Arquivo da tag: dirceu leite

Chorografia do Maranhão: Lee Fan

[O Imparcial, 7 de setembro de 2014]

O flautista e saxofonista “bossa nossista” Lee Fan é o 39º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

O flautista e saxofonista Lee Fan foi apresentado ao choro através de um cavaquinho que ganhou de presente de uma tia, professora de música. Na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo ele concluiu os cursos de cavaquinho e flauta transversal. O saxofone foi consequência.

Lee Jun Fan Santos de Sousa herdou o nome de Bruce Lee, astro de filmes de artes marciais de quem seu pai é fã e resolveu batizar o filho, homenageando-o. O menino Lee chegou a enveredar pelas artes (marciais), mas temendo algum acidente com as mãos, optou pelas artes (musicais). Impossível não lembrar os versos de Caetano Veloso, em sua Um índio: “tranquilo e infalível como Bruce Lee”. “Minha vó era índia”, revelou-nos o 39º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão, cujo depoimento foi colhido no pátio comum entre La Pizzeria e a Pousada Portas da Amazônia, na Praia Grande, espaço onde ele mesmo, então um garoto com entre 14 e 15 anos, chegou a tocar, durante a breve temporada em que o espaço abrigou o saudoso projeto Clube do Choro Recebe, de que ele lembra com carinho e saudade.

Lee Fan nasceu em 19 de março de 1993, em São Luís. Desde então mora na Cidade Operária. “Moro com meus pais”, conta o filho de José de Ribamar Ferreira de Sousa, técnico em informática, e Conceição de Maria Matias Santos, ex-cobradora de ônibus, que deixou a função após ser vítima de nove assaltos. “Ela contraiu fibromialgia, não pode mais trabalhar na profissão. Mas sempre foi muito guerreira, não gosta de ficar parada, sempre teve um pulso administrativo muito grande, então montou lá em casa uma lan house, uma xerox, que ela mantém e com que paga nossas contas. Lá em casa todos somos autônomos”, admite o garoto prodígio.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Você está cursando faculdade? Faço Música, sétimo período da Licenciatura na UFMA [Universidade Federal do Maranhão].

Você chegou a procurar outra coisa? Os pais chegaram a recomendar fazer outra coisa por que música não dá futuro ou sempre teve apoio? Graças a Deus, lá em casa eu sempre tive muito apoio. Minha mãe sempre me instigou a estudar o que eu queria. O que ela sempre me diz é que para o bom profissional não falta trabalho. Esse é o lema que a gente carrega. Minha família é de músicos, essa nova geração. Tudo começou com minha tia, Maria Zélia, que é professora da Escola de Música, é minha tia legítima, irmã de minha mãe. Eu sempre tive esse total apoio.

Mas teu pai não quis que você fosse lutador de artes marciais? [Risos]. Na verdade eu cheguei a praticar, eu lutei alguns anos tae-kwon-do, cheguei até a competir, estava tendo um bom desempenho, ganhando medalhas. Só que nessa época, mesmo novo, eu já fui obrigado a tomar uma decisão: ou música ou arte marcial. Eu lutando era um risco grande de machucar minha mão. Como eu já tinha esse foco, de trabalhar com música, eu não quis correr esse risco. Então abri mão da luta.

Além de músico você desenvolve alguma outra atividade para ganhar dinheiro? Ou vive de música? Não. Eu sobrevivo, não é “nossa, como eu ganho dinheiro!”, mas eu ganho dinheiro, procuro rendas em vários ramos da música. Eu não sou um cara que “ah, eu só quero tocar, meu cachê vai ser tudo pra mim”. Não, eu não penso assim, tanto que estou fazendo uma faculdade. Eu dou aulas, trabalho com gravações, além dos shows. A gente tem no Bossa Nossa um pouquinho da parte empresarial, a gente consegue ganhar um pouquinho mais. A gente tenta de todas as formas aumentar a nossa renda trabalhando com o que a gente gosta, sem precisar ir para outros ramos, outras profissões. Eu tento com música pagar as minhas contas, estou conseguindo. Pela faculdade já consegui algumas coisas, já estou dando aula no Sesc [Serviço Social do Comércio] de carteira assinada. A profissão de professor, mais o artista da noite, mais o cara que trabalha com gravação, quer dizer, estou juntando tudo para montar o profissional, o músico.

Para sobreviver de música, figurativamente, tem que rebolar, não é? [Risos]. É, não é fácil. Quem achar que é fácil está enganado. Muita gente, até amigos nossos, colocam a música muito pra baixo, como se fosse uma coisa. Dizem “Deus me livre que meu filho estude música”. Eu já não penso assim. Se quiser estudar música, vou apoiar, vai ser a escolha dele. Lógico que cada escolha é uma renúncia, você vai ter que saber que você vai ter que passar por uma fase que não vai ser fácil, abrir mão de vários finais de semana com sua família, até ter uma situação favorável onde você possa selecionar os trabalhos, mas até aí é uma trajetória que não é fácil, nem pequena. Dependendo do mercado em que você vai trabalhar, se é no Rio de Janeiro, se é no Maranhão, você vai ter que manter uma rotina de estudos de alto nível.

Antes de ingressar na UFMA você estudou na Escola de Música, não é? Sim. Estudei na Escola de Música flauta transversal e cavaquinho. Flauta transversal eu estudei com o professor Paulo Santos, o grande Paulinho, e o cavaquinho eu estudei com o Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], o Emilson Pires [nome de batismo de Juca do Cavaco], e com o João Soeiro [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 30 de março de 2014], sendo que eu entrei na Escola de Música no cavaquinho. Aprendi flauta doce em casa, através de minha tia. Quando eu entrei na Escola de Música eu já tinha um cavaquinho, que ela me presenteou, e eu comecei a estudar cavaquinho. Logo após eu fui para a flauta transversal. Lá na Escola de Música eu vi uma apresentação do grupo Instrumental Pixinguinha, foi quando eu vi pela primeira vez alguém tocando flauta transversal ao vivo, aquilo me encantou muito. No semestre seguinte eu me inscrevi para flauta transversa. A partir de então não parei mais de estudar o instrumento. Até deixei, na verdade, um pouco o cavaquinho de lado para poder me dedicar à flauta transversa.

Você chegou a concluir o curso na Escola de Música? Sim, todos dois. Fiz os 10 períodos.

Além de tua tia Zélia, que com certeza te influenciou bastante, como era o ambiente familiar em relação à música? O que se ouvia? Meus pais gostavam muito de samba. Meu pai sempre ouvia aquelas músicas bem retrô, Alphaville, bem antigas, brega também rolava muito. Eram pessoas que ouviam coisas normais, não era bossa nova, não era jazz, não era blues, não tinha seleção. Minha mãe não tem o perfil de ligar o som para ouvir música. Meu pai, sim, ligava, ficava ouvindo. Eu fui aprendendo ouvindo, hoje eu sei tocar muita música antiga de ouvir quando meu pai ligava e botava para tocar.

Além de flauta e cavaquinho você toca algum outro instrumento? Toco sim. Atualmente os instrumentos a que me dedico são a flauta transversal e saxofone. Por que o saxofone? Eu trabalhei em um grupo chamado Pagode do Ivan. Em vários grupos, mas o Pagode do Ivan foi o principal. Hoje em dia, não só na música, as pessoas têm que ser polivalentes, têm que ser versáteis, na música principalmente. Eu não poderia ficar tocando só a flauta transversal por que o mercado pede que o músico de sopro toque também saxofone. Houve uma tendência para que eu começasse a aprender esse instrumento. Não foi uma obrigação. Eu experimentei, gostei muito e hoje eu me dedico a esses dois instrumentos com o maior prazer.

O cavaquinho está meio largado. Isso! Eu ainda toco cavaquinho. Como eu trabalho com as mãos, a música está direto, todo dia em mim. Quando eu pego o cavaquinho, eu ainda sei tocar as mesmas coisas, eu só não vou pra frente. Mas pra trás, graças a Deus, eu ainda não fui [risos].

A busca pelo saxofone foi autodidata ou você teve professor? Foi autodidata. Eu não fui para um lugar pegar aula, mas eu sempre pesquiso muito, converso muito com quem toca. Quer dizer, eu acabo pegando aulas com várias pessoas, que é uma aula de conversa, não é uma aula de didática, com roteiro. Como eu já tocava flauta, eu tive muita facilidade de migrar para o sax, a digitação é bem parecida, a diferença maior é na embocadura. Quando eu comprei o sax, não sabia nada, fui tocando e metendo a cara.

A escolha dos sopros deve-se à influência de tua tia? Como é que a flauta aconteceu? Não. Ela me deu um cavaquinho. Eu aprendi a tocar flauta doce e tocava até relativamente bem, zerei os métodos todos. Fui pra Escola de Música, estudei cavaquinho e simultaneamente estudava flauta doce. Um dia fui ao [Teatro] Arthur Azevedo e o Pixinguinha era um dos grupos da programação. Se não me engano, era até o João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014] que estava tocando, não era o Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] que estava nesse dia. E a música que me marcou muito foi André de sapato novo [de André Victor Correia]. Eu ouvi aquela música, fiquei, “nossa, é isso que eu quero para mim”. No semestre seguinte eu me matriculei, ganhei minha flauta estudante, comecei a estudar. Como minha família é de músicos, desde cedo começou a aparecer trabalho para mim. “Nossa, ele é criança!”, eu comecei a ir juntando uns trocados para comprar essa flauta aqui [aponta para seu instrumento, sobre a mesa], que eu já consegui comprar com os meus trabalhos.

Além do Bossa Nossa e do Pagode do Ivan, de que outros grupos musicais você fez parte? Participei do grupo Vamu di Samba, antes do Pagode do Ivan. Antes do Vamu di Samba eu participei do grupo Som Brasil, só que foi uma passagem rápida. Simultaneamente, nessa época, era até com Rafael Guterres [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de maio de 2014], o grupo Som Brasil, lá na Escola a gente tinha uma brincadeira, a gente tocava samba e pagode, que era o grupo Pagodez. Era uma brincadeira, mas foi lá que eu comecei a entender a linguagem do samba, como colocar a flauta no samba. Apesar de ser música brasileira, ser ligado ao choro, a forma como você vai colocar, para não atrapalhar quem está cantando, é uma forma delicada, o chamado contracanto. Lá foi onde eu comecei assim, de fato. Simultaneamente também estava na Segunda sem lei [evento semanal, às segundas-feiras, na Associação Atlética do Banco do Estado do Maranhão, AABEM]. A primeira vez que eu toquei samba foi lá. Lá eu conheci João Eudes [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de fevereiro de 2014], a proposta era de samba, mas como a gente gosta muito de choro, o quanto a gente podia a gente tocava. Lá iam também Wendell Cosme [bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], Robertinho [Chinês, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], era uma festa muito legal.

E os grupos de choro? Toquei durante algum tempo no Chorando Callado, logo depois da saída do Tiago Silva [clarinetista e saxofonista], ele foi para Manaus. Toquei também algum tempo no Um a Zero, mas já não foi como membro do grupo. Eu substituía João Neto em algumas vezes que ele não podia ir. Em participação eu toquei em quase todos os grupos, o Instrumental Pixinguinha, Urubu Malandro, Os Cinco Companheiros. Eu cheguei a tocar com eles, em várias festas. O que durou mais tempo foi o Chorando Callado.

Atualmente você só integra o Bossa Nossa? Sim, só o Bossa Nossa.

O que significou para você, para os outros membros do Bossa Nossa, participar do Festival de Jazz e Blues de Barreirinhas [o VI Lençóis Jazz e Blues Festival]? Foi um presente! Eu considero. Foi um convite feito pelo [produtor] Tutuca Viana. Como a gente tem uma agenda fixa, ele nos viu tocando em um restaurante, gostou muito e convidou. Nós mesmos nem acreditamos, um festival onde só toca a galera fera, de fora. A gente encarou com muita seriedade e tentamos fazer nosso melhor. Graças a Deus o público gostou muito. Foi realmente um presente e uma honra muito grande, pra gente, poder fazer parte desse evento de grande relevância para o cenário musical do Maranhão e do Brasil.

Tuas primeiras aparições públicas tocando choro foram no Clube do Choro Recebe, no Chico Canhoto. Isso! Lá, inclusive, eu estava substituindo o João Neto. Foi um show com a [cantora] Tássia Campos, outro com Zeca do Cavaco [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013] e também com o Um a Zero.

O que significaram aquelas apresentações? Quais as tuas lembranças do período? Aquele palco faz falta para a cena choro de São Luís? Eu tinha acabado de comprar essa flauta, é de prata, é um instrumento para a vida, a gente só faz manutenção. Eu pensava, “agora eu tenho uma flauta bacana, tenho que tocar em lugares melhores, para um público melhor me ver tocando”. O Clube do Choro era um desses locais, eu tinha um sonho, uma vontade grande de tocar. O Clube do Choro do Maranhão está fazendo muita falta. Eu fico triste quando alguns artistas vêm de fora, instrumentistas, principalmente, me perguntam onde está rolando choro aqui na cidade e eu fico sem saber o que responder [os chororrepórteres passam ao músico a agenda do Regional Tira-Teima, que toca às sextas-feiras, a partir das 20h, no Brisamar Hotel]. Atualmente não tem um local onde a galera vá para valorizar essa música. A gente faz uns trabalhos paralelos, toca um pouquinho de choro, mas não é a principal atração. Está fazendo uma falta tremenda!

Além de instrumentista, você desenvolve outras habilidades na música? Estou iniciando esse aprendizado. Para a gente que estuda instrumento de sopro é um desafio estudar harmonia. Para eu compensar essa dificuldade eu procuro entender um pouquinho de teclado, só que eu não digo que eu toco teclado. Eu estudo um pouquinho, como eu posso, quando eu posso. Como eu estudei cavaquinho, tenho uma boa base dos acordes, eu tenho essa vantagem em relação a quem não toca instrumentos harmônicos, quem estudou cedo, na verdade. Quando eu toco, eu já identifico as cores dos acordes, se é um acorde maior, se é um acorde menor, isso fortaleceu muito meu ouvido. Atualmente, estudo de arranjo, eu estudo devagar. Estou iniciando, na verdade, inclusive estou até pegando aula com Robertinho Chinês, que está me ajudando muito. Também já peguei aulas com Israel Dantas [violonista], Moisés Ferreira [guitarrista]. Eu estudo como eu posso.

Você já gravou em discos? Eu tenho muito na área do samba. Gravei o disco do Argumento, do Feijoada Completa. Gravações de músicas com Lena Machado [cantora], que ela faz para participar de projetos, por exemplo o Exposamba. Com Wendell gravei vários, o do Andrezinho Valois, o do grupo Madrilenus, alguns grupos de pagode, grupo Pura Simpatia, grupo Tô Di Mais. Geralmente quando pinta um trabalho para Wendell e tem sopro, a gente tá junto!

Você falou há pouco do impacto que te causou ouvir João Neto tocando André de Sapato Novo no Arthur Azevedo. Que flautistas te chamam a atenção, hoje? Atualmente o Eduardo Neves. É um músico excepcional. Ele mora no Rio de Janeiro. Eu ainda não tive contato com ele. Apesar de ele ser novo, ele não mexe em facebook, então eu ainda não pude trocar uma ideia. Eu ouço muito os discos dele. Como multi-instrumentista, flautista inclusive, tem o Dirceu Leite, me inspira muito. Me vêm logo à mente esses dois caras, até por que estão em atividade. Que já passaram, vamos dizer assim, tem o Altamiro Carrilho, incomparável. Eu ouvia muito os discos dele, tocava junto, foi assim que eu assimilei melhor a linguagem do choro. Ainda ouço, na verdade, os discos do Altamiro Carrilho. Em São Luís, a referência de som é o Paulinho [Santos]. É um cara que, embora não esteja em atividade, tocando por aí, pra mim o som do Paulinho é um som lindo.

