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Morre o último beat

O poeta Lawrence Ferlinghetti era um beat que não se considerava como tal, embora sua livraria/editora, a City Lights, tenha sido imprescindível para a difusão das ideias do movimento que reuniu nomes como Jack Kerouac, Gregory Corso, William Burroughs e, entre outros, Allen Ginsberg – Ferlinghetti chegou a ser preso em 1956 após sua editora publicar “Uivo”, do último, sendo posteriormente absolvido pela corte norte-americana, após provar que o poema não é obsceno.

Não sei se Ferlinghetti, homem de esquerda, chegou a tomar conhecimento de Jair Bolsonaro e do desastre que o genocida representa não apenas para o Brasil e penso nisso ao reler uma entrevista do poeta ao colega de ofício brasileiro Rodrigo Garcia Lopes. Na conversa, publicada no volume “Vozes e visões: panorama da arte e cultura norte-americanas hoje” (Iluminuras, 1996), ele não usa eufemismos ao se referir aos presidentes americanos Ronald Reagan (“um zero em matéria de ecologia”), Richard Nixon (“o que Nixon fez ultrapassou a mais paranóica das imaginações”) e George Bush (“de uma completa ignorância e estupidez. É um idiota”).

Na mesma entrevista, Ferlinghetti diz achar “que neste século a biografia, assim como a entrevista, acabou virando uma nova forma de arte”, e, referindo-se à própria biografia, escrita por Barry Silesky: “essa biografia é pura ficção. Biografia virou ficção”.

Pacifista convicto, Ferlinghetti serviu à marinha americana na segunda guerra mundial, tendo estado na invasão da Normandia e visitado Nagasaki uma semana após a explosão da bomba atômica. “Era como um par de quilômetros quadrados cobertos de nada, mas com cabelo humano e ossos saindo, algo horrível de se ver”, afirmou em depoimento ao Public Broadcasting Service (PBS), em 2002.

Em 2012, coerente com suas convicções, o poeta recusou um prêmio húngaro de mais de 64 mil dólares, o Prêmio Internacional de Poesia Janus Pannonius; à época, ele disse que “se o prêmio é em parte financiado pelo governo húngaro, e as políticas de direita deste regime tendem ao autoritarismo e o consequente cercear das liberdades de expressão e civis, penso ser impossível, para mim, aceitá-lo”, conforme matéria de Carolyn Kellogg, dos Los Angeles Times Books, traduzida por este repórter na ocasião.

Seu “Poesia como arte insurgente” (2007) – uma de suas obras mais recentes, no prelo pela Editora 34, em tradução de Fabiano Calixto – foi escrito e reescrito por mais de 60 anos e é uma coleção de aforismos ferinos, pílulas de dicas para poetas e escritores, mas não só. “Se você quer ser um poeta, crie obras capazes de responder aos desafios dos tempos apocalípticos, mesmo se isso soar apocalíptico”, recomenda (aqui em tradução de Léo Gonçalves), no livro.

Na mesma obra é também certeiro: “A guerra contra a imaginação não é a única guerra. Usando o desastre das torres gêmeas do onze de setembro como desculpa, os Estados Unidos iniciaram a terceira guerra mundial, que é a guerra contra o terceiro mundo” (idem). E finalmente: “Resista mais, obedeça menos” (ibidem).

Reuben da Cunha Rocha, que também traduziu alguns destes poemas curtíssimos, classificou o livro de Ferlinghetti como um “exercício desbragado de contradição, como toda definição do que seja poesia”.

Ainda no livro e na tradução de Reuben, algumas definições de poesia, por Ferlinghetti: “a ficção suprema”; “graffiti eterno no coração de cada um”; “gíria de anjos e diabos”; “a anarquia dos sentidos fazendo sentido”; “o perfume da resistência” e “o poeta um batedor de carteiras da realidade”; em suma, “poesia não vale nada e por isso não tem preço”.

No Brasil, Ferlinghetti foi traduzido também por nomes como Paulo Leminski, Nelson Ascher, Eduardo Bueno e o recém-oitentão Leonardo Fróes.

Sua crítica ao capitalismo, incompatível com a democracia, segundo ele, comparece a poemas como, por exemplo, “Autobiografia” (de “Um parque de diversões na cabeça”, originalmente publicado em 1958): “li as Seleções de Reader’s Digest/ de cabo a rabo/ e notei a perfeita identificação/ entre os Estados Unidos e a terra prometida/ já que em todas as moedas está impresso/ confiamos em Deus/ mas nas notas de dólar não há inscrição alguma/ porque são deuses elas próprias” (tradução de Eduardo Bueno, L&PM, 2007).

“Lawrence Ferlinghetti nasceu em Nova York a 24 de março de 1919. Filho de um imigrante italiano, foi criado por uma tia francesa. Passou seus primeiros cinco anos de vida em Strasburg, França; outro bilíngue na beat. Antes de servir no exército, foi jornalista esportivo e pescador; já publicava contos”, anota Claudio Willer em “San Francisco” (in: “Geração Beat”, L&PM, 2009).

Continua o “beat”ólogo: “com uma bolsa para veteranos de guerra, graduou-se e fez mestrado em Columbia e doutorou-se em literatura na Sorbonne, antes de estabelecer-se em San Francisco em 1953, atuou como ponte entre a literatura americana e a francesa, surrealismo inclusive. Tanto é que entre os primeiros títulos da City Lights estavam coletâneas de textos de Antonin Artaud e Jacques Prévert. É autor de “A coney island of the mind (Um parque de diversões na cabeça)”, outro livro de poesia que já vendeu milhões de exemplares; a reunião de poesias “Endless life (Vida sem fim)”; “The secret meaning of things (O significado secreto das coisas)”; a prosa poética de “Her (Dela)”, textos políticos como “Tirannus Nix?” e tantos outros. Também é pintor. Sempre esteve presente no front político, incluindo suas viagens a Cuba em 1960, à Nicarágua sandinista nos anos 1980 e, mais recentemente, em apoio aos zapatistas mexicanos”.

Lawrence Ferlinghetti, o último poeta beat, faleceu hoje, aos 101 anos. Seu filho Lorenzo confirmou a informação ao Washington Post, atribuindo a uma doença pulmonar a causa da morte.

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Leia também a entrevista de Lawrence Ferlinghetti a Jotabê Medeiros, reproduzida pelo Farofafá.

As Independências do Brasil

Toque de avançar – Destino: Independência. Capa. Reprodução

Às vésperas dos 200 anos da proclamação da independência do Brasil, o jornalista e escritor Flávio Paiva publica “Toque de avançar – Destino: Independência” [Armazém da Cultura, 2020, 120 p.], em.que remonta a história brasileira se valendo, aqui e ali, das tintas da ficção. 

Paiva parte do acontecimento histórico para investigar a origem do lugar onde nasceu, em 1959: o município de Independência, no Ceará.

Numa prosa que transforma referências bibliográficas, frutos de extensa pesquisa do autor, em relatos soprados à sombra de oiticicas. As aventuras têm o som do pife como trilha sonora – a parceria de Paiva com o compositor paulista Edvaldo Santana, filhos de nordestinos, na faixa homônima, trilha do livro, está disponível para audição nas plataformas de streaming.

Paiva transforma-se num herói sem nome, que, munido de seu instrumento musical, curiosidade e bravura, narra e participa dos feitos que levaram a adesões tardias à independência na região – além do Ceará, a história se passa também no Piauí e Maranhão.

