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Lula cá

Foto: Zema Ribeiro

 

Quando Luis Jorge Gonçalves dos Santos, 62 anos, responde minhas perguntas, nem vejo sua boca se mexer, oculta por uma enorme barba grisalha. É dessa semelhança física com o Lula roots candidato à presidência pela primeira vez em 1989, que ele ganhou o apelido que batiza a Barraca do Lula, há oito anos na Praça Deodoro – logradouro em que o maior líder político da América latina fez comício naquela campanha, com direito a show da banda punk Amnésia, que tinha Marcos Magah no vocal, mas isto é outra história.

Lula foi garçom, maitre de restaurante, camelô e feirante, “sempre na dificuldade”, qual o xará e sósia famoso. Quando pergunto se ele topa me dar uma entrevista rápida ele aperta minha mão e diz para deixar para uma próxima oportunidade. Espero-o atender uma moça de vestido azul que pede uma água de coco e insisto, tendo por mote a visita do presidente metalúrgico à Ilha amanhã. Ele topa e ligo o gravador por menos de 10 minutos.

“Meu pai morreu eu tinha nove anos de idade, fui criado por padrasto e caí na vida, estou aqui até hoje, graças a Deus. Minha vida é essa. Lula e Lula mesmo. Sempre votei nele e vou votar para sempre. Com muita emoção”, revela o evangélico hoje afastado da igreja, fanático pelo líder petista.

Lula é casado, tem cinco filhos, quatro netos e retira o sustento da barraca, ornamentada por frases como “se a sua estrela não brilha, não tente apagar a minha”. Ele não tem cadastro em nenhum programa social.

Por que Lula? “Pela capacidade, trabalho, honestidade, é um homem direito, trabalhou para o pobre. Não existe outro presidente sem ser ele. Em primeiro lugar, Deus, depois ele. Lula é Lula. É indo e voltando Lula. Pode viver 10 anos, 20 anos, ele pode estar preso eu voto nele”.

Pergunto se ele participará do ato amanhã (5), às 17h, na Praça Pedro II, Centro. “Estou com uma esperança louca de ir lá. Vou falar com meu filho para ficar aqui amanhã. Nem que eu feche eu vou lá amanhã”.

Sobre o governo da sucessora, comenta: “A Dilma foi uma ótima mulher, o negócio é que se entregou pro Temer. A confiança foi tão grande nele que ele traiu ela, uma mulher guerreira”. Um homem aparece pedindo para trocar 50 reais. “Não tenho”, avia Lula, que já havia tido dificuldade para tirar o coco de 20 reais. “A esperança é essa, é que Lula volte e ela volte também”, continua. “Eu espero que Lula volte, em nome de Jesus. Ninguém vai tirar ele, não tem aquele tal de Moro. Por que ele não prende Temer, que é o chefe da quadrilha? Foi tudo descoberto, mas ninguém tem coragem de prender. O que Lula fez? Dar trabalho pra pobre, colocar negro na universidade, ter casa, ter seu carro, ter sua moto, tudo. Deficiente empregado, com seus direitos”, enumera.

E como Lula avalia o governo do ilegítimo? “Péssimo, daí pra pior. Não tem pra onde correr. Um homem desses já era para estar preso. Aqui no Brasil não tem lei. Por que Lula está hoje sofrendo? Por que é guerreiro, não se entrega, e não se entrega por que não deve. Isso é um meio de tirar o homem do poder”.

Golpe após golpe, desde o que apeou Dilma Rousseff do poder, comento a possibilidade de não haver eleições em 2018. O Lula da Deodoro vaticina: “Não tem pra onde correr. Tem eleição direta, já. E o homem é Lula. Não tem ninguém para botar frente a Lula”.

Pergunto se ele já foi filiado ao Partido dos Trabalhadores e Lula revela uma árvore genealógica petista: “Meu tio era do PT, foi vereador, mas já faleceu. Era um camelô, Pilão”. No entanto não sabe precisar quando foi sua legislatura. “Faz mais de 20 anos, já”, arrisca.

“Outro que é guerreiro também, o [hoje no PcdoB e prefeito de Paço do Lumiar Domingos] Dutra. Lutou, foi perseguido por que trabalha certo. Quando se trabalha certo os maiores perseguem para tomar o poder, para fazer merda, avacalhar. Mas Deus não vai deixar”, lista colocando Dutra ao lado de Lula.

Sobre perseguidos e perseguidores, indago-lhe sobre a aliança de Lula com Sarney. “Sinceramente o Lula fez uma grande besteira ao se unir com Sarney. Podia ter sido melhor ainda, sem Sarney. Todo político é obra de Sarney”. Espanto-me: todo? “É, a maioria é, o único que não é, é Lula. O único que não foi obra de Sarney, mataram, que foi o doutor Jackson Lago”.

E o governador Flávio Dino? “Ele tá trabalhando, com toda dificuldade, sem dinheiro, está trabalhando. Para trabalhar aqui no Maranhão tem que ter dinheiro, ele está sem dinheiro, mas está trabalhando”.

Observo o entorno, a Praça Deodoro tomada por barracas. Lembro de episódios envolvendo a Blitz Urbana, derrubando até mesmo construções de alvenaria em alguns pontos da cidade. Indago-lhe se não teme o futuro. Ele afirma, convicto, logo voltando à pauta de nossa conversa: “Camelô não é invasor. Tem sindicato, associação. Se Lula ganhar, melhor ainda. Com o apoio de Lula, o apoio de Flávio Dino, nós vamos ficar para sempre aqui. Até Deus mandar ele [Lula] embora. A perseguição a Lula foi grande, ainda é, matou a Marisa, mas Deus é maior”.

Agradeço a gentileza do papo e peço uma água. Ao sacar a grana para pagar ele abre um sorriso e manda: “cortesia do Lula!”.

Touchê em turnê: uma divertida aventura literária

O autor cercado por atrizes da Xama Teatro e estudantes de uma escola pública em Santa Inês/MA. Foto: Sheury Neves

 

Com a Caravana Passeios pela História e Cultura do Maranhão o escritor Wilson Marques está circulando diversas cidades maranhenses, acompanhado da trupe da Xama Teatro e de Touchê, seu personagem infantil que angaria leitores por onde passa.

Na última quinta-feira (1º.), foi a vez de Pedreiras, terra de João do Vale, já biografado pelo autor – e recentemente tema de biografia-mirim lançada recentemente pela jornalista Andrea Oliveira. O município encerrou a primeira etapa do projeto, que, com patrocínio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, já passou, além de Pedreiras, por Imperatriz, Açailândia, Timon, Caxias, Pinheiro, Viana e Santa Inês.

O kit Touchê. Reprodução

“Para quem escreve, o contato com seu público é quase tão importante quanto publicar livros. É bom para o pequeno leitor, que ao final desmistifica a ideia de que o escritor é uma figura distante, inacessível. E, para o autor, uma oportunidade de se retroalimentar, se energizar”, comenta o escritor. Em suas viagens, os lançamentos têm sido realizados em escolas públicas ou espaços culturais, com distribuição dos kits de Touchê, com seis livros, ilustrados por Kirlley Veloso: Touchê em a invasão francesa e a fundação de São Luís, Touchê em uma aventura pela “Cidade dos Azulejos”, Touchê em a revolta de Beckman e nos tempos de Pombal, Touchê em uma aventura em noite de São João, Touchê em o mistério da serpente e Touchê em Balaiada, a revolta.

Indago se estreitar este convívio com os pequenos leitores é uma tentativa de virar o jogo: livros perdem cada vez mais espaço na disputa de preferência com tablets e celulares, entre outros. “Com relação aos eletrônicos, acho que o mal uso deles pode ser bastante daninho principalmente para mentes em construção. Por outro lado, acredito que não devemos demonizá-los, ou criar cabos de guerra tendo de um lado livros e do outro tablets, etc. Acho sim que podemos tirar partido deles a fim de difundir cada vez mais os bons conteúdos, pois ao final é isso que realmente importa”, opina.

A rota de Wilson, Touchê e do Xama Teatro, que faz apresentações baseadas nos enredos das obras, após um descanso, será retomada em agosto, quando visita São José de Ribamar (dia 2), Paço do Lumiar (14) e São Luís (23), encerrando o passeio.

“Em todas as cidades em que passamos a receptividade superou minhas expectativas, tanto por parte de alunos como professoras, diretoras e gestores de educação municipais. Isso tem sido muito legal porque demonstra que existe em todos um interesse, uma necessidade inata por arte, por histórias, por teatro, por livros. Por outro lado, revela um aspecto que me entristece um pouco: o fato de a Caravana despertar ainda mais interesse na medida em que muitas escolas se encontram em estado de carência no que diz respeito à oferta desse tipo de ação. De qualquer maneira o projeto tem ajudado a reacender essa chama, e isso a gente pode constatar pelo entusiasmo e alegria com que somos recebidos”, comenta.

Jornalista de formação, Wilson Marques, além de João do Vale, já biografou o violonista João Pedro Borges. Seu personagem de maior sucesso, no entanto, é mesmo Touchê, através do qual ele aborda aspectos da história e da cultura do Maranhão. Pergunto se o incomoda o fato de a faceta infantil de sua obra ser mais conhecida que o trabalho, digamos, adulto.

