Amores, im/permanência e maturidade

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Inspirada estreia solo de Carolinaa Sanches (vocalista dos grupos Caburé Canela e Pisada da Jurema), “Curva de rio” chega às plataformas de streaming dia 8 de abril (sexta-feira)

Curva de rio. Capa. Reprodução

Após disponibilizar dois singles, a cantora Carolinaa Sanches lança no próximo dia 8 de abril (sexta-feira), o álbum “Curva de rio”, sua estreia solo – ela integra os grupos Caburé Canela e Pisada da Jurema, além de ser artista visual e uma das gestoras da editora artesanal Grafatório, cujas obras-primas lançadas garantem a felicidade de quem ama livros.

O trabalho reafirma seu talento e maturidade artística. “Curva de rio” abre com “Cantar” (Carolinaa Sanches), o segundo single apresentado ao público, que conta sobre o mágico, difícil e sagrado ofício do verbo que lhe empresta o título. Ela se acerca de gerações distintas de cantores, nas presenças da veterana Alzira E., além de Gustavo Galo (da Trupe Chá de Boldo) e Isabela Lorena, também da Pisada da Jurema.

“Quando você chegou/ eu quis comemorar/ eu quis dançar até o amanhecer/ eu quis beijar você”, segue “Instante” (Carolinaa Sanches/ Layse Moraes), segunda faixa do álbum. A esta altura o ouvinte já está envolvido e bem poderia ser ele, ela, qualquer um de nós, devolvendo à Carolinaa a declaração. Cantada a seis vozes – além de Carolinaa e a parceira, Caruh Spisla, Francesco Mugnari, Guilherme Kirchheim e Mariana Franco –, um clima samba-jazzy se instala, no diálogo entre contrabaixo (Mariana Franco), teclado (Lucas Oliveira) e bateria (João Bolognini).

“Curva de rio” é delicado, bonito, gostoso de ouvir. Um alento nestes tempos trevosos. Letras inteligentes dialogam com melodias que convidam à dança. Carolinaa Sanches literalmente põe o coração na voz. “Cartas claras sobre a mesa/ desfrutar dos nossos sóis/ e a gente de peito aberto/ cada vez chega mais perto/ de entender o que é nós”, como diz na letra de “Nós” (Carolinaa Sanches), canção de amor que se equilibra entre o xote e o jazz, pontuada pelos contrabaixos de Mariana Franco (que também canta na faixa), a bateria de Paulo Moraes e o clarinete de Pedro José – os três, seus colegas de  Caburé Canela.

Ao longo do disco, Carolinaa revela-se, desnuda-se, derrama-se, entrega-se por completo. “Entre uma palavra e outra/ entra uma palavra noutra/ nenhuma boca chama assim meu nome/ nenhuma boca deixa em chama assim”, começa a letra de “Primeira primavera” (Carolinaa Sanches/ Barbara Blanco), cantada em dueto com Fernanda Branco Polse. Sim, o amor (e suas declarações) permeia(m) “Curva de rio” – um rio que transborda amores –, mas aqui o mais universal (e manjado) dos temas de música e poesia é cantado de forma extremamente original.

Se “amar é um elo entre o azul e amarelo”, como diria o conterrâneo Paulo Leminski – ele curitibano, ela londrinense –, a cantora e compositora dialoga com o universo do poeta em “Profundo amarelo” (Carolinaa Sanches), outra faixa em que baixo e clarinete se destacam. Versos como “não fosse tanto era quase/ não fosse isso era menos” invertem o título do famoso livro do artista multimídia (antes de o termo ser inventado), o que ela também é, mantendo o diálogo, o respeito e fazendo merecida reverência.

Em “Órbita” (Carolinaa Sanches), a canção mais experimental do disco, ela canta, em quarteto com Pedro José, Mariana Leon e Mariana Franco: “sentir seu coração/ faz-me entrar em outra constelação / e mesmo sem entrar em órbita/ eu já consigo tirar meus pés do chão/”. O ouvinte é tripulante da nave musical, viagem sem volta tanto a quem já conhecia a artista dos grupos que ela integra quanto àqueles a quem será apresentada por este lançamento.

Primeiro single lançado, em fevereiro passado, e primeira faixa a ganhar videoclipe, “Petricor” (Maria Thomé), literalmente o cheiro da chuva, é canção ensolarada – e não reside aí nenhuma contradição –, espécie de arco-íris do disco. O baião, de autoria da percussionista da Caburé Canela, reafirma a estreita ligação de Carolinaa Sanches com a cultura popular nordestina, algo percebido ao longo de todo “Curva de rio”.

O inspirado disco termina com “É” (Carolinaa Sanches), canção de despedida com os dois pés nos terreiros das religiões de matriz africana, infelizmente ainda alvos de tanta discriminação e violência. A faixa reflete sobre o individual e o coletivo, reivindicando o respeito aos seres humanos, mais que independentemente de suas diferenças, mas para além e também por causa delas. É faixa quase exclusivamente feminina, a que comparecem Thais Hamer (alfaia e voz), Maria Thomé (tambor de mão e voz), Edna Aguiar (voz), Guilherme Kirchheim (voz), Isabela Lorena (voz), Naná Souza (voz), Thunay Tartari (voz) e Mariana Franco (voz). “Junto ser único”, palavra de ordem.

Carolinaa Sanches não anda só; além de aqui e acolá seus colegas de bandas comparecerem, ao álbum plural se fazem presentes mais de 20 artistas, entre autores, intérpretes e instrumentistas. Artista de raro talento, em seu solo ela está muito bem acompanhada, como a subverter o dito popular: Gabriel Kruczeveski (flauta transversal, efeitos, violão e voz), João Bolognini (bateria), Lara Moratto (flauta transversal), Lucas Oliveira (teclado), Maria Thomé (tambor de mão, caxixi, zabumba, triângulo e voz), Mariana Franco (contrabaixos, violão e voz), Paulo Moraes (bateria) e Pedro José (clarinete, viola caipira e voz) formam sua banda base.

Essa soma de talentos e a entrega de cada um/a a cada nota, garantem uma diversidade de timbres que mantém o disco distante de qualquer sintoma de monotonia. “Curva de rio” foi gravado em Londrina, no Toqô Estúdio, por Gabriel Kruczeveski, que assina também sua mixagem e masterização. A direção musical é de Mariana Franco. A capa é assinada pela própria Carolinaa Sanches, sobre foto de Paula Viana.

Carolinaa Sanches resume o conceito por trás do título do disco: “A princípio pensava na curva de rio como um espaço onde as “coisas” param. No meio do processo fui entendendo que as coisas param por um tempo, pois o rio está sempre em movimento e as leva para outros lugares. Então as coisas passam pela curva. As “coisas”, nesse trabalho, dizem respeito mais às “pessoas” mesmo. Como é um trabalho que envolve muitos anos, envolve diferentes amores em que me inspirei para as músicas, e também, foi um álbum construído a muitas mãos. Tenho pensado que a curva sou eu. O espaço que permitiu que outras acessassem e conhecessem essa parte do rio. Aceitando a impermanência e também a permanência das relações. A curva de rio pode ser vista de cima e também de dentro, mergulhada nos amores profundos, que mesmo que findem, ficam”.

“Curva de rio” tem patrocínio do Promic (Programa Municipal de Incentivo à Cultura da Prefeitura de Londrina). Ouça sem moderação!

