Luiz Jr. Maranhão homenageia Papete em show

[release]

Repertório prestigia músicas que se tornaram clássicas na voz do artista, mas vai além; apresentação terá participações especiais de Josias Sobrinho, Djalma Chaves, Ribinha de Maracanã, dj Pedro Sobrinho e convidado surpresa

O cantor, compositor e multi-instrumentista Luiz Jr. Maranhão. Foto: Ton Bezerra. Divulgação

O legado de Papete será lembrado em show em homenagem ao artista, falecido em 2016. O bacabalense José de Ribamar Viana, seu nome de batismo, é considerado um embaixador da cultura popular maranhense, que ele ajudou a tornar mais conhecida mundo afora. Em 1978 lançou o elepê “Bandeira de aço” (Discos Marcus Pereira), considerado um divisor de águas na música popular brasileira produzida no Maranhão.

O show “Canta Papete”, do cantor, compositor e multi-instrumentista Luiz Jr. Maranhão acontece neste sábado (4), às 21h, no Estaleiro Gastrobar (Rua do Trapiche, Praia Grande, próximo à Praça dos Catraieiros e Casa do Maranhão). O repertório, além dos clássicos do “Bandeira de aço” – assinados por Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe –, passeia por outros compositores gravados por Papete em sua discografia, por músicas que ele gravaria (caso de “Matraca matreira”, de Joãozinho Ribeiro) e por homenagens (“Terreiro”, que Luiz Jr. Maranhão compôs em homenagem a Papete e gravou em seu disco com a participação do homenageado).

“O repertório consiste nas músicas consagradas pelo Papete, começando pelo “Bandeira de aço”, mas eu dei uma atualizada, fazendo um exercício de pensar também em músicas que Papete poderia ter gravado, músicas atuais da cultura popular do Maranhão, além de três músicas autorais, “Saudade de São João”, que eu lancei o videoclipe ano passado, “Zabumbada na ilha” e “Boizinho guerreiro”, que eu fiz em parceria com Celso Borges”, antecipa Luiz Jr. Maranhão.

Luiz Jr. Maranhão (violão sete cordas, guitarra e viola caipira) será acompanhado por Dark (bateria), Marquinhos Carcará (percussão), Cleuton Silva (baixo), Edinho Bastos (guitarra), Murilo Rego (teclado), Danilo Santos (saxofone e flauta) e Hugo Carafunim (trompete). O show contará ainda com as participações especiais do dj Pedro Sobrinho e dos cantores e compositores Josias Sobrinho, Djalma Chaves e Ribinha de Maracanã, além de uma participação surpresa.

Os ingressos custam R$ 50,00 (individual), R$ 90,00 (casadinha) e R$ 250,00 (mesa) e podem ser reservados ou adquiridos antecipadamente pelo telefone/whatsapp (98) 99112-5481 (Tatiana Ramos). A produção é da RicoChoro Produções Culturais.

Serviço
O quê: show “Canta Papete”
Quem: Luiz Jr. Maranhão e banda. Participações especiais: Josias Sobrinho, Djalma Chaves, Ribinha de Maracanã, dj Pedro Sobrinho e convidado surpresa
Onde: Estaleiro Gastrobar (Rua do Trapiche, Praia Grande; próximo à Praça dos Catraieiros e Casa do Maranhão)
Quando: dia 4 (sábado), às 21h
Quanto: R$ 50,00 (individual), R$ 90,00 (casadinha) e R$ 250,00 (mesa)
Informações, reservas e vendas antecipadas: (98) 99112-5481 (Tatiana Ramos).
Produção: RicoChoro Produções Culturais.

Música de brincante

Fotos: Guta Amabile

“Todo brasileiro deveria ter um pandeiro”.

A manchete nunca me saiu da cabeça, uma fala de Antonio Nóbrega quando capa da revista Caros amigos, uma entrevista há quase 20 anos. Foi a frase de que me lembrei quando fui avisar minha esposa e enteada do concerto que ele e a Orquestra Ouro Preto deram ontem (3), no Teatro Arthur Azevedo.

“Tirando a casaca” é um desses espetáculos que não se deve perder por nada.

De certa forma, o encontro de Nóbrega, ex-Quinteto Armorial (que Ariano Suassuna inventou há mais de 50 anos), com a orquestra regida pelo maestro Rodrigo Toffolo, é uma conexão (nunca de todo perdida) com as ideias do dramaturgo, defensor de uma arte genuinamente nacional, que deram origem ao Movimento Armorial, de que o quinteto foi um dos maiores expoentes: a realização de uma música de concerto com raízes profundas nas tradições e na cultura popular brasileira, particularmente do Nordeste.

Não faltam fôlego e disposição ao quase setentão Nóbrega – ele completa 70 anos no próximo dia 2 de maio: canta, toca violino, dança e se diverte enquanto diverte e deleita a plateia. Sentada a meu lado, minha esposa puxou-me a mão para sentir-lhe o arrepio quando ele cantou sua “Excelência”, título que bem poderia referir-se à qualidade do repertório levado ao palco, quase completamente autoral.

São Luís foi a segunda cidade a receber o espetáculo. A temporada 2022 da formação foi aberta na capital mineira, após dois anos de eventos sem plateia, em decorrência da prolongada pandemia de covid-19. Os ingressos a preços populares (R$ 30,00 para qualquer setor do teatro) certamente colaboraram para que o público lotasse a casa – antes do espetáculo, parte dos presentes se deparou com uma espécie de “overbooking”, com alguns lugares tendo sido vendidos em duplicata pelo sistema digital que operava a venda de ingressos, mas logo o problema foi resolvido; este repórter, com ingressos para uma frisa, acabou na plateia. A turnê tem patrocínio do Instituto Cultural Vale, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.

O que se viu foi uma verdadeira comunhão entre público e plateia: a alegria estampada nos rostos, duas violinistas cantarolando o repertório enquanto cumpriam suas funções, o público cantando os refrões quando provocado por Nóbrega, que chegou a se deitar no palco, tão à vontade estava, e mesmo a descer dele para cantar à altura do público. Quando solou uma peça acompanhado apenas de pandeiro e zabumba, chegou a desamarrar o cadarço do tênis do pandeirista e atirá-lo à plateia.

Tudo era literalmente brinquedo.

Nóbrega dedicou a apresentação a Mestre Zumbi Bahia, capoeirista, e ao antropólogo gaúcho Norton Correa, ambos adotados por São Luís. Foi comovente também ouvi-lo cantar “O trenzinho do caipira”, tema de Heitor Villa-Lobos que ganhou letra no “Poema sujo” do maranhense Ferreira Gullar.

O artista esbanjou versatilidade e aqui e acolá arriscou uns passos de frevo e maracatu, ritmos que dominam o repertório do concerto, passeando por várias fases de sua carreira, desde o Quinteto Armorial até temas quase inéditos, executados também na apresentação inaugural da turnê.

Todo brasileiro deveria ter um pandeiro. E poder ir, ao menos uma vez, a uma apresentação de Antonio Nóbrega.

De volta ao microfone da Timbira

Operador de áudio da emissora desde 2011, ele produzirá e apresentará “Tambores do Maranhão”, que vai ao ar aos sábados, às 21h

Luiz Barreto volta à programação da Rádio Timbira. Foto: Leno Edroaldo. Divulgação

Neste sábado (5), às 21h, a Rádio Timbira AM (1290KHz) estreia, em sua grade, mais um programa voltado à cultura. Trata-se de “Tambores do Maranhão”, que marca o retorno do operador de áudio Luiz Barreto ao microfone da emissora da Rua da Montanha Russa.