“Nunca tinha pensado nisso e acho que vou continuar sem me preocupar com esse aspecto do meu trabalho. Mesmo porque esse raciocínio pode levar à ideia de que um tipo de fazer literário é mais nobre que o outro. Tipo, escrever para adultos é mais nobre do que escrever para crianças. E não me parece que seja assim. Uma coisa, entanto, posso afirmar: pra mim, escrever para crianças é muito mais divertido do que escrever para adultos. E, no final das contas, o que vale é a gente se divertir”, finaliza.

Delícias do Mar(anhão)

O Fideuá Casa d'Arte é um dos destaques do festival. Foto: ZR
O Fideuá Casa d’Arte é um dos destaques do festival. Foto: ZR

 

Nem só de língua de boi vive o homem – e a mulher (grávida) –, dona Catirina! Ao menos é o que demonstra o II Festival Gastronômico, promovido pelo Sebrae/MA, que agrega 47 restaurantes em nove municípios maranhenses, com pratos à base de frutos do mar – Delícias do mar é o tema desta edição, que também contempla sobremesas à base de frutas regionais – lista completa de municípios, restaurantes, pratos e sobremesas no site do festival.

Lançado hoje (5), em evento para convidados no Centro de Convenções Pedro Neiva de Santana, o festival acontece até o próximo dia 23. Além da lista no site e em material impresso de divulgação, os restaurantes terão banners identificando sua presença no circuito. Os presentes puderam degustar as delícias dos 18 restaurantes de Raposa, São José de Ribamar e São Luís que participam.

A iniciativa é importante: quem souber do festival, procurará conhecer os restaurantes participantes e, por sua vez, os pratos preparados especialmente para a ocasião – vendidos a preços mais baratos.

O aumento da participação é visível: na primeira edição, em 2015, eram 21 restaurantes. Gosto de pensar também na contribuição para o turismo e a superação de preconceitos: muita gente, ao ver o número de restaurantes em determinado município já não pensará naquela localidade como algo inferior, indigno de atenção, mas como um polo gastronômico, boa oportunidade de conhecer este ou aquele lugar – e seus respectivos pratos.

Percorrendo os stands – que eu prefiro chamar de barracas – degustando os diversos pratos, se percebe também a heterogeneidade dos participantes: da franquia China in Box, passando por casas, digamos, mais chiques, como o Feijão de Corda, Thai e a Pizzaria Vignoli, até estabelecimentos, digamos, mais roots, como o Por do Sol, em Raposa, para ficarmos em exemplos apenas entre os que estavam neste lançamento – outros eventos acontecerão em outros municípios.

Os presentes também puderam degustar o som do Criolina. Foto: ZR
Os presentes também puderam degustar o som do Criolina. Foto: ZR

Gastronomia é cultura e os que já estávamos provando de tudo um pouco antes e durante as falas das autoridades presentes, continuamos ao longo do pocket show do Criolina – Alê Muniz e Luciana Simões acompanhados de João Simas (guitarra) e Rui Mário (teclado e sanfona) –, que, não à toa, começou por Catirina (Josias Sobrinho), a quem aconselhamos no início deste breve e pantagruélico relato.

Entre o que experimentei hoje destaco o Fideuá da Casa d’Arte, o Canelone de caranguejo da Casa Rossini e a Mariscada do Léo da Tia Mundoca (em que a tarioba se sobressai deliciosamente) – o primeiro e o último, em Raposa.

Certamente vale a pena (tentar) conhecer todos os restaurantes e (tentar) provar todos os pratos. O Delícias do Mar é um festival de muito bom gosto. Literalmente.

Gerô duplamente lembrado nos 10 anos de seu martírio

Foto: Ronald Almeida Silva
Foto: Ronald Almeida Silva

 

Há exatos 10 anos o artista popular Jeremias Pereira da Silva, o Gerô, foi torturado até a morte por policiais militares. A partir de 2008, por iniciativa da então deputada estadual Helena Heluy, o dia 22 de março foi instituído como Dia Estadual de Combate à Tortura.

No fim da tarde de 22 de março de 2007, Gerô foi supostamente confundido com um assaltante nas imediações da cabeceira da Ponte do São Francisco, no Centro da cidade. Ali começou seu calvário, que duraria algumas horas até o óbito. Gerô era negro. Escrevi um texto na ocasião, indignado com o acontecimento.

No ano seguinte, o Bloco Tradicional Pau Brasil, do bairro do Anjo da Guarda, homenageou o artista. O samba-tema Salve Gerô! (ouça aqui) tem música de Gigi Moreira e letra de Gigi Moreira, Jeovah França, Josias Sobrinho e deste blogueiro.

O episódio cujo desfecho trágico foi seu assassinato não era o primeiro nem o único em que Gerô foi vítima de racismo. Lembro-me de uma vez em que estávamos em um bar, na Praia Grande, e o artista foi arrancado à rua com seu violão. Supostamente buscando alguma droga, Gerô foi revistado de forma vexatória, ao tempo em que tirava onda dos policiais: “eu carrego é na mente”, gritava com sua voz peculiar, lutando contra as injustiças sem perder o bom humor.

Gerô publicou diversos cordéis com o pseudônimo Linguafiada. Nunca se furtou a denunciar a violência, opressão, racismo, desigualdade social. Sempre teve lado: o dos oprimidos.

Após sua morte, a então Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma) lançou A peleja de Gerô, disco compilando gravações que havia deixado, entre as quais Canto de passarinho, parceria com o violonista Domingos Santos que, defendida por Fátima Almeida no Festival Viva de Música Popular de 1985, acabou por dar nome artístico a uma de nossas mais populares cantoras: Fátima Passarinho.

O martírio de Gerô e seu legado serão lembrados hoje (22), às 17h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), por iniciativa do cordelista Moisés Nobre, seu parceiro. O evento contará com exposição de objetos pessoais de Gerô, debate sobre direitos humanos, igualdade racial e combate à tortura, além de sarau poético-musical.

Entre os nomes confirmados estão os secretários de Estado Francisco Gonçalves (Direitos Humanos e Participação Popular), Gerson Pinheiro (Igualdade Racial), além de artistas como Joãozinho Ribeiro, Cesar Teixeira, Fátima Passarinho, Arlindo Carvalho, Gigi Moreira e Rosa Reis, entre outros.

Na próxima sexta-feira (24), às 18h30, Gerô será homenageado também na Faculdade Estácio, por iniciativa do poeta e compositor Joãozinho Ribeiro, professor da instituição, no evento As várias mortes de Gerô.

O debate contará com a presença de diversos docentes da Estácio, além de Moisés Nobre, Carlos Antonio (advogado do caso Gerô, que garantiu a indenização paga recentemente à família), o sociólogo e radialista Ricarte Almeida Santos, além deste que vos perturba. Ambos os eventos são abertos ao público e têm entrada gratuita.

Denis Carlos lança documentário em sessão gratuita hoje (27)

 

Penetrar o desconhecido e mágico território do sagrado. É o que faz o documentarista Denis Carlos em Iemanjá pela última vez [Brasil, 2016, 31 min.], que conta a história de Allana Karoline, que durante alguns anos vestiu-se para celebrar Iemanjá, nas festas devotadas à divindade no Terreiro da Fé em Deus, conduzido por Mãe Elzita – fotografada por Márcio Vasconcelos em Zeladores de voduns.

A pequena e febril Karol teve uma visão. Era um chamado e logo o mal-estar foi embora. A partir de então, uma demonstração prática e bonita de sincretismo cultural e religioso: a procissão de Nossa Senhora da Conceição, além de anjos, tinha agora a rainha do mar.

Denis Carlos faz valer a máxima que se tornou um clichê – e seu filme passa longe de qualquer clichê –, uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, para acompanhar o último ano de Karol como Iemanjá, como entrega o título. Não é um salto no escuro, o documentarista tem domínio da situação, deixa suas personagens à vontade – inclusive um gato que encara a câmera para depois se afastar como se nada tivesse acontecido –, num filme bonito em sua simplicidade, como o terreno pelo qual se aventura.

O toque de mina, o cântico católico, o samba “profano”, a banjo, saxofone e trombone, e a prova de que é possível o convívio harmônico entre os diferentes, num tempo em que o ódio é uma espécie de vírus propagado pelo ar e pelas ondas.

Há solenidade e emoção quando outra garota assume o papel de Iemanjá. Onde às vezes tudo o que se exige é respeito, Denis Carlos vai além e dá uma importante contribuição para o cinema do Maranhão, as religiões de matriz africana e a superação de preconceitos, sem ser panfletário, com a beleza e leveza que queremos ver quando vamos ao cinema.

Serviço

Iemanjá pela última vez será lançado em sessão hoje (27), às 19h, no Cine Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy, Rua do Egito, Centro), com entrada gratuita.

Maria Aragão em tempos de golpe: atual e necessária

Uma subversiva no fio da história. Capa. Reprodução

 

O jornalista Emilio Azevedo lança na próxima quarta-feira (14), às 19h, o livro Uma subversiva no fio da história [2016, Ed. do autor; revisado por este blogueiro], um conjunto de nove reportagens sobre a vida e o legado de Maria Aragão, uma das mais importantes personagens da política no Maranhão no século XX.

Embora tenha elementos, o livro não se configura uma biografia. Foi escrito entre 2007 e 2009 e repousou numa gaveta até ser retomado pelo autor, este ano. Ele confessa: tinha críticas quanto à obra, para o qual os nove textos foram escritos. Depois de mais cinco meses de trabalho, uma espécie de reconciliação entre criador e criatura permite que a segunda chegue ao público agora.

