Arquivo da tag: obituário

Obituário: Papete

Papete em clique de Marcio Vasconcelos
Papete em clique de Marcio Vasconcelos

A despeito das controvérsias, da aura mítica e das diversas lendas em torno do LP Bandeira de aço [1978], desde sua feitura, iniciativa do desbravador Marcus Pereira, até os dias atuais, e já lá se vão quase 40 anos, Papete (8/11/1947-26/5/2016), falecido ontem, após meses de batalha contra um câncer de próstata, acabou por tornar-se uma das vozes mais importantes da cultura popular do Maranhão.

Bandeira de aço foi o disco mais lembrado da música popular produzida no Maranhão desde 1972 em enquete realizada pelo jornal Vias de Fato.

Papete contribuiu para tornar nacionalmente conhecidos ritmos como o bumba meu boi, o tambor de crioula e o tambor de mina, entre outros. Será para sempre lembrado como um grande intérprete de clássicos do cancioneiro do Maranhão, particularmente o do período junino.

Como percussionista acompanhou artistas de outras searas, entre os quais Almir Sater, Chico Buarque, Diana Pequeno, Dominguinhos, Erasmo Dibell, Jane Duboc, João Bá, Josias Sobrinho, Marília Gabriela (sim, a apresentadora!), Osvaldinho da Cuíca, Passoca, Paulinho da Viola, Paulinho Nogueira, Renato Teixeira, Rita Lee, Toquinho e Veronica Ferriani.

Não à toa muita gente costuma se referir a clássicos de nomes como Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota, Sérgio Habibe – os quatro gravados por ele em Bandeira de aço –, Chico Maranhão, Donato, Humberto de Maracanã, Manequinho e Ronald Pinheiro, entre muitos outros, como “aquela música de Papete”. O que pouca gente sabe é que Papete compunha muito raramente, embora tenha sido parceiro de nomes como Celso Borges e Chico Saldanha.

Há um ano lançou o livro Os senhores cantadores, amos e poetas do Bumba meu boi do Maranhão, com CDs e dvd revelando o pesquisador que ele já era antes mesmo da obra, que conta com músicas, depoimentos e fotografias – realizadas por Marcio Vasconcelos.

Seu último disco de carreira foi o duplo Sr. José de Ribamar e outras praias [2013], cujo título aludia ao nome de batismo do bacabalense, José de Ribamar Viana, e à sua versatilidade, registrando um leque amplo de compositores – mas voltando às origens: o segundo disco era uma regravação de Bandeira de aço, com a ordem das faixas alteradas.

Obituário: João Madson

João Madson em raro registro sem cavanhaque. Foto: Arquivo O Estado do Maranhão
João Madson em raro registro sem cavanhaque. Foto: Arquivo O Estado do Maranhão

 

Conheci João Madson há quase década e meia, ali pelas imediações do Bar de Seu Adalberto (Praia Grande), onde, à época, acontecia o evento semanal A Vida é uma Festa!, capitaneado pelo poeta-músico ZéMaria Medeiros, há tempos transferido para a Companhia Circense de Teatro de Bonecos. Já era uma lenda do underground local, sempre acompanhado de um copo, um cigarro e um sorriso.

“Se melhorar, estraga”, sua voz talhada pelos vícios respondia sempre ao invariável “como vão as coisas?” que eu disparava toda vez que o reencontrava, sempre impecável cavanhaque (a antiga foto em p&b que ilustra este post é exceção), amarelado de fumo, ele, há décadas, radicado em São Paulo.

Chegamos a trabalhar juntos, na Faculdade São Luís, onde ele prestava consultoria ou coisa que o valha em marketing; tinha formação em jornalismo e publicidade e equilibrava-se entre as áreas e a música, sua paixão.

Compositor menos conhecido do que deveria, é autor de um punhado de clássicos, ao menos para mim. Um exemplo é Sinhá Madona, sucesso de Rogéryo du Maranhão, lembrada pela jornalista Andréa Oliveira, ao lamentar em uma rede social o falecimento do artista, vítima de enfisema pulmonar, na madrugada de ontem (16), aos 62 anos. O compositor registrou a música com adesão de Gabriel Melônio em São João Madson Com Vida, último disco gravado por ele, em 2003.

“Dorme em sono perfeito/ minha antiga cidade/ sinhá, vou buscar o dia/ antes da claridade// Corre, Sinhá Madona/ bem de frente da janela/ vem ver como é bela a lua/ que se esconde no coqueiro/ vem ver como é bonito/ meu boi dançar no terreiro”, diz a letra. O cd é recheado de participações especiais: Didã, Rosa Reis, Alê Muniz, Erivaldo Gomes, Eliésio, entre outros.

Em shows recentes a cantora Alexandra Nicolas anunciou que gravará O segredo do coco. “Essa, quem me ensinou a cantar foi Didã” – intérprete da música em São João Madson Com Vida –, geralmente anuncia, antes de começar: “Tira o coco do coqueiro/ bota pra quebrar/ tira o leite desse coco/ que eu quero tomar/ rala o coco, soca o coco/ pra cunhã coar/ que o segredo do coco é peneirar// O segredo do coco é o leite/ o azeite na hora de apurar/ é o cheiro cheiroso na cozinha/ cunhãzinha preparando o jantar// Traz tucupi/ traz tacacá/ taca o coco na cuia/ pra cunhã coar”, diz a letra.

Uma vez irrompeu Bagdad Café adentro, em plena Praia Grande, cantando Stalone Strauss, cujos vocais divide com o sobrinho Alê Muniz no disco derradeiro: “Me dê um tom e um tema/ que eu vou cantar um poema/ um roteiro pra cinema/ enredo de carnaval// Me dê um tipo e um trato/ que eu faço mesmo é no ato/ só me assine um bom contrato/ que eu quero é virar o tal// E vou gravar um cd/ do bom da eme pê bê/ para estourar no Japão// Você só vai me ver/ em clipes da eme tê vê/ no Domingão do Faustão// E vou trocar o meu nome/ por outro que se consome/ um nome comercial/ um nome bem estrangeiro/ só pra ganhar mais dinheiro/ vou ser Stalone Strauss”, transbordava irreverência.

Em 2005 venceu o Festival Maranhense de Música Carnavalesca, promovido pelo Sistema Mirante de Comunicação, com seu Frevo na chuva: “E foi aí que eu te achei na chuva/ foi um barato muito legal/ você toda molhadinha/ só entrou na minha/ por que era carnaval// E era frevo na chuva/ quero ver, quero ver, quero ver/ você no meu guarda-chuva/ quero ver, quero ver, quero ver/ Venha, vamos botar pra moer/ eu e você fazendo o frevo ferver”.

É dele também um dos mais astutos jingles de propaganda político-partidária que já ouvi: quando candidata a prefeita em 2004, Helena Heluy (PT) tinha como adversários Ricardo Murad, João Castelo e Tadeu Palácio. Madinho, como era carinhosamente chamado pelos amigos, mandou bem: “Não quero Murad Castelo/ nem mesmo erguer Palácio/ amo demais São Luís/ eu quero é ser feliz/ é 13 de cima abaixo// Helena, o Lula lá já falou/ eu voto em quem vale a pena/ por isso eu voto em Helena/ pra nossa ilha do amor” – cito de memória, a exemplo das outras letras lembradas neste post.

Este obituário traz alguns poucos exemplos da genialidade de João Madson. Sua perda é, em si, uma tragédia. E revela outra: nossa falta de cuidados com a memória, em tempos virtuais. Experimentem “dar um google” com o nome dele (o que fiz, à cata de foto para ilustrar esta singela homenagem póstuma): as ocorrências são insignificantes (inclusive demorei a publicar este texto em busca de foto decente para ilustrá-lo).

Yesterday!

O poeta Nauro Machado (2/8/1935-28/11/2015. Foto Marcia Carvalho
O poeta Nauro Machado (2/8/1935-28/11/2015). Foto Marcia Carvalho

 

CESAR TEIXEIRA*

Enfim, Nauro Machado venceu sua olimpíada. Aos 80 anos conseguiu romper a corda umbilical de um espaço que, segundo ele próprio, não era seu, “mas do universo” – para a surpresa da Morte, na outra ponta da corda, depois de ver seus planos estratégicos caírem por terra.

O poeta retornou à casa Paterna não como um filho pródigo arrependido, que recebe de prêmio um novilho cevado, mesmo porque não desperdiçou a sua herança, nem abandonou sua cidade como na parábola. Ao contrário, desde a publicação de Campo sem Base, em 1958, não parou de escrever. Foram 37 livros de poesia, além de antologias, ensaios e artigos.

Era esse o seu ofício, e São Luís a sua inspiradora oficina, não obstante o inferno burocrático das repartições públicas. Para tanto, adaptou-se ao cardápio da dor, do sofrimento e até mesmo do “escárnio da (…) província”, a fim de eliminar o homem ilusório e edificar o poeta.

Compartilhava líricas alfarrobas (menos as dos porcos) com prostitutas e artistas amaldiçoados nos becos da Praia Grande e do Desterro, e saudava deus e o mundo com a expressão “meu poeta, meu cabo de guerra”, fosse um deputado ou um chofer de táxi.

