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Umberto Eco, Jean Wyllys, Cleidenilson, “jornalismo” e linchamentos

Capa do Extra (RJ) de hoje (8). Reprodução
Capa do Extra (RJ) de hoje (8). Reprodução

 

Tenho certeza que todos/as os/as coleguinhas que passaram pela faculdade de jornalismo viram O nome da rosa, de Jean-Jacques Annaud, baseado no livro de Umberto Eco.

Há quase um mês o escritor italiano declarou que “as redes sociais dão o direito à palavra a uma “legião de imbecis” que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade””.

Recorro ao mestre – que talvez me localizasse nesta “legião de imbecis” – para tratar do assassinato de Cleidenilson Pereira da Silva, de 29 anos, segunda-feira passada (6), por volta de meio dia, no Jardim São Cristóvão.

O caso já é por demais conhecido, sobretudo após ganhar repercussão nacional: depois de uma tentativa de assalto a um bar na região, Cleidenilson foi rendido, amarrado a um poste, despido, e assassinado a socos, chutes, pauladas, pedradas e garrafadas, sangrando em via pública até o óbito.

Nada justifica o ato selvagem, a barbárie nossa de cada dia, a “vingança” coletiva – São Luís tem uma média de um linchamento mensal, embora nem todos ganhem a mesma repercussão. O ato, além de tudo, foi extremamente covarde, já que a vítima estava imobilizada.

A maioria dos comentaristas de internet faz jus à sentença de Eco: “o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”. Quase nenhum deles consegue ir além das tentativas de justificar o crime pela exceção: “e se invadissem sua casa?”, “e se estuprassem sua filha?”, “leva pra casa!” – este último comentário em relação ao adolescente que sobreviveu à turba enfurecida que assassinou Cleidenilson. A maioria não apenas concorda, como teria ajudado a linchá-lo se lá estivesse presente. E além: ajudarão a linchar qualquer um/a em qualquer circunstância, se no futuro tiverem oportunidade.

De minha parte, prefiro acreditar no – e lutar pelo – aperfeiçoamento dos sistemas de justiça e segurança pública, entre outras políticas públicas garantidoras de direitos, para que não existam Cleidenilsons – não no sentido de aniquilá-los, mas no de que deixem ou sequer ingressem no mundo do crime – nem linchadores, com suas práticas medievais em pleno século XXI.

À “legião de imbecis” que aplaudiu o linchamento – segundo o carioca Extra, que deu uma bela capa hoje (8) sobre o assunto, 71% dos que comentaram a notícia no perfil do jornal no facebook são a favor da prática – soma-se agora a que critica o deputado federal Jean Wyllys (PSol/RJ), justamente por ele ter emitido opiniões contrárias à manada enfurecida que bate/u palmas para o preto tingido de vermelho sob o sol inclemente de São Luís do Maranhão em pleno meio dia.

Uns revoltaram-se com as expressões “turba de psicopatas” e “multidão surtada de fascismo”, usadas por ele. “A carapuça só assenta na cabeça de quem usa”, já diria minha sábia vozinha. Acham ilegítimas as manifestações do parlamentar pelo fato de ele ser baiano, ter sido eleito pelo Rio de Janeiro e pouco visitar o Maranhão (à distância só se pode incentivar o linchamento?).

O diabo não é o “idiota da aldeia” ou a “legião de imbecis”: estes são o autointitulado “cidadão de bem”, propagador do senso comum – alimentado pelos programas policialescos de rádio e tevê, cabe lembrar – de que “bandido bom é bandido morto”. O diabo é jornalistas e veículos ditos “sérios” embarcarem no tom monocórdio, em vez de separar o joio do trigo.

A também muito boa capa de O Estado do Maranhão de ontem (7). Reprodução
A também muito boa capa de O Estado do Maranhão de ontem (7). Reprodução

Dácio Melo, 60 anos

Foto: ZR (30/5/2015)
Foto: ZR (30/5/2015)

 

Conheço-o há quase 30 anos. Quando criança, aproveitava as viagens de Rosário – onde morei até os sete – à capital para adquirir gibis da turma da Monica e Disney. Já era conhecido da família e aproveitava o gosto precoce do moleque por leitura para empurrar os últimos lançamentos ao adulto que o acompanhasse. Nunca saía de mãos vazias.

Depois, ele e uma tia, dona Maria (in memoriam), mudaram-se da rodoviária velha, na Alemanha, onde hoje há um posto de gasolina e uma escola, em frente ao Hospital da Criança, para a rodoviária “nova”, na Avenida dos Franceses, Santo Antonio. Dos personagens de Maurício de Sousa e Walt Disney, saltei para Tex Willer e Zagor, influência de tios que há muito já liam faroestes em preto e branco. Morávamos de aluguel, e dependendo da temporada, era mais prático descer do ônibus no retorno do Tirirical. Mas para ir à banca eu preferia esticar a viagem até a parada final, a rodoviária. Agora, a rota era ao contrário: tendo vindo estudar no Sesi, morava em São Luís e passava os finais de semana em Rosário.