A cantora, compositora e artista visual Carolinaa Sanches. Foto: Paula Viana

Serviço: “Curva de rio”, álbum de Carolinaa Sanches. Disponível nas plataformas de streaming na próxima sexta-feira (8). Siga a cantora nas redes sociais e plataformas digitais: instagram, spotify, youtube, deezer e apple music. Faça a pré-save:

Palco Mundo e a alegria do reencontro com a boa música

O Gabriel Grossi Quarteto. Foto: Zema Ribeiro

O baixista Nema Antunes dedicou seu show a seus pares de instrumento Arthur Maia (1962-2018) e Mauro Sérgio, falecido ano passado, vítima de covid-19. Com ele, no palco, um sexteto formado no Maranhão, para a apresentação, incluindo dois integrantes do Quarteto Buriti – de que o contrabaixista Mauro Sérgio, ex-professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, fez parte: Ronald Nascimento (bateria) e Daniel Cavalcanti (trompete e flugelhorn), este também professor da Emem. Ao piano, Marcelo Carvalho, autor de um dos números instrumentais do roteiro, gravado por Nema em “Plúmbeo”, seu disco mais novo. O grupo se completava com Israel Dantas (guitarra), Ricardo Mendes (saxofone) e Renato Serra (teclado) e demonstrou, ao longo da apresentação, que a prática leva à perfeição, tal a qualidade da performance.

Era o show de abertura do Palco Mundo 2022, projeto que integra o circuito Lençóis Jazz e Blues Festival, normalmente realizado em paralelo ao evento, no segundo semestre, com apresentações em Barreirinhas e São Luís. Nenhuma das seis atrações do line up dos dois dias do evento é novidade na produção de Tutuca Viana: todos já se apresentaram em edições anteriores do LJBF. Mas valeu a pena o reencontro de artistas com a plateia, sentimento recíproco traduzido em palavras ouvidas tanto no palco como entre o público.

Os artistas celebravam esse reencontro, após dois anos de lives e esporádicas apresentações presenciais. Não sei se isso potencializou a ranzinzice do repórter, cada vez menos tolerante com aqueles que vão a teatros para ver o show através da tela do smartphone ou que aproveitam qualquer intervalo para ver ou ouvir, obviamente sem fones de ouvido, para azar da vizinhança, o último vídeo do tik tok ou a última mensagem de áudio enviada no grupo da família. Depois não me venham reclamar de Zé da Chave, que obviamente chegou na metade da primeira apresentação, instalou-se na frisa mais próxima à direita do palco e atacou com seu molho.

A apresentação seguinte era do gaitista brasiliense Gabriel Grossi, acompanhado por Eduardo Farias (piano e teclados), Michael Pipoquinha (baixo) e Sérgio Machado (bateria), outro super grupo.

O show foi pautado no repertório de seu disco mais recente, “Re disc cover”, um trocadilho esperto que joga com o fato de ser um disco de releituras de clássicos do pop rock das décadas de 1960 a 90 e sua redescoberta, seja por um público mais jovem, seja por amantes da música instrumental brasileira com pouca relação com bandas como Oasis, Nirvana, Queen e Jackson 5, entre outras – em maio do ano passado ele conversou com Gisa Franco e este repórter, no Balaio Cultural, da Rádio Timbira AM, sobre o álbum.

Grossi se entrega completamente no palco, entre despir o repertório das letras que estamos acostumados a cantar e vesti-lo com sua gaita, quase à beira do esgotamento físico: seu rosto se avermelha, os joelhos dobram, e entre um solo e outro dos músicos que lhe acompanham, muitos goles d’água, para dar conta do recado. De “Isn’t she lovely”, de Stevie Wonder, passando por “Smells like teen spirit”, do Nirvana, “Wonderwall”, do Oasis, “Ben”, do Jackson 5, “Message in a bottle”, do Police, e “Another one bites the dust”, do Queen. Ao reafirmar o prazer de estar em São Luís e falar da força da cultura do Maranhão, lembrou-se que a ilha do amor é também a Jamaica brasileira, antes de atacar de “Redemption song”, de Bob Marley.

Foi o grande show da noite, numa noite de três grandes shows. A quinta-feira seria encerrada com a apresentação do majestoso Filó Machado, setentão paulista mais conhecido e respeitado fora do Brasil, como tantos de nossos gênios. Cantor, compositor, arranjador e multi-instrumentista, apresentou um show autoral, em que prestou homenagens a “Vadeco” (o título da música remete a seu professor de violão), e lembrou a importância do aprendizado oferecido pela experiência de tocar na noite, em bares e boates.

“Se eu não tivesse tido essa experiência, agora eu estaria nervoso, me perguntando o que fazer”, disse, senhor da situação e arrancando risos e aplausos da plateia. Quando um roadie assomou ao palco para corrigir uma sobra de frequência no violão de Felipe Machado (seu neto, que cantou dois bonitos sambas autorais), ele tornou a divertir o público: “eu sou curioso. Eu fiquei vendo aqui e até esqueci de vocês”, disse, para mais gargalhadas. E continuou, num jogo de melismas e onomatopeias repetido pelo público, elogiado pelo artista. Nessa brincadeira, cantou sem o microfone, sempre acompanhado pelo público, e assim, desceu do palco e deu uma volta ao redor da plateia até retornar para junto do grupo que o acompanhava, que se completava com o mesmo baterista de Gabriel Grossi, Sérgio Machado (seu filho), Fábio Leandro (piano e teclados), Carlinhos Noronha (baixo) e Jota P (saxofones).

A programação do Palco Mundo continua hoje (25), a partir das 19h, com apresentações de Gabriela Marques, Bebê Kramer e Arismar do Espírito Santo. A entrada é gratuita e as pulseiras de acesso ao teatro podem ser retiradas na bilheteria, desde as 14h de hoje, sugerindo-se a troca por um quilo de alimento não perecível. A arrecadação será doada à ONG ludovicense Pouso Obras Sociais.

Riqueza e diversidade marcam “Karawara”, novo disco de Rommel

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Álbum será disponibilizado dia 5 de novembro nas plataformas de streaming e sai pela Biscoito Fino

O cantor e compositor Rommel. Foto: Estúdio 78. Divulgação

Ao longo dos últimos meses o cantor e compositor Rommel antecipou aperitivos de seu novo disco, “Karawara”, que será disponibilizado nas plataformas de streaming no próximo dia 5 de novembro (sexta-feira). O álbum sai pela gravadora Biscoito Fino.

Maranhense de São Luís, radicado no Canadá, Rommel não perdeu um pingo de brasilidade. Seu novo disco, cantado em português, espanhol, francês e inglês, é também marcado pela diversidade rítmica que é sinônimo de música popular brasileira.

A expressão em tupi que dá título ao disco refere-se aos espíritos da floresta e é também uma homenagem aos povos indígenas do mundo, e sua história de luta por direitos humanos básicos e reconhecimento. Nos singles e videoclipes que o artista disponibilizou até aqui, além da pluralidade melódica, o trabalho é marcado também pelo passeio por vários assuntos urgentes: “Karawara” é, com o perdão do clichê, um disco para dançar e pensar.

O sagrado dos terreiros das religiões de matriz africana, o combate ao racismo, as belezas naturais de São Luís e Montreal, a degradação ambiental (que tem arrancado povos e espíritos das florestas de seu habitat natural), a celebração da ancestralidade, através da reverência a grandes mestres comparecem ao temário de “Karawara”.