Você afirmou que muito provavelmente teus pais vieram a conhecer choro depois que te ouviram tocar. E como é que você conheceu o choro? Já foi na Escola de Música? Como é que foi essa aproximação com esse gênero? O choro eu conheci nas aulas de cavaquinho. Como eu estudava com Juca, o Juca toca muito choro, é um chorão. A primeira música que eu lembro que a gente tocava muito era Feitiço da Vila [de Noel Rosa e Vadico], inclusive essa música me acompanhou durante vários recitais. Não era uma coisa muito programada, era “ah, amanhã tem um recital, vamos lá tocar”, e a gente tocava Feitiço da Vila, Carioquinha [Waldir Azevedo]. Eu comecei com Feitiço da Vila, mas também as músicas do Waldir Azevedo, eu ouvia muito, tocava muito, Flor do cerrado [Waldir Azevedo], Luz e sombra [Waldir Azevedo], todas eu tocava muito e gostava muito, eu pedia pro Juca me ensinar, dava muito certo. Foi assim que eu conheci o choro.

O que significa o choro para você? Qual a importância dessa música? Eu dou graças a Deus por ter conhecido o choro. A música brasileira, as síncopes, todo suingue, toda malícia, tudo aquilo está no choro. O músico que toca choro está apto para tocar toda música brasileira, tirando as regionais, bumba meu boi, maracatu. A bossa, a improvisação, o choro está em tudo. Até para tocar outras músicas de outros países, o jazz, o blues, também me ajudou, na concepção rítmica, principalmente. Como eu participei de grupos de samba, quando eu fiz essa passagem do choro para o samba, eu já estava um passo à frente de muita gente, já tive muita facilidade. Muita gente gosta de mim tocando samba, acho que por isso, por que eu passei pelo choro.

Você escuta muito choro, hoje? Como é tua relação com o consumo de música? Compra discos, baixa na internet? Ainda escuto. Geralmente, não vou mentir, compro discos quando o artista vem e eu tenho oportunidade de comprar dele. Até por que os artistas que eu compro, não vende o disco deles aqui. Como o Dirceu Leite, por exemplo, Toninho Carrasqueira [flautista], nas vezes que ele veio, sempre trouxe um cd diferente, sempre compro. Zé da Velha [trombonista] também, fiz questão de comprar o cd dele. Fora isso eu baixo, ouço muita coisa pelo youtube, até por que hoje, tudo é muito rápido. A galera que toca lança um trabalho no youtube, depois outro, o ciclo vai rodando. Às vezes eu chego a nem conhecer, quando eu chego já passou, aí eu baixo.

Você prefere o choro tradicional ou o moderno, mais inventivo? Eu estou mais ligado nessa vertente mais inventiva, a galera de Brasília que está inovando muito. O choro tradicional eu ouço, eu curto. A gente começa a estudar improvisação, quer improvisar, quer aplicar o que está estudando. O espaço que a gente tem para fazer isso é quando estamos tocando. Temos que ouvir quem está fazendo isso, Eduardo Neves, Hamilton de Holanda [bandolinista] também.

O que significou para você tocar com Zé da Velha e Silvério Pontes [trompetista]? Foi outro presente. Eu achei que não estava preparado. Eu estava tocando muito com o Pagode do Ivan, muita festa. Wendell comentou que tinha um show, falou que era Zé da Velha. Depois ele comentou já faltando uma semana. Ele me mandou o repertório, algumas músicas eu já conhecia, outras não. Eu fui procurar pegar para aprender. Nós fizemos um ensaio sem ele na sexta, o show foi no sábado. Terminou o ensaio, Wendell me ligou dizendo que o show era o lançamento do cd deles [Zé da Velha e Silvério Pontes], ele conseguiu as partituras, João Eudes foi deixar para mim no samba, ele chegou lá duas da manhã, eu estava tocando. Acordei cedaço no dia, fui ler, o show foi mais do que eu esperava. Eu imaginava que eu ia ficar de canto e eles sendo a atração, mas eu acabei ficando lado a lado com os caras. Zé da Velha tocou com Pixinguinha. Rolou espaço para improvisação, foi muito bom. Conversamos depois do show, fiquei feliz por eles terem ficado satisfeitos.

Na sua entrevista à Chorografia do Maranhão, Henrique [Cardoso, violonista, membro do Bossa Nossa, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de agosto de 2014] afirmou que um dos hits do Bossa Nossa é Boi de lágrimas [de Raimundo Makarra]. Em outros estados, por exemplo, Pernambuco, o frevo dialoga diretamente com o choro, no Rio de Janeiro, o choro dialoga com o samba. Aqui, fora algumas iniciativas como o Choro Pungado, ainda percebemos uma timidez de misturar o choro aos ritmos da cultura popular do Maranhão, e parece que vocês estão retomando essa proposta. Você acha que é possível? Esse casamento é legal? A gente tem a prova que é possível. Em nossos shows o Boi de lágrimas é nosso trunfo. A gente toca o Boi de lágrimas quando a gente percebe que não está chamando muito a atenção. “Vamos quebrar o clima!”, aí a gente toca. Todo mundo vira logo pra gente. Isso é em qualquer lugar: no shopping [da Ilha, o Bossa Nossa se apresenta aos sábados, ao meio dia], no Manu [restaurante na avenida dos Holandeses, o grupo se apresenta semanalmente, às quintas e sábados, alternadamente], em um aniversário. Isso é a prova que a música maranhense é muito admirada e tem espaço. Nós aproveitamos o Boi de lágrimas e acabamos tocando outras músicas: Dente de Ouro, do Josias [Sobrinho, compositor], Bela Mocidade [de Donato Alves], o Coxinho [o cantador e compositor Bartolomeu dos Santos] também, “Urrou, urrou” [cantarola trecho do Urro do Boi, de Coxinho, considerada o Hino do Folclore Maranhense] e outras músicas maranhenses, a gente viu que dá certo. Partindo da grande aceitação do público a gente desenvolveu o show Trupiada, todo de repertório de autores maranhenses, que apresentamos recentemente no Sesc Amazônia das Artes, e também no São João, no Arraial Balaio de Sotaques, também do Sesc.

