Karla Castro lança hoje “Todo o meu sentimento através dos teus olhos”

Livro marca estreia da autora na poesia; noite de autógrafos acontece às 19h, no Reviver Hostel

Todo o meu sentimento através dos teus olhos. Capa. Reprodução

Conheci Karla Castro nas mesas dispostas na calçada da Feira da Tralha, saudoso sebo-bar do casal de amigos comuns Riba e Marly, paisagem afetiva e, infelizmente hoje saudosa (no formato bar presencial; o sebo continua atendendo pelo instagram), em geral escolhida para passar a régua no dia; em algumas noites, este repórter transmutava-se num arremedo de dj e, entre um gole e outro, a amizade se estabeleceu.

Se opto por iniciar este texto com declaração tão pessoal, é apenas para revelar minha surpresa ao descobrir outra faceta da fisioterapeuta cearense e professora universitária radicada no Maranhão há mais de 21 anos: a da poesia, ouro que ela entrega a quem interessar possa, com talento e honestidade em seu livro de estreia, “Todo o meu sentimento através dos teus olhos”, ilustrado por fotografias de Sílvia Estrela, que ela lança hoje (19), às 19h, no Reviver Hostel (Rua de Nazaré, 200, Centro).

Se antes Karla Castro escrevia – publicava, melhor dizendo – apenas artigos acadêmicos em sua área, ela adentra o terreno, ao mesmo tempo sagrado e profano da poesia, sem receios. Sua poesia tem um tom confessional e é marcada por referências: os acúmulos que nos tornam aquilo que somos. Música, fé, o feminino, a boemia, o onírico, lendas e contos de fadas, a própria poesia. Nada é jogo de cena.

No fim das contas, é um livro sobre o amor: o amor realizado, de um casal; o amor platônico; o amor pela poesia em si, traduzidos em títulos como “O engenho das sensações”, “Paixão”, “Até fazer morada”, “A rima, o amor e a poesia” ou “Autorretrato”.

Em “Letras absíntias”, desnuda-se por inteiro: “Porque a profundidade do mergulho,/ para onde suas letras absíntias me arrastam,/ desemboca em cálidos oceanos de lírios de sal/ que me desnudam despudoradamente/ e me fazem mergulhar descabida,/ e, mais profundamente ainda,/ tocando, com os meus pés vorazes,/ lugares do imaginário que,/ nem em sonho,/ tua escrita mais ousada arriscaria penetrar…”.

Desde o título – e da bela fotografia escolhida para capa, em que vimos, numa janela de um casarão em ruínas, um par de bonecos de pano – Karla Castro estabelece uma relação de troca e cumplicidade com o leitor, como se este fosse seu espelho e vice-versa.

Na noite de autógrafos haverá apresentações do Quarteto Ponto de Fuga e da dj Vanessa Serra, além de vários amigos lendo poemas do livro.

Amores, im/permanência e maturidade

[release]

Inspirada estreia solo de Carolinaa Sanches (vocalista dos grupos Caburé Canela e Pisada da Jurema), “Curva de rio” chega às plataformas de streaming dia 8 de abril (sexta-feira)

Curva de rio. Capa. Reprodução

Após disponibilizar dois singles, a cantora Carolinaa Sanches lança no próximo dia 8 de abril (sexta-feira), o álbum “Curva de rio”, sua estreia solo – ela integra os grupos Caburé Canela e Pisada da Jurema, além de ser artista visual e uma das gestoras da editora artesanal Grafatório, cujas obras-primas lançadas garantem a felicidade de quem ama livros.

O trabalho reafirma seu talento e maturidade artística. “Curva de rio” abre com “Cantar” (Carolinaa Sanches), o segundo single apresentado ao público, que conta sobre o mágico, difícil e sagrado ofício do verbo que lhe empresta o título. Ela se acerca de gerações distintas de cantores, nas presenças da veterana Alzira E., além de Gustavo Galo (da Trupe Chá de Boldo) e Isabela Lorena, também da Pisada da Jurema.

“Quando você chegou/ eu quis comemorar/ eu quis dançar até o amanhecer/ eu quis beijar você”, segue “Instante” (Carolinaa Sanches/ Layse Moraes), segunda faixa do álbum. A esta altura o ouvinte já está envolvido e bem poderia ser ele, ela, qualquer um de nós, devolvendo à Carolinaa a declaração. Cantada a seis vozes – além de Carolinaa e a parceira, Caruh Spisla, Francesco Mugnari, Guilherme Kirchheim e Mariana Franco –, um clima samba-jazzy se instala, no diálogo entre contrabaixo (Mariana Franco), teclado (Lucas Oliveira) e bateria (João Bolognini).

“Curva de rio” é delicado, bonito, gostoso de ouvir. Um alento nestes tempos trevosos. Letras inteligentes dialogam com melodias que convidam à dança. Carolinaa Sanches literalmente põe o coração na voz. “Cartas claras sobre a mesa/ desfrutar dos nossos sóis/ e a gente de peito aberto/ cada vez chega mais perto/ de entender o que é nós”, como diz na letra de “Nós” (Carolinaa Sanches), canção de amor que se equilibra entre o xote e o jazz, pontuada pelos contrabaixos de Mariana Franco (que também canta na faixa), a bateria de Paulo Moraes e o clarinete de Pedro José – os três, seus colegas de  Caburé Canela.

Ao longo do disco, Carolinaa revela-se, desnuda-se, derrama-se, entrega-se por completo. “Entre uma palavra e outra/ entra uma palavra noutra/ nenhuma boca chama assim meu nome/ nenhuma boca deixa em chama assim”, começa a letra de “Primeira primavera” (Carolinaa Sanches/ Barbara Blanco), cantada em dueto com Fernanda Branco Polse. Sim, o amor (e suas declarações) permeia(m) “Curva de rio” – um rio que transborda amores –, mas aqui o mais universal (e manjado) dos temas de música e poesia é cantado de forma extremamente original.

Se “amar é um elo entre o azul e amarelo”, como diria o conterrâneo Paulo Leminski – ele curitibano, ela londrinense –, a cantora e compositora dialoga com o universo do poeta em “Profundo amarelo” (Carolinaa Sanches), outra faixa em que baixo e clarinete se destacam. Versos como “não fosse tanto era quase/ não fosse isso era menos” invertem o título do famoso livro do artista multimídia (antes de o termo ser inventado), o que ela também é, mantendo o diálogo, o respeito e fazendo merecida reverência.

Em “Órbita” (Carolinaa Sanches), a canção mais experimental do disco, ela canta, em quarteto com Pedro José, Mariana Leon e Mariana Franco: “sentir seu coração/ faz-me entrar em outra constelação / e mesmo sem entrar em órbita/ eu já consigo tirar meus pés do chão/”. O ouvinte é tripulante da nave musical, viagem sem volta tanto a quem já conhecia a artista dos grupos que ela integra quanto àqueles a quem será apresentada por este lançamento.