Um time de músicos de primeira grandeza, entre brasileiros e canadenses acompanha Rommel (voz, violão e guitarra) ao longo das 13 faixas autorais, que ele assina sozinho ou em parceria. Destacamos a banda base: André Galamba (baixo, guitarra e violão), Aquiles Melo (bateria), Carlos Bala (bateria), Dark Brandão (percussão), David Ryshpan (teclados), Debson Silva (trombone), Erivan Duarte (baixo), Márcio Oliveira (trompete), Parrô Mello (saxofone e arranjos de metais), Paulo Bottas (teclados) e Vovô Saramanda (percussão, arranjos e efeitos). A produção musical é de Rommel e Rafael Cunha França.

“Karawara” terá show de lançamento online dia 6 de novembro (sexta-feira), com transmissão pelo canal Rommel Music no youtube. A apresentação acontece às 21h (horário de Brasília).

Videoclipe – A faixa-título do novo disco de Rommel também vai ganhar videoclipe, que será lançado em novembro, após o disco. O clipe de “Karawara” foi rodado no Xingu, bebendo diretamente na fonte ancestral de que se alimenta o disco e a obra de Rommel como um todo. O videoclipe é dirigido por Takumã Kiukuro, cineasta indígena, da aldeia que lhe dá o sobrenome, atualmente residindo na aldeia Ipatsé, no Parque Nacional do Xingu, e Caio Lazaneo.

A música poderosa de Rommel aliada a imagens orgânicas – indígenas captados por seus irmãos – garante ao espectador um mergulho profundo na ancestralidade tão cara ao artista e/m sua coerente trajetória. Kiukuro teve filmes premiados nos festivais de Gramado e Brasília, dois dos mais importantes do país, e no Presence Autochtone de Terres em Vues, em Montreal. Lazaneo tem mestrado e doutorado em Ciências da Comunicação (ECA/USP) e teve seu curta-metragem “Ressuscita-me” premiado na categoria Super Filme do Festival Internacional de Cinema Super8 de Curitiba, em 2017.

“Karawara”. Capa. Reprodução

Serviço

“Karawara”, novo disco de Rommel. Nas plataformas de streaming no dia 5 de novembro (sexta-feira).

Show virtual de lançamento dia 6, no canal Rommel Music no youtube.

O videoclipe da faixa-título será disponibilizado ainda em novembro.

Gabriella Lima lança quarto single/vídeo de “Bálsamo”

A cantora e compositora Gabriella Lima em locação do videoclipe. Foto: Leonor Patrocínio

Há seis anos Gabriella Lima chegou a Paris, com a pretensão de permanecer por três meses em imersão artística. Foi ficando, após conhecer o Cabaret Aux Trois Mailletz, com quem assinou um contrato de artista residente – por lá já cantaram, entre outras, Elza Soares e Nina Simone.

A cantora e compositora paulistana acaba de lançar o single e videoclipe Máquina de ilusão (Gabriella Lima), quarto de Bálsamo, disco que tem previsão de lançamento para o início do ano que vem, com produção de Alê Siqueira.

O videoclipe, dirigido por Chico Gomes, com coreografia de Fábio Aragão, foi gravado em Lisboa. Na faixa autoral ela é acompanhada por Thiago Barromeo (guitarra e contrabaixo), André Lima (teclados) e Zé Luís Nascimento (percussão).

Ela comenta o trabalho, no material de divulgação distribuído à imprensa: “Queria abrir uma discussão sobre as desilusões amorosas, sobre o fim das relações. Mas não com uma abordagem triste. Afinal, acabar não significa que deu errado. Existe uma confusão em associar o sucesso de uma relação à durabilidade. Não importa o tempo que durou, a relação foi uma parte da nossa vida que constitui quem somos hoje. Essa aceitação evita a insistência em uma relação que não funciona mais. A ilusão de que se tentar mais um pouco, poderia funcionar. Pura ilusão”, arremata.

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Veja o videoclipe de Máquina de ilusão:

Sempre se pode sonhar. Ou: das coisas que fazem 2020 e o Brasil ainda valerem a pena

Sempre se pode sonhar. Capa. Reprodução

Chico Buarque e Paulinho da Viola tornaram cada vez mais espaçados no tempo seus lançamentos discográficos ao longo das últimas duas ou três décadas. O primeiro se divide, com igual êxito, entre os ofícios de cantor e compositor e escritor e tem lançado discos e livros muito bons – acabei recentemente de ler Essa gente (Companhia das Letras, 2019).

Paulinho da Viola, como nos mostra Meu tempo é hoje (2003), o excelente documentário de Izabel Jaguaribe – cuja trilha sonora é um ótimo disco lançado no mesmo ano –, se divide entre hobbies como a marcenaria, a sinuca, sofrer pelo Vasco da Gama, seu time do coração, e shows – com a agenda completamente afetada pela pandemia de covid-19 neste 2020.

Por falar em show, corta para uma lembrança: em 2014 vi Paulinho da Viola ao vivo, em um show prejudicado pela acústica do lugar, o finado Patrimônio Show, ali nas imediações do terminal de integração da Praia Grande. Um dia antes, ou no mesmo dia, cito de memória, compareci à coletiva de imprensa que o príncipe deu em um hotel da cidade. Indaguei-lhe sobre A obra para violão de Paulinho da Viola, disco instrumental gravado pelo maranhense João Pedro Borges (violão), nas companhias luxuosas do próprio Paulinho (violão e cavaquinho) e de César Faria (violão), pai de Paulinho, da formação original do Época de Ouro. Lançado em 1985, o vinil foi distribuído como brinde de fim de ano a clientes de uma mineradora e nunca foi reeditado. Fecha parêntese.

Mas abre outro: apesar de gozar de merecido reconhecimento, fruto da qualidade de sua obra, Paulinho da Viola é um dos mais injustiçados artistas da música popular brasileira. Quase nunca entra em listas de mais ou maiores isso ou aquilo quando se trata da sigla MPB, quase sempre rotulado como mero sambista – como se isto fosse pouco. Fecha parênteses.

Nunca havia escrito sobre um disco sem ouvi-lo e o faço para anunciar: dia 30 de outubro chega às plataformas um novo álbum de Paulinho da Viola. Sucessor do Acústico MTV (2007), Sempre se pode sonhar (2020) é um registro ao vivo, com 22 faixas gravadas no Teatro Fecap, entre 13 de setembro e 8 de outubro de 2006.

A primeira reação, ao ver a capa – mais uma de Elifas Andreato para a discografia do mestre – publicada no instagram de Paulinho da Viola foi: 2020 e o Brasil ainda valem a pena. Depois a ficha foi caindo lentamente e, apesar do Brasil e de 2020, que puta título, hein, seu Paulo César Batista de Faria?

Corta para um clichê: Paulinho da Viola completará 78 anos no próximo 12 de novembro, mas quem ganha o presente, antecipado, é o fã-clube. Fecha clichê.

Como bem cantou Caetano Veloso: “viva o Paulinho da Viola!”.

Dissecando Joãozinho

Ricarte Almeida Santos, Joãozinho Ribeiro e o blogueiro, em alguma edição do Clube do Choro Recebe. Autor desconhecido.

Daqui a pouco, às 16h, participo do “Café com Direitos Humanos – Lives em tempos de pandemia”, atividade semanal que a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) inventou para não deixar cair a peteca dos debates acerca do tema, diante da impossibilidade dos encontros presenciais, em razão do isolamento imposto pela crise sanitária causada pela covid-19.

