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Maranhão 70

O discreto aniversário de 70 anos de Chico Maranhão, “um ser criador”.

ZEMA RIBEIRO

O compositor durante show no Clube do Choro Recebe (Restaurante Chico Canhoto) em 27/10/2007

Como era de se esperar, não houve estardalhaço midiático pelos 70 anos de Chico Maranhão, compositor tão importante quanto Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Paulinho da Viola, outros ilustres setentões da senhora dona Música Popular Brasileira. Nem os meios de comunicação de Pindorama nem os timbira deram qualquer atenção à efeméride.

“Para mim é uma data como outra qualquer”, me diz o compositor ao telefone, em 17 de agosto passado. A afirmação não demonstra arrogância, mas simplicidade e desapego. Francisco Fuzzetti de Viveiros Filho, “nome usado unicamente para guardas de trânsito e delegados, com os quais ele não permitia a intimidade de seu verdadeiro nome – Maranhão”, como afirmou Marcus Pereira na contracapa de Lances de Agora (1978), há pouco mais de um ano descobriu um erro em seu registro de nascimento. “Nasci 17 e no registro consta que nasci 18; agora eu comemoro as duas datas”, diz. Avesso a comemorações, no entanto, o autor de Ponto de Fuga passou as datas em casa, lendo Liberdade, de Jonathan Franzen.

Puro acaso (ou descaso?), 17 de agosto foi a data em que o Governo do Estado do Maranhão anunciou a programação cultural oficial do aniversário dos controversos 400 anos de São Luís, em que figuras como Roberto Carlos, Ivete Sangalo e Zezé di Camargo & Luciano desfilarão pela fétida Lagoa da Jansen, os shows sob produção da Marafolia, com as cifras mantidas em sigilo, em mais uma sangria nos cofres públicos. Como outros artistas de igual quilate domiciliados na Ilha, Chico Maranhão ficou de fora.

“Quando eu tava em São Paulo [estudando Arquitetura e já envolvido com música, participando dos grandes festivais promovidos por emissoras de televisão, na década de 1960] e resolvi vir embora, muita gente me desaconselhou. Eu vim, sabendo para onde estava vindo. Sou feliz aqui, apesar de ver a cidade crescendo desordenadamente, de saber que daqui a algum tempo acontecerá aqui o que já aconteceu em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Salvador: você não poder mais sair de casa ou por que não há espaço para seu carro ou por que você pode ser assaltado em qualquer esquina”, conta Chico, que revela estar com um disco praticamente pronto. “Estou esperando passar esse período de campanha eleitoral, em que os estúdios ficam todos ocupados para finalizar”.

Maranhão (1974)…

A obra musical de Chico Maranhão tem uma qualidade extraordinária e ao menos três discos seus são fundamentais em qualquer discografia de música brasileira que se preze: Maranhão (1974), do mais que clássico frevo Gabriela, defendido em 1967 pelo MPB-4 em um festival da TV Record, Lances de Agora(1978), de repertório impecável/irretocável, gravado em quatro dias naquele ano, em plena sacristia da Igreja do Desterro, na capital maranhense, e Fonte Nova (1980), da contundente A Vida de Seu Raimundo, em que Maranhão recria, a sua maneira, a barra pesada da ditadura militar brasileira (1964-85) e o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, nos porões do DOI-CODI.

… Lances de Agora (1978)…

A trilogia é tão fundamental quanto rara: lançados pela Discos Marcus Pereira, os discos estão esgotados há tempos e confinados ao vinil. Curiosamente nunca foram relançados em cd, como os trabalhos de Canhoto da Paraíba, Cartola, Donga, Doroty Marques, Papete e Paulo Vanzolini, para citar apenas alguns poucos nomes produzidos e lançados pelo publicitário, que após mais de 100 discos em pouco mais de 10 anos, acabaria se suicidando, acossado por dívidas.

… e Fonte Nova (1980): a trilogia fundamental de Chico Maranhão

A estreia fonográfica de Chico Maranhão data de 1969. À época, seu nome artístico era apenas Maranhão e ele dividiu um disco brinde com Renato Teixeira, um lado para composições de cada um. Do seu já constava Cirano (que apareceria novamente em Maranhão e Lances de Agora), para a qual Marcus Pereira já nos chamava a atenção à qualidade literária desta obra-prima. “Este disco merece um seminário para debate e penitência”, cravou certeiro o publicitário na contracapa de Lances de Agora. Bem poderia estar se referindo à obra de Maranhão como um todo.

