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Semana Sérgio Sampaio #3

"Colônias de abutres colunáveis/ gaviões bem sociáveis vomitando entre os cristais", cantaria Sampaio na letra do parceiro Natureza

Temo ficar me repetindo em depoimento sobre o Sampaio mas, pra mim, ter sido parceiro dele é um marco na minha vida de autor, algo que muito me honra e envaidece, mesmo porque fui o único parceiro (dos poucos que ele teve) que ele gravou cantando, e cujo resultado – fizemos poucas canções, em quase todas ele letrou textos meus – suplantou minhas expectativas e teve excelente resposta de quem as ouviu, de quem teve contato com elas. Para mim, a obra dele mantém até hoje um fescor, uma autencidade, uma assinatura – tanto do ponto de vista do autor/compositor como do intérprete – incomparáveis. É impressionante ver a receptividade, o entusiasmo das novas gerações ao tomar contato com o trabalho dele: sentem-se imediatamente envolvidos com os temas, as melodias, o canto do Sampaio – mesmo quando os termos, as gírias, as citações ficam, de certa maneira, datadas. Ainda assim há uma identificação da moçada com as propostas dele, como se houvesse um estranhamento magnético, algo tão carismático que transcende o hiato temporal, a aparente facilidade melódica/harmônica, o coloquial das letras – textos que, por outro lado, evidenciam um artista informado, antenado, de muita leitura, culto (sem ser necessariamente acadêmico) – enfim… Sérgio Sampaio foi (e é) para mim um exemplo de que é possível, ao mesmo tempo, ser autodidata, intuitivo e, ainda assim, refinado – sem nunca deixar de ser popular. Muito há ainda por ser revelado para se fazer justiça à obra tão particular, tão rica na sua simplicidade – que é tudo o que um artista popular busca… e raramente encontra. Sérgio Sampaio encontrou, fez esta ponte, esta síntese. Cabe a nós reencontrá-lo. Ter, modestamente, participado do trabalho do Sampaio, me é muito gratificante.

Depoimento que Sérgio Natureza deu a este blogueiro por e-mail, dia 12 de abril de 2007. Ao lado do de Celso Borges e da microentrevista com Zeca Baleiro, devia ter me ajudado a escrever uma matéria sobre o “sampaio seis ponto zero” (assim estava escrito no campo “assunto” dos e-mails que trocamos), que acabou não saindo e cujos elementos resgato agora por conta do (re-)lançamento de Sinceramente (1982) pela Saravá Discos.

Natureza, parceiro de Sampaio em Cabra cega (de Sinceramente), Velho bode (de Tem que acontecer, 1976) e Roda morta (do póstumo Cruel, 2005), assina o texto do encarte do disco ora recolocado na “roda viva” pelo selo de Baleiro. Saravá!

Arrisco uma correção ao e-mail/depoimento de Natureza: outro parceiro gravado por Sampaio em vida foi Raul Seixas, em disco que o capixaba e o baiano gravaram ao lado de Miriam Batucada e Edy Star, o Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das dez (1971), hoje cultuado por sampaiófilos, raulseixistas e outros apreciadores de boa música.

Semana Sérgio Sampaio

SARAVÁ RELANÇA SINCERAMENTE

Em 2005 Zeca Baleiro inaugurava seu selo Saravá Discos lançando Ode descontínua e remota para flauta e oboé – De Ariana para Dionísio, coleção de 10 poemas do livro Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974), de Hilda Hilst, musicados pelo maranhense e interpretados por um time feminino de primeira linha da MPB, e Cruel, póstumo inédito de Sérgio Sampaio.

Fã confesso de Sampaio, Baleiro anunciaria, pouco tempo depois, o desejo de trazer ao formato digital Sinceramente (1982), disco do capixaba que até pouco tempo era encontrado apenas em vinil ou para download na internet.

Demorou, mas Sinceramente finalmente é relançado: disco tão bom quanto raro, foi o último lançado em vida, de forma independente, por Sampaio, que morreria 12 anos depois, em 1994, aos 47 do primeiro tempo.