O tema de hoje é “Cultura e resistência: obra e arte de Joãozinho Ribeiro” e além daquele cujo engenho criativo será dissecado na cerca de hora e meia de programação, estará comigo o sociólogo e radialista Ricarte Almeida Santos; ou seja, estou em casa, em vários aspectos: numa live realizada por uma entidade que assessorei e presidi, ao lado de dois amigos de copo e de cruz.

Vida, obra e militância em Joãozinho Ribeiro são praticamente uma coisa só: poeta, compositor, gestor cultural e funcionário público aposentado, seu livro (Paisagem feita de tempo, de 2006, há tempos merecendo uma reedição), seu disco (Milhões de uns – vol. 1, de 2013, há tempos merecendo um segundo volume) e seus poemas e canções (registradas por inúmeras vozes ao longo destes mais de 40 anos de carreira) não raro trazem preocupações e questionamentos políticos e sociais, embora, obviamente, não se limite a estes temas.

A foto que abre-ilustra este post, cuja autoria me foge à memória, é de alguma edição do saudoso Clube do Choro Recebe, que Ricarte Almeida Santos produziu entre 2007 e 2010 no Restaurante Chico Canhoto, de saudosa memória, projeto que assessorei, continuando trajetória iniciada justamente com Joãozinho Ribeiro: meu primeiro trabalho remunerado, como assessor de comunicação, foi justamente seu projeto Samba da Minha Terra (2002-3), que levou o samba e o choro – talvez os “departamentos” mais inspirados de sua música – a diversas comunidades da ilha, com vários convidados especiais a cada edição. Merecidamente vencedor de diversas categorias do também saudoso Prêmio Universidade FM.

Por falar em convidados especiais, arremato com um deles: certo dia, ao fim do expediente, encontrei-o na banca de revistas de Dácio, no estacionamento da Praia Grande. Paisagem feita de tempo, então recém-lançado e ainda encontrável nas melhores casas do ramo, figurava nas prateleiras. O compositor Antonio Vieira, referendando a qualidade da obra poética de Joãozinho, abriu o livro numa página, recitou uma quadra – “Debaixo da ponte há um mundo/ feito de gente esquecida/ crianças sonhando infâncias/ infâncias queixando a vida” – e arrematou: “é poeta!”.

A transmissão da live acontece pela página da SMDH no facebook. Até lá!

Serviço:

Divulgação

Uma lufada de alegria, beleza e inteligência

[Com as bênçãos de Celso Borges e Otávio Rodrigues, baita honra e enorme responsabilidade ter recebido o convite para escrever o release oficial deste disco lindo, que chega às plataformas no próximo dia 30]

Maestro Tiquinho em sessão de gravação de "Trombonesia". Foto: Paola Vianna
Maestro Tiquinho em sessão de gravação de “Trombonesia”. Foto: Paola Vianna

O apelido no diminutivo usado como nome artístico não traduz, de cara, a grandeza de Marco Aurélio de Santis. Maestro Tiquinho, como acabou ficando conhecido no meio musical, é um desses arquitetos da música popular brasileira cujo nome quase nunca figura nas placas de inauguração das obras, mas está lá para quem quiser ver e ouvir. Fossem os meios de comunicação mais dispostos ao aprofundamento e os ouvintes em geral mais curiosos, o trombonista seria merecidamente mais conhecido.

De Chico Science a Gal Costa, passando por Chico César e Zeca Baleiro, além de Elza Soares, Marcelo Jeneci, Jorge Benjor, Seu Jorge, Gilberto Gil, João Donato, Tom Zé, Erasmo Carlos, Nando Reis, Skank, Tião Carvalho e Papete, entre outros, além de bandas que integra/ou – Professor Antena, Clube do Balanço, Karnak e Funk Como Le Gusta –, pelo leque é possível perceber a abrangência de seu trombone elegante.

"Trombonesia". Capa. Reprodução. Arte de Gian La Barbera
“Trombonesia”. Capa. Reprodução. Arte de Gian La Barbera

Tiquinho acaba de lançar o aguardado e merecido disco solo de estreia, “Trombonesia”, título que evoca o encontro de seu conteúdo: o trombone do mago com a poesia, pelas vozes dos dub poets André Abujamra, Celso Borges, Chico César, Fernanda Takai e Zeca Baleiro, convidados mais que especiais que contribuem para o brilho e a brisa dessa tertúlia poético-musical. O álbum foi realizado através do Edital de Apoio à Criação Artística – Linguagem Reggae – da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

““Trombonesia” não é apenas o nome do álbum, mas uma palavra que nasce para unir sons, artes e estilos, sem usar de estereótipos ou padrões definidos”, afirma ele, ao mesmo tempo ourives e alquimista. Produzido por BiD, gravado ao vivo no estúdio Space Blues por Alexandre Fontanetti, e mixado por Victor Rice, todos magos em seus ofícios, o disco é arejado e ensolarado, com ecos de nomes como Don Drummond, Joseph Cameron, Nambo Robinson, Rico Rodriguez e Vin Gordon, para citar alguns de seus colegas de instrumento, em cujas fontes certamente Tiquinho bebeu para embriagar-nos.

Se aqueles foram fundamentais para o que acabamos por chamar de “clima” ou “mística natural” do reggae jamaicano, Tiquinho navega com desenvoltura por estes m/ares, aproximando Jamaica e Brasil – o sopro do paulista de Bauru nos leva a voar e pousar precisamente em São Luís do Maranhão, não à toa alcunhada Jamaica brasileira.

Mas tudo isto é pouco para tentar entender, explicar, rotular ou traduzir sua sonoridade (o que, na verdade, é tarefa impossível): ao mesmo tempo você está em um clube de reggae, em uma festa de sound system, em um baile black. O tempo é tema recorrente no repertório e os tons afogueados do projeto gráfico (de Gian Paolo La Barbera) ajudam a entender imediatamente que a coisa é quente.

Tiquinho assina todas as composições e arranjos do disco, em que é acompanhado por Edu SattaJah (contrabaixo elétrico e acústico), Rogério Rochlitz (piano acústico, órgão Hammond e piano elétrico), Che Alexandre Caparroz (bateria) e Simone Sou (percussão em “Oriente-se”). Em tempos de “duelo de eu e ego” (como salienta Chico César no canto falado de “Oriente-se”) “Trombonesia” é uma lufada de alegria, beleza e inteligência, estes ingredientes de brasilidade que alguns tristes andam querendo caçar nestes tempos de trevas – que Maestro Tiquinho e suas boas companhias teimam em iluminar. Para sorte e felicidade nossa! Jah bless!

Serviço: lançamento de “Trombonesia“, disco solo de estreia de Maestro Tiquinho. Dia 30 em todas as plataformas digitais.

This is true

Retrato: Zema Ribeiro
Retrato: Zema Ribeiro

Há alguns dias saímos em missões por shoppings e Rua Grande para fazer uns “mandados” da mãe dela, cumprindo rigorosamente o isolamento social imposto pela pandemia de covid-19.

Entramos em diversas lojas e, munidos das especificações, procurávamos roupas para a sogra, com a vida à distância, como requer o momento, facilitada pela comunicação via aplicativos de bate-papo.

Numa delas saquei o celular e fotografei o vestido colocado em frente ao corpo, por cima da roupa mesmo, espécie de meio-manequim vivo. Encaminhei a foto à sogra e comentei com a filha: tua cara tá ótima! Rimos.