Formado em Arquitetura pela FAU/USP, na turma abandonada por Chico Buarque, a formação acadêmica de Maranhão, também Mestre em Desenvolvimento Urbano pela UFPE, certamente influencia sua obra musical, onde não se desperdiça nem se coloca à toa uma vírgula ou nota musical, em que beleza e qualidade são a medida exata de sua criação. “Na verdade, sou um criador, não me coloco nem como arquiteto nem como músico, sou um homem criador, o que eu faço eu vou fazer com criatividade, com qualidade”, confessou-me em uma entrevista há sete anos.

A obra de Chico Maranhão merece ser mais e mais conhecida e cantada – para além do período junino em que muitas vezes suas Pastorinha e Quadrilha (parceria com Josias Sobrinho, Ronald Pinheiro, Sérgio Habibe e Zé Pereira Godão), entre outras, são cantadas a plenos pulmões por multidões que às vezes sequer sabem quem é seu autor.

A reedição de seus discos em formato digital faria justiça à sua obra infelizmente ainda pouco conhecida, apesar de registros nas vozes de Célia Maria (Meu Samba Choro), Cristina Buarque (Ponto de Fuga), Diana Pequeno (Diverdade), Doroty Marques (Arreuni), Flávia Bittencourt (Ponto de Fuga e Vassourinha Meaçaba), MPB-4 (Descampado Verde e Gabriela) e Papete (Quadrilha), entre outros.

As palavras de Marcus Pereira, em que pese o número hoje menor de lojas de discos, continuam atualíssimas. A contracapa agora é de Fonte Nova: “‘Lances de Agora’, o mais surpreendente e belo disco jamais ouvido pelos que a ele tiveram acesso, nesta selva do mercado brasileiro onde, em 95% das lojas, encontram-se apenas 100 títulos de 20.000 possíveis. Esses 100 discos privilegiados todo mundo sabe quais são. Este ‘Fonte Nova’ é um passo além de ‘Lances de Agora’. Quem duvidar, que ouça os dois. Mas os seus discos são de um nível poético e musical que, no meu entender, não encontra paralelo na música brasileira”.

[Vias de Fato, agosto/2012]

Contradição e vacilos: Pelé e nossos meios de comunicação

“Pelé calado é um poeta”, afirmou há algum tempo o hoje deputado estadual carioca Romário sobre o rei do futebol. Tem razão! O talento que sobrava aos pés do mineiro de Três Corações falta-lhe ao usar a boca. A cabeça só não é de todo desprezada pelos muitos gols que fez usando-a.

“Pelé pede que brasileiros deixem rivalidades de lado e torçam pelo Corinthians”, diz a manchete do ESPN/MSN Esportes. Trecho da matéria, mais à frente: “Para justificar o seu ‘pedido’, Pelé ressaltou a rivalidade entre Brasil e Argentina”.

O “poeta” caiu em contradição.

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PUXANDO A BRASA PRA SEU JACARÉ

O projeto Música e Memória terá mais uma edição realizada amanhã no Teatro Apolônia Pinto, no Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM, Rua do Sol, 302, Centro), a partir das 19h30min, com entrada franca. Quem se apresenta por lá é o Instrumental Pixinguinha.

O release da Secretaria de Comunicação do Governo do Estado correu redações e a blogosfera. Ontem mesmo este blogue recebeu e-mail da direção do MHAM e quase imediatamente respondeu, perguntando se se trataria de uma apresentação do Instrumental Pixinguinha, único grupo de choro da Ilha com disco gravado, ou uma homenagem coletiva a um dos pais da música brasileira. O texto recebido não deixava clara coisa ou outra e não obtivemos resposta até agora.

Diversos veículos, como de praxe, copiaram e colaram o texto sem se preocupar com nada. Na página da Elo, catei dois vacilos, se é que podemos dizer assim. Vejamos: “Atualmente, músicos como Paulinho da Viola, Paulo Moura e Turíbio Santos, e grupos de música instrumental preservam o choro, renovando constantemente este estilo musical”. Quase nenhum problema, não fosse o “Paulo Moura”: o exímio clarinetista faleceu em 12 de julho de 2010.

E Abraçando Jacaré, homenagem de Pixinguinha ao cavaquinista pernambucano Antônio da Silva Torres (o Jacaré abraçado pelo mestre, que inspirou ainda o nome do grupo carioca homônimo à música); no release copied and pasted, a música virou Abrasando Jacaré. Eu nem vou botar o sic entre parênteses.

Rádio Mec foca violão de João Pedro Borges

Hoje (15), às 22h, vai ao ar mais uma edição do semanal Violões em Foco, na Rádio Mec (o programa pode ser ouvido pela internet).