Vocês consideram o Bossa Nossa um grupo de choro? Também. Quando nós estávamos na UFMA já tínhamos muitas reuniões. Dessas reuniões saiu o nome do grupo. Mas ainda não sabíamos o que éramos. Vamos tocar o quê? Vamos tocar onde? Infelizmente não dá para tocar só o que a gente gosta, só choro, se quisermos um trabalho rentável. A gente não toca só choro, não toca só bossa. O que nosso cliente pedir… a gente tenta selecionar as balas de cada gênero, as mais conhecidas do choro, as mais conhecidas da bossa, música internacional. É difícil, mas está dando certo até agora.

Você se considera um chorão? Eu me considero. Se for para vestir a camisa eu visto. É claro que eu toco várias outras coisas, mas eu me considero um chorão, sim. Até por que é minha infância, o choro é minha infância, eu ouvia Waldir Azevedo e Altamiro Carrilho. O choro está na minha infância, eu ficava mudando o cd, um atrás do outro, eu ficava sempre tocando cavaquinho e a flauta também. Meus vizinhos todos me conhecem por isso, eles gostavam também da música, passaram a gostar. Eu me considero um chorão, sim.

A menina que conquistou o coração dos mestres do choro

[Release para Festejos, estreia em disco de Alexandra Nicolas]

Festejar é o destino de Alexandra Nicolas e de seus ouvintes

Maranhense estreia em disco com repertório de Paulo César Pinheiro

Festejos sai pela Acari, maior gravadora especializada em choro do Brasil

Márcio Vasconcelos

TEXTO: ZEMA RIBEIRO

“Eu cheguei sem ninguém saber que eu vinha”. Desde antes de nascer Alexandra Nicolas já era uma surpresa. Filha de mãe solteira, foi cúmplice da genitora, que escondeu a gravidez enquanto pode. O pai, músico e boêmio, ela só viria a conhecer aos cinco anos de idade. Foi criada por três mulheres – a mãe, a tia e a avó.

Sua mãe gostava de cantar e foi em uma tertúlia que seus pais se conheceram. Desde cedo a menina pegou gosto pela coisa. “Eu cantava desde criancinha. E eu não podia sair das rodas, que eles me chamavam: “agora é a vez da menina!”. E eu me lembro, muito nova, de cantar músicas de Nelson Gonçalves, Silvio Cesar, Elizete Cardoso, Clara Nunes, Rita Lee, Novos Baianos, Genival Lacerda, Elba Ramalho”, cita entre gostos passageiros e referências que permanecem até hoje.

Acreditando nos sonhos, a adolescente Alexandra chegou a largar o curso de Pedagogia e foi ao Rio de Janeiro estudar canto, dança e teatro. Sua mãe hospedou-a num pensionato, à época inviabilizando a carreira: “Todos os lugares em que eu podia cantar eram à noite e eu tinha que voltar para casa antes da meia noite”, lembra a cinderela de então.

Do pensionato para a música? Nem pensar! Alexandra só pode mudar-se para um apartamento quando passou no vestibular para Fonoaudiologia, profissão em que se formou e exerceu por pouco mais de 10 anos – a música sempre em paralelo, nunca de menor importância, a vida entre o consultório e os palcos. Após coordenar o curso de fonoaudiologia em uma faculdade particular em São Luís, ela deixou a profissão. Da música, afastou-se apenas para dedicar-se às primeiras infâncias de seu casal de filhos, hoje com sete e seis anos. Uma parada apenas temporária, embora ela não viva, ainda hoje, exclusivamente de música.

“Tudo o que fiz até hoje foi por necessidade, por amor, por que eu não consigo fazer nada que eu não pense em fazer bem feito”, diz, talvez explicando a demora em gravar o primeiro disco, Festejos. Mas nada na vida de Alexandra acontece por acaso. “Eu já gostava muito do Paulo César Pinheiro, principalmente suas parcerias com Mauro Duarte, Sivuca, João Nogueira. Vinha de alguns shows por aqui e estava com a ideia de fazer um em homenagem a Clara Nunes. Numa viagem ao Rio, meu amigo Celson Mendes mandou um e-mail para Luciana Rabello. Segundo ele, ela poderia me dar algumas dicas. De início não acreditei muito que ela fosse responder. Ela respondeu e me convidou para ver e ouvir o bandão da Escola Portátil. Algo incrível! Todos os alunos da Escola Portátil, 40 pandeiros, 15 cavaquinhos, 10 flautas etc., juntas, sob uma árvore, tocando ao mesmo tempo com [o baterista] Bolão de maestro”. Terminada a apresentação, Luciana levou-a para tomar um chopp na Visconde de Caravelas, em Botafogo. Era a rua em que ela tinha morado, e Amélia Rabello, irmã de Luciana, morava no mesmo apartamento que Alexandra ocupou em seus dias e noites cariocas. Sem saber, a anfitriã acabou escolhendo ainda a mesma mesa em que a maranhense costumava sentar vindo da faculdade.

