra a mesmice preservada quase intacta ao longo de décadas e sustentada na anemização conformista que brota do simples fato de tudo vir da reitoria.

A era dos Edgard Santos já passou há muito, algo que Natalino Salgado, em seu narcisismo heroico, e sem possuir a dimensão do personagem, não teve qualquer pendor para perceber. Neste momento da história da universidade, o verdadeiro salto qualitativo só virá como fruto da modificação da estrutura administrativa arcaica em que estamos todos mergulhados. Ativar os colegiados e abri-los, reformá-los com vistas à ligação mais estreita com a comunidade, fortalecer os departamentos e os centros, derrotar esta linhagem de mandarins da administração superior, aproximando os campi, instaurando a discussão ampla sobre os problemas e os rumos da universidade e não impondo receituários, como tem sido a práxis em todos estes anos, são eixos fundamentais cuja defesa encontram expressão nas candidaturas de Antônio Gonçalves a reitor e Marise Marçalina a vice-reitora.

Oriundos da ponta mesmo das atividades-fins, um médico do HU e uma doutora em educação voltada a projetos de alfabetização, tendo ambos a dimensão mais crua das dificuldades cotidianas e não do mundo da fantasia em que parecem viver os integrantes da administração superior, representam um caminho bastante distinto neste aspecto crucial de aproximar a administração da comunidade universitária e no ideal de “construir um planejamento participativo que estabeleça um fluxo de relações com a sociedade civil e os movimentos sociais”, tirando a universidade do isolamento olímpico em que ela sempre se manteve. Não será fácil, nem a transformação ocorrerá num passe de mágica, mas esta eleição poderá marcar um momento de maturidade, quando a comunidade universitária em sua maioria se recusa a continuar dominada por uma estreita camarilha administrativa, decide finalmente romper seus grilhões mais antigos e encaminhar a discussão de seus próprios rumos, livre de senhores e falsos heróis.

*Flávio Reis é professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA. Publicou Cenas marginais (2005, ed. do autor), Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão (2007, ed. do autor) e Guerrilhas (2012, Pitomba/ Vias de Fato).

Quase crônica em comentário a telefonema de ouvinte a rádio AM

O chargista Carlos Latuff dando a real sobre a redução da maioridade penal em charge de 2010
O chargista Carlos Latuff dando a real sobre a redução da maioridade penal em charge de 2010

 

Em comentário em rede social que cito de memória, Bruno Azevêdo afirmou, certa vez, que telefonemas a rádios AM dariam bons contos. Ou crônicas, já não lembro. Tão bons que bastaria gravar e transcrever as ligações e publicar. Escriba de raro talento, ele tem razão.

Como se o trânsito já não me estressasse o suficiente, normalmente dirijo ouvindo AM. Vez por outra sintonizo uma FM, a depender do horário, da qualidade da música tocada e, o que quase sempre enseja a mudança, das opiniões reacionárias propagadas pelas amplitudes moduladas: enojam-me mais as de certos colegas radialistas que as de ouvintes em geral.

O fato é que, hoje pela manhã, enquanto dirigia, após ouvir diversas notícias entre as quais as dos assassinatos de um vereador em Santa Luzia, domingo, e de um estudante, durante um assalto a ônibus na capital, ontem, o telefone começou a ser usado pelos ouvintes para as esperadas colheradas no angu.

No caso, a defesa da redução da maioridade penal é uma espécie de unanimidade burra, como advertiria Nelson Rodrigues. O ouvinte começa seu alô dizendo o nome e o bairro em que mora, depois saúda o locutor e os ouvintes da rádio e do programa. A certa altura da ligação, ouvimos um “eu sou policial também”. Depois emenda com um “não estou incitando a violência” para finalmente destilar sua opinião – veneno que ninguém pediu.

Antes de desligar, ameaça a torto e a direito: “não nasci com farda na costa nem tenho paixão por emprego: comigo é elas por elas. Adolescente vagabundo que vier se meter com soldado Carlos vai levar” – omiti o nome real do policial, mas o programa tem grande audiência, então é capaz de os poucos mas fiéis leitores o saberem.

