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As lâminas despidas de Nuno Ramos

Uma das peças de Só lâmina, com os versos "igual ao de um relógio/ submerso em algum corpo,/ ao de um relógio vivo/ e também revoltoso"
Uma das peças de Só lâmina, com os versos “igual ao de um relógio/ submerso em algum corpo,/ ao de um relógio vivo/ e também revoltoso”

 

Nuno Ramos é um dos mais importantes artistas brasileiros da atualidade. E além de artista, um pensador das artes. Artista plástico, compositor (assina 11 das 12 faixas de Pedaço duma asa, de Mariana Aydar) e ensaísta, para citarmos apenas algumas de suas multiplicidades – em nenhuma delas ele se contenta em ser “meia boca”.

Ele não vem à São Luís, mas o Sesc/MA inaugurou hoje (18), em sua Galeria de Artes na Praça Deodoro (Centro), a exposição Só lâmina, baseada no poema Uma faca só lâmina, do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, de 1955, e dedicado ao também diplomata Vinicius de Morais.

As 10 telas de Só lâmina são de 2007. Oito medem 1,55×0,75 e duas medem 1x1m. Nuno Ramos usa espelho/vidro, metal, pelúcia e tinta a óleo para compor os desenhos em relevo, que simulam a violência do movimento da lâmina, como a rasgar a delicadeza humana – como no poema que evoca.

Nas placas de metal, trechos dos versos cabralinos. “Das mais surpreendentes/ é a vida de tal faca:/ faca ou qualquer metáfora,/ pode ser cultivada./ E mais surpreendente/ ainda é sua cultura:/ medra não do que come/ porém do que jejua.”, diz um trecho do poema.

Nuno Ramos não se contenta com o bidimensional das telas. Só lâmina se completa com a escultura sonora Carolina, colagem sonora de palavras do cotidiano, trechos de músicas e poemas ditos pelos atores Gero Camilo e Marat Descartes por mais de duas horas, além do vídeo Luz negra, de pouco mais de 10 minutos, realizado em parceria com o artista Eduardo Climachauska, o Clima, cujo experimento é tocar sob a terra Juízo final, de Élcio Soares e Nelson Cavaquinho, compositor cuja vida e obra já foi tema de ensaio de Nuno Ramos (publicado na edição inaugural da revista serrote [IMS, março/2009], teve trechos aproveitados no encarte de Rei vadio, disco de Rômulo Fróes dedicado ao repertório do sambista). A morte que permeia toda a obra do homenageado é vista (e ouvida) por outra perspectiva.

Em cartaz até 14 de julho, Só lâmina pode ser visitada gratuitamente das 9 às 11h e das 14 às 17h, em dias úteis. O poema de João Cabral começa: “Assim como uma bala/ enterrada no corpo,/ fazendo mais espesso/ um dos lados do morto;/ assim como uma bala/ do chumbo mais pesado,/ no músculo de um homem/ pesando-o mais de um lado;”; e termina: “por fim à realidade,/ prima, e tão violenta/ que ao tentar apreendê-la/ toda imagem rebenta”.

Clique sobre os verbos para VER Luz negra, LER e/ou OUVIR Carolina.

A vida e o som da Eddie

Morte e vida. Capa. Reprodução
Morte e vida. Capa. Reprodução

 

“Preto velho, pense merda não, que o mundo já tá cheio, isso não é solução”. Há tempos um refrão não grudava tão fortemente em minha cabeça. É de Queira não, faixa de abertura de Morte e vida (2015), novo da banda Eddie, sexto da carreira, sucessor de Veraneio (2011) – todos os álbuns estão disponíveis para download gratuito no site da banda.

Pergunto a Fábio Trummer, vocalista, guitarrista e letrista da Eddie, qual o lugar e o sentido do álbum físico hoje, quando, sinal dos tempos, os discos podem ser baixados antes de lançados. “O álbum são as musicas, o conjunto, o conceito, a embalagem. É uma forma de termos isso fisicamente, uma sensação de posse deste conceito cantado e tocado pelo Eddie, no caso, mas que ganha sentido na interpretação e apego do público”, comenta.

A banda se completa com Alexandre Urêa (percussão e voz), Andret Oliveira (teclado e trompete), Kiko Meira (bateria) e Rob Meira (contrabaixo). O disco reafirma seu “original Olinda style” – título do segundo álbum, de 2002 – como uma das vozes mais originais surgidas em meio ao manguebeat, o mais recente movimento musical relevante do Brasil – e lá se vão mais de 20 anos –, centrado em Pernambuco, nordeste do país.

Em Morte e vida reaparecem os elementos que caracterizam a banda, presentes desde a estreia, Sonic mambo (1998), o que confere à Eddie já quase 20 anos de carreira, se tomarmos apenas o disco inaugural como marco. Estão lá a denúncia social e a festa, mais o amor – tema constante no novo disco – e o diálogo com a literatura – neste caso, mais explicitamente desde o título, que evoca o clássico Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto.

O álbum não é, no entanto, inspirado na obra do poeta pernambucano. “Na verdade isso foi uma coincidência. Apesar de saber do peso do nome, o Morte e vida do álbum veio de um trabalho de mesmo nome dos artistas plásticos Mozart Fernandes e do colombiano Alberto Lizarazo, embora o conceito do Morte e vida Severina se repita aqui no álbum, estes ciclos de morte e vida na existência. O Cabral é uma escola minha”, explica Fábio Trummer.

A propósito, indaguei-lhe sobre a falta de interesse do poeta por música. “O Cabral tinha tanta música nos seus versos que deve ter gasto os ouvidos do homem. Faria coleções de álbuns com os poemas dele”, elogia Trummer.

A faixa-título dialoga diretamente com Buraco de bala, do disco de estreia. “A prova do crime é o corpo/ a prova de Deus/ ao provar a bala, morto/ a prova morreu”, diz a letra de Morte e vida.

Ano passado, o vocalista havia revelado a influência do escritor uruguaio Eduardo Galeano, recém-falecido, e seu As veias abertas da América Latina, em seu projeto solo Super Sub América, em que se aliou com Dieguito Reis (bateria) e Luca Bori (contrabaixo), ambos conterrâneos do Vivendo do Ócio.

Presenças constantes em discos da Eddie, Karina Buhr e Erasto Vasconcelos – irmão de Naná – comparecem: ela canta em Longe de chegar, Pedrada certeira e na faixa-título; ele canta e toca percussão em Alimenta o compositor e toca percussão e assina (em parceria com Trummer, Kiko e Rob Meira) Olho você – inspirado rock que fecha o disco, a poesia da recusa da mulher amada: “lá nos sonhos os sóis são azuis, como um mar, como um céu, como um blues”.

“Ah, eu nunca mais vou esquecer/ aquele beijo foi sensacional/ quando é bom o tempo passa/ mais depressa que a percepção”. Carnaval de bolso, marcha frevada e surfada, exprime a síntese “eddieana”: “um ano inteiro de ressaca/ é hora do juízo final”. É música/álbum para dançar (também), mas pode ser ouvida(o) o ano inteiro.