Filme de Sérgio Ricardo abriu ontem Festival Internacional Lume de Cinema

Antonio Pitanga e Osmar Prado durante as gravações de Bandeira de retalhos. Foto: divulgação

 

Sérgio Ricardo é mais conhecido como autor das trilhas sonoras de Deus e o diabo na terra do sol (1964) e O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969), de Glauber Rocha, e pelo episódio em que, ao interpretar Beto bom de bola, música de sua autoria em um festival da TV Record, em 1967, irritado, quebrou o violão e atirou pedaços do instrumento contra a plateia.

Um lado seu que pouca gente conhece é o de cineasta. Sua mais recente realização, após mais de 40 anos longe das claquetes, o longa-metragem Bandeira de retalhos [drama, Brasil, 2018, 90 min.] foi exibido ontem (15), no Cine Lume (Edifício Office Tower, Renascença), na abertura do 5º. Festival Internacional Lume de Cinema.

O filme parte de um episódio real, a tentativa de despejo de moradores do morro do Vidigal, no Rio de Janeiro, em 1977. A partir deste mote, Sérgio Ricardo desenvolve um roteiro com elementos que mostram o quão pouco o Brasil mudou em quatro décadas.

A trama costura o típico morro para gringo ver, com seus encantos, roda de samba e alegria, com o morro típico de tragédias como a que recentemente vitimou Marielle Franco, vereadora do PSol no Rio de Janeiro.

Sérgio Ricardo é sagaz ao questionar “quem é bandido?”, se um perseguido pela polícia, cria daquela favela, que viu os pais serem assassinados, ou se os poderosos de terno e gravata (ou com a farda cheia de divisas), a extorquir e agir a serviço da especulação imobiliária e do poder político e econômico – quase sempre uma coisa só.

É uma obra de ficção (embora baseada em fatos reais), mas qualquer semelhança com a realidade, e com o Brasil sob a égide dos golpistas, não é mera coincidência – e justifica o retorno de Sérgio Ricardo, aos 85 anos, ao cinema.

O diretor resgata imagens em preto e branco do noticiário da época, com depoimentos de moradores e autoridades, mesclando-as à trama, em que os atores mais conhecidos são Antonio Pitanga (João da Lua, um cego que é a memória viva do morro) e Osmar Prado (o deputado Délio dos Santos). De baixíssimo orçamento, o filme foi realizado com recursos captados através de crowdfunding.

O roteiro é bem urdido e podemos dizer que se trata de um filme de final ao mesmo tempo feliz e triste. No campo social, a comunidade vence a batalha. Já ao terreno do amor o destino não reserva a mesma sorte.

Serviço

O 5º. Festival Internacional Lume de Cinema segue até a próxima quarta-feira (21). Veja a programação completa.

Novo curta de Rose Panet estreará no Festival Internacional Lume de Cinema

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Amniogênese é o primeiro filme de ficção da cineasta

Amniogênese. Frame. Reprodução

Em meio à vasta e rica programação do Festival Internacional Lume de Cinema, a cineasta Rose Panet lança seu novo filme. Trata-se da estreia da diretora no universo da ficção, com o curta-metragem Amniogênese, que integrará a sessão de abertura do festival, ao lado do curta espanhol Ainhoa, de Ivan Sainz-Pardo, e do longa Bandeira de retalhos, de Sérgio Ricardo, autor de trilhas sonoras de filmes de Glauber Rocha, famoso por quebrar um violão e atirar pedaços do instrumento contra a plateia num festival de música popular brasileira.

Amniogênese, de Rose Panet, foi filmado na Biblioteca Pública do Estado do Maranhão Benedito Leite, como atividade de um curso na Escola Lume de Cinema de que a diretora e roteirista participou. O filme apresenta espíritos no limbo, em diálogo sobre nascer e não nascer, viver e morrer.

“Eu fiz a partir de um sonho que tive quando estava grávida de meu segundo filho. A ideia permaneceu comigo e levou anos até eu materializar”, revela Rose Panet. Sem diálogos, o filme tem trilha sonora do compositor russo Kai Engels – cuja música já comparecia à trilha sonora de Manuel Bernardino: o Lenin da Matta, documentário da diretora, que estreia em abril na TV Senado.

Amniogênese, segundo os dicionários médicos, é a formação do âmnio, a bolsa membranosa que contém o líquido amniótico onde flutua o bebê. “É um filme que também discute as dores e as delícias de ser mulher, com decisões às vezes difíceis, que precisam ser tomadas. Curioso também é que de forma não intencional, agora em uma ficção, a gente torna ao terreno do espiritismo, tema presente no documentário Manuel Bernardino: o Lenin da Matta”, revela.

Aminiogênese traz no elenco Daniel Costa, Dida Maranhão (assistente de produção e maquiagem), Domingos de Jesus, Fabíola Rocha, Fred Egyto, Guilherme Verde, Thiago Santos (assistente de direção) e Wilka Sales. Rose Panet assina direção, roteiro, produção e fotografia (com Beto Matuk e Denis Carlos). O filme tem montagem e sonorização de André Garros.

Serviço – A sessão inaugural do Festival Internacional Lume de Cinema acontece nesta quinta-feira (15), às 19h, no Cine Lume (Edifício Office Tower, Renascença). Os ingressos custam R$ 12,00.