Palco Mundo e a alegria do reencontro com a boa música

O Gabriel Grossi Quarteto. Foto: Zema Ribeiro

O baixista Nema Antunes dedicou seu show a seus pares de instrumento Arthur Maia (1962-2018) e Mauro Sérgio, falecido ano passado, vítima de covid-19. Com ele, no palco, um sexteto formado no Maranhão, para a apresentação, incluindo dois integrantes do Quarteto Buriti – de que o contrabaixista Mauro Sérgio, ex-professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, fez parte: Ronald Nascimento (bateria) e Daniel Cavalcanti (trompete e flugelhorn), este também professor da Emem. Ao piano, Marcelo Carvalho, autor de um dos números instrumentais do roteiro, gravado por Nema em “Plúmbeo”, seu disco mais novo. O grupo se completava com Israel Dantas (guitarra), Ricardo Mendes (saxofone) e Renato Serra (teclado) e demonstrou, ao longo da apresentação, que a prática leva à perfeição, tal a qualidade da performance.

Era o show de abertura do Palco Mundo 2022, projeto que integra o circuito Lençóis Jazz e Blues Festival, normalmente realizado em paralelo ao evento, no segundo semestre, com apresentações em Barreirinhas e São Luís. Nenhuma das seis atrações do line up dos dois dias do evento é novidade na produção de Tutuca Viana: todos já se apresentaram em edições anteriores do LJBF. Mas valeu a pena o reencontro de artistas com a plateia, sentimento recíproco traduzido em palavras ouvidas tanto no palco como entre o público.

Os artistas celebravam esse reencontro, após dois anos de lives e esporádicas apresentações presenciais. Não sei se isso potencializou a ranzinzice do repórter, cada vez menos tolerante com aqueles que vão a teatros para ver o show através da tela do smartphone ou que aproveitam qualquer intervalo para ver ou ouvir, obviamente sem fones de ouvido, para azar da vizinhança, o último vídeo do tik tok ou a última mensagem de áudio enviada no grupo da família. Depois não me venham reclamar de Zé da Chave, que obviamente chegou na metade da primeira apresentação, instalou-se na frisa mais próxima à direita do palco e atacou com seu molho.

A apresentação seguinte era do gaitista brasiliense Gabriel Grossi, acompanhado por Eduardo Farias (piano e teclados), Michael Pipoquinha (baixo) e Sérgio Machado (bateria), outro super grupo.

O show foi pautado no repertório de seu disco mais recente, “Re disc cover”, um trocadilho esperto que joga com o fato de ser um disco de releituras de clássicos do pop rock das décadas de 1960 a 90 e sua redescoberta, seja por um público mais jovem, seja por amantes da música instrumental brasileira com pouca relação com bandas como Oasis, Nirvana, Queen e Jackson 5, entre outras – em maio do ano passado ele conversou com Gisa Franco e este repórter, no Balaio Cultural, da Rádio Timbira AM, sobre o álbum.

Grossi se entrega completamente no palco, entre despir o repertório das letras que estamos acostumados a cantar e vesti-lo com sua gaita, quase à beira do esgotamento físico: seu rosto se avermelha, os joelhos dobram, e entre um solo e outro dos músicos que lhe acompanham, muitos goles d’água, para dar conta do recado. De “Isn’t she lovely”, de Stevie Wonder, passando por “Smells like teen spirit”, do Nirvana, “Wonderwall”, do Oasis, “Ben”, do Jackson 5, “Message in a bottle”, do Police, e “Another one bites the dust”, do Queen. Ao reafirmar o prazer de estar em São Luís e falar da força da cultura do Maranhão, lembrou-se que a ilha do amor é também a Jamaica brasileira, antes de atacar de “Redemption song”, de Bob Marley.

Foi o grande show da noite, numa noite de três grandes shows. A quinta-feira seria encerrada com a apresentação do majestoso Filó Machado, setentão paulista mais conhecido e respeitado fora do Brasil, como tantos de nossos gênios. Cantor, compositor, arranjador e multi-instrumentista, apresentou um show autoral, em que prestou homenagens a “Vadeco” (o título da música remete a seu professor de violão), e lembrou a importância do aprendizado oferecido pela experiência de tocar na noite, em bares e boates.

