Arquivo da tag: natura musical

Receitas para a liberdade

Taurina. Capa. Reprodução

 

Anelis Assumpção não é uma vaca sagrada da MPB. Tampouco descende de uma – Itamar Assumpção – ou é casada com outra – Curumin. Operária e artesã, Taurina [Scubidu/ Natura Musical, 2017], seu terceiro disco solo, demonstra a consolidação de uma carreira pautada pela coerência.

Pintada por Camile Sproesser, Anelis Assumpção figura na capa com os seios à mostra, misto de mulher e vaca, animal de muitos significados, segurando os ingredientes com que preparará e servirá o banquete, coisa fina.

A cantora posa para a pintura da capa do disco. Foto: Caroline Bittencourt

Sozinha ou em parceria, Anelis Assumpção é autora das 13 das 14 faixas – a única exceção é Receita rápida, parceria de seu pai com Vera Motta –, ambientadas entre a cozinha e a feira, com seu Pastel de vento (título de uma das faixas), seus Caroços (I e II, sambas em parceria com Russo Passapusso), sua Água (parceria com Rodrigo Campos) e sua Moela.

Segunda a sexta, primeiro single lançado (ainda em janeiro), fala de um amor proibido, de forma bastante sutil, pontuado pelo trocadilho entre o dia da semana e o utensílio em que se carregam frutas e verduras: “Eu fui na feira pra te ver/ você ñ foi na feira ñ/ é de segunda a sexta/ é de segunda a sexta/ de segunda a sexta/ eu fui sozinha pra te ver/ alguém pegou na tua mão/ meu coração na cesta/ meu coração na cesta/ coração na cesta/ minha fruteira está vazia/ burocracia mandou avisar/ tão insalubre que essa vida/ anda/ com dia e hora para te encontrar”, diz a letra.

Em Chá de jasmim, parceria com a irmã Serena Assumpção (falecida em março de 2016), a quem ela dedica Taurina, canta: “joguei água na chaleira/ deitei a flor do jasmim/ naquele dia/ eu te dava na cozinha/ cê gozava e eu fingia/ que tinha amor ali”.

Anelis Assumpção subverte. A feira e a cozinha, às quais as mulheres sempre estiveram confinadas, torna-se o lugar em que elas estão por opção, fazendo o que bem entendem. Pastel de vento, por exemplo, brinca com a típica iguaria para falar de amor e prazer: “Pastel de vento/ silêncio no meio/ receio meu coração dentro/ nada de recheio no recreio/ coração ao meio/ é lento e ligeiro/ meio tensão/ meio tesão”, canta.

Sobre a liberdade de estar onde quiser e fazer o que quiser, Anelis Assumpção também canta em Amor de vidro (parceria com Russo Passapusso e Saulo Duarte): “Nosso amor é feito de vidro/ ½ dúzia de cervejas que tomamos/ num boteco ali na esquina/ frágil e delicado nosso amor pode quebrar/ uma ampola e dois cigarros/ e me entrego sem pestanejar”.

Ex-integrante do cult DonaZica (que também tinha Andréia Dias e Iara Rennó, para citarmos apenas as cantoras), é difícil falar em disco solo de Anelis Assumpção, ela que está sempre bem acompanhada. Em Taurina destacam-se as guitarras de Lelena Anhaia e Cris Scabello, mellotron, wurlitzer, violão e piano de Beto Villares (produtor do disco), os contrabaixos de Zé Nigro (coprodutor) e MAU, a bateria de Bruno Buarque, além da participação especial do Negresko Sis (Anelis, Céu e Thalma de Freitas) em Receita rápida.

Por falar em receita, nas de Anelis Assumpção todo ingrediente vira música: neste disco, áudios de whatsapp de amigos (Tulipa Ruiz, Céu, Karina Buhr, Ava Rocha e Laís Sampaio em Chá de jasmim) dialogam com tudo o que está posto à mesa.