As ilustrações de Válber Benevides, em acrílica aquarelada e nanquim sobre tela, são um espetáculo à parte, nesta obra multimídia em essência, que revela que a independência do Brasil foi um processo para além do grito de Dom Pedro às margens do Ipiranga, imortalizado no famoso quadro de Pedro Américo, fartamente reproduzido em livros escolares.

“Meu caso de biógrafo da família”

O último pau de arara. Capa. Reprodução

“O último pau de arara” [Grafatório, 2020, 172 p.; R$ 79,90], novo livro de Jotabê Medeiros, bem poderia ser um roteiro dos irmãos Coen e, se digo isto, não é pela inevitabilidade do clichê, mas pela habilidade do próprio autor em jogar com seu ofício – o universo da cultura pop sempre foi seu ganha-pão – ao contar a história de alguém que, embora o respeitasse, nunca ligou muito para isso, tratava quadrinhos com desprezo e nunca foi ao cinema.

O livro é um misto de biografia de João Francisco de Medeiros, seu pai, autobiografia, autoficção e ensaio sociológico sobre migrações internas, muito mais comuns no Brasil de outrora, mas ainda presentes, sobretudo no recrutamento de trabalhadores em situações análogas à escravidão. Há alguma doçura na forma como são narrados certos episódios de violência, e não são poucas as cenas de fúria incontida de seu pai, jamais soando condescendente. “Essa é uma obra de fricção. Espremida entre a memória e a vontade de contar”, diz em boutade, em que anuncia também um escancarar de intimidades, também nunca soando vulgar.

Aos três anos de idade, em 1965, o 11º filho do “Paraíba”, o primeiro homem entre 15 filhos, viajou de Sumé até a nascente Cianorte, no Paraná, em um caminhão de sal. Dessa viagem clandestina vem o título do livro, emulando o sucesso de Fagner, de autoria de José Cândido, Venâncio e Corumba.

A partir de remontar fragmentos da trajetória de seu próprio pai, Jotabê Medeiros remonta a trajetória de sua enorme família – e a sua: o paraibano do interior que se muda muito cedo para o Paraná, em busca de melhores condições de vida, forma-se em jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina e depois se muda para São Paulo, onde viria a se tornar um dos maiores jornalistas culturais do país – isto não é ele quem diz no livro, sou eu quem digo novamente, aqui e agora –, autor das festejadas e honestas biografias de Belchior (2017) e Raul Seixas (2019).

O jornalista é hábil em contar uma história que nos prende a atenção, mesmo em não se tratando de um protagonista de vida pública – o autor não nos poupa mesmo de suas dúvidas durante o processo de feitura do livro: seria seu próprio pai um personagem biografável? Embora aqui e acolá falemos dele no passado, como o faz também o autor, João Francisco de Medeiros está vivo – sofreu um AVC e teve uma perna amputada nos últimos anos – e completará 103 no próximo abril.

Baseado na própria memória, em conversas com familiares, viagens e rara documentação, Jotabê Medeiros não se deixa vencer pelas lacunas, urdindo texto delicioso, como é de seu feitio, histórias que se entrecruzam, como os constantes escambos que seu pai acabou tornando meio de vida. Em meio a tudo isso há um belo tributo ao irmão apelidado Jack, batizado em homenagem a Jackson do Pandeiro, ídolo de sua mãe – a ele o autor dedicou “Belchior: Apenas um rapaz latino-americano”: o irmão faleceu justo na semana em que o biógrafo viajaria a Santa Cruz do Sul, nos rastros do biografado então desaparecido. Com a mudança de planos e a ida ao velório do irmão, Belchior faleceu em sequência e aquela biografia foi finalizada com o relato de seu velório, entre a Sobral natal e Fortaleza.

A realçar a delicadeza e elegância do texto de Jotabê Medeiros, o estonteante projeto gráfico da Grafatório – marca da pequena casa editorial de Londrina/PR –, com xilogravuras de Luiz Matuto. A tiragem limitadíssima de 750 exemplares foi possível graças a um financiamento coletivo. Os que contribuíram já recebemos um pdf por e-mail, no que adiantei a leitura, na certeza de que relerei tão logo me chegue às mãos o exemplar impresso – a pindaíba, a pandemia e o capricho editorial acabaram atrasando um pouco as coisas, mas de mais longe já viemos, como quem desce de Sumé à Cianorte num caminhão de sal.

Leia um trecho de “O último pau de arara”.

Vale mais do que pesa

Meu nome é ébano – A vida e a obra de Luiz Melodia. Capa. Reprodução

Nada há de surpreendente ou revelador, ou novidade qualquer desconhecida do fã médio de Luiz Melodia em Meu nome é ébano – A vida e a obra de Luiz Melodia (Tordesilhas, 2020, 301 p.; R$ 55,00), biografia escrita pelo jornalista Toninho Vaz, autor das biografias também insossas de Paulo Leminski (2001) e Torquato Neto (2005) – enormes e complexos personagens que poderiam redundar em livros idem, mas ficam a meio caminho.

A narrativa é linear, para não dizer preguiçosa, começando com a construção da casa da família no morro de São Carlos pelo pai de Luiz, Oswaldo Melodia, de quem ele viria a herdar o sobrenome artístico – embora nunca tenha encarado uma carreira profissionalmente, Oswaldo era compositor, autor, por exemplo, do choro Maura, gravado por Luiz –, e termina com a morte, em 2017, aos 66 anos, em decorrência de complicações de um câncer na medula.

Em meio a tudo isso, histórias conhecidas por todos: alçado ao estrelato pela gravação de Pérola negra por Gal Costa, em 1971, antes mesmo de seu disco de estreia (1973) – fundamental em qualquer coleção de MPB que se preze –, que acabaria batizado por aquela música; a descida do morro de São Carlos, no bairro do Estácio, para o asfalto; a reconhecida elegância de filho de costureira interessado por moda; a insubordinação aos ditames da indústria fonográfica – “como pode um negro que não canta (apenas) samba?”, perguntavam-se os tecnocratas do setor, à época –, o que acabou lhe valendo a pecha de “maldito” da MPB, ao lado de nomes como Jards Macalé, Sérgio Sampaio e Itamar Assumpção, cuja relação com Melodia é pobremente relatada na obra, apesar de o primeiro assinar o texto da quarta capa.

Vaz relembra, por exemplo, que Macalé compôs Negra melodia em homenagem ao amigo, mas sequer cita a participação de Luiz Melodia em Doce melodia, homenagem de Sérgio Sampaio a ele gravada por ambos em Sinceramente (1982), último disco lançado pelo capixaba em vida; ou Quem é cover de quem?, com que Itamar Assumpção homenageou-o no primeiro dos três volumes de Bicho de 7 cabeças (1993), em que era acompanhado pela banda exclusivamente feminina Orquídeas do Brasil. A música é uma brincadeira com a semelhança física e a fama de malditos de ambos. Citação da participação de Melodia em Vida cigana, do maranhense Adler São Luiz, nem em sonho.