A noite de autógrafos será movimentada: o Teatro João do Vale (Rua da Estrela, Praia Grande) receberá show da cantora Tássia Campos – com o mesmo título do livro –, além de esquetes do Gamar – grupo de teatro amador formado nas dependências de uma escola que leva o nome da médica comunista – e de Maria Ethel, cuja “encarnação” de Maria Aragão em A besta-fera é um hit do teatro local.

Emilio Azevedo parte de um exercício difícil: humanizar Maria Aragão, relendo-a e recontando-a para além da execração – os que a detestavam e tratavam-na por puta, besta-fera e que tais – ou da beatificação – os que a adoravam e consideravam-na uma espécie de santa. É a essência humana que move o jornalista através de suas nove reportagens, embora ele mesmo confesse tratar-se de um livro de fã.

Tendo Maria Aragão como personagem central e fio condutor, Emilio refaz um pequeno pedaço da história do Brasil e do Maranhão, ao abordar a época e a conjuntura em que a “médica comunista” – longe do clichê – realizou sua militância, sua ação subversiva. Estão lá Luiz Carlos Prestes, o PCB, a ditadura militar, a Igreja Católica, as oligarquias. É um livro ousado de um autor que não teme assumir-se de esquerda, num tempo em que há quem ouse dizer não existir mais esquerda ou direita – estes, sabemos de que lado estão.

A antropóloga Maristela de Paula Andrade, no prefácio de Uma subversiva no fio da história, defende a adoção do livro por escolas. “Esses heróis fabricados, artefatos políticos, ganharam bustos em praça pública e lugar certo, inquestionável, na formação escolar das crianças e da juventude. Foram heróis da classe dominante, dos que detiveram o poder em cada conjuntura histórica, mas inventados e cultuados como defensores de todos. Por que não contar aos jovens brasileiros a história de pessoas como Maria Aragão, que lutaram por igualdade, justiça, liberdade, por um mundo melhor para os explorados e oprimidos?”, indaga a professora da UFMA.

O questionamento é pertinente em tempos de golpe, quando tantos outros saem às ruas reivindicando uma intervenção militar. Emilio Azevedo mostra a atualidade do legado de Maria Aragão, mais que médica ou comunista, uma mulher que educava pelo exemplo. Sempre é tempo de aprender.

Emilio Azevedo conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

O jornalista Emilio Azevedo conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos. Foto: Altemar Moraes/ Vias de Fato
O jornalista Emilio Azevedo conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos. Foto: Altemar Moraes/ Vias de Fato

Uma subversiva no fio da história é seu terceiro livro, todos com uma posição à esquerda, o que é uma dificuldade do jornalismo, hoje. Qual a importância do jornalista assumir que tem lado?
Tem toda importância. É uma questão de honestidade com o leitor. Recentemente vi uma palestra do Caco Barcellos [na 10ª. Feira do Livro de São Luís], onde ele falava do jornalismo declaratório e de um outro jornalismo que eu não lembro agora como ele definia, um jornalismo imparcial, neutro, um jornalismo essencialmente informativo. Não sei como ela define o jornalismo feito por William Bonner, Alexandre Garcia ou Arnaldo Jabor. A verdade é que acho impossível você trabalhar com jornalismo e dissociar de uma posição política. A pauta já é ideológica, o veículo em que você trabalha é ideológico. O aspecto ideológico de uma reportagem nasce a partir da pauta, do lugar onde ela é publicada, veiculada. Se você faz um bom jornalismo dentro da Rede Globo, no geral você está referenciando, legitimando o mau jornalismo que a Globo faz. As coisas estão associadas. Eu não acredito em imparcialidade, sempre disse isso, escrevendo ou em mesas de debate. O jornalismo pode ser honesto e desonesto, mas será sempre essencialmente ideológico, político. Você pode ser honesto no seu fazer jornalístico, deixando clara sua posição. O leitor não é idiota, ele sabe filtrar os excessos porventura cometidos.

Quando você diz que alguém como Caco Barcellos, dentro da Globo, em vez de ser uma exceção, referenda o mau jornalismo praticado pela emissora, você não acredita em reserva moral ou que outro nome se queira dar para isso? Uma exceção, o fato de ele estar lá significando poder fazer o jornalismo que ele pratica chegar a mais gente?
Eu não vou dizer que ele está certo ou errado em trabalhar na Globo. Todo profissional tem que trabalhar e pagar suas contas. Não entro nesse tipo de patrulhamento. O problema é vestir a camisa do patrão. É tirar onda de bom moço e sair em defesa dos interesses da família Marinho. A merda tá bem aí. Nessa palestra, especificamente, Caco Barcellos pisou na bola ao dizer o seguinte: “pra todo mundo que fala mal de mim ou do veículo em que eu trabalho”, no caso, a Globo, “eu digo: “faça melhor!””. Encaro esse papo como uma piada de mau gosto. É certo querer tirar da sociedade a possibilidade de criticar um veículo que é uma concessão pública? É um ponto de vista completamente equivocado. Tem que ter muita crítica a todos os veículos, aos que são concessão pública, no caso das emissoras de TV e rádio, e também aos que não são. Uma coisa é a crítica, outra coisa é a agressão, a violência, a estupidez. A crítica é saudável. No caso dessa palestra específica, ele pediu que não criticasse a Globo, que fizesse melhor. A Globo tem rios de dinheiro. E de onde vem esse dinheiro, quem patrocina? Se ele tem estrutura pra chegar às três da manhã, na frente de todo mundo, com 10 carros, alguém está pagando essa conta. Isso não sai do bolso do Caco Barcellos, isso sai do bolso da empresa que tem patrocinadores x, y e z. Tudo isso tem que ser levado em conta. Qual o interesse do patrocinador? É só de vender seu produto?

Às vezes não fazer melhor que a Globo não é falta de vontade, há muita gente aí disposta.
Essencialmente é: quem paga a conta? Quem financia a Globo? A Record? A Veja? Todas as empresas têm interesses políticos.

Este é um ponto essencial: se as pessoas assumissem os patrocinadores, às vezes seria mais rápido e fácil descobrir de que lado os veículos estão, ideologicamente.
Isso é pouco debatido. Pouco se interessa por quem paga a conta.

Você está à frente, há sete anos, do Vias de Fato, que tem uma postura de independência, com seus parcos financiamentos, mas com uma postura ideológica clara. De algum modo isso dialoga com a experiência de Maria Aragão na Tribuna do Povo. A Tribuna do Povo de Maria Aragão, de algum modo foi ou é inspiração para o Vias de Fato?
São momentos distintos, projetos distintos. E uma coisa, essencialmente, os distingue: o projeto da Maria era ligado a um partido. Com toda dificuldade financeira, com todo isolamento, um isolamento à esquerda, mas tinha uma relação com o comitê central do partido, tinha esse tutor, que ficava no Rio de Janeiro. No caso do Vias, ele não é ligado a nenhum partido, nem é centralizado por ninguém. Trata-se de outro momento histórico, completamente diferente no que se refere à organização do campo progressista. A utopia hoje parte de um desejo de pluralidade e horizontalidade, onde todo mundo é passível de crítica, inclusive a própria esquerda. Agora, em relação às dificuldades operacionais, os dois são parecidos.

A Tribuna do Povo era um jornal de uma mulher só.
O Vias de Fato tem mais mulheres, tem mais gente [risos].

O Vias de Fato talvez tenha mais gente, mas ainda é uma equipe pequena. Nesse sentido, que outras semelhanças e diferenças você apontaria?
Semelhança é essa coisa do gueto, eu digo isso no livro, que a Tribuna do Povo é um jornal de gueto. Algumas pessoas fazem questão de dizer que o jornal de Maria não tinha nenhuma influência, mas o antropólogo Alfredo Wagner [Berno de Almeida] coloca a importância dele como uma fonte única naquele tempo. Aí acho que existe uma semelhança. O Vias está no gueto, assumidamente no gueto, mas também é, às vezes, fonte única para determinados assuntos, o que ninguém vai dizer, você vai encontrar lá, no Vias de Fato, o “panfleto” de esquerda. Aí tem um compromisso com a história, compromisso com o processo histórico. Os comunistas têm essa noção do processo histórico. O Vias, apesar de não ser marxista, também tem essa noção.

Emilio, você tem uma formação comunista, inclusive tem a mesma filiação partidária de Maria Aragão.
Desde 2009 estou afastado do partido. Sobre o assunto, vejo muita gente que não é comunista, se dizendo comunista no Brasil. Eu sou o contrário: sou tachado de comunista, mas não me considero marxista-leninista. Acabei me filiando, há quase 15 anos, talvez um pouco menos, ao PCB, por uma questão tática. Diferente de hoje, na época eu tinha interesse em atuar em um partido e pelo fato de ser de esquerda, queria um partido à esquerda. A conjuntura me empurrou para o PCB. Me filiei circunstancialmente, fui ficando. Tenho muito respeito pelo partido, muitos amigos por lá, aprendi muitas coisas, mas essencialmente não sou marxista-leninista. Não gosto de me rotular. Tenho influências cristãs, de esquerda, marxistas, mais recentemente até anarquistas, mas isso não me rotula. Não estudei o suficiente para carregar rótulos. O mínimo que se espera de um marxista é que ele tenha lido toda a obra de Marx, mesmo que não tenha sido em alemão [risos]. Eu fui católico, hoje sou agnóstico. Quando deixei de ser católico, rompi com dogmas. Me parece que todos esses ismos têm dogmas. Então, você fica preso a um determinado dogma e a partir disso cria uma determinada camisa de força, acho ruim. É ruim mesmo entre os intelectuais, o que não é o meu caso. O sujeito passa a pensa a partir de ideias pré-estabelecidas. Acho melhor transitar, pegar uma coisa aqui, outra ali e raciocinar por contra própria. A generosidade não é exclusividade de um só filosofo ou profeta.