“Yesterday!” era sua palavra de ordem, ou melhor, seu canto de guerra inacabado, quando as fartas doses de Santo Antônio dos Lopes sem mel faziam transbordar no poeta uma mistura de alegria e dor – naufrágio íntimo no esôfago da alma, que nos tornaria cúmplices e irmãos de infortúnio.

Somente John Lennon ou o Marinheiro Popeye poderiam nos salvar. E tudo foi ontem.

Nauro Machado retornou ao útero de Deus, “feliz e sofrido, mas verdadeiro”, por ter preenchido o seu espaço com a sua poesia, feito a areia fina de uma milagrosa ampulheta, após consumir toda uma existência e completar-se. Estava morto e reviveu: o filho pródigo agora pode caminhar com seus próprios pés.

Até breve, meu poeta, meu cabo de guerra!

*Cesar Teixeira é jornalista e compositor

Nauro Machado: uma existência consumida pela poesia

 

Todos os sábados o poeta visitava seus pais. Morador do Centro em alguns intervalos da vida, eu mesmo encontrei-o várias vezes no percurso. Às vezes, apenas cumprimentávamo-nos e ele seguia seu caminho; às vezes atrasava-se para o compromisso semanal, quando esticávamos a conversa, sobre temas os mais diversos. O curioso é que a morada de seus pais é o Cemitério do Gavião, no bairro da Madre Deus.

“Não há poesia experimental sem vida experimental”, ensinou-nos Roberto Piva, outro grande. E eu via naquele gesto do poeta, pura poesia. Cumprimentava-me, como de resto a quase todo mundo, “meu poeta!”. A expressão “meu poeta, meu cabo de guerra!”, cunhada por ele, é, até hoje, usada por este obituarista e alguns conhecidos, como saudação.

Nascido em São Luís do Maranhão em 2 de agosto de 1935, Nauro Diniz Machado faleceu na madrugada de hoje (28), aos 80 anos. Tinha hérnia no intestino e há poucos anos lutou contra um câncer no esôfago, período lembrado em Esôfago terminal, seu penúltimo livro, lançado em 2014 – o último, O baldio som de Deus, foi publicado em setembro passado.

Nauro era casado com a também poeta Arlete Nogueira da Cruz, com quem teve um filho, o cineasta Frederico Machado, cujo Infernos, que abre este post, é um retrato cinematográfico do pai, abordando sua dedicação à poesia, a boemia, o alcoolismo e sua relação com a cidade natal. Narrado pelo próprio poeta, o enredo do filme é construído sobre alguns de seus poemas.

No primeiro poema, O parto, de seu primeiro livro, Campo sem base [1958], Nauro Machado já prenunciava suas quase seis décadas restantes: “Meu corpo está completo, o homem – não o poeta./ Mas eu quero e é necessário/ que me sofra e me solidifique em poeta,/ que destrua desde já o supérfluo e o ilusório/ e me alucine na essência de mim e das coisas,/ para depois, feliz e sofrido, mas verdadeiro,/ trazer-me à tona do poema/ com um grito de alarma e de alarde:/ ser poeta é duro e dura/ e consome toda/ uma existência”.

O velório de Nauro Machado está acontecendo na Casa de Antonio Lobo (Rua da Paz, 84, Centro), sede da Academia Maranhense de Letras (AML), da qual não era membro por opção. O sepultamento acontece amanhã (29), às 10h, no Cemitério do Gavião.

Obituário: Pai Euclides

Foto: Márcio Vasconcelos
Foto: Márcio Vasconcelos

 

“Ninguém imagina que alguém que dança como ele dançava pode um dia morrer de infarto”, lamentou minha esposa, a meu lado no carro, após ler a notícia num grupo de whatsapp. Depois do susto e antes do comentário, murmurou, triste: “Pai Euclides morreu”.

Euclides Menezes Ferreira ou Euclides Talabyan era o líder religioso da Casa Fanti-Ashanti, localizada no Cruzeiro do Anil, bairro da periferia da capital maranhense. Tinha 78 anos e estava internado no Hospital Carlos Macieira desde a última sexta-feira (14), após sofrer um infarto agudo do miocárdio. Faleceu ontem (17) à tarde.

Fundada em 1958, a Casa Fanti-Ashanti, ligada à nação jeje-nagô, está sediada no Cruzeiro do Anil desde 1964. Além de ser um dos mais importantes terreiros de culto afro do Brasil, é mais que um templo das religiões de matriz africanas: constitui-se em verdadeiro patrimônio cultural brasileiro, um celeiro de manifestações da cultura popular do Maranhão.