Rádio Mec apresenta um dos maiores nomes do violão brasileiro

Redundância intencional, o Violões em Foco de hoje enfoca o talento de João Pedro Borges, um dos maiores nomes brasileiros do instrumento que dá nome ao programa, que tem apresentação de Luís Carlos Barbieri.

A programação inclui peças como Valsachorando, Valsa da Vida, Abraçando Chico Soares (as três de Paulinho da Viola), Elogio de la Danza (Leo Brouwer) e Tema e variações –  1, 10, 20 e fuga de Folias de Espanha (M. Maria Ponce).

Também conhecido no meio musical como Sinhô, João Pedro Borges bate um papo com Luís Carlos Barbieri, e não executará as peças ao vivo.

Disco brinde em que João Pedro Borges interpreta Paulinho da Viola (com a participação do mesmo nunca teve reedição em cd)

Curiosidade – As três primeiras músicas acima listadas, por exemplo, fazem parte do álbum Brasil Instrumental, um duplo raríssimo, de 1985, que uma empresa deu de brinde a seus clientes. Conta com um time enxuto, porém da pesada: João Pedro Borges (violão), Paulinho da Viola (cavaquinho e violão) e Cesar Faria (violão). O outro disco do brinde trazia o encontro inusitado (com isso refiro-me à formação do quarteto, não ao indiscutível talento de seus integrantes) de Paulo Moura (saxofone), Zé da Velha (trombone), Raphael Rabello (violão) e Jacques Morelembaum (violoncelo). Nunca teve reedição em cd.

Ser Vasco é preciso

Este blogue dedica o texto alheio abaixo aos ilustres amigos e parentes vascaínos Bruno Galvão, Emílio Azevedo, Heider Nogueira, Maria Clara, Rafaela Nunes (estes três, a família da boneca Vascuda), Ricarte Almeida Santos e Susalvino Tadeu.

AMIGO TORCEDOR, amigo secador, a caravela saiu do escudo, do peito do vascaíno, e até agora singra ruas e mares, que festa merecida, depois do triunfo do mais nacional dos campeonatos.

O mais nacional e o menos elitista, o torneio da gente diferenciada, como diriam em Higienópolis. Nenhum time mais que o Vasco da Gama, o nome do heroico português, merecia o título nessa hora.

Nessa grave hora, amigo, em que o futebol, assim como na sua chegada à nossa pátria, embranquece de novo, caminha para uma elitização medonha, com ingressos ao alcance de poucos. Navegar é preciso, ser Vasco agora é mais preciso ainda.

O Vasco, o primeiro clube a aceitar negros, mulatos e brancos pobres na sua equipe, quando o esporte ainda era exclusividade dos barões, ganha a Copa do Brasil, essa espécie de Coluna Prestes ludopédica, que abarca o sertão e o cais. Que o título vire símbolo. Só o time da Colina pode desbravar de novo uma campanha, na contramão da história, por um futiba de massa, que não caia no conto elitista de sequestrar a geral dos estádios. Só o Vasco, prezado Dinamite, pode sair na frente.

O Flamengo e o Corinthians, também de origens proletárias, só pensam em luxo e riqueza. Quem sabe uma aliança com o Internacional, outro pioneiro no embate de classes. Quem sabe o Santa lá no Recife, com seu bravo lumpesinato, também abrace a causa.

O mundo gira e a lusitana roda, a história carecia de um Vasco forte exatamente agora. O Vasco de Almir Pernambuquinho e de Juninho Pernambucano. O Vasco dos patrícios, da padaria e de todas as adegas, do trabalho e da bagaceira, do português que sai da piada para entrar na história, reescrevendo, com a Bic que escorre atrás da orelha, um novo Lusíadas.

Cesse toda a obviedade que a resenha esportiva canta. Sem essa de achar que Copa do Brasil vale pela vaga na Libertadores. Tudo bem, dá acesso, o futuro a Deus e a dom Sebastião pertencem. O que vale, porém, é a mais nacional das pelejas, não esse Sonolentão-2011 apenas com 20 clubes da elite.

Agora, rumo ao Santos Dumont, vejo uma imagem inesquecível, a multidão vascaína arrastando o ônibus do clube como se fosse uma caravela gigante, uma arca de Noé que desliza no seco como se no oceano dos grandes conquistadores.

“Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar.” Eis a trilha sonora, do vascaíno Paulinho da Viola, ecoando sobre a velha Guanabara.

O impagável XICO SÁ, melhor texto sobre futebol e entre os melhores sobre qualquer assunto, no caderno de esportes da Folha de S. Paulo de hoje (link para assinantes Folha/UOL).