Por falar em comunista, acabamos de perder um ex-comunista, o Ferreira Gullar.
Acho que Ferreira Gullar é ótimo como poeta e péssimo como político. Como poeta foi genial, como político se comportou como um oportunista qualquer. Fico à vontade para falar por que em 2001 fiz um artigo chamado A política suja de Ferreira Gullar. Este texto foi panfletado dentro de uma exposição que ele fez aqui em São Luís. A iniciativa da panfletagem não foi minha e eu não participei dela. Ele, um sujeito inteligente, não passou recibo. Não era o caso.

E Maria Aragão como personagem? Você tem uma abordagem que foge das duas mais comuns: os que não gostam, para quem ela era a puta, a besta-fera, ou os que gostavam e a colocam num altar, Santa Maria Aragão. Você tira Maria Aragão destes dois lugares, digamos, mais fáceis, tratando-a como uma pessoa comum, que fez o que fez. Você acha que faltam Marias Aragões no mundo?
Não sei se consegui humanizar Maria Aragão. Tentei. Mas acho que, no fundo, o livro tem algo de exaltação. É um livro de fã. Tentei, já na última etapa do trabalho, retirar essa carga toda. Talvez o último capítulo, de alguma forma, critique o próprio livro. Meu amigo Wagner Cabral, que é historiador, não gosta de biografias. Meu livro não é uma biografia, são nove reportagens, mas sem dúvida é um recorte biográfico. Então, você acaba se apaixonando pela personagem, é uma coisa natural. Fiz um esforço de humanizar, não sei se consegui. Não digo isso no livro, mas acho que existem muitas anônimas iguais a Maria Aragão. Sem querer idealizar uma classe, te digo que nas camadas populares encontram-se muitas mulheres lutadoras, corajosas, generosas e solidárias. Na periferia de São Luís vi de perto o que exaltamos em Maria Aragão. Vi mulher apanhando e outra indo lá e se metendo no meio do casal, para defender a agredida. Vi isso mais de uma vez. Tem muita gente assim. E o grande desafio, no caso de Maria, é não beatificar, é não transformar em santa, é mostrar que é possível fazer como ela fez. Foi uma grande mulher, mas é possível ser como ela, fazer o justo, fazer o correto, cometer erros e acertar algumas vezes. Não aceitar injustiças. Saber escutar. Não desistir. Foi o que ela fez.

O nome que você pensou originalmente para este livro foi Maria Aragão no fio da história. Por que a troca para Uma subversiva no fio da história?
Ao tratar de “uma subversiva” estou falando da própria Maria Aragão – que foi subversiva –, da ação política dela e do processo em que ela estava inserida. É também uma forma de estimular o debate em torno da subversão. Estamos precisando disso. São pessoas e ações subversivas, transgressoras, que andam a margem ou na contramão, que têm o poder de mudar o curso da história e melhorar as coisas. Normalmente o desejo de liberdade e a subversão caminham juntos.

Se não de mais Marias Aragões, você acha que hoje o Brasil precisa de subversão?
Nos últimos anos, quando nosso país viveu sob o comando do PT e do lulismo, ficaram expostos conflitos que historicamente estiveram presentes na sociedade brasileira. Conflitos de valores, conflitos de origem política. Uns ligados às classes sociais e outros relacionado à moral e aos costumes. Neste contexto atuam setores elitistas e conservadores, acrescidos de fariseus e fascistas. Atuam também os que defendem direitos e/ou vivenciam discriminações seculares, neste caso os pobres, negros, mulheres, indígenas e homoafetivos. Isso vai além da disputa entre partidos ou desse maniqueísmo que reduz tudo a “coxinhas” e “petralhas”.

E o subversivo nesse contexto?
Está presente em várias situações. Veja a atual ocupação das escolas e das universidades. É desobediência civil. É algo que subverte a ordem estabelecida. É uma desobediência saudável e necessária, diante dos abusos e da violência cometida pelo atual governo federal e pela maioria do Congresso Nacional. E essas ocupações estão sendo protagonizadas por jovens que vivem esses problemas históricos. São exatamente pobres, negros, mulheres e homoafetivos. Até onde vi, são eles que compõem a maioria desse movimento.

Você poderia dar outro exemplo?
Hoje, no Maranhão, acho emblemática a ação dos indígenas da etnia Gamela, na região de Viana. Em meados do século XX eles foram considerados extintos. Agora, através de uma teia de povos e comunidades tradicionais, que reúne também quilombolas, eles se rearticularam e ocuparam três fazendas. Os Gamela entraram numa terra que é deles. E fizeram isso sem esperar pelo Estado, pela Justiça, por cartório, por burocratas ou pela Funai. Enfim, sem esperar por instituições que hoje, notoriamente, enfrentam sérios problemas de credibilidade. A questão envolvendo recentemente Renan Calheiros e o Supremo mostra bem isso.

Você falou também dos costumes…
Este ano, no Rio de Janeiro, um garoto foi barrado na escola por que estava vestindo saia. No outro dia, todos os meninos da turma dele foram de saia e a escola teve que ceder. O caso repercutiu no país. Ouvi conservadores dizendo que estamos no “final dos tempos”. É interessante perceber que entre essas pessoas, muitos não se preocupam com a devastação ambiental ou com a miséria absoluta de parte da humanidade. É o modo de vestir de alguns que, para eles, indica “o final dos tempos”. Bem, mas diante do mesmo caso, os mais arejados disseram que trata-se apenas de uma roupa, de uma questão de liberdade individual e que cada um deve ter a possibilidade de se vestir como quiser. Diante de um tema tão simples, isso gera conflito e acirrados debates. Em São Luís, numa escola particular do Renascença, soube que uma menina foi impedida de entrar porque estava com um turbante. Houve repercussão nas redes sociais. O racismo, a misoginia e homofobia estão aí, mas a reação a essas antigas formas de violência, de alguma forma, tem crescido.

Emilio, você fez esse livro mais ou menos na época em que Jackson Lago foi governador.
Foram dois períodos: 2007 a 2009 é o primeiro período. Em 2016 eu trabalhei ainda cinco meses nele.

Mas aí já foi uma fase mais de ajustes, revisão. A pesquisa em si foi lá atrás.
Sim, 90 e tantos por cento da pesquisa foi feita nesse período.

Por que demorar tanto a finalizar e publicar?
Em parte o projeto Vias de Fato me tomou muito tempo. Talvez este seja o motivo maior, mas eu também tinha algumas críticas ao livro e hoje eu tenho menos, graças ao trabalho que fiz este ano.

Todas aquelas reportagens são inéditas?
Todas são inéditas. No capítulo das oligarquias, deve ter 10 a 12 laudas o capítulo todo, eu aproveito umas quatro de um artigo que saiu no Jornal Pequeno, em 2006.

Então quando você escreveu essas reportagens já estava pensando em livro.
Sempre! Foram todas feitas para o livro. À exceção dessa introdução das oligarquias. Neste livro acabo juntando a fome com a vontade de comer. Ao mesmo tempo eu tenho admiração e respeito por Maria Aragão, mas é uma forma também de contar um pouco a história recente do Maranhão, a história recente do Brasil, falar de assuntos que eu adoro discutir e que eu acho que são importantes para essa geração saber, minimamente. Eu não sou historiador, sou jornalista, mas acho que um compromisso que o jornalista tem é de deixar registros para a história. Eu estou falando de uma história muito recente, uma coisa que não é história de historiador, é história de jornalista, que é de 40, 50 anos pra cá. As fontes estavam todas vivas ainda, são 51 entrevistas.

Mais que médica, mais que militante partidária, comunista, Maria Aragão foi uma educadora. Uma educadora que educava pelo exemplo.
Essa coisa da educadora eu peguei no processo do livro, eu construí o último capítulo pensando no legado. Essa reportagem não estava prevista, acabou servindo como uma conclusão, esse legado da educação popular, como a esquerda chama, de formação, de educar pelo exemplo. Na minha avaliação está tudo relacionado. Maria Aragão teve uma vida ligada aos pobres e miseráveis, as periferias urbanas e também aos camponeses. Quando foi dirigente da CUT, no Maranhão, a hegemonia era de trabalhadores rurais. Antes do golpe de 1964, principalmente na década de 1950, ela também atuou junto à organização de lavradores. No plano moral, Maria Aragão foi vítima da violência de farisaicos e fascistas, que lhe chamavam pejorativamente de puta, pelo fato dela ter tido uma filha sem estar casada e por ter vivido com um homem sem passar pela igreja. E Maria foi pra cima dos hipócritas. Enfrentou. Ela não abaixou a cabeça diante das violências que sofreu.