Merecem destaque ainda o reggae Paint my dreams e Escalafobética (parceria com João Donato), em que inventa palavras, num texto que evoca Graciliano Ramos para novamente falar da mulher – afinal de contas, pauta principal desta obra de arte.

O disco, aliás, abre com um convite: “senta aqui comigo nessa/ pedra/ descobre teu drama/ meu sangue/ rio escorre/ vamos dar um mergulho interior”, chama em Mergulho interior. Quem tiver apetite, curiosidade e sensibilidade não recusará.

*

Veja o lyric video de Segunda a sexta (Anelis Assumpção):

Boca: alimento necessário

Boca. Capa. Reprodução

 

Desde seu disco de estreia, Achados & perdidos [2005], Curumin revelou-se um mago da música brasileira contemporânea: é o cara que sabe o que fazer em um estúdio, passeando pela diversidade rítmica pilotando diversos instrumentos. Seu quarto disco, Boca [Natura Musical, 2017, disponível para audição nos sites do cantor e do edital], aguardado sucessor de Arrocha [2012], é mais uma prova inconteste de seu talento.

Multi-instrumentista com presença constante em fichas técnicas de discos e shows de nomes como sua esposa Anelis Assumpção, Arnaldo Antunes e Céu, entre muitos outros, seu novo disco é alicerçado em programações eletrônicas pilotadas pelo próprio artista, que além de cantar, ainda toca bateria e teclados.

Seus fiéis escudeiros são os contrabaixistas e produtores Zé Nigro e Lucas Martins, que também se revezam entre guitarras, teclados, programações e vocais. Boca conta ainda com participações especiais de Beto Bellinati (voz em “O burguês que deu errado”, trecho do poema No slam resistência, de sua autoria), Russo Passapusso (BaianaSystem, voz em Boca pequena parte 1 e 2, de sua autoria – a primeira é de Curumin; Terrível também é parceria de ambos), Marcelo Jeneci (teclados em O atrito, de Curumin), Rico Dalasam (voz em Tramela, parceria sua com Curumin), as crianças Bento (sobrinho), Benedito e Rubi Assumpção (filhos do artista, vozes em Descendo, de Curumin), a rapper espanhola Indee Styla (voz em Boca cheia, parceria sua com Curumin) e Andrea Dias, Anelis Assumpção, Iara Rennó e Max B.O. (vozes em Paçoca, parceria de Curumin com os convidados, que tem ainda o cavaquinho e percussão de Rodrigo Campos).

O projeto gráfico é de Ava Rocha (arte, foto, capa), cantora filha do cineasta Glauber Rocha, e Ciça Lucchesi. Na capa, Curumin tem um olho na boca, como se regurgitasse ao mundo o que vê, “porque a boca fala aquilo do que o coração tá cheio”, como Veronica Ferriani adaptou a sentença bíblica para batizar um disco seu.

A boca, um dos “sete buracos da minha cabeça”, como enumerou Caetano Veloso em A tua presença morena, aparece constantemente neste novo trabalho de Curumin: “Dançando no beiço da boca da noite/ cai bem, cai bem” (em Bora passear, de Curumin, música-convite que abre o disco), nos títulos de Boca pequena parte 1 (“Corre a boca pequena/ a boca pequena/ a boca pequena”) e 2, Prata ferro, barro (de Curumin: “caio na boca do dia/ um bafo quente me engole”), Boca de groselha (de Curumin: “Boca de groselha/ me fala besteira”) e Boca cheia (“O recheio da sobremesa/ escorre pelos cantos de sua boca cheia”).