Só depois me toquei que no vestido está escrito “isto é verdade” em inglês, mais uma dessas coincidências (Deus ou acaso, chamem/os como queiram/os) com que a vida tem nos presenteado desde que a vi pela primeira vez.

Minha modelo predileta surgiu assim para mim naquela tarde quente de domingo cuja história já devo ter contado muitas vezes para amigos íntimos e outras tantas aos poucos mas fiéis leitores. Aliviava o calor com uma cerveja gelada quando ela passou na calçada defronte o Botequim da Tralha, os paralelepípedos da Godofredo Viana transformados em passarela. Não era concurso de miss por que em meu coração ela é hors concours.

O faro detetivesco que de algum modo me deu o jornalismo se responsabilizou pelo resto: perguntar quem era, tão linda, e correr atrás e contar com um pouco de sorte. A vida é gangorra ou montanha russa, com seus altos e baixos – tê-la ao lado torna os obstáculos mais fáceis de transpor, apesar do sedentarismo mútuo, entre horas vendo séries, arrumando (e vendouvindo) livros e discos, cuidando de plantas, botando água para garantir a visita diária e colorida dos passarinhos com seu barulhinho bom, não necessariamente nessa ordem, nesse quase um ano.

Ambos tomamos café sem açúcar e o fim da xícara guarda a porção mais amarga, dada a proximidade com a borra. Esse texto, intencionalmente mais doce que guaraná Jesus, poderia aumentar as taxas de glicose dos leitores, ainda mais os ressacados numa manhã de sábado – como misteriosamente não está o autor.

Na falta de fecho adequado, aproveito para mostrar um poema que escrevi para ela há um tempo, que o parceiro Gildomar Marinho me deu a honra de musicar – está em seu novo disco, Estradar, a (quase) inédita Amor ateu (é a terceira música do vídeo, começa aos 6’17”; tentei programar, mas o youtube está me pregando alguma peça; peço que pulem aí manualmente, mas quem quiser ouvir as três, está valendo também).

Os cinco melhores álbuns imaginários brasileiros de todos os tempos

É ideia que me persegue há algum tempo, e só agora a falta do que fazer na quarentena, por força da pandemia de coronavírus (covid-19), me permite por no papel – ou melhor, aqui nos bits e bytes da internet.

Falta do que fazer é modo de dizer: tenho conseguido sobreviver à reclusão forçada graças às minhas coleções de discos (reais) e livros (idem), além de serviços de streaming, da internet em geral e, obviamente, da companhia dela.

Mas há tempos penso nestes discos que muito provavelmente nunca serão gravados e consequentemente lançados. Se um dia forem, certamente farão a alegria de muita gente.

Uma vez, numa edição da Aldeia Sesc Guajajara de Artes, dedicaram uma noite ao choro. Consultado sobre a programação, sugeri dois espetáculos, que acabaram acatados pela curadoria e aconteceram: a Praça Nauro Machado, na Praia Grande, foi palco de uma (quase) reedição do Recital de música brasileira, com Célia Maria (voz) e João Pedro Borges (violão); e do encontro, no mesmo palco ao mesmo tempo, dos grupos Instrumental Pixinguinha e Regional Tira-Teima. Lembro-me da história para dizer que certas ideias, às vezes, podem se concretizar, por mais malucas que possam parecer.

Capa imaginária de disco imaginário. Desenho de Zema Ribeiro
Capa imaginária de disco imaginário. Desenho de Zema Ribeiro

Arari Irará, de Tom Zé e Zeca Baleiro – O maranhense nasceu em São Luís mas passou a infância em Arari, anagrama de Irará, cidade natal de Tom Zé. A primeira é famosa por sua melancia e O abacaxi de Irará mereceu até música do baiano (faixa de Se o caso é chorar, de 1972). A capa do disco evoca a banana de Andy Wahrol na capa do clássico The Velvet Underground & Nico (1967).

Metonímia, de Odair Cabeça de Poeta e Paulinho Boca de Cantor – A figura de linguagem que toma a parte pelo todo, como ensinam os livros de gramática, intitula o álbum dividido pelos baianos, menos conhecidos do que deveriam. Cabeça de Poeta é parceiro de Tom Zé e com o Grupo Capote uniu forró e rock (forrock) antes de Alceu Valença; Boca de Cantor integrou (e integra, nas eventuais voltas que o grupo dá) os Novos Baianos.

Lances de aço (ou Bandeira de agora) – Em 1978, Papete e Chico Maranhão fizeram história ao lançar, pela gravadora Discos Marcus Pereira, discos considerados divisores de água na música popular produzida no Maranhão. O primeiro, com Bandeira de aço, em que cantava composições de Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe; o segundo, com Lances de agora, de repertório completamente autoral. Lances de aço (ou Bandeira de agora) reúne Chico Maranhão e os quatro “compositores do Maranhão” (como grafado na capa de Bandeira de aço) em releituras das 20 faixas que somam os dois álbuns.

Os Novos Novos Baianos, de Pedro Baby, Betão Aguiar, Davi Moraes, Bem Gil e Moreno Veloso – Pedro Baby (filho de Baby do Brasil e Pepeu Gomes), Betão Aguiar (filho de Paulinho Boca de Cantor), Davi Moraes (Moraes Moreira), Bem Gil (Gilberto Gil) e Moreno Veloso (Caetano Veloso)  se unem em um disco coletivo, relendo criações de baianos como os pais, além de Tom Zé, Dorival Caymmi, Riachão, Batatinha, Roque Ferreira e João Gilberto.

Roberto Carlos canta Sérgio Sampaio, de Roberto Carlos – Dois dos mais ilustres filhos de Cachoeiro do Itapemirim (os outros são Rubem Braga e Luís Capucho), no Espírito Santo, unidos em um mesmo álbum. 26 anos após o falecimento do autor de Eu quero é botar meu bloco na rua, finalmente o Rei realiza o sonho do fã: é conhecida por todos a vontade de Sampaio ser gravado por Roberto, para quem compôs Meu pobre blues, que abre o tributo.

Uma noite libertária

Foto: Isaque Mota
Foto: Isaque Mota

 

O palco do andar de cima do Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande) ficou pequeno para Vinaa e sua grandeza – literalmente: trajando uma jaqueta jeans sem mangas e uma saia branca com flores vazadas, ele chegou a bater a cabeça no forro ao dançar. Nada grave, nem que comprometesse o descontraído espetáculo que apresentou ontem (15). Cantou, conversou e brincou com a plateia, passeando pelo repertório de seus dois discos – Bordel de amianto e a glória dos loucos por sex appeal (2017) e o recente Elementos e hortelã na terra dos eucaliptos (2019) –, além de releituras.

Vinaa estava literalmente em casa. Talvez por reprisar um formato experimentado há 10 anos, na garagem da casa dos pais, quando talvez sequer pensasse em levar a sério a carreira musical. O que é uma ilação de minha parte: o próprio artista categorizou a plateia entre os que o acompanham desde sempre, os que começaram agora e intermediários entre coisa e outra. Este repórter só começou pelos discos.

“A música popular é como uma estrada. Alguém abre caminhos, pavimenta, depois vêm outros atrás. Eu tenho pena do Vinaa de me ter como referência, podia ter coisa melhor, mas eu já o vejo, daqui a alguns anos, influenciando outras pessoas, não só aqui no Maranhão. É talentoso, cantor e compositor, e sua trajetória vai acontecer, já está acontecendo”, referendou, em determinada altura do show, Zeca Baleiro, convidado da noite, entre a sinceridade, a (auto)ironia e o bom humor característicos.