Entre outros deslizes, imprecisões e incorreções, um apêndice com a discografia, ao fim do volume, opta por citar o intérprete (Luiz Melodia) em vez dos compositores registrados pelo biografado em seus álbuns, o que pode causar certa confusão na cabeça do leitor mais desavisado ou mesmo cooperar para a manutenção do quase anonimato de nomes como Getúlio Cortes (de quem Luiz Melodia regravou os “sucessos de Roberto Carlos” Negro gato e Quase fui lhe procurar), Zé Keti (Diz que fui por aí), Cartola (Tive sim) e Ismael Silva (Contrastes) ou mesmo de um mais conhecido Cazuza (Codinome Beija-flor). Lembrando que, dono de uma dicção completamente particular na história da música popular brasileira, Luiz Melodia apropriava-se de tal modo do que interpretava que parecia mesmo ser o compositor de tudo aquilo que cantava.

A cobertura da morte de Luiz Carlos dos Santos (7/1/1951-4/8/2017), nome de batismo de Luiz Melodia, pela imprensa também foi abordada por Vaz em sua biografia. Não comparece às páginas do livro o obituário escrito para o portal UOL pelo jornalista Jotabê Medeiros, um dos mais completos publicados à época – talvez por vaidade, para evitar citar a “concorrência”: Medeiros, sabemos, é autor das biografias de Belchior (2017) e Raul Seixas (2020), a cujas referências bibliográficas comparece o Solar da Fossa (2011) de Vaz.

O grande trunfo de Meu nome é ébano é o mergulho no conceito e produção da espaçada discografia de Luiz Melodia. Alguns capítulos são batizados por discos como Maravilhas contemporâneas (1976), Mico de circo (1978) e 14 quilates (1997) e descrevem bastidores de composições, gravações e lançamentos. Por sua indiscutível grandeza, Melodia merecia mais.

Cultura nordestina em pauta no Itaú Cultural

Clarice Lispector por Carlos Scliar. Reprodução
Clarice Lispector por Carlos Scliar. Reprodução

 

Um lado em geral menos conhecido da escritora Clarice Lispector (1920-1977) é o de pintora. André Bernardo, em texto publicado ontem, no site do Itaú Cultural, homenageando-a por seu centenário, relembra com elegância esta faceta da ucraniana radicada brasileira – ela costumava se declarar pernambucana – inaugurando a Semana da Cultura Nordestina: as publicações seguem de ontem até a próxima sexta-feira (7).

O texto de Bernardo relembra o episódio em que a escritora Nélida Piñon arrematou, por 220 mil reais, um quadro de Clarice num leilão em 2019. Trecho do texto: ““Quando eu soube que um quadro de Clarice iria a leilão, fique chateada: ‘Meu Deus, minha amada amiga em uma casa estranha? Uma casa que ela não conhece nem nunca frequentou? Não posso deixar isso acontecer’. E, realmente, não deixei”, orgulha-se a escritora. “Eu só não imaginava que o quadro fosse chegar ao valor que chegou. Foi uma coisa espantosa. Até hoje, não sei onde eu estava com a cabeça”, acha graça. “Pensei que chegaria, no máximo, a uns 15 mil reais. Fui tomada por algo tão forte que, a cada novo lance, eu me limitava a repetir ao telefone: ‘Avance, avance, avance’. Os quadros de Clarice têm um valor sentimental extraordinário”, confessa Nélida, que conviveu com a escritora, todos os dias, por 18 anos, de 1959 a 1977, o ano de sua morte”.

A Semana da Cultura Nordestina relembrará ainda nomes como Alceu Valença, Chico Science, Elomar e Nelson Rodrigues, entre outros, além da artista visual recifense Bruna Valença e a fotógrafa maranhense Gê Viana, que abre uma nova seção no site da instituição, o Rumos da Fotografia no Brasil, com curadoria do jornalista Cassiano Viana.

O silêncio do boi e a voz do poeta

Boi. Capa. Reprodução
Boi. Capa. Reprodução

O jornalista e poeta Celso Borges é autor de pelo menos um clássico da música popular produzida no Maranhão, sobretudo no período junino. Muitos cantam e assobiam, mas poucos se ligam que ele é parceiro de Zeca Baleiro e do saudoso percussionista argentino Ramiro Musotto em A serpente (Outra lenda), de versos como “eu quero ver/ quero ver a serpente acordar/ pra nunca mais a cidade dormir”, gravada por Baleiro em seu álbum Pet shop mundo cão (2002).

Seus poemas-toadas, registrados nas páginas de seus livros, ou gravados por vozes como a de Cláudio Lima (Boi tarja preta, parceria com Alê Muniz, gravada em Rosa dos ventos, de 2017), vez por outra trazem ácidas críticas ao sistema político ou mesmo à degeneração de grupos de bumba meu boi, que veem a originalidade diluída, transformando-se em “boizinhos de butique” para “turistas de pacote”, conversa pra boi dormir pra inglês ver.

Se A serpente (Outra lenda) não figura na coletânea Boi (Editora Passagens, 2020, 56 p.; disponível para download gratuito no site da editora, bem como todos os títulos por ela editados) não faltam bons motivos para baixar o volume e lê-lo. A obra integra a coleção “Livrinho também é livro”, coordenada por ele e a editora Isis Rost, que já publicou os títulos Rua morta, de Luís Inácio Oliveira, e O declínio da narrativa, dela, todos em 2020, todos durante o período de isolamento social imposto pela pandemia de covid-19.

Em Boi, Celso Borges revê poemas e letras de música que têm o bumba meu boi como mote, escritos por ele ao longo dos últimos 25 anos, “tempos depois do compositor Giordano Mochel me dizer que o nosso coração pulsava no ritmo do boi. Eu já sentia isso naquela época, mas a certeza dessa verdade cresceu mais e mais nos anos seguintes”, anota o autor em “O silêncio do boi não é do boi”, à guisa de prefácio. Ele abre o texto: “Não ouvimos as toadas, matracas e zabumbas dos bois do Maranhão em 2020. Esta é a primeira vez na história, desde quando o boi se apresenta em quintais, terreiros, largos ou arraiais da cidade, que ouvimos apenas o silêncio ensurdecedor de nossa representação mítica mais potente. Este livrinho nasce dessa não voz, ou da poesia dessa voz na memória, ou do afeto que vislumbro a partir da falta do boi e suas zoadas essenciais”.

Com projeto gráfico e diagramação de Isis Rost, Boi é também uma coleção de representações do bumba meu boi, entre pinturas e fotografias, de nomes que vão de Pablo Picasso a Cícero Dias e Ribamar Rocha, passando pela xilogravura de J. Borges, entre outros. A capa apresenta o detalhe de uma pintura de Ciro Falcão sobre o São João do Maranhão.

[texto originalmente publicado no JP Turismo, Jornal Pequeno, de hoje (19)]

Dois contistas no bar após a pandemia

O escritor Rubem Fonseca. Foto: Zeca Fonseca. Divulgação
O escritor Rubem Fonseca. Foto: Zeca Fonseca. Divulgação

O escritor Sérgio Sant'Anna. Foto: Daniel Ramalho. Jornal Cândido. Biblioteca Pública do Paraná/ Reprodução
O escritor Sérgio Sant’Anna. Foto: Daniel Ramalho. Jornal Cândido. Biblioteca Pública do Paraná/ Reprodução

Sérgio passou em frente ao bar e notou a careca literalmente brilhante de Rubem, chope gelado recém-servido. Fazia calor e só com os olhares se convidaram e se permitiram a dividir a mesa. “Há tempos não vinha aqui. Não suporto bar com tevê. Mesmo se transmitem jogos. Se quero ver o Fluminense, vou ao Maracanã, mesas redondas, pra casa”, disse Sérgio, com intimidade que dispensava boa tarde e como vai. “Parei pela sede, calor. Também não gosto. Por isso não entrei”, respondeu Rubem. “Coisa que me tira do sério é essa turma que vem pra bar, teatro, show e não larga celular. A pandemia acabou, mas continuam levando o isolamento muito a sério. Ninguém mais conversa pra gente captar algo e escrever um novo conto”, continuou. “Piorou. Vivemos algo que nem nossas ficções foram capazes de criar”.