O cantor, compositor e multi-instrumentista em foto de Ava Rocha

Se Caixa preta, faixa de JapanPopShow [2008], sobre escândalos envolvendo malas e o rabo preso da indústria da notícia (é possível falar em empresas jornalísticas em tempos de “pós-verdade”?), segue atualíssima, Curumin, que em Boca assina as músicas de sua autoria com seu nome de pia, Luciano Nakata Albuquerque, volta ao tema, em Boca pequena parte 1: “Paletó, cordão de ouro/ amuleto e maleta recheada/ tá firmado o acordo/ […]/ entre o trono de rei/ e o banco dos réus/ passeia o neo coronel/ cheio de falsas bandeiras/ apertando maços de garoupa na carteira/ diabinho batucando no ombro/ ele samba na cara da sociedade”.

Artista antenado, Curumin traz mensagens políticas em seu disco, sem soar panfletário. Em Trecho de “O burguês que deu errado” o texto enfrenta machismo/misoginia, racismo e homofobia: “eu sou homem, branco e heterossexual. Teoricamente isso faz de mim um bosta”.

Em Paçoca lembra dos que têm fome: “Bota água na panela/ abre a tampa da cabeça/ que o guisado das ideias/ mata a fome do planeta// a barriga tá roncando/ mais que uma cuíca velha/ osso duro, samba torto/ e as cadeira quase quebra”, diz a letra.

Num país em crise, onde arte às vezes é tida como artigo de luxo, já que comer, necessidade básica, é prioridade, a música de Curumin é alimento necessário. Sustança para o corpo dançar, a alma transbordar e a boca cantar junto.

Ouça Boca:

Boca para os melhores ouvidos

Curumin em foto de Ava Rocha
Curumin em foto de Ava Rocha

 

A cantora Ava Rocha, filha de Glauber, assina a arte de Boca, quarto aguardado disco do paulistano Curumin, cantor, compositor, produtor e multi-instrumentista. O álbum é produzido por ele, Lucas Martins e Zé Nigro, dupla de baixistas (que se revezam noutros instrumentos) que o acompanha já há algum tempo.

Músico cujo nome comparece a fichas técnicas de artistas como Arnaldo Antunes, Céu, Itamar Assumpção, Lucas Santtana, Marcelo Jeneci, Rodrigo Campos, Rômulo Fróes, Walter Franco e Zélia Duncan, Curumin tem três bem sucedidos discos solo: Arrocha (2012), JapanPopShow (2008) e Achados e perdidos (2003).

O artista esteve em São Luís na edição de 2015 do festival BR-135, ocasião em que conversou com este blogue e fez o melhor show daquele ano em nossa modesta opinião. Boca já é um dos lançamentos mais aguardados da música brasileira neste primeiro semestre. O disco sai pelo programa Natura Musical, o que certamente garantirá seu download legal e gratuito.

Sabor de maturação

Conheça Hóspede da natureza, sétimo disco de Cátia de França, disponível para audição e download legal e gratuito no site da Natura Musical. Sobre o trabalho, a cantora e compositora paraibana conversou com Homem de vícios antigos

Hóspede da natureza. Capa. Reprodução
Hóspede da natureza. Capa. Reprodução

Hóspede da natureza [Natura Musical, 2016; ouça e baixe aqui], sétimo título da discografia de Cátia de França, já é um dos grandes discos do ano e poderia ser considerado como tal “apenas” pelo fato de tratar-se da volta da compositora paraibana à cena, mas é bem mais que isso: sua força poética e melódica mantém-se intacta, quase 40 anos após a estreia com 20 palavras ao redor do sol.

Com ecos líricos e melódicos de Bob Dylan e James Taylor, a faixa-título, que abre o disco, é baseada em trechos de Walden ou A vida nos bosques, de Henry D. Thoreau, livro de 1847, mantendo a sintonia literária da música de Cátia de França, cuja obra dialoga desde sempre com nomes como Guimarães Rosa, Manoel de Barros, João Cabral de Melo Neto e Marconi Notaro. A primeira faixa fala ao mesmo tempo de esperança – “toda criança reinaugura o mundo” – e de descrença – “os homens e seus ternos limpos/ seus casacos sem remendos/ sua consciência nunca está tranquila/ na verdade existem poucos homens/ e uma infinidade de calças e paletós”.

