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“Dente por dente” e a podridão dos poderosos

Juliano Cazarré em cena de Dente por dente. Divulgação

Uma sequência de assassinatos com as mesmas características é o mote do suspense “Dente por dente” [Brasil, 2021, 85 minutos], dirigido por Júlio Taubkin e Pedro Arantes: após a morte todas as vítimas têm seus dentes extraídos de forma brutal. O curioso é que o serial killer por detrás dos assassinatos não some com os cadáveres – a extração das arcadas dentárias poderia servir para sua não identificação.

Juliano Cazarré interpreta Ademar, o guariteiro-sócio de uma empresa terceirizada que presta serviços de segurança privada a uma grande construtora. Numa atmosfera pesadelar, ele acaba fazendo às vezes de detetive, ao descobrir a primeira vítima – enquanto mortes não param de acontecer: seu sócio Teixeira (Paulo Tiefenthaler), esposo de Joana (Paolla Oliveira), filha de Valadares (Aderbal Freire Filho), um delegado corrupto que tem que fingir que investiga o assassinato do próprio genro. O filme exige do espectador a montagem de uma intrincada teia de corrupção e traições, deixando algumas pontas em aberto – o roteiro de Arthur Warren com colaboração de Michel Laub não entrega tudo de bandeja.

A trama é pano de fundo para expor e debater uma triste realidade brasileira: o conluio entre os poderosos – os que são donos do dinheiro e os que ocupam cargos em qualquer escalão, prontos a abocanhar sua parte em esquemas fraudulentos ou mesmo para tentar passar a perna nos próprios pares e abocanhar tudo sozinho. No fim das contas é um filme sobre ganância e a consequente falta de escrúpulos dela advinda, escancarando a falta de ética que permeia as relações político-empresariais no Brasil.

Para ver sair do papel seus novos megaempreendimentos imobiliários de alto padrão, a indústria da construção civil não aceita empecilhos: pouco se importa com quem estava antes e há quanto tempo em determinado terreno, afinal, famílias inteiras de gente pobre não podem ser obstáculo ao surgimento de novos blocos de apartamentos luxuosos com suas áreas de lazer gentrificadas e suas varandas gourmet. Ao menos até a insurgência dos que estão na Encruzilhada.

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Veja o trailer:

Serra Pelada: uma amizade que vale mais que ouro

Ficção usa elementos de documentário, entre o bang bang e o filme de gangster, com grandes interpretações

Juliano Cazarré interpreta um personagem com seu próprio nome (Juliano) em Serra Pelada [Brasil, 2013, drama]. E é com um big close em seu rosto, durante um depoimento, que tem início o retorno do cinema nacional ao maior garimpo a céu aberto do mundo: em 1982, no auge de suas atividades, Os Trapalhões na Serra Pelada foi rodado lá.

Encravado no sul do Pará, o garimpo de Serra Pelada foi a maior concentração de trabalho braçal humano desde as pirâmides do Egito, dado a que cheguei ao ver o filme. No caso da paisagem brasileira, foi construída uma enorme pirâmide de cabeça pra baixo, informação que o roteiro também nos traz, embora essa seja mais fácil deduzir. Algo como parece querer fazer a ganância da Vale, por exemplo, com as minas de Carajás, não por acaso no mesmo cenário: o Pará.

O capitalismo é, aliás, apresentado como metáfora para entendermos a hierarquia do garimpo. Muitos homens embarcaram para Serra Pelada no início da década de 1980, ainda durante o regime militar – a ditadura brasileira chegou a intervir no local e a Caixa Econômica Federal a fazer o câmbio oficial do ouro extraído.

Os que tomaram o rumo daquelas bandas tinham o sonho de enricar ou ao menos fazer um pé de meia. Era mais ou menos como ganhar na loteria. Inclusive com o jogo virando vício: uma vez os números sorteados em um globo, a vontade de ganhar mais. A única diferença é que no garimpo, além da sorte necessária para o triunfo lotérico, é necessário o uso da força. E de outras artimanhas, por vezes.

Sérgio Chapelin e Cid Moreira, ainda de cabelos pretos nas bancadas do Jornal Nacional e Globo Repórter, embora na tela em preto e branco, dão ao filme um ar de documentário – o que Serra Pelada é, em parte, embora seja obra de ficção, algo entre um bang bang e um filme de gangster. O recorte de Heitor Dhalia (também diretor de Nina e O Cheiro do Ralo) para nos (re)contar essa história é a amizade de Juliano e Joaquim (Júlio Andrade), um professor que deixa a mulher grávida para ir garimpar uns trocados.

É em nome de sua amizade com o professor que Juliano inaugura seu currículo de homicida, adaptando-se rapidamente à lei da selva – literalmente. Porém a ambição desmedida e a paixão pela prostituta Teresa (Sophie Charlotte), mulher de Carvalho (Matheus Nachtergaele), um dos coronéis locais, levam-no a ir cada vez mais fundo, sem trocadilhos com o garimpo ou o cabaré. Todos têm atuações memoráveis e ela surpreende os que, qual este blogueiro, conheciam-na apenas de papéis em novelas e séries da Globo.

A atuação do coprodutor Wagner Moura também merece destaque. Com um bigodinho sem vergonha e uma careca a la São Francisco, ele interpreta o bandido Lindo Rico, um dos mais temidos da trama, responsável por cenas entre trágicas e hilariantes.

É um filme com final feliz, desculpem-me os pessimistas. Costurado por uma bela trilha sonora – que nos mostra o que era o Pará, musicalmente falando, antes de Joelmas, Chimbinhas e seus inúmeros covers –, Serra Pelada recria o ambiente violento e romântico do garimpo, entre ganâncias, traições, brigas, assassinatos por armas brancas e de fogo, prostituição, farras, sonhos e amores. Mais que uma miniatura do garimpo, um resumo desta selva chamada vida.