No entanto, como você afirma no livro, ela não era feminista.
Como me disse a professora Mary Ferreira, em entrevista para este livro, a vida de Maria Aragão representou, na prática, aquilo que as feministas defendem. E ela se aliou às feministas em várias ocasiões. Maria, a comunista, foi uma mulher livre, que não se submeteu a opressores. Agora em dezembro, num evento ocorrido em São Luís, promovido pelo Fórum Maranhense de Mulheres e que denunciou e debateu a violência contra a mulher, foi colocada uma polarização entre transgressoras e recatadas. Nesse debate, a vida de Maria Aragão, a subversiva maranhense, tem um grande valor pedagógico. Maria foi, de várias maneiras, transgressora. Subversão e transgressão normalmente caminham juntas.

Maristela no prefácio defende que teu livro seja adotado em escolas. Você tem essa pretensão, esse desejo?
Não tenho nem pretensão nem canais [risos]. Quem sabe depois de morto [risos]. Uma coisa que eu quero fazer é debater esse tema, esse tempo, a partir de uma ação subversiva. Discutir hoje o que é subversivo à luz de Maria.

Deixa eu tentar fazer um exercício de presentologia, já que, como Maria já faleceu, não dá para fazer de futurologia: pelo teu mergulho na vida e no legado de Maria Aragão para a feitura do livro, como você acha que seria seu comportamento em relação ao momento político que o Brasil atravessa?
É até um atrevimento. Certamente ela estaria contra o governo Temer, isto é uma obviedade. Seria contra os tucanos, isso é outra obviedade. Acho que ela teria críticas ao PT. Dizer mais do que isso eu não me atrevo. Não seria correto da minha parte.

Tua ideia de lançar o livro com o show de mesmo nome, Uma subversiva no fio da história, retoma uma tradição importante. Lembro O Pasquim, que era uma experiência de esquerda no jornalismo brasileiro e esta, com certeza, influencia o Vias de Fato, em uma determinada época encartava discos. O livro vai trazer encartado um show de Tássia Campos, cantando um repertório de revolucionários ou que Maria Aragão ouvia em casa. Tássia é uma das cantoras dessa “nova” geração da música do Maranhão muito competente, muito interessante, com uma postura ideológica alinhada a Maria Aragão. Como foi costurar essa noite de autógrafos?
A ideia do show começa com o trabalho da Carabina Filmes. Começa no vídeo que eles fizeram para anunciar o lançamento de Uma subversiva no fio da história, a partir da visita que Tássia fez ao memorial Maria Aragão. O trabalho de [os cineastas] Leide [Ana Caldas] e Inácio [Araújo], somado à interpretação da Tássia, foi o primeiro ato, antes mesmo de chegar ao palco do teatro. No Brasil, livro impresso é coisa de elite. É um objeto caro e consumido por poucos. Ao misturar o livro com diferentes linguagens artísticas temos a possibilidade de popularizar o trabalho, ampliando a mensagem e sua função social. E é uma relação de mão dupla, pois livro também pode provocar. Em 2006, quando lancei O caso do Convento das Mercês, esse livro inspirou o Vale Protestar, movimento que juntou teatro e música e que projetou a personagem “Rosengana”, a partir de uma reunião de vários artistas, entre eles Cesar Teixeira, Kátia Dias, Moizés Nobre, Rejane Galeno, Nadnamara Rocha, Valberlúcio Pereira, Claudia Santos e Raimunda Lopez. Hoje, com Uma subversiva no fio da história, espero, junto com os artistas, fazer algo diferente de uma tradicional noite de autógrafos. O protagonismo deles amplia a proposta do livro, aumenta a provocação, aumenta o diálogo com a sociedade. Repito: livro, no Brasil, é uma coisa pra elite, uma coisa cara, pra uma elite intelectual, econômica. Não fiz livro pra intelectual, apenas. Eu respeito os intelectuais, mas não quero meu livro limitado a eles. Quero um livro que possa, minimamente, interagir com a sociedade, provocar a sociedade de alguma forma, conseguir cumprir uma função social mais ampla. Aí eu acho que música, cinema, teatro, tudo isso facilita a possibilidade de ampliar a função social do livro.

O Vias de Fato já produziu outros shows, por exemplo, o Tarja Preta, ano passado.
Pois é, no ano passado, para comemorar os seis anos do Vias de Fato, o jornal organizou o Baile Tarja Preta, num processo que juntou pessoas da música, do teatro e do cinema. Naquele baile, por exemplo, o ator Lauande Aires fez uma leitura dramática junto com Rejane, tratando de temas comuns ao Vias. Hoje, o show inspirado no livro sobre Maria Aragão é consequência dessa mistura, que passa pelo Tarja Preta e já vem desde 2006. Agora, no dia do lançamento desse livro, teremos a apresentação de duas esquetes teatrais, antes da apresentação de Tássia. Uma com estudantes da Unidade Integrada Maria José Aragão, da Cidade Operária, e outra com a atriz Maria Ethel, com um trecho do espetáculo A besta-fera. E no show de Tássia haverá uma participação do cantor Claudio Lima, que vai interpretar composições de Marcos Magah.

Voltando um pouquinho, como Tássia entrou na história?
Por uma questão de identidade. Os shows que ela montou a partir de Nara Leão, Sergio Sampaio, Belchior, algumas músicas que ela canta no show que faz junto com Camila Boueri e Milla Camões expressam essa identidade. Além do talento evidente, Tássia me remete a sensibilidade, inquietação, insubordinação. Uma subversiva no fio da história tem relação com isso. Eu e ela também nos tornamos amigos, mas a escolha para este projeto vai além disso.

A partir dessa constatação, de que forma você pensa em tornar o livro mais acessível, do ponto de vista do preço, da distribuição.
Em termos de circulação a maioria dos livros hoje vai ter dificuldade. Principalmente em tempos de microcomputador travestido de celular.

Você pensa em disponibilizar o livro para download?
Num segundo momento, sim. Nesta primeira etapa, preciso pagar o projeto, então preciso circular com o livro em 2017, dentro e fora do Maranhão. Em São Luís vou botar em bancas, livrarias, em alguns pontos da cidade, e circular, debater a questão da ação subversiva nesse tempo de hoje. Acho que publicar um livro hoje já é, por si só, um ato subversivo.

Catirina e Pai Francisco em quadrinhos – para além do auto do bumba meu boi

Catirina e Pai Francisco. Capa. Reprodução
Catirina e Pai Francisco. Capa. Reprodução

 

O quadrinhista Beto Nicácio volta ao universo da cultura popular do Maranhão em Catirina e Pai Francisco [Dupla Criação, 2016, 40 p.], nova hq que lança hoje, às 19h, na Galeria do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande).

Em preto e branco, optando pela limpeza típica do cartum (também uma linguagem pela qual o autor se aventura), a revista vai além do auto do bumba meu boi, remontando ao ciclo do gado, quando Pai Francisco ainda era criança e seu pai deu a vida para salvar o dono da fazenda, seu patrão.

O que Beto Nicácio faz é uma livre adaptação da lenda, talvez a enriquecendo. Não concentra-se apenas no enredo em que Catirina, grávida, deseja a língua do mimoso, o boi predileto do patrão. Embora não fuja dele.

Caminho natural da publicação seria adentrar o ambiente de escolas públicas e privadas, contribuindo para a difusão da cultura popular do Maranhão, em linguagem acessível para todas as idades. A revista tem a preocupação didática de, ao final, explicar detalhes, propor atividades e o consequente aprofundamento dos leitores em temas abordados na história em quadrinhos.

Autor, entre outros, de A lenda da carruagem encantada de Ana Jansen, sobre outra conhecida lenda destas plagas, o autor já tem outros projetos mixando as tradições do Maranhão e a nona arte. Mas cada coisa a seu tempo e agora é tempo de São João.

A noite de autógrafos será regada a mingau de milho e na ocasião, uma arte original da hq será sorteada entre os presentes. A revista custa R$ 20,00.

Obituário: Papete

Papete em clique de Marcio Vasconcelos
Papete em clique de Marcio Vasconcelos

A despeito das controvérsias, da aura mítica e das diversas lendas em torno do LP Bandeira de aço [1978], desde sua feitura, iniciativa do desbravador Marcus Pereira, até os dias atuais, e já lá se vão quase 40 anos, Papete (8/11/1947-26/5/2016), falecido ontem, após meses de batalha contra um câncer de próstata, acabou por tornar-se uma das vozes mais importantes da cultura popular do Maranhão.

Bandeira de aço foi o disco mais lembrado da música popular produzida no Maranhão desde 1972 em enquete realizada pelo jornal Vias de Fato.

Papete contribuiu para tornar nacionalmente conhecidos ritmos como o bumba meu boi, o tambor de crioula e o tambor de mina, entre outros. Será para sempre lembrado como um grande intérprete de clássicos do cancioneiro do Maranhão, particularmente o do período junino.

Como percussionista acompanhou artistas de outras searas, entre os quais Almir Sater, Chico Buarque, Diana Pequeno, Dominguinhos, Erasmo Dibell, Jane Duboc, João Bá, Josias Sobrinho, Marília Gabriela (sim, a apresentadora!), Osvaldinho da Cuíca, Passoca, Paulinho da Viola, Paulinho Nogueira, Renato Teixeira, Rita Lee, Toquinho e Veronica Ferriani.

Não à toa muita gente costuma se referir a clássicos de nomes como Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota, Sérgio Habibe – os quatro gravados por ele em Bandeira de aço –, Chico Maranhão, Donato, Humberto de Maracanã, Manequinho e Ronald Pinheiro, entre muitos outros, como “aquela música de Papete”. O que pouca gente sabe é que Papete compunha muito raramente, embora tenha sido parceiro de nomes como Celso Borges e Chico Saldanha.