Minha vida é uma rede, a faixa seguinte, é inspirada em frases de para-choques de caminhão, revelando o olhar atento de cantadora das coisas do mundo da artista, menos conhecida que conterrâneos como Zé Ramalho, Elba Ramalho, Jackson do Pandeiro, Sivuca, Geraldo Vandré e Chico César, entre outros.

Lagarto ao sol, mesmo com o “erro” na pronúncia do nome do réptil, parece tecer uma crítica ao individualismo nosso de cada dia: “acorda, a plateia quer mesmo é que você caia/ e depois, tome vaia, a arena é a mesma, rugem os leões” – o disco foi lançado um pouco antes, mas a música de Cátia de França bem poderia traduzir também a sessão no Senado Federal que decidiu pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, ao menos neste trecho.

Com um jeito todo particular para falar de sexo, vide a belíssima Coito das araras de seu disco de estreia, Geração volta ao tema: “o inseto pólen, a transa, é você na estrada/ fecundando nosso ninho”. Gaivota segue a trilha de amor e desejo: “me pegou de jeito, você raio de luz/ (…)/ desejo em mim, estou tão feliz”. É também a primeira de três faixas marcadas por toques, ora mais sutis, ora mais escancarados, consagrados a divindades de religiões de matriz africana. Aqui o Toque aguerê de Oxossi; em Luvana o Toque Ilu de Iansã, e em Trator/ As águas que brotaram dos meus óio o Toque Opanijé de Obaluaiê.

Pra doer, com letra de Júlio Sortica, é o apego desesperado, nem que seja pela dor da lembrança, de quem vê um relacionamento se esvaindo. “Deixe alguma coisa sua ao sair/ algo que não corte/ mas que doa ao lembrar”, agarra-se desesperadamente o/a protagonista.

A dor não cabe em apenas uma faixa e Evidências, com letra de Mônica Dantas, segue a trilha de fim de relacionamento: “e eu sem querer já sei que o nosso amor/ está rendido à luz das evidências/ e tanta essência o ar não segurou”, entrega-se.

Tramas da cidade traduz os problemas comuns aos grandes centros urbanos do país. O texto de Cátia de França distancia-se, no entanto, do noticiário cotidiano, e mesmo questões urbanas graves como violência e poluição são encaradas sob o prisma por demais poético da paraibana, que canta e toca violão na faixa, acompanhada apenas pela guitarra de Walter Villaça. Não deixa de ser, também, uma canção de amor: “e se um dia aparece a pessoa certa/ eu fotografo na retina no meu doido descontrole”, promete adiante, depois de revelar que “com prazer o hálito da chaminé/ polui o ar, polui você” e noticiar que “um assaltante roubou o riso/ de uma criança e sumiu na multidão”.

O par formado por Rua do Ouvidor, em que sua voz e violão são acompanhados apenas pelos sopros de Marcelo Bernardes, e Rio Capibaribe traz à cena paisagens caras à Cátia de França, respectivamente no Rio de Janeiro/RJ e no Recife/PE – ambas as cidades integram a turnê de lançamento de Hóspede da natureza, que passará ainda por João Pessoa/PB, Vitória/ES e São Paulo/SP.

Luvana, única faixa instrumental do disco, traz vocalises de Cátia de França e o crescendo percussivo lembra, de longe, em determinados momentos, Kukukaya (Jogo da Asa da Bruxa), talvez sua música mais conhecida, gravada por nomes como Elba Ramalho e Xangai.

Debaixo da tamarineira/ Ô, Mateu reverencia o bumba meu boi. Está aí um dos versos mais bonitos do disco, “meu amor quando me olha com brilho de faca nova”, e não deixo de pensar no diálogo com Rosa Maria, que “tinha faca de ponta nos olhos”, da lavra do maranhense Josias Sobrinho.

