Arquivo da tag: família

Réquiem para Maria

Maria Lindoso com o neto e o bisneto. Fotos: Zema Ribeiro

Houve um tempo em que os cromos dos álbuns de figurinhas não eram autocolantes. Lembro-me que endureci um calção limpando cola dos dedos. Não lembro que idade tinha o guri que eu era, mas tinha especial apreço pelo calção azul e vermelho costurado por minha avó, Maria do Rosário Lindoso (8/12/1939-25/10/2020), com quem morei até os sete anos de idade, em Rosário/MA.

13 anos depois de Antonio Viana, meu avô, vovó faleceu, vítima de um câncer de pulmão – foi fumante por mais de 60 anos de vida. Tinha também mal de Alzheimer. Teve seis filhos, pois não fazia distinção da última, adotada: Solange (minha mãe), Sérgio, Silvio, Sara, Susalvino e Silvandira, por ordem de data de nascimento.

Perdi as contas de netos e bisnetos que deixa e, dos primeiros, ao menos a safra inicial de meia dúzia, todos íamos comprar-lhe doses de cachaça (escondidos de vovô), com que costumava se aquecer para os banhos de cuia no tanque, boca da noite. Além de dar os primeiros tragos em hollywoods, carltons, plazas, frees, derbys e que tais, atendendo à sua outra ordem: “menino, vai acender um cigarro pra mim”.

Faleceu justamente no dia do encerramento dos festejos de Nossa Senhora do Rosário, santa padroeira de sua cidade natal e que lhe batizou, ela, nascida, afinal de contas, num dia de Nossa Senhora da Conceição. Não era uma católica fervorosa, mas tinha lá seu altar particular, com umas imagens, diante das quais vez por outra acendia velas e rezava.

Tampouco era politicamente correta e divergíamos em muitos temas, diante dos quais eu geralmente calava, a fim de evitar atritos e não soar desrespeitoso. Lembro-me que no último passeio que fizemos juntos, ela reclamou por eu estar servindo o churrasco à minha companheira, e não o contrário. Dissemos qualquer coisa e tentamos acreditar que tais comentários se deviam a um abismo geracional (embora gente – parentes, inclusive – mais jovem que nós mantenha esse tipo de pensamento e postura).

Mesmo com a vida quase nunca sendo fácil, deixou valorosas lições de honestidade, em espécies de ditados que eu mesmo só ouvi de sua boca. “Homem que é homem caga na mão e come”, dizia, ensinando que problemas têm que ser enfrentados e resolvidos, não adianta ficar choramingando pelos cantos. Ou: “quem não tem, não tem raiva”, advertindo que a inveja, a cobiça e a ganância não são boas conselheiras.

Foi apresentada ao bisneto José Antonio antes de ao diploma de jornalismo, que ela nunca deixou de me cobrar. O homem formado, no fundo, nunca deixou de ser o menino de calça curta e tênis conga, como fotografado a seu lado, um dia, provavelmente o da cerimônia de formatura do ABC, no gramado em frente ao jardim de infância em que aprendi a ler – ao lado da igreja da matriz –, derrubado pela insensibilidade dos gestores públicos.

O mesmo menino que nunca esquecerá o quintal onde tanto brincou, cheio de plantas, cuidadas com extremo zelo, os pés de abacate dos quais ela me enviava os frutos, sabedora do quanto os aprecio, ou do prejuízo nos camarões frescos que me mandava descascar: o ingrediente para a torta sempre acabava em menor quantidade, pois eu já ia me pagando o trabalho com uma porcentagem do aferventado.

Bença, vó!

José Antonio,

Foto: ZR (20/11/2015)
Foto: ZR (20/11/2015)

há um mês você chegou, prematuro, apressado, se antecipando às previsões, feito um atacante que adivinha o pensamento do zagueiro e descobre o melhor flanco para eliminá-lo e marcar.

