A orfandade dos pivetes, dos alcoólatras e dos amigos

Da esquerda para a direita, o blogueiro, o poeta e jornalista Cunha Santos, o poeta-músico ZéMaria Medeiros e o jornalista Gutemberg Bogéa a caminho de Carolina, circa 2004. Foto: acervo ZR

Filho de Durval Cunha Santos e Josefina Medeiros, Jonaval Medeiros da Cunha Santos nasceu em Codó/MA, em 10 de novembro de 1952 e faleceu hoje (20), vitimado por insuficiência respiratória em decorrência de um edema pulmonar, em São Luís, cidade que adotou e por que foi adotado desde antes de seu primeiro aniversário. Era irmão da cantora Didã.

Jornalista, entre poemas e contos publicou livros sob os pseudônimos Cunha Santos Filho e J. M. Cunha Santos: “Meu calendário em pedaços” (1978), “A madrugada dos alcoólatras” (s/d), “Pesadelo” (1993), “Paquito, o anjo doido” (s/d) e “Vozes do hospício” (2008), para citar alguns.

Neste último, dedicou-me o soneto “Motel”, um dos poucos poemas que sei dizer de cabeça, originalmente publicado n“A madrugada dos alcoólatras”, que recitei em muitas noites, em sua companhia ou fazendo sua fama ir além de sua presença: “O mênstruo da aurora em tom vermelho/ repete-me abatido na vidraça/ minha imagem em dó, ré, mi, coalha no espelho/ o sol, lavando o rosto, vê e passa/ É a manhã, rebento do meu sono, afoito/ me mudo para a lâmpada que acesa/ crava minha sombra sobre a mesa/ caneta e eu, poema, eterno coito/ Saudades dela em mim como estrias/ na pele – e como é duro removê-las/ devassos, nós dormimos quando é dia/ porque às noites, como cães lassos de orgia,/ se ela faz suruba com as estrelas/ eu vivo em coito anal com a poesia”.

Dividi muitas mesas e noites com Cunha Santos e pouparei os poucos mas fiéis leitores de histórias que poderiam soar apologia ao alcoolismo. Ele tinha consciência de sua condição e afirmava na terceira capa de “A madrugada dos alcoólatras” que o livro “não tem outra pretensão que não a de tentar descrever, através da poesia, pelo menos uma parte do sofrimento de que são acometidos todos eles”.

Recordo com especial carinho uma noite de sexta-feira que pariu o sábado em que amanhecemos tomando café numa padaria na Rua de São Pantaleão, próximo de onde ele então morava, e dali, com a mesma roupa de ontem, seguimos para assistir uma palestra do brilhante Agostinho Ramalho Marques Neto, que fora seu professor no curso (não concluído) de Direito, na Universidade Federal do Maranhão.

Na orelha de “Odisseia dos pivetes”, o jornalista e ex-deputado Luiz Pedro, falecido em junho passado, escreveu: “Cunha é um dos Santos de minha devoção”. Não exagerava. Além de poeta, foi um dos maiores cronistas políticos que o Maranhão conheceu.

Figura extremamente humana, era capaz de passar a noite distribuindo esmolas a quantos pedintes encostassem na mesa, deixando a conta na pendura – o fiado nas quitandas e bares ou a cumplicidade dos “colegas de copo e de cruz” invariavelmente garantiam-lhe a solidariedade.

Era um homem de esquerda, o que ninguém podia negar, combativo com a arma que tinha: a palavra. Se para muitos poetas e jornalistas o espectro ideológico deve ser omitido em nome de uma inalcançável, portanto falsa, imparcialidade, Cunha Santos nunca deixou de dizer de que lado estava, fosse escrevendo poemas em livros, fosse escrevendo textos em jornais. Combateu com igual fervor, entre a juventude e a melhor idade, a ditadura militar de 1964 e o governo genocida de Jair Bolsonaro – no que também irmanamo-nos: se uma CPI tem medo de dar às coisas o nome que as coisas têm, nós não.

Ia às lágrimas com facilidade, fosse por um poema, uma música, a situação do país, “comovido como o diabo”, como cravou outro poeta de sua predileção, exatamente como o personagem que dá título a um de seus poemas mais conhecidos, “As lágrimas de Seu Nelson”: Seu Nelson chorava todas as manhãs/ não porque estivesse velho ou triste/ não porque lhe deprimisse estar no mundo/ Seu Nelson chorava todas as tardes/ não porque sentisse dor ou soubesse de saudades/ não porque lhe deprimisse não ter muito aonde ir/ Seu Nelson chorava todas as noites/ não porque fosse criança ou tivesse medo do escuro/ não porque lhe restasse na vida um único e antigo amor/ Seu Nelson chorava todas as manhãs/ porque tinha certeza de que jamais/ haveria outra manhã igual àquela/ Seu Nelson chorava todas as tardes/ porque cedo ou tarde todas as tardes acabam/ Seu Nelson chorava todas as noites/ porque sabia que as estrelas/ se repetiriam em outras noites,/ naquela noite nunca mais/ e que sua madrugada só duraria/ até a hora de chorar mais uma vez”.

Talvez Seu Nelson e todos nós choremos por sabermos, agora, que nunca mais Cunha Santos escreverá outro poema, outra crônica. Resta a nós a saudade e relê-lo.

Live celebra 15 anos de “Paisagem feita de tempo”

[release]

Paisagem feita de tempo. Capa. Reprodução

Com a presença de poetas, acadêmicos e jornalistas, evento online celebra os 15 anos do livro de estreia de Joãozinho Ribeiro

Este ano o livro “Paisagem Feita de Tempo”, do poeta maranhense Joãozinho Ribeiro, completa 15 anos de lançamento, realizado em abril de 2006. A primeira edição do livro está completamente esgotada e atualmente o autor está buscando meios de viabilizar uma nova edição.

Objeto de vários estudos acadêmicos, com destaque para os da professora pós-doutora em Teoria Literária Silvana Pantoja (UEMA/UESPI) e do professor doutor Valmir de Souza (USP), a obra poética, com características autobiográficas, é uma verdadeira declaração de afetos pela cidade de São Luís, Patrimônio Cultural da Humanidade, e pelos seus habitantes.

Embora mais conhecido como compositor, Joãozinho Ribeiro tem também uma obra poética consistente, inédita em livro – a citar “Paisagem feita de tempo”, e outras que ainda anseiam por merecidas publicações. Uma curiosidade é que vários trechos da obra viraram música, casos de “Amália”, que homenageia sua mãe, “Rua Grande” (parceria com Zezé Alves), “Anonimato” (musicada por Chico César), em homenagem a seu pai, e o clássico “Milhões de uns”, gravada por Célia Maria.

No próximo dia 24 de setembro, às 19h, será realizada uma live para celebrar a efeméride, com as presenças dos professores Silvana Pantoja e Valmir de Souza; dos premiados poetas Celso Borges (que escreveu a orelha da edição original) e Hamilton Faria (que assinou o prefácio), do jornalista Zema Ribeiro, além do autor Joãozinho Ribeiro.

A transmissão acontecerá pelo canal da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) no youtube.

Divulgação

Serviço

O quê: live Tempo e paisagens: 15 anos de “Paisagem feita de tempo”
Quem: o poeta Joãozinho Ribeiro e convidados
Quando: dia 24 de setembro (sexta-feira), às 19h
Onde: canal da SMDH no youtube
Quanto: grátis

Morre o último beat

O poeta Lawrence Ferlinghetti era um beat que não se considerava como tal, embora sua livraria/editora, a City Lights, tenha sido imprescindível para a difusão das ideias do movimento que reuniu nomes como Jack Kerouac, Gregory Corso, William Burroughs e, entre outros, Allen Ginsberg – Ferlinghetti chegou a ser preso em 1956 após sua editora publicar “Uivo”, do último, sendo posteriormente absolvido pela corte norte-americana, após provar que o poema não é obsceno.

Não sei se Ferlinghetti, homem de esquerda, chegou a tomar conhecimento de Jair Bolsonaro e do desastre que o genocida representa não apenas para o Brasil e penso nisso ao reler uma entrevista do poeta ao colega de ofício brasileiro Rodrigo Garcia Lopes. Na conversa, publicada no volume “Vozes e visões: panorama da arte e cultura norte-americanas hoje” (Iluminuras, 1996), ele não usa eufemismos ao se referir aos presidentes americanos Ronald Reagan (“um zero em matéria de ecologia”), Richard Nixon (“o que Nixon fez ultrapassou a mais paranóica das imaginações”) e George Bush (“de uma completa ignorância e estupidez. É um idiota”).

Na mesma entrevista, Ferlinghetti diz achar “que neste século a biografia, assim como a entrevista, acabou virando uma nova forma de arte”, e, referindo-se à própria biografia, escrita por Barry Silesky: “essa biografia é pura ficção. Biografia virou ficção”.

Pacifista convicto, Ferlinghetti serviu à marinha americana na segunda guerra mundial, tendo estado na invasão da Normandia e visitado Nagasaki uma semana após a explosão da bomba atômica. “Era como um par de quilômetros quadrados cobertos de nada, mas com cabelo humano e ossos saindo, algo horrível de se ver”, afirmou em depoimento ao Public Broadcasting Service (PBS), em 2002.

Em 2012, coerente com suas convicções, o poeta recusou um prêmio húngaro de mais de 64 mil dólares, o Prêmio Internacional de Poesia Janus Pannonius; à época, ele disse que “se o prêmio é em parte financiado pelo governo húngaro, e as políticas de direita deste regime tendem ao autoritarismo e o consequente cercear das liberdades de expressão e civis, penso ser impossível, para mim, aceitá-lo”, conforme matéria de Carolyn Kellogg, dos Los Angeles Times Books, traduzida por este repórter na ocasião.

Seu “Poesia como arte insurgente” (2007) – uma de suas obras mais recentes, no prelo pela Editora 34, em tradução de Fabiano Calixto – foi escrito e reescrito por mais de 60 anos e é uma coleção de aforismos ferinos, pílulas de dicas para poetas e escritores, mas não só. “Se você quer ser um poeta, crie obras capazes de responder aos desafios dos tempos apocalípticos, mesmo se isso soar apocalíptico”, recomenda (aqui em tradução de Léo Gonçalves), no livro.

Na mesma obra é também certeiro: “A guerra contra a imaginação não é a única guerra. Usando o desastre das torres gêmeas do onze de setembro como desculpa, os Estados Unidos iniciaram a terceira guerra mundial, que é a guerra contra o terceiro mundo” (idem). E finalmente: “Resista mais, obedeça menos” (ibidem).

Reuben da Cunha Rocha, que também traduziu alguns destes poemas curtíssimos, classificou o livro de Ferlinghetti como um “exercício desbragado de contradição, como toda definição do que seja poesia”.

Ainda no livro e na tradução de Reuben, algumas definições de poesia, por Ferlinghetti: “a ficção suprema”; “graffiti eterno no coração de cada um”; “gíria de anjos e diabos”; “a anarquia dos sentidos fazendo sentido”; “o perfume da resistência” e “o poeta um batedor de carteiras da realidade”; em suma, “poesia não vale nada e por isso não tem preço”.

No Brasil, Ferlinghetti foi traduzido também por nomes como Paulo Leminski, Nelson Ascher, Eduardo Bueno e o recém-oitentão Leonardo Fróes.

Sua crítica ao capitalismo, incompatível com a democracia, segundo ele, comparece a poemas como, por exemplo, “Autobiografia” (de “Um parque de diversões na cabeça”, originalmente publicado em 1958): “li as Seleções de Reader’s Digest/ de cabo a rabo/ e notei a perfeita identificação/ entre os Estados Unidos e a terra prometida/ já que em todas as moedas está impresso/ confiamos em Deus/ mas nas notas de dólar não há inscrição alguma/ porque são deuses elas próprias” (tradução de Eduardo Bueno, L&PM, 2007).

“Lawrence Ferlinghetti nasceu em Nova York a 24 de março de 1919. Filho de um imigrante italiano, foi criado por uma tia francesa. Passou seus primeiros cinco anos de vida em Strasburg, França; outro bilíngue na beat. Antes de servir no exército, foi jornalista esportivo e pescador; já publicava contos”, anota Claudio Willer em “San Francisco” (in: “Geração Beat”, L&PM, 2009).

Continua o “beat”ólogo: “com uma bolsa para veteranos de guerra, graduou-se e fez mestrado em Columbia e doutorou-se em literatura na Sorbonne, antes de estabelecer-se em San Francisco em 1953, atuou como ponte entre a literatura americana e a francesa, surrealismo inclusive. Tanto é que entre os primeiros títulos da City Lights estavam coletâneas de textos de Antonin Artaud e Jacques Prévert. É autor de “A coney island of the mind (Um parque de diversões na cabeça)”, outro livro de poesia que já vendeu milhões de exemplares; a reunião de poesias “Endless life (Vida sem fim)”; “The secret meaning of things (O significado secreto das coisas)”; a prosa poética de “Her (Dela)”, textos políticos como “Tirannus Nix?” e tantos outros. Também é pintor. Sempre esteve presente no front político, incluindo suas viagens a Cuba em 1960, à Nicarágua sandinista nos anos 1980 e, mais recentemente, em apoio aos zapatistas mexicanos”.

