Felinos para apresentar o jazz aos pequenos

Uma das ilustrações de Cau Gomez para o texto de Pedro Henrique Barros

Simpaticat é um trocadilho em inglês para uma possível descrição da figura que aparece na capa de O dia em que os gatos aprenderam a tocar jazz [Cepe, 2012, 32 p.]: um gato simpático envergando um trompete, terno com direito a gravata borboleta e óculos escuros. Por trás, um piano, o bumbo de uma bateria – em que estão escritos o título do livro e o nome do autor, Pedro Henrique Barros – e uma cortina.

O livro ficou em primeiro lugar na categoria juvenil do Concurso Cepe de Literatura Infantil e Juvenil de 2011 e foi publicado pela promotora, a Companhia Editora de Pernambuco, da sigla que batiza o concurso, ano passado. As ilustrações de Cau Gomez, verdadeiras obras de arte à parte, ocupam páginas inteiras, traduzindo o texto para crianças e jovens – e felinos, por que não? – de todas as idades.

A história da Musichounds, banda formada pelos gatos Patrick Fitzpatrick, o baterista, Toy Denison, o trompetista, Hoover Jones, o contrabaixista, e Chet, o saxofonista – referência óbvia ao trompetista Chet Baker – começa com o lançamento de Birth of the cool, de Miles Davis, em 1950. E continua com a entrada de Augusta Valentine, gata com um olho de cada cor, a primeira que cantava. Com uma história de vida triste, como cabe a boa parte das divas do jazz.

É um livro cheio de beleza e outro resultado seria difícil ao misturar o mais representativo dos gêneros musicais norte-americanos e os felinos. É também um livro cheio de tristeza, mostrando a crueldade dos seres humanos e do capitalismo – o que torna até difícil classificá-lo como literatura infantil ou juvenil, ao menos nos moldes a que estamos acostumados.

Recomendar a leitura ao som de jazz pode ser obviedade. Mas é uma ótima oportunidade para apresentá-lo, o jazz dos grandes, aos pequenos.

Cortázar em ritmo de jazz

Um primor a edição em que a Cosac Naify brinda os leitores brasileiros com uma pequena obra prima do galã Julio Cortázar. O perseguidor [2012] é escrito como se o autor tocasse jazz. Como se fosse possível traduzir solos de saxofone – em um improviso interminável, puro êxtase – pelo batuque frenético da máquina de escrever do argentino nascido na Bélgica.

Em 94 páginas são narrados alguns episódios da vida de Charlie Parker, o Bird, um dos maiores nomes do sax alto no jazz em todos os tempos. O talento grandioso, ainda hoje venerado, a vida curta, consumido por altas doses de álcool e heroína, é retratado pela pena precisa de Cortázar e o traço elegante de José Muñoz.

O conto é narrado por um crítico de jazz, autor de uma biografia de Bird – cujo nome é modificado, embora outros personagens reais compareçam ao livro, caso de Miles Davis –, a quem visita, logo no início. Humanamente decadente, o músico não tem sequer um instrumento para iniciar uma temporada dali a dois dias.

A narrativa que mescla a biografia de Parker e ficção entremeia histórias folclóricas (para não dizer engraçadas) e tristes. Neste campo a morte de uma filha e a ruína do músico; naquele, o dia em que chamuscou um colchão em um hotel em que se hospedava, onde desfilou nu pelos corredores.

Originalmente publicado em 1959 – em Las armas secretas, que trazia Las babas del diablo, que inspirou Michelangelo Antonioni em Blow up – e reeditado na Espanha 50 anos depois, o conto ganhou nova tradução, do poeta Sebastião Uchoa Leite. Recomendável não apenas para jazzófilos iniciados.

Miles Davis: improviso e eternidade

Para Flávio Reis (que me fez ir mais fundo em jazz e bossa nova), Micaela Vermelho (que me apresentou a “wonderful soundtrack”) e Reuben da Cunha Rocha (que me emprestou o livro).

Miles estava agendado para viajar a Paris no final de novembro, onde tocaria como solista convidado de um quarteto parisiense que incluía Kenny Clarke. Um projeto de estúdio de improviso por lá teve efeito duradouro em seu estilo de gravação.

Por meio de sua ex-namorada parisiense, a atriz Juliette Greco, Davis conheceu o jovem cineasta Louis Malle, que estava completando seu primeiro longa-metragem, Ascensor para o Cadafalso. Malle precisava de uma trilha sonora para seu filme noir e existencial, uma releitura francesa do argumento de Pacto de Sangue. Trabalhando com um orçamento limitado, mas com a vantagem de ter Davis longe de seu séquito de advogados e demais procuradores, o cineasta propôs que o trompetista compusesse e executasse a trilha sonora. Miles aceitou.

Uma das capas do filme no Brasil

Acompanhado pelos mesmos quatro músicos locais [Barney Wilen no sax tenor, René Urtreger no piano, Pierre Michelot no contrabaixo e Kenny Clarke na bateria, nota do blogue] com quem vinha se apresentando (e ele havia tocado anteriormente com apenas um deles), Davis gravou a trilha inteira em uma só sessão noite adentro. Enquanto o grupo assistia a várias cenas do filme, Miles, num tour de force ad hoc, compôs, arranjou e tocou o trompete em quase uma hora de música orientada para o blues e riffs básicos. [Kenny] Clarke relembra o método de direção musical confiante e ativo de Miles:

Ele falava: “Espere um pouco, é aí! Pare! Bem aqui”. Aí dizia: “Aqui a gente toca isso, e isso a gente faz aqui”. Porque parecia casar com a cena e realmente era bem pensado. E gravamos toda a música do filme de uma vez só… Miles realmente montou tudo maravilhosamente. E tudo aconteceu no calor do momento, sabe? Acabamos em mais ou menos três horas…

A direção de Miles pode ser claramente ouvida nas gravações completas da sessão de Ascensor. Davis assobia para marcar o fim de cada take, já que cada breve sequência musical é sucedida por outra (“Assassinat”, “Séquence”, “Voiture”). As composições mal parecem “compostas”; pouca estrutura melódica reconhecível e bem poucos padrões familiares de blues foram utilizados.

Esse jeito de compor e gravar em queda livre era um território novo e estimulante para Miles. Fazer música funcional – criar um fundo musical para imagens em movimento na tela – deu a Miles a oportunidade de romper com estruturas convencionais e experimentar como nunca fizera antes. Se quisesse solar interminavelmente sobre uma sequência de acordes – ou apenas um acorde, no caso -, poderia, desde que a música fizesse sentido para a narrativa do filme. De uma maneira que antecipa o efeito suspenso de uma composição como “Flamenco Sketches”, de Kind of Blue, a faixa “Le Petit Bal”, da trilha de Ascensor, evitou qualquer encadeamento de acordes, permitindo a Miles projetar um clima simplesmente tocando sobre uma única escala e sutilmente sugerindo uma frase lírica.

No final dos anos 50, Hollywood estava começando a explorar todas as possibilidades emocionais dos músicos e compositores de jazz em trilhas sonoras de longas-metragens. Uma lista de exemplos ainda causa admiração: Elmer Bernstein e Shorty Rogers em O Homem do Braço de Ouro, em 1955; Chico Hamilton em A Embriaguez do Sucesso, em 1957; Duke Ellilngton em Anatomia de Um Crime, em 1959, e Charles Mingus, em Shadows, em 1960. Mesmo quando comparada a essas partituras para filmes – frutos de planejamento cuidadoso e orçamentos generosos (ou tão baixo quanto Ascensor, no caso de Shadows) -, a proeza de uma noite de improviso de Miles se sustenta e, na verdade, se sobressai ainda mais.

Trecho de Kind of blue: a história da obra-prima de Miles Davis, p. 65-66, de Ashley Kahn. Tradução: Patricia de Cia e Marcelo Orozco. Editora Barracuda, 2007

%d blogueiros gostam disto: