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Uma jangada carregada de poesia

Escrito nas jangadas. Capa. Reprodução
Escrito nas jangadas. Capa. Reprodução

Escrito nas jangadas [2016] marca os cerca de 40 anos de parceria dos cearenses Eugênio Leandro e Márcio Catunda. O primeiro, cantor, compositor e instrumentista; o segundo, poeta, hoje morando na Argélia, na burocracia da diplomacia.

Desde a presença implícita no título, o mar é o personagem/paisagem mais constante, citado em quase todas as faixas, todas assinadas em parceria pela dupla – Grandes esperanças é assinada ainda pelo também cearense Nonato Luiz (que toca violão na faixa). Mas engana-se quem pensar que é um disco monótono – como não o é o vai e vem das ondas do mar.

Minha rua abre o disco com os tons da melancolia da saudade da infância, pontuada pelos violinos de Paulo Leniuson e Humberto Castro, arranjados por Tarcísio Lima. A faixa seguinte, que intitula o disco, lembra as noites de boemia e o vagar a pé pelas madrugadas de uma Fortaleza de outrora. A rica fortuna crítica do encarte ajuda a compreender melhor a parceria e alguns contextos.

Leandro e Catunda são de outra geração, mas é impossível negar a influência da música do chamado Pessoal do Ceará sobre o conjunto de canções de Escrito nas jangadas – como de resto sobre toda a produção cearense a partir de então. Novamente convém observar que isso não significa estarmos diante de uma cópia pura e simples de nomes como Ednardo, Fagner ou o desaparecido Belchior.

O disco é também uma celebração a uma geração ainda mais nova. Nomes como os cantores Fernando Neri (voz em El Malecon Cisneros), Clarice Trummer (voz em Arrebol), Gero Camilo (sim, o ator também é cantor e compositor – voz em Sortilégio marítmo) e Izaíra Silvino (voz em Grandes esperanças) formam um pequeno panorama da boa música produzida hoje no Ceará.

A poesia de Márcio Catunda se assenta no canto de Eugênio Leandro (voz e violão), com o acompanhamento de Lu de Sousa (violão, viola, contrabaixo, teclado), Igor Ribeiro (percussão), Rossano Cavalcante (percussão), Ricardo Pinheiro (bateria) e Nonato Lima (sanfona).

A onírica Ermo, que fecha o disco, leva o ouvinte a uma viagem por Cuba, guiado pelos sopros de Carlos Montanha (trompete) e Rômulo Santiago (trombone e arranjo de metais). Canto provinciano, que a antecede, remete ao início da parceria – a música deu título a um show de Eugênio Leandro em 1981, no auditório da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Daquele show participaram outros artistas, entre os quais o poeta Márcio Catunda.

“A infância do destino e da beleza/ são os versos da esperança/ são as faces da lembrança/ dos mares de Fortaleza”, diz a letra, cujo sabor nostálgico nos dá uma certeza: continuam belos os mares da capital alencarina e a obra consistente de Eugênio Leandro – que neste disco divide os créditos com Márcio Catunda.

Carlinhos Patriolino recebe amigos Entre Notas

A primeira vez que ouvi falar no cearense Carlinhos Patriolino foi em 2010, quando ele emprestou seu talento a Pra chorar no Rio, parceria de Ricarte Almeida Santos e Gildomar Marinho, gravada em Pedra de cantaria, segundo disco do segundo.

O bandolim do talentoso músico foi fundamental para o choro da dupla, letra de Ricarte, música de Gildomar.

Ano passado foi minha vez: parceria deste que vos perturba com Lena Machado (estreando como compositora) e Gildomar Marinho, o maranhense gravou, com o bandolim de Patriolino, Perdão de cônjuge, em seu terceiro disco, Tocantes. Acompanhando o processo de produção do disco, eu já havia ouvido versões cruas da parceria. Finalmente, antes de o disco sair, Gildomar me mandou por e-mail o mp3 com a gravação definitiva de nosso sambossa: as oito cordas do cearense eram o que faltava.

A honra de tê-lo em uma singela criação só aumentou minha admiração pelo bandolinista, sem dúvidas um dos maiores do país. E é dele que quero falar. Ou melhor: de seu projeto Entre Notas, inaugurado semana passada. Que bimestralmente irá reuni-lo a um parceiro, algum talentoso instrumentista ou algum talentoso artista da voz.

Os vídeos da série serão disponibilizados no canal do músico no Youtube. Para a estreia, Patriolino convidou ninguém menos que Nonato Luiz, talentoso violonista, seu conterrâneo. Juntos, tocaram Vivências, de autoria do bandolinista, título de seu novo disco, a ser lançado em breve.

“O projeto surgiu da vontade de gravar com pessoas que eu aprecio. Quis chamar grandes músicos que são meus amigos para tocar músicas que a gente gosta”, declarou Patriolino no material de divulgação de Entre Notas. O release não afirma, mas não será má ideia, num futuro breve, os registros tornarem-se disco e/ou dvd, não é?

Confiram Carlinhos Patriolino (bandolim) e Nonato Luiz (violão) em Vivências: