Arquivo da tag: fernando abreu

Visitas marcam comemoração de 28 anos do grupo Teatrodança

“Fazer valer a flor da idade/ Colhida no pátio do sossego/ Ermo estandarte deflagrado/ Sob a mordaz lua crescente// A flor que ensina o frio ao pasto/ À relva a solidez do asfalto/ Sol que encobre o céu descalço/ E alimenta as turbinas do silêncio// Fazer valer essa flor perdulária/ Já que tudo é um golpe de sorte/ Reunir os cavalos sob a chuva/ Cogumelos velozes da memória// Fotos revistas nas dobras do sonho/ Páginas como pétalas entreabertas/ Ternamente ao alcance dos dedos/ Flor orvalhada no ato de explodir// Fazer valer os nervos intricados/ Da flor na idade do abandono/ Fazer justiça ao cão sem dono/ Que ladra e morde em meu jardim.”

O poema que abre este post, Fazer valer a flor da idade, de Fernando Abreu [Aliado involuntário, Êxodus, 2011, p. 45], é o mote de Flores, espetáculo do grupo Teatrodança, coordenado pela bailarina Júlia Emília, cuja pesquisa é voltada para as culturas tradicionais, da arte oriental da ikebana às expressões populares do Maranhão.

Flores será apresentado nesta quarta-feira (7), às 19h, na Casa de Nhozinho (Rua Portugal, 185, Praia Grande), com entrada franca. Na ocasião, o grupo apresentará também Ilhadas. Júlia Emília explica que este espetáculo “é parte de uma trilogia que se propõe a descobrir uma linguagem com a qual artistas da cena começam a escrever sua própria história e sistematizar suas ideias, teorias, técnicas e análises, por meio do aproveitamento matrizes das expressões populares maranhenses na construção de uma dramaturgia do corpo”.

Ainda segundo ela, “o que dói mais é a inocência perdida. Meninas que somem. Mulheres que choram. Nas tradições brasileiras de lutas, o sentimento feminino contra a dor permanece no corpo e permite dar continuidade ao ato de viver”.

Ao contrário de lojas que enganam cidadãos – muitas vezes diminuídos a meros consumidores – com o papo de que “a gente faz o aniversário e quem ganha o presente é você”, o grupo Teatrodança fará valer de fato a flor da idade, presenteando a plateia: além dos dois espetáculos, bate-papos após eles. As visitas terão continuidade com o espetáculo Flores: Livraria Poeme-se (dia 14 de agosto), Escola Attività (24), Casa Verde (30) e Centro Ozaka (14 de setembro).

A maior miniturnê de lançamento do mundo

O Fabreu é um cara sábio, já ouvi não sei quantas vezes o mano Reuben dizer isso, com o que concordo.

Ele tem um jeito de monge, seja pelos óculos ou pelo pouco cabelo que conserva, num corte militar, à falta de outro adjetivo, que de militar o poeta tem nada e, nunca ouvi a opinião dele, mas aposto meu reino que ele é até contra o serviço militar obrigatório (como este blogueiro também é, e a favor da desmilitarização das polícias, mas isso é outro assunto). Além do quê, tirando o deslocamento cotidiano para o trabalho, Fabreu quase nunca sai de casa, a não ser que a coisa valha muito a pena (estou devendo ajudá-lo a devorar uma peixada em seu apartamento, dívida que, não duvidem, terei o maior prazer de pagar em breve).

Como é o caso de ele lançar em Brasília seu mais recente livro, aliado involuntário, como anuncia a imagem que ilustra este post.

Fabreu, aliás, é como nós, íntimos, chamamos o jornalista e poeta Fernando Abreu, figura querida, parceiro de Zeca Baleiro em hits como Alma nova, Cachorro doido e Guru da galera. Autor de três livros de poesia, o que ele lança quarta-feira em Brasília mais O umbigo do mudo e Relatos do escambau.

À colônia maranhense em Brasília e/ou aos que gostam de poesia em geral, fica o recado. E digo mais: Fabreu tem o que dizer, um dos argumentos com que lhe convenci a abrir o blogue. E mais: acredito que um dos segredos da sabedoria do bardo Fabreu está na capacidade de zo(mb)ar de si mesmo. O título deste post, roubado daqui, prova isso.

Ora, se a gente não tira uma auto-onda, alguém vai fazê-lo, né? Como perguntaria o Tom Zé, “por que então essa mania de parecer tão sério” que acomete a tantos poetas por aí?