O programa se soma aos esforços de valorização da cultura pela emissora, que já tem em sua grade “Coisa Nossa” (de segunda a sexta, às 17h, com José Raimundo Rodrigues), “Balaio Cultural” (aos sábados, das 13h às 15h, com Gisa Franco e este repórter), “Baião de dois” (domingos, ao meio-dia) e “Forró para todos” (domingos, das 13h às 15h), estes dois últimos em cadeia com a Educadora FM baiana e outras emissoras públicas nordestinas, repetindo molde e êxito do Giro Nordeste, com foco na música popular produzida na região.

Luiz Barreto começou a trabalhar na emissora em 2011, como estagiário da Faculdade Estácio São Luís, onde estudou jornalismo. Firmou-se na função e desde 2012 ele apresentou o “Timbira Amanhece”, depois “Viva nossa gente” e finalmente “Maranhão especial”, até meados de 2015. Vem daí o apelido-bordão “o seu camarada”, que o acompanha até hoje.

No programa de estreia, Barreto entrevistará o violonista e cantor Roberto Ricci, que aproveita a ocasião para lançar seu novo disco, “Mágica visão”. O programa terá ainda um quadro, intitulado Poesia à beira-mar, dedicado a poetas consagrados e revelações e deve ir além de manifestações como o bumba meu boi e o tambor de crioula, abrindo espaço para nomes da nova geração, dos mais variados estilos.

Também cantor e compositor, com experiência em grupos de bumba meu boi e blocos tradicionais, Luiz Barreto conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

ZEMA RIBEIRO – O que significa para você, operador de áudio da Rádio Timbira, voltar a apresentar um programa voltado à cultura popular do Maranhão?
LUIZ BARRETO – É motivo de grande satisfação e alegria, já que tenho 20 anos dedicados à cultura popular como cantor e compositor, ou seja, me identifico bastante com nossas manifestações, além do que, o tempo em que apresentei o “Viva nossa gente”, que depois passou a se chamar “Maranhão especial”, foi um momento importante, quando novamente pude contribuir com a cultura de nosso estado, desta vez na comunicação social. Vejo essa nova oportunidade como um reencontro com os apreciadores e fazedores de cultura popular no Maranhão.

ZR – “Tambores do Maranhão” é um ótimo nome. Como você chegou a ele? Alguma influência d'”Os tambores de São Luís”, clássico de Josué Montello?
LB – Sim. Teremos um quadro de poesia no programa, apresentando poetas maranhenses já consagrados e abrindo espaço para novos poetas mostrarem seu trabalho. Sem falar que nossa cultura tem enorme influencia dos tambores indígenas e dos negros escravizados, portanto, “Tambores do Maranhão” me pareceu um nome bastante sugestivo.

ZR – Roberto Ricci é o entrevistado do programa de estreia, uma estreia com o pé direito. Qual a importância deste inspirado violonista para a cultura popular do Maranhão?
LB – Ricci é um ícone da nossa música e da cultura popular maranhense. Um cara que já cantou nos principais grupos de bumba meu boi, nos sotaques de orquestra e matraca, como Axixá e Maracanã. Vários blocos tradicionais já venceram carnavais com sambas compostos por ele. Enfim, fico muito feliz de poder entrevistá-lo no primeiro programa, oportunidade em que será lançado seu novo cd, intitulado “Mágica visão”.

ZR – O que mais o teleouvinte da Timbira pode esperar de “Tambores do Maranhão”?
LB – Muita música, entrevista, poesia, dicas, sempre com muito alto astral. Teremos um quadro que já pensei, estamos elaborando para ir ao ar, mas não posso dar detalhes ainda. É surpresa, mas prometo que será muito bacana.

ZR – “Tambores do Maranhão” tem como foco a cultura popular do Maranhão, mesma pauta do “Coisa Nossa”, de José Raimundo Rodrigues. Qual será o diferencial, além do dia e do fato de ser semanal e da duração?
LB – Zé Raimundo é um ícone da comunicação. Eu cresci vendo essa grande mestre se destacar em tudo que fez, ele é referência para muita gente, e não teria como não ser pra mim também. Aliás, sinto orgulho enorme em hoje em dia, tê-lo como colega de profissão, e estar ao lado dele de segunda a sexta no “Coisa Nossa” da Timbira, onde sempre tento colaborar com o repertório ou uma ideia. Para o “Tambores do Maranhão” estamos preparando um programa bem dinâmico, sempre com um entrevistado para falarmos de cultura popular e buscando, a cada sábado, novidades para atrair os ouvintes.

ZR – “Tambores do Maranhão” se alia a programas culturais consolidados, como o “Coisa Nossa”, apresentado por José Raimundo Rodrigues, o “Balaio Cultural”, que eu faço com Gisa Franco (e é invariavelmente operado por você), e os programas “Baião de dois” e “Forró para todos”, que a emissora realiza em cadeia com a Educadora FM baiana e outras emissoras públicas nordestinas. O Nordeste acabou se tornando um foco de resistência cultural diante do desmonte sistemático de políticas públicas para o setor pelo governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, a começar pela extinção do Ministério da Cultura. O que você tem a declarar sobre o assunto?
LB – É, de fato, lamentável a forma como nossa cultura tem sido tratada, mas como você mesmo disse na pergunta, o nordestino é resistente, e eu garanto que resistiremos, e permaneceremos, enquanto eles passarão.

O testamento de Judas 2021

por Cesar Teixeira, jornalista e compositor

Foto: Luiz Barreto

Outra vez sou enforcado
num tribunal ignaro,
mas meu crime prescreveu,
diz um pergaminho raro.
Quem exterminou Jesus
e botou culpa no SUS
foi Messias Bolsonaro.

Quando chegar no Inferno
ele não terá guarida,
pois o Diabo não aceita
gente de língua comprida
com barriga de jumenta,
cabelo de cu na venta
e fama de genocida.

Deixo ao Profeta do Caos
bula do Billy the Kid,
pois, quando bota ministro
na Saúde, há quem duvide:
– Será Marcelo Queiroga
um novo tipo de droga
que vem no Kit-Covid?

O tratamento precoce
é fim que não principia,
mais parece uma garrafa
de aguardente vazia.
Só traz insuficiência
renal e resiliência
da alma em hemorragia.

Deixo pro Ricardo Salles,
que a natureza atazana,
os restos mortais do gado
que acreditou no sacana.
Jogou no abismo a boiada,
que passa, desgovernada,
achando que a Terra é plana.

Para a ministra Damares,
que só trepa em goiabais,
vou deixar o Kama-Sutra
dos traumas celestiais.
Pra massagear o ego
de um pobre Judas cego,
deixo os órgãos genitais.

Deixo na Universidade
o cordel do ABC.
Hoje em dia estudante
só consegue o que dizer
na voz dos mestres Foucault,
Walter Benjamin, Nivô,
Apolônio e Bordieu.

Antes que o Testamento
se torne monografia,
uma camisa-de-força
deixarei para o Messias,
pois agora o rei está nu
entubado pelo cu,
de onde caga ideologia.

Vou deixar uma vacina
de cereais e verduras
pro nosso Mao-Tsé-Tung
não desabar das alturas
ao subir no Sputnik,
depois de um piquenique
com muito doce e gordura.

Para não cair partido
em Rocha capitalista
deixo a foice e o martelo
de cravar nazifascista
e, sem disparar um tiro,
enterrar mais um Vampiro
da corte terraplanista.

Pro ex-ministro Sérgio Moro
da Lawfare se salvar
eu vou deixar o triplex
com sua “conge” em Guarujá.
Pato já virou boneco,
agora é a vez do marreco
cantando Edith Piá.

Deixo para o Presidente,
doutor em Necrofilia,
o cadáver da Amazônia
cujos pulmões esvazia.
E o verde, se despindo,
de luto vai se vestindo,
numa triste asfixia.

Pagar na mesma moeda
em Aurizona eu pretendo,
pois lá a Equinox Gold
o terror vem promovendo.
Leva o ouro pra Gaudéria,
deixa a lama da miséria
em cada cova escorrendo.