[Microconto que escrevi para concorrer a um edital do Itaú Cultural. Não ganhei. Como não sou de deixar nada na gaveta, publico aqui, aproveitando o ensejo para parabenizar os maranhenses Adriana Gama de Araújo, Celso Borges, Gustavo Marques da Silva Castro e Ícaro Novais, pela seleção no citado certame]

Artistas da rua

A medicina bate à porta

TENHO TANTA RAIVA DE TELEFONE que costumo atender com um rosnado.

— Blanc?

— Infelizmente.

— É o Baiano, meu nego. Mas se você vai escrever sobre isso, não esquece de registrar que meu nome é Wilson Flora, senão o pessoal lá na minha terra não acredita.

— Tá.

— Eu queria fazer uma rápida consulta médica, por telefone mesmo. É o seguinte:…

— Baiano, você sabe que eu detesto esse troço. Parei de clinicar na década de 70. Logo, o máximo que sou, hoje em dia, é uma espécie de palpiteiro com curso superior, que, no meu caso específico, foi bastante inferior.

— Mas é coisa simples. Andei bebendo demais e o médico me pediu tanto exame que eu comecei a passar mal só de ler a relação.

— Hum… Que tipo de exame?

— Glicídios, lipídios, adílios, otacílios…

— Você já bebeu hoje?

— Pra tomar coragem de ligar pra você. Eu tenho horror dessas conversas sobre doença.

— Eu também, Baiano. Parei por causa disso.

— Mas é diferente, Blanc. Você viveu durante anos essa dura realidade, eu diria mesmo heroica, nas condições em que se faz medicina em nosso país, e teve um papel preponderante, ainda que por pouco tempo…

— Higiênico.

— Hein?

— O papel. Você tá tentando me vender outro carro? Se essa conversa acabar com a descrição de um modelo 88 de caminhonete, uma joia, que apareceu na agência, em perfeito estado, um milagre etc., na próxima vez que a gente se encontrar, eu vou armado.

— Não, nada disso! Poxa, Blanc, até parece que eu, em minha honrada profissão, me comporto feito um escroto qualquer.

— Errou só por um pequeno detalhe: um escroto qualquer vende carro com um mínimo de consideração pela vítima. Você, não. Você é Medalha de Ouro em todas as modalidades de escrotidão, 4 x 100, com ou sem vara, em distância, em altura… Você apronta sacanagem até em jogo de peteca.

— Compreendo seu mau humor. O Vasco ainda não convenceu, o Edmundo é uma incógnita, e você…

— Isso não tem nada que ver com o Vasco.

— Tenho um favor pra te pedir. O cara que está monitorando meu quadro (gostou dessa?), quer… bem… sejamos diretos: um exame de próstata, e eu me recuso a permitir que um desconhecido me dede. Escolhi você.

— Quer que seja no Canecão, com show de mulatas, noite de autógrafos etc.?

— Só te peço que pense no meu caso com carinho. Bom, tenho que sair. Vou a uma dessas casas de instrumentos musicais.

— ???

— O médico disse que vou fazer uma verdadeira bateria de exames. Tô indo comprar um surdo e um apito. O laboratório que se exploda, mas minha bateria sem surdo e sem apito, nem pensar.

*

Aldir 70. Capa. Reprodução
Aldir 70. Capa. Reprodução

Crônica do imenso Aldir Blanc, que deixou o Brasil mais triste, sem graça e menos inteligente no último dia 4 de maio. A Mórula Editorial, que publicou cinco livros do compositor e cronista em 2016, por ocasião de seu aniversário de 70 anos, disponibilizou, gratuitamente, o e-book Aldir 70, reunindo algumas crônicas daqueles volumes. Acesse o site da editora para baixar.

Sérgio Sant’Anna (1941-2020)

O escritor Sérgio Sant'Anna. Foto: Daniel Ramalho. Jornal Cândido. Biblioteca Pública do Paraná/ Reprodução
O escritor Sérgio Sant’Anna. Foto: Daniel Ramalho. Jornal Cândido. Biblioteca Pública do Paraná/ Reprodução

 

Os últimos contos que Sérgio Sant’Anna (30/10/1941-10/5/2020) publicou em vida, Das memórias de uma trave de futebol em 1955, no caderno Ilustríssima da Folha de S. Paulo em 26 de abril passado, e A dama de branco, em 1º. de maio, na revista Época, atestavam que o peso dos anos não lhe afetou a qualidade da obra. O par de contos podia figurar em qualquer de seus livros mais recentes, Anjo noturno: narrativas (2017), O conto zero e outras histórias (2016) e O homem-mulher (2014) todos publicados pela Companhia das Letras.

O escritor faleceu nesta madrugada, vítima do coronavírus. Era merecidamente considerado um dos maiores escritores brasileiros em atividade, com sua prosa elegante entre o conto e o romance, povoada de tipos urbanos, violência, sexo e em diálogo permanente com outras linguagens, como a música, as artes visuais e o cinema, arte a que teve adaptadas algumas de suas obras, com destaque para Um crime delicado (Companhia das Letras, 1997), que ganhou a tela grande pelas mãos do diretor Beto Brant em 2005.

O declínio do Rio de Janeiro (e do Brasil) também estava entre seus temas prediletos. Lembrava com solenidade os bares de paredes espelhadas que podiam se tornar o paraíso de quem queria flertar ou o inferno de um cônjuge eventualmente acusado de algo que sequer estava fazendo. Também as apostas no turfe, frequentado por homens elegantemente vestidos, como se, justamente, para figurar em sua prosa, além do futebol, sobretudo os jogos e treinos do Fluminense, seu time do coração, que nos legou obras-primas como Páginas sem glória (Companhia das Letras, 2012).

Quando descobri seu perfil no facebook, a princípio desconfiei, como daquele lendário perfil de João Gilberto entrevistado pela revista Trip – um dos livros mais festejados de Sant’Anna é justamente O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (1982). Perderia Sérgio Sant’Anna tempo em redes sociais, sempre burilando um próximo conto genial com que nos deleitaríamos quando do lançamento de uma próxima coletânea? Sim, e mesmo fora da página no livro, o capricho de sempre com as letras: escrever confundia-se com sua própria vida, entre o ganha-pão, a diversão e o descanso.

Era um ardoroso combatente do bolsonarismo e de toda a desumanidade impregnada e exalada pelo regime neofascista tupiniquim. Na rede social chegou a escrever que “o Brasil é um filme de terror”, entre suas manifestações diárias de preocupação com os rumos do país, desgovernado por gente que nunca leu uma linha escrita por ele e tampouco dirá qualquer coisa sobre seu falecimento, aos 78 anos, com um legado monumental.

Pela rede social também, anunciou a suspeita de ter contraído a covid-19, o que viria a se confirmar com sua internação. “Hoje pra mim foi barra, tive vários sintomas e achei que estava com o vírus. Mas meu clínico veio aqui e me receitou antibióticos. Estamos vivendo no fio da navalha”, manifestou-se em 28 de abril.