“A liberdade sexual é uma pauta importante. Eu tenho certeza que esse governo que está aí é horroroso também por isso: é um monte de gente reprimida, mal resolvida”, continuou, para a plateia retrucar com o coro de “ei, Bolsonaro, vai tomar no cu!”.

As três primeiras músicas que cantou tinham esta pauta como tema: Saga de um eterno seguidor, que narra as venturas e desventuras de relacionamentos online, Três lençóis, “para os que gostam de um ménage a trois”, e Nunca mais transe comigo, de título mais que explícito.

Entre as reverências que prestou ao longo da noite, começou pelo grupo As Bahias e a Cozinha Mineira, de quem interpretou com muita intimidade Uma canção pra você (Jaqueta amarela). “Quem nos media/ dia-a-dia o nosso sexo amor/ o anexo/ o nexo/ o “x” da nossa dor/ O amor eu aposto no jogo entre cartas, cerveja, fogo e queijo coalho/ no baralho jogo os ais/ te embaralho, sou dama de paus/ (caralho!)”, diz trecho da letra de Assucena Assucena, uma das vocalistas (transexuais) do grupo.

Depois seguiram-se covers de Alceu Valença (La belle de jour emendada com Girassol), Cazuza (Codinome Beija-flor, dele com Ezequiel Neves e Reinaldo Arias) e Tim Maia (Primavera (Vai chuva), de Cassiano e Silvio Rochael). “Uma vez, lá no começo, me chamaram para fazer um tributo a Tim Maia. Eu me indaguei e indaguei ao contratante: mas eu não tenho nada de Tim Maia. “Faça do seu jeito!”, ele me disse. Fomos. A casa cabia umas 500 pessoas e tinha 10 pessoas na plateia: nossas mães, as namoradas dos músicos. Mas eu tive a sorte de uma pessoa estar lá: o Cury. Ao final do show ele foi me cumprimentar no camarim e eu naquela correria, no momento não caiu a ficha, eu não reconheci. Mas depois ele mandou um “vamos trabalhar juntos!””, contou sobre o primeiro encontro com o autor de hits como Aparências (sucesso de Márcio Greyck) e O que me importa? (gravada por Tim Maia, Renato Braz e Marisa Monte), que acabou produzindo seu disco de estreia e ontem estava na plateia novamente.

Por falar em hits, Semideus e Escuderia armada, faixas do segundo álbum, e Moço bonito, foram cantadas a plenos pulmões pela plateia. Quando Zeca Baleiro subiu ao palco, após uma breve pausa enquanto preparavam-lhe o terreno, foi acompanhado pelo percussionista Luiz Cláudio, que se somou a Filipe Façanha (violão) e André Ótony (piano). Cantaram juntos Mamãe oxum (em meio à qual subiu o convidado), Bandeira – ambas, faixas do disco de estreia de Baleiro, Por onde andará Stephen Fry? (1997) –, de que Vinaa errou a letra, e Cicatriz (No regresa), faixa em que o convidado da noite registra sua participação especial no novo disco de Vinaa.

Volta pra casa é outra que foi cantada a plenos pulmões pelo bom público que compareceu ao Buriteco. Na sequência, Vinaa ainda cantou Tempos modernos (Lulu Santos), dando boa noite e despedindo-se. Aos pedidos de mais um, continuou o show com Você me vira a cabeça (Me tira do sério) (Chico Roque e Paulo Sérgio Valle), sucesso de Alcione – “já gravei com Zeca Baleiro, a próxima é Alcione!”, brincou, a sério, entusiasmado.

Ainda deu tempo de apelar para a memória afetiva mesmo de quem diz não gostar do pagode romântico dos anos 1990 com Essa tal liberdade, sucesso do Só Pra Contrariar, não por acaso (ou por acaso?) do mesmo par de compositores e também (re)gravada por Alcione. Para cantar Cidade das meninas, single que gravou com a adesão do Trio 123, formado por Camila Boueri, Tássia Campos e Milla Camões, chamou a terceira, que estava na plateia. A música é um recado direto e contundente, abarcando temas como a violência contra a mulher e feminicídio, de modo geral, e o assassinato da vereadora Marielle Franco, cujo crime segue impune após quase dois anos.

A voz de Vinaa – que por vezes ao longo do show me lembrou Johnny Hooker – segue sendo um instrumento de denúncia, ao mesmo tempo em que pode nos fazer dançar – no bom sentido. Pensar e dançar: um perigo real e uma proeza em 2020 no Brasil.

Em casa

Evinha canta Guilherme Arantes. Capa. Reprodução
Evinha canta Guilherme Arantes. Capa. Reprodução

“A voz mais mágica e inconfundível, sempre presente em criações delicadamente imortais… por uma obra do destino vem aportar em minhas águas… que privilégio para um compositor”, derrete-se Guilherme Arantes em texto no verso da capa de Evinha canta Guilherme Arantes [Kuarup, 2019], disco gravado pela ex-Trio Esperança com o piano do marido Gérard Gambus.

Radicada em Paris, há 20 anos Evinha recebeu de presente de Arantes a inédita Sou o que ele quer. “Nunca tive a oportunidade de gravá-la”, revela, noutro texto. “Decidi gravar não somente essa música, como homenagear esse grande compositor, interpretando onze releituras de suas inúmeras e belíssimas pérolas musicais”, continua.

Com produção executiva de Thiago Marques Luiz, o álbum de voz e piano é dedicado aos netos Alicia e Noé – o encarte traz um desenho deles e a embalagem uma foto – e nele Evinha não foge de temas que pareciam já ter gravações definitivas, casos, entre outras, de Êxtase – que abre o disco – e a faixa seguinte, Brincar de viver (única faixa assinada por Arantes em parceria, com Jon Lucien), gravada por ninguém menos que Maria Bethânia.

Ninguém que tenha ouvido rádio pelo menos um dia nos últimos 40 anos desconhece Guilherme Arantes. Evinha recria clássicos como Um dia, um adeus, Deixa chover, Pedacinhos (Bye bye so long) e Amanhã. Mesmo músicas supostamente menos conhecidas, como A cidade e a neblina e Cuide-se bem, que fecha o disco, remetem a memórias que, por vezes, sequer sabemos tê-las.

Em plena forma vocal, Evinha está literalmente em casa ao passear em disco pelo repertório de Guilherme Arantes. Tanto quanto nós, ao ouvirmos o delicado resultado.

*

Ouça Evinha canta Guilherme Arantes:

Uma Céu mais selvagem

O Festival BR-135 acontece entre os próximos dias 28 e 30 de novembro, nas Praças Maria Aragão e Gonçalves Dias, no Centro de São Luís. O evento é realizado desde 2012, com produção do duo Criolina – Alê Muniz e Luciana Simões –, que esteve ontem em São Paulo para a premiação do edital Natura Musical, que selecionou o Conecta Música (braço formativo do festival) como uma das iniciativas contempladas para o ano de 2020.

Mês passado, o festival, em sua versão instrumental, chegou a Imperatriz, com atrações como Bixiga 70, Guitarrada das Manas, Camarones Orquestra Guitarrística e Manoel Cordeiro, entre outros; em 2017 o BR-135 teve pela primeira vez uma versão instrumental e este ano foi a primeira vez que o festival saiu de São Luís.