Nada na vida de Alexandra acontece por acaso. “Então você quer homenagear a Clara Nunes? Mas você gosta da cantora ou do compositor?”, indagou Luciana Rabello ao notar que nove das 16 músicas do roteiro eram de Paulo César Pinheiro. “Eu tenho certeza que Clara Nunes ia adorar este show se você pudesse transcender isso. Você precisa se mostrar como artista, sair de detrás dela. Eu recebo 80 e-mails por dia de gente querendo homenagear Clara”, aconselhou-a. “Paulinho [forma carinhosa como se referem ao compositor maiúsculo] tem mais de 2.000 canções. Se quiser eu te dou tudo inédito”, ofereceu.

Luciana Rabello acabou por descobrir a voz autoral de Alexandra Nicolas, mesmo esta não sendo compositora, e assumiu a função de diretora musical de Festejos. Mais que isso, se tornou amiga íntima, uma irmã querida e escolhida. “Ela foi uma bênção de Deus na minha vida”, diz a maranhense.

Tudo começou em Senhora das Candeias, show que ela apresentou duas vezes no Teatro Arthur Azevedo, em São Luís, e que batiza o projeto patrocinado pela Eletrobrás, através da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura, que permitiu a feitura de Festejos, que sai pela Acari Records, a maior gravadora de choro no Brasil. Inicialmente ela recebeu uma fita com 20 composições de Paulo César Pinheiro: era o repertório do espetáculo. Para o disco, a amostra aumentou para quase 60 músicas, das quais 13 foram escolhidas, entre inéditas – a maioria – e regravações.

“Eu quero essas mulheres da festa!”, escolheu. “Todas as que Paulinho canta, elas são fascinantes, lindas e sensuais. É um amor puro! Elas possuem uma beleza que ninguém consegue ver. Quase ninguém consegue ver a beleza de uma lavadeira. Aí eu vi a verdade. Não era fantasia. Era palpável”. Alexandra começava a eleger o repertório de seu disco. Entre idas e vindas foram quase dois anos só na seleção do repertório, mergulhada de cabeça, corpo e alma.

“Paulo César Pinheiro é a pessoa mais leve que eu já vi na vida. Não sei de onde tira tanta simplicidade. Nem parece que existe, me deu o maior presente. Ele me deu a bênção e disse: “se você tiver que gravar um disco, quero que você grave aqui [no Rio de Janeiro]. Foi a partir daí que eu descobri verdadeiramente meu caminho”.

A partir de então, muitas idas e vindas na ponte aérea São Luís – Rio de Janeiro. Com ela festejam Adelson Viana (sanfona), Celsinho Silva (percussão), Dirceu Leite (flauta, picolo), Durval Pereira (percussão), João Lyra (arranjos, violão, viola), Julião Pinheiro (violão sete cordas), Luciana Rabello (cavaquinho e produção musical), Magno Júlio (percussão), Marcus Tadeu (percussão), Maurício Carrilho (arranjos, violão sete cordas), Paulino Dias (percussão), Pedro Amorim (bandolim) e Zé Leal (percussão).

Ao final de um processo de aprendizado, amadurecimento, risos, lágrimas e muita emoção, o próprio Paulo César Pinheiro definiu a ordem das músicas no disco e, acima de qualquer suspeita, escreveu sua apresentação: “acho que a maranhense conseguiu um belo disco. Abram alas pra ela que a festa começou”, para ficarmos com apenas um trecho.

Embalada pelo capricho do design de Raquel Noronha, a bolachinha é ilustrada por fotos de Márcio Vasconcelos, que captam Alexandra Nicolas, risonha e faceira, no sobrado em que nasceu o dramaturgo maranhense Arthur Azevedo, em 1855, uma segunda coincidência literária – a primeira é que Paulo César Pinheiro, apesar de nunca ter estado em São Luís do Maranhão, conhece-a bem a partir da obra de Josué Montello, e escreveu uma música que leva o nome da capital maranhense, faixa que fecha o disco.

Alexandra Nicolas sonha: “Eu quero fazer o Brasil cantar”. Nada na vida dela acontece por acaso.

FAIXA A FAIXAMárcio Vasconcelos. Festejos. Capa. Reprodução

1. Mironga (Paulo César Pinheiro): “É uma música que abrange todas elas [as mulheres], uma espécie de resumo
do disco. São os homens tocando tambor para as mulheres dançarem e festejarem. É uma música completamente
masculina, mas eu consigo ver a mulher nela, as mulheres que dançam ao som do tambor. Ele descreve, na verdade, a maneira de tocar, como se aprende a tocar um tambor. No final ele diz que tem mironga aí, ou seja, tem algo muito especial na maneira de tocar. “Tem quem bate e faz zoeira/ tem quem toca como quê/ quem comprou tambor na feira/ esse não sabe bater./ Foi no couro e na madeira/ que me disse um alabê/ tocador de capoeira/ não é de maculelê”. Então ele começa a fazer uma série de pontuações no ato de tocar tambor e as mulheres, como ele diz no texto que me apresenta, estão mirongando ao som do tambor. Mironga é uma festa!”