Lawrence Ferlinghetti, o último poeta beat, faleceu hoje, aos 101 anos. Seu filho Lorenzo confirmou a informação ao Washington Post, atribuindo a uma doença pulmonar a causa da morte.

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Leia também a entrevista de Lawrence Ferlinghetti a Jotabê Medeiros, reproduzida pelo Farofafá.

As Independências do Brasil

Toque de avançar – Destino: Independência. Capa. Reprodução

Às vésperas dos 200 anos da proclamação da independência do Brasil, o jornalista e escritor Flávio Paiva publica “Toque de avançar – Destino: Independência” [Armazém da Cultura, 2020, 120 p.], em.que remonta a história brasileira se valendo, aqui e ali, das tintas da ficção. 

Paiva parte do acontecimento histórico para investigar a origem do lugar onde nasceu, em 1959: o município de Independência, no Ceará.

Numa prosa que transforma referências bibliográficas, frutos de extensa pesquisa do autor, em relatos soprados à sombra de oiticicas. As aventuras têm o som do pife como trilha sonora – a parceria de Paiva com o compositor paulista Edvaldo Santana, filhos de nordestinos, na faixa homônima, trilha do livro, está disponível para audição nas plataformas de streaming.

Paiva transforma-se num herói sem nome, que, munido de seu instrumento musical, curiosidade e bravura, narra e participa dos feitos que levaram a adesões tardias à independência na região – além do Ceará, a história se passa também no Piauí e Maranhão.

As ilustrações de Válber Benevides, em acrílica aquarelada e nanquim sobre tela, são um espetáculo à parte, nesta obra multimídia em essência, que revela que a independência do Brasil foi um processo para além do grito de Dom Pedro às margens do Ipiranga, imortalizado no famoso quadro de Pedro Américo, fartamente reproduzido em livros escolares.

“Meu caso de biógrafo da família”

O último pau de arara. Capa. Reprodução

“O último pau de arara” [Grafatório, 2020, 172 p.; R$ 79,90], novo livro de Jotabê Medeiros, bem poderia ser um roteiro dos irmãos Coen e, se digo isto, não é pela inevitabilidade do clichê, mas pela habilidade do próprio autor em jogar com seu ofício – o universo da cultura pop sempre foi seu ganha-pão – ao contar a história de alguém que, embora o respeitasse, nunca ligou muito para isso, tratava quadrinhos com desprezo e nunca foi ao cinema.

O livro é um misto de biografia de João Francisco de Medeiros, seu pai, autobiografia, autoficção e ensaio sociológico sobre migrações internas, muito mais comuns no Brasil de outrora, mas ainda presentes, sobretudo no recrutamento de trabalhadores em situações análogas à escravidão. Há alguma doçura na forma como são narrados certos episódios de violência, e não são poucas as cenas de fúria incontida de seu pai, jamais soando condescendente. “Essa é uma obra de fricção. Espremida entre a memória e a vontade de contar”, diz em boutade, em que anuncia também um escancarar de intimidades, também nunca soando vulgar.

Aos três anos de idade, em 1965, o 11º filho do “Paraíba”, o primeiro homem entre 15 filhos, viajou de Sumé até a nascente Cianorte, no Paraná, em um caminhão de sal. Dessa viagem clandestina vem o título do livro, emulando o sucesso de Fagner, de autoria de José Cândido, Venâncio e Corumba.

A partir de remontar fragmentos da trajetória de seu próprio pai, Jotabê Medeiros remonta a trajetória de sua enorme família – e a sua: o paraibano do interior que se muda muito cedo para o Paraná, em busca de melhores condições de vida, forma-se em jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina e depois se muda para São Paulo, onde viria a se tornar um dos maiores jornalistas culturais do país – isto não é ele quem diz no livro, sou eu quem digo novamente, aqui e agora –, autor das festejadas e honestas biografias de Belchior (2017) e Raul Seixas (2019).

O jornalista é hábil em contar uma história que nos prende a atenção, mesmo em não se tratando de um protagonista de vida pública – o autor não nos poupa mesmo de suas dúvidas durante o processo de feitura do livro: seria seu próprio pai um personagem biografável? Embora aqui e acolá falemos dele no passado, como o faz também o autor, João Francisco de Medeiros está vivo – sofreu um AVC e teve uma perna amputada nos últimos anos – e completará 103 no próximo abril.

Baseado na própria memória, em conversas com familiares, viagens e rara documentação, Jotabê Medeiros não se deixa vencer pelas lacunas, urdindo texto delicioso, como é de seu feitio, histórias que se entrecruzam, como os constantes escambos que seu pai acabou tornando meio de vida. Em meio a tudo isso há um belo tributo ao irmão apelidado Jack, batizado em homenagem a Jackson do Pandeiro, ídolo de sua mãe – a ele o autor dedicou “Belchior: Apenas um rapaz latino-americano”: o irmão faleceu justo na semana em que o biógrafo viajaria a Santa Cruz do Sul, nos rastros do biografado então desaparecido. Com a mudança de planos e a ida ao velório do irmão, Belchior faleceu em sequência e aquela biografia foi finalizada com o relato de seu velório, entre a Sobral natal e Fortaleza.

A realçar a delicadeza e elegância do texto de Jotabê Medeiros, o estonteante projeto gráfico da Grafatório – marca da pequena casa editorial de Londrina/PR –, com xilogravuras de Luiz Matuto. A tiragem limitadíssima de 750 exemplares foi possível graças a um financiamento coletivo. Os que contribuíram já recebemos um pdf por e-mail, no que adiantei a leitura, na certeza de que relerei tão logo me chegue às mãos o exemplar impresso – a pindaíba, a pandemia e o capricho editorial acabaram atrasando um pouco as coisas, mas de mais longe já viemos, como quem desce de Sumé à Cianorte num caminhão de sal.

Leia um trecho de “O último pau de arara”.

Vale mais do que pesa

Meu nome é ébano – A vida e a obra de Luiz Melodia. Capa. Reprodução

Nada há de surpreendente ou revelador, ou novidade qualquer desconhecida do fã médio de Luiz Melodia em Meu nome é ébano – A vida e a obra de Luiz Melodia (Tordesilhas, 2020, 301 p.; R$ 55,00), biografia escrita pelo jornalista Toninho Vaz, autor das biografias também insossas de Paulo Leminski (2001) e Torquato Neto (2005) – enormes e complexos personagens que poderiam redundar em livros idem, mas ficam a meio caminho.