Trem musical, Parador de Nosly encosta amanhã (29) na estação Arthur Azevedo

Do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira: “Iniciou a vida artística em 1984 na cidade de São Luís, capital do Estado do Maranhão.// Residiu em Minas entre os anos de 1986 e 1995, onde integrou a Orquestra de Violões do Palácio das Artes. No ano 2000 lançou pela gravadora Dabliu o cd Teu lugar, no qual interpretou várias composições de sua autoria, entre elas, Brinco, Noves fora e Japi, as três em parceria com Zeca Baleiro; Coração na voz (c/ Nonato Buzar e Gerude); Gueno (c/ Glauco Barbosa) e June, parceria com o poeta Celso Borges, entre outras.// No ano de 2003, ao lado de César Nascimento e Mano Borges, apresentou-se no “Projeto Prêt-à-porter”, com direção artística de Sérgio Natureza, no Teatro Café Pequeno, no Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro.// Em 2010 lançou o cd Nave dos Sonhos, no qual figura a faixa-título composta em parceria com o também maranhense Nonato Buzar, disco lançado em show homônimo no Bar Severyna, em Laranjeiras, Zona Sul do Rio de Janeiro. No show contou com a participação dos músicos Ney Conceição (baixo), Kiko Continentino (teclados) e Victor Bertrami (bateria).// Entre seus diversos parceiros destacam-se os letristas Celso Borges, Tibério Gaspar, Chico Anísio, Fausto Nilo e Sérgio Natureza, além do compositor e sambista carioca João Nogueira.”

Do texto do encarte de Parador [ouça na Rádio UOL], assinado pelo parceiro-produtor Zeca Baleiro: “Parador é o terceiro disco de Nosly, compositor maranhense que já zanzou por muitas plagas sem fixar-se em nenhuma – São Luís, Rio, Belo Horizonte, Düsseldorf… Como seu conterrâneo Gonçalves Dias, Nosly vive no exílio, no abandono apaixonado da música, urdindo canções como quem tece num tear seu artesanato de afetos, sua teia de ritmos (…)// Sem mais delongas, digo: Nosly é um craque inquestionável da sempre nova (e muito viva) canção brasileira”

Parador abre com a regravação de Aquela estrela (Ronald Pinheiro e Jorge Thadeu) e fecha com Maria Luiza (Nosly), único tema instrumental do disco, homenagem à mãe do compositor. Entre as 13 faixas, parcerias, regravações e inéditas.

Amanhã (29), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo, acontece o show de lançamento de Parador (2011), novo disco de Nosly, produzido por Zeca Baleiro (mais sobre o show no release escrito pelo parceiro Fernando Abreu). Abaixo, a entrevista exclusiva que o músico concedeu ao blogue, por e-mail.

ENTREVISTA: NOSLY

ZEMA RIBEIRO – Nosly, como foi sua infância e em que momento você sentiu que ia ser músico, que ia viver de música?

NOSLY – Nasci em Caxias/MA, em agosto de 1967. Sou o sétimo filho de uma família de 10 e carrego o nome do pai, Nosly. Cresci ouvindo muita música boa, música de qualidade, orquestradas e interpretadas por grandes nomes. A minha primeira lembrança, eu deveria ter talvez quatro ou cinco anos, foi colocar na “radiola”Agostinho dos Santos cantando Estrada do Sol (Tom Jobim e Dolores Duran). Depois, com sete, me divirtia com os instrumentos musicais (xilofones, saxofones, clarinetes etc.) que ganhava na época de natal. Acho que os meus pais, de alguma maneira, já identificavam meu interesse pela música. Só lá pelos 13 é que pintou o violão na minha vida. Daí foi paixão à primeira nota.

Parador pode ser considerado teu disco mais pop, embora nunca descartável, como acentua o parceiro Fernando Abreu no release de divulgação do show de lançamento. Como foi sua gestação? O disco começou a ser idealizado no começo do novo milênio, mas por conta da agenda do Zeca [Baleiro, produtor do disco] e a minha decisão de passar um tempo na Europa, foi sendo adiado, até, finalmente em 2010, partirmos pra por em prática e realizar o sonho antigo. Muitos e-mails trocados com o Zeca até chegarmos a esse repertório que aí está. Compus algumas coisas especialmente pra esse cd, como por exemplo Oh, baby perdoe (Nosly e Zeca Baleiro), Aldeia (Nosly e Celso Borges) e Apesar de doer (Nosly e Vanessa Bumagny). Muitas idas e vindas, São Luís, São Paulo, São Luís, até a conclusão e lançamento em maio deste ano.