2. Balacoxê de Iaiá (Paulo César Pinheiro): “Na hora em que eu li o título eu fiquei imaginando um bumbum enorme de Iaiá. Na verdade, Balacoxê veio por essa sensualidade, de cortar cana, da mulher, e eu fiquei fascinada, por que a maneira como Paulo cantou essa canção, o que eu ouvi, é como se estivesse na fala dele, essa mulher, Iaiá, que corta cana, que “bota a roda pra rodar/ eu só vejo esse desenho na cintura de Iaiá”. Foi uma canção em que eu me vi. Me perguntei, meu Deus, será que eu vou cantá-la eu vendo Iaiá ou eu sendo Iaiá? Eu acho que de todas que eu cantei, eu era a Iaiá. Tava em mim, passava por mim, essa história de “como eu vejo, com o punho nas cadeiras/ Iaiá fazer”. Essa descrição pra mim, essa mulher, essa Iaiá, ela é incrível”.

3. Passista (Paulo César Pinheiro): “Foi o primeiro refrão que me chamou muito a atenção: “seu povo já foi do cativeiro/ mas hoje que o samba é uma nobreza/ é ela que reina no terreiro/ do samba outra vez virou princesa”. Achei muito forte ele ter trazido como o povo dela sofreu e como hoje ela é uma rainha, comanda o samba na escola. Isso me fascinou, saber que tem muita gente que vai pra vê-la. O samba trouxe essa majestade pra ela”.

4. Coqueiro novo (Paulo César Pinheiro): “Foi a praia daqui. Uma homenagem à minha praia, à praia em que eu cresci, em que eu brinquei na areia e, lógico, às morenas do Cabedelo, na Paraíba, às quais ele se refere, que fazem acessórios com a palha do coqueiro, vivem disso. São mulheres sofridas, mas quando escuto, eu me vejo na praia, sombra, vento nos cabelos e água fresca. Uma valorização do trabalho dessas mulheres, transformando a palha em objetos, bolsas, cintos, acessórios femininos”.

5. Presente de Iemanjá (João Lyra e Paulo César Pinheiro): “Quando Luciana me mostrou ela falou de uma pessoa que tinha que dirigir os arranjos do disco, chamada João Lyra [que assina parte dos arranjos, violões e viola do disco]. A primeira vez que o ouvi cantando, fiquei fascinada por ele, com a alegria que ele põe na canção. E eu ouvi Presente de Iemanjá com ele cantando e me remete à fartura. Quando fala de “jogar a rede pro céu/ e a rede cai no mar/ o que cai na rede é peixe/ é presente de Iemanjá”, isso me vem como abundância, as mulheres tendo o que comer, os homens saem para pescar e trazem o pão de cada dia, o peixe para fazer o almoço. Eu me vejo numa vila de pescadores. Ele trouxe um arranjo fantástico com Toré de índio pra canção, ficou muito forte. Tem o canto pra sereia, por trás de tudo isso, que é muito marcante. Eu não cantei orixás no disco, mas cantei pra Iemanjá, que pra mim sempre foi uma mulher encantadora, embora eu de início não soubesse bem o que era um orixá. Eu sabia que ela vivia no mar e eu sempre lembro da Iemanjá da Ponta D’Areia toda vez que eu canto”.

6. Lavadeira (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Paulinho me mostrou essa canção, eu já fascinada pelas mulheres, e ele não me contou que ia me mostrar. Eu tava na cozinha da casa dele, comendo, e ele colocando músicas, que ele adora. Quando eu ouvi isso na cozinha eu saí correndo pra sala, “Paulinho, o que é isso?”, e ele já com o sorrisão aberto, por que sabia que eu ia me interessar pela música. Pedi pra ele botar de novo, ele botou. Eu ouvi na voz da Andréia, que é uma cantora que gravou a música. A Luciana perguntou, “mas Alexandra vai gravar? Já gravaram!” E ele disse “não importa. A Andréia sumiu. É ela [Alexandra] quem vai fazer essa música aparecer”. É a canção mais cinematográfica do disco, descreve tudo o que uma lavadeira faz. É de uma sensualidade, de uma sensibilidade tão profunda. A lavadeira passa a ser uma deusa em vez de uma simples lavadeira. Luciana faz um cavaquinho que dói na alma, Mauricio Carrilho fez o arranjo perfeito e ainda criou um canto para a lavadeira: “Lá lá lá ia lá ia/ Madalena foi lavar” e vai embora”.