“Se eu não tivesse tido essa experiência, agora eu estaria nervoso, me perguntando o que fazer”, disse, senhor da situação e arrancando risos e aplausos da plateia. Quando um roadie assomou ao palco para corrigir uma sobra de frequência no violão de Felipe Machado (seu neto, que cantou dois bonitos sambas autorais), ele tornou a divertir o público: “eu sou curioso. Eu fiquei vendo aqui e até esqueci de vocês”, disse, para mais gargalhadas. E continuou, num jogo de melismas e onomatopeias repetido pelo público, elogiado pelo artista. Nessa brincadeira, cantou sem o microfone, sempre acompanhado pelo público, e assim, desceu do palco e deu uma volta ao redor da plateia até retornar para junto do grupo que o acompanhava, que se completava com o mesmo baterista de Gabriel Grossi, Sérgio Machado (seu filho), Fábio Leandro (piano e teclados), Carlinhos Noronha (baixo) e Jota P (saxofones).

A programação do Palco Mundo continua hoje (25), a partir das 19h, com apresentações de Gabriela Marques, Bebê Kramer e Arismar do Espírito Santo. A entrada é gratuita e as pulseiras de acesso ao teatro podem ser retiradas na bilheteria, desde as 14h de hoje, sugerindo-se a troca por um quilo de alimento não perecível. A arrecadação será doada à ONG ludovicense Pouso Obras Sociais.

Aniversariantes do dia

Trago ao blogue este quadro do Balaio Cultural, programa que apresento aos sábados com a queridamiga Gisa Franco, na Rádio Timbira AM (1290KHz).

Fariam aniversário hoje:

Joseph Goebells (1897-1945), ministro da propaganda de Adolf Hitler na Alemanha nazista, cuja frase “uma mentira dita mil vezes torna-se verdade” ajuda a compreender um pouco o atual triste estado de coisas brasileiro;

O compositor Nelson Cavaquinho. Foto: reprodução

Nelson Cavaquinho (Nelson Antônio da Silva, 1911-1986), gênio, cujos versos “o sol há de brilhar mais uma vez/ a luz há de chegar aos corações/ do mal será queimada a semente/ o amor será eterno novamente” nos ajudam a ter esperança de um país e uma sociedade melhores;

e Moa do Katendê (Romualdo Rosário da Costa, 1954-2018), capoeirista baiano, brutal e covardemente assassinado por um bolsonarista após o primeiro turno das eleições de 2018.

*

Ouçam Juízo final (Nelson Cavaquinho/ Élcio Soares), com Nelson Cavaquinho:

Ouçam Badauê (Moa do Katendê), com Caetano Veloso:

Se liga nas lives!

Como eu já disse aqui, a onda agora é live!

Hoje (30), no Balaio Cultural, na Rádio Timbira AM, tive a honra e o prazer de conversar com Juliano Gauche. Amanhã, às 16h, ele se encontra com Tatá Aeroplano para uma live que eu reputo histórica: o encontro de dois dos mais talentosos artistas de sua geração. Vale muito conferir!

A quem perdeu o programa, eis a íntegra, incluindo o anúncio de outras lives muito interessantes por estes dias. Na TimbirAlive de quinta que vem conversarei com Jotabê Medeiros. Não percam!

Divulgação
Divulgação

 

Há uma luz que nunca se apaga

The Smiths. officialsmiths.co.uk/ Reprodução
The Smiths. officialsmiths.co.uk/ Reprodução

 

Registro esta história pelas conexões envolvidas, tantos anos passados. Não fosse a quarentena, talvez fosse um texto que não passasse da ideia de escrevê-lo.

A memória é uma ilha de edição, nos ensinou Wally Salomão. E Vinicius de Moraes dizia que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro nesta vida.

Apresentando hoje o Balaio Cultural, na companhia de Gisa Franco, remotamente, eu em minha casa, ela na dela, tive a honra de saber da audiência do amigo Nilsoaldo Castro Silva, o Capu, direto de Rosário/MA. Daqueles amigos que, como comentei com ele, pouco antes de o programa começar, mesmo que a gente demore a se ver, quando nos encontramos novamente parece que estamos continuando uma conversa interrompida ontem.

Foi Capu quem me apresentou The Smiths. Dois cds, totalizando 28 faixas, os dois volumes de uma coletânea do grupo britânico formado por Morrissey (voz), Johnny Marr (guitarras), Andy Rourke (contrabaixo) e Mike Joyce (bateria), os dois primeiros os compositores do repertório.

Eu era um adolescente com meu macarrônico inglês do colégio, mas conseguia, ouvindo os discos, acompanhar, por vezes sem saber o que diziam, as letras nos encartes, posteriormente dispensados: não demorei a cantar sem precisar ler músicas como This charming man e The boy with the thorn in his side, até descobrir There is a light that never goes out, minha preferida desde sempre.