Com o falecimento de dona Maria, Dácio mudou-se para o estacionamento da Praia Grande, onde está atualmente. Continuo seguindo-o, mesmo sem ele ter contas em redes sociais. O jornaleiro tem as características fundamentais para se destacar em seu ofício: prazer no que faz, conhece o que vende, bom humor, além de poder conversar sobre assuntos relacionados e estar sempre por dentro da agenda cultural da cidade. Hoje mesmo, quando o visitei, comentou brevemente o show Encanto, de Rita Benneditto, que assistiu ontem no Teatro Arthur Azevedo – eu não fui. Em sua banca comprei Som e Fúria, novo dela, com Jussara Silveira.

Durante muito tempo, mestre Antonio Vieira foi habitué de sua banca. O compositor era figura fácil por ali todo fim de tarde, quando ia jogar conversa fora e, não raro, a conversa esticava até a porta do Terminal de Integração da Praia Grande, onde tomava o mesmo ônibus do jornaleiro para voltar para casa. Algumas vezes juntava-me a eles.

Embora ainda teime em resguardar algo daqueles tempos, o moleque tornou-se o homem de vícios antigos e aos gibis juntou-se a leitura do noticiário e outras. “Quem lê tanta notícia?”, perguntaria o compositor. Mesmo frequentando outras bancas e becos, sempre torno a passar por ali para catar as novidades e apertar a mão do amigo. Dácio Melo completa hoje 60 anos.

O filho eterno no Palco Giratório

Às vezes deixo de noticiar umas coisas aqui no blogue para deixar para dizer algo mais perto, sobretudo em se tratando de agenda cultural. É o tempo que eu tenho de, às vezes, falar com alguém envolvido com a produção, levantar uma informação a mais, enfim, preparar algo digno dos poucos mas fieis leitores deste modesto espaço.

Vez em quando acontece de eu não conseguir levantar maiores ou melhores informações. Ou de, por motivos de viagem ou da correria cotidiana, já que este é um blogue feito às próprias custas s. a., do jeito e na hora que dá e eu e Deus queremos, eu não conseguir sentar e escrever ou mesmo colar uma imagem/anúncio por aqui (evitamos releases, embora eu vá fazer uso dele neste post). Aí o evento passa e já era, fica pra próxima.

Para não correr esse risco com a encenação de O filho eterno, baseada no romance homônimo de Cristóvão Tezza, antecipo seu anúncio por aqui. A peça, conforme o release, “mostra a luta diária de um homem (…) que precisa lidar com as decepções que um filho pode trazer, focando no desafio de nossas limitações, sem perder o olhar elegante. Frases de impacto e inesperadas dão o tom poético dessa trama, em que vem à tona muitas questões que pensamos, mas que jamais teríamos coragem de dizer em voz alta. A chegada do primeiro filho com síndrome de down é apenas uma das diversas reflexões que envolvem a paternidade e são abordadas nessa já premiada história”.

Ficha técnica: adaptação: Bruno Lara Resende > direção: Daniel Herz > elenco: Charles Fricks > duração: 80 minutos > classificação indicativa: 12 anos.

Os ingressos serão trocados por um quilo de alimento não perecível, na bilheteria do teatro, uma hora antes do início do espetáculo, que integra o projeto Palco Giratório, do SESC, que está acontecendo em todo o Brasil.

Este blogue tem lado e diz. Que outros o farão?

(OU: SÃO LUÍS, O CAMINHO É PELA ESQUERDA)

Desde cedo aprendi que imparcialidade jornalística é quimera.

O fato é o fato; a notícia, uma forma de contar aquele. Uma forma, viram? Um repórter escreve uma matéria de um jeito, outro, de outro. Dois repórteres cobrindo determinado fato não escreverão a notícia da mesma maneira, a mesma notícia – a não ser que, prática corriqueira no jornalismo cometido no Maranhão, estejamos falando do control c control v que empesteia as redações, a blogosfera, o escambau.

Desde sempre aprendi que o compromisso do jornalismo deve ser com a verdade, com a informação, com o interesse público.

No Maranhão, notícia virou mercadoria. Este blogue, em pouco mais de oito anos de existência, nunca colocou um centavo no bolso deste que o escreve/edita. Não é a primeira vez que toma partido, declara voto, assume suas preferências, com as dores e delícias que estas envolvem.

A campanha eleitoral está nas ruas e logo chegará ao rádio e televisão. Este blogue declara apoio à candidatura de Haroldo Sabóia (PSol) à prefeitura de São Luís do Maranhão, encabeçando a chapa “São Luís, o caminho é pela esquerda” (PSol/ PCB).

O “selo” colocado à sua esquerda na página inicial permanecerá aí até o dia do pleito. O blogue não recebeu, não recebe, nem receberá um centavo por isso. Se, por acaso, a campanha da chapa PSol/PCB me encomendar algum trabalho, declararei cá no blogue, inclusive o valor da remuneração.