É preciso demarcar
nossa herança por inteiro,
interditar o garimpo
e algemar fazendeiro.
A Funai não auxilia,
é pior que epidemia
para o índio brasileiro.

Deixo a Flávio Bolsonaro
a mala de um mascate
para esconder a grana,
sem que Queiroz o delate
por crime de peculato,
lavando dinheiro a jato
em pia de chocolate.

Na Assembleia deixarei
emenda legislativa
que impede o deputado,
em corrupção ativa,
pular cerca da vizinha
pra comer a rachadinha
da amiga Patativa.

Pois cabaço, meus amigos,
hoje é sigilo fiscal
que no Brasil ninguém quebra
se for presidencial,
por isso a mulher do Arruda
vai proteger a Papuda
do governo federal.

Deixo pras Forças Armadas
a batina dos vigários.
Não há generais rebeldes,
pois, muito pelo contrário,
a velada demissão
é a farsa do escorpião
no cangote de otário.

Assumiram Três Patetas,
no cinema um sucesso.
Para o filme “Bolsotralha
e os Três Porquinhos Perversos”
deixo esquadras de papel,
caminhões de carretel
e uma FAB de processos.

Para Kátia Abreu entrego
um cabresto em Testamento
pra botar o ex-chanceler
Ernesto pastando ao vento.
Nos restaurantes da China
carne que tem vitamina
é a carne de jumento.

Bolsonaro é repetente
desde seu Grupo Escolar,
e foi gazeando aula
que se tornou militar.
No quartel só lhe convinha
brincar de explodir bombinha,
e acabou por se queimar.

Na defesa, Braga Netto,
Paulo Guedes, o zagueiro;
no ataque, Bolsonaro,
Augusto Heleno, goleiro.
Com esse time oficial,
que só tem perna-de-pau,
o Brasil tá no atoleiro.

Ele não toma vacina
nem bota anel de tucum.
Na mão de Chico Gonçalves
não terá Direito algum.
Bozo tem medo é de agulha,
da seringa que borbulha
apontando o seu bumbum.

Deixo pro Fernando Cury
um sutiã de mamão
para ficar apalpando
seis meses de suspensão.
Essa pena é pequena,
em respeito a Isa Penna
caberia a cassação.

Para a amiga Rosa Reis
entrego meu borderô,
mantendo o Cacuriá
na UTI do Labô.
Messias pode surtar,
mas temos que vacinar
nosso Jacaré Poiô.

Vou deixar no Laborarte
minha máscara de linho.
No Inferno não tem vírus,
mas o Cão não tá sozinho.
Lá já se espalhou o mito
da língua do Nélson Brito,
herdada pelo Nelsinho.

Deixo para Joãozinho
enfrentar o lockdown
um litro de catuaba
pra de mim não falar mal.
Também deixo um ingresso
pra ele fazer sucesso
dançando no Xirizal.

No Planalto já deixei
a ceia do Capitão:
patê de ivermectina,
azitromicina, pão,
cloroquina e Leite Moça.
Já lavaram até a louça,
que não tem licitação.

Deixo orelhas de burro
nessa ave de rapina,
que negou o Butantan
por causa de uma vacina.
Fez do Brasil um velório
pra vender supositório
de hidroxicloroquina.

Insumos quero deixar
pra ajudar a Fiocruz,
oxigênio em Manaus,
farinha d’água e cuscuz.
Mas, para o mito bandido
deixo um pequi roído
no cocho dos urubus.

O curral não quer tomar
a vacina comunista.
Vitor Hugo e Zambelli
fazem parte dessa lista.
Por isso, deixo a mimosa
vacina de aftosa
pro gado bolsonarista.

A imprensa, que viveu
no AI-5 amordaçada,
por um louco outra vez
está sendo censurada.
Vou botar uma chupeta
com remédio tarja preta
nesse Boca de Privada.

Vou deixar na CCJ
da Câmara Federal
um despacho pra afastar
o atraso, a dor e o mal.
Incentivando motim,
Bia Kicis é pra mim
um verme no lamaçal.

Se há um ministro escroto
é o da Tecnologia,
viu que a Terra é redonda
sem informar a Chefia.
Deixo um foguete da Nasa
pra bem longe desta casa
despachar Jair Messias.

Nas paredes de Alcântara
já colei o personagem,
com o chapéu do Tio Sam
Bolsonaro fez chantagem.
A distribuição de título
foi mais um falso capítulo,
a mais pura maquiagem.

Deixarei a própria corda
que hoje me decide a sorte
de herança aos editores
que publicam minha morte.
Ganhando dinheiro fácil,
me esculhambam no prefácio
sem me dar vale-transporte.

Auxílio Emergencial
deixo até o fim do ano
para os artistas da Feira
que estão se esforçando,
fazendo até hora extra
entre a segunda e a sexta
no bar do Corinthiano.

Em ano de lockdown
e quarentena de Judas
todos querem fazer live,
virou um “deus nos acuda”.
Mire o seu QR Code,
ou então me compre um bode,
no final tudo é ajuda.

Pra acabar com a pandemia
temos que participar
das batalhas contra o golpe
que espalha cepas no ar.
Contra a fome e a impunidade,
o manjar da liberdade
é o Impeachment, Já!

FIM?

Saraus online de RicoChoro ComVida já têm data

[release]

Ano passado o público não pode fazer o que estava acostumado ao longo do segundo semestre: ir para as praças de São Luís prestigiar o projeto RicoChoro ComVida na Praça, já consolidado no calendário cultural ludovicense, que há quatro temporadas estimula o diálogo entre o Choro e a riqueza da música popular brasileira, passando, obviamente, pela diversidade da cultura popular do Maranhão.

A RicoChoro Produções Culturais, no entanto, gravou três saraus em formato online. As gravações aconteceram nos estúdios da TV Guará, em formato talk show, com edições apresentadas por Ricarte Almeida Santos.

Passaram pelo palco os grupos Quarteto Crivador, Regional Caçoeira e Choro da Tralha, e os cantores Anastácia Lia, Dicy, Elizeu Cardoso, Josias Sobrinho, Neto Peperi e Regiane Araújo.

Serviço – A transmissão dos saraus pela TV Guará (canal 23.1 na tevê aberta; 21 na TVN; 323 na Sky HD; e 23 na Net) acontecerá dias 5 (às 22h30), 6 (às 18h) e 7 de fevereiro (também às 18h).

Veja a seguir uma pequena amostra do que vem por aí: Regiane Araújo, acompanhada do Regional Caçoeira, interpreta o clássico “Naquela mesa”, que Sérgio Bittencourt compôs em homenagem a seu pai, o revolucionário Jacob do Bandolim (aproveite e se inscreva no canal RicoChoro Produções Culturais no youtube para não perder as novidades):

Por dentro do boi, para além do espetáculo

Nas entranhas do bumba meu boi. Capa. Reprodução

 

Nas entranhas do bumba meu boi [Edufma, 2018, 112 p.; R$ 25,00, à venda na Banca do Dácio (Estacionamento da Praia Grande) e na Feira da Tralha (Edifício Colonial, próximo ao Teatro Arthur Azevedo)] é justamente o que o título anuncia: um mergulho visceral nos bastidores de um dos mais tradicionais grupamentos da manifestação cultural: o Boi da Liberdade (ou de Leonardo).

Publicado com apoio da Fapema, o livro é a dissertação de mestrado da autora, Marla Silveira, em Cultura e Sociedade, na Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Um texto leve, agradável e em certas passagens bem humorado, para ser lido dentro e fora do ambiente acadêmico, por interessados, apaixonados e curiosos em geral.

Além do próprio convívio da pesquisadora com o grupo ao longo de vários anos, Marla se vale de teóricos da cultura popular – destaque para a saudosa Maria Michol Pinho de Carvalho – e da administração para compreender as dificuldades e estratégias para “botar o boi na rua”, suas relações com o sagrado e com instituições públicas e privadas, mantendo-se fiel às tradições, num tempo em que a “modernização”, para inglês ver, é quase uma exigência.