Primeiro single lançado, em fevereiro passado, e primeira faixa a ganhar videoclipe, “Petricor” (Maria Thomé), literalmente o cheiro da chuva, é canção ensolarada – e não reside aí nenhuma contradição –, espécie de arco-íris do disco. O baião, de autoria da percussionista da Caburé Canela, reafirma a estreita ligação de Carolinaa Sanches com a cultura popular nordestina, algo percebido ao longo de todo “Curva de rio”.

O inspirado disco termina com “É” (Carolinaa Sanches), canção de despedida com os dois pés nos terreiros das religiões de matriz africana, infelizmente ainda alvos de tanta discriminação e violência. A faixa reflete sobre o individual e o coletivo, reivindicando o respeito aos seres humanos, mais que independentemente de suas diferenças, mas para além e também por causa delas. É faixa quase exclusivamente feminina, a que comparecem Thais Hamer (alfaia e voz), Maria Thomé (tambor de mão e voz), Edna Aguiar (voz), Guilherme Kirchheim (voz), Isabela Lorena (voz), Naná Souza (voz), Thunay Tartari (voz) e Mariana Franco (voz). “Junto ser único”, palavra de ordem.

Carolinaa Sanches não anda só; além de aqui e acolá seus colegas de bandas comparecerem, ao álbum plural se fazem presentes mais de 20 artistas, entre autores, intérpretes e instrumentistas. Artista de raro talento, em seu solo ela está muito bem acompanhada, como a subverter o dito popular: Gabriel Kruczeveski (flauta transversal, efeitos, violão e voz), João Bolognini (bateria), Lara Moratto (flauta transversal), Lucas Oliveira (teclado), Maria Thomé (tambor de mão, caxixi, zabumba, triângulo e voz), Mariana Franco (contrabaixos, violão e voz), Paulo Moraes (bateria) e Pedro José (clarinete, viola caipira e voz) formam sua banda base.

Essa soma de talentos e a entrega de cada um/a a cada nota, garantem uma diversidade de timbres que mantém o disco distante de qualquer sintoma de monotonia. “Curva de rio” foi gravado em Londrina, no Toqô Estúdio, por Gabriel Kruczeveski, que assina também sua mixagem e masterização. A direção musical é de Mariana Franco. A capa é assinada pela própria Carolinaa Sanches, sobre foto de Paula Viana.

Carolinaa Sanches resume o conceito por trás do título do disco: “A princípio pensava na curva de rio como um espaço onde as “coisas” param. No meio do processo fui entendendo que as coisas param por um tempo, pois o rio está sempre em movimento e as leva para outros lugares. Então as coisas passam pela curva. As “coisas”, nesse trabalho, dizem respeito mais às “pessoas” mesmo. Como é um trabalho que envolve muitos anos, envolve diferentes amores em que me inspirei para as músicas, e também, foi um álbum construído a muitas mãos. Tenho pensado que a curva sou eu. O espaço que permitiu que outras acessassem e conhecessem essa parte do rio. Aceitando a impermanência e também a permanência das relações. A curva de rio pode ser vista de cima e também de dentro, mergulhada nos amores profundos, que mesmo que findem, ficam”.

“Curva de rio” tem patrocínio do Promic (Programa Municipal de Incentivo à Cultura da Prefeitura de Londrina). Ouça sem moderação!

A cantora, compositora e artista visual Carolinaa Sanches. Foto: Paula Viana

Serviço: “Curva de rio”, álbum de Carolinaa Sanches. Disponível nas plataformas de streaming na próxima sexta-feira (8). Siga a cantora nas redes sociais e plataformas digitais: instagram, spotify, youtube, deezer e apple music. Faça a pré-save:

“Apesar dos coronas contrários”, EP de Joãozinho Ribeiro, será lançado sábado (12)

[release]

EP carnavalesco reúne cinco composições inéditas e traz participações especiais de Zeca Baleiro, Ronald Pinheiro, Flávia Bittencourt, Marconi Rezende e Allysson Ribeiro

Apesar dos coronas contrários. Capa. Reprodução

POR PAULA BRITO E ZEMA RIBEIRO

Em tempos difíceis para a população brasileira, tanto pelo momento político que o país atravessa, quanto pela pandemia que sua população enfrenta, nada melhor do que espalhar amor e alegria para as pessoas através da música.

Pensando nisso, o poeta e compositor maranhense Joãozinho Ribeiro lança, no próximo sábado (12) a partir da meia noite, em todas as plataformas digitais, o seu mais novo EP, intitulado “Apesar dos coronas contrários”. O EP de carnaval traz cinco canções inéditas, sendo três frevos e dois sambas encharcados de maranhensidade.

“Coronas contrários”, um frevo criado em parceria com o cantor e compositor Zeca Baleiro, que também a interpreta, e é o carro-chefe da coletânea. O EP traz ainda “Memórias de Moraes”, composta em 2020, em parceria com o cantor, compositor e instrumentista Ronald Pinheiro, uma merecida homenagem ao falecido artista baiano Moraes Moreira, interpretada pelos dois autores. Nesta faixa, Ronald Pinheiro empresta o solo da sua criativa guitarra baiana ao saboroso gênero. “Azar do arlequim”, um frevo-canção, de autoria de Joãozinho Ribeiro, interpretado pelas belas vozes dos cantores e compositores Flávia Bittencourt e Marconi Rezende, é outra faixa do trabalho. Os sambas autorais “Valeu, Cacá!” e “Vou engomar” completam a lista sob a forma de pot-pourri, cantados, respectivamente, por Joãozinho Ribeiro e pelo cantor e compositor Allysson Ribeiro.

O maestro Rui Mário assina a direção musical e arranjos, e também participa com a sua sanfona e teclados em algumas faixas, assistido de perto pelo talentoso e respeitado músico Arlindo Pipiu (baixo, violões de seis e sete cordas e guitarra). O time de músicos se completa com Luiz Cláudio (percussão), Danilo Santos (saxofone e flauta), Hugo Carafunim (trompete e flugelhorn) e Jovan Lopes (trombone). Daniel Miranda (trombone) participa de “Azar do arlequim”. Robertinho Chinês entra em cena com o seu inconfundível cavaquinho no pot-pourri de sambas, adicionando um molho todo especial à batucada tipicamente maranhense.

Os vocais ficam por conta das cantoras Kátia Espíndola e Mariana Rosa, que participam de todas as faixas. Jaílton Sodré comanda, com apurada técnica, a mixagem e a masterização do EP, gravado no Estúdio Zabumba Records. A produção executiva e coordenação geral do projeto ficam a cargo do próprio Joãozinho Ribeiro.