As vidas de Pai Euclides e da Casa Fanti-Ashanti confundiam-se, tendo partes registradas em obras como o livro-documentário Pedra da memória, da musicista e pesquisadora Renata Amaral, e a exposição Zeladores de voduns, do fotógrafo Márcio Vasconcellos. Ainda na década de 1990 o antropólogo Hermano Vianna visitou a casa, mostrando sua riqueza cultural para todo o país, através do projeto Música do Brasil, exibido pelo canal MTV.

Incorporando o caboclo Corre-Beirada, Pai Euclides era o principal autor das toadas do Bumba Meu Boi de Encantado Garotos do Cruzeiro, manifestação sediada na Fanti-Ashanti. Por lá também é possível ver e ouvir, nas diversas festas realizadas na casa ao longo do ano, o Tambor de Mina, Tambor de Crioula, Candomblé, Pajelança, Samba Angola, Mocambo, Canjerê, Festa do Divino, Baião de Princesas e o Tambor de Taboca. As duas últimas tiveram cds gravados pelo projeto Turista Aprendiz, desenvolvido pelo grupo musical A Barca. O Bumba Meu Boi Garotos do Cruzeiro teve disco lançado em 2009, fruto do Prêmio Interações Estéticas – Residências Artísticas em Pontos de Cultura, da Funarte, produzido e dirigido por Renata Amaral.

“Adeus, dona da casa/ São João já deu as ordens/ temos que nos despedir/ dê-me um aperto de mão/ também quero agradecer/ com gosto por nos servir”, versa a toada Despedida (Euclides Menezes Ferreira), no citado disco.

Em dezembro passado, por iniciativa do então vereador Nelsinho Brito (PT), Pai Euclides foi agraciado com a medalha Simão Estácio da Silveira, maior honraria concedida pela Câmara Municipal de São Luís.

A partida de Pai Euclides é uma perda irreparável para a religiosidade e a cultura maranhenses. Certamente continua vivo entre nós, no legado e na memória.

Obituário: Bebé

 

Há mais de 10 anos ouvi falar pela primeira vez em Bebé: ao lado de Wilson Zara e Gilvandro Martins, seu nome aparecia entre os autores de Zaratustra, canção inspirada na obra do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, Assim falou Zaratustra.

“Aborrecido de minha sabedoria/ desci a montanha solitariamente/ carregando os anos seculares/ e os rios que nascem/ nas linhas da palma da minha mão/ abelha enfastiou-se do mel/ o sol baixou às profundezas/ retornei ao meu corpo-espírito/ e voltei a ser homem”, começava a letra. Filosoficamente, fazendo jus à obra inspiradora, continuava: “tudo tem o seu ocaso/ da imensidão dos astros/ ao brilho frágil de uma vela/ tudo é vão/ outro corpo em minha cama/ uma rosa na janela/ minha torpe consciência/ o que é o homem, senão, uma ponte entre o animal e o super-homem”.

Depois conheci sua Fátima, uma verdadeira pérola, incluindo todas as licenças poéticas ao longo da letra, que transcrevo completa a seguir, gravada, entre outros, por Daffé e Tom Cléber: “Esses teus olhos prateados/ feito o céu todo estrelado/ é tão bom de se olhar/ neles tem tantos segredos/ que de olhar inté dá medo/ mas me faz assossegar// Se pra eu ele espia/ meu cabelo se arrepia/ bate forte o coração/ me contento em só olhar/ esses olhos cor de mar/ que nunca vão ser meus, não// Ai, meu Deus, eu não desejo/ dela o corpo, nem os beijos/ só peço uma coisa só:/ não deixe nunca eu viver/ longe desses olhos que/ faz minha vida melhor”

Só estas três obras-primas já lhe valeriam lugar entre nossos grandes compositores. Incluo na conta, Beijo e beliscão, outra parceria com Zara, em cuja companhia Bebé aparece cantando, no vídeo que abre-ilustra este post, por ocasião de uma participação do artista no extinto Terça Cultural, projeto outrora sediado no auditório do Memorial Maria Aragão, na praça homônima, em São Luís.

Mais de cinco anos se passaram até conhecê-lo pessoalmente. Pessoalmente é modo de dizer: fui jurado do III Festival João do Vale de Música Popular, produzido por seu parceiro Wilson Zara, em dezembro de 2008, quando existia o Circo da Cidade – ainda não era chamado Circo Cultural Nelson Brito nem havia sido varrido do mapa. Na ocasião Bebé levou o troféu de melhor interpretação, por sua Reticência. No geral, a música ficou em segundo lugar no certame.