A cantora no show de lançamento de "Hóspede da natureza" no Teatro Santa Isabel, no Recife/PE. Foto: Ademar Filho
A cantora no show de lançamento de “Hóspede da natureza” no Teatro Santa Isabel, no Recife/PE. Foto: Ademar Filho

Cátia de França faz soar um sino e é acompanhada apenas do tambor alegre de Mariana Bernardes (filha de Marcelo) em Trator/ As águas que correram dos meus óio, em que reúne a alegria e o espanto diante do belo, o infelizmente hoje raro chorar de emoção, diante dum mundo cada vez mais embrutecido. Ela celebra, “chegando enfim, chegou o meu tesouro”, talvez fazendo uma autorreferência sobre este disco, tesouro que nos entrega, com certo atraso – Hóspede da natureza foi gravado entre 2005 e 2006, antes de seu antecessor, No bagaço da cana – Um Brasil adormecido, de 2012. Nunca é tarde para este transbordamento de beleza, e ela presta reverência: “as águas que correram dos meus óio/ dos tambores do Mestre Beleza”.

Aqui e ali se ouvem “sons de floresta, chuva e pio de inhambu”, como registra a ficha técnica. O fecho é sublime: em Grandezas pantaneiras Cátia de França volta ao universo particularíssimo de Manoel de Barros e seu olhar poético inusitado. Para contrariar a frase final, “de repente faz um silêncio pelo capinzal”, só resta apertar novamente o play e contemplar tudo de novo.

Cátia de França (voz, violão, percussão) divide os arranjos de base do disco com Rodrigo Garcia (violão, teclado, percussão, contrabaixo, viola) e acercou-se de nomes como Walter Villaça (guitarra) e Lan Lan (percussão), músicos que trabalharam com Cássia Eller, além do veterano Marcelo Bernardes (flauta, flautim, sax, clarinete), da banda de Chico Buarque. Também comparecem Durval Pereira (percussão), Matias Corrêa (contrabaixo acústico em Evidências), Luiz Otávio (piano em Evidências), Alex Merlino (bateria em Pra doer e na faixa-título), Arthus Fochi (violões em Lagarto ao sol) e Jander Ribeiro (viola caipira elétrica), entre outros.

Através de uma rede social, Cátia de França concedeu uma breve entrevista a Homem de vícios antigos.

Foto: Thercles Silva
Foto: Thercles Silva

Homem de vícios antigos – Hóspede da natureza é seu sétimo disco de carreira, mas poderia ser o sexto, já que foi gravado antes de No bagaço da cana, que acabou sendo lançado na frente. O que explica esse, digamos, desvio de percurso?
Cátia de FrançaNo bagaço da cana saiu na frente através do FIC, apoio cultural da Paraíba. Aquela safra [de composições] era de 1975. Só veio à tona em 2012. Parece que gosto da maturação. Tem que sair na hora certa. Com as pessoas indicadas. Dar possibilidade de pagar uma orquestra como a Camerata Arte Mulher. Uma orquestra feminina. Tinha que ter financiamento. O Hóspede saiu através da Natura, que criou o alicerce à altura.