O Boi de Leonardo (ou da Liberdade) foi fundado em 1956, como pagamento de uma promessa de seu fundador a São João. É do sotaque de zabumba ou Guimarães, município litorâneo de origem do mais antigo dos sotaques de bumba meu boi.

A herdeira – e atual ama do boi – Cláudia Regina Avelar, quinta filha de Leonardo Martins dos Santos (1921-2004), acompanhou os passos da manifestação desde a infância, mas de longe. Nunca havia dançado no boi ou no Tambor de Crioula Poderoso Padroeiro (a outra manifestação que integra esta Sociedade Junina).

Com a morte de seu fundador, ela assumiu a direção, num processo cheio de percalços. Não faltou quem a acusasse de “salto alto”, de prever que ela acabaria com o que o pai construiu ou mesmo que estava ali apenas para ganhar dinheiro. Nas entranhas do bumba meu boi é também uma história de empoderamento feminino e superação de preconceitos.

O livro de Marla demonstra também que o Boi de Leonardo é um dos mais organizados do Maranhão, apto a receber e movimentar recursos públicos de qualquer esfera – é Ponto de Cultura, através de convênio firmado com o Ministério da Cultura (MinC) –, servindo de exemplo a outros grupos, sobretudo de um sotaque erroneamente tido como menos importante, já que supostamente menos atrativo a turistas.

Entre uma visão mais “conservadora”, “dos tempos de Leonardo”, quando o boi era mais fechado com base na opinião “dos antigos”, e a atual, que dialoga com ferramentas da modernidade e com a juventude, o reconhecimento do esforço de se manter viva uma tradição, da qual muitas vezes conhecemos apenas uma nesga que descortinamos por entre 40 minutos e uma hora – tempo médio de uma apresentação num arraial.

Serviço

O pré-lançamento de Nas entranhas do bumba meu boi acontece hoje (31, sábado de aleluia), às 22h, no Ponto de Cultura Boi de Leonardo (Rua Alberto de Oliveira, 150, Liberdade).

O lançamento acontece dia 4 de maio, às 19h, durante a reinauguração do Memorial Cristo Rei (Praça Gonçalves Dias, Centro).

Obituário: Veloso

Veloso, nome fundamental da cultura da Madre Deus. Foto: acervo Philippe Caruru
Veloso, nome fundamental da cultura da Madre Deus. Foto: acervo Philippe Caruru

 

Nunca entrevistei Veloso. A última vez que o vi foi no Cafofo da Tia Dica. Na ocasião, presenteou a mim e ao compositor Cesar Teixeira, com quem eu bebia no bar por detrás da Livraria Poeme-se, na Praia Grande, com exemplares do mais recente disco da Máquina de Descascar’alho, agremiação carnavalesca que completou 30 anos no último carnaval.

Indaguei-lhe quanto custava e ele respondeu-me que o importante era fazer o disco rodar e tornar mais conhecida a música, o carnaval e a cultura da Madre Deus. O Fuzileiros da Fuzarca completava 80 anos e eu havia acompanhado Cesar, jornalista de formação, em algumas entrevistas.

A vida é a arte do encontro: nem Cesar escreveu sobre os 80 anos do Fuzileiros, com cuja velha guarda deve fazer um show em breve, nem eu sobre os 30 da Máquina.

Patrimônio madredivino, como nomes como Cristóvão Alô Brasil, Marciano, Henrique Sapo e Caboclinho, José de Ribamar Gomes Veloso (9/9/1948-13/8/2016) morreu ontem, aos 67 anos, vítima de cirrose hepática.

Artesão, compositor, percussionista, produtor, decorador e intérprete, trazia na memória sambas inéditos da velha guarda da Madre Deus, de nomes como os citados – parte desta riqueza se perde com ele.

Além da Máquina de Descascar’alho – que realizou um grandioso cortejo pelas ruas da Madre Deus em sua homenagem – Veloso fundou grupos como o Regional 310, Boi Barrica, Bicho Terra e C. de Asa. Era um dos agitadores do evento mensal Tezão de Velho, no Largo do Caroçudo, na Madre Deus – a edição de hoje foi cancelada em respeito ao luto da família, do bairro e da cultura popular maranhense.

Silvério Costa, o Boscotô, parceiro de grupos como o Regional 310 e a Máquina de Descascar’alho, lembra a importância do amigo. “Veloso estava sempre de bom humor, era querido por todos, por sua irreverência, suas histórias e ideias inovadoras. Com ele se vai um pedaço importante de nossa memória”, lamentou.

Autor de hits do carnaval do Maranhão como A laska e Barreira sanitária, parceiro de Erivaldo Gomes em Malementa, durante muito tempo hit bastante apreciado pelos frequentadores da semanal A vida é uma festa, do poeta-músico ZéMaria Medeiros, entre outras, Veloso deixou quatro filhos, entre eles o cavaquinhista Kauê Veloso.

*

OBITUÁRIO: JOMAR MORAES

O escritor Jomar Moraes. Foto: Acervo O Imparcial
O escritor Jomar Moraes. Foto: Acervo O Imparcial

Faleceu na manhã de hoje o escritor vimarense Jomar Moraes (6/5/1940-14/8/2016), presidente da Academia Maranhense de Letras (AML) por 11 mandatos, autor de livros como Guia de São Luís, O físico e o sítio, Graça Aranha e Vida e obra de Antonio Lobo, entre outros.

Segundo informações, Moraes tinha problemas renais e durante a madrugada uma crise afetou seu coração. Há quase um ano ele doou sua biblioteca, com cerca de 40 mil volumes, à Universidade Federal do Maranhão (UFMA), instituição na qual formou-se bacharel em Direito e recebeu o título de Doutor Honoris Causa.

Catirina e Pai Francisco em quadrinhos – para além do auto do bumba meu boi

Catirina e Pai Francisco. Capa. Reprodução
Catirina e Pai Francisco. Capa. Reprodução

 

O quadrinhista Beto Nicácio volta ao universo da cultura popular do Maranhão em Catirina e Pai Francisco [Dupla Criação, 2016, 40 p.], nova hq que lança hoje, às 19h, na Galeria do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande).

Em preto e branco, optando pela limpeza típica do cartum (também uma linguagem pela qual o autor se aventura), a revista vai além do auto do bumba meu boi, remontando ao ciclo do gado, quando Pai Francisco ainda era criança e seu pai deu a vida para salvar o dono da fazenda, seu patrão.

O que Beto Nicácio faz é uma livre adaptação da lenda, talvez a enriquecendo. Não concentra-se apenas no enredo em que Catirina, grávida, deseja a língua do mimoso, o boi predileto do patrão. Embora não fuja dele.

Caminho natural da publicação seria adentrar o ambiente de escolas públicas e privadas, contribuindo para a difusão da cultura popular do Maranhão, em linguagem acessível para todas as idades. A revista tem a preocupação didática de, ao final, explicar detalhes, propor atividades e o consequente aprofundamento dos leitores em temas abordados na história em quadrinhos.

Autor, entre outros, de A lenda da carruagem encantada de Ana Jansen, sobre outra conhecida lenda destas plagas, o autor já tem outros projetos mixando as tradições do Maranhão e a nona arte. Mas cada coisa a seu tempo e agora é tempo de São João.

A noite de autógrafos será regada a mingau de milho e na ocasião, uma arte original da hq será sorteada entre os presentes. A revista custa R$ 20,00.

Pra encher a caveira!

Sempre que ouço falar em algo relativo à cultura mexicana algumas coisas me vêm à cabeça.

Uma cena de uma comédia romântica em que o personagem de Adam Sandler, em plena lua de mel, é (per)seguido por um grupo de mariachis e, perdendo a paciência, distribui um couvert artístico às avessas: paga para não ser perturbado, quer apenas conversar com sua esposa.