Não culpo Carlos por sua postura pública. Embora ele não tenha dito na ligação se é policial civil ou militar, disse que a profissão “é de risco”. Neste aspecto ele sabe o que fala. Ademais, na hipótese de ser militar, repete a opinião dos hierarquicamente superiores, incluindo seus representantes na Assembleia Legislativa e Câmara Federal.

Feito Carlos, grande parte dos que defendem a famigerada medida apenas repete clichês surrados ouvidos aqui e acolá. Desconhecem, por exemplo, estatísticas que dão conta de que cerca de 1% dos homicídios são cometidos por pessoas com 16 e 17 anos. Ou seja: você não soluciona um problema e, de quebra, aprofunda outro, gravíssimo, inchando ainda mais os superlotados locais de privação de liberdade do falido sistema penitenciário brasileiro.

Arte como arma: Chico César peita os reis do agronegócio

Para vocês, que emitem montes de dióxido,
Para vocês, que têm um gênio neurastênico,
Pobre tem mais é que comer com agrotóxico,
Povo tem mais é que comer, se tem transgênico.
É o que acha, é o que disse um certo dia
Miss Motosserrainha do Desmatamento.
Já o que acho é que vocês é que deviam
Diariamente só comer seu “alimento”.
Vocês se elegem e legislam, feito cínicos,
Em causa própria ou de empresa coligada:
O frigo, a múlti de transgene e agentes químicos,
Que bancam cada deputado da bancada.
Té comunista cai no lobby antiecológico
Do ruralista cujo clã é um grande clube.
Inclui até quem é racista e homofóbico.
Vocês abafam mas tá tudo no YouTube.

Trecho de Reis do agronegócio, parceria de Chico César (música) e Carlos Rennó (letra). Uma porrada de arrepiar!  Vejam e ouçam a obra-prima completa:

Arte e política em festa coletiva

O Coletivo Gororoba. Foto: divulgação
Show marca ingresso de Áurea Maranhão no Coletivo Gororoba. Foto: divulgação

 

Um acontecimento artístico plural e com componentes políticos. É o que promete ser a ManiFesta, cujo título já traduz suas pretensões. Realização do Coletivo Gororoba e Conexão Espaço Habitação, o evento acontece neste sábado (25), a partir das 20h, na Guest House (Rua da Palma, 142, Centro). Os ingressos custam R$ 20,00 (R$ 10,00 antecipado, meia entrada e na lista amiga, pelo e-mail coletivo.0.gororoba@gmail.com

A programação junta cinema, instalação, teatro, fotografia e música. Membro do Coletivo Gororoba, Ramusyo Brasil exibirá, na abertura da ManiFesta, o filme Maranhão 669 – Jogos de Phoder. “Nessa exibição será realizada uma tríplice projeção, com inclusão de imagens que ficaram fora da montagem final, além de jogos de percepção e atenção a partir das imagens projetadas nas diferentes telas”, anuncia o material de divulgação distribuído aos meios de comunicação.

Com Nayra Albuquerque e Luciano Linhares, Ramusyo Brasil também é autor da vídeo-performance Massa estanque, baseada na intervenção urbana Cegos, do grupo paulista Desvio Coletivo, apresentada pelas ruas de São Luís na 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes do ano passado. Às 21h a vídeo-performance será trilhada ao vivo pelo trio de autores.

A partir das 21h30, de meia em meia hora, Áurea Maranhão, Luciano Teixeira, Tieta Macau e Ruan Paz apresentam, respectivamente, Tá tudo à venda, Não é vício, A loira no banheiro, O’Culto. A primeira performance de corpo, um work in progress, terá escolha de três cenas pelo público, a serem interpretadas pela atriz.