Atencioso, um pouco antes, me respondera um e-mail, negando um pedido de entrevista que lhe fiz. A ideia era que ele falasse ao Radioletra sobre o conto recém-publicado na Folha. “Agradeço o convite, mas estou com problemas de saúde e não posso aceitá-lo. Um abraço. Sérgio”, escreveu.

A morte era também uma das obsessões do escritor. Como lembra este parágrafo de “Lencinhos”, conto de O homem-mulher, um de meus prediletos, entre tantos: ““Vou contar uma coisa para vocês”, eu disse. “Às vezes imagino que renasço numa vida futura e encontro meu pai já falecido e outros amigos mortos e todos nos regozijamos, e é como se não houvesse passado tempo nenhum desta vida para a outra.””. No facebook escreveu, em 23 de abril: “A gente morre, mas se diverte”.

Mas sua obsessão mesmo era escrever e reinventar-se. Como revelou ao jornalista Alvaro Costa e Silva em um perfil publicado no jornal Cândido, publicação mensal da Biblioteca Pública do Paraná: “A cada nova obra, procuro fazer alguma coisa diferente. Do contrário, perderia a graça”. Ou como se manifestou pela rede social, também a 23 de abril: “Meus queridos e minhas queridas, não quero assustar ninguém, mas acho a peste que nos assola simplesmente aterrorizante. Não encontro outro modo de reagir se não escrevendo”.

A lenda Rubem Fonseca

O escritor Rubem Fonseca. Foto: Zeca Fonseca. Divulgação
O escritor Rubem Fonseca. Foto: Zeca Fonseca. Divulgação

 

Como todo escritor (ou artista, em geral) que escolheu viver em reclusão, Rubem Fonseca (Juiz de Fora/MG, 11/5/1925 – Rio de Janeiro/RJ, 15/4/2020) também angariou, ao longo de seus quase 95 anos de vida, certo folclore ao redor de sua vida particular – se é que figuras públicas as têm.

Um dos maiores nomes da literatura brasileira em todos os tempos, com seu estilo seco, cortante, lascivo, duro, violento e urbano, autor de uma vasta obra entre contos e romances, adaptada ao cinema (Bufo & Spallanzani, de 1986) e à televisão (Agosto, de 1990), Rubem Fonseca parecia predestinado ao ofício que tão bem cumpriu desde a estreia, com os contos de Os prisioneiros (1963).

Nascido em Juiz de Fora/MG, tornou-se carioca aos oito anos de idade. Sua formação em Direito e atuação como delegado de polícia civil certamente ajudaram a moldar ambientes e personagens de suas obras iniciais e, portanto, a pavimentar sua trajetória, de merecido destaque sobretudo na literatura policial.

Seu livro mais recente é Carne crua (2018) e sua literatura é por demais conhecida – venceu seis prêmios Jabuti, dois APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), um Camões e um Machado de Assis –: influenciou quase todo contista que surgiu depois.

Por livros mais recentes, a crítica costumava dizer que o autor estava se repetindo, imitando a si mesmo; mas mesmo em títulos menos inspirados, ainda era superior à grande parte de seus pares de ofício.

Abordá-lo pelo viés de sua obra talvez tornasse tudo mais fácil ou simples, embora trabalhoso, com sua galeria povoada por Mandrake, José, Morel e tantos outros personagens que marcaram seus leitores.

Fico com duas histórias, digamos, extraliterárias, protagonizadas por Rubem Fonseca – que reconto aqui ao sabor da memória que, obviamente, pode estar me traindo.

Em 1989, já escritor famoso, ele estava em Berlim, na data exata da derrubada do muro. O repórter de televisão que entrevistou o brasileiro que participava do momento histórico não o identificou e caiu no trote do escritor, que não se apesentou com tal e foi veiculado nos lares conterrâneos como um brasileiro comum – era conhecida sua aversão a entrevistas, fotografias e câmeras.

A segunda, mais recente, pareceu um troco da vida. Um repórter, disfarçado de estudante de letras, abordou-o a caminho da padaria, dizendo precisar de ajuda para um trabalho da faculdade. Afável, Rubem Fonseca não se fez de rogado, mas dias depois leria no jornal a entrevista que “havia concedido” num banco de praça. No texto, indagado sobre como queria morrer, não vacilou: “tomara que bem velhinho e abraçado a uma gostosa”.

Rubem Fonseca faleceu hoje (15), no Rio de Janeiro, vítima de uma parada cardíaca. Tinha 94 anos.

As memórias elegantes de Nirlando Beirão

Meus começos e meu fim. Capa. Reprodução
Meus começos e meu fim. Capa. Reprodução

 

Nirlando Beirão é jornalista raro (ou em extinção, como queiram).

A afirmação entre parênteses não se deve, obviamente, ao diagnóstico de sua Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), pauta de Meus começos e meu fim [Companhia das Letras, 2019, 186 p.; R$ 49,90].

Digo que Nirlando é raro por que, ao mesmo tempo em que se apregoa a morte do jornalismo, ao menos nos termos em que o conhecíamos até aqui, é ele, além de o dono de um dos textos mais elegantes do jornalismo brasileiro, alguém cujos mais de 50 anos de profissão (ou carreira, ou trajetória, como queiram), permitem-no uma espécie de jornalismo de memória, algo que lhe dispensa a consulta a arquivos, fontes ou qualquer investigação. Ele pode escrever, por exemplo, sobre a Copa do Mundo de 1970, o fim dos Beatles ou sobre o golpe que destituiu Dilma Rousseff da presidência da república, e tudo que daí adveio, com base apenas em suas lembranças.

“Eu sou assumidamente esquerda-foie gras”, disse, além de tudo aquilo, aos três mosqueteiros do jornalismo cultural na CartaCapital – de que Nirlando Beirão é editor executivo, portanto, chefe de Eduardo Nunomura, Jotabê Medeiros e Pedro Alexandre Sanches.

Equilibra-se entre a dor e um senso de humor finíssimo que se não lhe agrada, certamente o fará aos leitores (aproveitando para imaginar que a maior parte dos que comprarem o livro acompanham Beirão há mais ou menos tempo na imprensa).

Andar por sobre esta slack line é o que faz com habilidade ao longo do livro, em que mescla a própria estrada que percorre no “País da Doença” – nome com que ele mesmo se refere à ELA, de forma a tornar o convívio menos doloroso – à história de seu avô António Beirão, padre português que, chegado ao Brasil, trocou o amor divino pela paixão terrena, casando-se com a avó do jornalista, Esméria.

Com sua habitual elegância e a habilidade de um jornalista que descansa carregando pedras – como o fazem os jornalistas de verdade –, Nirlando Beirão tece uma colcha de retalhos baseada sobretudo em suas memórias, entre almoços de família, leituras, lições de jornalismo e política, assunto do qual se esquiva o quanto pode, mas do qual é impossível se afastar completamente, ainda mais em se tratando de Brasil.

É tocante, em meio a tudo isso, por exemplo, o breve perfil que faz do amigo Drauzio Varella, o médico, astro de televisão e escritor, mesmo sem citar seu nome, como a querer evitar ser acusado de qualquer vaidade. O doutor Drauzio, como é intimamente chamado por milhões de brasileiros, assina o texto da quarta capa de Meus começos e meu fim.