Em 2007, quando Sérgio Sampaio completaria 60 anos, fiz pequenas entrevistas com algumas pessoas acerca de sua vida e obra. A ideia era escrever uma matéria por ocasião da data. Acabou não rolando. As entrevistas e depoimentos permaneceram inéditos.

Para festejar o lançamento Saravá, inicio aqui uma série de posts para tirá-los das gavetas virtuais. Ou colocá-los, sabe-se lá.

Começo com Zeca Baleiro, que me respondeu por e-mail, dia 12 de abril de 2007, as cinco perguntas abaixo, sobre Sampaio, Cruel e um site dedicado à memória do artista (que este blogueiro não tem notícias atuais sobre o mesmo ter sido lançado ou não).

ENTREVISTA: ZECA BALEIRO

ZEMA RIBEIRO – Qual a importância, o devido lugar de Sérgio Sampaio na música popular brasileira?

ZECA BALEIRO – Acho que o Sérgio, junto a outros de sua geração como [Jards] Macalé, [Jorge] Mautner e [Luiz] Melodia [que participa de Sinceramente] inauguraram uma mistura de música brasileira com blues e rock, diferente da que foi experimentada pelos tropicalistas, muito bem-sucedida. Hoje seriam chamados de ecléticos, mas eram muito mais que isso, eram artistas muito intuitivos e sagazes que abriram uma picada nova, vigorosa e com muita, muita poesia.

Por que artistas de seu quilate morrem, na miséria, em quase completo desconhecimento por parte da maioria da população? Não saberia discorrer sobre o tema, que é muito complexo. Não gosto de simplificações, há sempre muitos fatores a serem analisados, inclusive a própria postura do artista diante do mundo, do mercado, do “sucesso”. Enfim, difícil dar qualquer palpite sobre isso.

O que significa para você produzir um disco póstumo de um grande ídolo? O resultado satisfez tuas expectativas, sejam elas comerciais, estéticas, emocionais etc.? Sobretudo emocionais. Pra mim foi um acerto de contas com o Sampaio, com o que a sua música causou em mim, de uma forma definitiva. Foi um disco também muito bem recebido pela crítica. E tem tido uma venda modesta mas satisfatória, sempre crescente.

De onde partiu a ideia de lançar um site, cuja intenção, imagino, é, além de preservar a obra de Sampaio, torná-la conhecida dos mais novos? Quem está envolvido neste projeto? Há muita gente envolvida no projeto, que começou após uma conversa com Angela e João, sua ex-mulher e seu filho. Há colaboradores como Sérgio Castellani, jornalista e grande fã do Sampaio; Rodrigo Moreira, que escreveu sua biografia e Sérgio Natureza, parceiro do Sampaio e grande poeta e compositor. Acho importante a existência do site, pois garante um pouco mais de permanência do Sampaio, o personagem, pois sua música já está no panteão dos grandes, mesmo que o mundo a desconheça.

O lançamento de Cruel cumpre uma função importantíssima no sentido de difundir a obra de Sampaio, mas a tiragem é pequena, bem como o relançamento dos discos do compositor em cd, cujas tiragens, idem, logo se esgotam. A que você credita o, ainda hoje, quase total desconhecimento da obra do autor de Eu quero é botar meu bloco na rua, como Sampaio é mais comumente lembrado, pelos brasileiros? Sampaio teve um sucesso estrondoso com o [Eu quero é botar meu] Bloco [na rua], vendeu mais de 500 mil cópias à época, um verdadeiro fenômeno de vendas, comparável apenas a Roberto Carlos, seu conterrâneo e maior vendedor de discos do país. Depois disso, sua carreira desandou, e embora tenha feito discos artisticamente fantásticos, foram grandes fiascos comerciais, o que o relegou a um grande ostracismo. A desinformação do público também colabora, por isso é tão importante a criação do site.