Parte da banda que toca em Hóspede da natureza acompanhou a carreira de Cássia Eller. Como é sua relação com músicos mais novos? O que você acha/va do trabalho de Cássia Eller e o que achou do trabalho deles em sua obra? Como foi este contato?
O distrito onde estou aqui na serra, próxima ao Rio De Janeiro, já era rota dos músicos [Hóspede da natureza foi gravado entre dezembro de 2005 e fevereiro de 2006 no Estúdio Luperan, em São Pedro da Serra, Nova Friburgo/RJ]. A própria Cássia andou aqui na época que eu ainda não residia em definitivo em São Pedro da Serra. A cidade a homenageou dando a uma montanha o nome dela. Quem facilitou a adesão dos músicos para tocar no Hóspede foi o produtor do cd, Rodrigo Garcia. Ele tocou com ela na fase espanholada [nos discos Dez de dezembro (póstumo, 2002), Com você… meu mundo ficaria completo (1999) e Veneno vivo (1998)], na escola do [falecido cantor espanhol] Camarón de la Isla. Além dele, parte da banda, ou seja, Lan Lan, fantástica percussão e Walter Villaça, guitarra, e sua economia magistral nas notas, os solos precisos. O embrião do Hóspede se deu num clima mágico: estúdio caseiro, no meio de uma floresta, em pela serra. Havia até um rio próximo do local. Estávamos longe do conturbado centro urbano. Músicos novos, como reajo perante eles? Quando escolho a formação de uma banda não levo em conta se é novo ou velho. O que me interessa é se eles respondem o rojão de um maracatu, de um coco. De um rock à sutileza de um blue. Inclusive na formação atual da banda o mais velho é o rapaz dos sopros, Marcelo Bernardes, deve ter uns 50 e poucos. O restante está na faixa dos 30. Meu diretor musical e baixista também. O que é que eu achava da Cássia Eller? Achava não: eu acho. O legado dela é eterno. A lacuna na MPB jamais será preenchida. O trono feminino do rock está vazio. Quem hoje fará no palco o que ela fez?

Debaixo da tamarineira/ Ô, Mateu traz o bumba meu boi. Qual a sua relação com o Maranhão e o que conhece da música daqui?
Maranhão. Meu envolvimento com o Maranhão ocorreu quando fui aí pela primeira vez, com a peça A peleja de Lampião, do Teatro Cordel, em 1975 ou 76, com direção de Luiz Mendonça e o elenco trazendo Elba Ramalho, Tonico Pereira, José Dumont, Tânia Alves. A direção musical quem fazia era eu, além de tocar violão, sanfona e percussão. Agora o que me impressiona é a força mística. O espiritismo em certas regiões daí, orixás, caboclos, pretos velhos. Musicalmente não dá para ouvir sentada. O reggae. Agora as festas populares. O povo nas ruas. Vi uns documentários por aqui… para quê viajar, se a gente tem um mundo com seus mestres dentro desse Brasil? Me dê licença, mas eu vou ver de perto, de bem perto esse Maranhão.

Ponto BR na Nauro Machado hoje

Sabem quando uma ruma de mestres se junta pra fazer coisa  boa? Quem já viu o show ou ouviu o disco do Ponto BR sabe exatamente do que tou falando. Uma ideia? Se você acessar o site do coletivo e seu computador tiver umas caixinhas de som, é por aí…

A trupe é formada por Éder “O” Rocha (ex-Mestre Ambrósio), Henrique Menezes (Casa Fanti-Ashanti), Humberto de Maracanã (bumba meu boi homônimo), Renata Amaral (A Barca), Thomas Rohrer (A Barca), Walter França (Maracatu Nação Estrela Brilhante) e Zezé Menezes (Casa Fanti-Ashanti).

O grupo já conta mais de 10 anos de estrada, formado a convite do Festival Wemilere, em Guanabacoa, Cuba. Lançaram o cd Na Eira e também fizeram shows em São Paulo e na Turquia.

Melhor Grupo Regional na edição 2012 do Prêmio da Música Brasileira, o Ponto BR se apresenta hoje (27), às 21h, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), com participações especiais de Dindinha Menezes e Ribinha de Maracanã. Estão em turnê pelo país, selecionados pelo edital Natura Musical.

Marcia Castro e Siba fizeram a plateia ser feliz

Natura musical levou shows De pés no chão e Avante de graça à Estação das Docas, na capital paraense

TEXTO E FOTOS: ZEMA RIBEIRO*

Marcia Castro: “A plateia só deseja ser feliz”
Siba: “Pode acabar-se o mundo, vou brincar meu carnaval”

 

BELÉM/PAMarcia Castro e Siba lançaram, ano passado, dois dos melhores discos da música brasileira deste início de milênio – ainda se pode dizer isso?

Ela, De pés no chão, aprofundou os bons resultados já apresentados na estreia, Pecadinho (2007), em que mergulhava de cabeça, corpo, voz e alma, no que há de melhor na MPB – para usar uma sigla surrada – misturando gravações e regravações de artistas consagrados e de novos compositores.

Ele, Avante, disco autoral em que retoma a guitarra, seu instrumento de origem, embora a rabeca o tenha projetado para o Brasil. O trabalho tem um acento mais pop, mais rock, após as experiências com a Fuloresta do Samba que sucedeu o Mestre Ambrósio, grupos que integrou. Se a rabeca não aparece no disco, estão lá, no entanto, suas referências interioranas que ajudaram a sedimentar a cena pós-mangue em Pernambuco.

Ela, baiana, ele, pernambucano. Em dois shows – não se encontram no palco – ambos fizeram sua parte para fazer o público sorrir, cantar junto, aplaudir, dançar, se divertir. A Estação das Docas, onde o palco foi armado, ficou pequena para tanta gente, conhecedora ou não do trabalho de ambos os artistas – as apresentações foram gratuitas, pelo Natura Musical.

Ao vendedor de cervejas que indaguei através do gradil, fugindo das long necks a oito reais vendidas nos bares do espaço, “nunca tinha ouvido falar, mas estou gostando. Sempre tem shows bons aqui”, afirmou.

Marcia Castro passeou pelo repertório de seus dois discos e apresentou duas músicas que não estão neles: Menina mulher da pele preta (Jorge Ben) e Jorge Maravilha (Julinho da Adelaide, pseudônimo de Chico Buarque), do verso “você não gosta de mim, mas sua filha gosta”, esta emendada a Você gosta (Tom Zé). Começou por Pois é, seu Zé (Gonzaguinha), cujos versos “a plateia ainda aplaude ainda pede bis/ a plateia só deseja ser feliz” podem perfeitamente traduzir a noite.

“A gente não vai sair para vocês pedirem o bis, se não vão desligar tudo aqui e a gente não volta”, anunciou brincalhona, avisando da impossibilidade de ouvir da plateia o tradicional “mais um”, já que o palco tinha que ser montado para Siba no intervalo. Mandou os hits Preta pretinha (Moraes Moreira e Galvão) e Frevo (Pecadinho) (Tom Zé), antes de deixar a plateia pedindo “mais um”.

“O que eu digo pra vocês uma hora dessas?”, Siba subiu ao palco desculpando-se pelo atraso, decorrente da reorganização do palco entre um show e outro. Logo estava desculpado por todos os presentes, mandando o repertório de Avante, show man que sabe hipnotizar a plateia mesclando o punk rock que corre em suas veias aos idem maracatu, frevo e ciranda, botando o público para dançar e cantar junto.

Poeta-trovador, as letras das músicas de Siba têm força e contam histórias, algo já notado desde que integrava o Mestre Ambrósio e a Fuloresta do Samba. Pontos altos do show, A bagaceira – história de um carnaval supostamente vivido pelo músico – e Canoa furada contam causos pra lá de engraçados, envoltas em ritmos que levam mesmo repórteres desengonçados a mexer o corpo e batucar nas próprias pernas tentando acompanhar os músicos no palco. Siba não recorreu ao repertório do Mestre Ambrósio mas lembrou o Toda vez que eu dou um passo/ o mundo sai do lugar (2007), faixa título de um disco seu com a Fuloresta.

Escoltados por ótimas bandas, ambos disseram da felicidade de tocar em Belém, cidade em que os dois baixavam pela primeira vez, o que por si só já garantiria às apresentações o status de “históricas”. Mas o par de artistas – de mútua admiração, confessada publicamente – não estava ali (apenas) para fazer turismo. Fizeram música da melhor qualidade, com turistas e belenenses tomando parte de um evento de magia e alto astral, aproveitando cada momento de diversão e deleite proporcionados por dois dos maiores artistas brasileiros de nossos tempos.

*O repórter viajou às próprias expensas.