Um dos destaques entre as atrações da edição deste ano é a cantora Céu, cuja última apresentação em São Luís aconteceu justamente em 2014, no Teatro Arthur Azevedo, na programação do Festival BR-135.

Apká!. Capa. Reprodução
Apká!. Capa. Reprodução

A paulista lançou recentemente seu mais novo disco, Apká! [Urban Jungle/ Slap, 2019] base do repertório do show que apresenta na ilha, dia 30/11, às 23h, na Praça Maria Aragão. No mesmo dia, às 14h30, ela participa da programação do Conecta Música, em bate-papo mediado pela jornalista Andréa Oliveira, sobre “Mulher, criação musical e maternidade”, na Sala Japiaçu (Grand São Luís Hotel, Praça Pedro II, Centro). Toda a programação é gratuita.

Por e-mail, Céu conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Retrato: Fábio Audi/ Divulgação
Retrato: Fábio Audi/ Divulgação

Homem de vícios antigos – Qual a expectativa em voltar ao BR-135 em São Luís? Quais as suas lembranças do show anterior e da cidade?
Céu – Muita alegria em voltar pra São Luís, em reviver o festival, em poder dividir com essa terra linda meu som novo. É um lugar de muitas belezas, muita história, muita musicalidade, e que infelizmente eu vou menos do que gostaria.

Apká é uma expressão de surpresa usada por seu filho, mas bem poderia ser um termo indígena. Seu disco foi apontado como político, ao lado dos lançamentos de Chico César [O amor é um ato revolucionário, 2019] e Siba [Coruja muda, 2019]. Parece impossível não ser político no Brasil de 2019, não é? Como você tem acompanhado esse cenário, de avanço da extrema direita e sucessivos golpes, não apenas no Brasil?
E parece que é mesmo, descobri depois de já ter decidido que seria esse o título do meu álbum. Apká foi também apontada como uma palavra tupi, algo como “cadeira sagrada”, mas essa informação não me veio de forma muito segura, não tenho como certificar… Mas achei muito bonito. De qualquer maneira, foi um ano muito intenso, na verdade desde um tempo já as coisas estão caminhando para esse caos. Mas acredito que para acontecer uma revolução profunda, pilares muito estruturais precisam ser rompidos. E portanto o estrondo será enorme. Assistiremos e seremos parte mesmo de uma guerra anunciada, fruto de anos de descaso, corrupção, poder, descuido com tudo, com nós mesmos, com o meio ambiente, enfim. É grave. Mas mesmo assim sou uma otimista, acredito numa geração mais consciente.

O show no festival será baseado no repertório de Apká! ou um passeio por sucessos? O que o público ludovicense pode esperar?
Será um show bem quente, passeando bastante pelo disco novo mas sem deixar de lado canções dos outros também… Devo cantar um reggaezinho a mais… Afinal, né?

Seu disco novo mantém a parceria com Herve Salters [tecladista, compositor, cantor e produtor francês do General Elektriks] e Pupilo [ex-Nação Zumbi, baterista, marido de Céu]. Quais as principais aproximações e distanciamentos você apontaria entre Apká! e Tropix, sendo que aquele não é uma continuação deste?
Aproximação pela equipe mesmo, maravilhosos alquimistas, produtores sagazes e capazes de entender e gerenciar as minhas loucurinhas musicais. Isso não é fácil de achar, essa química… Mas penso que Apká! é um disco menos cerimonioso do que o Tropix, acho que aqui eles já se conheciam bem e sabiam pra quem estavam tocando a bola, sabe? No Tropix eles estavam ainda com mais cerimônia, tem algo mais hi-fi, mais definido, que amo também… Acho o Apká! mais selvagem. E traz referencias de soul e punk ao mesmo tempo.

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Veja o clipe de Coreto:

Ouça Apká!:

Gildomar Marinho apresenta inéditas em show em São Luís

Músico grava novo disco na ilha e se apresenta no Buriteco Café, dia 1º

O cantor e compositor Gildomar Marinho. Foto: Rômulo Santos
O cantor e compositor Gildomar Marinho. Foto: Rômulo Santos

Maranhense radicado em Fortaleza/CE, o cantor, compositor e violonista Gildomar Marinho foi recentemente agraciado com o Prêmio Grão de Música Popular Brasileira, em cerimônia realizada na Sala Olido, em São Paulo. Ele está na coletânea deste ano do prêmio, a que comparecem também nomes como Alessandra Leão, Josyara Lélis, Marlui Miranda, Mateus Sartori e Rolando Boldrin, entre outros.

Gildomar teve escolhida sua Alegoria de saudade, samba-choro de seu disco de estreia, Olho de boi (2009), gravada com a adesão da mineira Ceumar, que este ano completa 20 anos de carreira e acaba de lançar disco novo, Espiral (Circus, 2019).

Disco novo – Gildomar está em São Luís, onde grava novo disco, Estradar. Trata-se do sexto disco de sua carreira, embora o fã clube só tenha ouvido três: o citado Olho de boi, Pedra de cantaria (2010) e Tocantes (2013). É que, embora gravados há alguns anos, Porta sentidos e Mar do Gil permaneciam inéditos e somente agora serão disponibilizados pelo artista nas plataformas digitais.

“Não era falta de vontade de lançá-los antes. É que ficamos durante muito tempo acalentando o sonho de lançá-los em cd, em suporte físico, já que sou um artista à moda antiga. Mas as condições não favoreceram e não faria sentido gravar disco novo tendo inéditos na gaveta, então vamos colocar no mundo como é possível”, revelou Gildomar.

O disco novo será uma volta às origens sonoras. “Sou maranhense e entre idas e vindas entre o Ceará e o Maranhão por conta do trabalho [ele é bancário], gravei meu primeiro disco no Maranhão, com músicos maranhenses; todos os outros foram gravados no Ceará, com músicos cearenses, embora eu nunca tenha escondido minhas raízes. Mas sentia que era hora de fazer algo com os pés nos terreiros do Maranhão e para isso eu convidei o experimentado [percussionista] Luiz Cláudio“, antecipa Gildomar sobre o trabalho que terá por base os ritmos da cultura popular do Maranhão.

Show – Aproveitando a passagem pela Ilha, Gildomar Marinho se apresenta nesta sexta-feira (1º.) no Buriteco Café, às 19h. A base do repertório são músicas autorais, entre faixas de seus discos e inéditas. O artista será acompanhado por Luiz Cláudio (percussão). “É sempre um prazer tocar para os conterrâneos. Não podia perder a oportunidade. Como eu e Luiz estaremos em estúdio, descansaremos carregando pedra: nos intervalos das gravações a gente ensaia para apresentar um show bonito, entre músicas de meus álbuns, teste de repertório, antecipando ao público o que virá em Estradar e clássicos da MPB, revelando e reverenciando artistas de minha predileção, nomes importantes em minha formação”, antecipa Gildomar.

Serviço

O quê/quem: show de Gildomar Marinho
Onde: Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande)
Quando: sexta-feira (1º./11), às 19h
Quanto: R$ 10,00 (couvert artístico individual)

Acontece hoje (29) última sessão de show de Zeca Baleiro para crianças

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

 

Zoró Zureta é um espetáculo comovente. Um show para crianças de todas as idades, com o perdão do clichê. Reúne canções dos dois álbuns infantis – que dão nome ao show – de Zeca Baleiro, numa apresentação interativa, entre parlendas, trava-línguas e preferências no universo das histórias infantis.