A narrativa é linear, para não dizer preguiçosa, começando com a construção da casa da família no morro de São Carlos pelo pai de Luiz, Oswaldo Melodia, de quem ele viria a herdar o sobrenome artístico – embora nunca tenha encarado uma carreira profissionalmente, Oswaldo era compositor, autor, por exemplo, do choro Maura, gravado por Luiz –, e termina com a morte, em 2017, aos 66 anos, em decorrência de complicações de um câncer na medula.

Em meio a tudo isso, histórias conhecidas por todos: alçado ao estrelato pela gravação de Pérola negra por Gal Costa, em 1971, antes mesmo de seu disco de estreia (1973) – fundamental em qualquer coleção de MPB que se preze –, que acabaria batizado por aquela música; a descida do morro de São Carlos, no bairro do Estácio, para o asfalto; a reconhecida elegância de filho de costureira interessado por moda; a insubordinação aos ditames da indústria fonográfica – “como pode um negro que não canta (apenas) samba?”, perguntavam-se os tecnocratas do setor, à época –, o que acabou lhe valendo a pecha de “maldito” da MPB, ao lado de nomes como Jards Macalé, Sérgio Sampaio e Itamar Assumpção, cuja relação com Melodia é pobremente relatada na obra, apesar de o primeiro assinar o texto da quarta capa.

Vaz relembra, por exemplo, que Macalé compôs Negra melodia em homenagem ao amigo, mas sequer cita a participação de Luiz Melodia em Doce melodia, homenagem de Sérgio Sampaio a ele gravada por ambos em Sinceramente (1982), último disco lançado pelo capixaba em vida; ou Quem é cover de quem?, com que Itamar Assumpção homenageou-o no primeiro dos três volumes de Bicho de 7 cabeças (1993), em que era acompanhado pela banda exclusivamente feminina Orquídeas do Brasil. A música é uma brincadeira com a semelhança física e a fama de malditos de ambos. Citação da participação de Melodia em Vida cigana, do maranhense Adler São Luiz, nem em sonho.

Entre outros deslizes, imprecisões e incorreções, um apêndice com a discografia, ao fim do volume, opta por citar o intérprete (Luiz Melodia) em vez dos compositores registrados pelo biografado em seus álbuns, o que pode causar certa confusão na cabeça do leitor mais desavisado ou mesmo cooperar para a manutenção do quase anonimato de nomes como Getúlio Cortes (de quem Luiz Melodia regravou os “sucessos de Roberto Carlos” Negro gato e Quase fui lhe procurar), Zé Keti (Diz que fui por aí), Cartola (Tive sim) e Ismael Silva (Contrastes) ou mesmo de um mais conhecido Cazuza (Codinome Beija-flor). Lembrando que, dono de uma dicção completamente particular na história da música popular brasileira, Luiz Melodia apropriava-se de tal modo do que interpretava que parecia mesmo ser o compositor de tudo aquilo que cantava.

A cobertura da morte de Luiz Carlos dos Santos (7/1/1951-4/8/2017), nome de batismo de Luiz Melodia, pela imprensa também foi abordada por Vaz em sua biografia. Não comparece às páginas do livro o obituário escrito para o portal UOL pelo jornalista Jotabê Medeiros, um dos mais completos publicados à época – talvez por vaidade, para evitar citar a “concorrência”: Medeiros, sabemos, é autor das biografias de Belchior (2017) e Raul Seixas (2020), a cujas referências bibliográficas comparece o Solar da Fossa (2011) de Vaz.

O grande trunfo de Meu nome é ébano é o mergulho no conceito e produção da espaçada discografia de Luiz Melodia. Alguns capítulos são batizados por discos como Maravilhas contemporâneas (1976), Mico de circo (1978) e 14 quilates (1997) e descrevem bastidores de composições, gravações e lançamentos. Por sua indiscutível grandeza, Melodia merecia mais.

Cultura nordestina em pauta no Itaú Cultural

Clarice Lispector por Carlos Scliar. Reprodução
Clarice Lispector por Carlos Scliar. Reprodução

 

Um lado em geral menos conhecido da escritora Clarice Lispector (1920-1977) é o de pintora. André Bernardo, em texto publicado ontem, no site do Itaú Cultural, homenageando-a por seu centenário, relembra com elegância esta faceta da ucraniana radicada brasileira – ela costumava se declarar pernambucana – inaugurando a Semana da Cultura Nordestina: as publicações seguem de ontem até a próxima sexta-feira (7).

O texto de Bernardo relembra o episódio em que a escritora Nélida Piñon arrematou, por 220 mil reais, um quadro de Clarice num leilão em 2019. Trecho do texto: ““Quando eu soube que um quadro de Clarice iria a leilão, fique chateada: ‘Meu Deus, minha amada amiga em uma casa estranha? Uma casa que ela não conhece nem nunca frequentou? Não posso deixar isso acontecer’. E, realmente, não deixei”, orgulha-se a escritora. “Eu só não imaginava que o quadro fosse chegar ao valor que chegou. Foi uma coisa espantosa. Até hoje, não sei onde eu estava com a cabeça”, acha graça. “Pensei que chegaria, no máximo, a uns 15 mil reais. Fui tomada por algo tão forte que, a cada novo lance, eu me limitava a repetir ao telefone: ‘Avance, avance, avance’. Os quadros de Clarice têm um valor sentimental extraordinário”, confessa Nélida, que conviveu com a escritora, todos os dias, por 18 anos, de 1959 a 1977, o ano de sua morte”.

A Semana da Cultura Nordestina relembrará ainda nomes como Alceu Valença, Chico Science, Elomar e Nelson Rodrigues, entre outros, além da artista visual recifense Bruna Valença e a fotógrafa maranhense Gê Viana, que abre uma nova seção no site da instituição, o Rumos da Fotografia no Brasil, com curadoria do jornalista Cassiano Viana.

O silêncio do boi e a voz do poeta

Boi. Capa. Reprodução
Boi. Capa. Reprodução

O jornalista e poeta Celso Borges é autor de pelo menos um clássico da música popular produzida no Maranhão, sobretudo no período junino. Muitos cantam e assobiam, mas poucos se ligam que ele é parceiro de Zeca Baleiro e do saudoso percussionista argentino Ramiro Musotto em A serpente (Outra lenda), de versos como “eu quero ver/ quero ver a serpente acordar/ pra nunca mais a cidade dormir”, gravada por Baleiro em seu álbum Pet shop mundo cão (2002).

Seus poemas-toadas, registrados nas páginas de seus livros, ou gravados por vozes como a de Cláudio Lima (Boi tarja preta, parceria com Alê Muniz, gravada em Rosa dos ventos, de 2017), vez por outra trazem ácidas críticas ao sistema político ou mesmo à degeneração de grupos de bumba meu boi, que veem a originalidade diluída, transformando-se em “boizinhos de butique” para “turistas de pacote”, conversa pra boi dormir pra inglês ver.

Se A serpente (Outra lenda) não figura na coletânea Boi (Editora Passagens, 2020, 56 p.; disponível para download gratuito no site da editora, bem como todos os títulos por ela editados) não faltam bons motivos para baixar o volume e lê-lo. A obra integra a coleção “Livrinho também é livro”, coordenada por ele e a editora Isis Rost, que já publicou os títulos Rua morta, de Luís Inácio Oliveira, e O declínio da narrativa, dela, todos em 2020, todos durante o período de isolamento social imposto pela pandemia de covid-19.

Em Boi, Celso Borges revê poemas e letras de música que têm o bumba meu boi como mote, escritos por ele ao longo dos últimos 25 anos, “tempos depois do compositor Giordano Mochel me dizer que o nosso coração pulsava no ritmo do boi. Eu já sentia isso naquela época, mas a certeza dessa verdade cresceu mais e mais nos anos seguintes”, anota o autor em “O silêncio do boi não é do boi”, à guisa de prefácio. Ele abre o texto: “Não ouvimos as toadas, matracas e zabumbas dos bois do Maranhão em 2020. Esta é a primeira vez na história, desde quando o boi se apresenta em quintais, terreiros, largos ou arraiais da cidade, que ouvimos apenas o silêncio ensurdecedor de nossa representação mítica mais potente. Este livrinho nasce dessa não voz, ou da poesia dessa voz na memória, ou do afeto que vislumbro a partir da falta do boi e suas zoadas essenciais”.

Com projeto gráfico e diagramação de Isis Rost, Boi é também uma coleção de representações do bumba meu boi, entre pinturas e fotografias, de nomes que vão de Pablo Picasso a Cícero Dias e Ribamar Rocha, passando pela xilogravura de J. Borges, entre outros. A capa apresenta o detalhe de uma pintura de Ciro Falcão sobre o São João do Maranhão.

[texto originalmente publicado no JP Turismo, Jornal Pequeno, de hoje (19)]

Dois contistas no bar após a pandemia

O escritor Rubem Fonseca. Foto: Zeca Fonseca. Divulgação
O escritor Rubem Fonseca. Foto: Zeca Fonseca. Divulgação

O escritor Sérgio Sant'Anna. Foto: Daniel Ramalho. Jornal Cândido. Biblioteca Pública do Paraná/ Reprodução
O escritor Sérgio Sant’Anna. Foto: Daniel Ramalho. Jornal Cândido. Biblioteca Pública do Paraná/ Reprodução

Sérgio passou em frente ao bar e notou a careca literalmente brilhante de Rubem, chope gelado recém-servido. Fazia calor e só com os olhares se convidaram e se permitiram a dividir a mesa. “Há tempos não vinha aqui. Não suporto bar com tevê. Mesmo se transmitem jogos. Se quero ver o Fluminense, vou ao Maracanã, mesas redondas, pra casa”, disse Sérgio, com intimidade que dispensava boa tarde e como vai. “Parei pela sede, calor. Também não gosto. Por isso não entrei”, respondeu Rubem. “Coisa que me tira do sério é essa turma que vem pra bar, teatro, show e não larga celular. A pandemia acabou, mas continuam levando o isolamento muito a sério. Ninguém mais conversa pra gente captar algo e escrever um novo conto”, continuou. “Piorou. Vivemos algo que nem nossas ficções foram capazes de criar”.

[Microconto que escrevi para concorrer a um edital do Itaú Cultural. Não ganhei. Como não sou de deixar nada na gaveta, publico aqui, aproveitando o ensejo para parabenizar os maranhenses Adriana Gama de Araújo, Celso Borges, Gustavo Marques da Silva Castro e Ícaro Novais, pela seleção no citado certame]

Artistas da rua

A Mórula Editorial disponibilizou gratuitamente o e-book “Aldir 70”

A medicina bate à porta

TENHO TANTA RAIVA DE TELEFONE que costumo atender com um rosnado.

— Blanc?

— Infelizmente.

— É o Baiano, meu nego. Mas se você vai escrever sobre isso, não esquece de registrar que meu nome é Wilson Flora, senão o pessoal lá na minha terra não acredita.

— Tá.

— Eu queria fazer uma rápida consulta médica, por telefone mesmo. É o seguinte:…

— Baiano, você sabe que eu detesto esse troço. Parei de clinicar na década de 70. Logo, o máximo que sou, hoje em dia, é uma espécie de palpiteiro com curso superior, que, no meu caso específico, foi bastante inferior.

— Mas é coisa simples. Andei bebendo demais e o médico me pediu tanto exame que eu comecei a passar mal só de ler a relação.

— Hum… Que tipo de exame?

— Glicídios, lipídios, adílios, otacílios…

— Você já bebeu hoje?

— Pra tomar coragem de ligar pra você. Eu tenho horror dessas conversas sobre doença.

— Eu também, Baiano. Parei por causa disso.

— Mas é diferente, Blanc. Você viveu durante anos essa dura realidade, eu diria mesmo heroica, nas condições em que se faz medicina em nosso país, e teve um papel preponderante, ainda que por pouco tempo…

— Higiênico.

— Hein?

— O papel. Você tá tentando me vender outro carro? Se essa conversa acabar com a descrição de um modelo 88 de caminhonete, uma joia, que apareceu na agência, em perfeito estado, um milagre etc., na próxima vez que a gente se encontrar, eu vou armado.

— Não, nada disso! Poxa, Blanc, até parece que eu, em minha honrada profissão, me comporto feito um escroto qualquer.

— Errou só por um pequeno detalhe: um escroto qualquer vende carro com um mínimo de consideração pela vítima. Você, não. Você é Medalha de Ouro em todas as modalidades de escrotidão, 4 x 100, com ou sem vara, em distância, em altura… Você apronta sacanagem até em jogo de peteca.

— Compreendo seu mau humor. O Vasco ainda não convenceu, o Edmundo é uma incógnita, e você…

— Isso não tem nada que ver com o Vasco.

— Tenho um favor pra te pedir. O cara que está monitorando meu quadro (gostou dessa?), quer… bem… sejamos diretos: um exame de próstata, e eu me recuso a permitir que um desconhecido me dede. Escolhi você.

— Quer que seja no Canecão, com show de mulatas, noite de autógrafos etc.?

— Só te peço que pense no meu caso com carinho. Bom, tenho que sair. Vou a uma dessas casas de instrumentos musicais.

— ???

— O médico disse que vou fazer uma verdadeira bateria de exames. Tô indo comprar um surdo e um apito. O laboratório que se exploda, mas minha bateria sem surdo e sem apito, nem pensar.

*

Aldir 70. Capa. Reprodução
Aldir 70. Capa. Reprodução

Crônica do imenso Aldir Blanc, que deixou o Brasil mais triste, sem graça e menos inteligente no último dia 4 de maio. A Mórula Editorial, que publicou cinco livros do compositor e cronista em 2016, por ocasião de seu aniversário de 70 anos, disponibilizou, gratuitamente, o e-book Aldir 70, reunindo algumas crônicas daqueles volumes. Acesse o site da editora para baixar.

Sérgio Sant’Anna (1941-2020)

O escritor Sérgio Sant'Anna. Foto: Daniel Ramalho. Jornal Cândido. Biblioteca Pública do Paraná/ Reprodução
O escritor Sérgio Sant’Anna. Foto: Daniel Ramalho. Jornal Cândido. Biblioteca Pública do Paraná/ Reprodução

 

Os últimos contos que Sérgio Sant’Anna (30/10/1941-10/5/2020) publicou em vida, Das memórias de uma trave de futebol em 1955, no caderno Ilustríssima da Folha de S. Paulo em 26 de abril passado, e A dama de branco, em 1º. de maio, na revista Época, atestavam que o peso dos anos não lhe afetou a qualidade da obra. O par de contos podia figurar em qualquer de seus livros mais recentes, Anjo noturno: narrativas (2017), O conto zero e outras histórias (2016) e O homem-mulher (2014) todos publicados pela Companhia das Letras.

O escritor faleceu nesta madrugada, vítima do coronavírus. Era merecidamente considerado um dos maiores escritores brasileiros em atividade, com sua prosa elegante entre o conto e o romance, povoada de tipos urbanos, violência, sexo e em diálogo permanente com outras linguagens, como a música, as artes visuais e o cinema, arte a que teve adaptadas algumas de suas obras, com destaque para Um crime delicado (Companhia das Letras, 1997), que ganhou a tela grande pelas mãos do diretor Beto Brant em 2005.

O declínio do Rio de Janeiro (e do Brasil) também estava entre seus temas prediletos. Lembrava com solenidade os bares de paredes espelhadas que podiam se tornar o paraíso de quem queria flertar ou o inferno de um cônjuge eventualmente acusado de algo que sequer estava fazendo. Também as apostas no turfe, frequentado por homens elegantemente vestidos, como se, justamente, para figurar em sua prosa, além do futebol, sobretudo os jogos e treinos do Fluminense, seu time do coração, que nos legou obras-primas como Páginas sem glória (Companhia das Letras, 2012).

Quando descobri seu perfil no facebook, a princípio desconfiei, como daquele lendário perfil de João Gilberto entrevistado pela revista Trip – um dos livros mais festejados de Sant’Anna é justamente O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (1982). Perderia Sérgio Sant’Anna tempo em redes sociais, sempre burilando um próximo conto genial com que nos deleitaríamos quando do lançamento de uma próxima coletânea? Sim, e mesmo fora da página no livro, o capricho de sempre com as letras: escrever confundia-se com sua própria vida, entre o ganha-pão, a diversão e o descanso.

Era um ardoroso combatente do bolsonarismo e de toda a desumanidade impregnada e exalada pelo regime neofascista tupiniquim. Na rede social chegou a escrever que “o Brasil é um filme de terror”, entre suas manifestações diárias de preocupação com os rumos do país, desgovernado por gente que nunca leu uma linha escrita por ele e tampouco dirá qualquer coisa sobre seu falecimento, aos 78 anos, com um legado monumental.

Pela rede social também, anunciou a suspeita de ter contraído a covid-19, o que viria a se confirmar com sua internação. “Hoje pra mim foi barra, tive vários sintomas e achei que estava com o vírus. Mas meu clínico veio aqui e me receitou antibióticos. Estamos vivendo no fio da navalha”, manifestou-se em 28 de abril.

Atencioso, um pouco antes, me respondera um e-mail, negando um pedido de entrevista que lhe fiz. A ideia era que ele falasse ao Radioletra sobre o conto recém-publicado na Folha. “Agradeço o convite, mas estou com problemas de saúde e não posso aceitá-lo. Um abraço. Sérgio”, escreveu.

A morte era também uma das obsessões do escritor. Como lembra este parágrafo de “Lencinhos”, conto de O homem-mulher, um de meus prediletos, entre tantos: ““Vou contar uma coisa para vocês”, eu disse. “Às vezes imagino que renasço numa vida futura e encontro meu pai já falecido e outros amigos mortos e todos nos regozijamos, e é como se não houvesse passado tempo nenhum desta vida para a outra.””. No facebook escreveu, em 23 de abril: “A gente morre, mas se diverte”.

Mas sua obsessão mesmo era escrever e reinventar-se. Como revelou ao jornalista Alvaro Costa e Silva em um perfil publicado no jornal Cândido, publicação mensal da Biblioteca Pública do Paraná: “A cada nova obra, procuro fazer alguma coisa diferente. Do contrário, perderia a graça”. Ou como se manifestou pela rede social, também a 23 de abril: “Meus queridos e minhas queridas, não quero assustar ninguém, mas acho a peste que nos assola simplesmente aterrorizante. Não encontro outro modo de reagir se não escrevendo”.

A lenda Rubem Fonseca

O escritor Rubem Fonseca. Foto: Zeca Fonseca. Divulgação
O escritor Rubem Fonseca. Foto: Zeca Fonseca. Divulgação

 

Como todo escritor (ou artista, em geral) que escolheu viver em reclusão, Rubem Fonseca (Juiz de Fora/MG, 11/5/1925 – Rio de Janeiro/RJ, 15/4/2020) também angariou, ao longo de seus quase 95 anos de vida, certo folclore ao redor de sua vida particular – se é que figuras públicas as têm.

Um dos maiores nomes da literatura brasileira em todos os tempos, com seu estilo seco, cortante, lascivo, duro, violento e urbano, autor de uma vasta obra entre contos e romances, adaptada ao cinema (Bufo & Spallanzani, de 1986) e à televisão (Agosto, de 1990), Rubem Fonseca parecia predestinado ao ofício que tão bem cumpriu desde a estreia, com os contos de Os prisioneiros (1963).

Nascido em Juiz de Fora/MG, tornou-se carioca aos oito anos de idade. Sua formação em Direito e atuação como delegado de polícia civil certamente ajudaram a moldar ambientes e personagens de suas obras iniciais e, portanto, a pavimentar sua trajetória, de merecido destaque sobretudo na literatura policial.

Seu livro mais recente é Carne crua (2018) e sua literatura é por demais conhecida – venceu seis prêmios Jabuti, dois APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), um Camões e um Machado de Assis –: influenciou quase todo contista que surgiu depois.

Por livros mais recentes, a crítica costumava dizer que o autor estava se repetindo, imitando a si mesmo; mas mesmo em títulos menos inspirados, ainda era superior à grande parte de seus pares de ofício.

Abordá-lo pelo viés de sua obra talvez tornasse tudo mais fácil ou simples, embora trabalhoso, com sua galeria povoada por Mandrake, José, Morel e tantos outros personagens que marcaram seus leitores.

Fico com duas histórias, digamos, extraliterárias, protagonizadas por Rubem Fonseca – que reconto aqui ao sabor da memória que, obviamente, pode estar me traindo.

Em 1989, já escritor famoso, ele estava em Berlim, na data exata da derrubada do muro. O repórter de televisão que entrevistou o brasileiro que participava do momento histórico não o identificou e caiu no trote do escritor, que não se apesentou com tal e foi veiculado nos lares conterrâneos como um brasileiro comum – era conhecida sua aversão a entrevistas, fotografias e câmeras.

A segunda, mais recente, pareceu um troco da vida. Um repórter, disfarçado de estudante de letras, abordou-o a caminho da padaria, dizendo precisar de ajuda para um trabalho da faculdade. Afável, Rubem Fonseca não se fez de rogado, mas dias depois leria no jornal a entrevista que “havia concedido” num banco de praça. No texto, indagado sobre como queria morrer, não vacilou: “tomara que bem velhinho e abraçado a uma gostosa”.

Rubem Fonseca faleceu hoje (15), no Rio de Janeiro, vítima de uma parada cardíaca. Tinha 94 anos.

As memórias elegantes de Nirlando Beirão

Meus começos e meu fim. Capa. Reprodução
Meus começos e meu fim. Capa. Reprodução

 

Nirlando Beirão é jornalista raro (ou em extinção, como queiram).

A afirmação entre parênteses não se deve, obviamente, ao diagnóstico de sua Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), pauta de Meus começos e meu fim [Companhia das Letras, 2019, 186 p.; R$ 49,90].

Digo que Nirlando é raro por que, ao mesmo tempo em que se apregoa a morte do jornalismo, ao menos nos termos em que o conhecíamos até aqui, é ele, além de o dono de um dos textos mais elegantes do jornalismo brasileiro, alguém cujos mais de 50 anos de profissão (ou carreira, ou trajetória, como queiram), permitem-no uma espécie de jornalismo de memória, algo que lhe dispensa a consulta a arquivos, fontes ou qualquer investigação. Ele pode escrever, por exemplo, sobre a Copa do Mundo de 1970, o fim dos Beatles ou sobre o golpe que destituiu Dilma Rousseff da presidência da república, e tudo que daí adveio, com base apenas em suas lembranças.

“Eu sou assumidamente esquerda-foie gras”, disse, além de tudo aquilo, aos três mosqueteiros do jornalismo cultural na CartaCapital – de que Nirlando Beirão é editor executivo, portanto, chefe de Eduardo Nunomura, Jotabê Medeiros e Pedro Alexandre Sanches.

Equilibra-se entre a dor e um senso de humor finíssimo que se não lhe agrada, certamente o fará aos leitores (aproveitando para imaginar que a maior parte dos que comprarem o livro acompanham Beirão há mais ou menos tempo na imprensa).

Andar por sobre esta slack line é o que faz com habilidade ao longo do livro, em que mescla a própria estrada que percorre no “País da Doença” – nome com que ele mesmo se refere à ELA, de forma a tornar o convívio menos doloroso – à história de seu avô António Beirão, padre português que, chegado ao Brasil, trocou o amor divino pela paixão terrena, casando-se com a avó do jornalista, Esméria.

Com sua habitual elegância e a habilidade de um jornalista que descansa carregando pedras – como o fazem os jornalistas de verdade –, Nirlando Beirão tece uma colcha de retalhos baseada sobretudo em suas memórias, entre almoços de família, leituras, lições de jornalismo e política, assunto do qual se esquiva o quanto pode, mas do qual é impossível se afastar completamente, ainda mais em se tratando de Brasil.

É tocante, em meio a tudo isso, por exemplo, o breve perfil que faz do amigo Drauzio Varella, o médico, astro de televisão e escritor, mesmo sem citar seu nome, como a querer evitar ser acusado de qualquer vaidade. O doutor Drauzio, como é intimamente chamado por milhões de brasileiros, assina o texto da quarta capa de Meus começos e meu fim.

Nirlando Beirão nega o bom humor, ao revelar como lida com a doença no cotidiano, no trato com visitas e transeuntes, mas em sua narrativa não há espaço, tampouco, para a autopiedade, embora ele escreva, numa passagem, que a de 2018 foi sua “derradeira Copa do Mundo”, para imediatamente se/nos tranquilizar: “Página virada, é hora de despistar as humilhações miúdas do cotidiano não mais com miragens de longo prazo, e sim com tarefas de produtivo diversionismo”, no que parece estar falando do próprio livro, às vésperas de terminar de escrevê-lo.

Em um trecho revelador dos paralelos entre a ditadura civil-militar brasileira (1964-1985) e o atual desgoverno patético de extrema-direita de Jair Bolsonaro, cultor da ignorância, ele nos conta, ao revelar que o bom jornalismo também é feito com uma boa dose de sorte: “O furo que chamo de folclórico aconteceu também por obra do aleatório. Eu estava em Brasília no dia em que o homem pisou na Lua. A embaixada norte-americana preparou um coquetel para convidados, e ali assistimos, uisquinho na mão, ao evento planetário”.

E continua: “Saí de lá conduzido pela curiosidade pessoal e imbuído do dever profissional: o que é que o presidente da República, quero dizer, o nosso, teria a dizer sobre a conquista? Tive de recorrer a sucessivos telefonemas, naquela era pré-celular, mobilizando do porta-voz da Presidência ao ajudante de ordens, para enfim descobrir a verdade. Enquanto Neil Armstrong deixava sua pegada na superfície da Lua, o general Costa e Silva decidia se descartava um valete ou uma dama na animada mesa de jogo do Alvorada. Não deu a mínima para aquela bobagem da Nasa”.

Os dois assuntos se mesclam e retroalimentam, os começos – o pecado e o casamento dos avós, a consequente prole – e o fim – a doença degenerativa que ainda lhe permite funcionarem a mão direita e a cabeça, como ele mesmo anota também. Nirlando Beirão constrói sua narrativa sem grandes preocupações com o rigor jornalístico, mas com as habituais referências às suas paixões de bon vivant, que garantem a leveza que caracteriza seu texto desde e para sempre.

No fim da infância, no curso da música/vida

No fim da infância. Capa. Reprodução
No fim da infância. Capa. Reprodução

 

No fim da infância [Grafatório Edições, 2019, 98 p.], de Arrigo Barnabé, reúne textos publicados, a grande maioria, no site e na versão impressa da revista piauí (em minúsculas mesmo, revisor! Obrigado!). A edição é um capricho, marca dos projetos gráficos da editora conterrânea do músico.

Ilustrado por uma série de fotografias de formação de Barnabé, o mosaico de textos compõe uma espécie de autobiografia afetiva, com as memórias do músico de vanguarda, que revela ter tido uma infância comum e triste.

Arrigo Barnabé trajando sua mais conhecida criação em uma das fotos do livro. Foto: Cláudia Camargo Celidônio
Arrigo Barnabé trajando sua mais conhecida criação em uma das fotos do livro. Foto: Cláudia Camargo Celidônio

Arrigo Barnabé narra com elegância e delicadeza, passagens de rara beleza e sensibilidade, como a decepção de descobrir um primo tocando acordeom, até então seu instrumento preferido. Como entre os meninos da família tudo o que desse opção de escolha era exclusivo de um ou outro, aquele então se tornou o instrumento do primo, empurrando-o para o piano, instrumento que até então ele achava sem graça.

Ou o arrebatamento que foi ouvir pela primeira vez o baião Assum preto, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Seu pai chegou com o disco, colocou na vitrola e o menino Arrigo ouviu até cair num choro convulsivo. Diante da vergonha infantil de estar chorando por uma música, guardou para sempre a mentira que contou ao pai: chorava por que o Santos, por quem passara a torcer recentemente, havia perdido, aquela tarde, para o Taubaté.

Integrante da fanfarra do Colégio Marista, onde estudava, Arrigo Barnabé, entre 120 meninos, tocou, no gramado do Maracanã, antes da decisão do Mundial Interclubes de 1963, quando o Santos de Durval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe sagrou-se bicampeão do mundo ante o Milan. “Mas isso aconteceu mesmo?”, pergunta-se, diante da rememoração da realização de um sonho.

Também comparecem ao volume memórias mais recentes, como um inusitado metrônomo de madeira encontrado no painel de um táxi que tomou no Rio de Janeiro, ou uma teoria sobre a alma paulista/na do carioca Paulinho da Viola, com versos desconcertantes de clássicos como Dança da solidão, Sinal fechado e Comprimido, este, um samba no qual o portelense cita Chico Buarque. Citação por citação, Comprimido comparece a Clara Crocodilo.

Obviamente não poderia ficar de fora seu disco mais conhecido, Clara Crocodilo (1980), além de sua primeira música gravada por Tetê Espíndola (Canção dos vagalumes, em 1978), sua decepção ao ouvir a melodia de Leãozinho, de Caetano Veloso, cuja letra ele havia adorado (“letra de música, não é para ler, é para ouvir”), o “encontro marcado com Tom Jobim” (“Quando terminou, ele perguntou: – Posso ouvir de novo? Esse foi o maior elogio que recebi em toda minha vida!”), a metamorfose de “José Carlos de Souza Neves, difícil e doce amigo” em Betha Pickles, tudo isto é trazido à tona em No fim da infância.

“O tema da metamorfose (…) está presente em diversos momentos da obra de Arrigo Barnabé”, anota o editor Felipe Melhado em Como nascem os crocodilos?, posfácio à obra. “Em 2005 ele compôs uma peça intitulada justamente A metamorfose. Em sua quase ópera Gigante Negão, de 1990, o tema também aparece, de certa forma, na transfiguração do protagonista Miolo Mole em Gigante Negão. E claro, a mutação é o tema central de sua obra-prima, o álbum Clara Crocodilo, sua estreia em LP, de 1980”, anota.

Estamos diante de nove textos em prosa de um dos mais inventivos artistas da música brasileira, embora, como é comum aos gênios, por vezes incompreendido e menos conhecido do que merece.

Neste caso, não é de se estranhar ou dizer que Arrigo Barnabé tenha se convertido em exímio escritor. A fagulha já estava lá, desde o princípio: foi apenas reunida agora, para deleite do fã-clube e, espera-se, a descoberta de novos curiosos.

Prosa em quadrinhos

Travesti. Capa. Reprodução
Travesti. Capa. Reprodução

 

Extraída de um dos quadros da obra, o feto humano no ventre de uma aranha na capa de Travesti [Veneta, 2019, 130 p.; R$ 49,90; tradução: Maria Clara Carneiro], que une o traço de Edmond Baudoin ao texto de Mircea Cărtărescu, antecipa ao leitor a característica onírica do volume.

O francês Baudoin, vencedor de três Angoulême, é um dos maiores nomes dos quadrinhos no mundo, e o romeno Cărtărescu é renomado escritor, poeta e teórico literário, aposta frequente em listas de favoritos ao Nobel de literatura.

Travesti conta a história de Victor, jovem que ambiciona escrever um grande romance para a posteridade, tornando-se um grande escritor desconhecido, na Romênia de 1973. A narrativa é povoada de sonhos, renúncias e histórias adolescentes.

Os desenhos de Baudoin aliam elegância e sujeira, com seus híbridos, a vida na cidade grande, viagens (literalmente ou não), referências literárias (sobretudo Franz Kafka), as descobertas da adolescência e o sexo como só ele poderia apresentar. Um casamento perfeito com a prosa de Cărtărescu.

“Publicado no âmbito do Programa de Apoio à Publicação 2019 Carlos Drummond de Andrade do Instituto Francês do Brasil, contou com o apoio do Ministério francês da Europa e das Relações Exteriores”, lê-se na página da ficha catalográfica da obra. Ou seja: países desenvolvidos estimulam a tradução de obras de autores nativos, garantindo sua difusão ao redor do mundo. No Brasil, sob o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, não há mais Ministério da Cultura e o próprio presidente declarou que livros didáticos “têm muita coisa escrita”.

Eis, aliás, uma hq que certamente não agradaria (a começar pelo título) ao ocupante do mais alto cargo da república brasileira (e qual o agradaria?): Travesti é movido pelo delírio, com poucos diálogos, ao contrário da maior parte das histórias em quadrinhos, o texto servindo, como uma espécie de diário, mas sem o rigor das datas, na maioria das vezes, para narrar os acontecimentos em primeira pessoa.

Reprodução
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