Corta para a vida adulta, alguns meses atrás: a primeira vez em que ela veio ao apartamento em que hoje moramos, no comecinho do namoro, pediu: bota uma música. Eu já sabia que ela gostava de rock e arrisquei justamente There is a light that never goes out e, para minha surpresa, ela revelou a coincidência: trata-se também de sua faixa predileta do grupo.

Fiquei pensando nisso tudo enquanto apresentava o programa e combinei com Gisa Franco de tocar a música e oferecê-la a Guta Amabile. Mas acabei me embananando e mandando a música errada para o operador de áudio – a esta altura Francisco Nunes já substituía Vitor Nascimento –, que tocou The boy with the thorn in his side. Já era! A vida realmente é diferente, quer dizer, ao vivo é muito pior, já nos diria Belchior.

Como tudo se conecta e eu não queria perder a história – ou melhor, as histórias, das conexões e dos erros – faço este breve registro, oferecendo aqui a música certa.

Não sem antes lembrar de Leminski, em cujo poema erra uma vez nos ensina: “nunca cometo o mesmo erro/ duas vezes/ já cometo duas três/ quatro cinco seis/ até esse erro aprender/ que só o erro tem vez”.

Feliz aniversário, Gisa Franco!

A grife do rádio e o Homem de vícios antigos nos estúdios da Nova 1290. Acervo pessoal
A grife do rádio e o Homem de vícios antigos nos estúdios da Nova 1290. Acervo pessoal

 

Gisa Franco é aquela voz que qualquer maranhense já ouviu no rádio e vai identificar quando ouvir ao vivo, pessoalmente, ainda que sem ligar imediatamente a voz à fisionomia, mesmo em tempos em que locutores podem ser vistos em transmissões simultâneas através das redes sociais.

Eu já a conhecia há muito tempo, ouvinte mais ou menos assíduo de programas como o Santo de Casa, na Rádio Universidade FM, e o Conversa à Beira-Mar, na Rádio Timbira AM.

Há quase quatro anos aportei na Timbira para com ela dividir o Conversa à Beira-Mar, até então diário e apresentado solitariamente pela Locutora, assim mesmo, com inicial maiúscula.

“Grife do rádio” é uma das expressões que uso até hoje para me referir a ela e exaltar suas qualidades profissionais, algo que me fez tremer: estaria eu à altura de dividir um programa com quem eu tanto admirava (e sigo admirando)? Sua postura acolhedora, ao receber alguém que nunca tinha feito rádio na vida, só reafirmou esta admiração.

Além de uma voz que eu ouvia quase diariamente, Gisa Franco logo se tornou, mais que colega de trabalho, uma amiga, irmã, quase sempre professora, às vezes aluna, às vezes mãe, às vezes filha, com quem troco alegrias e tristezas, angústias, delírios, conquistas, conselhos e confidências. Do alto de sua experiência, ela poderia ter achado estapafúrdia a ideia da direção da rádio de botar um “cabaço” para transformar, com ela, o Conversa à Beira-Mar no Balaio Cultural.

Talvez nada tivesse dado certo e eu tivesse desistido de fazer rádio se não fosse justamente sua disposição em trocar experiências, conhecimentos e amor pelo veículo cuja morte tantas vezes foi apregoada e que, mesmo com o advento de internet, das redes sociais e de suas telas virtuais, segue angariando ouvintes, despertando paixões e, muitas vezes, sendo nossa melhor companhia – que o digam estes tempos de quarentena.

Depois de certo tempo o Balaio Cultural e nosso convívio deixaram de ser diários. Por conta da pandemia e do consequente isolamento social, já faz quase dois meses que não a vejo pessoalmente, o que é sempre uma festa, seja quando é para apresentarmos juntos um novo programa ou para uma festa propriamente dita.

Sábado passado retomamos, cada um de sua casa, a apresentação do programa, com uma nova demonstração de aprendizado, nós descobrindo juntos e ao vivo as tecnologias que permitiram que cada um fizesse sua parte de onde está, sem colocar em risco a saúde de ninguém e seguindo, sob as bênçãos de Chacrinha – o programa parece uma bagunça, mas tem toda uma produção para chegar a isto –, firmes com o compromisso de fazer o melhor possível semana após semana.

Hoje (12) é aniversário de Gisa Franco. E este texto é uma tentativa de traduzir um misto de sentimentos que inclui afeto, amizade, carinho, admiração, respeito e, nestes tempos de isolamento, saudade. O abraço e os brindes ficam anotados na caderneta de fiado, para quando tudo isto passar. Pagarei com juros.

Endosso

 

Não me lembro de, antes, ter conversado tão demoradamente com o cantor Gabriel Melônio. Sábado passado (9) ele foi ao Balaio Cultural, ocasião em que, ao lado da cantora Anna Cláudia, concedeu uma entrevista a Gisa Franco e este que lhes relata o ocorrido.

Raramente recorro a entrevistas feitas no rádio para republicá-las em papel ou internet, por entender que cada veículo tem sua dinâmica e exige um texto adequado ao meio. Se o faço, desta vez, é para endossar algo dito espontaneamente pelo cantor.

A conversa com os artistas era sobre o show que fizeram no mesmo dia, um dos eventos mensais que preparam a celebração do centenário que o compositor Antonio Vieira completaria 9 de maio do ano que vem.

Diante da qualidade de repertório pouco conhecido de Antonio Vieira, priorizado nesta série de apresentações que, desde maio, a cada dia 9, vem promovendo o encontro de duplas no palco, em torno da obra do mestre, Gabriel Melônio revelou, em primeira mão, no programa, a intenção de gravar um disco inteiramente dedicado à obra do autor de Banho cheiroso.

Além de intérprete da Turma do Quinto há 42 anos, Gabriel Melônio também é bastante conhecido por ter vencido o Festival Viva de Música Popular do Maranhão, quando defendeu, com Cláudio Pinheiro, Oração latina, de Cesar Teixeira, em 1985, no apagar das luzes daquela ditadura.

Torcedor sem o hábito de frequentar estádios, Gabriel Melônio aproveitou o espaço para elogiar ao vivo a Rádio Timbira. “Eu quero fazer um registro que eu tenho vontade de fazer há muito tempo. É para a equipe esportiva da Rádio Timbira. A Rádio Timbira descobriu uma coisa que ninguém tinha sacado. No domingo à tarde tem umas pessoas que saem para fazer outros compromissos. Quando a gente sai, que volta e quer saber o resultado de um jogo, todas as emissoras já saíram do ar. E eu descobri outro dia, queria saber o resultado de um jogo do Sampaio Correia, e eu procurando, encontrei uma galera falando de futebol, foi de nove até meia-noite, são três pessoas”, revelou o cantor, referindo-se ao Rolê Esportivo, comandado por Gabriel DCastro, Quécia Carvalho e Sebastian Neto, estagiários que dominam a pauta esportiva com mais propriedade que muito profissional por aí.

Em São Mateus, onde aguardava o início da transmissão de Juventude x Maranhão, Laércio Jr. ouvia a entrevista. Sem saber que estava sendo ouvido por ele, Gabriel também elogiou-o e o locutor entrou ao vivo para agradecer a gentileza do madredivino de cabelos de anjo.

Escrever este texto e compartilhar o vídeo do Balaio Cultural de sábado passado com outro público – que não necessariamente ou/viu o programa – é uma forma de fazer minhas as palavras de Gabriel Melônio. Registre-se meu endosso.

Blogosfera no dial

Acervo Rádio Universidade FM

Ontem participei, com o camarada Alberto Jr. (como eu gostaria que ele tivesse um blogue para linkar no nome dele), do quadro Roda de Conversa, no Santo de Casa, na Rádio Universidade FM (106,9MHz), capitaneado por Gisa Franco.

O tema era “a importância dos blogues na difusão da música maranhense”, mas creio que fomos além.

Comentamos de nossas experiências como blogueiros, citamos blogues importantes, fiz cobranças públicas a quem já teve blogues e precisa voltar a ter e a quem nunca teve mas tem muito o que dizer, rimos um bocado e aproveitei para fazer o meu comercial, divulgando a 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes (termina hoje, 30) e shows de Chiquinho França (hoje, 30), Edvaldo Santana (7/11) e Patativa (19/11).

Quem perdeu no rádio pode ouvir o papo aqui, agora. Mais uma vez agradeço a atenção e paciência dos/as ouvintes e o carinho dos/as que fazem a Rádio Universidade FM.

O rádio, Parafuso e eu

Começo de setembro passado, a trabalho em Brasília/DF, meu celular toca. Era Valéria Santos, produtora da Rádio Universidade FM. Disse-me rapidamente que estavam produzindo um Janela Cultural em homenagem ao mestre José de Ribamar Elvas Ribeiro, mais conhecido como Parafuso. De cara topei dar um depoimento e ela gravou na hora, pelo telefone. Ela tornaria a ligar, já que as operadoras de telefonia não ajudam e a ligação caiu.

No dia em que o programa foi ao ar, eu estava novamente viajando. Hoje, com o amigo Alberto Jr., fui ao Santo de Casa, na mesma Universidade FM, falar com Gisa Franco no quadro Roda de Conversa sobre a relação entre a blogosfera e a difusão da música do Maranhão. O papo rolou agradabilíssimo. Reencontrei amigos e amigas e conheci Valéria pessoalmente. Ela me avisou que o programa dedicado a Parafuso estava disponível, na íntegra, no youtube.

Lembro que o lendário sonoplasta havia lançado recentemente, em concorrida noite de autógrafos no Bar do Léo, o livro Memórias de um Parafuso, de título autoexplicativo.

A quem interessar possa, aí está o programa:

Música maranhense: silêncio da/na Rádio Universidade FM

Quando li este texto no blogue do jornalista Henrique Bóis, fui tomado de imediato por um misto de raiva e nojo. Imediatamente resolvi reagir e vomitei alguns parágrafos em que me mostrava indignado com a transformação, de uns tempos pra cá, da Rádio Universidade FM em apenas mais uma rádio comercial entre as outras do dial. Que a Radiun, como é carinhosamente chamada pelos que a fazem, deveria ter um papel de laboratório, de vanguarda, sem preocupações primordiais com lucros etc. Que seria contraditório o confinamento da música maranhense aos horários do diário Santo de Casa (apresentado por Gisa Franco, de segunda a sexta, das 11h ao meio dia) e do semanal Chorinhos e Chorões (aos domingos, das 9h às 10h, por RicarteAlmeida Santos), cujo apresentador cheguei a ouvir para escrever um texto cujo rascunho, jogado direto no wordpress e não esboçado em word, como de costume, não foi salvo. Por que liguei para Paulo Pellegrini e este negou a veracidade das afirmações de Bóis e as aspas de suas falas no texto, embora o tenha feito de maneira muito tranquila, em minha opinião.

Cheguei ao texto de Bóis através do compartilhamento do mesmo pelo cineastamigo Murilo Santos, em seu perfil no Facebook. Em resposta, nos comentários, marquei Murilo, Paulo Pellegrini e Henrique Bóis, após o telefonema ao segundo. Só o primeiro respondeu, dizendo aguardar um pronunciamento oficial da Rádio Universidade FM.

Ontem (só li hoje) recebi por e-mail o texto abaixo, do compositor e jornalista Cesar Teixeira, sobre o mesmo fato.

Este blogue continua aguardando manifestação da Rádio Universidade FM sobre o assunto.

SANTO DE CASA NÃO FAZ MILAGRE

CESAR TEIXEIRA

Fiz parte de uma geração de estudantes e professores que lutou pela criação de uma gráfica e uma rádio dentro da UFMA, no início dos anos 80. Exatamente para implodir o modelo autoritário que impedia a universidade de cumprir o seu papel social, interagindo e contribuindo com a comunidade para garantir a cidadania e o direito constitucional à informação.

É triste hoje constatar que a Rádio Universidade FM, gerenciada pela Fundação Souzândrade, está querendo jogar fora o seu script ético, passando a discriminar os artistas maranhenses que mais têm contribuído para o sucesso da nossa música. Isso outros canais de comunicação já fazem no Maranhão. Será que o jabá ideológico também se apropriou da emissora?

Tive informação de que ingressos oferecidos pela produtora de um show do compositor Josias Sobrinho não poderiam ser divulgados nos programas jovens da emissora, conforme teria determinado o coordenador geral, Paulo Pellegrini, ficando limitados aos programas Santo de Casa e Chorinhos e Chorões.

Não deixa de ser esquisito excluir os jovens, excluindo o artista. Pior ainda. Segundo o blog do jornalista Henrique Bóis, o diretor afirma que se o público da rádio “acaso fosse a um show de músico maranhense teria uma péssima impressão, principalmente de alguns (…) compositores que se aventuram a cantar”.

Que público será esse que teria má impressão da nossa música, que a própria rádio tanto se empenhava em divulgar? Não faz sentido. Parece até uma tentativa de ressuscitar a antiga censura prévia em uma emissora pública, cujos projetos também dependem de empresas como a Vale e a Alumar, de interesses culturais duvidosos.

Como lembra o jornalista, eles utilizam “a mesma música que rejeitam para convencer os patrocinadores” do Prêmio Universidade FM, que distribui anualmente troféus para artistas e produções culturais que mais se destacaram.

A verdade é que Santo de Casa não faz milagre. Ou faz?

Para todos os efeitos, é lamentável que a direção da rádio tenha transformado a música maranhense em merda, e agora esteja pisando nela.

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