Ainda em São Luís, antes de se mudar para São Paulo e ganhar o merecido reconhecimento nacional, o cantor e compositor começou a carreira compondo para trilhas de teatro infantil. Zoró Zureta é, portanto, uma volta às origens.

Quando se tornou pai, Baleiro não ninava os dois filhos com cantigas tradicionais. Compunha suas próprias cantigas, a partir de observações, por vezes poéticas, dos próprios filhos.

“Uma vez a gente estava viajando e no avião meu filho apontou: “olha, pai, uma árvore de nuvem”. Era uma nuvem em forma de árvore, mas ele viu de um modo poético. Aliás, a única fase em que as pessoas podem ser malucas sem correr o risco de internação é na infância”, disse o artista em entrevista coletiva, quinta-feira passada.

A música infantil produzida por Baleiro irmana-se em conteúdo e qualidade às experiências de artistas como Adriana Partimpim (a Adriana Calcanhotto para crianças), o grupo Pequeno Cidadão (que reúne pais e filhos artistas, entre nomes como Arnaldo Antunes, Edgar Scandurra e Taciana Barros), Palavra Cantada (Paulo Tatit e Sandra Peres) e a “música de brinquedo” do Pato Fu.

Alguns dos citados, no entanto, não necessariamente compõem para crianças, mas dão uma roupagem infantil a um repertório consagrado, casos, particularmente de Partimpim e Pato Fu – estes últimos tocam um repertório que vai de Tim Maia a Roberto Carlos, passando por Ritchie e Queen, entre muitos outros, com instrumentos de brinquedo.

“O problema da música produzida para crianças, em geral, é tratar as crianças como seres desprovidos de inteligência, débeis mentais”, afirmou Zeca Baleiro, que cita entre suas preferências na produção musical para a petizada discos como Vila Sésamo (trilha sonora do programa televisivo), Os Saltimbancos (versões de Chico Buarque para músicas do argentino Luis Enriquez Bacalov e do italiano Sergio Bardotti) e Arca de Noé (composições de Vinicius de Moraes), “eu sou antigo”, diverte-se.

A música de Baleiro passeia entre bichos esquisitos – tema de Zoró, primeiro álbum infantil de sua carreira –, brincadeiras, e temas menos infantis, como a questão ambiental (tema de Pula canguru, que “quer ir pro Tibete/ pra virar guru”, mas acaba virando gari para ajudar a limpar “este mundo imundo”), além de personagens – Coitado do lobo mau homenageia “um personagem por quem eu tenho muito carinho; ele é malvado, mas sempre se dá mal no fim das histórias”, revelou.

Com pouco mais de uma hora, Zoró Zureta tem coreografias, algumas músicas são executadas com a exibição dos videoclipes e um capricho cênico-visual: quando vai cantar A filha do ogro, ele senta-se numa poltrona, toma nas mãos um livro enorme em cuja capa se lê “Histórias que a vovó contava” e é cercado pelas vocalistas com quem divide o espetáculo; quando cantam Girafa rastafári usam toucas com as cores da bandeira jamaicana e dreadlocks postiços.

Três das vocalistas – Simone Julian (flauta, flautim e saxofone), Tata Fernandes (percussão) e Vange Milliet (percussão) – cantaram com Itamar Assumpção, o que aproxima a experiência de Zoró Zureta de Zeca Baleiro (violão e contrabaixo) da Vanguarda Paulista, sua sonoridade algo próxima de discos como os três volumes de Bicho de sete cabeças (1993), do autoapelidado Nego Dito. A banda se completa com Nô Stopa (vocal e percussão), Pedro Cunha (teclado, sanfona e programações) e Rogério Delayon (violão, guitarra, contrabaixo, bandolim e cavaquinho).

Parte da renda de Zoró Zureta será revertida em favor do projeto Canhoteiro, desenvolvido pelo Instituto de Estudos Sociais e Terapias Integrativas (Iesti), que trabalha a inclusão social de crianças e jovens por meio do esporte, na Vila Tamer, região do Araçagy, em São Luís. Zeca Baleiro é padrinho do projeto, que leva o nome de um pouco conhecido jogador de futebol maranhense, a quem ele já dedicou música (em parceria com Fagner, Fausto Nilo e Celso Borges). A quarta e última sessão do espetáculo, apresentado desde ontem (28) no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), acontece hoje (29), às 18h.

Adriana Calcanhotto gravará dvd em São Luís

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

 

Tudo remete ao mar em Margem, show que Adriana Calcanhotto apresentou ontem (7), no Teatro Arthur Azevedo, em São Luís. Do cenário, um grande pano azul pendurado, fazendo às vezes de uma grande onda, a uma espécie de grande echarpe que lhe cobria o vestido preto, remetendo a uma rede de pesca – durante o show ela se desfaria de parte dela.

Margem, o novo disco, encerra a trilogia marítima de Adriana Calcanhotto, iniciada com Maritmo (1998) e continuada com Maré (2008).

Um roadie espalhafatoso, trajando uma espécie de capa amarela e gorro vermelho, lembra um personagem de filme litorâneo estrelado por Ricardo Darín. Ele entra e sai de cena a servir Adriana Calcanhotto do violão com que toca algumas músicas e instigando a plateia a acompanhar determinadas músicas batendo palmas ritmadas.

Além das nove faixas de Margem, em cerca de hora e 15 minutos de show, a gaúcha (que muita gente pensa ser carioca), repassou ainda grandes êxitos de sua carreira, como Devolva-me (Renato Barros/ Lilian Knapp), Vambora (Adriana Calcanhotto), Esquadros (Adriana Calcanhotto), Mais feliz (Dé Palmeira/ Bebel Gilberto/ Cazuza) e Quem vem pra beira do mar (Dorival Caymmi). Também exaltou o Chico Buarque de Futuros amantes.

Quando cantou Maritmo, apresentou a banda, borrifando-lhes um líquido. Enquanto eles tocavam incidentalmente Bananeira (João Donato/ Gilberto Gil), ela prestou as devidas reverências a grandes brasileiros de saudosa memória: “evoé, João Gilberto! Evoé, Marielle Franco! Evoé, Anderson [Gomes]! Evoé, Ferreira Gullar!”. E disparou, borrifando o líquido na plateia: “salvemos a Amazônia!”. Foi bastante aplaudida.

Nem os pequenos deslizes ao cantar a letra de O príncipe das marés (Péricles Cavalcanti) afastou o show do status de sublime: som e luz perfeitos, a banda irretocável, três quartos da Tono, com que Jorge Mautner gravou Não há abismo em que o Brasil caiba (2019): Bem Gil (guitarra), Bruno di Lullo (contrabaixo) e Rafael Rocha (bateria, percussão, percussão eletrônica e kazoo), “o bico doce”, como a cantora se referiu a ele, dada a qualidade de seus assovios.

O espetáculo atesta por que Adriana Calcanhotto nasceu grande ao estrear em disco com Enguiço em 1990 e consegue se manter entre os grandes da música popular brasileira quase 30 anos depois. Exuberante.

Antes de terminar, um anúncio pegou a plateia de surpresa: a cantora gostou tanto da energia ludovicense que voltará para gravar o dvd ao vivo de Margem no Teatro Arthur Azevedo. A previsão é que o novo show aconteça em dezembro.

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