Lembro também da piada recorrente, que afirma terem os restaurantes mexicanos a melhor comida, ao contrário da música ao vivo. E do finado Miguelitos, cuja cozinha era especializada nas iguarias do país de Frida Kahlo – saudades, micheladas!

Incrivelmente lembro também de uma camisa que usei, com dois ratos trajando sombreiros, qual Ligeirinho – arriba!, arriba!, arriba! – com a inscrição, embaixo: México 86, quando o país sediou pela segunda vez uma Copa do Mundo de futebol.

Segunda-feira (2) é feriado no Brasil: dia de finados. Nunca tive o costume de visitar cemitérios ou acender velas, embora lembre meus mortos (e não apenas esse dia). Em Olinda, há alguns anos, toquei o mármore do túmulo de Dom Helder Câmara, que fica em uma igreja na cidade pernambucana, e estranhamente considerei o ato algo importante da viagem – como se fosse parte do “turismo” que teimo em fazer mesmo quando viajo “a trabalho”, se é que me entendem. Também confesso a vontade de, um dia, visitar a sepultura de Sérgio Sampaio. Mas são exceções.

De resto, o Dia de Finados é como uma data marcada no calendário em que todos seríamos obrigados a ser tristes – o que nunca aceitei direito. Quando criança, lembro ainda, nem música se podia ouvir.

Na contramão de minhas lembranças, a festa Viva la Muerte acontece hoje (30), às 19h, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande), festejando, por mais contraditório que possa parecer, o Dia dos Mortos, feriado celebrado a 1º. de novembro na América Latina – quando no Brasil o calendário marca o Dia de Todos os Santos.

Música ao vivo com Los Mariachis de Virgulino (o grupo General Virgulino convertido especialmente para a ocasião) e o DJ Jorge Choairy. Os convidados que desejarem serão caracterizados com maquiagem neon inspirada nas caveiras mexicanas.

O make up temático será feito por Luciano Teixeira e Camila Abreu. A festa tem produção da Carruagem Produções, que tem primado por festas temáticas na capital maranhense, prestando agora sua reverência à data, reconhecida em 2003 Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade pela Unesco.

“A morte tem tanta certeza que vai te pegar que te dá uma vida inteira de vantagem”, diz o dito popular mexicano. Enquanto seu dia não chega, que tal aproveitar?

Divulgação
Divulgação

Laborarte comemora 43 anos com vasta programação

Trupe do Laborarte em foto de data e autoria não identificadas. Da esquerda para a direita: Claudio Ribeiro, Zeca Baleiro, Joãozinho Ribeiro e Jorge "Cara de Borracha"; abaixo: Jorge do Rosário, Rosa Reis, Paulinho Oliveira e Saci Teleleu
Trupe do Laborarte em foto de data e autoria não identificadas. Da esquerda para a direita: Claudio Ribeiro, Zeca Baleiro, Joãozinho Ribeiro e Jorge “Cara de Borracha”; abaixo: Jorge do Rosário, Rosa Reis, Paulinho Oliveira e Saci Teleleu

 

Diversos movimentos convergiram para o nascente Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão, o Laborarte, fundado em 11 de outubro de 1972. Música, teatro, artes plásticas, fotografia, cultura popular: para tudo havia espaço em seus departamentos, ocupados por nomes que fariam história neste estado, como Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Sérgio Habibe, Murilo Santos, Wilson Martins, Regina Telles, Tácito Borralho, Rosa Reis, Nelson Brito, Mestre Patinho, Dona Teté e Joãozinho Ribeiro, entre outros, em diferentes épocas.

O Labô, como é comumente chamado pelos mais íntimos, completa 43 anos domingo (11) e preparou vasta programação, inteiramente gratuita, para comemorar. Ano que vem, o casarão 42 da Rua Jansen Müller (Centro) será enredo da Escola de Samba Flor do Samba no carnaval.

Ao longo da programação (veja completa ao final do post), uma videoinstalação apresentará documentários, espetáculos e outros acervos históricos do Laborarte, acumulados ao longo de mais de quatro décadas de atividades ininterruptas.

Entre as montagens iniciais merecem destaque Espectrofúria [1972], recentemente reencenada, sobre texto de Eduardo Lucena, que recebeu o prêmio de Melhor Plasticidade no Festival Nacional de Teatro Jovem em Niterói/RJ, Os Sete Encontros do Aventureiro Corre-Terra ou O Cavaleiro do Destino, de Josias Sobrinho e Tácito Borralho [prêmio Mambembe de 1978], Agonia do Homem [1972], poemas de Nauro Machado adaptados por Otto Prado, Mártir do Calvário [1973], em que Ubiratan Teixeira interpretou Pilatos, e Marémemória [1974], baseado no livro-poema homônimo de José Chagas, cuja foto de Josias Sobrinho e Cesar Teixeira fazendo um par de violeiros encabeça este blogue.

De 30 anos de Laborarte, reportagem do último, aliás, cato informações para este texto. O do compositor-fundador foi publicado em 19 de outubro de 2002 no Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante, do Jornal Pequeno, e está também na coletânea Maranhão Reportagem [Clara Editora, 2002], organizada por Félix Alberto Lima.

Entre os destaques da programação de aniversário, acontece hoje (9) a noite de autógrafos dos livros Cantigas Divinas, em que Camila Reis, com transcrições de Gustavo S. Correia e ilustrações de Layo Bulhão, transpõe para partituras, cantos entoados nos festejos do Divino e na dança do Cacuriá, e Vem cá curiar o cacuriá, de Inara Rodrigues, sobre a dança em que ambas as autoras dão – ou já deram – passos. O primeiro tem patrocínio da Fundação Cultural Palmares e Ministério da Cultura; o segundo foi premiado no Concurso Literário Cidade de São Luís.

Moda, dança e poesia dão o tom da noite de amanhã (10). A partir das 20h Tieta Macau, Deuzima Serra, Moisés Nobre e Raimunda Frazão – uma das homenageadas da 9ª. Feira do Livro de São Luís – apresentam performances nas áreas.

Na sequência, Joãozinho Ribeiro atrela à programação de aniversário do Laborarte o show que tem apresentado ao longo deste ano, lançando seu disco de estreia, Milhões de uns – vol. 1. Nesta ocasião, a apresentação terá as participações especiais de Josias Sobrinho e Rosa Reis.

“Para mim é uma honra e um prazer fazer valer o dito popular, “o bom filho à casa torna”. Minhas relações com o Labô têm tempo e história”, declarou o compositor, autor da maioria das músicas do espetáculo carnavalesco-teatral Te gruda no meu fofão. “Alegria maior ainda é poder dividir o palco com Josias Sobrinho e Rosa Reis, nomes de importância fundamental, em diferentes épocas, para o surgimento e a continuação do Laborarte nas trincheiras em prol de nossa cultura popular”, continuou. “Darei um presente ao Laborarte, o público pode esperar uma surpresa”, prometeu, deixando o mistério no ar.

A noite de sábado guarda espaço ainda para show das Afrôs e a programação se encerra no domingo de aniversário (11), com um cortejo do Cacuriá de Dona Teté na Feira do Livro (Praia Grande), às 17h30, cujo encerramento também acontece na data.

Como afirmou Cesar Teixeira em seu texto de há 13 anos, “nomes de pessoas e considerações sobre o trabalho do Laborarte não caberiam nesta página – dariam um livro”. Faça parte dessa história!