Há um ano lançou o livro Os senhores cantadores, amos e poetas do Bumba meu boi do Maranhão, com CDs e dvd revelando o pesquisador que ele já era antes mesmo da obra, que conta com músicas, depoimentos e fotografias – realizadas por Marcio Vasconcelos.

Seu último disco de carreira foi o duplo Sr. José de Ribamar e outras praias [2013], cujo título aludia ao nome de batismo do bacabalense, José de Ribamar Viana, e à sua versatilidade, registrando um leque amplo de compositores – mas voltando às origens: o segundo disco era uma regravação de Bandeira de aço, com a ordem das faixas alteradas.

Coleção de delicadezas

Bons ventos. Capa. Reprodução
Bons ventos. Capa. Reprodução

 

Quase 20 anos após sua estreia no mercado fonográfico, Bons ventos [Na Music, 2015] é nome apropriado para o segundo disco da cantora Anna Claudia, paraense radicada no Maranhão há mais que isso.

Também radicado há muito por aqui, o percussionista Luiz Claudio, irmão de Anna, além de tocar no disco, estreia como produtor, dividindo os arranjos com Israel Dantas (violões de seis e sete cordas), Márcio Glam (violão aço e guitarras em Vai), Norlam Lima (guitarra em Presente) e Nosly (violão em Guetos da Ilha, Vou dançar meu afoxé, parcerias com Gerude, Teu lugar e Noves fora).

Comparecem ainda a Bons ventos Carol Cunha (ukulele em Canção em alfa), Mauro Sérgio (contrabaixo), Rui Mário (teclados e sanfona), Mauro Travincas (contrabaixo em Teu lugar), Jamilson Denys (guitarra em Presente), Djalma Chaves (violão em Paixão e razão), Wendell Cosme (bandolim em Guetos da Ilha) e Sávio Araújo (sopros em Vou dançar meu afoxé).

Bons ventos é uma coleção de delicadezas e uma ponte entre o Pará natal e o Maranhão adotivo de Anna Claudia. O disco é “um belo tributo à rica tradição da canção brasileira”, atesta Zeca Baleiro em texto no encarte do disco, que abre com o reggae Canção em alfa (Ronald Pinheiro), hit local oitentista.

Outra regravação é Teu lugar (Nosly), mas embora revisite o passado, Bons ventos é um disco do Presente (Zeca Baleiro e José Reinaldo), como diz a letra de uma das faixas, talvez a explicar a demora entre um disco e outro: “você me trouxe mais/ do que eu esperava/ você trouxe a palavra/ que faltava em minha boca”, com sutil citação de Libertango (Astor Piazzolla). Outra presença sorrateira é a de Flores em você, sucesso dos roqueiros paulistas do Ira! que encerra Vai (Allan Carvalho). A releitura de Noves fora (Zeca Baleiro e Nosly) ganha ares de mina. O paraense Allan Carvalho comparece ao repertório com mais duas composições: Sete cordas (parceria com Paulinho Moura), tributo ao instrumento imortalizado por Dino, Raphael Rabello e Yamandu Costa, e o bucólico Choro fulô (parceria com Ronaldo Silva), ornado apenas por violão e percussão.

Os afoxés que encerram o disco, Guetos da Ilha e Vou dançar meu afoxé, representam a negritude ludovicense, maranhense, paraense, brasileira, homenageando deuses, casas e blocos afro.

“Quando o amor campeia/ não há redenção/ é a voz da sereia/ teia e arpão/ que pega na veia/ vai ao coração/ que é cego e tateia/ outra ilusão”, diz a letra de Paixão e razão (Djalma Chaves e Lupe Albano), que também ajuda a explicar a urdidura de Bons ventos. Evidentemente há alguma razão na seleção de repertório, assinada pelos irmãos Anna e Luiz com Suzana Fernandes (esposa deste); mas reside ali muito de paixão: primeiro da cantora (e dos que a cercam neste trabalho), depois de quem a ouve.

Roberto Farias e Murilo Santos serão homenageados no 8º. Maranhão na Tela

Festival acontece de 21 a 26 de março no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho e Teatro João do Vale, com programação gratuita

A oitava edição do Maranhão na Tela acontece entre os próximos 21 a 26 de março, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho e Teatro João do Vale, na Praia Grande. Já consolidado nos calendários cinematográfico e cultural da capital maranhense, o festival homenageia os diretores Murilo Santos e Roberto Farias, este às vésperas dos 83 anos que ele completa dia 27 de março.

Cena de Roberto Carlos em ritmo de aventura. Frame. Reprodução
Cena de Roberto Carlos em ritmo de aventura. Frame. Reprodução

Meia dúzia de filmes de Farias serão exibidos em cópias digitalizadas durante o festival, incluindo a “trilogia do Rei”: Roberto Carlos em ritmo de aventura [1968], Roberto Carlos e o diamante cor de rosa [1970] e Roberto Carlos a 300 quilômetros por hora [1971]. O clássico Pra frente, Brasil [1982] será exibido na sessão de abertura do festival. Os outros títulos de Farias que serão exibidos na mostra que o homenageia são Assalto ao trem pagador [1962] e o documentário O fabuloso Fittipaldi [1974].

A idealizadora e produtora do Maranhão na Tela em cerimônia de edição anterior do festival. Foto: divulgação
A idealizadora e produtora do Maranhão na Tela em cerimônia de edição anterior do festival. Foto: divulgação

Novidade nesta edição, o que faz o festival se aproximar ainda mais do nome Maranhão na Tela, é a homenagem a cineastas maranhenses, começando, este ano, por Murilo Santos. “O nome do Murilo foi, desde sempre, o único que cogitamos para ser o primeiro homenageado maranhense. Ano que vem teremos uma lista, chegaremos a um consenso, mas esse ano é só dele”, declarou a idealizadora e produtora do Maranhão na Tela Mavi Simão, revelando ter sido consenso o nome do homenageado. “O Murilo tem uma importância histórica pro cinema maranhense que não tem similar. A forma como ele atuou e atua é única!”, continuou.

Desenho de Joaquim Santos para Quem matou Elias Zi? Frame. Reprodução
Desenho de Joaquim Santos para Quem matou Elias Zi? Frame. Reprodução

Murilo também terá seis títulos exibidos no oitavo Maranhão na Tela: Um boêmio no céu [1974], Tambor de crioula [1979], Quem matou Elias Zi? [1982], com trilha sonora e desenhos do irmão Joaquim Santos, Na terra de Caboré [1986], Marisa vai ao cinema [1995] e Fronteira de imagens [2009].

Mavi Simão avalia a evolução do festival ao longo das edições e o investimento constante em formação, uma característica do evento anual. “O Maranhão na Tela sempre teve um foco, um objetivo claro, que é o de contribuir para fomentar a produção local, e esse direcionamento acredito que dê uma solidez pro festival. Outro compromisso que me move é o de sempre tentar superar a edição anterior e assim vamos caminhando. O compromisso do festival sempre foi com o fomento e, dentro do meu parco raio de alcance, a melhor forma de fazer isso é investindo em formação. O conhecimento inquieta as pessoas”, afirmou.

Sobre o atual momento vivido pelo cinema no Maranhão, particularmente no que tange a notícias recentes como os anúncios do governo estadual de uma escola de cinema e um edital para o audiovisual maranhense, ela comemora: “Estamos vivendo um momento ímpar, um antes e depois da produção audiovisual maranhense. Agora sim, vislumbro mais concretamente a inserção da produção local na cena nacional. E a escola vai ter um impacto enorme nesse processo! Finalmente temos um governo que reconhece a importância estratégica do audiovisual”.

Cartaz de Quase memória. Reprodução
Cartaz de Quase memória. Reprodução

Além das homenagens, o Maranhão na Tela terá uma vasta programação com aproximadamente 350 títulos, entre pré-estreias, estreias, retrospectivas e animações. Na primeira categoria estão Quase memória, de Ruy Guerra, baseado no livro de Carlos Heitor Cony, Um filme de cinema, de Walter Carvalho, Para minha amada morta, de Aly Muritiba, e Prova de coragem, de Roberto Gervitz, com atuação de Áurea Maranhão.

A mostra Maranhão de Cinema, uma das que compõem a programação do Maranhão na Tela, tem 36 filmes, divididos em duas categorias: uma competitiva, com títulos inéditos, e uma retrospectiva, com obras que marcaram a produção audiovisual no estado nos últimos 40 anos – destaque para a filmografia de Murilo Santos. A curadoria é assinada por Mavi Simão com o diretor Josh Baconi e Raffaele Petrini, diretor do Cine Praia Grande, que abrigará a maior parte da programação desta oitava edição do festival, realização da Mil Ciclos Filmes, com patrocínio da Oi e da Rede de Óticas Diniz, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, e apoio cultural da Oi Futuro.

Sobre destaques da programação, Mavi preferiu não se comprometer, tamanho o envolvimento e o cuidado com cada detalhe da produção. “Cada filme, cada curso, cada convidado, cada espectador faz o festival ser como é. Tô aqui pensando e não consigo destacar algo ou alguém em especial. Tenho uma relação passional com o Maranhão na Tela, tudo o que acontece a cada edição é especial pra mim”, finalizou.

Olhar poético sobre a degradação

Algumas imagens da exposição Tombamento, de Vicente Jr.