Bebé tinha aparência frágil. Cantou sentado, acompanhando-se ao violão, salvo me traia a memória, as muletas encostadas na cadeira, para agilizar sua saída do palco após sua apresentação – não andava sem elas, vítima de paralisia infantil.

Nascido Raimundo Alberto Teixeira Moraes (1º de fevereiro de 1963 – 19 de julho de 2015), Bebé faleceu no último domingo, vítima de leucemia. Grajauense, venceu várias edições do FEMUG, um outrora famoso festival de música de sua cidade natal, por que passaram nomes como Luís Carlos Pinheiro, Daffé, Wilson Zara, Neném Bragança e Clauber Martins, entre outros.

Bebé deixa a viúva Larissa Barros e três filhos: João Ramon, Raimundo Alberto Teixeira Moraes Segundo (o artista não usou Filho ou Junior, como é usual, ao registrar o filho do meio) e José Felix. Seu corpo foi sepultado segunda-feira (20) no Parque da Saudade, no Vinhais, na capital maranhense.

Obituário: Apolônio Melônio

 

Apolônio Melônio (23 de julho de 1918 – 2 de junho de 2015) tinha poesia até no nome. Nenhum outro bumba meu boi tinha nome mais apropriado para (res)guardar os seres mágicos que habitavam aquela Floresta, em especial os cazumbás. Tamanha foi sua devoção à Floresta que o grupo tanto era chamado Boi da Floresta como Boi de Apolônio. Faleceu na noite de ontem (2), aos 96 anos, vítima de insuficiência renal após duas semanas internado.

Dessa vez é verdade, após duas barrigadas: uma há poucos dias, fruto do irresponsável jornalismo nosso de cada dia, que publica sem checar; outra, há muito tempo, em 1954, quando um jornal listou-o entre as vítimas do Maria Celeste, navio em que trabalhava – foi estivador –, que afundou após um incêndio.

“Mestre Apolônio havia escapado espetacularmente, prendendo o fôlego e mergulhando por metros e metros sob a superfície do mar em chamas. Nos intervalos do fogaréu sobre as águas, emergia para respirar. Assim conseguiu alcançar a Beira Mar”, lembrou recentemente o cineasta e professor universitário Murilo Santos, em uma rede social.

Nascido em São João Batista – outra predestinação, nascer em lugar com nome de santo junino – Mestre Apolônio veio para São Luís em 1939. Há 42 anos fundou o Boi da Floresta. Antes, com o saudoso Coxinho, foi um dos fundadores do Boi de Pindaré, do mesmo sotaque do grupamento que agora perde seu líder.

“Apolônio foi muito grande em tudo. Fez um trabalho lindo na Floresta, que segue. Tem que ter investimento no bumba meu boi o ano todo, para gerar renda, lazer, turismo, conhecimento”, defendeu a jornalista Giselle Bossard, diretora e roteirista de Brincando na floresta [Brasil, 2014, 30 min.], que ilustra este obituário, documentário curta-metragem sobre o boi e seu amo. Ela é favorável à garantia de um auxílio-saúde e um valor mensal para os mestres de cultura popular a partir de determinada idade. “Estes mestres precisam, levam uma vida pesada”, defende.

Em 2007 Mestre Apolônio foi um dos contemplados com o Prêmio Culturas Populares Mestre Duda 100 anos de Frevo, concedido pelo Ministério da Cultura (MinC). Traduzindo as necessidades apontadas por Bossard, à época, o dinheiro do prêmio custeou um tratamento de saúde do artista.

Minha homenagem a Humberto de Maracanã

Foto: Murilo Santos
Foto: Murilo Santos

 

Conheci mais de perto Humberto de Maracanã no início da década de 1970, quando eu integrava o grupo Laborarte. Nesse período percorremos várias comunidades do interior da ilha de São Luís apresentando o espetáculo João Paneiro, escrito por Tácito Borralho e Josias Sobrinho. A peça, encomendada pelas Irmãs de Notre Dame de Namur, Barbara e Anne Caroline, que atuavam na área, iniciou a discussão sobre a implantação dos grandes projetos que atingiram as comunidades.

Humberto foi uma das lideranças importantes nesse debate. Algum tempo depois, em 1982, fui convidado pelas mesmas Irmãs de Notre Dame de Namur, para documentar as ações da Associação de Lavradores do interior da ilha de São Luís, onde Humberto exercia forte militância. Nesse período não faltaram oportunidades de acompanhar o Humberto compositor e cantador.