Desde então, em minha cabeça, rumino um texto​, ou algo que o valha,​ para te saudar. Incontáveis vezes abri o editor de texto, às vezes escrevia umas linhas​ num computador, ou no celular​, mas nada me agradava. Não sei se é alguma espécie de bloqueio ou se é só o fato de faltarem palavras para exprimir qualquer sentimento: elas são nada perto do que realmente importa e do que quero (e não consigo) dizer.​

Foi a maior emoção da minha vida. Está sendo. E ​sei que ​para sempre será.

Tenho muito a aprender contigo. A ser uma pessoa melhor, inclusive. “Filhos são professores dos pais” é mantra repetido sempre por minha sogra, quase o machadiano “a criança é o pai do homem”.

“A criança traz o pão embaixo do braço”, disse-me um amigo quando lhe pedi trabalho – poucos dias depois o trampo apareceu. Agradeci a ele e a você.

Entre noites mal dormidas e a correria cotidiana, os longos intervalos em que te olho, quieto, sorrindo pra lua, no berço, no carrinho ou em meus braços – até você abrir o berreiro anunciando a hora da próxima mamada, infalível relógio.

Tão ansioso quanto fiquei com a gravidez, confesso que agora estou por te ver logo correndo pela casa. Ainda não sei se vais gostar de meus livros e discos – embora desde sempre, eu te embale ouvindo (e te fazendo ouvir) choro – ou de comer ostras na praia. Torço para que sim. Mas se não, espero saber respeitar.

Um mês! ​Obrigado pelo aprendizado, “papa”! Obrigado pelo amor! Obrigado por tudo​! Obrigado por você!

Deus te abençoe!

Beijos do papai.

Uma canção para as mamães pelo seu dia

Eu tinha uns 13 anos quando Agnaldo Timóteo lançou o disco que ilustra este vídeo, de onde foi tirada a faixa que você, leitor, leitora, acabou de ouvir.

É um álbum cujo repertório trata exclusivamente do tema “mãe”, um caça-níqueis para o dia das mães de 1995. Não lembro se, àquele ano, algum de nós presenteou dona Solange com ele.

Lembro sim da intensa campanha publicitária da Globo para o disco, com muitas, muitas mesmo, inserções diárias em sua programação.

Numa das músicas havia um refrão chato em que o cantor repetia a palavra “mamãe” três vezes, repetido, a cada intervalo, por Netto, meu irmão ano e meio mais novo que eu (a prole de dona Solange se completa com Luziana, quase três anos mais nova que o blogueiro).

À época eu achava aquilo tudo muito chato e tenho quase certeza de que se nossa genitora ganhou o disco, certamente não fui eu quem o deu (e desde sempre livros e discos são meus presentes prediletos, para dar ou receber).

Menos por Agnaldo Timóteo que por meu irmão, que sobrepunha sua voz à do cantor na televisão, a cada comercial do disco. E eram muitos, repito.

Era mais ou menos como conta o Arrigo Barnabé: “em nossa família, entre as crianças, cada um tinha sua preferência como uma marca de identidade. Quase como uma afirmação de virilidade. Era assim com os refrigerantes, as cores, os times de futebol, os animais, os instrumentos musicais, tudo que oferecesse opção de escolha”.

Logo, à época, se meu irmão adorava o Agnaldo Timóteo, ou particularmente aquele disco ou aquela música ou seu refrão veiculado nas propagandas, ainda que fosse apenas para me chatear, eu, obviamente, detestava o Agnaldo Timóteo, ou particularmente aquele disco ou aquela música ou seu refrão veiculado nas propagandas ou ainda a voz de meu irmão sobre a do cantor, comercial após comercial, mesmo sabendo que, no fundo, ele talvez nem gostasse tanto assim e quisesse apenas, para meu desespero, me chatear.

Bom, lembro dessa historinha para homenagear todas as mamães com quem convivo. Viva vocês, meninas!