Programação

Hoje (9), a partir das 20h

Receba! – Dança, Negritude, Pertencimento, com Luana Reis
Noite de autógrafos dos livros Cantigas Divinas, de Camila Reis, e Vem Cá Curiar o Cacuriá, de Inara Rodrigues
Instalação fotográfica Chuseto, de Jesús Pérez
Videoinstalação – documentários, espetáculos e outros acervos históricos do Laborarte
Roda de Capoeira Angola com os mestres Nelsinho, Patinho e convidados
Shows de Rosa Reis e Camila Reis
Palco livre

Amanhã (10), a partir das 20h

Exibição de vídeo de Moda e intervenção Beltranesca, com Tieta Macau
Solo de dança popular com Deuzima Serra
Performance Poéticas, com Moisés Nobre, Raimunda Frazão e convidados
Show de Joãozinho Ribeiro – Lançamento do cd Milhões de uns, com participação especial de Josias Sobrinho e Rosa Reis
Cânticos aos 43 anos de Laborarte
Show das Afrôs

Domingo (11), às 17h30

Cortejo do Cacuriá de Dona Teté na 9ª. Feira do Livro de São Luís (Praia Grande)

Cantos da jornada

O Ilumiara em apresentação no Sesc/DF. Foto: Rafael Carmona/ Sistema Fecomércio/DF
O Ilumiara em apresentação no Sesc/DF. Da esquerda para a direita: Leandro Cesar, Marcela Bertelli, Alexandre Gloor, Letícia Bertelli e Carlinhos Ferreira. Foto: Rafael Carmona/ Sistema Fecomércio/DF

 

Com mais ou menos um ano e meio de existência e um recém-lançado disco de estreia, o grupo Ilumiara abre a temporada maranhense do circuito Sesc Sonora Brasil 2015 em São Luís, hoje (12), às 19h, no Teatro Alcione Nazareth (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com entrada gratuita. O grupo se apresenta ainda em Caxias, dia 16 (quarta-feira), no mesmo horário, na Sala de Cultura Martinha Cruz (Sesc), também com entrada gratuita (veja programação completa ao final).

O grupo é formado por Alexandre Gloor (rabecas), Carlinhos Ferreira (percussão), Leandro Cesar (violão e marimba), Letícia Bertelli (voz) e Marcela Bertelli (voz), que conversou com o blogue.

“O Ilumiara surgiu como um grupo de pesquisa em música. Somos músicos, mas temos uma paixão muito grande pelas culturas populares, pela pesquisa. Já tínhamos, inclusive individualmente, um acervo grande de composições pesquisadas e a gente partiu desse trabalho, dessa pesquisa previamente realizada por cada um de nós”, revelou Marcela, sobre o processo de feitura de Ilumiara, o disco de estreia, e a participação no Sonora Brasil, cujo tema este ano é “Sonoros ofícios – cantos de trabalho”.

Ilumiara tem 12 faixas, que podem ser ouvidas no soundcloud do grupo. Entre os temas o Auto do fim de capina, Lavadeira, Toadas de remeiros, Canto do tropeiro, Machadeiros, Fiandeiras e Vissungo, com participação especial de Sérgio Pererê.

Além das pesquisas in loco dos próprios membros do grupo, seus integrantes levaram em conta o trabalho de importantes “desbravadores”, como Mário de Andrade [poeta, romancista, crítico literário e musicólogo], Oswaldo de Souza [compositor de obra fortemente influenciada por temas folclóricos] e Aires da Mata Machado Filho [filólogo pioneiro no registro de um dialeto crioulo falado por descendentes de escravos em Minas Gerais e vissungos – canto de trabalho exclusivamente utilizado por escravos mineradores de Diamantina].

Marcela também revelou a felicidade em integrar o projeto. “Participar do Sonora Brasil tem sido, desde o início, desde o convite, quando ele chegou, e até agora, mesmo circulando, de uma gratidão muito grande, de uma alegria imensa. Imagina, para um músico, poder circular o Brasil todo, 130 cidades, todo o território nacional, todos os estados do país. Isso para qualquer músico, apaixonado pelo Brasil, ligado à questão das culturas tradicionais do Brasil é de uma alegria gigante, uma alegria imensa”.

Com 18 anos, o Sonora Brasil é o maior projeto de circulação musical do país, tendo sido ampliado ao longo dos anos – quando o maranhense João Pedro Borges participou, ao lado do violonista gaúcho Daniel Wolff, em 2009, por exemplo, eram “apenas” 80 cidades. Aos poucos a ideia foi sendo abraçada pelas regionais do Sesc no Brasil. A cantora elogia a preocupação do Sesc com os temas eleitos a cada edição: “o Sonora não está preocupado com a divulgação do trabalho dos artistas. É uma proposta de divulgação de um repertório, de certo tipo de música, de certo repertório para formação de público, de ouvintes. O que eu acho mais interessante é que não é uma formação localizada, é uma formação cultural, mais ampla. Por isso que o Sonora sempre busca essa relação com os temas, a música informada. Isso, para nós, tem um valor imenso. Não estamos circulando com o objetivo de divulgar o Ilumiara, mas de contribuir com essa formação de plateia, essa formação de ouvintes. Por isso é um concerto muito conversado, a gente conversa com a plateia, o repertório não partiu de uma necessidade de divulgar especificamente os nossos instrumentos, a nossa voz, mas foi todo pensado com esse objetivo também de contribuir para a formação do público”, disse.

O nome do grupo é uma palavra forjada, lapidada por Ariano Suassuna, saudoso autor de O auto da compadecida, entre outros. “Já tem um tempo que ele fala essa palavra, “ilumiara”, a gente tomou emprestada dele, pedimos autorização dele para usar essa palavra como trabalho. Iara é altar, é lugar sagrado, ligado também à questão das águas, dos rios, Iara como altar de beira de rio”, revelou Marcela.

“A proposta do Ilumiara é muito lançar luz, ilumiar, iluminar uma expressão da música brasileira, uma expressão da cultura brasileira na música especificamente. A gente percebe que tem uma função de lançar luz sobre um universo que a gente entende como sagrado, que está num espaço que expressa uma condição humana, que tem uma amplitude maior que a música em si. Os cantos de trabalho expressam uma vasta cultura do homem. Ele canta para dar sentido a algo muito maior, a uma necessidade, a um desejo muito mais amplo do que simplesmente projetar a voz em canto. A função dos cantos é determinada por outros fatores muito mais amplos. Então ilumiar, essa expressão, revelar aquilo de sagrado que ela contem, por isso Ilumiara”, continua.

O Ilumiara se distingue dos outros três grupos que percorrem o país nesta edição do Sonora Brasil, “por sermos músicos, artistas que fazem uma interpretação a partir de arranjos mais elaborados, uma instrumentação específica”, explicou Marcela. O grupo também trabalha a construção dos instrumentos, com as marimbas de Leandro César, além de uma ronda, instrumento inventado por ele, e quase todos os instrumentos de percussão feitos por Carlinhos Ferreira.

Ela não poupou elogios às formações que completam o circuito com o Ilumiara. “É importante destacar o Sonora Brasil como mostra de um repertório. A gente está abrindo a mostra aqui em São Luís, mas logo depois de nós vêm os outros três grupos de tradição: As Quebradeiras de Coco Babaçu, aqui do Maranhão mesmo, inclusive, que fazem parte de um grupo muito mais amplo, mobilizado nos estados do Pará, do Piauí e do Tocantins, as trabalhadoras da cultura extrativista; também as Destaladeiras de Fumo de Arapiraca, com o Mestre Nelson Rosa [mestre de coco de roda, patrimônio vivo do estado de Alagoas], um grupo maravilhoso, muito, muito bonito, muito criador do próprio canto; e As Cantadeiras do Sisal e mais dois aboiadores de Valente, na Bahia [Ailton Aboiador e Ailton Jr., pai e filho]. Eles carregam uma força, acho que muito maior que nós, pelo fato de serem grupos de tradição, serem grupos que realizam no cotidiano, a tarefa, o ato de cantar ligado àqueles ofícios que são expressos no canto deles”, revelou.