A foto registra meu candidato a vereador pelo PT nas eleições de 1982. O grande cantador de boi Humberto de Maracanã reuniu em torno de seu veículo de campanha, esposa e filhos. Humberto não se elegeu. Entretanto, a campanha rendeu uma bonita toada.

*

Texto e foto roubados do perfil de Murilo Santos no facebook.

*

Humberto Barbosa Mendes (2 de novembro de 1939 – 19 de janeiro de 2015), o Humberto de Maracanã, faleceu na tarde de ontem, aos 75 anos, vítima de falência múltipla dos órgãos. Havia sido internado dias antes, por conta de diabetes, tendo chegado a amputar uma perna.

Em 2008 foi o homenageado do Prêmio Culturas Populares do Ministério da Cultura. Autor da antológica toada Maranhão, meu tesouro, meu torrão, além de liderar o centenário grupo de bumba meu boi que lhe deu sobrenome artístico, integrava o coletivo Ponto BR, ao lado de outros mestres e bambas (Éder “O” Rocha, Henrique Menezes, Renata Amaral, Thomas Rhorer, Walter França e Zezé Menezes), considerado melhor grupo regional no Prêmio da Música Brasileira de 2012.

Obituário: Neném Bragança

“Meu Deus, me deixe ficar mais uns dias/ dias que digo alguns anos/ anos assim não mais que uns 26”. As preces que Neném Bragança [Bragança/PA, 19 de março de 1960 – Imperatriz/MA, 15 de janeiro de 2015] cantou em Os milagres (Erasmo Dibell) não foram atendidas: vítima de um câncer de palato contra o qual lutava há cerca de um ano, o cantor faleceu nesta madrugada.

Os milagres abre o recém-lançado cd/dvd de Neném Bragança, segundo volume da série Som do Mará, produzido por Chiquinho França, que inaugurou-a. O câncer de Neném, aliás, foi descoberto quando o artista se preparava para entrar em estúdio e foi submetido a um tratamento dentário.

O trabalho é um apanhado de sucessos colecionados por Neném Bragança ao longo dos anos, composições autorais e clássicos da música do Maranhão, como Prisma (Carlinhos Veloz), Bela Mocidade (Donato), Agosto (Nando Cruz), Grades (Zeca Tocantins), Plenitude das palavras (Neném Bragança) e Ilha magnética (César Nascimento), entre outras. Ave de arribação (Javier dy Mar-y-abá) seu maior sucesso, encaixa-se nas três categorias – no fim das contas a música é também de Neném, será dele a interpretação para sempre lembrada.

Há poucos dias, em uma roda de amigos, comentávamos a situação da saúde de Neném e a torcida coletiva por sua pronta recuperação, enquanto ouvíamos um exemplar em vinil do festival Tribo (1989), que reunia nomes como Zeca Baleiro, Nosly, Renata Nascimento, Luis Carlos Dias, Neném Bragança e Tutuca, entre outros. Foi o último quem comentou: “Pra mim a música que ganhou é essa aqui [aponta para Ave de arribação na capa do vinil]: foi a única que tocou em rádio”, declarou. Na mesma ocasião, ganhei de presente, do amigo e fiel leitor Otávio Costa, o volume dedicado ao cantor da série Som do Mará.

Neném Bragança ficou conhecido como “papa festivais” entre os amigos, tantos os troféus acumulados em certames país afora, em especial no entorno da região que o acolheu. Artista iluminado, trazia a luz no sobrenome de batismo, Raimundo Nunes da Luz Ferreira. Tinha 54 anos. Sua Plenitude das palavras pode lhe servir de epitáfio: “quero a plenitude das palavras/ chegará a hora da verdade/ e aí? O que vai ser de mim e de você?”. Ou Ave de arribação: “o certo é que acaba, como todas as folias/ o certo é que passa, como passa uma euforia/ (…)/ não, não vou deixar meu coração perder a luz”.

Obituário: Omar Cutrim

Faleceu nesta madrugada o músico Omar Cutrim (30 de junho de 1958 – 6 de janeiro de 2015), vítima de um câncer de próstata – o velório acontece na Pax União (Rua Grande, Centro, próximo à caixa d’água).

Conheci-o há alguns anos, provavelmente no saudoso Bar de Seu Adalberto, onde começou A Vida é uma Festa, evento semanal capitaneado pelo poeta-músico ZéMaria Medeiros, do qual Omar era habitué. Em uma rede social o colega lamentou a perda: “Triste com o falecimento do companheiro […]. A música está triste”, declarou o guitarrista e saxofonista.

