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Em um Maranhão doente Ricardo Murad acumula secretarias de Saúde e Segurança Pública

Pitomba! Fotomontagem: Celso Borges e Luiza De Carli
Pitomba! Fotomontagem: Celso Borges e Luiza De Carli

A imagem acima é poster central de uma edição passada da revista Pitomba, editada pelos irmãos Bruno Azevêdo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha. A fotomontagem é de CB e Luiza De Carli e une o dito popular ao exibicionismo barato do então secretário de Estado de Saúde Ricardo Murad expondo as netas aos altos índices de coliformes fecais das águas das praias de São Luís, querendo por força convencer a população de que a situação não era assim tão ruim.

Não era mesmo. Como reza Murphy, nada está tão ruim que não possa piorar. Sua lei, aliás, parece mesmo ter sido inventada no Maranhão. Não bastasse o cunhado da governadora fazer péssima gestão à frente da pasta da saúde e ser credor das falsas promessas da mulher do irmão (a entrega dos 72 hospitais prometidos na campanha de 2010 até hoje não se concluiu e vai ser requentada este ano), agora a filha de José Sarney resolveu nomear o mesmo Ricardo Murad para, pasmem os poucos mas fiéis leitores, a secretaria de Estado de Segurança Pública.

Ficou ruim? É pior: ele não renuncia à uma pasta para ser titular de outra. Toma ambas para si, isto é, terá em suas mãos dois orçamentos. Dois gigantescos orçamentos. Tudo isso em meio à crise na segurança pública (a Polícia Militar continua em greve) e no sistema penitenciário (ok, há uma pasta específica para a questão, a Secretaria de Estado de Justiça e Administração Penitenciária, com quem a Segurança Pública deve dialogar frequente e proximamente).

Este blogue repudia veementemente a nomeação de Ricardo Murad para o cargo de secretário de Estado de Segurança Pública, bem como o acúmulo, por ele, de duas pastas no governo Roseana Sarney por conta da reforma administrativa que a governadora apresenta, tendo em vista as eleições de outubro que vem.

O reencontro do poeta com a cidade

Não que poesia careça de explicação, não é disso que estou falando, mas a melhor definição de seu novo livro é o próprio Celso Borges quem dá. Os versos impressos na contracapa – e que o abrem – anunciam: “o futuro tem o coração antigo/ não é um livro saudosista/ mas um exercício de ternura/ a pele da flor na carne da cidade futura”.

O título do livro é mantra que martela a cabeça do poeta, que já havia usado a frase do italiano Carlo Levi como epígrafe em XXI (2000), seu primeiro livro-disco, que inaugura a trilogia A posição da poesia é oposição, continuada com Música (2006) e completada com Belle Epoque (2010).

O futuro tem o coração antigo [Pitomba, 2013] é um livro de poemas curtos, que marcam o reencontro de Celso Borges com sua São Luís natal, após 20 anos de São Paulo – ele voltou a morar aqui em 2009 e em rápida apresentação, divide sua existência em três blocos, as três cidades de São Luís em que viveu: a primeira entre 1959 e 1989, a segunda, a mudança para São Paulo, e a terceira o retorno, período em que foram concebidos os poemas deste novo livro.

Celso Borges não é saudosista, “antigamente era antigamente e era muito pior”, já disse num poema [A saudade tem seus dias contados, que fecha Belle Epoque]. Mas em tempos de instagram e toda tecnologia do mundo recorre a recursos, digamos, rudimentares, para compor seu novo livro: O futuro tem o coração antigo é datilografado e ilustrado por retratos da cidade realizados através da técnica pin hole. Sua poesia, sincera e marcante, prescinde de ferramentas e técnicas. Exige, sim, seu coração de homem antenado com a realidade, batendo no compasso do ofício pelo qual foi escolhido – poeta!

Em preto e branco juntam-se os poemas de Celso Borges às fotografias dos alunos de Eduardo Cordeiro no IFMA, sob o design de Luiza de Carli, que já havia materializado ideia do poeta na revista Pitomba, de que é um dos editores.

Seu reencontro com a cidade – sem mágoas, expectativas ou juízos de valor – não faz do livro obra para iniciados – ou faz? Qualquer um que tenha nascido, vivido, passado (ainda que rapidamente) ou ouvido falar de São Luís poderá apreciá-lo – como à cidade, sob algum ângulo. E mesmo quem não conheceu Faustina ou A vida é uma festa – evento semanal ainda na ativa –, o Cine Éden do passado ou o Box idem, poderá extrair beleza dali, o que O futuro tem o coração antigo transborda. Foi Fabiano Calixto ou Marcelo Montenegro – dois poetaços – quem disse uma vez, não faz tanto tempo numa rede social, que Celso Borges faz os livros mais bonitos do mundo?

Há várias maneiras de lermos este O futuro tem o coração antigo. Como um longo poema. Como vários poemas curtos. Como pílulas poéticas, cartões de visitas, guias para um passeio pelas cidades, que São Luís é várias, mesmo se nos contentarmos com a clássica divisão cidade nova versus cidade velha, as pontes por sobre o Rio Anil, este também um personagem, unindo a São Luís horizontal com a vertical. Ou ainda como um álbum de fotografias que retrata São Luís entre o belo e o feio, o casario tombado pelo patrimônio histórico e o prestes a tombar pela falta de conservação por parte de proprietários e poderes públicos irresponsáveis, os buracos que se tapam e reabrem a cada chuvisco, o esgoto a céu aberto, os cartões postais, a São Luís real, de verdade, pura poesia. Mesmo quando trisca em política, o que temos de mais nojento desde sempre, o autor soa poético, o que talvez lhe explique a alcunha de homem-poesia com que o tratam os amigos.

Mas a intenção aqui não é estabelecer um manual de instruções para o livro. Cada um o apreciará à sua maneira, difícil mesmo será quem não o faça – haverá?

Depois da volta de Celso Borges à Ilha, o Cine Roxy, quase em ruínas e então exibindo apenas filmes pornôs, tornou-se o Teatro da Cidade de São Luís – embora velhos como este blogueiro ainda prefiram chamá-lo pelo antigo nome –, hoje palco de importantes acontecimentos no cenário cultural da capital maranhense, o que inclui o lançamento de O futuro tem o coração antigo, amanhã (21), às 19h, com entrada franca. Na ocasião o livro será vendido por R$ 30,00 e haverá a exibição de um vídeo, o teaser abre-ilustra este post, realizado por Beto Matuck e Celso Borges.

O futuro tem o coração antigo e o passado tem lugar certo em nossos corações. Sem nostalgias baratas ou gratuitas, que pra frente é que se anda, “um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”, como disse outro poeta cujo futuro foi abreviado. Um pé no passado, outro no futuro, a poesia de Celso Borges é um espaço-lugar em que a cidade não para no tempo – para o bem e/ou para o mal, “a cidade só cresce”, sem saber onde vai dar, sem saber se é desta vez que a serpente vai acordar.