 

Em Tombamento o fotógrafo Vicente Jr. volta ao cenário-objeto de sua primeira exposição: Desterro: a cara da comunidade, que integrou a programação da 8ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS), em 2014, no Convento das Mercês.

Se na primeira, gente e pedra dialogavam em imagens que já evidenciavam o ambiente decrépito, nesta o olhar se volta às construções, “aqui tudo parece construção e já é ruína”: Tombamento trocadilha o tombo do patrimônio arquitetônico com o tombo iminente dos mal conservados casarões da Praia Grande, Desterro e Portinho, os três bairros que compõem o Centro Histórico ludovicense, que podem desabar a qualquer momento.

A exposição fotográfica individual de Vicente Jr. é também um diálogo de técnicas, entre o digital e o analógico, em que antagoniza a instantaneidade destes tempos virtuais, ele mesmo usuário contumaz de redes sociais como o Instagram – cuja conta (@vicentefjunior) dá pistas do tipo de imagem que veremos na Galeria de Arte do Sesc Deodoro, onde a vernissage de Tombamento acontece nesta quinta-feira (18), às 18h30. A exposição pode ser visitada até 29 de março, em dias úteis, das 9 às 17h, com entrada franca.

Vicente Jr. conversou com o Homem de vícios antigos sobre a exposição.

O fotógrafo Vicente Jr. em ação. Foto: divulgação
O fotógrafo Vicente Jr. em ação. Foto: divulgação

Sua primeira exposição teve o Desterro como cenário-objeto. Agora você volta ao Centro Histórico da ilha. O que te instiga nestes ambientes degradados?
Enquanto produzia as imagens para a minha primeira exposição foi inevitável pensar a respeito do lamentável estado de abandono dessa área dita tombada. Foi quando surgiu a ideia de utilizar as possibilidades poéticas da ambiguidade do verbo tombar. Vi nessa ambiguidade do tombo uma possibilidade poética, uma caminho para desenvolver esse trabalho. Meu olhar é atraído por essas camadas sobrepostas de tempo, que cria uma textura nas imagens. Essa decadência possui um charme e é impregnada de história. Gosto também de partir de alguns clichês inerentes ao Centro Histórico, como por exemplo, o de cidade turística, cidade dos azulejos e dos casarões, e desconstruí-los. Às vezes fico extasiado diante de algumas imagens que mais parecem paisagens de algum filme cyberpunk.

Quantas fotos compõem a exposição?
A exposição consiste em oito fotografias analógicas e 11 digitais, totalizando 19 fotografias. Também deixei exposta a câmera analógica de plástico simples e precária com que fiz essas imagens.

Por que a opção em fotografar em analógico?
A princípio o projeto era para ser exclusivamente analógico, mas achei melhor utilizar as duas tecnologias. Proponho um diálogo entre elas. É evidente a hegemonia do digital em nossos dias hipermodernos e sua velocidade tanto de produção, quanto de divulgação das imagens. A opção pela tecnologia analógica foi de ir contra a corrente. Resgatar esse outro tempo, mais lento e os processos químicos da revelação que têm mais a ver com a natureza das imagens que mostro. Assim uma tecnologia não exclui a outra, mesmo com toda a dificuldade de trabalhar com o analógico. Eu mesmo não possuía mais uma câmera dessas. Perguntei aos amigos se alguém ainda tinha e um deles me presenteou com uma. O próprio filme quase não se consegue encontrar aqui em São Luís e existe apenas um laboratório que ainda resiste e faz a revelação dos negativos. É realmente remar contra a maré.

Sua relação com a fotografia é profissional, hobby ou ambas as coisas?
Cara, começou como um hobby e não deixará nunca de ser. Mas as coisas estão acontecendo e adquirindo outros contornos. E tenho me dedicado somente à fotografia ultimamente.

Em Desterro: a cara da comunidade, sua exposição inaugural, o elemento humano era presença constante no conjunto de fotografias, convivendo com o elemento pedra. Nesta, Tombamento, os humanos desaparecem. Você acredita fazer um jogo de futurologia, denúncia social ou ambas as coisas através de sua arte?
Então, na minha exposição anterior eu quis mostrar que apesar de todo descaso e por que não dizer, “desterro” daquele bairro que apesar dos estigmas, como por exemplo, a violência, a prostituição e o tráfico de drogas, possui um sentimento de comunidade muito forte e foi inevitável o enfoque nas pessoas inseridas ali. Em Tombamento, as pessoas somem! Surgem os animais de rua vagando sem destino, carros e motos que não deveriam circular ou estacionar por ali. Como falei antes, algumas imagens lembram filmes cyberpunk, desabitadas, devastadas. Assim, futurologia. Não tem como fugir da denúncia social! Acaba fazendo as pessoas pensarem um pouco acerca do tema e reflitam. Será que esse patrimônio está realmente tombado? Será que as gerações futuras terão acesso a ele?! Acredito no poder das imagens de instigar o pensamento, a reflexão. Esse poder não é uma exclusividade da palavra escrita ou oral.

Voduns de luz

Quando Cesar Teixeira lançou, em 2004, seu primeiro (e até aqui único) disco, Shopping Brazil, anotou em O lixo é nosso!, o texto de apresentação: “é pouco espaço pra tanto vodum”. Referia-se a mestres que reverencia, de um modo ou de outro, ali presentes e homenageados. O autor das fotos de capa, contracapa e encarte era Márcio Vasconcelos.

Pai Euclides em imagem do livro Zeladores de voduns do Benin ao Maranhão. Foto: Márcio Vasconcelos

Quando Pai Euclides faleceu busquei uma foto para ilustrar seu obituário. E não poderia ter encontrado uma melhor. O eterno líder espiritual da Casa Fanti-Ashanti sentado diante de um altar, em pose que deixa transparecer sabedoria, experiência, seriedade. “O hábito não faz o monge”, diz o dito popular, mas as vestes aproximam-no de um deus. Novamente o fotógrafo era Márcio Vasconcelos.

Agaxosa - Gloku Kosu Naeton (Ouidah - Benin), a fotografia usada na capa do livro. Foto: Márcio Vasconcelos
Agaxosa – Gloku Kosu Naeton (Ouidah – Benin), a fotografia usada na capa do livro. Foto: Márcio Vasconcelos

O retrato de pai Euclides e tantos outros Zeladores de voduns do Benin ao Maranhão [Pitomba!, 2016, 124 p.] integra o conjunto de fotografias de Vasconcelos reunido no livro, em que percorre casas de culto afro no Maranhão e no Benin – veja outras imagens no site do fotógrafo.

Dando valiosa contribuição para a preservação da memória dos voduns, o próprio Márcio Vasconcelos acaba se configurando também um zelador, dado o capricho com que exerce seu ofício e com que reúne o belo e o sagrado, para além do exótico a que são costumeiramente reduzidas estas manifestações que aliam religiosidade e cultura popular, campos em que tem vasta experiência e diversos prêmios nacionais – o próprio livro Zeladores de voduns foi contemplado no 1º. Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-Brasileiras da Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura (MinC), o que viabilizou sua publicação.

Mãe Elzita (São Luís) exibe seu retrato em Zeladores de voduns. Foto: Márcio Vasconcelos
Mãe Elzita (São Luís) exibe seu retrato em Zeladores de voduns. Foto: Márcio Vasconcelos

Os textos que precedem as fotografias, do editor Bruno Azevêdo e dos antropólogos Sergio Ferreti e Hippolyte Brice Sogbossi, facilitam a compreensão, sobretudo para não iniciados, das configurações que aproximam Benin e Maranhão e tornaram nosso estado um dos principais centros das religiões de matriz africana no Brasil.

“O catolicismo está muito presente nesta religião uma vez que os escravos eram obrigados a tornar-se católicos e que o catolicismo era a religião oficial do país até fins do século XIX e oficiosa em grande parte do século XX”, anota Ferreti em A terra dos voduns, um dos três textos que abrem o volume. Com Sogbossi, beninense radicado no Brasil, Vasconcelos percorreu, ao longo de quase um mês, em 2009, diversas cidades do Benin. Além de São Luís, outras cidades maranhenses também foram visitadas pelo fotógrafo, fechando o conjunto. Nas fotografias, sobretudo as do lado de cá, é possível perceber este sincretismo, com imagens de santos da Igreja Católica frequentando os terreiros, um retrato do Papa João Paulo II pendurado na parede, “folhinhas” com imagens de santos, caixas do Divino, parelhas do tambor de crioula, a decoração típica dos festejos de São João e o bumba meu boi.

Mãe Mundica Estrela (São Luís) exibe seu retrato em Zeladores de voduns. Foto: Márcio Vasconcelos
Mãe Mundica Estrela (São Luís) exibe seu retrato em Zeladores de voduns. Foto: Márcio Vasconcelos

Além de registrar diversas personalidades importantes para a perpetuação da religiosidade de matriz africana nas geografias em que se concentra, os cliques certeiros de Márcio Vasconcelos em Zeladores de voduns são uma homenagem a Pai Euclides e Mãe Deni Prata Jardim, última vodunsi da Casa das Minas, falecida há um ano. É também uma ótima oportunidade a interessados em geral de conhecer um pouco mais desta história e suas personalidades.