Admirava-me de sua simplicidade, ele autor, entre outras, de Fé no santo (parceria com Costa Neto), gravada por Betto Pereira, e Tempo de guarnicê (parceria com Gerude e Ronald Pinheiro), também gravada por Betto, além de Alcione, entre outros. É dele ainda o choro Candiru (parceria com Zezé Alves, seu companheiro de Rabo de Vaca), gravada pelo Instrumental Pixinguinha em Choros Maranhenses. Só estas três já lhe valeriam lugar na galeria dos grandes.

Cumprimentamo-nos algumas vezes, a última numa manhã de sábado, quando ambos devorávamos um delicioso caldo de ovos em uma lanchonete do Mercado Central. Depois ainda o veria tocar na Companhia Circense de Teatro de Bonecos, na Praia Grande, há algum tempo palco dA Vida é uma Festa.

Confiram Omar Cutrim em ação em Remelexo (de sua autoria) no Carnaval de 2009:

Obituário: Manoel de Barros

Zema Ribeiro
Zema Ribeiro

 

Desde que descobri a coincidência tive um orgulho meio besta de ter nascido no mesmo dia de Manoel de Barros. Como se dividirmos signo e data de nascimento nos desse alguma espécie de intimidade. Ele exatos 65 anos mais velho.

“O que é bom para o lixo é bom para a poesia”, aprendi com ele, que inventou coisas como o “abridor de manhãs”. “Tudo que não invento é falso”, o mantra me ecoa no juízo, aprendido em Só dez por cento é mentira, de Pedro Cezar, a ótima cinebiografia do mato-grossense.

Hoje o poeta virou passarinho e voou fora da asa. Sem mais a dizer – quisera ter escrito isso em “idioleto manoelês archaico” –, deixo-lhes um poema, que diz muito sobre si e sua obra.

Continuar lendo Obituário: Manoel de Barros

Obituário: Marco Cruz

Foto: Fernando Motta (facebook)
Foto: Fernando Motta (facebook)

Faleceu ontem (10), vítima de um câncer no estômago, o compositor Marco Cruz. Soube ao ligar o rádio para ouvir o Santo de Casa, na Universidade FM (106,9MHz). Não entendi direito – ou não quis acreditar – e liguei para a produção perguntando.

Tocaram duas músicas suas, em sequência: Bangladesh, em que ele divide os vocais com Mano Borges na faixa-título do disco que este lançou há aproximadamente 20 anos – justamente a primeira vez que ouvi sua bela voz e falar em Marco Cruz – e a toada Moderna Mocidade, do Boi da Mocidade de Rosário, grupo para o qual forneceu outras crias para o repertório.

As últimas menções ao nome de Marco Cruz em minha memória estão ligadas aos shows de gravação – de que integrei a equipe de assessoria de comunicação – e lançamento do disco ao vivo Milhões de uns, estreia de Joãozinho Ribeiro no mercado fonográfico. Este resgatou do cofo de parcerias Cidade minha, que interpretou junto com o Coral São João, e Tá chegando a hora, marchinha carnavalesca que encerra o disco fruto dos shows, em que, com todos os convidados, Joãozinho canta: “tá chegando a hora/ de anunciar a despedida”.

Há algum tempo não surgiam notícias que relacionassem o recém-falecido compositor, também técnico em informática, à música. No entanto, o também parceiro Zé Lopes anunciou que Marco Cruz deixa inacabado um disco em que estava gravando Salmos que havia musicado.

Obituário: Léo Capiba

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Neste domingo de finados a música do Maranhão amanheceu mais triste: perdeu o sorriso largo e fácil de Léo Capiba, falecido na noite de sábado (1º.), vítima de ataque cardíaco.

Cearense do Crato, radicado em São Luís há quase 30 anos, Capiba tinha 67 anos e chegou a adiar, por problemas de saúde, o show Desde que o samba é samba, anunciado para 17 de outubro passado.

O Regional Tira-Teima, que deve lançar em breve o disco de estreia, registrou duas composições suas: Pra ser feliz, dedicada à esposa Sandra Tavora, com quem teve três filhos, e Zona do agrião, que usa metáforas futebolísticas para falar de amor.

No disco Memória – Música no Maranhão, lançado em 1997, sob direção musical e arranjos de João Pedro Borges, Léo Capiba cantou e tocou pandeiro em Não vá deixar o samba da vila, do compositor madredivino Henrique Martiniano Reis, o Sapo.