Nirlando Beirão nega o bom humor, ao revelar como lida com a doença no cotidiano, no trato com visitas e transeuntes, mas em sua narrativa não há espaço, tampouco, para a autopiedade, embora ele escreva, numa passagem, que a de 2018 foi sua “derradeira Copa do Mundo”, para imediatamente se/nos tranquilizar: “Página virada, é hora de despistar as humilhações miúdas do cotidiano não mais com miragens de longo prazo, e sim com tarefas de produtivo diversionismo”, no que parece estar falando do próprio livro, às vésperas de terminar de escrevê-lo.

Em um trecho revelador dos paralelos entre a ditadura civil-militar brasileira (1964-1985) e o atual desgoverno patético de extrema-direita de Jair Bolsonaro, cultor da ignorância, ele nos conta, ao revelar que o bom jornalismo também é feito com uma boa dose de sorte: “O furo que chamo de folclórico aconteceu também por obra do aleatório. Eu estava em Brasília no dia em que o homem pisou na Lua. A embaixada norte-americana preparou um coquetel para convidados, e ali assistimos, uisquinho na mão, ao evento planetário”.

E continua: “Saí de lá conduzido pela curiosidade pessoal e imbuído do dever profissional: o que é que o presidente da República, quero dizer, o nosso, teria a dizer sobre a conquista? Tive de recorrer a sucessivos telefonemas, naquela era pré-celular, mobilizando do porta-voz da Presidência ao ajudante de ordens, para enfim descobrir a verdade. Enquanto Neil Armstrong deixava sua pegada na superfície da Lua, o general Costa e Silva decidia se descartava um valete ou uma dama na animada mesa de jogo do Alvorada. Não deu a mínima para aquela bobagem da Nasa”.

Os dois assuntos se mesclam e retroalimentam, os começos – o pecado e o casamento dos avós, a consequente prole – e o fim – a doença degenerativa que ainda lhe permite funcionarem a mão direita e a cabeça, como ele mesmo anota também. Nirlando Beirão constrói sua narrativa sem grandes preocupações com o rigor jornalístico, mas com as habituais referências às suas paixões de bon vivant, que garantem a leveza que caracteriza seu texto desde e para sempre.

No fim da infância, no curso da música/vida

No fim da infância. Capa. Reprodução
No fim da infância. Capa. Reprodução

 

No fim da infância [Grafatório Edições, 2019, 98 p.], de Arrigo Barnabé, reúne textos publicados, a grande maioria, no site e na versão impressa da revista piauí (em minúsculas mesmo, revisor! Obrigado!). A edição é um capricho, marca dos projetos gráficos da editora conterrânea do músico.

Ilustrado por uma série de fotografias de formação de Barnabé, o mosaico de textos compõe uma espécie de autobiografia afetiva, com as memórias do músico de vanguarda, que revela ter tido uma infância comum e triste.

Arrigo Barnabé trajando sua mais conhecida criação em uma das fotos do livro. Foto: Cláudia Camargo Celidônio
Arrigo Barnabé trajando sua mais conhecida criação em uma das fotos do livro. Foto: Cláudia Camargo Celidônio

Arrigo Barnabé narra com elegância e delicadeza, passagens de rara beleza e sensibilidade, como a decepção de descobrir um primo tocando acordeom, até então seu instrumento preferido. Como entre os meninos da família tudo o que desse opção de escolha era exclusivo de um ou outro, aquele então se tornou o instrumento do primo, empurrando-o para o piano, instrumento que até então ele achava sem graça.

Ou o arrebatamento que foi ouvir pela primeira vez o baião Assum preto, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Seu pai chegou com o disco, colocou na vitrola e o menino Arrigo ouviu até cair num choro convulsivo. Diante da vergonha infantil de estar chorando por uma música, guardou para sempre a mentira que contou ao pai: chorava por que o Santos, por quem passara a torcer recentemente, havia perdido, aquela tarde, para o Taubaté.

Integrante da fanfarra do Colégio Marista, onde estudava, Arrigo Barnabé, entre 120 meninos, tocou, no gramado do Maracanã, antes da decisão do Mundial Interclubes de 1963, quando o Santos de Durval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe sagrou-se bicampeão do mundo ante o Milan. “Mas isso aconteceu mesmo?”, pergunta-se, diante da rememoração da realização de um sonho.

Também comparecem ao volume memórias mais recentes, como um inusitado metrônomo de madeira encontrado no painel de um táxi que tomou no Rio de Janeiro, ou uma teoria sobre a alma paulista/na do carioca Paulinho da Viola, com versos desconcertantes de clássicos como Dança da solidão, Sinal fechado e Comprimido, este, um samba no qual o portelense cita Chico Buarque. Citação por citação, Comprimido comparece a Clara Crocodilo.

Obviamente não poderia ficar de fora seu disco mais conhecido, Clara Crocodilo (1980), além de sua primeira música gravada por Tetê Espíndola (Canção dos vagalumes, em 1978), sua decepção ao ouvir a melodia de Leãozinho, de Caetano Veloso, cuja letra ele havia adorado (“letra de música, não é para ler, é para ouvir”), o “encontro marcado com Tom Jobim” (“Quando terminou, ele perguntou: – Posso ouvir de novo? Esse foi o maior elogio que recebi em toda minha vida!”), a metamorfose de “José Carlos de Souza Neves, difícil e doce amigo” em Betha Pickles, tudo isto é trazido à tona em No fim da infância.

“O tema da metamorfose (…) está presente em diversos momentos da obra de Arrigo Barnabé”, anota o editor Felipe Melhado em Como nascem os crocodilos?, posfácio à obra. “Em 2005 ele compôs uma peça intitulada justamente A metamorfose. Em sua quase ópera Gigante Negão, de 1990, o tema também aparece, de certa forma, na transfiguração do protagonista Miolo Mole em Gigante Negão. E claro, a mutação é o tema central de sua obra-prima, o álbum Clara Crocodilo, sua estreia em LP, de 1980”, anota.

Estamos diante de nove textos em prosa de um dos mais inventivos artistas da música brasileira, embora, como é comum aos gênios, por vezes incompreendido e menos conhecido do que merece.

Neste caso, não é de se estranhar ou dizer que Arrigo Barnabé tenha se convertido em exímio escritor. A fagulha já estava lá, desde o princípio: foi apenas reunida agora, para deleite do fã-clube e, espera-se, a descoberta de novos curiosos.

Prosa em quadrinhos

Travesti. Capa. Reprodução
Travesti. Capa. Reprodução

 

Extraída de um dos quadros da obra, o feto humano no ventre de uma aranha na capa de Travesti [Veneta, 2019, 130 p.; R$ 49,90; tradução: Maria Clara Carneiro], que une o traço de Edmond Baudoin ao texto de Mircea Cărtărescu, antecipa ao leitor a característica onírica do volume.

O francês Baudoin, vencedor de três Angoulême, é um dos maiores nomes dos quadrinhos no mundo, e o romeno Cărtărescu é renomado escritor, poeta e teórico literário, aposta frequente em listas de favoritos ao Nobel de literatura.

Travesti conta a história de Victor, jovem que ambiciona escrever um grande romance para a posteridade, tornando-se um grande escritor desconhecido, na Romênia de 1973. A narrativa é povoada de sonhos, renúncias e histórias adolescentes.