Um dos parceiros e incentivadores de Joãozinho Ribeiro nesta empreitada é o cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro. Ele resume esse trabalho como um ato de resistência: “Joãozinho Ribeiro já era “resistência” antes mesmo do termo virar lugar-comum em tempos de redes sociais e de ameaças neofacistas. Sempre resistiu. À imobilidade, à falta de ação política, à omissão na luta pela afirmação da cultura e até ao próprio cansaço – sim, porque a luta cansa até os guerreiros mais fervorosos. Neste momento político pavoroso, Joãozinho quer resistir cantando, provocando e espalhando ventos humanistas por este velho mundo. Por isso (e para isso), gestou este EP de carnaval, “Apesar dos coronas contrários”, com três frevos e um medley de dois sambas, da safra recente do compositor, ora sozinho, ora em parceria. O EP reúne vários parceiros – músicos, intérpretes e compositores – e é uma conclamação amorosa e divertida à dança e à festa. Por que a vida é essencial, especialmente em tempos de trevas”, afirma.

Serviço

O quê: Lançamento do EP carnavalesco “Apesar dos coronas contrários”
Quem: Joãozinho Ribeiro, com participações especiais de Zeca Baleiro, Ronald Pinheiro, Flávia Bittencourt, Marconi Rezende e Allysson Ribeiro
Onde: em todas as plataformas digitais
Quando: sábado (12), à meia-noite
Quanto: grátis

Riqueza e diversidade marcam “Karawara”, novo disco de Rommel

[release]

Álbum será disponibilizado dia 5 de novembro nas plataformas de streaming e sai pela Biscoito Fino

O cantor e compositor Rommel. Foto: Estúdio 78. Divulgação

Ao longo dos últimos meses o cantor e compositor Rommel antecipou aperitivos de seu novo disco, “Karawara”, que será disponibilizado nas plataformas de streaming no próximo dia 5 de novembro (sexta-feira). O álbum sai pela gravadora Biscoito Fino.

Maranhense de São Luís, radicado no Canadá, Rommel não perdeu um pingo de brasilidade. Seu novo disco, cantado em português, espanhol, francês e inglês, é também marcado pela diversidade rítmica que é sinônimo de música popular brasileira.

A expressão em tupi que dá título ao disco refere-se aos espíritos da floresta e é também uma homenagem aos povos indígenas do mundo, e sua história de luta por direitos humanos básicos e reconhecimento. Nos singles e videoclipes que o artista disponibilizou até aqui, além da pluralidade melódica, o trabalho é marcado também pelo passeio por vários assuntos urgentes: “Karawara” é, com o perdão do clichê, um disco para dançar e pensar.

O sagrado dos terreiros das religiões de matriz africana, o combate ao racismo, as belezas naturais de São Luís e Montreal, a degradação ambiental (que tem arrancado povos e espíritos das florestas de seu habitat natural), a celebração da ancestralidade, através da reverência a grandes mestres comparecem ao temário de “Karawara”.

Um time de músicos de primeira grandeza, entre brasileiros e canadenses acompanha Rommel (voz, violão e guitarra) ao longo das 13 faixas autorais, que ele assina sozinho ou em parceria. Destacamos a banda base: André Galamba (baixo, guitarra e violão), Aquiles Melo (bateria), Carlos Bala (bateria), Dark Brandão (percussão), David Ryshpan (teclados), Debson Silva (trombone), Erivan Duarte (baixo), Márcio Oliveira (trompete), Parrô Mello (saxofone e arranjos de metais), Paulo Bottas (teclados) e Vovô Saramanda (percussão, arranjos e efeitos). A produção musical é de Rommel e Rafael Cunha França.

“Karawara” terá show de lançamento online dia 6 de novembro (sexta-feira), com transmissão pelo canal Rommel Music no youtube. A apresentação acontece às 21h (horário de Brasília).

Videoclipe – A faixa-título do novo disco de Rommel também vai ganhar videoclipe, que será lançado em novembro, após o disco. O clipe de “Karawara” foi rodado no Xingu, bebendo diretamente na fonte ancestral de que se alimenta o disco e a obra de Rommel como um todo. O videoclipe é dirigido por Takumã Kiukuro, cineasta indígena, da aldeia que lhe dá o sobrenome, atualmente residindo na aldeia Ipatsé, no Parque Nacional do Xingu, e Caio Lazaneo.

A música poderosa de Rommel aliada a imagens orgânicas – indígenas captados por seus irmãos – garante ao espectador um mergulho profundo na ancestralidade tão cara ao artista e/m sua coerente trajetória. Kiukuro teve filmes premiados nos festivais de Gramado e Brasília, dois dos mais importantes do país, e no Presence Autochtone de Terres em Vues, em Montreal. Lazaneo tem mestrado e doutorado em Ciências da Comunicação (ECA/USP) e teve seu curta-metragem “Ressuscita-me” premiado na categoria Super Filme do Festival Internacional de Cinema Super8 de Curitiba, em 2017.

“Karawara”. Capa. Reprodução

Serviço

“Karawara”, novo disco de Rommel. Nas plataformas de streaming no dia 5 de novembro (sexta-feira).

Show virtual de lançamento dia 6, no canal Rommel Music no youtube.

O videoclipe da faixa-título será disponibilizado ainda em novembro.

Refletir(-se) (n)o outro: a essência da música de Rommel

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O cantor e compositor Rommel. Foto: divulgação

Essência é uma palavra que cabe bem para definir a musicalidade de Rommel. Cidadão do mundo, o artista tem alinhado em seu trabalho influências do pop e da diversidade da cultura popular do Brasil.

No próximo sábado, 25 de setembro, chega às plataformas digitais o segundo single de “Karawara”, disco que Rommel lança em novembro pela Biscoito Fino. Trata-se de “In essence”, faixa que tem influências do budismo, procurando enxergar para além do que se vê.

No videoclipe, Rommel vê e é visto por pares, num jogo de reflexão – literalmente –, de perceber o outro como uma extensão de si próprio. Em tempos de intolerância e individualismo, o artista passa uma mensagem altruísta. A música é um afrobeat com a rítmica inspirada nos Batás, tambores usados em ritos religiosos da cultura iorubá na Nigéria, mas também em Cuba, no Haiti e no Tambor de Mina do Maranhão.

O videoclipe de “In essence” foi rodado no Canadá, onde Rommel reside, e conta com a participação da dançarina Jade Maya, cujo bailado traduz o jogo da diversidade de que fala a música: “vozes múltiplas, cores, nuances do arco-íris”, diz a letra, cantada em inglês, em tradução livre.

O primeiro single de “Karawara”, “Agô”, lançado no último dia 4 de setembro, teve boa receptividade do público e foi destaque nos principais aplicativos e plataformas de streaming.