Confiram o depoimento que Léo Capiba deu à série Chorografia do Maranhão em abril passado. Continuar lendo Obituário: Léo Capiba

Obituário: Moema de Castro Alvim

Dona Moema, clicada pelo blogueiro, durante entrevista que me concedeu em 2006
Dona Moema, clicada pelo blogueiro, durante entrevista que me concedeu em 2006

 

Fui pego de surpresa pela notícia do falecimento da amiga Moema de Castro Alvim (22/8/1942-17/10/2014), professora aposentada da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e sebista. Internada em decorrência de um problema na vesícula, veio a falecer, após 11 dias, vítima de infecção generalizada.

Foram mais de 20 anos de convívio, desde que, ainda menino, mudamos para a Rua de Santaninha (Centro) e comecei a frequentar seu Papiros do Egito, à época localizado na Rua dos Afogados – antes funcionou na Rua do Egito, daí o nome, e hoje está na Rua Sete de Setembro.

Lá adquiri meus primeiros vinis dos Beatles (e depois, grande parte de minhas modestas biblioteca e coleção de discos) e visitá-la era sempre um bom papo, exceto quando acabávamos por enveredar por política e eu silenciava por achar que não valia a pena arranhar a amizade – nascida em Pinheiro, ela admirava o conterrâneo José Sarney como político, no que divergíamos completamente.

Em uma ocasião entrevistei-a para um trabalho de faculdade, um texto para a disciplina Jornalismo em Revista, ministrada pela professoramiga Larissa Leda. Era sobre os sebos de São Luís. A equipe obteve uma boa nota com o trabalho, mas a entrevista que me concedeu dona Moema, como sempre a chamei, é ínfima percentagem do muito que conversamos, sobre tudo, nestas mais de duas décadas de convívio, compras e cadernos de fiado.

Vez por outra ela me apresentava a algum/a cliente e sempre destacava o fato – e só então me dava conta disso – de que eu nunca vendia livros ou discos lá; apenas os comprava.

Sua atividade de sebista começou para fugir de empréstimos sem futuro: aposentada da UFMA, colegas e alunos/as costumavam pedir-lhe livros de sua coleção pessoal, que quase sempre não voltavam. Para evitar aborrecimentos e perdas de amizades, montou o sebo.

Já há algum tempo o Papiros do Egito era somente um hobby, algo para ocupar a cabeça e não sucumbir aos males da idade. Moema partiu aos 72 anos. Ela se indignava com uma equação que não fecha: “nos últimos anos quantas faculdades se abriram em São Luís? E quantas livrarias fecharam?”, perguntou, me fazendo refletir sobre o assunto. Condenava o uso indiscriminado de xerox nos cursos universitários.

Com o movimento fraco do sebo, dedicava-se ultimamente a seu blogue e ao facebook, onde debatia com amigos e admiradores assuntos os mais diversos, de literatura a política, além de comportamento e história. Neste último tema ocupava-se em pesquisar a de sua cidade natal. Diversas vezes me contou entusiasmada de descobertas acerca de fatos e personagens do município da baixada, de cuja Academia de Letras, Artes e Ciências era membro.

O falecimento de dona Moema é dolorido golpe, sobretudo por que prevejo-o duplo: com ela deve morrer também o Papiros do Egito, um dos maiores e mais longevos sebos de São Luís. Sobre isso, espero estar enganado.

Pagu (1º./9/2010-2/8/2014)

Pagu partiu para alguma espécie de céu de bichos de estimação. Foto: Zema Ribeiro
Pagu partiu para alguma espécie de céu de bichos de estimação. Foto: Zema Ribeiro

 

Presente de Luana, prima de minha esposa, Pagu chegou à nossa casa, cuja decoração acabaria por influenciar, em 8 de dezembro de 2010 – já veio com o nome, que achamos por bem manter. Tinha três meses, nascera a 1º. de setembro. Encheu ainda mais a casa de alegria, era o xodó de crianças e adultos que nos visitam e foi personagem constante em meus perfis em redes sociais, sobretudo o instagram.

Lembro-me que, antes dela, não curtia bichos de estimação – havia criado passarinhos na infância, mas hoje tenho outras ideias sobre bichos presos – e Pagu mudou isso, embora minha afeição fosse por ela, apenas, e não por bichos de estimação em geral.

Pagu morreu na madrugada de hoje (2), na rua, vítima de um ataque de um grupo de cachorros, segundo o relato de um vizinho. Não cheguei a ver o corpo, embora tenha tido vontade.

Este texto não se pretende jornalismo, obituário, tributo ou coisa que o valha. É um texto egoísta, uma tentativa de minimizar o sofrimento de perguntas e comentários futuros de parentes e amigos que me leem, os membros do, digamos, “fã clube” da gata saudosa.