Os desenhos de Baudoin aliam elegância e sujeira, com seus híbridos, a vida na cidade grande, viagens (literalmente ou não), referências literárias (sobretudo Franz Kafka), as descobertas da adolescência e o sexo como só ele poderia apresentar. Um casamento perfeito com a prosa de Cărtărescu.

“Publicado no âmbito do Programa de Apoio à Publicação 2019 Carlos Drummond de Andrade do Instituto Francês do Brasil, contou com o apoio do Ministério francês da Europa e das Relações Exteriores”, lê-se na página da ficha catalográfica da obra. Ou seja: países desenvolvidos estimulam a tradução de obras de autores nativos, garantindo sua difusão ao redor do mundo. No Brasil, sob o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, não há mais Ministério da Cultura e o próprio presidente declarou que livros didáticos “têm muita coisa escrita”.

Eis, aliás, uma hq que certamente não agradaria (a começar pelo título) ao ocupante do mais alto cargo da república brasileira (e qual o agradaria?): Travesti é movido pelo delírio, com poucos diálogos, ao contrário da maior parte das histórias em quadrinhos, o texto servindo, como uma espécie de diário, mas sem o rigor das datas, na maioria das vezes, para narrar os acontecimentos em primeira pessoa.

Reprodução
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O racismo nosso de cada dia

Foto: Adeloya Magnoni. Divulgação
Foto: Adeloya Magnoni. Divulgação

​O título é um spoiler: Traga-me a cabeça de Lima Barreto trata realmente disso. A peça foi apresentada ontem (22), no Teatro ​​Sesc Napoleão Ewerton (Condomínio Fecomércio, Av. dos Holandeses, Jd. Renascença II), integrando a programação do projeto Palco Giratório.

Interpretado por Hilton Cobra, o monólogo da carioca Cia. dos Comuns, livremente baseado nos livros Diário íntimo e Cemitério dos vivos, obras póstumas de Lima Barreto, simula um julgamento do escritor pelo I Congresso Brasileiro de Eugenia, realizado em São Paulo, em 1935, pela Sociedade Brasileira de Eugenia, fundada por Renato Kehl, um racista que se supunha cientista. O ator em cena dialoga com áudios e textos projetados na tela, remontando falas do citado congresso e trechos de seus anais.

Ainda não se haviam completado 50 anos da abolição da escravidão no Brasil e as teses fundamentais do evento eram notoriamente racistas: defendiam abertamente a eliminação da população negra, quer pelo cruzamento de brasileiros com europeus (brancos), quer pela eliminação física de “degenerados” e “desgraçados”, para repetir aqui termos então usados.

Afonso Henriques de Lima Barreto, nascido exatos sete anos antes da abolição da escravidão no Brasil, autor de clássicos da literatura brasileira, entre os quais Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909), Triste fim de Policarpo Quaresma (1911), Os bruzundangas (1923) e Clara dos Anjos (1948), era pobre, preto, louco e alcoólatra.

A peça contrasta o horror do racismo infelizmente ainda vigente com a força da negritude que ousou contrariar as previsões da época, de que em 70 anos já não existiriam negros no Brasil, opiniões saídas das mentes e bocas, tidas por eles mesmos como superiores, de gente como Monteiro Lobato e Nina Rodrigues.

Um trunfo da montagem é certa desconexão cronológica: Lima Barreto, falecido em 1922, é julgado num evento de 1935 e chega a narrar a morte do próprio pai, ocorrida três dias depois da sua, o que permite também à dramaturgia trazer para dentro da cena o racismo bolsonarista, destilado pelo presidente da república e por seus fiéis e ferozes seguidores e eleitores (os ainda não arrependidos). É triste, cruel e preocupante saber que somos governados por alguém que apoia, se não todas, a maioria absoluta das teses daquele deplorável evento.

Apesar da tragicidade, há um quê de comédia, por exemplo na fina ironia com que Machado de Assis é tratado: “certamente minha obra seria outra se em vez de álcool eu me nutrisse de chá de camomila”, diz Lima Barreto a certa altura. “E eu estaria batendo papo às cinco da tarde com o inacreditavelmente imortal Merval Pereira”, ironiza.

O jornalista e o presidente da república não são os únicos contemporâneos lembrados no texto. Para comprovar que o racismo no Brasil de 2019 é o mesmo de 1935, o Lima Barreto da Cia. dos Comuns lembra Marielle Franco e Anderson Gomes, além de crianças assassinadas pela necropolítica de Wilson Witzel. É a população negra e pobre que continua a ser exterminada cotidianamente. “Anotem o que estou lhes dizendo: Conceição Evaristo jamais chegará à Academia Brasileira de Letras”, vaticina.

Em vida e obra, em 1935 ou 2019, Lima Barreto (ainda) tem razão. Infelizmente.

Lições de um biógrafo

Francisco Gonçalves e Fernando Morais. Foto: Zema Ribeiro

 

O jornalista e escritor Fernando Morais deu uma aula de jornalismo, ontem (21), no auditório do Palácio Henrique de La Rocque. Sua palestra integrava a série Diálogos Insurgentes, promovida pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular do Maranhão (Sedihpop).

Autor de Olga, Chatô – O rei do Brasil e Corações sujos, para citar os que foram adaptados ao cinema, sua bibliografia inclui ainda A ilha, Os últimos soldados da guerra fria (também prestes a chegar às telonas, dirigida por Olivier Assayas, coprodução França/Estados Unidos, com Wagner Moura, Penélope Cruz e Elijah Wood no elenco), e O mago – A incrível história de Paulo Coelho. Ele atualmente trabalha num livro sobre o ex-presidente Lula; a história deve abarcar o período entre sua primeira prisão, em 1980, à atual.

Morais foi deputado estadual e secretário estadual da Cultura [1988-1991] e da Educação [1991-1993] em São Paulo.

A conversa foi mediada pelo Secretário de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular Francisco Gonçalves, que apresentou o escritor, lembrando sua relação com os livros dele, desde sua época de estudante.

Fernando Morais, hoje editor do blogue Nocaute, iniciou sua fala lembrando a primeira vez em que esteve no Maranhão: no final da década de 1960, escrevendo uma matéria para o Jornal da Tarde baiano, sobre a Transamazônica – a rodovia de mais de 4 mil km de extensão liga Cabedelo/PB a Lábrea/AM, cortando o Maranhão na altura do município de Balsas. O jornalista e sua equipe, que rodavam num jipe adaptado para enfrentar as péssimas condições das estradas da época, acabaram presos. A reportagem acabou lhe rendendo o primeiro dos três prêmios Esso de jornalismo que recebeu.

“Foi uma noite de cana, nada mais grave. É que quando viram a gente barbudo, cabeludo, num jipe, pensaram que éramos guerrilheiros comunistas”, divertiu-se. Bom humor e críticas ao governo de Jair Bolsonaro marcaram a palestra. Tomei notas, as aspas a seguir. As falas de Morais, uma verdadeira lição, contêm preciosos conselhos a profissionais e estudantes de jornalismo – e de algum modo a brasileiros em geral.

“O Nordeste ensinou o Brasil a votar. O país vive um momento conturbado, o Brasil está à beira do vulcão. O Nordeste reagiu a Jair Bolsonaro”.

“Um dos pré-requisitos para eu escolher um personagem para biografar é através da história dele poder contar um pedaço da história do Brasil não escrita nos livros oficiais”.

“Comecei a trabalhar como contínuo em uma revista de banco aos 14 anos. Comecei na profissão servindo café aos jornalistas”.