7. Roda das sete saias (Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro): “Eu ouvi cantada por Roque Ferreira, em uma das minhas viagens ao Rio, me apaixonei pela festa. Ela tem oito minutos, é um samba de roda fantástico. Fala das festas populares, tudo o que é cantado nas rodas das festas. Imagina um festejo acontecendo num terreiro, numa casa de festa… os grupos se formam a partir das afinidades: uma roda de samba aqui, uma caixeira tocando ali. Versos que surgem dessas afinidades da festa compondo um samba de roda com a música de Roque Ferreira, a letra de Paulo César Pinheiro e o arranjo de Maurício Carrilho. Eu costumo dizer que não sinto os oito minutos. Termino de cantar e pergunto: “vixe, já foi?” Ela foi uma música muito eleita aqui na minha terra. Fiz uma sessão com os compositores para ouvirmos o disco e muita gente gostou dela, por que ela é forte, ela lembra a gente, ela é muito Maranhão, é nossa…”

8. Coco da canoa (João Lyra e Paulo César Pinheiro): “Eu sou apaixonada por coco. Eu fui atrás de outro coco. Eu já tinha um coco no disco, acho um ritmo que mexe muito comigo. Quando eu era pequena, eu ia para a Rua Grande, e tinha uma cega que cantava um coco com um chocalhinho. Eu cresci com o coco muito presente na minha vida, mamãe sempre cantava em casa. Eu busquei mais um coco e como eu já tava encantada com o trabalho do João Lyra, com a alegria que ele emprega nas coisas, foi uma das canções que eu trouxe. Ela fala de um flerte na praia, de uma mulher faceira que não sabemos bem se é uma mulher ou uma sereia encantada. Gostei muito desse coco meio embolado, gostoso demais”.

9. Coco (Paulo César Pinheiro): “O coco é uma paixão. Ele é um trava-língua e a Luciana me mandou como um desafio para uma fonoaudióloga [risos]. Quando eu ouvi, pensei: “não vou conseguir cantar nunca!” É muita coisa e tudo muito rápido. Quando cantei e vi que o teatro todo cantou de novo… eu ensinei apenas uma vez e quando cantei a segunda parte todo mundo riu de tão embolado que tudo fica… e lindo… Fala de quebrar o coco, das quebradeiras de coco, a maneira como quebram o coco, que fazem a roda. Eu ia muito pra Pinheiro passar férias e comia muito coco babaçu. E pra mim não valia comer coco babaçu guardado, que mofa. Eu queria ver era ver o coco babaçu tirado por dona Mariazinha, que trabalhava na casa de meu pai, e a gente ia lá para um cantinho do quintal, debaixo duma árvore, quebrar coco”.

10. Bisavó Madalena (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Foi outra pescaria. Paulinho já atrás dos seus tesouros guardados e ele tentava falar para mim como era a canção. Mas como não vou me apaixonar por uma música que fala da bisavó de Wilson das Neves? Que rodou o Brasil inteiro, que era dançarina de primeira e rodou o país dançando todos os ritmos e era boa de gogó, de samba, de bumba meu boi… quando ouvi fiquei encantada pela música. Wilson já gravou e eu não resisti, por que ela dá um resumo dessa matriarca que recebe esse festejo. E eu pretendo abrir o show com ela”.

11. Soberana (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Wilson das Neves novamente. Essa música eu me lembro de Paulinho, ele não só me mostrou, mas ele dançou, me mostrando como eu devia fazer no palco com minha saia. Foi a maneira mais poética, mais romântica, mais soberana que eu vi um homem falar de uma mulher. Eu acho que qualquer mulher no mundo dava qualquer coisa para ser essa mucama à qual ele se referiu. Ela “nunca foi mucama de qualquer laia”. É a música que mais mexe comigo no disco. É a minha música! Eu sou apaixonada… As pessoas perguntam “qual é a música de trabalho?” Eu só digo Soberana. Eu sei que existe essa mulher, até por que eu sei de muitas mulheres que são soberanas. Mas você chega a duvidar, de tão incrível que ela é, você se pergunta, “é tudo isso?”, por que sempre escapa algo, ela é incrível”.

12. Ava Canindé (Paulo César Pinheiro): “Foi um Divino Espírito Santo que foi trazido para mim. Luciana mandou propositalmente, pois sabia que eu fui imperatriz na infância [em festejos do Divino, em Pinheiro, pagando promessas de sua mãe]. Eu sempre falo que vejo as mulheres indo para as festas do divino, as caixeiras, as arrumadoras da bandeira, e ela fala da simplicidade e da organização dessa festa. O dia a dia, como as pessoas se vestem, como chegam, descreve a cidade, a igrejinha. E João Lyra trouxe o que há de mais surpresa no disco, o arranjo dessa música. Para quase todos os músicos ela é a mais forte. João não conhecia a batida do Divino Espírito Santo, e no entanto ele trouxe sopros, viola. Ficou muito linda, simples, nostálgica. Para eu conseguir cantá-la do jeito que eu cantei eu me imaginava com João e Paulinho, em um morro bem alto, olhando lá de cima para esta cidade e cantando”.

13. São Luís do Maranhão (Paulo César Pinheiro): “A maneira como Paulo descreve o Maranhão, a impressão que a gente tem é a de que ele estava aqui, e de uma maneira também muito cinematográfica. Você consegue ver o boi de uma forma tão simples. Cantar minha terra foi uma honra, com a letra dele, então. E ele não conhece. Conhece através de Josué Montello e é capaz de conhecer até mais que eu, por que Paulinho quando vai em um assunto, ele vai fundo, vai além, muito além… Pra mim foi um presente, ele interferiu nesse arranjo, ele estava presente nessa gravação, acompanhou de perto [o saudoso parceiro João Nogueira era, até então, o último artista visitado por Paulo César Pinheiro em estúdio durante a gravação de um disco]. E nada como o nosso mestre Arlindo Carvalho para dirigir e dar esse toque de Boi de Pindaré. Ela fecha o disco, fecha com minha terra, fecha onde nasci, fecha com São Luís”.