O que o público ludovicense pode esperar do show de lançamento do disco, que contará com a participação especialíssima de Toninho Horta? O show tem como base o repertório do cd e toco ainda algumas músicas do primeiro [Teu lugar] e do segundo cd [Nave dos sonhos]. A banda é sensacional: VICTOR BERTRAMI – BATERA, NEY CONCEIÇÃO – BAIXO e KIKO CONTINENTINO – PIANO [grifos dele]. O Toninho é amigo desde 86, quando eu participei do I Seminário Brasileiro da Música Instrumental, realizado em Ouro Preto. Considero o Toninho um dos maiores violonistas, guitarristas do mundo, além de consagrado compositor, grande ídolo, desde o tempo que ouvia o Clube da Esquina. Melhor agora, depois de tantos anos de amizade, poder estreitar mais ainda nossos laços musicais e contar com a presença dele no show. É uma honra pra mim e acredito que será também para o público que vai nos prestigiar.

Parador traz uma série de parcerias, com nomes como Celso Borges, Fausto Nilo, Fernando Abreu, Olga Savary, Vanessa Bumagny e Zeca Baleiro, entre outros, o primeiro e o último aqui listados talvez os mais antigos, parceiros desde o começo da carreira. Como se dão essas parcerias? Como é lidar com essa pluralidade? Cada parceiro tem sua importância e admiro todos eles, pois a parceria nasce antes, no coração da gente, só depois vira música. Já compus de n maneiras distintas, não dá pra prever nem premeditar, tudo nasce como deve ser, naturalmente. Recebo letras de música, poemas, ideias de melodias, enfim cada caso é um caso. O importante mesmo é que o momento seja pleno e que a ideia venha à cabeça. Tive a honra de compor com grandes nomes da MPB, como Nonato Buzar, Chico Anysio, João Nogueira, Tibério Gaspar, Sérgio Natureza, Zeca Baleiro, Chico César, Fausto Nilo, Luis Carlos Sá, Celso Borges, Fernando Abreu, Gerude, Luis Lobo, Olga Savary, Lúcia Santos, Cláudia Alencar, enfim, a lista é longa e sempre cabe mais um. É muito bom poder compartilhar momentos e afinidades e a parceira é a junção dessas duas coisas.

Como foi trabalhar com o parceiro Zeca Baleiro assinando a produção? Foi muito prazeroso trabalhar com o Zeca. Já fizemos tantas coisas juntos no passado, que facilitou nesse agora. Temos muita afinidade, crescemos juntos e ouvimos muita música naquelas tardes de Monte Castelo. Além disso, nossa concepção é bem parecida, embora cada um tenha sua maneira particular de evidenciar isso. Pra resumir, foi uma beleza fazer esse cd produzido por ele, pelas ideias que dividimos e pelo despojamento sobre qualquer sentimento de vaidade que pudesse macular esse nosso encontro.

Faixas como Oh, baby, perdoe (Nosly e Zeca Baleiro), I’ll be over you (Steve Lukather e Randy Goodrum) e So I’ll have to say I love you in a song (Jim Croice), têm um acento brega, seja pela temática romântica da primeira, a segunda uma balada original que aqui ganha versão reggae e a terceira por ter tido uma versão em português gravada por um ídolo do gênero, Fernando Mendes. Sobretudo em relação às duas últimas, como se deu a escolha para que entrassem no repertório de ParadorApesar de ter ouvido na infância Odair José, Fernando Mendes, Amado Batista, Wando etc., tudo aquilo soava natural, era rotulado de brega, mas isso já tomou outra conotação dos dias de hoje. Tanto é que grandes nomes  da MPB continuam gravando esses compositores ditos brega até hoje. Nada foi intencional, recebi a letra do Zeca pela internet, via e-mail, daí apenas dei vasão ao sentimento do momento. Melodia não tem hora pra acontecer e nem se sabe como vai ser. Você sente e põe no violão. Quando gravamos não tivemos essa preocupação de fazer um acento como se fora brega. Quisemos sim, fazer rememorar alguns timbres dessa época que caíram em desuso. Seria, pois ,uma retomada de algo que foi bom e se perdeu durante um tempo e que agora temos a chance pelo menos de registrar à nossa própria maneira e entendimento.

A faixa-título é uma homenagem a um tio teu, em cuja casa tu moraste, no Rio de Janeiro. Composta em parceria com Gerude e Luis Lobo, também dá a ideia de um Nosly cosmopolita, que já morou inclusive na Alemanha, onde foi gestado outro disco teu, o anterior Nave dos Sonhos. Qual o melhor lugar em que você já morou, seja por aspectos pessoais, mas sobretudo musicais? É muito bom ser cidadão do mundo, falar quatro línguas, sair em busca do aprimoramento, da melhora que todos almejamos. Belo Horizonte é bem marcante na minha vida. Tenho saudades de lá. O Rio de Janeiro, especialíssimo, e tenho sangue carioca: meu pai era carioca. Foi muito importante pra mim o tempo que vivi lá. E por último Düsseldorf, na Alemanha, onde vivi por cinco anos maravilhosos. Fica difícil apontar essa ou aquela cidade, cada uma tem sua medida de importância em meu coração. E quanto aprendizado!