Sesc Sonora Brasil no Maranhão – Programação (sempre às 19h, entrada franca)

São Luís/MA, Teatro Alcione Nazareth (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande)

Grupo Ilumiara/MG, 12 de setembro
Destaladeiras de Fumo de Arapiraca/AL, 15
Cantadeiras de Sisal e Aboiadores de Valente/BA, 17
Quebradeiras de Coco Babaçu/MA, 19

Caxias/MA, Sala de Cultura Martinha Cruz (Sesc)

Cantadeiras de Sisal e Aboiadores de Valente/BA, 15 de setembro
Grupo Ilumiara/MG, 16
Quebradeiras de Coco Babaçu/MA, 17
Destaladeiras de Fumo de Arapiraca/AL, 19

Agenda Ilumiara

Setembro

14 Teresina/PI
18 São Lourenço da Mata/PE
19 Goiana/PE
21 Jaboatão do Guararapes/PE
22 Limoeiro/PE
23 Surubim/PE
25 Caruaru/PE
26 Belo Jardim/PE
27 Arco Verde/PE
28 Buíque/PE
29 Serra Talhada/PE

Outubro

1º Triunfo/PE
2 Araripina/PE
3 Carnaíba/PE
4 Bodocó/PE
5 Petrolina/PE
7 Fortaleza/CE
8 Sobral/CE
10 Iguatu/CE
11 Crato/CE
13 Juazeiro do Norte/CE
30 Gurupi/TO
31 Palmas/TO

Novembro

2 Barreiras/BA
4 Vitória da Conquista/BA
5 Jequié/BA
6 Santo Antônio de Jesus/BA
7 Feira de Santana/BA
9 Paulo Afonso/BA
11 Rio Branco/AC
13 Castanhal/PA
14 Belém/PA

Obituário: Pai Euclides

Foto: Márcio Vasconcelos
Foto: Márcio Vasconcelos

 

“Ninguém imagina que alguém que dança como ele dançava pode um dia morrer de infarto”, lamentou minha esposa, a meu lado no carro, após ler a notícia num grupo de whatsapp. Depois do susto e antes do comentário, murmurou, triste: “Pai Euclides morreu”.

Euclides Menezes Ferreira ou Euclides Talabyan era o líder religioso da Casa Fanti-Ashanti, localizada no Cruzeiro do Anil, bairro da periferia da capital maranhense. Tinha 78 anos e estava internado no Hospital Carlos Macieira desde a última sexta-feira (14), após sofrer um infarto agudo do miocárdio. Faleceu ontem (17) à tarde.

Fundada em 1958, a Casa Fanti-Ashanti, ligada à nação jeje-nagô, está sediada no Cruzeiro do Anil desde 1964. Além de ser um dos mais importantes terreiros de culto afro do Brasil, é mais que um templo das religiões de matriz africanas: constitui-se em verdadeiro patrimônio cultural brasileiro, um celeiro de manifestações da cultura popular do Maranhão.

As vidas de Pai Euclides e da Casa Fanti-Ashanti confundiam-se, tendo partes registradas em obras como o livro-documentário Pedra da memória, da musicista e pesquisadora Renata Amaral, e a exposição Zeladores de voduns, do fotógrafo Márcio Vasconcellos. Ainda na década de 1990 o antropólogo Hermano Vianna visitou a casa, mostrando sua riqueza cultural para todo o país, através do projeto Música do Brasil, exibido pelo canal MTV.

Incorporando o caboclo Corre-Beirada, Pai Euclides era o principal autor das toadas do Bumba Meu Boi de Encantado Garotos do Cruzeiro, manifestação sediada na Fanti-Ashanti. Por lá também é possível ver e ouvir, nas diversas festas realizadas na casa ao longo do ano, o Tambor de Mina, Tambor de Crioula, Candomblé, Pajelança, Samba Angola, Mocambo, Canjerê, Festa do Divino, Baião de Princesas e o Tambor de Taboca. As duas últimas tiveram cds gravados pelo projeto Turista Aprendiz, desenvolvido pelo grupo musical A Barca. O Bumba Meu Boi Garotos do Cruzeiro teve disco lançado em 2009, fruto do Prêmio Interações Estéticas – Residências Artísticas em Pontos de Cultura, da Funarte, produzido e dirigido por Renata Amaral.

“Adeus, dona da casa/ São João já deu as ordens/ temos que nos despedir/ dê-me um aperto de mão/ também quero agradecer/ com gosto por nos servir”, versa a toada Despedida (Euclides Menezes Ferreira), no citado disco.

Em dezembro passado, por iniciativa do então vereador Nelsinho Brito (PT), Pai Euclides foi agraciado com a medalha Simão Estácio da Silveira, maior honraria concedida pela Câmara Municipal de São Luís.

A partida de Pai Euclides é uma perda irreparável para a religiosidade e a cultura maranhenses. Certamente continua vivo entre nós, no legado e na memória.

Camila Reis Brito mergulha no universo do Divino e do Cacuriá em livro pioneiro

Cantigas Divinas. Capa. Reprodução
Cantigas Divinas. Capa. Reprodução

 

Até a abertura dos cursos de música das universidades Estadual e Federal do Maranhão a Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, fundada em 1974, foi, durante muito tempo, responsável pela formação da quase totalidade de nossos músicos em atividade. Durante um bom período foi também questionada com base em uma equação simples: se a maioria dos músicos ali formados iria atuar com cultura popular, em carreiras solo ou em grupos, por que a base do currículo era erudita?

As coisas vêm mudando pouco a pouco, mas partindo dessa premissa, a musicista Camila Reis Brito lança hoje (17), às 19h, no Laborarte (Rua Jansen Müller, 42, Centro), com entrada franca, o livro Cantigas Divinas [Laborarte, 2015, 41 p., distribuição gratuita, disponível para download no site do projeto], conjunto de partituras de músicas executadas por caixeiras, na Festa do Divino Espírito Santo e no Cacuriá – dança tipicamente maranhense originada na festa e coreografada em seu encerramento. O livro será distribuído gratuitamente a escolas, bibliotecas e instituições de ensino de música.

Filha de dois expoentes da cultura popular do Maranhão, o ator e diretor Nelson Brito e a cantora Rosa Reis, Camila, qual os pais, membro do Laboratório de Expressões Artísticas (Laborarte) e brincante do Cacuriá de Dona Teté, pioneiro e mais famoso grupo da dança, indagava-se o porquê de nunca ter visto, no currículo de sua formação musical, peças – do Divino e do cacuriá – que faziam parte de seu círculo de convivência na cultura popular.

Daí surgiu a ideia de Cantigas Divinas, realizado pelo Laborarte com patrocínio da Fundação Cultural Palmares e Ministério da Cultura, em que ela e o cantor, compositor e professor Gustavo S. Correia transcrevem 20 partituras de músicas bastante conhecidas de foliões e “folioas” do Divino (e do cacuriá). A obra é ilustrada por Layo Bulhão, coordenador do Festival de Arte Contemporânea do Maranhão e da revista Insight Photo.

As cantigas são apresentadas “em linguagem infantil e didática com o objetivo de possibilitar que estas músicas façam parte de trabalhos de iniciação musical e de fazer um registro destas em formato de partitura”, afirma a autora na apresentação do livro. O livro de Camila deve interessar não só a maranhenses, já que a Festa do Divino Espírito Santo é uma manifestação de catolicismo popular presente em todo o território nacional.

Nas páginas de Cantigas Divinas estão contemplados um breve histórico acerca da festa, de quem a faz, do cacuriá, além de um glossário. Nas partituras estão cantigas de todas as fases dos festejos. O leitor ou músico, como se em procissão, passeia por versos que emocionam, como “meu Divino Espírito Santo/ a vossa capela cheira/ cheira cravo, cheira rosa/ cheira flor de laranjeira” (de Cheira flor de laranjeira), a músicas tornadas hits pela saudosa voz de Almeirice da Silva Santos, mais conhecida pela alcunha de Dona Teté. Quem não já cantou (e/ou dançou) o Choro de Lera, Passarinho verde, Mariquinha, Jacaré e Jabuti? Todas as músicas do livro são de domínio público.