Serviço:

O quê: lançamento do single e videoclipe de “In essence”
Onde: plataformas digitais e canal do artista no youtube (Rommel Music)
Quando: sábado, 25 de setembro, às 23h
Quanto: grátis

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Veja o teaser e faça a pré-save do videoclipe:

Single “Agô” antecipa “Karawara”, novo disco de Rommel

[release]

Faixa chega às plataformas de streaming 3 de setembro; álbum sai em novembro

O cantor e compositor Rommel. Foto: divulgação

No próximo dia 3 de setembro (sexta-feira), chega a todas as plataformas de streaming a música “Agô”, primeiro single (pré-save aqui) de “Karawara”, álbum que o cantor e compositor Rommel lança em novembro, pela gravadora Biscoito Fino. O videoclipe de “Agô” será lançado no dia seguinte (4 de setembro, sábado) e no dia 5 de setembro será disponibilizado o mini-documentário “Agô – Até o sopro derradeiro”.

Composta por Rommel, em parceria com Enrico Lima e Orlando Macedo, “Agô” é um ijexá, ritmo pelo qual o artista sempre foi apaixonado. A música passeia pela cultura afro-brasileira, em diálogo com a sonoridade dos terreiros das religiões de matriz africana.

“Pedindo a paz de Oxalá/ dizendo agô aos Orixás/ Agô/ Levando flores para ofertar/ e as pegadas vão pro mar/ Amor”, diz um trecho da letra, que também reforça a importância da arte como uma forma de resistência, o que se manifesta em outras faixas de “Karawara”.

O videoclipe de “Agô” foi rodado no Rio de Janeiro, com a presença de Aline Valentim, professora de danças afro-brasileiras, e é dedicado ao centenário de Mercedes Baptista, bailarina e coreógrafa brasileira, pioneira no combate ao racismo.

“Karawara” tem canções em português, inglês e francês e conta com a participação de músicos do Brasil e do Canadá, onde o maranhense Rommel mora atualmente.

Em “Agô”, Rommel (voz e violão) é acompanhado por Carlos Bala (bateria), André Galamba (baixo e guitarra), Vovô Saramanda (percussão), David Ryshpan (teclado), Parrô Mello (saxofone), Márcio Oliveira (trompete), Debson Silva (trombone), Jordan Zalis e Pryia Shah (backing vocals).

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Leia a letra:

“Agô” (Rommel Ribeiro/ Enrico Lima/ Orlando Macedo)

Ijexá repica e retumba no fim da tarde
Um sonho que passa e o tempo corre ligeiro
Levada que arde ao sol da eternidade
Subindo a ladeira até o sopro derradeiro

Ijexá repica e retumba no fim da tarde
Um sonho que passa e o tempo corre ligeiro
Levada que arde ao sol da eterna Arte
Subindo a ladeira até o sopro derradeiro

Pedindo a paz de Oxalá
Dizendo agô aos Orixás
Agô
Levando flores para ofertar
E as pegadas vão pro mar
Amor

Didê, agô, didê
Didê, agô, didê
Agô
Didê, agô, didê
Didê, agô, didê
Agô

*

Assista ao teaser:

SERVIÇO

O quê: lançamento do single e videoclipe “Agô” e mini-documentário “Agô – Até o sopro derradeiro”
Quem: o cantor e compositor Rommel
Quando: dias 3 (single), 4 (videoclipe) e 5 de setembro (mini-documentário)
Onde: nas plataformas digitais
Quanto: grátis

Tribo futurista, a tribo de um presente urgente

Rita Benneditto e Beto Ehong em colagem sobre fotos de Márcio Vasconcelos e Emílio Sagaz. Divulgação

A “Tribo futurista” em que Beto Ehong e Rita Benneditto se encontram é, na verdade, uma tribo do presente, ou, antes disso, uma tribo da urgência. Mais que a soma de dois enormes talentos, o encontro de dois artistas compromissados com a arte para além de mero entretenimento. Que não se eximem de suas responsabilidades de artistas enquanto formadores de opinião e tocam os dedos nas feridas. A sonoridade de mina eletrônica dando voz a minorias e rebelando-se contra discursos de ódio que se tornaram corriqueiros em nossos tristes tempos precisa reverberar entre as paredes das cidades atravessando as cabeças ocas de quem insiste em negar o óbvio. Som para dançar com a cabeça e pensar com o corpo inteiro. Tambores que batem dentro do peito e eriçam cada pelo: arrepio de quem não perdeu a capacidade de se emocionar diante do belo – apesar de toda tragédia que nos cerca. Coisas de que somente são capazes aqueles que realmente manjam dos paranauês.

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Escrevi o textinho acima a pedido do cantor, compositor e produtor Beto Ehong. O single “Tribo futurista” pode ser ouvido nas plataformas de streaming.

O videoclipe será lançado no próximo dia 22 de abril e você poderá assistir abaixo, na data:

Sempre se pode sonhar. Ou: das coisas que fazem 2020 e o Brasil ainda valerem a pena

Sempre se pode sonhar. Capa. Reprodução

Chico Buarque e Paulinho da Viola tornaram cada vez mais espaçados no tempo seus lançamentos discográficos ao longo das últimas duas ou três décadas. O primeiro se divide, com igual êxito, entre os ofícios de cantor e compositor e escritor e tem lançado discos e livros muito bons – acabei recentemente de ler Essa gente (Companhia das Letras, 2019).

Paulinho da Viola, como nos mostra Meu tempo é hoje (2003), o excelente documentário de Izabel Jaguaribe – cuja trilha sonora é um ótimo disco lançado no mesmo ano –, se divide entre hobbies como a marcenaria, a sinuca, sofrer pelo Vasco da Gama, seu time do coração, e shows – com a agenda completamente afetada pela pandemia de covid-19 neste 2020.

Por falar em show, corta para uma lembrança: em 2014 vi Paulinho da Viola ao vivo, em um show prejudicado pela acústica do lugar, o finado Patrimônio Show, ali nas imediações do terminal de integração da Praia Grande. Um dia antes, ou no mesmo dia, cito de memória, compareci à coletiva de imprensa que o príncipe deu em um hotel da cidade. Indaguei-lhe sobre A obra para violão de Paulinho da Viola, disco instrumental gravado pelo maranhense João Pedro Borges (violão), nas companhias luxuosas do próprio Paulinho (violão e cavaquinho) e de César Faria (violão), pai de Paulinho, da formação original do Época de Ouro. Lançado em 1985, o vinil foi distribuído como brinde de fim de ano a clientes de uma mineradora e nunca foi reeditado. Fecha parêntese.

Mas abre outro: apesar de gozar de merecido reconhecimento, fruto da qualidade de sua obra, Paulinho da Viola é um dos mais injustiçados artistas da música popular brasileira. Quase nunca entra em listas de mais ou maiores isso ou aquilo quando se trata da sigla MPB, quase sempre rotulado como mero sambista – como se isto fosse pouco. Fecha parênteses.

Nunca havia escrito sobre um disco sem ouvi-lo e o faço para anunciar: dia 30 de outubro chega às plataformas um novo álbum de Paulinho da Viola. Sucessor do Acústico MTV (2007), Sempre se pode sonhar (2020) é um registro ao vivo, com 22 faixas gravadas no Teatro Fecap, entre 13 de setembro e 8 de outubro de 2006.

A primeira reação, ao ver a capa – mais uma de Elifas Andreato para a discografia do mestre – publicada no instagram de Paulinho da Viola foi: 2020 e o Brasil ainda valem a pena. Depois a ficha foi caindo lentamente e, apesar do Brasil e de 2020, que puta título, hein, seu Paulo César Batista de Faria?

Corta para um clichê: Paulinho da Viola completará 78 anos no próximo 12 de novembro, mas quem ganha o presente, antecipado, é o fã-clube. Fecha clichê.

Como bem cantou Caetano Veloso: “viva o Paulinho da Viola!”.

Uma lufada de alegria, beleza e inteligência

[Com as bênçãos de Celso Borges e Otávio Rodrigues, baita honra e enorme responsabilidade ter recebido o convite para escrever o release oficial deste disco lindo, que chega às plataformas no próximo dia 30]

Maestro Tiquinho em sessão de gravação de "Trombonesia". Foto: Paola Vianna
Maestro Tiquinho em sessão de gravação de “Trombonesia”. Foto: Paola Vianna

O apelido no diminutivo usado como nome artístico não traduz, de cara, a grandeza de Marco Aurélio de Santis. Maestro Tiquinho, como acabou ficando conhecido no meio musical, é um desses arquitetos da música popular brasileira cujo nome quase nunca figura nas placas de inauguração das obras, mas está lá para quem quiser ver e ouvir. Fossem os meios de comunicação mais dispostos ao aprofundamento e os ouvintes em geral mais curiosos, o trombonista seria merecidamente mais conhecido.

De Chico Science a Gal Costa, passando por Chico César e Zeca Baleiro, além de Elza Soares, Marcelo Jeneci, Jorge Benjor, Seu Jorge, Gilberto Gil, João Donato, Tom Zé, Erasmo Carlos, Nando Reis, Skank, Tião Carvalho e Papete, entre outros, além de bandas que integra/ou – Professor Antena, Clube do Balanço, Karnak e Funk Como Le Gusta –, pelo leque é possível perceber a abrangência de seu trombone elegante.

"Trombonesia". Capa. Reprodução. Arte de Gian La Barbera
“Trombonesia”. Capa. Reprodução. Arte de Gian La Barbera

Tiquinho acaba de lançar o aguardado e merecido disco solo de estreia, “Trombonesia”, título que evoca o encontro de seu conteúdo: o trombone do mago com a poesia, pelas vozes dos dub poets André Abujamra, Celso Borges, Chico César, Fernanda Takai e Zeca Baleiro, convidados mais que especiais que contribuem para o brilho e a brisa dessa tertúlia poético-musical. O álbum foi realizado através do Edital de Apoio à Criação Artística – Linguagem Reggae – da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

““Trombonesia” não é apenas o nome do álbum, mas uma palavra que nasce para unir sons, artes e estilos, sem usar de estereótipos ou padrões definidos”, afirma ele, ao mesmo tempo ourives e alquimista. Produzido por BiD, gravado ao vivo no estúdio Space Blues por Alexandre Fontanetti, e mixado por Victor Rice, todos magos em seus ofícios, o disco é arejado e ensolarado, com ecos de nomes como Don Drummond, Joseph Cameron, Nambo Robinson, Rico Rodriguez e Vin Gordon, para citar alguns de seus colegas de instrumento, em cujas fontes certamente Tiquinho bebeu para embriagar-nos.

Se aqueles foram fundamentais para o que acabamos por chamar de “clima” ou “mística natural” do reggae jamaicano, Tiquinho navega com desenvoltura por estes m/ares, aproximando Jamaica e Brasil – o sopro do paulista de Bauru nos leva a voar e pousar precisamente em São Luís do Maranhão, não à toa alcunhada Jamaica brasileira.

Mas tudo isto é pouco para tentar entender, explicar, rotular ou traduzir sua sonoridade (o que, na verdade, é tarefa impossível): ao mesmo tempo você está em um clube de reggae, em uma festa de sound system, em um baile black. O tempo é tema recorrente no repertório e os tons afogueados do projeto gráfico (de Gian Paolo La Barbera) ajudam a entender imediatamente que a coisa é quente.

Tiquinho assina todas as composições e arranjos do disco, em que é acompanhado por Edu SattaJah (contrabaixo elétrico e acústico), Rogério Rochlitz (piano acústico, órgão Hammond e piano elétrico), Che Alexandre Caparroz (bateria) e Simone Sou (percussão em “Oriente-se”). Em tempos de “duelo de eu e ego” (como salienta Chico César no canto falado de “Oriente-se”) “Trombonesia” é uma lufada de alegria, beleza e inteligência, estes ingredientes de brasilidade que alguns tristes andam querendo caçar nestes tempos de trevas – que Maestro Tiquinho e suas boas companhias teimam em iluminar. Para sorte e felicidade nossa! Jah bless!

Serviço: lançamento de “Trombonesia“, disco solo de estreia de Maestro Tiquinho. Dia 30 em todas as plataformas digitais.

Zema Ribeiro lança o livro “Penúltima Página” reunindo entrevistas e textos do jornal Vias de Fato

[release por Celso Borges]

Penúltima página. Capa. Reprodução
Penúltima página. Capa. Reprodução

O jornalista foi editor de cultura do periódico que circulou mensalmente em São Luís entre 2009 e 2016. A obra traz 14 entrevistas com artistas e personalidades maranhenses publicadas na página de cultura do jornal, além de seis textos. “Penúltima Página” tem orelha assinada por Jotabê Medeiros, prefácio de Flávio Reis e edição e projeto gráfico de Isis Rost. O lançamento será na terça, dia 11, no Chico Discos, centro da cidade.

O Vias de Fato foi um jornal mensal fundado em 2009 pelos jornalistas Emílio Azevedo e Cesar Teixeira, a pedagoga Alice Pires e o fotógrafo Altemar Moraes. Naquele ano teve início uma experiência ímpar de jornalismo combativo, próximo a movimentos sociais e sindicatos e, sobretudo, aberto à colaboração de professores, ativistas sociais, sindicalistas e artistas. O jornal deixou de circular mensalmente em 2016 e nos três anos seguintes teve algumas edições com periodicidade irregular.

““Penúltima Página” surge da ideia de celebrar os 10 anos que o Vias de Fato teria completado ano passado. O livro apresenta um panorama despretensioso da cultura do Maranhão durante o período em que colaborei com a editoria de cultura do jornal e sai graças aos esforços dos amigos que compraram exemplares antecipados a fim de garantir a impressão de parte da tiragem”, afirma Zema Ribeiro, que é jornalista cultural e atual diretor da Escola de Música Lilah Lisboa. Assina o principal blog cultural da cidade onde se apresenta como “um homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais”.

“Era um outro momento, em relação ao obscurantismo galopante de nossos dias, e por lá desfilaram vários nomes, em geral uma rapaziada mais próxima do experimental, do escracho e não da reverência, do combate e não da submissão. Zema escreve bem, tem lastro de leituras, agilidade e curiosidade para encarar as dificuldades de fazer jornalismo cultural numa terra pouco afeita a debates e críticas”, afirma o professor do departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA Flávio Reis, no prefácio do livro.

O livro começa com uma entrevista de Paulo Melo Sousa, jornalista, poeta e articulador cultural, então às voltas com a experiência do Papoético, uma roda de conversas que acontecia no Chico Discos, local de reunião de alguns boêmios inveterados da cidade. A partir daí, temos uma sucessão de compositores (Gildomar Marinho, Bruno Batista, Marcos Magah e Henrique Menezes); de gente do cinema (Frederico Machado, Mavi Simão, Francisco Colombo, Paulo Blitos); do teatro (Lauande Ayres); da literatura (Bruno Azevedo, Celso Borges e Reuben, então editores da revista Pitomba!); e das cantoras Flávia Bittencourt, Lena Machado e Patativa, além de nomes da militância sindical e dos direitos humanos (Novarck Oliveira e Ricarte Almeida Santos).

“Penúltima Página” inclui também textos sobre os 30 anos do disco “Fulejo”, de Dércio Marques, o lançamento de “Baratão 66”, um quadrinho anárquico de Bruno Azevêdo e Luciano Irrthum, e uma enquete, feita com 11 pessoas ligadas ao meio musical, sobre os 12 discos mais importantes da música maranhense, realizada em 2013, quando se comemoravam os 35 anos do lançamento dos discos “Bandeira de Aço”, de Papete, e “Lances de Agora”, de Chico Maranhão.

A obra marca o quarto lançamento do selo Passagens, de Isis Rost, que abraçou a ideia da edição do livro com entusiasmo, reuniu material fotográfico e elaborou o projeto gráfico. A editora disponibiliza gratuitamente as versões em e-book em seu site.

Serviço

O quê: noite de autógrafos de “Penúltima Página: Cultura no Vias de Fato” (Editora Passagens), de Zema Ribeiro
Quando: dia 11 de fevereiro (terça-feira), às 19h
Onde: Chico Discos (esquina da rua dos Afogados com São João, Centro)
Apoio cultural: Equatorial Energia

No olho do furacão

FLÁVIO REIS

Fotos: divulgação
Fotos: divulgação

Conheci Zema Ribeiro no final de 2009, ao mesmo tempo em que travava contato com Emílio Azevedo. O motivo era justamente adensar a articulação em torno do Vias de Fato, o jornal mensal que havia surgido, puxado por Emílio e Cesar Teixeira, em conjunto com Alice Pires e Altemar Moraes. Era uma atitude quase de guerrilha, ação corajosa de um pequeno núcleo decidido a criar uma fresta que fosse no paredão quase monolítico do jornalismo local, dominado pelo poderoso Sistema Mirante, porta-voz do grupo oligárquico capitaneado pelo clã Sarney. Era o início de uma experiência ímpar de jornalismo combativo, próximo a movimentos sociais e sindicatos e, sobretudo, aberto à colaboração de professores, ativistas sociais, sindicalistas, artistas e qualquer um que tivesse algo a dizer numa perspectiva contrária à barbárie social e política em que vivemos, emoldurada pela utilização mercantil da cultura popular como fonte de legitimação.

O papel de Zema seria tocar a seção cultural do jornal, a “penúltima página”, onde teria liberdade de comentar, entrevistar, agendar, enfim, dar uma ideia do que acontecia em diversas áreas do cenário das artes e da cultura. Nada mais acertado, pois ele já fazia isso no blog, onde se apresenta como “um homem de vícios antigos”, que “ainda compra livros, discos e jornais”.

O material reunido aqui remete a essa página vibrante que pulsou no Vias de Fato entre os anos de 2009 e 2016. Era um outro momento, em relação ao obscurantismo galopante de nossos dias, e por lá desfilaram nomes diversos, em geral uma rapaziada mais próxima do experimental antes do comercial, do escracho e não da reverência, do combate e não da submissão. Zema escreve bem, tem lastro de leituras, agilidade e curiosidade para encarar as dificuldades de fazer jornalismo cultural numa terra pouco afeita a debates e críticas.

O livro inicia com a entrevista de Paulão, jornalista, poeta e articulador cultural, então às voltas com a experiência do Papoético, uma roda de conversas com convidados diversificados, que acontecia no Chico Discos, local de reunião de alguns boêmios inveterados da cidade. A partir daí, temos uma sucessão de figuras variadas da música (Gildomar Marinho, Bruno Batista, Marcos Magah, Henrique Menezes), do cinema (Frederico Machado, Mavi Simão, Francisco Colombo, Paulo Blitos), do teatro (Lauande Ayres), das letras não acadêmicas (Bruno Azevedo, Celso Borges e Reuben, então editores da revista Pitomba!), nomes da militância sindical ou dos direitos humanos (Novarck Oliveira, Ricarte Almeida Santos) e as cantoras Flávia Bittencourt, Lena Machado e Patativa. Um sarapatel da melhor qualidade, feito com os ingredientes do Maranhão, mas aberto a acolher visitantes e temperos de outras plagas. Para arrematar, dois pequenos textos, sobre os 30 anos do disco Fulejo, de Dércio Marques, o lançamento de Baratão 66, um quadrinho anárquico de Bruno Azevêdo e Luciano Irrthum, e uma enquete, feita com onze pessoas ligadas ao meio musical, sobre os 12 discos mais importantes da música maranhense, realizada em 2013, quando se comemoravam os 35 anos do lançamento de dois discos fundamentais, Bandeira de Aço, de Papete, e Lances de Agora, de Chico Maranhão.

A ideia da reunião desse material em um volume liga-se à comemoração dos dez anos do Vias de Fato, que tornou-se uma referência de crítica contundente e ácida de quem não tem medo de chutar o pau da barraca. O jornal deixou de circular, mas a marca ficou e a ação de Emílio se dirigiu para uma rádio web, a Agência Tambor, em conjunto com a jornalista Flávia Regina e o jornalista Ed Wilson, onde a verve do Vias de Fato se mantém viva em entrevistas e enfoques na contracorrente dos discursos oficiais.

Para completar a armação e efetivar essa saudação ao Vias de Fato, Isis Rost abraçou a ideia com entusiasmo, elaborou o projeto gráfico, reuniu material fotográfico e abrigou o livro no selo Passagens, sua pequena editora, que tem o hábito salutar de disponibilizar gratuitamente as versões em e-book. A Equatorial arcou com a maior parte dos custos de publicação e o resto foi levantado entre amigos. Tudo bem ao estilo livre e comunitário do Vias de Fato. As entrevistas aqui reunidas são um registro vivo das perspectivas e impasses que marcaram a cultura maranhense nesta década. Os entrevistados em sua totalidade são figuras da criação, gente inquieta, e Zema consegue mergulhar em cada universo, revelado de maneira direta ao leitor.  É jornalismo de qualidade, feito fora dos grandes holofotes, mas no olho do furacão.

*

Acima, prefácio de Penúltima página, assinado pelo querido Flávio Reis, professor do departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA. Por whatsapp a editora Isis Rost me mandou as fotos que ilustram o texto, anunciando que a edição impressa já saiu da gráfica e está a caminho. Entre o tempo de transporte e o carnaval, logo, logo anunciaremos a data do lançamento. Fiquem ligados!

Sonhar em travesseiros de pedras de cantaria

O abraço dos poetas José Maria Nascimento e Fernando Abreu. Foto: divulgação

 

Aluno aplicado e devotado de Cesar Teixeira, há duas lacunas em minha formação boêmia: nunca bebi com o saudoso Nauro Machado (apesar de termos nos encontrado em não raras ocasiões de copos nas mãos – minha timidez impediu aproximação, à época) nem com José Maria Nascimento, que parou de beber e tem uma memória milimétrica sobre farras homéricas, suas e alheias. Conta histórias tão incríveis que às vezes ficamos em dúvida se este ou aquele episódio de fato aconteceu ou é fantasia de Cabeça de Poeta, salve Odair!

Ontem (19), pela calçada da Livraria Poeme-se, ocupada pelo recital de lançamento de Contra todo alegado endurecimento do coração, novo petardo do poetaço Fernando Abreu, passaram nomes como Adriana Gama de Araújo, Antonio Carlos Alvim, Celso Borges e Laura Amélia Damous – e é muito provável que eu esteja esquecendo o nome de alguém –, além da discotecagem de Eduardo Júlio e da performance do grupo Teatrodança.

Em suma, a noite foi linda, sem desmerecer a participação de ninguém. Mas quem, literal e literariamente roubou a cena, foi José Maria Nascimento: declamou um poema escrito sob o impacto da leitura (e releitura, “eu li ontem e reli hoje de manhã”, confessou) do volume, homenageando o bardo. Leu o poema em meio a trejeitos que imitavam o andar de bêbados e velhos. Ele e Fernando Abreu não ingerem álcool há décadas.

“Você vai ficar como eu”, galhofou José Maria Nascimento para gargalhada geral da plateia, inclusive o homenageado. Bendita maldição, que a praga pegue, vida longa a ambos, um brinde! – eles não bebem, mas eu sim.

Uma imagem não me saiu da cachola, desde que a ouvi da boca do poeta mais velho, não sei se fruto de exagero, de licença poética ou simplesmente de memória – lembram do que eu disse? Guardei na memória, sem nada anotar, o verso em que ele rememorava algumas farras, ocasiões em que, em alguma praça da cidade, “fizeram de travesseiros as pedras de cantaria”.

Devoção à poesia

Contra todo alegado endurecimento do coração. Capa. Reprodução

 

Contra todo alegado endurecimento do coração [7Letras, 2018, 73 p.] é uma pedrada, para quase usar a expressão com que a massa regueira designa os melhores reggaes, o gênero jamaicano que também faz a cabeça do poeta Fernando Abreu.

O título nos chega em hora urgente, num tempo em que a brutalidade e a ignorância – vizinha da maldade, já nos alertaria Renato Russo, outra referência do poeta – tentam se impor como políticas de Estado.

“Poesia mata fascistas” é slogan usado pelo poeta em redes sociais, mas a palavra não pode estar distante da ação, como já ensinou Paulo Freire, outro nome odiado por eles, vocês sabem quem. Em terreno minado de referências, Fernando Abreu aprendeu a lição de outro, o cearense Belchior: “sempre desobedecer/ nunca reverenciar”.

“Uma ocasião para a beleza”, crava certeira, citando Jorge Luis Borges, a poeta Adriana Gama de Araújo, que escreveu a apresentação de Contra todo alegado endurecimento do coração. Quinto livro de poemas de Fernando Abreu, este volume aprofunda algumas características de sua obra.

“O que é bom para o lixo é bom para a poesia”, nos ensinou Manoel de Barros, a cuja poesia a de Fernando Abreu se irmana. Não teme sujar as mãos com nada e merecem destaque os poemas Ghost news e Mesmo assim um poema, eminentemente de cunho político, refletindo o desastroso momento que o Brasil atravessa – este último figura na antologia Lula livre Lula livro.

É um eternizador de instantes, como Marcelo Montenegro, outro irmão de sua poética, também permeada de referências da cultura pop, entre literatura, cinema, artes visuais, música e cotidiano.

Sucessor de Manual de pintura rupestre (2015), Aliado involuntário (2011), O umbigo do mudo (2003) e Relatos do escambau (1998), em Contra todo alegado endurecimento do coração, Fernando Abreu se despe da poesia para vesti-la ainda melhor. É como se praticasse uma espécie de anti-poesia, aproximando seus versos da prosa, como se num diálogo cara a cara com o leitor. Como o chileno Nicanor Parra.

É a roupa do rei que pode ser vista mesmo por quem não tem olhos privilegiados, como os do próprio Fernando Abreu, como quando reprocessa Jim Jarmusch: “mesmo que seja apenas um filme/ um poeta de verdade sim”.

“Em Contra todo alegado endurecimento do coração, as exigências que o poema faz ao poeta não são sutis”, alerta Fernando Koproski, na orelha. Reflexões sobre o ofício poético, espécie de making of do livro – ou de determinados poemas – também aparecem ao longo das páginas do volume.

Autor consciente de sua condição de poeta, a cada poema encontra-se diante de uma encruzilhada. “Se não é capaz de/ enfrentar esse dilema,/ é melhor continuar escrevendo/ poemas que exigem de você/ apenas habilidade com as palavras/ mas a habilidade com as cartas/ não faz de um jogador/ um mágico”, como afirma certeiro no poema Promessas, central no livro e, de resto, na obra de Fernando Abreu.

Em Amor: fuga impossível crava, direto: “você pode enrolar seus credores/ mas não pode fugir do amor/ você pode dar uma de joão sem braço/ diante da suprema corte/ mas não pode fugir do amor/ você pode se disfarçar de monge/ só pra mudar de hábito/ mas não pode fugir do amor/ você pode se tornar um alpinista/ treinando em suas dunas de solidão/ você pode ser um novo líder/ um mártir, um revolucionário/ um careta, um picareta, um otário/ mas não pode fugir do amor”. Nem do amor, nem da poesia.

*

Leia o poema Sobre homens e destinos:

alguns diálogos no cinema
valem pelo filme inteiro
como certos momentos
justificam uma existência

ainda vou ver umas duas ou três vezes
a batalha final do remake do remake
de sete homens e um destino
só pra ver o atirador goodnight robicheaux
e seu servo zen
acossados pela metralha dos canalhas
travarem esse diálogo maluco:

– me lembro sempre do que meu pai falava.
o chinês vira o rosto, todo ouvidos
para a sabedoria do mestre.
nada.
a espera dura segundos eternos.
de repente:
– bem, meu pai falava muitas coisas…
diz goody
e caem os dois na gargalhada
em meio às balas que zunem
no velho campanário incendiado
de onde caem mortos
menos de cinco segundos depois

*

Serviço

A noite de autógrafos de Contra todo alegado endurecimento do coração acontece hoje (19), às 19h, na Livraria Poeme-se (Rua de Santo Antônio, 264-A). Com performance do grupo Teatrodança, discotecagem de Eduardo Júlio e recital com o autor e os poetas Celso Borges e Adriana Gama de Araújo.

Segunda chamada: dia 28 de março (quinta-feira), no mesmo horário, Fernando Abreu autografa o novo livro no Restobar Villa 25 (Rua Gago Coutinho, 25, Laranjeiras, Rio de Janeiro/RJ).

(Re)Lançamento inaugura novo endereço literário na cidade

O futuro tem o coração antigo. Capa. Reprodução

 

“O futuro tem o coração antigo/ não é um livro saudosista”, como também não o é seu autor, o poeta Celso Borges, que pela primeira vez, em quase 40 anos dedicados ao ofício – não à toa é chamado “homem-poesia”, ou simplesmente CB, pelos mais próximos – desde a estreia com o renegado Cantanto (1981), vê um livro seu chegar a uma segunda edição – a primeira é de 2013 (escrevi sobre aqui; folheie trechos acolá). “Mas um exercício de ternura/ a pele da flor na carne da cidade futura”, continua.

A carne da cidade histórica e patrimônio cultural da humanidade de São Luís do Maranhão, em que Celso Borges voltou a morar há 10 anos – após 20 de São Paulo –, está representada, na obra, em preto & branco, pela técnica de pin-hole, por alunos do Ifma, sob a batuta do professor Eduardo Cordeiro. Qual a primeira edição, esta segunda também sai pela guerrilheira Pitomba! livros e discos.

Para a noite de autógrafos o poeta sentará praça no Sebo Chico Discos, que passa, a partir desta quinta-feira, 14, dia da poesia – e um ano da bárbara e covarde execução de Marielle Franco –, a ocupar o térreo do Bar homônimo, na esquina de Afogados e São João, no Centro, afinal de contas palco de memoráveis tertúlias, bar e proprietário personagens fundamentais do poema chamado São Luís e daqueles que costumam ler a cidade com a devida atenção.

Aliás, cabe um parêntese, benza Deus a fartura!: há um corredor literário interessantíssimo no centro da cidade, fervilhando para além de seus acervos à venda, com eventos movimentando casas como, além do Chico Discos (tanto o bar quanto o sebo, a partir de amanhã), o Sebo do Arteiro (Rua do Sol, próximo ao Sindicato dos Bancários), a Livraria Poeme-se (Rua de Santo Antonio, 264-A, com seu sarau sempre às últimas quintas-feiras do mês e onde Fernando Abreu autografa quinta que vem, às 19h, seu quinto livro, Contra todo alegado endurecimento do coração, de que este blogue falará oportunamente) a Feira da Tralha (Edifício Colonial, nas imediações do Teatro Arthur Azevedo, com seu chorinho ao vivo e discotecagem nas manhãs entrando pelas tardes de domingo) e o Paço Prosa (Rua João Gualberto, 52-Altos, Praia Grande, mesmo endereço em que funcionava o Poeme-se).

“O futuro tem o coração antigo” é uma frase do poeta e pintor italiano Carlo Levi, que Celso Borges já havia usado na epígrafe de XXI (2000), livro-disco-coletânea em que começou suas experiências de ligar poemas a trilhas sonoras, para além da “leitura com fundo musical” – tão em voga ainda hoje –, no que se irmana a poetas da pesada como Ademir Assunção, Marcelo Montenegro e Rodrigo Garcia Lopes, para citarmos uns poucos.

O futuro tem o coração antigo, mas Celso Borges mesmo, num poema de Belle Epoque (2010), adverte: “antigamente era antigamente e era muito pior”. Como diz neste livro: “chega uma hora em que chegou a hora”. Repito: é amanhã (14), às 19h, no Sebo Chico Discos.

“Porque precisava responder tua dedicatória”

Gabriela,. Reprodução

 

Saudosistas dirão que no tempo das cartas era melhor, e haja carteiro gastar sola de bota e a flecha do cupido voar em slow motion. Antigamente era melhor, dirão, contrariando os adeptos dos aplicativos de relacionamento, tudo fácil, ao alcance de um clique, tudo efêmero, tempos modernos, tempos líquidos.

Uma das obsessões do escritor Bruno Azevêdo tem sido fotografar gente, sabe quem o acompanha pelas redes sociais. Desde Ostreiros, livro que dividiu com a fotógrafa Ana Mendes, o escritor vem contando histórias de gente simples, essas que supostamente não dariam uma biografia ou, uma vez escritas, estas biografias não despertariam interesse do público e encalhariam nas livrarias, ledo engano.

Gabriela, [Pitomba, 2018, 24 p., R$ 35,00] reúne em belo volume, embalado em envelope (ou não seria uma carta), diversos temas de interesse do autor: a foto-missiva tem uma pegada etnográfica, a emular Pierre Verger – todas as fotografias foram feitas em Salvador, Bahia –, passeando com leveza pela típica conversa entre amantes, que falam de seus objetos, símbolos e afinidades, não necessariamente nessa ordem.

No texto, aparecem outras obsessões de Bruno Azevêdo, como ficção científica, cinema e tipografia – este último, atestado pelo capricho editorial de sua casa, responsável por colocar definitivamente o Maranhão no mapa dos circuitos literários brasileiros, sobretudo os alternativos.

Estão lá ainda citações a valter hugo mãe, José Eduardo Agualusa, Geraldo Figueiredo (fotografado segurando o próprio poema), a vírgula do título dialogando com Clarice,, de Benjamin Moser, e um Belchior de raspão. A enchente do rio Paraguassu, na Bahia, em 1990, me liga diretamente à do Beberibe, década e meia antes, responsável por tornar raríssimo o Paêbiru de Zé Ramalho e Lula Cortes (1975).

O texto não legendando as fotos, as imagens em preto e branco dialogando com o colorido das páginas, cada qual de uma cor, enfeitada, não poderia ser diferente, qual uma carta de amor, “todas as cartas de amor são ridículas”. Uma beleza, uma beleza!

Serviço

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