Pra despertar roqueirinhos

Rock para pequenos, v. 3. Capa. Reprodução
Rock para pequenos, v. 3. Capa. Reprodução

Laura D. Macoriello é assessora de imprensa da Edições Ideal, por onde publicou os três volumes de Rock para pequenos – Um livro ilustrado para futuros roqueiros, além de Cinema para pequenos – Um livro ilustrado para futuros cinéfilos [Edições Ideal, 2013, 52 p.]. Os dois primeiros volumes de Rock para pequenos, dedicados aos gringos, microperfilou Angus Young, B-52, Beatles, Chuck Berry, David Bowie, Elvis Presley, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Kiss, Ozzy Osbourne, Ramones, Rolling Stones e Steve Harris (no primeiro volume) e Axl Rose, Bjork, Bono Vox, Bruce Dickinson, Chrissie Hynde, Dave Grohl, Dick Dale, Freddie Mercury, Green Day, Jeff Hanneman, Jerry Lee Lewis, Jim Morrison, John Lennon, Lemmy Kilmister, Metallica, Morrissey, Nina Hagen, Robert Smith, Sex Pistols e Van Halen (no segundo).

O recém-lançado terceiro volume [Edições Ideal, 2015, 44 p.; leia um trecho] é dedicado a nomes do rock nacional: Capital Inicial, Cazuza, Erasmo Carlos, Inocentes, Ira!, Kid Vinil, Legião Urbana, Mamonas Assassinas, Os Paralamas do Sucesso, Pitty, Raul Seixas, Rita Lee, Ronnie Von, Secos & Molhados, Supla, Titãs e Ultraje a Rigor.

Os livros são ilustrados por Lucas Dutra e trazem microperfis dos artistas e, espécie de narrativa fabular, algo como uma moral da história, linkando as vidas e obras a valores cotidianos que devem ser ensinados aos “futuros roqueiros”, como indica o subtítulo da trilogia – até aqui; indagada sobre um possível quarto volume, a autora disse não saber responder ainda.

A assessora/escritora conta que “a ideia surgiu do meu cotidiano com minha filha Olívia, 5, que na época do primeiro livro estava com três anos. Peguei situações que eu vivia com ela para dar as “lições” e achei legal dar uma breve explicação sobre os astros”.

A “lição de moral” do microperfil que abre o terceiro volume, dedicado a Cazuza, é “ser filho único é muito legal, podemos escolher nossos irmãos-amigos”. Encaro o livro como uma boa porta de entrada para as crianças ao universo do rock, especificamente o brasileiro, no caso deste terceiro volume. Pergunto-lhe se este papel deveria, em alguma medida, ser também das rádios e tevês. “Talvez. Acho que de alguma forma os próprios pais que gostam do estilo podem tentar introduzir isso desde cedo nos pequenos”, aponta. “Acho que a opção deve ser dada. Não teremos controle sobre eles [os filhos] para sempre, caso eles gostem de outra coisa mesmo conhecendo o rock, acho que o certo é respeitar”, continua.

Laura D. Macoriello se define como alguém que “gosta mais de Smiths do que de lasanha”. Indagada sobre a maior loucura que já cometeu por um ídolo, responde sorrindo: “Nossa! Nenhuma! Até porque acho que em se tratando de um ídolo, nada é considerado loucura, concorda? [risos]”.

Ao fim do volume, uma discografia básica aponta os principais discos dos artistas, para pais e filhos ouvirem juntos. A autora poupa a petizada de eventuais detalhes trágicos da vida e carreira dos microbiografados. É um livro sobre rock, mas sem sexo, drogas e mortes trágicas.

Jornalismo, música e quadrinhos

Malcolm. Capa. Reprodução
Malcolm. Capa. Reprodução

Em 1995 Malcolm McLaren (1946-2010) visitou os estúdios da MTV Brasil. Pego de surpresa, o escalado para entrevistá-lo foi Fábio Massari, o Reverendo, profundo conhecedor de cultura pop. Apenas cerca de 15 minutos da entrevista de quase uma hora foi ao ar e o material bruto (em VHS) continuava apenas no acervo pessoal do radialista – e no da emissora, ele descobriria depois, contrariando a expectativa de destruição na qual ele próprio acreditava.

Mesmo no susto, Massari cumpriu bem seu papel e certamente seria um dos poucos brasileiros a fazê-lo, como atesta André Barcinski no posfácio. Por anos, guardou também uma cópia da transcrição da conversa, recheada, e não poderia ser diferente, de citações – sobretudo de música, moda e política – do universo ao redor dos Sex Pistols, a maior invenção do entrevistado.

Quase duas décadas depois, após um desejo acalentado por anos, Massari e o quadrinista Luciano Thomé, cujo traço encarna a alma punk do protagonista, transpõem a entrevista televisiva – na íntegra – à HQ Malcolm [Edições Ideal, Coleção Mondo Massari, 2014, 64 p.; leia um trecho]. O resultado é tão bom que parece que a conversa foi originalmente pensada para o formato.

O papo orbita em grande parte em torno do grupo de John Lydon e companhia, mas é um passeio pela indústria cultural, em companhia de quem sempre tirou um sarro por dentro. McLaren afirma, por exemplo, que os Sex Pistols nasceram como manequins: mais importava vestirem o que era conveniente ao empresário que que soubessem tocar (bem) algum instrumento. “Em 1977 criamos um movimento em que tudo era possível e não era necessário saber tocar guitarra”, diz. Quer atitude mais punk que isso?

A intimidade de Massari com o universo também aponta para as influências de MC5, Iggy & The Stooges e New York Dolls, e o legado deixado pelo grupo, que influenciou grupos como The Damned, Buzzcocks “e muitas outras bandas”. Sobram críticas à cultura americana – minimizada a “rock’n’roll, Levi’s, Coca-Cola e Marylin Monroe” –, à própria MTV – “se você ouve música, você é menos controlado por ela. Se você assiste na TV, você está mais propenso a ser controlado por ela e ela se torna uma… uma droga que o transforma num zumbi” – e a artistas que McLaren não aprecia – “o importante é ter algo a dizer em vez de botar todo mundo para dormir com música insossa, do tipo Mariah Carey”.

Para o inglês Malcolm McLaren não havia lugar para gênios nos Estados Unidos: “os gênios transformam a vida e os EUA não querem mudanças. Vivem um momento conservador”.

Malcolm, a HQ, é um belo tributo ao legado de seu protagonista, em geral amado e odiado ao mesmo tempo e na mesma intensidade, um dos personagens mais interessantes e controversos da música em todos os tempos.

Um relato honesto e emocionante

Ex-esposa do vocalista do Joy Division traça retrato cru de seu relacionamento em biografia

Tocando a distância: Ian Curtis & Joy Division. Capa. Reprodução

 

Aos quase 35 anos do suicídio de Ian Curtis – recém-completados, no último 18 de maio; ele tinha 23 anos quando se enforcou – ganha tradução no Brasil a biografia Tocando a distância: Ian Curtis & Joy Division [Touching from a distance – Ian Curtis and Joy Division, tradução de José Júlio do Espírito Santo, prefácios de Kid Vinil e Jon Savage, Edições Ideal, 2014, 317 p.], escrita por Deborah Curtis, sua viúva.

O livro apresenta um relato sobretudo da relação de Ian e Deborah, sem poupar um e outro nem revelar detalhes desnecessários de sua intimidade. O texto equilibrado dela descortina tão somente o que é necessário para compreendermos a figura do vocalista do Joy Division e a aura mítica criada e alimentada em torno dele, sobretudo após o suicídio. Em resumo, a autora não faz do ex-marido santo nem demônio: ele é tratado como um ser humano – acima da média, como são os gênios.

O livro é dedicado à filha dos dois, Natalie, e traz depoimentos dos outros membros da banda: Bernard Summer (guitarra e teclado), Peter Hook (contrabaixo) e Stephen Morris (bateria), que após o precoce suicídio do líder vieram a formar o New Order. A obra remonta à adolescência dos Curtis, quando se conheceram – época em que ele já falava em suicídio –, até quando a fama do Joy Division começou a extrapolar a Inglaterra natal: Ian se enforca pouco antes da banda sair para sua primeira turnê pelos Estados Unidos.

O legado da banda é inquestionável e a carreira, apesar de curta, deixou obras-primas como Love will tear us apart, Transmission e She’s lost control. Influenciados por nomes como Sex Pistols, Velvet Underground e Iggy Pop – seu The idiot continuava girando na vitrola quando o corpo de Ian foi encontrado sem vida –, o Joy Division segue influenciando jovens mundo afora. Antes de se suicidar, Ian assistiu “Stroszek, de Werner Herzog, sobre um europeu vivendo na América que se mata em vez de escolher entre duas mulheres” [p. 160]

Originalmente publicado em 1995, e tendo inspirado o filme Control, de Anton Corbijn, em Tocando a distância estão registrados a inabilidade de Ian Curtis para com coisas práticas da vida de um adulto normal – por exemplo, dirigir, morar sozinho etc.; há um capítulo intitulado Decida por mim –, a oscilação de seu comportamento (ora carinhoso, ora agressivo), a certeza do sucesso (chega a abandonar empregos na certeza de que o Joy Division daria em algo), as crises epiléticas (muitos fãs julgavam serem apenas trejeitos de palco) e a bigamia – Deborah admite a fraqueza à época, mas documenta o caso do músico com a jornalista Annik Honoré (falecida ano passado).

Deborah cita, mas não publica, a longa carta deixada a ela por Ian por ocasião de seu suicídio, o que bastaria para provar que, longe de caça-níqueis, seu relato é um desabafo necessário, profundo, emocionante e corajoso.

A edição brasileira traz ainda letras gravadas e inéditas de Ian Curtis, escritos inacabados do artista, lista de shows do Joy Division, um pequeno álbum fotográfico e uma minuciosa e surpreendente discografia (listando, às vezes, coletâneas em que a banda comparece em apenas uma faixa). Continue Lendo “Um relato honesto e emocionante”