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Maranhenses na Flip

Durante uma entrevista coletiva ontem (5), transmitida ao vivo pelo facebook, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) anunciou sua programação para a edição de 2018.

Acompanhei parte da conversa enquanto acompanhava José Antonio na hidroterapia, os olhos nele, o celular colado à orelha.

A Flip reafirma-se como um dos maiores eventos literários do país. Depois do negro Lima Barreto (1881-1922) em 2017, este ano homenageia a mulher Hilda Hilst (1930-2004) – cabe destacar que este ano mais da metade dos/as autores/as convidados/as é mulher, além de boa parcela destes/as autores/as serem negros/as, e estes são dados significativos, que mostra o quão antenada está a curadoria do evento – personificada na mulher Josélia Aguiar –, para além de ler para além do cânone.

Por falar em presença negra, uma informação interessante que a coletiva de imprensa trouxe ontem foi a homenagem à editora baiana Corrupio, ainda na ativa e responsável, há décadas, pelas primeiras publicações do fotógrafo e etnólogo franco-brasileiro Pierre Verger. A editora foi fundada com o dinheiro da venda de um terreno para financiar a publicação de um livro de Verger, não viabilizado pelo preconceito que movia as editoras procuradas à época.

Menos conhecida do que deveria, provavelmente por ter sido injustamente tachada de pornográfica, mais para o final da carreira, Hilda Hilst tem sua obra relançada pela editora Companhia das Letras – só este mês chegam às livrarias Da prosa (reunindo a ficção da autora) e os volumes de poemas Júblio, memória, noviciado da paixão e De amor tenho vivido, o que certamente lhe garantirá novas atenções, além da homenagem.

O espírito de Hilda Hilst continua a inspirar gerações de artistas e linguagens distintas. Foi na Casa do Sol em que a escritora viveu, escreveu e criou dezenas de cachorros que aconteceu a oficina-residência que deu na revista Baiacu [Todavia, 2017, 320 p.], organizada por Angeli e Laerte, com 20 artistas (incluindo los dois amigos organizadores).

Zeca Baleiro e Hilda Hilst trabalhando nos poemas do disco. Foto do encarte de Ode descontínua e remota para flauta e oboé – De Ariana para Dionísio. Reprodução

Falecida em 2004, Hilda Hilst não chegou a ver pronto o disco Ode descontínua e remota para flauta e oboé – De Ariana para Dionísio [Saravá Discos, 2006], produzido por Zeca Baleiro, com poemas (de Júbilo, memória, noviciado da paixão) musicados pelo artista nas vozes de 10 cantoras brasileiras – Rita Benneditto, Verônica Sabino, Maria Bethânia, Jussara Silveira, Angela Ro Ro, Ná Ozzetti, Zélia Duncan, Olivia Byington, Mônica Salmaso e Ângela Maria.

Mais de uma década depois, o disco credencia o maranhense à Flip. Ele participa da mesa “O escritor e seus múltiplos” (domingo, 29 de julho, às 12h), com a atriz Iara Jamra e o fotógrafo Eder Chiodetto. Na conversa, segundo o material de divulgação da Flip, “uma atriz, um compositor e um fotógrafo que fizeram obras baseadas em Hilda Hilst relembram os encontros com a autora, o processo de criação e as marcas que a experiência deixou em suas trajetórias”.

“Vou falar sobre nossa parceria no disco Ode descontínua e remota para flauta e oboé – De Ariana para Dionísio, que lancei em 2006. É um disco de cantoras, de atmosfera musical medieval, com canções que compus sobre seus poemas. É um trabalho do qual muito me orgulho”, comenta Baleiro com exclusividade a Homem de vícios antigos.

O poeta Reuben da Cunha Rocha. Foto: Ilana Lichtenstein

Outro maranhense que estará na programação é o poeta Reuben da Cunha Rocha, vulgo cavalodada, radicado em São Paulo. Ele apresentará a performance Cantares do sem nome (sábado, 28 de julho, às 17h30), baseada em tema da homenageada.

“A performance foi um convite da curadora Josélia Aguiar. Vão ser três performances, quinta, sexta e sábado, cada uma dialogando com um aspecto da obra da Hilda Hilst. Uma é Do desejo, a outra é Da partida, sobre a morte, e o Cantares do sem nome, que é esse lance cósmico e divino que aparece no trabalho dela”, antecipa Reuben com exclusividade ao blogue. “São questões que nos ligam. Foi muito sensível essa sacada”, continua.

“Senti isso como uma grande responsabilidade. É uma dimensão assombrosa da obra de Hilda Hilst e ao mesmo tempo uma incumbência alegre por causa da relação que eu tenho com o assunto”, finaliza Reuben.

Semana Sérgio Sampaio

SARAVÁ RELANÇA SINCERAMENTE

Em 2005 Zeca Baleiro inaugurava seu selo Saravá Discos lançando Ode descontínua e remota para flauta e oboé – De Ariana para Dionísio, coleção de 10 poemas do livro Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974), de Hilda Hilst, musicados pelo maranhense e interpretados por um time feminino de primeira linha da MPB, e Cruel, póstumo inédito de Sérgio Sampaio.

Fã confesso de Sampaio, Baleiro anunciaria, pouco tempo depois, o desejo de trazer ao formato digital Sinceramente (1982), disco do capixaba que até pouco tempo era encontrado apenas em vinil ou para download na internet.

Demorou, mas Sinceramente finalmente é relançado: disco tão bom quanto raro, foi o último lançado em vida, de forma independente, por Sampaio, que morreria 12 anos depois, em 1994, aos 47 do primeiro tempo.

Em 2007, quando Sérgio Sampaio completaria 60 anos, fiz pequenas entrevistas com algumas pessoas acerca de sua vida e obra. A ideia era escrever uma matéria por ocasião da data. Acabou não rolando. As entrevistas e depoimentos permaneceram inéditos.

Para festejar o lançamento Saravá, inicio aqui uma série de posts para tirá-los das gavetas virtuais. Ou colocá-los, sabe-se lá.

Começo com Zeca Baleiro, que me respondeu por e-mail, dia 12 de abril de 2007, as cinco perguntas abaixo, sobre Sampaio, Cruel e um site dedicado à memória do artista (que este blogueiro não tem notícias atuais sobre o mesmo ter sido lançado ou não).

ENTREVISTA: ZECA BALEIRO

ZEMA RIBEIRO – Qual a importância, o devido lugar de Sérgio Sampaio na música popular brasileira?

ZECA BALEIRO – Acho que o Sérgio, junto a outros de sua geração como [Jards] Macalé, [Jorge] Mautner e [Luiz] Melodia [que participa de Sinceramente] inauguraram uma mistura de música brasileira com blues e rock, diferente da que foi experimentada pelos tropicalistas, muito bem-sucedida. Hoje seriam chamados de ecléticos, mas eram muito mais que isso, eram artistas muito intuitivos e sagazes que abriram uma picada nova, vigorosa e com muita, muita poesia.

Por que artistas de seu quilate morrem, na miséria, em quase completo desconhecimento por parte da maioria da população? Não saberia discorrer sobre o tema, que é muito complexo. Não gosto de simplificações, há sempre muitos fatores a serem analisados, inclusive a própria postura do artista diante do mundo, do mercado, do “sucesso”. Enfim, difícil dar qualquer palpite sobre isso.

O que significa para você produzir um disco póstumo de um grande ídolo? O resultado satisfez tuas expectativas, sejam elas comerciais, estéticas, emocionais etc.? Sobretudo emocionais. Pra mim foi um acerto de contas com o Sampaio, com o que a sua música causou em mim, de uma forma definitiva. Foi um disco também muito bem recebido pela crítica. E tem tido uma venda modesta mas satisfatória, sempre crescente.

De onde partiu a ideia de lançar um site, cuja intenção, imagino, é, além de preservar a obra de Sampaio, torná-la conhecida dos mais novos? Quem está envolvido neste projeto? Há muita gente envolvida no projeto, que começou após uma conversa com Angela e João, sua ex-mulher e seu filho. Há colaboradores como Sérgio Castellani, jornalista e grande fã do Sampaio; Rodrigo Moreira, que escreveu sua biografia e Sérgio Natureza, parceiro do Sampaio e grande poeta e compositor. Acho importante a existência do site, pois garante um pouco mais de permanência do Sampaio, o personagem, pois sua música já está no panteão dos grandes, mesmo que o mundo a desconheça.

O lançamento de Cruel cumpre uma função importantíssima no sentido de difundir a obra de Sampaio, mas a tiragem é pequena, bem como o relançamento dos discos do compositor em cd, cujas tiragens, idem, logo se esgotam. A que você credita o, ainda hoje, quase total desconhecimento da obra do autor de Eu quero é botar meu bloco na rua, como Sampaio é mais comumente lembrado, pelos brasileiros? Sampaio teve um sucesso estrondoso com o [Eu quero é botar meu] Bloco [na rua], vendeu mais de 500 mil cópias à época, um verdadeiro fenômeno de vendas, comparável apenas a Roberto Carlos, seu conterrâneo e maior vendedor de discos do país. Depois disso, sua carreira desandou, e embora tenha feito discos artisticamente fantásticos, foram grandes fiascos comerciais, o que o relegou a um grande ostracismo. A desinformação do público também colabora, por isso é tão importante a criação do site.