“Não conheço ninguém que saiba escrever que não seja um leitor compulsivo. Pode fazer o curso de jornalismo que for, onde for, Harvard, qualquer lugar, seja escritor de livros, de jornalismo, o que for: tem que ler”.

“O jornal, como a gente conhece, de papel, acabou. Essa vaca já foi pro brejo. Livro também, está com os dias contados. A internet substituiu o jornal com uma vantagem muito grande. Vou tomar como exemplo o linchamento e empalamento do [ditador libanês Muammar] Kadafi [1942-2011]. Vi ao vivo no dia, e no dia seguinte nenhuma novidade nos jornais. Houve a migração do jornalismo de papel para o eletrônico. Não estou decretando a morte do jornalismo, mas prevendo a morte do jornal de papel e do livro. A televisão também vai pro brejo: vai virar monitor de internet. Em vez de ver internet numa coisinha desse tamanho, vai ver em 80 polegadas”.

“Há um ditado mineiro que diz: “Chove na frente, chove atrás”. A internet boa e revolucionária é também terreno de crimes. A eleição de Bolsonaro foi fraudada por uma corrente de fake news. Isso está provado. Não é uma fantasia de um cara de esquerda. A Folha de S. Paulo comprovou que uma empresa ofereceu [o serviço sujo] aos tucanos, a Folha publicou a fatura. A empresa vendia por 8 milhões de reais disparos de fake news para 120 milhões de adultos e você podia escolher os filtros: região, renda etc. [Nos Estados Unidos] Milhões de pessoas receberam notícias de que Hillary Clinton fazia orgias quando era casada com o então presidente Bill Clinton. Atualmente é preciso um esforço permanentes para não ser enganado. As pessoas precisam, sobretudo os mais jovens, aprender a distinguir origem e veracidade do que se lê todo dia”.

“Depois da escolha do personagem ou assunto vem um trabalho braçal de pesquisa. Fiz 230 entrevistas para escrever Chatô. Desde entrevistas de uma hora a entrevistas de uma semana de duração. Dona Alzirinha Vargas, a única [filha de Vargas] viva na época, faleceu pouco depois da entrevista. Fumou um maço de continental sem filtro, parecia uma chaminé, uma locomotiva, um cigarro que não existe mais. Falou comigo cinco horas. Falou sobre o pai, coisas saborosíssimas”.

“Recomendo a trilogia sobre Getúlio Vargas escrita pelo Lira Neto. Ele me dá o crédito, por coisas que eu passei pra ele”.

“A gente vai aprendendo a selecionar as coisas. Toda profissão atribui ao profissional uma natureza adicional. Um bom alfaiate é capaz de, pegando no pano, dizer se dá ou não uma boa camisa; um pedreiro, pegando o tijolo, pode dizer se vale fazer uma casa com ele ou se a casa vai cair. O jornalismo acaba nos dando, sobretudo aos mais experientes, a possibilidade de ver coisas que pessoas de outras profissões não veem. Eu sou casado com uma historiadora com pós-doutorado na França e nós temos divergências sobre o que é e não é importante”.

“Não basta empilhar e publicar. Escolher bem o tema, o personagem, ser rigoroso com as informações, mas tem que escrever com elegância, prender a atenção do leitor. Seduzir. Ou você escreve assim ou pode mudar de profissão”.

“Não pode ter preconceito de natureza ideológica. Você não pode virar o autor da esquerda ou da direita, se não você perde o crédito com o seu próprio leitor. Quando eu anunciei que iria escrever a biografia do Antônio Carlos Magalhães [1927-2007, político baiano], as pessoas perguntavam o que eu bebi, o que eu fumei. Mas é o único personagem que ficou no poder de Getúlio a Lula; se você é jornalista e não se interessa, vá vender ações na bolsa, vai ganhar dinheiro e ser muito feliz”.

“Depois de Olga eu ia fazer a biografia do [delegado Sérgio Fernando Paranhos] Fleury [1933-1979], um dos piores torturadores da ditadura militar brasileira. Mas o Percival [de Souza, jornalista] foi antes e fez [Autópsia do medo – vida e morte do delegado Sérgio Paranhos Fleury].

“Fui o único jornalista brasileiro a entrevistar Julian Assange [ativista, fundador do WikiLeaks]. Contou coisas cabeludíssimas sobre Michel Temer e suas relações com Chevron e Exxon Mobil já visando o pré-sal. Ele ainda era vice da Dilma. Agora, eu sou contra a forma como o Temer foi preso. A polícia avisou a Globo antes da vítima. Não estou defendendo o Temer. Se você acha que pode isso para o inimigo, não reclame quando for contra você”.

“Não pode ter preconceito ao fazer livros de não-ficção. O autor quer ser lido, não por dinheiro nem por vaidade. Eu quero ser lido por muita gente. Eu escrevo para pagar o condomínio, a mercearia, o açougue…”.

“Quem tinha razão era Darcy Ribeiro: o Brasil é uma maravilha. O que falta é gente pra contar isso. Aqui em São Luís, se alguém se dispuser a contar, desde a história de um anônimo a alguém que influenciou os rumos do país. Tem que fuçar, tem que gostar. Tem muita história. Tem história que não acaba mais: dá livro, filme, minissérie. Se a Netflix soubesse o que tem na minha cabeça eles me contratariam. Muita coisa que eu não vou ter tempo de fazer”.

“Minha biblioteca, modesta, de cinco mil volumes será doada à Mariana [cidade mineira em que Morais nasceu]. Junto à biblioteca o acervo de cartas e de fitas com todas as entrevistas. Está sendo montado um centro em Mariana para tornar público esse acervo. Depois de isto anunciado, já recebi doações de cartas de Carlos Lacerda [jornalista e político brasileiro, fundador da Tribuna da Imprensa], depois do Sérgio Mota [1940-1998, ex-ministro das Comunicações]. O Zé Dirceu [José Dirceu, político e advogado, ex-ministro-chefe da Casa Civil] como eu é um guardador de papel: guardou desde o movimento estudantil até a cadeia. Ele doou quatro caminhões baú com os acervos dele. Tudo vai ser catalogado, digitalizado e disponibilizado à população pela internet: o cara acessa em Tóquio ou em São Luís ou em Alcântara. Que agora querem entregar pros gringos na faixa, 0800”.

“Recuperação judicial é o nome tucano da concordata [referindo-se aos calotes de grandes livrarias em editoras – e autores]. Eu estou recebendo direitinho por que a minha editora, a Companhia das Letras, é grande, não está repassando os prejuízos aos autores”.

“[Percebendo que a palestra se aproxima do fim:] Se me deixar eu fico 15 dias [falando], tomando água, tomando remédio, daqui a pouco eu peço para fumar um charutinho escondido”.

“O que seduz o leitor é o humano. Melhor que escrever sobre uma fábrica é escrever sobre um cachorro atropelado na esquina, o dono do cachorro, o motorista que atropelou. A essência do humano está aí nessas histórias”.

“Há três biógrafos muito bons, que eu recomendo: Mário Magalhães [autor de Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo], Lira Neto e Lucas Figueiredo [autor de O Tiradentes: uma biografia de Joaquim José da Silva Xavier].

“Quando eu divulguei que estaria aqui, o Eric Nepomuceno, o tradutor do Gabriel García Márquez, disse: “eu quero ir, diz para me convidarem, eu pago minha passagem!”” [risos].