Fotografia de Adnon Soares foi amplamente repercutida em redes sociais denunciando o exagero do aparato policial para conter manifestações de estudantes contra o aumento das passagens de ônibus em São Luís
Fotografia de Adson Carvalho foi amplamente repercutida em redes sociais denunciando o exagero do aparato policial para conter manifestações de estudantes contra o aumento das passagens de ônibus em São Luís

 

Desde as 20h, a fotografia também ocupará a Guest House. Diones Caldas exibirá a fotomontagem Fotos preto e branco de um banho de chuva, com fotografias realizadas e editadas com um telefone celular. No ensaio fotográfico R$ 2,80 é um roubo, Adson Carvalho explora as tensões das manifestações contra o aumento das passagens de ônibus na capital maranhense e os conflitos entre a Polícia Militar e estudantes nas ruas de São Luís. A foto-instalação Atlas #ProtestoBR, projeto de Bruno Barata, Carolina Libério e Jane Maciel, do Laboratório Experimental de Pesquisa em Redes, Visualidades, Tecnopolíticas e Subjetividades (MediaLab), vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coleciona, através de uma plataforma online imagens dos protestos ocorridos no Brasil a partir de 2013.

Haverá ainda discotecagem de Dani P e Fernanda Preta. Às 23h30 acontece o show Coração Cordel Canção, do Coletivo Gororoba, com participações especiais de Madian, Criolina e Walberth Guimarães. O espetáculo tem “inspiração visual e sonora na música e no estar-no-mundo nordestinos”.

Futebol, política e rock n’ roll em debate

 

No geral, nada importa mais para o brasileiro médio que o futebol. Por causa do esporte se morre e se mata, num fanatismo inexplicável. Não à toa o tricampeonato mundial da Seleção Brasileira, no México, em 1970, com Pelé e companhia, foi usado como um reforço ao “ame-o ou deixe-o” travestido de civismo – e cinismo – da ditadura militar. Anos depois, o fim daquela década deu início ao maior movimento de contestação do regime dos generais em um clube de futebol: a Democracia Corinthiana.

O auge se deu em 1982 – quando a ditadura militar brasileira chegava à maioridade – e 83, com o Corinthians ganhando um bicampeonato paulista, com sobras de talento, futebol-arte, elegância e coesão. “Ganhar ou perder, sempre com democracia” era o slogan.

Paraense de nascimento, médico de profissão, socialista por opção, filósofo Brasileiro de batismo, Sócrates era o comandante da guinada à esquerda dentro do clube paulista, em que tudo passou a ser decidido coletivamente, reagindo a outra ditadura que ali se perpetuava, ganhando outras dimensões e conotações.

Os tempos eram outros, o rock brazuca, em seu nascedouro, ainda tinha algo a dizer, estádios não eram arenas, o futebol ainda não era apenas um esquema globalizado de jogadores com salários de cifras incontáveis, fora a publicidade, e ninguém tinha nada a ver com a vida privada dos craques.

Uma fala do apresentador Serginho Groisman sintetiza Democracia em preto e branco – futebol, política e rock n’ roll [Brasil, documentário, 90 min., direção: Pedro Asbeg], filme que resume bem essa história: estão ali os três assuntos do subtítulo, que em geral somos ensinados a não discutir – certamente por ranço da ditadura –, o último por mera questão de gosto (cada um tem o seu). Às vezes a conta era fechada com religião, outro assunto indiscutível – ouvi a advertência muitas vezes na infância e adolescência.

Narrado por Rita Lee e fartamente ilustrado pelo nascente brock e por golaços corintianos da época – torça-se ou não pelo alvinegro do Parque São Jorge, é inegável a categoria daquele elenco –, o filme traz depoimentos de músicos, jornalistas, jogadores de futebol e políticos, para contar um capítulo importante da história recente do Brasil, sob uma ótica bastante original.

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Acontece hoje (24), às 16h, no auditório Mário Meireles (Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal do Maranhão), a sessão de abertura da mostra Cinema Pela Verdade, que em 2015 chega à sua quarta edição.

Após a sessão, gratuita e aberta ao público em geral, este que vos perturba participa do debate com os professores Luiz Eduardo Lopes (História/ UFMA/ Pinheiro) e Adriana Facina (Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social/ Museu Nacional/ UFRJ), coordenadora pedagógica do projeto.