O que mais há no Brasil – e particularmente no Maranhão – são veículos e profissionais de comunicação que têm partido e candidato, mas não declaram. E dizem ser imparciais e assim exercer seu ofício. Este blogue o faz, como o fez, por exemplo, a revista Trip, que há tempos, pioneiramente, recusou publicidade de tabaco em suas páginas e, à época de um referendo, declarou-se a favor do desarmamento de cidadãos. No primeiro caso a atitude da revista foi um dos primeiros elementos que dariam na proibição da publicidade de cigarro no Brasil.

No Maranhão, programas de rádio e tevê, jornais e blogues são, em grande parte, instrumentos de campanha política travestidos de noticiário. Este blogue continuará suas atividades normalmente: a única coisa que faz aqui é assumir seu candidato, de que lado está nestas eleições municipais. Resta saber quantos e que outros veículos e profissionais o farão com clareza. Fica o desafio, quem topa?

Pequena amostra do jornalismo de Décio Sá

Quando escrevi Do assassinato de Décio Sá, sob o impacto do choque que a notícia me causou, evitei, na ocasião, momento de dor sobretudo para familiares e amigos, deter-me ao sem-número de adjetivos com que o jornalista foi agraciado, principalmente por pares de ofício e prática.

A notícia me alcançou ainda na noite em que o funcionário do Sistema Mirante foi brutal e covardemente executado em um bar na Avenida Litorânea: um tio meu ligou dando a notícia, rápida e nacionalmente repercutida pelo fato de Décio ser jornalista e ter falado com outros perto de morrer. Na manhã seguinte recebi ainda telefonemas, sobre o assunto, de uma tia e de meu irmão.

Desde a noite em que Décio foi atingido sem chance de defesa pelos tiros que o matariam começaram a pipocar na internet textos revoltados com o crime e carregados de elogios os mais variados a ele, alguns cínicos, outros oportunistas, pouquíssimos sinceros (tem gosto pra tudo). De uma hora para outra, ele havia se tornado, do Maranhão, “o maior/melhor jornalista”, “o maior/melhor repórter”, “o maior/melhor jornalista político”, “o maior/melhor repórter investigativo”, “a maior/melhor figura do jornalismo online”, “o maior/melhor nome de sua geração”, “o mais corajoso jornalista destas bandas”, o “destemido”, o “independente” e por aí vai. Sobre este último adjetivo, diga-se, nunca colou o descolar de seu blogue dos domínios do Imirante (portal de internet do Sistema) à época da mais recente campanha eleitoral de Roseana Sarney ao governo do Estado, repetido por outro blogueiro comprometido única e exclusivamente com os patrões.

Nem me darei ao trabalho de linkar os elogios todos, pois são tantos que não caberiam neste post. Penso até que mais e descabidos elogios só mesmo quando da partida de seu grande patrão, quando esta ocorrer.

Menos, gente! Por favor! Décio Sá era um jornalista extremamente alinhado aos patrões, por vezes um distribuidor gratuito de ofensas (nem tão gratuitas assim, tudo tem um preço), pouco afeito ao contraditório, comprometido até a alma com uma forma de fazer jornalismo que se baseia na chantagem e em ganhos pessoais, às favas a ética, a verdade e o interesse público. Como, aliás, o são muitos dos que ora o elogiam. Como o farão com o próximo jornalista assassinado, que tão logo tombe levará Décio a perder todos os tronos a que foi alçado antes mesmo de sua alma chegar ao destino final.

Eis um assunto extremamente melindroso de se tocar. Mas é preciso colocar os pingos nos is, “cada lugar na sua coisa” (ave, Sérgio Sampaio!), a bem do interesse público, do bom jornalismo, da verdade, enfim. Décio era Sá, não era Santo!

A postura deste blogue permanece a mesma: o frio e planejado assassinato de Décio Sá deve ser investigado e os culpados punidos dentro da lei. Não venham, caros comentaristas de blogues de plantão, inventar a pena de morte particularmente para este caso.

Se imagens de sistemas de segurança fossem usados ou recompensas de cem mil reais fossem oferecidas pela iniciativa privada em outros casos, já teríamos justiça feita a Flavianos, Cabeças, Josimos e tantos outros “anônimos ilustres” (salve, professora Dinacy Corrêa!). Em tempo: muito estranho empresas oferecerem estes pacotes ao Disque Denúncia e não sambarem publicitariamente sobre o corpo do defunto, não lucrarem com a justiça que supostamente estão ajudando a fazer.

Abaixo, matéria de ontem (25) na Folha de S. Paulo (link exclusivo para assinantes com senha; grifos do blogue). Os dois últimos parágrafos dão uma perfeita amostra do que era o jornalismo by Décio Sá. Continuar lendo Pequena amostra do jornalismo de Décio Sá