Sempre envolvido em vários projetos simultaneamente, o fotógrafo lançará este ano dois novos livros: Na trilha do cangaço, em que refaz os caminhos de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, no sertão nordestino, com curadoria e concepção da fotógrafa inglesa radicada no Brasil Maureen Bisiliat, será editado pela Vento Leste; pela mesma editora ele publicará, com curadoria de Diógenes MouraVisões de um Poema Sujo, conjunto de fotografias inspirado no famoso livro-poema do maranhense Ferreira Gullar.

Bandeira de aço: documentário sobre o disco é disponibilizado no youtube

No dia 28 de maio de 2013 vários artistas subiram ao palco do Teatro Arthur Azevedo para celebrar os 35 anos de Bandeira de aço, antológico disco de Papete, lançado pela gravadora Discos Marcus Pereira, em 1978. A iniciativa era do Festival BR 135, capitaneado pelo casal Criolina, leia-se, Alê Muniz e Luciana Simões.

No disco, vencedor de enquete do jornal Vias de Fato, Papete cantou nove músicas, os primeiros registros fonográficos das vastas, importantes e belas obras de Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe.

Por ocasião do espetáculo, um documentário foi exibido, contando a(s) história(s) do disco, destacando sua importância, e botando o dedo em feridas. O filme tem depoimentos dos quatro compositores e do intérprete, além de nomes como Chico Saldanha (compositor que fez chegar a fita com as canções às mãos e ouvidos de Marcus Pereira) e Zeca Baleiro, entre outros.

Com roteiro de Celso Borges e Andréa Oliveira, o documentário (finalmente) foi disponibilizado pela produção, na íntegra, no youtube. Assista:

Siba e o exemplo de resistência dos maracatus de Pernambuco

Siba comandou baile de encerramento do BR135. Foto: ZR (12/12/2015)
Siba comandou baile de encerramento do BR135. Foto: ZR (12/12/2015)

 

Escalado para fechar a programação do BR135, o pernambucano Siba brindou o público ludovicense quase que exclusivamente com o repertório de De baile solto, seu novo e ótimo disco, passeando aqui e acolá, por outros títulos de sua carreira (todos disponíveis para download legal e gratuito em seu site).

O ex-Mestre Ambrósio abriu o show com a faixa-título do novo trabalho. Aliás, Mestre Nico (percussão) anunciou o tema instrumental, a demonstrar o peso da formação de sua banda. Com atitude roqueira ao empunhar sua guitarra, Siba canta acompanhado de bateria, percussão e tuba, com repertório calcado em gêneros da cultura popular de Pernambuco: o maracatu de baque solto com que trocadilha o nome do disco novo, a ciranda, o frevo e a marcha, entre outros. Seguiu-se Trincheira da Fuloresta, lembrando a Fuloresta do Samba, outro grupo integrado por Siba, formado por músicos populares de Nazaré da Mata, pequeno município da Zona da Mata pernambucana.

Depois veio Marcha macia, uma resposta de Siba à tentativa da burocracia estatal, em Pernambuco, de acabar com a tradição de os maracatus amanhecerem tocando: “Vossa excelência, nossas felicitações/ É muito avanço, viva as instituições!/ Melhor ainda com retorno de milhões/ Meu Deus do céu, quem é que não queria?/ Só um detalhe quase insignificante/ Embora o plano seja muito edificante/ Tem sempre a chance de alguma estrela irritante/ Amanhecer irradiando o dia”, diz a letra. O tema voltaria à baila, como veremos adiante.

Duetando com Mestre Nico, Siba mandou a real sobre as desigualdades sociais que ainda assolam o país em Quem e ninguém: “Quem tem dinheiro controla/ Radar, satélite e antena/ Palco, palanque e arena/ Onde quem não tem rebola/ Quem tem fornece a bitola/ Onde quem não tem se mede”, um direto na cara de qualquer hipocrisia.

Música dos tempos de Mestre Ambrósio, Gavião ganhou novo arranjo em De baile solto. Três desenhos e Mel tamarindo precederam a pergunta “topam entrar num carnaval?”, com que Siba anunciou A jarra e a aranha, com seu refrão trava-língua, e A bagaceira (de Avante). O público pulava e circulava pela Nauro Machado num grande trenzinho. A multidão presente à praça, tornada um grande baile (solto) de carnaval a céu aberto, fez valer os versos: “pode acabar-se o mundo/ vou brincar meu carnaval”.

A velha da capa preta tornou a passear pela Fuloresta, antes de Siba mandar Meu balão vai voar, faixa que encerra De baile solto que, por pouco, não encerra também o show. Depois dela seguiu-se Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar, do disco homônimo. Siba já sabia que não haveria bis e anunciou isso para a plateia. Não por falta de vontade sua: uma determinação ridícula – desconhecida por este blogue – impede que shows musicais passem de 1h da manhã na Praia Grande (ou em São Luís?). A produção já estava com as barbas de molho depois que a polícia tentou não deixar Curumin terminar seu show na noite anterior.

Faltava pouco para o limite e Siba tornou a entregar o comando do palco a Mestre Nico, que conduziu uma aula de balé popular para a multidão. Pouco depois, citou o exemplo de Recife e as tentativas de proibição de os maracatus amanhecerem tocando, como é tradição. Faltando sete minutos para 1h, emendou um repente que duraria até o fim do show, encerrando-o em grande estilo: “pessoal, muito obrigado/ o show já vai terminar/ outro dia eu volto aqui/ sem ter hora pra acabar”, improvisou. E entre muitos outros versos não guardados pela memória deste cronista, anunciou: “vou ficar em São Luís/ visitar Maracanã/ meu prato de juçara/ vai ser café da manhã”.

Chequei o relógio, que marcava 1h01. É preciso respeitar as regras, mas nem tanto. O exemplo dos maracatus de Recife e os versos de Marcha macia tornaram a me martelar o juízo: “não custa nada se ajustar às condições/ estes senhores devem ter suas razões/ além do mais eles comandam multidões/ quem para o passo de uma maioria?”

A incansável máquina humana de fazer música

Foto: ZR (11 12 2015)
Curumin e Os Aipins. Foto: ZR (11/12/2015)

 

Que Curumin é um músico que sabe o que fazer no estúdio já estamos cansados de saber e seus três discos são a prova disso. Em Achados e perdidos (2003), JapanPopShow (2008) e Arrocha (2012), ele compõe, canta, toca, sampleia e reinventa a música pop(ular) produzida no Brasil.

Que Curumin sabe o que fazer no palco, o show dele ontem (11), na programação do Festival BR135, sua primeira vez em São Luís, não deixou a menor dúvida. Pilotando bateria e samples, trajando calça vermelha, chapéu e uma camisa quase nas cores do Sampaio Corrêa (o laranja predominava, em vez do vermelho), o artista estava escoltado pelos Aipins José Nigro (contrabaixo e samples) e Lucas Martins (guitarra e samples), “uma banda que tá há muito tempo tocando junta”, como revelou em entrevista ao Homem de vícios antigos.

Curumin canta, toca, programa, protesta, improvisa, não se dá descanso ao longo de toda a apresentação, em que emenda uma música na outra, como se fosse uma máquina de fazer música – embora não o faça mecanicamente e o prazer em tocar, e particularmente em tocar em São Luís, era perceptível. Não há vazios em sua música – ou nas poucas alheias que interpreta. É de um vigor impressionante.

Começou por Vestido de prata (Jorge Alfredo Guimarães), sucesso do novo-baiano Paulinho Boca de Cantor, regravada por ele no disco mais recente. Com quase uma década, Mal estar card atualiza o momento político cretino que o Brasil atravessa. Samba Japa traduzia o sentimento dos que lotaram a praça: na música, a menina sonhou e sambou ali, “no meio da rua na Avenida Central ela não podia parar”; os que estávamos na Praça Nauro Machado também não.

O refrão de Compacto foi cantado pela plateia, em resposta aos “Eu só quero ouvir” de Curumin. Seguiram-se Passarinho, de Russo Passapusso, Selvage e Afoxoque, com o trio esbanjando versatilidade, habilidade e alegria, esta última entrecortada pela caixa de música que abre Salto no vácuo com joelhada (que ele não cantou), preenchida por rimas improvisadas contra “a polícia que trata todo estudante como maconheiro” e a corrupção na política – não disse, mas certamente se referia à São Paulo e a guerra travada pelo governo Alckmin contra estudantes ocupando escolas para mantê-las abertas, contra projeto de “reorganização” do governador.

Mistério Stereo foi dedicada às pessoas que ainda amam, “são poucas”, disse. Vem, menina foi a única música de Achados e perdidos que compareceu ao repertório. Ao vivo, o bloco final ganhou em peso. Em Kyoto o protesto voltou à baila, contra as elites que querem decidir o destino dos menos favorecidos; em Caixa preta Zé Nigro enfiou de incidental trechos de Kátia Flávia, a godiva do Irajá, de Fausto Fawcett; Magrela fever tornou a praça uma grande festa em clube de carnaval, com direito a trenzinho e tudo.

Sabe-se lá se a polícia local tomou para si os protestos de Curumin, mas, diante das ameaças de tomarem o palco e acabar com o show na marra, após negociações com a produção, não coube bis. Policiais alegavam ter o show extrapolado o horário – o que se fosse o caso, mereceria uma honrosa exceção.

Incansável, Curumin fez quase duas horas de um show impecável, um apanhado do melhor de sua carreira. Certamente teria pique para mais, ao menos o bis, mas nem isso tirou o brilho da noite e, particularmente de sua apresentação, que ficará por muito tempo na memória dos que presenciaram esse momento grandioso e raro.