Como você analisa o cenário da produção musical do Maranhão hoje? E no seu caso particular, é mais fácil ser reconhecido aqui, sua terra, ou lá fora? Claro que se você está num grande centro, São Paulo, Rio, BH etc., você tem mais oportunidades de mostrar seu trabalho, não tem o que comparar. Quanto à produção local, acho que fazemos música de altíssimo nível, lindas poesias, letras, lindas melodias que poderiam com certeza embalar corações mundo afora. Basta, pra que isso aconteça, oportunizar, formar plateia e ocupar espaços ociosos com bons espetáculos, seja de música, teatro, poesia, artes plásticas, dança, enfim, qualquer manifestação cultural com que o povo se identifique. Na Europa, tenho público cativo, são três cds editados lá. No Brasil, minha música é ouvida de norte a sul. Vivo em busca do reconhecimento, não importa onde seja, onde esteja. Se o povo quer me ouvir, lá sempre estarei.

Flores, letras & músicas: um buquê de emoções

As flores de Fernando Mendonça não são de plástico, mas não morrem. Eram o jardim suspenso nas paredes a perfumar nossos olhos – os ouvidos também o seriam, em sequência. Cuidado, flores!, a exposição, preparava o terreno, fértil, como adubo para poesia & música, com que nos depararíamos em instantes.

O poeta Fernando Abreu diz um poema e Nosly, violão em punho, ouve, a plateia pequena, idem. Ao fim, o músico entoa uma versão musicada do texto lido pelo primeiro. Monótono? De jeito nenhum.

"Para uma grande dama": na versão musicada por Nosly, o poeta Fernando Abreu desfila um rosário de estrelas cinematográficas
Letra & Música, show de bolso poético-musical, como entrega o título, apresentado pelos parceiros ontem (31), no Cine Ímpar – subaproveitado espaço para se fazer arte em São Luís – não ficou, no entanto, na sequência poema-versão musicada/cantada.
 
Fernando Abreu leu poemas de aliado involuntário [Êxodus, 2011] e Nosly revezou-se entre músicas inéditas – parcerias de ambos – e canções gravadas em seu disco mais recente, Parador [2011], entre as quais Você vai me procurar (mais uma parceria deles), Versos perdidos (Nosly, Zeca Baleiro e Fausto Nilo) e a faixa-título (Nosly, Gerude e Luiz Lobo).
 
Esta última, cantada por eles mais a poeta Lúcia Santos, convidada especial da noite, que despiu as lentes verdes dos olhos da atriz pornô – primeiro poema que leu ao subir ao palco – e declamou mais alguns poemas do livro novo do letrista. O refrão, ensinado na hora por Nosly ao público, que certamente já o conhecia, foi cantado em uníssono pelos presentes.
 
O espetáculo é curto e tem sabor de quero mais. Inevitável, em casa, re-mergulhar no livro e disco que se fundem no palco para dar origem a Letra & Música. Olhos, ouvidos, mente e coração agradecem.

Para uma grande dama

Os olhos verdes
da atriz pornô

quando dançam fora de órbita
disparam no céu incolor

lampejos
de uma arte rara

flashbacks
de tragédia grega
e teatro nô

sacerdotisa fast-food
a preferida do imperador

Os olhos verdes
da atriz pornô

são duros como
os olhos da virgem

não cabem
no discurso marginal

sua obra é sua moral:
pura vertigem

Os olhos verdes
da atriz pornô

anulam toda teoria
longe das luzes & ohos vorazes
despem as lentes verdes de contato
e encaram nus a luz do dia.

*

Poema de Fernando Abreu, de seu novo livro, aliado involuntário [Exodus, 2011]. O poema virou música, pelas mãos de Nosly, com quem o poeta divide o palco em Letra & Música, espetáculo poético-musical-plástico com as participações especiais de Lúcia Santos e Fernando Mendonça, que inaugura, na ocasião, a exposição Cuidado, flores!, além de dar uma canja no palco, ele que já assinou projeto gráfico de disco de Nosly (Nave dos sonhos) e, músico bissexto, já musicou coisas de Fabreu. Detalhes no Overmundo e/ou no cartaz abaixo:

Em tempo: o poema que batiza este post não está em Parador, disco novo de Nosly, que traz outra parceria da dupla: Você vai me procurar.

Em tempo 2: ainda escreverei acá sobre aliado involuntário e Parador. Questão de tempo.