Cantigas Divinas reúne em sua feitura as doses certas de necessidade, ineditismo, devoção e paixão. Um livro importante não só para os que fazem a cena da cultura popular do Maranhão, mas também para eruditos e mesmo àqueles que só cantam no chuveiro ou ninando as crianças.

Obituário: Apolônio Melônio

 

Apolônio Melônio (23 de julho de 1918 – 2 de junho de 2015) tinha poesia até no nome. Nenhum outro bumba meu boi tinha nome mais apropriado para (res)guardar os seres mágicos que habitavam aquela Floresta, em especial os cazumbás. Tamanha foi sua devoção à Floresta que o grupo tanto era chamado Boi da Floresta como Boi de Apolônio. Faleceu na noite de ontem (2), aos 96 anos, vítima de insuficiência renal após duas semanas internado.

Dessa vez é verdade, após duas barrigadas: uma há poucos dias, fruto do irresponsável jornalismo nosso de cada dia, que publica sem checar; outra, há muito tempo, em 1954, quando um jornal listou-o entre as vítimas do Maria Celeste, navio em que trabalhava – foi estivador –, que afundou após um incêndio.

“Mestre Apolônio havia escapado espetacularmente, prendendo o fôlego e mergulhando por metros e metros sob a superfície do mar em chamas. Nos intervalos do fogaréu sobre as águas, emergia para respirar. Assim conseguiu alcançar a Beira Mar”, lembrou recentemente o cineasta e professor universitário Murilo Santos, em uma rede social.

Nascido em São João Batista – outra predestinação, nascer em lugar com nome de santo junino – Mestre Apolônio veio para São Luís em 1939. Há 42 anos fundou o Boi da Floresta. Antes, com o saudoso Coxinho, foi um dos fundadores do Boi de Pindaré, do mesmo sotaque do grupamento que agora perde seu líder.

“Apolônio foi muito grande em tudo. Fez um trabalho lindo na Floresta, que segue. Tem que ter investimento no bumba meu boi o ano todo, para gerar renda, lazer, turismo, conhecimento”, defendeu a jornalista Giselle Bossard, diretora e roteirista de Brincando na floresta [Brasil, 2014, 30 min.], que ilustra este obituário, documentário curta-metragem sobre o boi e seu amo. Ela é favorável à garantia de um auxílio-saúde e um valor mensal para os mestres de cultura popular a partir de determinada idade. “Estes mestres precisam, levam uma vida pesada”, defende.

Em 2007 Mestre Apolônio foi um dos contemplados com o Prêmio Culturas Populares Mestre Duda 100 anos de Frevo, concedido pelo Ministério da Cultura (MinC). Traduzindo as necessidades apontadas por Bossard, à época, o dinheiro do prêmio custeou um tratamento de saúde do artista.

Júlia Emília lança livro com vivências do Teatrodança como parte das comemorações dos 30 anos do Grupo

Vivendo Teatrodança - Investigações de uma artista maranhense para crianças de qualquer idade. Capa. Reprodução
Vivendo Teatrodança – Investigações de uma artista maranhense para crianças de qualquer idade. Capa. Reprodução

 

A história do Grupo Teatrodança se confunde com a própria vida da artista – difícil enquadrá-la em apenas um ramo das artes – Júlia Emília, que o fundou em 1985 e o dirige desde então. Mas seu envolvimento com as artes começa bem antes.

Hoje (26), às 19h, no Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão (Rua do Giz, 59, Praia Grande, próximo à Praça da Faustina), ela lança Vivendo Teatrodança – Investigações de uma artista maranhense para crianças de qualquer idade [2015, R$ 20,00 no lançamento], publicado através da seleção no edital de literatura de 2014 da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema), em que (re)conta parte dessa história. No lançamento Eline Cunha, Luciana Santos, Sandra Oka e Victor Vieira apresentarão intervenções originais sobre suas relações afetivas com o Grupo Teatrodança e temáticas da nova investigação em processo.

A própria Júlia Emília se apresenta, na orelha da obra: “Filha de família intelectualizada tive um pé na sapatilha clássica e outro nos terreiros das culturas populares maranhenses, sem populismo postiço”. Bem lhe traduz também um poema, não por acaso citado no livro, do dramaturgo alemão Bertolt Brecht: “Eu era filho de pessoas que tinham posses./ Meus pais puseram um colarinho engomado ao redor de meu pescoço/ E me educaram no hábito de ser servido/ E me ensinaram a arte de dar ordens./ Mas, mais tarde, quando/ Olhei ao redor de mim,/ Não gostei das pessoas de minha classe/ Nem de dar ordens, muito menos de ser servido./ E abandonei as pessoas de minha classe/ Para viver ao lado dos humildes”.

Sobre ela, assim se refere o poeta Ferreira Gullar: “Júlia é uma artista muito autêntica, trabalhando no resgate de um tipo de aproximação da cultura popular de maneira muito sensível”. O cantor e compositor Zeca Baleiro endossa: “É uma artista muito intensa, muito verdadeira”. O segundo musicou os versos de cordel do primeiro e ambos assinaram a trilha de Bicho solto buriti bravo, uma das investigações abordadas em Vivendo Teatrodança – longe de soar pedante, é realmente difícil classificar o trabalho de Júlia Emília como espetáculo de dança ou espetáculo de teatro. Simplesmente os rótulos não lhes comportam.

No livro, a autora remonta brevemente os 30 anos de história do Grupo Teatrodança, antes passeando por sua trajetória artística, confessando influências – Angel e Klauss Viana, Teresa D’Aquino, Stanislavski e Grotowski, entre outros – e vivências – o Teatro Ventoforte, o Centro de Criatividade do Méier, além do Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão (Laborarte) e do Estúdio Pró-Dança, entre outros. A obra se completa com os textos das investigações O baile das lavandeiras e Meninos em terras impuras e aborda desde a fundamentação das peças, elencos, apresentações, dramaturgias e partituras. Na música se misturam nomes como Apolônio Melônio – do bumba meu boi da Floresta, atualmente internado em estado grave –, Carlinhos Veloz, Chico Maranhão, autos do pastor maranhense e do pastoril pernambucano e, entre muitas outras referências, as bandas de pop rock R.E.M. e Coldplay. Também soam pelas páginas de Júlia Emília e palcos frequentados pelo Teatrodança, também devidamente listados na obra, os tambores de mina e crioula, o lelê de São Simão, a dança de São Gonçalo, a poesia da escritora Maria Firmina dos Reis e a lenda da serpente (ou a serpente da lenda), para citar algumas de nossas melhores tradições.

Mas não é – ou ao menos não deveria ser – só ao “povo” do teatro e da dança que interessa a obra de Júlia Emília (e do Grupo Teatrodança): ao longo destes 30 anos e, especificamente nas vivências abordadas em Vivendo Teatrodança, estão colocadas, de forma mais ou menos sutil, preocupações políticas e ambientais – a terceira investigação, “Meninos em terras impuras, dentro da noção de corpo ambiental foi escrito em 2011, para denunciar a degradação a que a área metropolitana da Grande Ilha está submetida”.

Retornamos ao texto da orelha, em que Júlia Emília admite não ter “vergonha de nascer em terra espoliada, de expor meus exercícios de aculturação, de registrar dramaturgias que nem sei se serão publicadas exatamente por acreditar que o texto eterniza a cena”. O lançamento de Vivendo Teatrodança é parte das comemorações de 30 anos do Grupo homônimo, que continuam ao longo de todo 2015 (e sobre as quais este blogue voltará, em momentos oportunos). Os que conhecem os trabalhos e batalhas do Teatrodança e de sua fundadora-diretora lhes desejarão vidas longas. Aos que não, terão hoje mais uma oportunidade. Cabe a pergunta: estão esperando o quê?

%d blogueiros gostam disto: