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O melhor show de Bruno Batista (até aqui)

Bruno Batista em Bagaça. Foto: Márcio Vasconcelos
Bruno Batista em Bagaça. Foto: Márcio Vasconcelos

 

Sobre Bagaça Bruno Batista já declarou ser seu melhor disco. Ontem (10), no Mandamentos Hall (Lagoa), em show concorrido, com ingressos distribuídos gratuitamente, por conta do patrocínio da TVN via Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, o artista lançou seu quarto álbum.

Os DJs Franklin e Pedro Sobrinho prepararam o terreno – voltariam ao fim da apresentação de Bruno Batista; “quando o show termina a festa não acaba”, dizia uma das peças publicitárias do espetáculo – e a Pedeginja fez por merecer os elogios que o anfitrião lhes faria em seguida. “Essa rapaziada representa uma geração que chega e faz sem pedir licença. Há uma cena maravilhosa aqui em São Luís”, afirmou, após o show de abertura em que passearam entre o repertório de Contos cotidianos, seu disco inaugural (e até aqui único) e temas icônicos da MPB, entre os quais A menina dança (Luiz Galvão e Moraes Moreira) e Canto de Ossanha (Vinicius de Moraes e Baden Powell), com direito a citação do rapper (rótulo que há tempos já não lhe comporta) Criolo. “Fora Temer! Ocupa tudo!”, mandou o vocalista Paulão, seguido por boa parte do público.

Demorou nada para Bruno Batista estabelecer plena comunhão com a plateia e mostrar que sua evolução artística não está restrita ao disco, ao estúdio. Qualquer um que o tenha visto ontem e a seus shows anteriores – por exemplo, os de lançamento de e Eu não sei sofrer em inglês – pode perceber claramente que ele está cantando melhor ao vivo (apesar de alguns problemas técnicos na sonorização ao longo da noite), maior desenvoltura, melhor domínio de palco – “cheguei em casa”, como diz na letra de Batalhão de rosas, o palco agora é também sua morada.

Artista cosmopolita, Bruno Batista é dos raros que se apresentam por estas plagas conseguindo o feito de, mesmo concentrando-se no repertório de um disco lançado recentemente, ter o público como seu backing vocal. Abrindo o espetáculo com a faixa-título do novo trabalho, ele passeou por quase todo o repertório de Bagaça, sem deixar de lembrar canções de seus outros três trabalhos.

Casos de Nossa paz (gravada em dueto com Tulipa Ruiz em Eu não sei sofrer em inglês), Tarantino, meu amor (no mesmo disco), Hilda Regina (idem), Ela vai chegar e (do disco batizado por esta) e Acontecesse (do homônimo Bruno Batista de estreia, regravada por ele com adesão de Zeca Baleiro no segundo).

Flávia Bittencourt cantou Sobre anjos e arraias em andamento mais acelerado e Alê Muniz e Luciana Simões (o casal Criolina) dividiram com Bruno Batista Latino-americano, música do trio lançada em ep do duo; em Bagaça os três assinam Pra ver se ela gosta, que o dono da festa cantou sozinho.

Quando cobrei-lhe A ilha ao cumprimentá-lo após o espetáculo, ele me respondeu, humilde e simpaticamente que ela não funcionaria naquele clima. Senhor da situação, o artista tinha razão: ele cumpriu a promessa de um show para ninguém ficar parado.

Ao fim, chamou os convidados ao palco e, com eles, prestou homenagem ao cantor e percussionista Papete, recém-falecido: o quarteto cantou Dente de ouro (Josias Sobrinho), aproveitando a ocasião para anunciar que um tributo ao Bandeira de aço será apresentado por eles durante a temporada junina na capital maranhense. Homem de vícios antigos certamente voltará ao assunto.

O lugar (acentuadamente pop) de Bruno Batista

Bagaça. Capa. Reprodução
Bagaça. Capa. Reprodução

 

A ilha, faixa que encerra Bagaça [2016, disponível para download no site do artista], quarto disco de Bruno Batista, é uma das mais bonitas declarações de amor a São Luís jamais escritas. O artista foge de clichês ao citar lendas e o cotidiano da cidade. “As barbas de Nauro saem pra passear” e “Montserrat Caballé não entendeu quase nada” estão entre os versos que trazem nativos e turistas que um dia pisaram suas ruas de paralelepípedos.

Nenhum homem é uma ilha e somente em seu quarto disco Bruno Batista abre seu leque de parceiros: Dandara, Demetrius Lulo e Paulo Monarco em Caixa preta, Alê Muniz e Luciana Simões (o casal Criolina) em Pra ver se ela gosta, e Zeca Baleiro em Nigrinha.

Bagaça é seu trabalho mais desbragadamente pop. Nas 11 faixas do álbum é possível perceber a bagagem de influências que moldou o cantor e compositor ao longo destes 12 anos de carreira, se contarmos a partir de sua estreia no mercado fonográfico, com o homônimo Bruno Batista [2004].

Maranhense nascido em Pernambuco, com férias da infância passadas no Piauí, hoje radicado em São Paulo após temporada no Rio de Janeiro, esta geografia afetiva se traduz musicalmente em Batalhão de rosas, toada de bumba meu boi rockificada que lembra a “areia branca” tema do caroço de Tutoia de Dona Elza, de saudosa memória. A faixa batizará o terceiro disco da cantora Lena Machado, a ser lançado este ano. A romântica Caixa preta evoca o Caetano político de Podres poderes.

O tambor de crioula ganha acento pop em Pra ver se ela gosta e Nigrinha tem ares caribenhos, de “amor sincero” em “novela das nove”, em diálogo com o “cinemúsica” de Blockbuster, a sétima arte uma das paixões confessas de Bruno Batista, que em álbuns anteriores já prestou homenagens a Quentin Tarantino [Tarantino, meu amor, de Eu não sei sofrer em inglês] e Michel Gondry [em Rosa dos ventos, de ].

Cerca-se dos mais requisitados instrumentistas da chamada “nova MPB” – rótulo que, como quase todo rótulo, não dá conta da turma – alguns dos quais com quem já tinha trabalhado em discos anteriores: Rovilson Pascoal (guitarra), produtor de Bagaça, Gustavo Ruiz (guitarra), Meno del Picchia (contrabaixo), Felipe Roseno (percussão), Ricardo Prado (contrabaixo e rhodes) e Guilherme Kastrup (bateria e percussão) compõem o núcleo, em disco que conta ainda com participações especiais de Swami Jr. (violão sete cordas no bolero Você não vai me esquecer assim), André Bedurê (vocais em Você não vai me esquecer assim e Guardiã), Marcelo Jeneci (piano em Turmalina) e Felipe Cordeiro (guitarra em Nigrinha).

“O teu lugar, o teu lugar/ é o meu”, derrama-se em Turmalina, feita para sua esposa. Na faixa divide os vocais com Dandara, que compareceu em boa parte de , seu disco anterior. O lugar de Bruno Batista é nos ouvidos de fãs cativos desde a estreia – ali já havia se firmado como um dos mais talentosos artistas de sua geração – e cada vez mais outros, conquistados álbum após álbum.

Confira o videoclipe de Nigrinha (Bruno Batista e Zeca Baleiro):

Serviço

Bruno Batista lança Bagaça em show gratuito hoje (10), às 20h, no Mandamentos Hall. O espetáculo conta com abertura da Pédeginja, discotecagens de Franklin e Pedro Sobrinho e participações especiais de Criolina e Flávia Bittencourt.

A poética geografia do cangaço

Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Capa. Reprodução
Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Capa. Reprodução

 

Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou [Vento Leste, 2016, 104 p.] é um encontro único: as elegâncias das fotografias de Márcio Vasconcelos e do texto de Frederico Pernambucano de Melo, a exuberância das paisagens, a grandeza dos personagens e o imenso legado cultural deixado pelo bando liderado por Virgulino Ferreira da Silva.

O maranhense Márcio Vasconcelos embrenha-se na geografia sui generis do Nordeste para refazer os caminhos percorridos por Lampião e seus cangaceiros, da invenção do bando à execução de seu líder, em 1938, na Grota do Angico, em Poço Redondo/SE, ao lado de Maria Bonita e outros nove homens.

Apenas duas fotos não são de sua autoria, espécie de tributo ao fotógrafo Benjamim Abraão, que retratou o bando de Lampião em vida, saga contada por Paulo Caldas e Lírio Ferreira em Baile perfumado [1996], com imagens do acervo do fotógrafo sírio-libanês e trilha sonora puxada pela turma do manguebit.

A trilha por que o fotógrafo nos conduz ao longo das páginas do livro, finalista do prêmio Conrado Wessel de Fotografia 2011 e vencedor do XI Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, passa por cinco estados e entre os personagens que ele encontra estão Dona Minó (1923-) – filha de Zé Saturnino, tido como o inimigo número um de Lampião –, Elias Matos Alencar (1914-2013) – membro da volante do Tenente João Bezerra, responsável pela execução de Lampião e seu bando –, e Manuel Dantas Loiola, vulgo Candeeiro (1916-2013), cangaceiro do bando de Lampião, além de atuais habitantes dos lugares.

As paisagens remontam à rima involuntária beleza/pobreza, com vantagem para a primeira, eterna sina de grande parte do Nordeste e sua população. É particularmente comovente uma sequência de fotos em que uma mulher comum chora a morte de um jumento, abraçando-o como a um ente querido. A devoção (sobretudo a Padre Cícero, mas não só) também é elemento importante ao olhar de Márcio Vasconcelos.

O trunfo do encontro entre palavras e imagens está justamente em umas não quererem explicar as outras: enquanto o fotógrafo percorre hoje caminhos pisados por Lampião há quase um século, Frederico Pernambucano de Mello, historiador, membro da Academia Pernambucana de Letras, reivindica ao ícone do cangaço o status de artista: “pelo orgulho, pela sobranceria, pela vaidade, pelo desassombro da imagem ostensiva, pela força de formação de uma subcultura à base de derivações nada desprezíveis na música, na poesia, na dança, na culinária, no artesanato, na medicina, nos costumes, na moral, na religiosidade, na arte militar intuitiva e mesmo na arte de expressão plástica, a partir da herança pastoril, o cangaço sumaria, aos olhos do brasileiro de hoje, a franja de todas as insurgências, sua saga confundindo-se com a própria ideia de resistência contra poderosos”, anota.

Outra grandeza que merece destaque é não quererem tirar conclusões. Muito já foi dito sobre o cangaço e particularmente Lampião é fartamente biografado. “Os cangaceiros não foram heróis nem bandidos. Foram homens que disseram não à situação”, anota Vasconcelos na legenda da foto da Grota do Angico.

Veja algumas imagens do livro. Para mais acesse o site de Márcio Vasconcelos.

Casa de dona Jocosa. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução
Casa de dona Jocosa. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

 

Um dos habitantes atuais dos lugares por onde Lampião passou há quase um século. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução
Um dos habitantes atuais dos lugares por onde Lampião passou há quase um século. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

 

A devoção a Padre Cícero. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução
A devoção a Padre Cícero. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

 

A grota do Angico, onde Lampião, Maria Bonita e outros nove cangaceiros foram executados em 1938. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução
A grota do Angico, onde Lampião, Maria Bonita e outros nove cangaceiros foram executados em 1938. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

 

Serviço – Márcio Vasconcelos lança Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou hoje (27), às 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073 – Piso do Teatro, SP).

Os ringues de Fernando Abreu

Manual de pintura rupestre. Capa. Reprodução
Manual de pintura rupestre. Capa. Reprodução

Feito um poeta do século passado, o jornalista Fernando Abreu, 51 anos completados no último dia 12, funcionário concursado, bate ponto em um órgão público, mas sua poesia está longe do enfado e da burocracia.

Quem o conhece sabe da raridade de suas aparições públicas. Seu tempo ocioso, e bote bastantes aspas em ocioso, gasta lendo, sobretudo poesia, e ouvindo música.

Seus poemas não se contentam com a página do livro, embora não a menosprezem. Se, num país que não lê, poesia menos ainda, é preciso ganhar alguns ouvidos, “me deixa ser guru dessa galera”, como diz uma parceria do poeta com Zeca Baleiro.

Sua fama de eremita é conhecida entre os amigos, que festejam suas raras presenças em eventos literários – com o poeta Eduardo Júlio foi curador da Feira do Livro de São Luís ano passado.

Um dia após o Dia Nacional da Poesia, Fernando Abreu, ou simplesmente Fabreu, para os mais íntimos, sai de casa amanhã (15) para lançar seu Manual de pintura rupestre [7Letras, 2015, 75 p., R$ 20,00 no lançamento].

É o quarto livro de Fabreu, ex-integrante da Akademia dos Párias, movimento poético que fez barulho na Ilha na década de 1980 e início da de 90. Manual de pintura rupestre, seu primeiro título publicado por uma grande editora, aparece depois de Aliado involuntário [Exodus, 2011], O umbigo do mudo [Clara Editora, 2003] e Relatos do escambau [Exodus, 1998]. A Exodus é uma casa inventada pelo poeta para se publicar.

Se nos dois primeiros livros seus poemas estavam mais para Leminski e Oswald de Andrade, entre a piada, a rapidez, o chiste de mesa de bar, e no penúltimo terem ganhado volume, neste quarto título Fabreu atingiu um nível de maturidade poética fruto de exercício, leitura e autocrítica.

Apesar do salto, Fabreu é um poeta pé no chão. “Quem lida com esse negócio de escrever e publicar poesia não pode alimentar muitas ilusões pra não se frustrar. Começa que não somos um país de leitores, e muito menos de poesia”, declarou ao Homem de vícios antigos, sem que sua fala soe amarga.

“No caso da 7Letras me atraiu o cuidado que eles tem com seus produtos em termos de acabamento, programação visual etc. Geralmente os livros são bem bonitos, e o meu não fugiu à regra”, continua, sem falsa modéstia.

De suas leituras cotidianas, muitas referências estão em Manual de pintura rupestre. Se os poetas são “as antenas da raça”, como nos ensinou Pound, a sintonia de Fabreu aponta em várias direções.

A começar por Terence Mckenna, filósofo e etnobotânico norte-americano que emprestou uma das epígrafes da obra – a outra é de Jorge de Lima: “o xamã é o ancestral remoto do poeta e do artista”, diz um trecho dO alimento dos deuses.

Em tempos de instantâneos no instagram e descartáveis no snapchat, o grande trunfo de um poeta é lapidar poesia onde ninguém mais a enxerga, num mundo cada vez mais embrutecido. O cotidiano é matéria-prima de Fabreu: “uma xícara de café fumegante/ o rosto de alguém que caminha/ lembrando de uma música/ amantes fugindo a pé do fim do mundo/ o cachorro paciente esperando pra atravessar/ na faixa de pedestres”, observa em Aqui agora, poema que abre este Manual de pintura rupestre.

O estado das coisas abre o leque de referências de Fabreu que percorrerá as páginas desta sua nova obra, citando Lord Byron, Glauco Mattoso e Dylan Thomas. Uns citados textualmente, outros na sutileza da sacada, ao longo do livro aparecerão ainda Carl Gustav Jung, Carlos Drummond de Andrade, Friedrich Engels (não confundir com outro Friedrich, o Hegel), Gonçalves Dias, Herbert Marcuse, João Bosco e Aldir Blanc, João Carlos Martins, Karl Marx, Noel Rosa, Roberto Bolaño, Rosa Luxemburgo, Sigmund Freud, Wilhelm Reich, William Blake, William Burroughs e William Carlos Williams.

Fabreu está sintonizado em poesia, música, política, denúncia social, crítica aos mercadores da fé televisionada, psicanálise, futebol, filosofia, erotismo. “quando não escrevendo nada/ ser mais poeta do que nunca/ todo antenas poros sentidos/ ser que se trespassa de tambores/ a palavra antes da palavra”, o Mestre sala dos ares é ótima síntese ou cartão de visitas.

Serviço – O poeta Fernando Abreu lança Manual de pintura rupestre nesta terça-feira (15), às 18h30, na Galeria Trapiche Santo Ângelo (Praia Grande, em frente ao Terminal de Integração). A noite de autógrafos terá recital com os Mamutes Elétricos: Fernando Abreu (voz e poemas), Erivaldo Gomes (percussão) e Marcos Magah (voz e guitarra).

Leia em primeira mão três poemas de Manual de pintura rupestre:

DA BOCA PRA FORA

vai com deus, papai!
no sinal que acaba de abrir,
aceito a bênção do menino
mesmo não tendo
as moedas
para o pão ou pedra
que, por segundos, iluminariam
suas entranhas ou sua mente
no vão dessa noite brasileira
em que me vejo órfão de uma dor
que sequer mereço sentir

DE UM COMERCIAL DE TV

depois de atravessar a cidade
sob os olhares agradecidos da multidão
o boneco gigante anunciando
ofertas imperdíveis
foi se postar por trás da loja principal da rede
onde
do alto de seus
mais de dez metros de altura
abençoou os fiéis

PARALELAS

qual é a diferença
entre o revolucionário
que recusa a esmola ao mendigo
para não atrasar o fim da burguesia
e o burguês piedoso
que nega a mesma moeda
ao mesmo mendigo
porquevaitudopracachaça&crack?

[pp. 31, 33, 35]

Morte, dança e pequenos detalhes

Nas estâncias de Dzyan.Capa. Reprodução
Nas estâncias de Dzyan. Capa. Reprodução

 

125 anos após sua morte, a escritora russa Helena Petrovna Blavatsky [1831-1891] deu, por acaso, título ao segundo disco solo de Juliano Gauche, um dos mais interessantes cantores e compositores surgidos neste século. Ele acaba de lançar Nas estâncias de Dzyan [EAEO, 2015], sucessor do ótimo homônimo Juliano Gauche [2013]. A frase foi encontrada pelo artista em A doutrina secreta, de 1888.

Além dos discos solo, a discografia de Juliano inclui ainda Quanto mais pressa mais de vagar [2003], Feliz feliz [2008] e Veneza [2012], com a banda Solana, e Hoje não! [2009], dedicado ao repertório de Sérgio Sampaio, com o Duo Zebedeu, formado por Fábio do Carmo (violão sete cordas) e Júlio Santos (violão). As nove faixas de Nas estâncias de Dzyan foram sendo compostas, sem haver necessariamente uma preocupação do artista em moldar um novo álbum.

Entre o primeiro solo e este há muitos pontos em comum – o fato de ambos terem nove faixas é apenas um deles. Das de Juliano Gauche, apenas Sérgio Sampaio volta, de Tatá Aeroplano, não era assinada por ele; em Nas estâncias de Dzyan, a exeção é 1,99, de João Moraes. Este é um disco sobre a morte, revela o compositor, apesar de pontos solares (para além do berrante amarelo do projeto gráfico assinado por Mariana Coggiola), ecos de Jovem Guarda e Animals.

Nas estâncias de Dzyan foi gravado em duas semanas nos estúdios EAEO e a ficha técnica também guarda semelhanças com o anterior. Juliano Gauche, que apenas cantava no disco anterior, neste assume também os violões, divididos com Junior Boca, que empunha ainda guitarras e assina os arranjos com Tatá Aeroplano. A banda se completa com João Leão (teclados), Daniel Lima (contrabaixo) e Gustavo Souza (bateria). O disco pode ser ouvido e baixado no site do artista.

Juliano Gauche conversou com o Homem de vícios antigos sobre sua trajetória, influências, a mudança do Espírito Santo para São Paulo, a “síndrome” do segundo disco, apostou suas fichas no talento do parceiro João Moraes e ainda encontrou tempo para um faixa a faixa, quase uma segunda entrevista. Sobre a possibilidade de se apresentar em São Luís revela estar esperando um convite. O show de lançamento de Nas estâncias de Dzyan acontecerá no próximo dia 31 de março, no Sesc Pompeia, em São Paulo.

Divulgação
Foto: Nino Andres

 

ENTREVISTA: JULIANO GAUCHE

Como você chegou a Dyzan e suas estâncias? Não temeu ser tachado de hermético ao batizar este segundo disco?
Estava lendo um livro da Blavatsky e passei por essa expressão, que guardei e depois usei como título da música que abre o disco. Quando mandei o arquivo pro Tatá Aeroplano, o arquivo chegou com este título, pois era o nome da primeira música. Quando encontrei o Tatá depois disso ele foi logo dizendo: “adorei o nome do disco”. E eu disse meio rindo: “mas eu ainda não escolhi o nome do disco”. E ele: “mas não é Nas estâncias de Dzyan?”. E eu: “bem, até tinha pensado nisso, mas achei esquisito demais até pra mim”. E ele: “não, é ótimo. São duas palavras incomuns, soa bem”. Assim, assumi. Acho sim um título estranho, hermético e tal. Mas minha vida é cheia dessas coisas. Tenho mais é que assumir mesmo.

Apesar de discos com a banda Solana e com o duo Zebedeu, como foi lidar com a síndrome do segundo disco?
Minha relação com o ato de compor é de muita sorte. A inspiração é sempre muito generosa comigo. Eu realmente gosto de fazer isso. E faço sem, necessariamente, pensar em disco. Acho saudável e divertido compor. Quando chega a hora de fazer um disco eu simplesmente já estou apaixonado pelas músicas. O processo de gravar é muito natural. E o primeiro disco teve uma recepção tão carinhosa que entrei neste novo com total segurança.

Você guarda semelhanças, inclusive físicas, com seu conterrâneo Sérgio Sampaio, homenageado em teu primeiro disco com a regravação de Sérgio Sampaio Volta, de Tatá Aeroplano, e a cuja obra você dedicou Hoje não!, com o Duo Zebedeu. É sua maior referência?
Adoraria ser tão próximo do Sampaio como geralmente sugerem. Mas sou vira-lata demais pra isso. O Sérgio tem uma classe, um polimento, um esmero, que eu passo longe. As referências que eu mais carreguei na vida foram o John Lennon, o Roger Waters, Raul Seixas, Renato Russo… Compositores de dois, três acordes, melodias simples, letras espirituosas e poéticas. Adoro João Gilberto, Tom Jobim, Chet Baker, Billie Holiday… mas sei que tô muito longe disso.

O que mudou com sua saída do Espírito Santo natal para São Paulo?
Caí na real. Fui obrigado a prezar mais pela lucidez, pelo equilíbrio. No Espírito Santo eu podia bancar o doido sem maiores problemas: sempre tinha quem segurava minha onda. E ainda me escondia numa banda. Em São Paulo é jogo duro. Não tenho rede de apoio pro trapézio. Ao mesmo tempo que isso quase acabou comigo, também me fez crescer muito profissional e pessoalmente.

A ficha técnica de Nas estâncias de Dzyan guarda semelhanças com a de Juliano Gauche, seu disco anterior: em ambas figuram nomes como Tatá Aeroplano e Junior Boca, entre outros. Quais as principais semelhanças e diferenças entre os dois discos que você apontaria?
No primeiro disco eu simplesmente cantei. Como eu tinha acabado de gravar o último disco com o Solana, eu pedi ao Tatá que me ajudasse na produção do disco solo, por que eu estava muito cansado e confuso. E ele fez tudo com a ajuda do Junior Boca: montou a banda, cuidou dos arranjos, mixagem, tudo. Neste disco novo eu meio que reassumi o controle das coisas. Até mesmo por sugestão do Tatá e do Boca. Tive mais tempo e calma pra pensar em tudo. E desta vez eu produzi o disco, participei dos arranjos, acompanhei toda a mixagem ao lado do João Noronha, enfim, este foi o disco em que mais trabalhei diretamente.

Disco é cartão de visita, artistas têm que inventar outras formas de se sustentar já que a vendagem de discos já não garante. Você disponibiliza seus discos para audição online e download, além de lançá-los, fisicamente. Como se equilibrar nesta corda bamba?
É com os shows que a gente recupera esse prejuízo. “Antigamente” [aspas dele] pagava-se jabá para que o disco circulasse; hoje em dia a gente dá o disco de graça: é quase a mesma coisa. Tudo para que as pessoas se interessem pelo show, que é onde está a grandeza deste trabalho.

Não creio que distribuir o disco possa ser comparado com jabá, já que neste caso, o volume de dinheiro é violento e responsável por fazer novos astros e estrelas, bastante descartáveis. Como você lida, enquanto artista, com a infeliz certeza de que, apesar de ser mais talentoso que um monte de gente que toca bem mais em rádio ou aparece na tevê, sua obra infelizmente ficará restrita a um círculo mais específico?
Sim, claro. O que eu tentei colocar é que não ganho dinheiro com o disco, mas também não pago pra ele tocar. Ele anda, lentamente, claro, mas sozinho. Isso graças a essas novas formas de distribuição. Não acredito nessa coisa de música boa e música ruim. Se alguém gosta de uma música, pra ele, ela é boa. A música tem diferentes finalidades. E as pessoas podem escolher o que faz bem pra elas, o que elas querem sentir ao ouvir uma música naquele momento. Agora mesmo estava aqui lendo a revista da UBC [União Brasileira de Compositores] e uma compositora estava reclamando de como a música no Brasil tá ruim, que só ela e a turma dela fazem música de qualidade. Que hoje em dia as músicas só têm dois acordes, o que é o meu caso. Além disso ser mentira é de uma pobreza tão grande, isso é tão fascista. A diversidade é a grande riqueza do Brasil. Isso tem que ser glorificado. Agora, se alguém tem mais grana pra investir no seu trabalho, essa pessoa terá mais resultados, mais alcance, isso é lógico, natural, matemático, e não deveria ser fonte de inveja, não. Eu me sinto confortável com o meu tamanho, com o meu lugar. É exatamente proporcional ao quanto consigo investir. E ainda acredito que o tempo me será muito generoso.

Por falar em shows, como está a agenda? Alguma perspectiva de São Luís do Maranhão?
As propostas de shows estão chegando bem. É claro que agora estamos totalmente focados no lançamento do disco, que será 31 de março, no Sesc Pompeia. Mas já estamos começando a colorir a agenda. Ainda não pintou um convite para ir à São Luís do Maranhão, não. Mas bem que poderia.

A sonoridade de Muito esquisito lembra muito a Jovem Guarda. É outra referência importante?
Pois é. Na verdade este é um dos arranjos mais despojados do disco. Eu não queria que ela ficasse séria e disse: “ah, vamos fazer uma coisa bem básica, bem popular. Vamos tentar a mesma levada de Meu amigo Pedro, do Raul. Ih, não deu certo. Vamos tentar a levada de Quando, do Roberto. É… assim tá legal. É isso. Beleza!”.

1,99 é de um lirismo comovente.
1,99 é uma música do João Moraes, um dos meus melhores amigos e parceiros. Ele também é de Cachoeiro [do Itapemirim]. É da família do Sérgio Sampaio. Ele que idealizou e produziu o Hoje não! E essa é uma dentre as dezenas de músicas lindas que ele tem. O disco dele é um dos discos que eu mais tenho esperado.

Você é casado com sua produtora. O quanto isso ajuda ou atrapalha, já que, em tese, não se separa a vida pessoal da vida artística?
Na verdade eu me casei com uma publicitária. A Sil [Ramalhete] trabalhava numa agência de publicidade quando nos conhecemos. O primeiro trabalho de produção dela foi com os shows do disco Hoje não! E ela só cresceu nessa área depois disso. E é maravilhoso isso. Hoje a gente fala a mesma língua, vivemos as mesmas coisas. Eu a ajudo no que posso com a produtora dela, a Ramelhete Produções, e ela cuida do meu trabalho com um amor que ninguém teria. Claro.

NAS ESTÂNCIAS DE DZYAN – FAIXA A FAIXA

Ouça Nas estâncias de Dzyan:

A faixa título, a meu ver, dialoga com a abertura do disco anterior: se nesta você diz “se eu cair… me trate do jeito que você quiser”, o título daquela era justamente, e de repente, Cuspa, maltrate, ofenda.
Tem ligação sim. Estética e conceitualmente. Mas em Cuspa… eu falava pra Sil sobre nossa relação. Quase que instigando ela a ser ofensiva com quem não via com bons olhos nossa relação. Tipo: manda esse povo todo à merda. Por que “em meu mundo você”… Já em Nas estâncias… é mais um pedido de desculpas que eu faço pro mundo e pra quem tá do meu lado. Tipo: eu sei que eu faço merda. “mas como eu ia saber…”

Ouvi ecos de Animals na guitarra de Animal.
Pois é. Tem esse eco sim, ideia do Boca.

Alegre-se é a canção mais “solar” do disco, concorda?
Sim. Alegre-se é a mais solar. É justamente uma proposta para sair e tomar um sol, um ar…

Teus discos têm muito de autobiográficos. O clarão é outro exemplo, de otimismo, inclusive.
A ideia é essa. No fundo, eu acho que eu me comporto como um escritor. Sempre me projetando nas palavras. E tenho mesmo andado bem otimista.

Ela [O clarão] é irmã de Um canto que leve seus olhos pro espaço.
Acho que sim. É um discurso bem parecido mesmo.

E de algum modo também de Pode se deixar levar, onde o casal protagonista se separa apenas “de mentirinha”.
Pode se deixar levar é mais rotineira. Sobre pequenos desentendimentos. Mas ainda assim tem essas sentenças espiritualistas, tipo: “e não tem nada, meu bem, que vá fazer tanto mal/ Pode se deixar levar”, como quem diz: relaxa!

E Canção do mundo maior encerra o disco, quase rotulando-o, mas sem nunca limitá-lo: Nas estâncias de Dzyan é, no fundo, um disco de amor?
No fundo é um disco sobre a morte. Canção do mundo maior é só sobre a morte. E é claro, o reflexo da morte na vida. Nas pequenas coisas.

Um final surpreendente…
[Risos] Está tudo nos detalhes.

Obra em progresso: primeira chamada

E 2016 começou!

Amanhã (5), a partir das 19h, no Chico Discos, Reuben da Cunha Rocha lança os primeiros três volumes (de um total de meia dúzia) de Siga os sinais na brasa longa do haxixe [Pitomba!], poética epopeia sci-fi.

A entrada é franca, cada volume custa a bagatela de 10 reais.

Joãozinho Ribeiro encerra temporada na Feira da Tralha

[release]

Apresentação do compositor marca encerramento da temporada Milhões de Uns, de lançamento do cd homônimo

Joãozinho Ribeiro durante apresentação da temporada Milhões de Uns. Foto: Ton Bezerra
Joãozinho Ribeiro durante apresentação da temporada Milhões de Uns. Foto: Ton Bezerra

 

O compositor Joãozinho Ribeiro encerra a temporada Milhões de Uns, de lançamento de seu disco de estreia, homônimo, com show amanhã (27), às 19h30min, na Praça dos Catraieiros (Praia Grande). A apresentação integra a programação cultural da Feira da Tralha, evento organizado pelos Sebos Nas Canelas e Educare. A entrada é franca.

A ocupação cultural da praça ao lado da Casa do Maranhão tem como objetivos, segundo seus organizadores, contribuir para a revitalização da Praia Grande, prolongar a vida útil de uma série de objetos, gerar trabalho e renda para trabalhadores do segmento da economia criativa, além do comércio em si, de cds, dvds, vinis, livros usados, objetos de antiquário, artesanato, artigos de coleções, instrumentos musicais e equipamentos eletrônicos, entre outros.

A Feira da Tralha acontece todas as quintas e sextas, das 16h às 21h. As sextas, conta com a apresentação do Regional Deu Branco, um dos mais jovens grupamentos de choro de São Luís, formado por Bernardino Júnior (bandolim), Cleiton Canhoto (violão sete cordas), Dudu Lima (cavaquinho solo), Erivan Nery (flauta), Jamil Cartágenes (cavaquinho centro) e Valderson de Abreu (percussão).

Nesta sexta (27), o grupo abrirá o show Milhões de Uns, de Joãozinho Ribeiro, com a participação especial do duo Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões). Ele e os convidados serão acompanhados por Arlindo Carvalho (percussão), Arlindo Pipiu (contrabaixo), Danilo Santos (saxofone e flauta), Hugo Carafunim (trompete e flugel), Luiz Jr. (violão sete cordas), Robertinho Chinês (bandolim e cavaquinho) e Wanderson (percussão).

“É um prazer e um luxo poder contar com a participação do Criolina. Alê Muniz é um parceiro de longa data, e ao lado da Luciana forma um dos maiores acontecimentos da música produzida no Maranhão recentemente. Interessante também é poder contar com a presença da rapaziada do Deu Branco, valorosos garotos levando adiante o estandarte do choro”, afirmou o compositor.

Ele antecipa um balanço de 2015 e alguns projetos para 2016. “Este ano busquei conciliar a agenda de trabalho profissional com a profissão de fé da criação artística, dedicando-o a diversas apresentações, em vários palcos da cidade, ao lançamento do cd, registro que já era bastante cobrado por amigos e admiradores de nosso trabalho. Para ano que vem pretendo trabalhar no lançamento do segundo volume, além de lançar um segundo livro”, afirmou Joãozinho, que é funcionário público federal e professor universitário.

Autor de mais de 100 músicas, Joãozinho Ribeiro é um dos compositores mais gravados do Maranhão, tendo o nome em discos de artistas como Alê Muniz, Anna Cláudia, Célia Maria, Glad, Josias Sobrinho, Lena Machado e Rosa Reis. Em 2006 publicou Paisagem feita de tempo, livro-poema escrito em 1985. Milhões de Uns – vol. 1 é seu primeiro disco. Gravado ao vivo em duas noites no Teatro Arthur Azevedo, conta com as participações especiais de Alê Muniz, Célia Maria, Chico César, Chico Saldanha, Lena Machado, Milla Camões e Zeca Baleiro. Para o volume, Elba Ramalho gravou Asas da paixão em estúdio.

Personagem de si mesmo, Mutarelli volta aos quadrinhos em novo romance

Quadrinista tornado escritor, Lourenço Mutarelli entrou para a história: foi o primeiro escritor brasileiro a protagonizar a adaptação de um livro seu para o cinema, O natimorto [DBA, 2004; Companhia das Letras, 2009], após uma ponta em O cheiro do ralo, também adaptação de um sucesso literário seu.

O Grifo de Abdera. Capa. Reprodução
O Grifo de Abdera. Capa. Reprodução

Em O Grifo de Abdera [Companhia das Letras, 2015, 264 p.; leia um trecho], Mutarelli realiza um interessante exercício literário ao brincar com várias faces de si mesmo. É um jogo de trocadilhos, desde a composição dos nomes dos personagens, anagramas que ganham vidas e histórias, de dar à vida aspectos de ficção, e de revelar segredos por trás dos bastidores do ofício de escritor – ou do quadrinista, muito mais trabalhoso e menos reconhecido, embora ambos, de algum modo, glamurizados.

Mutarelli tira onda até mesmo com sua fórmula de escrever romances: os protagonistas são sempre homens mais ou menos em sua faixa etária, levando vidas mais ou menos comuns, até um acontecimento surpreendente e uma guinada, confessa.

Suas obras, entre as realmente lançadas e fictícias, estão lá citadas. Amigos escritores, de verdade e inventados, tornam-se personagens: Paulo Lins, Marcelino Freire, Marçal Aquino, Ferréz, além de Raimundo Maria Silva, Oliver Mulato e Mauro Tule Cornelli, que “assinam” O Grifo de Abdera com Mutarelli, este último seu anagrama. Um deles é quem figura nas fotos de orelha e viagens do autor a eventos literários, dentro e fora do Brasil.

O livro é a história de um duplo, fabricado a partir da chegada, às mãos de um dos protagonistas, da moeda que dá título à obra. As obsessões continuam perseguindo o autor, entre citações – entre outros, William S. Burroughs e Kurt Vonnegut, que já tiveram os nomes inscritos noutras obras de Mutarelli –, diálogos ligeiros e certeiros, exigindo e prendendo a atenção do leitor, a vasta pesquisa – um personagem acometido de síndrome de Tourette repete frases grosseiras e, portanto, inoportunas em espanhol digitadas pelo duplo no tradutor do Google – e o entrecruzar de diversos enredos paralelos, a vidinha nada besta de professores, escritores e biscateiros.

É recorrente também a ideia de Mutarelli, personagem, retomar os quadrinhos. Dividido em três partes – O livro do fantasma, O livro do duplo e O livro do livroO Grifo de Abdera é um presente aos fãs que o acompanham desde Transubstanciação [1991] e/ou aos recém-chegados. Após cinco anos do último romance – Nada me faltará [2010] – quatro do último álbum – Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente [2011] – e três do volume único que reuniu a trilogia do detetive Diomedes [2012], o múltiplo Mutarelli mescla romance e quadrinhos (as 80 páginas centrais do livro) em uma obra que, além de agradar a leitores antigos e mais novos, certamente aumentará seu fã-clube. A pergunta, talvez óbvia, que não lhes calará é: quando O Grifo de Abdera será adaptado ao cinema?

Pra despertar roqueirinhos

Rock para pequenos, v. 3. Capa. Reprodução
Rock para pequenos, v. 3. Capa. Reprodução

Laura D. Macoriello é assessora de imprensa da Edições Ideal, por onde publicou os três volumes de Rock para pequenos – Um livro ilustrado para futuros roqueiros, além de Cinema para pequenos – Um livro ilustrado para futuros cinéfilos [Edições Ideal, 2013, 52 p.]. Os dois primeiros volumes de Rock para pequenos, dedicados aos gringos, microperfilou Angus Young, B-52, Beatles, Chuck Berry, David Bowie, Elvis Presley, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Kiss, Ozzy Osbourne, Ramones, Rolling Stones e Steve Harris (no primeiro volume) e Axl Rose, Bjork, Bono Vox, Bruce Dickinson, Chrissie Hynde, Dave Grohl, Dick Dale, Freddie Mercury, Green Day, Jeff Hanneman, Jerry Lee Lewis, Jim Morrison, John Lennon, Lemmy Kilmister, Metallica, Morrissey, Nina Hagen, Robert Smith, Sex Pistols e Van Halen (no segundo).

O recém-lançado terceiro volume [Edições Ideal, 2015, 44 p.; leia um trecho] é dedicado a nomes do rock nacional: Capital Inicial, Cazuza, Erasmo Carlos, Inocentes, Ira!, Kid Vinil, Legião Urbana, Mamonas Assassinas, Os Paralamas do Sucesso, Pitty, Raul Seixas, Rita Lee, Ronnie Von, Secos & Molhados, Supla, Titãs e Ultraje a Rigor.

Os livros são ilustrados por Lucas Dutra e trazem microperfis dos artistas e, espécie de narrativa fabular, algo como uma moral da história, linkando as vidas e obras a valores cotidianos que devem ser ensinados aos “futuros roqueiros”, como indica o subtítulo da trilogia – até aqui; indagada sobre um possível quarto volume, a autora disse não saber responder ainda.

A assessora/escritora conta que “a ideia surgiu do meu cotidiano com minha filha Olívia, 5, que na época do primeiro livro estava com três anos. Peguei situações que eu vivia com ela para dar as “lições” e achei legal dar uma breve explicação sobre os astros”.

A “lição de moral” do microperfil que abre o terceiro volume, dedicado a Cazuza, é “ser filho único é muito legal, podemos escolher nossos irmãos-amigos”. Encaro o livro como uma boa porta de entrada para as crianças ao universo do rock, especificamente o brasileiro, no caso deste terceiro volume. Pergunto-lhe se este papel deveria, em alguma medida, ser também das rádios e tevês. “Talvez. Acho que de alguma forma os próprios pais que gostam do estilo podem tentar introduzir isso desde cedo nos pequenos”, aponta. “Acho que a opção deve ser dada. Não teremos controle sobre eles [os filhos] para sempre, caso eles gostem de outra coisa mesmo conhecendo o rock, acho que o certo é respeitar”, continua.

Laura D. Macoriello se define como alguém que “gosta mais de Smiths do que de lasanha”. Indagada sobre a maior loucura que já cometeu por um ídolo, responde sorrindo: “Nossa! Nenhuma! Até porque acho que em se tratando de um ídolo, nada é considerado loucura, concorda? [risos]”.

Ao fim do volume, uma discografia básica aponta os principais discos dos artistas, para pais e filhos ouvirem juntos. A autora poupa a petizada de eventuais detalhes trágicos da vida e carreira dos microbiografados. É um livro sobre rock, mas sem sexo, drogas e mortes trágicas.

Muito além da fundação

FLÁVIO REIS*

Foto: Edgar Rocha
Retrato: Edgar Rocha

 

A professora Maria de Lourdes Lauande Lacroix é a patrona e grande homenageada do ano na Feira do Livro de São Luís. Geralmente o lugar tem sido ocupado por nomes conhecidos da literatura e, por este lado, não deixa de ser surpreendente a escolha. Mas, por outro, trata-se de uma historiadora cujos trabalhos possuem forte identificação com a cidade, sua história e seus costumes.

Graduada em Direito e História, Lourdinha aliou durante mais de 20 anos as atividades de funcionária da Previdência Social e professora da UFMA em regime parcial, onde se destacou principalmente no ensino de História Contemporânea, com grande ênfase na revolução industrial e na revolução francesa, durante muito tempo seu maior interesse de estudo. No início da década passada, já aposentada, integrou o quadro de docentes da UEMA, encarando um concurso para as áreas de História Antiga e Medieval, num momento em que o curso de história ainda lutava com grandes dificuldades para se fixar. Lá ficou quase por dez anos, só saindo na compulsória.

A sala de aula foi seu espaço preferido, compromisso preparado com zelosa antecedência, onde consolidou o perfil de uma professora exigente, dinâmica e alegre, às vezes mesmo empolgante, sem nunca ter sido considerada propriamente intelectual brilhante. Com uma personalidade forte e muito prática, a consciência disto não lhe causou nenhum problema e ainda lhe seria de grande valia, quando resolveu escrever sem muitas preocupações acadêmicas.

A fundação francesa de São Luís e seus mitos. Capa. Reprodução
A fundação francesa de São Luís e seus mitos. Capa. Reprodução

Apesar da publicação da dissertação de mestrado no início dos anos 1980, um estudo sobre a educação na baixada maranhense no período imperial, seu trabalho significativo de escrita é recente, com cinco livros publicados nos últimos 15 anos, um deles com três edições bem diferentes, que funcionou na verdade como detonador dessas possibilidades, o conhecido e polêmico A Fundação Francesa de São Luís e seus Mitos.

Impresso no final de 2000, mas lançado apenas em julho de 2001, a primeira edição deste estudo era um livrinho quase inacreditável, com menos de 80 páginas, uma escrita leve e, em certas passagens, até ligeira, mas estruturado em três passos fundamentais que vale frisar.

Primeiro, uma observação arguta: a fundação francesa de São Luís não consta nos relatos dos cronistas portugueses e historiadores regionais até o final do século XIX, mantendo-se uma distinção entre o forte e a cidade, acentuando a ascendência portuguesa. Segundo, uma pergunta incômoda: o que teria acontecido, então, com a memória histórica da cidade, com os franceses passando de “invasores” a inquestionáveis “fundadores”? Terceiro, uma hipótese provocativa: a entronização da fundação francesa seria fruto da ação de intelectuais a partir do final do século XIX e passou a constituir, junto com a imagem da Atenas Brasileira, a identidade da cidade no século XX.

O livro foi recebido com certa estupefação e até incredulidade, sendo tratado por quase todo mundo como um mero engano entre fundação e urbanização ou entre fundação e colonização ou, até mesmo, desconhecimento de evidências históricas óbvias. A reação foi principalmente do que poderíamos chamar de establishment cultural, no arco que vai das academias e institutos tradicionais, passando pela mídia impressa, com intervenção de figuras diversas, conhecidas e desconhecidas, desaguando na aparente indiferença com que foi recebido em círculos universitários.

Em contrapartida, trazia um prefácio ousado, escrito por Flávio Soares, um de seus melhores ex-alunos. A indagação dirigida à historiografia colocava as relações entre as nossas elites e o legado português no processo de constituição de sua identidade. Em uma palavra, a identificação buscada no final do período colonial e em parte do Império, transforma-se em um sentimento ativo de rejeição e, através de uma operação de sublimação já verificada na exaltação da Atenas Brasileira, volta-se para a idealização de suas origens, constituindo o mito fundador.

Ele se permitiu ainda raciocinar para além do que sugeria o texto, mostrando como aquele ângulo propiciava toda uma gama de observações sobre algumas características nucleares não apenas da nossa historiografia, como, principalmente, de “camadas nervosas, aparentemente invisíveis da memória e, mais que isto, talvez da psiché da cidade”.

A polêmica estava relançada e exigiria da professora atenção crescente durante quase toda a década. Logo em 2002, lançou a segunda edição, ampliada com outro ensaio, “A Criação do Mito”, trazendo um levantamento mais circunstanciado do problema, sobretudo com a localização de Ribeiro do Amaral e seu livro A Fundação do Maranhão, lançado no rol das comemorações de 1912. Ele seria o primeiro autor a entronizar o 8 de setembro como data da fundação da cidade, remetendo à missa de tomada de posse da região descrita no livro do capuchinho Claude d’Abbeville. Um enfoque que ficaria cristalizado no livro de Mário Meireles, A França Equinocial, de 1962.

A terceira edição, que ela considera a definitiva, sairia apenas em 2008. Além de novas revisões e ajustes, traz quatro artigos selecionados entre cerca de 10 saídos na imprensa durante o período e um tratamento do belo painel tríptico A Fundação de São Luís, obra de Floriano Teixeira, encomendada pelo governo do estado e entregue em 1972, reproduzida no livro integralmente e em detalhes. Antes, porém, publicou dois outros trabalhos.

Em 2004, o livro sobre a Campanha da Produção, iniciativa dos grandes comerciantes integrantes da Associação Comercial na década de 1950, com vistas aos gargalos que emperravam a produção agrícola e seu escoamento para a capital. Um capítulo final do predomínio do complexo da Praia Grande na economia regional, visto através da análise dos relatórios da diretoria.

Em 2006, lançou outro trabalho enfocando a questão da fundação, um ensaio sobre a figura de Jerônimo de Albuquerque, tornado Maranhão após a vitória de Guaxenduba. Novamente vemos a combinação entre um veio forte de concepção da história como encadeamento de fatos em relação causal, herança da influência de Mário Meireles em sua formação, e outro, da história como determinada forma de construção coletiva da memória e, portanto, em transformação vinculada a determinantes de época.

Assim, depois de demarcar as especificidades da guerra colonial, híbrido de técnicas de guerra europeia e guerra indígena, terreno onde o mestiço Albuquerque estava à vontade, e acompanhar os fatos narrados por Diogo de Campos Moreno, traz novas observações interessantes de teor mais nitidamente historiográfico.

São as considerações dos três últimos capítulos, versando sobre: os condicionantes do próprio relato do militar português; a forma como a batalha de Guaxenduba foi enfocada no decorrer dos séculos; por fim, a vinculação entre Jerônimo de Albuquerque e a fundação da cidade de São Luís na historiografia regional, reafirmando a existência de um arco que vai dos cronistas portugueses a historiadores maranhenses do século XIX e mesmo do início do século XX.

Durante todos esses anos não descuidou do debate, sempre se ocupando nos artigos de responder com novos estudos às críticas que lhe dirigiam. Aos poucos, uma agressividade fora do tom, somada à incompreensão e à repetição dos argumentos, foi determinando seu afastamento da polêmica, que, no entanto, continuaria viva.

Um exemplo recente e bem eloquente dos equívocos que sempre acompanharam este debate pode ser visto no livro de Ana Luiza Almeida Ferro, intitulado 1612: Os Papagaios Amarelos na Ilha do Maranhão e a Fundação de São Luís, publicado no final do ano passado, mais de 600 páginas, anunciado com estardalhaço e repleto de autoglorificações, ao estilo da Atenas Brasileira. Estamos exatamente diante de um resgate do tipo de história feito por Mário Meireles e outros próceres da AML.

Após uma longa revisão das disputas entre as coroas em torno das terras do Novo Mundo e das primeiras tentativas de colonização do território, chegamos ao capítulo 7, intitulado emblematicamente “A Fundação da França Equinocial e da Cidade de São Luís”. Utilizando as descrições conhecidas do padre capuchinho, vai configurando a tentativa de implantação da França Equinocial, apoiada também no importante livro de Patrícia Seed sobre as cerimônias de posse levadas a efeito pelos europeus no continente americano.

A autora segue as descrições e análises de seus significados, mas, a certa altura, entra o que não estava lá: “O dia 8 de setembro de 1612 marca a condução de uma cerimônia gaulesa de tomada de posse da Ilha do Maranhão, contudo serve igualmente de marco de fundação da cidade de São Luís” (p.380). Ora, serve para quem e por quê? Este passo de identificação foi dado por Ribeiro do Amaral e o grupo de intelectuais oriundo dos Novos Atenienses. Não é outra coisa o que a autora vai encontrar no levantamento a que procede. Vejamos.

Se excluirmos a utilização equivocada do Pe. José de Moraes, que descreve a cidadela do forte como “cidade pequena”, observação já feita por Rafael Moreira, maranhense radicado há anos em Portugal e especialista reconhecido no estudo de fortes, o que a autora lista de novo são historiadores franceses do século XIX e do início do século XX, posteriores a Ferdinand Denis, nome principal e localizado nos trabalhos de Lourdinha, que, inclusive, frisou suas afirmações contraditórias sobre o tema, aqui silenciadas.

São os historiadores Léon Guérin, para quem “a França lançou os fundamentos de dois dos mais importantes estabelecimentos dos europeus no Brasil… aquele de Saint-Louis de Maranhão e aquele da baía do Rio de Janeiro” e Charles de La Ronciére, que se referiu a “uma cidade toda de madeira, tal foi Saint-Louis, a capital da França Equinocial” (p.273). Entre os autores regionais, o primeiro a aparecer é justamente Ribeiro do Amaral, ao qual se segue uma lista que no decorrer do século XX, como é sabido, se tornou amplamente majoritária.

Do outro lado, ela tem os autores que falam da fundação portuguesa da cidade, um arco que começa em Berredo (não lista Bettendorff), passa por Gaioso (não lista Prazeres e sua Poranduba Maranhense), João Lisboa, Cesar Marques, Barbosa de Godois, estes dois últimos em obras de referência geral, o famoso Dicionário Histórico-Geográfico da Província do Maranhão e um compêndio para alunos secundaristas, a História do Maranhão. Inclui ainda outros autores mais recentes indicados por Lourdinha, José Moreira e Correia Lima, que foram membros do IHGM.

O que temos claramente, portanto, são duas linhagens interpretativas, uma que remonta aos cronistas coloniais, sendo predominante até o final do século XIX, e outra que surge aí, na esteira da revalorização da presença francesa na colonização das Américas, e se formaliza em 1912. Mesmo incluindo equivocadamente o Pe. José de Moraes, no séc. XVIII, ainda assim é visível que a associação entre os dois tópicos do seu capítulo só ocorre depois, quando a cerimônia de 8 de setembro é incorporada à narrativa como marco de fundação da cidade, tornando-se fato naturalizado, a forma como é, de resto, tratado em sua análise.

Por que a autora não se apercebe do que está indicado nos próprios dados recolhidos?  A resposta pode estar no tipo de concepção, de fundo verdadeiramente mítico, que determina desde o início a forma da investigação e pode ser observado num trecho como este: “Mesmo que admitamos a inexistência de qualquer menção literal de Claude d’Abbeville e Yves d’Évreux à ideia de fundação de uma cidade, tal não significa que eles não tenham descrito, e com detalhes preciosos, a fundação de uma, no caso São Luís” (p. 602). Sim, aos olhos de quem lê e determina que a partir dali a cidade já estava fundada…

É o que leva igualmente um conhecedor dos livros de história do Maranhão e intelectual importante da AML, Jomar Moraes, a escrever sobre a fundação francesa de São Luís utilizando recorrentemente citações de Berredo, quando este afirma justo o contrário. Isto porque ele costuma citar trechos do capítulo ou livro II, quando o autor trata da tentativa de implantação da França Equinocial, seguindo o relato de Claude d’Abbeville sobre as cerimônias e as providências tomadas, e não do capítulo seguinte, justamente quando se reporta à fundação da cidade como fruto de uma decisão da corte em Madri. Em suma, a introjeção da identificação entre a missa de tomada de posse das terras e a fundação da cidade já está fixada e bloqueia qualquer indagação como absurda.

É por isto que a designação de mito, utilizada por Lourdinha de maneira puramente intuitiva, me pareceu sempre tão feliz. Segundo Roland Barthes, no Mitologias, os mitos modernos, como são estes criados na virada do século, constituem uma fala roubada e restituída, mas, “simplesmente, a fala que se restitui não é certamente a mesma que foi roubada. É esse breve roubo, esse momento fortuito de falsificação, que constitui o aspecto transido da fala mítica”. E mais: “O mito é simultaneamente imperfectível e indiscutível, o tempo e o saber nada lhe podem acrescentar ou subtrair”.

No caso, a fala relida e mitificada é a narrativa de Claude d’Abbeville, utilizada para constatar o que ela efetivamente não afirma. Nem verdade, nem mentira, o mito opera nas brumas, mas precisa fixar a cena. Ainda segundo Barthes, “é uma fala definida pela sua intenção muito mais do que pela sua literalidade; e que, no entanto, a intenção está de algum modo petrificada, purificada, eternizada”.

O tipo de comportamento reativo quando o livro apareceu foi efetivamente como se defendessem um mito. No afã de tornar natural ou evidente a fundação francesa, sequer admitia-se que esta noção tivesse uma historicidade. Tornou-se um fato naturalizado através do significado correlato atribuído à cerimônia de 8 de setembro. Neste aspecto, o trabalho de Ana Luiza Ferro apenas segue a crença, frise-se o termo, tornada comum: “Pouco importa se os portugueses agiram em conformidade com uma determinação expressa da Corte no sentido da fundação de uma cidade; eles não podiam fundar o que já fora fundado” (p. 602).

A autora tenta ainda inverter os termos da equação proposta por Lourdinha e fala, no capítulo 14, em um “mito da fundação portuguesa”, ao qual se contrapôs a verdade histórica da fundação francesa, a partir da revalorização das influências gaulesas no litoral brasileiro no processo da colonização e o conhecimento de textos que foram interditados, como o livro do padre Yves d’Évreux. Em linhas gerais, são ideias já defendidas em artigos pelo jornalista Antonio Carlos Lima, além de buscar algumas observações de Andréa Daher sobre as tentativas do português vencedor de impor a memória e “ocultar marcas”.

A questão é que os documentos e textos revelados não alteraram a descrição básica já existente sobre o arraial dos franceses, o forte e adjacências, constante seja no relato de Claude d’Abbeville, seja na correspondência oficial enviada ao reino ou firmada entre os capitães. A nova interpretação se baseia na conhecida História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão e terras circunvizinhas e surge não como contestação crítica, e sim constatação de algo que já estava lá desde sempre. A noção da fundação francesa se incrustou na historiografia maranhense como um mito. Foi isto que efetivamente o trabalho de Lourdinha mostrou.

Por outro lado, as observações sobre o forte como origem da cidade, tópico recorrente, são absolutamente pueris: “Incontáveis cidades mundiais, em distintas épocas de conquistas de território e guerras entre nações, nasceram de fortificações, a exemplo dos castelos. São Luís não foge a este padrão tão comum ao longo da história” (Idem, p. 264). Por aí não se vai longe.

Novamente as indicações feitas por Lourdinha em artigo intitulado “As Cidades no Brasil Colonial” (Caderno Alternativo, 18.05.2008), parecem mais frutíferas, mostrando, com base em estudo do urbanista Paulo Santos, que longe de serem simplesmente “espontâneas”, existiram cidades coloniais com planta prévia, fundadas por determinação expressa do Reino, entre as quais destaca Salvador, o Rio de Janeiro e São Luís.

As diretrizes para a fundação da primeira constavam do Regimento de Tomé de Souza e o mesmo se deu em São Luís, conforme o Regimento deixado por Alexandre de Moura a Jerônimo de Albuquerque. O plano de autoria do Engenheiro-Mor Francisco Frias de Mesquita seria o exemplo mais expressivo da adoção de traços de regularidade, talvez o primeiro realizado no Brasil, “mas sem a monótona repetição de quadrículos que se vê nas cidades de colonização hispânica”. Em seu núcleo regular rigorosamente projetado e preservado está a singularidade da cidade, muito mais que em sua mítica fundação francesa.

Enquanto seus críticos continuaram relendo as descrições de Claude d’Abbeville e tecendo loas à França Equinocial, Lourdinha apareceu com outra grande surpresa em 2012, ano em que seriam comemorados os “400 anos” da fundação. Longe de continuar batendo na mesma tecla, publicou um alentado livro sobre a cidade, a expansão da sua malha urbana, a transformação dos costumes, enfocando traços do cotidiano, as festas religiosas e laicas, as manifestações artísticas.

Aqui se distanciou ainda mais da escrita com traços formais e, sem qualquer quadro teórico, nos termos acadêmicos comuns, costurou uma mistura de pesquisa e ensaio memorialístico livre, vivo, cheio de cores, sabores e odores. O título, São Luís do Maranhão, Corpo e Alma, aparentemente pretensioso, traduz o que efetivamente vamos encontrar, uma narrativa forte e descentrada, desenhando vasto painel histórico da cidade, com fundo sentimental e ligeiramente nostálgico, mas sem a costumeira exaltação afetada.

É um encontro quase literal com São Luís em suas ruas e becos, igrejas e praças, dividido em quatro partes, referentes aos quatro séculos: a cidade traçada; o início da expansão; a era do casario; crescimento e degradação. Não é uma história administrativa, tão ao gosto de Mário Meireles, por exemplo, nem um guia sentimental ou turístico, mas é um painel histórico que traz muito da sua longa vivência na cidade e do trânsito entre famílias antigas, expresso no conhecimento de episódios e figuras variadas da sociedade.

Com uma edição ricamente ilustrada, mesclando fotografias antigas com outras recentes, muitas da lavra do fotógrafo Edgar Rocha, associadas a registros de pinturas, dispostas numa dimensão não muito usual em obras de história, foi, ironicamente, talvez a melhor saudação que a cidade recebeu naquele ano de comemorações. É livro escrito com sofreguidão, salto sem rede de proteção, que se lê de um fôlego. Quanto mais as memórias, suas e de outros, se entrelaçam com a pesquisa e são atravessadas pelas imagens, mais o texto ganha em intensidade. Trabalho significativo de reunião de informações de campos variados, mas também fruto da arte de quem tem o dom de prender a atenção em meio à narrativa mais simples.

Se hoje, passados 15 anos, é possível dizer que o pequeno livro sobre a fundação vai tornando-se clássico, pois reviu os termos do debate, concorde-se ou não com suas posições, este volume sobre a cidade parece simplesmente ter nascido clássico, e da maneira mais silenciosa possível, já disputado e guardado com o zelo do livro raro, apesar de lançado há apenas três anos.

História da Medicina em São Luís. Médicos, enfermidades e instituições. Capa. Reprodução
História da Medicina em São Luís. Médicos, enfermidades e instituições. Capa. Reprodução

 

Sua mais nova realização veio à luz recentemente, o livro História da Medicina em São Luís: médicos, enfermidades e instituições, em outra edição caprichada, lançado no Conselho Regional de Medicina, com relançamento previsto para o dia de abertura da Feira (2 de outubro). Um tema árido e para ela até então desconhecido foi tratado com leveza e novamente as artes da sua narrativa prendem o leitor.

Desta vez, a cidade aparece nas malhas das nossas enfermidades, suas formas e locais de tratamento e, principalmente, na constituição da comunidade médica, em levantamento rico e humanizado, que traz imagens vívidas de figuras emblemáticas, num escopo que vai do tradicional médico de família, percorrendo residências, atendendo nos consultórios ou, mais comumente, nas farmácias, à formação das primeiras especialidades, desenvolvendo-se com o predomínio dos hospitais e clínicas.

Sem dúvida, estes trabalhos escritos em fase avançada da vida por uma professora aposentada que influenciou gerações através da sala de aula, devem ser o motivo da homenagem, mas para todos que a conhecem, seus numerosos amigos, ex-alunos, antigos colegas de trabalho e admiradores, trata-se de algo maior e mais importante, a saudação a uma figura humana rara e sua vinculação à cidade onde sempre viveu.

*Flávio Reis é professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA. Publicou Cenas marginais (2005, ed. do autor), Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão (2007, ed. do autor) e Guerrilhas (2012, Pitomba/ Vias de Fato).

Noite de autógrafos de Joãozinho Ribeiro terá música e cinema

[release]

Apresentação do compositor dá continuidade à temporada de lançamento de Milhões de uns – vol. 1, seu disco de estreia. Na ocasião será exibido curta-metragem integrante da programação do Festival Avanca-São Luís

A cantora Milla Camões aplaude o compositor Joãozinho Ribeiro em edição da temporada Milhões de uns. Foto: Ton Bezerra

 

O compositor Joãozinho Ribeiro volta ao palco do Restaurante Malagueta (Rua das Graúnas, 3, Renascença II) dia 28 de agosto (sexta-feira), às 20h, dando continuidade à temporada de lançamentos e noites de autógrafos do cd Milhões de uns- vol. 1, trabalho que marca sua estreia no mercado fonográfico.

Cinema – A abertura da noite fica por conta da avant-première do festival Avanca-São Luís. Na ocasião Francisco Colombo apresentará um curta-metragem que integra a programação da mostra, que acontecerá dias 2 e 3 de setembro, no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy).

O cineasta e professor universitário está cursando mestrado em Comunicação em Aveiro, Portugal, e selecionou alguns filmes de um festival local para mostrar em São Luís. “É uma oportunidade única, já que provavelmente estes filmes não chegarão ao circuito das salas de cinema no Brasil, mesmo as não comerciais”, avisa. O festival também acontecerá em Imperatriz, com produção de Marcos Fábio Belo Matos, professor da UFMA naquele município.

“Quem me conhece e acompanha minha trajetória sabe que sempre gostei de estimular o diálogo entre as mais variadas linguagens artísticas, seja como artista, seja como gestor”, afirmou Joãozinho Ribeiro, que já mesclou poesia à música das noites de Milhões de uns e agora traz o cinema para o centro das atenções.

Participações especiais – Os convidados do show são Milla Camões e Hugo Carafunim. À cantora o artista não poupou elogios quando de sua última apresentação e é conhecida a aclamação da plateia quando ela interpretou o blues Coisa de Deus (Joãozinho Ribeiro e Betto Pereira) no show de gravação do cd: escalada apenas para a primeira noite, acabou participando também da segunda, atendendo ao pedido do público.

O trompetista Hugo Carafunim é sobrinho de Joãozinho Ribeiro. Ex-aluno da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (EMEM) e da Banda do Bom Menino do Convento das Mercês – onde hoje dá aula –, suas primeiras aparições públicas foram justamente ao lado do tio, no circuito musical alternativo Samba da Minha Terra, que levou samba e choro a 18 comunidades de São Luís entre 2002 e 2003.

O repertório base da apresentação é o de Milhões de uns – vol. 1, mas Joãozinho Ribeiro deve interpretar ainda composições inéditas, além de outras, já gravadas por diversos artistas – convém lembrar que ele é um dos compositores mais requisitados do Maranhão. Durante a apresentação será acompanhado por Darkliwson (percussão), Elton Nascimento (flauta e saxofone), Luiz Jr. (violão sete cordas e direção musical) e Murilo Rego (teclado). Os ingressos individuais custam R$ 20,00 e podem ser adquiridos no local.

Serviço

O quê: show Milhões de uns – vol 1 e Avant-première do Festival de Cinema Avanca-São Luís
Quem: Joãozinho Ribeiro, com participações especiais de Milla Camões, Hugo Carafunim e Francisco Colombo
Quando: 28 de agosto (sexta-feira), às 20h
Onde: Restaurante Malagueta (Rua das Graúnas, 3, Renascença II)
Quanto: R$ 20,00

Joãozinho Ribeiro autografa Milhões de uns no Malagueta

[release]

Show acontece sexta-feira, 31, com participações especiais de Adler São Luís, Célia Maria e Milla Camões

Divulgação
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Ilha adentro, o compositor Joãozinho Ribeiro segue sua turnê-maratona de lançamento de Milhões de uns – vol. 1, gravado ao vivo no Teatro Arthur Azevedo em novembro de 2012, com a participação de diversos artistas, entre os quais Chico César e Zeca Baleiro.

Recentemente Joãozinho esteve no Bip Bip, em Copabacana, Rio de Janeiro, mítico cenário da música e boemia cariocas, ocasião em que (re)encontrou diversos amigos maranhenses, autografou seu disco e prestigiou uma roda de choro que contou com a presença de uma lenda viva da flauta: a francesa Odette Ernst Dias, radicada no Brasil, uma das fundadoras do Clube do Choro de Brasília.

A próxima aparição de Joãozinho Ribeiro com a turnê de Milhões de uns será no Restaurante Malagueta (Rua das Graúnas, 3, Jardim Renascença II, telefone: (98) 32273000), nesta sexta-feira, 31, às 21h30. Os ingressos individuais podem ser adquiridos no local e custam R$ 20,00.

Na oportunidade Joãozinho Ribeiro contará com as participações especiais de Célia Maria, Milla Camões e Adler São Luís, seu primo. Anfitrião e convidados serão acompanhados por Celso Bastos (saxofone, flauta e clarinete), Luiz Cláudio (percussão), Luiz Jr. (viola, violão sete cordas e guitarra) e Rui Mário (sanfona).

Convidados – Célia Maria iniciou sua carreira artística no tempo em que as rádios eram dotadas de auditórios, e parte da programação era preenchida com música ao vivo, entre calouros e profissionais. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde conviveu com nomes como Nelson Cavaquinho e Cartola. Seu disco de estreia – e até aqui único gravado – leva apenas seu nome e foi lançado em 2001 e rendeu, no ano seguinte, o Prêmio Universidade FM de melhor compositor a Joãozinho Ribeiro por Milhões de uns.

Carioca de nascimento, maranhense de adoção, Milla Camões está gravando seu disco de estreia. Reconhecida na noite ludovicense, já venceu o Prêmio Universidade FM na categoria Talento da Noite. Versátil, transita pelos universos do samba, da bossa, do choro e do jazz com igual desenvoltura. Em 2012 foi escalada para a primeira noite do espetáculo de gravação de Milhões de uns, disco de estreia de Joãozinho Ribeiro. Cantou Coisa de Deus, blues parceria dele com Betto Pereira. Ovacionada pela plateia, precisou ser escalada para a segunda noite, interpretando a mesma canção.

Primo de Joãozinho Ribeiro e Arlindo Pipiu, Adler São Luís deixou a cidade natal que lhe dá nome artístico após concluir o ensino médio – então segundo grau – no Liceu Maranhense na década de 1970. A ideia era cursar Engenharia Química no Rio de Janeiro. Mas a música falou mais alto. Na década de 1980 gravou Tambô de criola, com a banda de Elba Ramalho e participações de nomes como Manassés, Marcos Suzano, Paulo Moura e Luiz Melodia. Em 1981, sua música Couraça foi gravada pela potiguar Terezinha de Jesus em Pra incendiar seu coração (CBS). Em 2012 lançou o livro de poemas Substância rara. Radicado em São Paulo há 20 anos sempre vem ao Maranhão para recarregar as baterias.

Em clima de festa e reencontro a noite de autógrafos de Milhões de uns promete ser mais uma celebração à amizade e à boa música. De avalistas, o espírito agregador e a vasta obra musical de Joãozinho Ribeiro, talento reconhecido como um dos compositores mais gravados do Maranhão.