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Chorografia do Maranhão: César Jansen

[O Imparcial, 21 de setembro de 2014]

O recluso bandolinista César Jansen é o 40º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Já fazia tempo que tentávamos essa entrevista com o bandolinista César Jansen. Em torno de sua figura paira certo mistério. Apesar de ainda jovem e estudioso dedicado do bandolim, ele já não se apresenta mais para grandes plateias. Apenas rodas de amigos e familiares têm o privilégio de vê-lo e ouvi-lo tocar seu bandolim, de sonoridade potente, de modelo idêntico ao do mestre Jacob do Bandolim, confeccionado pelo luthier carioca Tércio Ribeiro, o mesmo que havia sido escolhido pelo autor de Vibrações para recuperar seus instrumentos. Jansen possui sete bandolins e de um dos modelos existem apenas dois iguais no Brasil. Além do dele, um é de Joel Nascimento, outra fera do bandolim e do choro.

Talvez nesse mistério residisse a nossa grande expectativa em entrevistar César Alberto Olívio Jansen, nascido no bairro do Bom Milagre, em São Luís, em 12 de setembro de 1956, filho de Nicomedes da Luz Jansen, fabricante de mosaicos perto da Rua de Santana, “cansei de ir lá visitá-lo, levar comida”, e Isabel Olívio Jansen, doméstica, “depois se empregou na secretaria de agricultura do Estado do Maranhão, onde se aposentou”.

Encontro marcado, os chororrepórteres tocaram a campainha do apartamento do músico 15 minutos antes da hora, quando foram recebidos carinhosamente por ele e sua esposa Soraia. Ainda deu tempo para que ele fosse buscar as filhas – Júlia e Laura – em um curso de inglês ali perto.

Depois a conversa transcorreu solta, entremeada por certa timidez do instrumentista, mas nada que limitasse a realização de uma rica entrevista. Colecionador voraz de tudo que se relacione ao choro e ao bandolim, César Jansen possui um acervo dos mais preciosos, em vídeos, discos, livros, cadernos de partituras e outros registros multimídia.

Fundador do Instrumental Pixinguinha – ao lado de Paulinho [Santos, flauta], Marcelo Moreira [violão], Domingos Santos [violão], Francisco Solano [violão sete cordas], Biné do Cavaco e Carbrasa [percussão] –, em 1990 participou, como bandolinista, do antológico show do grupo, Homenagem à Velha Guarda, no teatro Arthur Azevedo, quando, dentre outras peças, executaram a rebuscada Suíte Retratos, do genial maestro Radamés Gnattali.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Como era o ambiente musical em tua casa? O que te fez enveredar pelo campo da música? Nada de extraordinário na minha casa na minha infância. Minha mãe escutava muito Roberto Carlos, era uma coisa que ela fazia sempre, comprava todo ano o disco do Roberto Carlos. Papai, não, papai nunca [interrompe-se]. Depois que eu me entendi, eu questionei, queria saber por que eu tinha gosto pela música. Ele me disse que meu avô, Maximiano, tinha tocado violino. Eles eram de Viana.

Então você não tem uma memória musical mais profunda da infância? Não, a minha lembrança mais longínqua de música é que todo ano, em frente à minha casa, brincava o Boi [de Orquestra] de Rosário. Aquilo realmente me deixava [interrompe-se novamente]… era semelhante ao que é hoje, o Boi, a Catirina, as índias todas enfeitadas. Depois disso eu fiz o primário ali no Monte Castelo, no Grupo Escolar Estado do Piauí, até aí também não tinha nada a ver com música. O lance surgiu quando eu fiz uma espécie de vestibular para entrar para a Escola Técnica, um exame de admissão. Eu fui pra Escola Técnica, lá tinha ginásio na época, eu fiz o ginásio industrial e o curso técnico em eletromecânica. O ginásio eram quatro anos e o curso técnico três anos. No meio do ginásio eu entrei para a banda marcial, fui tocar tarol. Estudei com o mestre da banda, Manoel Ferreira, o nome dele. Conheci muita gente lá, hoje são músicos, tipo Camilo Mariano [baterista], foi contemporâneo meu, conheci Pipiu [Arlindo Pipiu, multi-instrumentista], também tocava tarol na banda, Nato Araújo [violonista], todos tocavam na banda. Quando eu estava na banda marcial – a Escola Técnica tinha duas bandas, uma marcial e uma musical –, eu recebi um convite para participar da banda musical tocando tarol. A musical era mais orquestrada, mas tinha uma parte percussiva, era um tarol, um bumbo e um surdo. Aí o tarolista estava saindo da Escola e eu recebi o convite para ir para lá. Só que para tocar tarol na banda musical tinha que aprender música, não era como na marcial que era só meter a vareta. Lá eu tinha que ter a partitura e ir pela partitura. Aí eu fui obrigado pelas circunstâncias a aprender música, eu estudei com João Carlos Nazaré [maestro], o pai da Alcione [cantora], ele era o mestre da banda. Ele era secundado por Nonato, o Mestre Nonato do Conjunto, então eu estudei com os dois. Lá eu aprendi a ler partitura, que é o grande lance.

O maestro João Carlos era muito exigente? Super-exigente! Durão! Primeiro que ele era militar. Meu amigo, se na marcial era dureza, na musical era muito mais.

E Nonato, era mais suave? Nonato era. Os alunos iniciantes recebiam a primeira dura com João Carlos, só para saber como era. Depois ele não perdia tempo com iniciantes, ele jogava pra Nonato. Na musical eu conheci Zé Américo Bastos [multi-instrumentista], Pinheirinho, Chico Pinheiro [clarinetista, ele chama-o inicialmente pelo apelido], Osmar do Trombone [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013], tudo tocava na banda na minha época de Escola Técnica. Aí foi, o lance da música começou aí nessa história.

Além de músico você tem outra profissão? Eu fiz a Escola Técnica, fiz o curso de eletromecânica. Ao final do curso técnico eu fiz vestibular para Engenharia Mecânica, na época era a FESMA, Federação das Escolas Superiores do Maranhão. Era lá na UFMA, a UFMA cedia um prédio e a FESMA funcionava lá, engenharia mecânica, civil, agronomia, se não me engano tinha outros cursos. O curso de engenharia mecânica são cinco anos, eu não cheguei a completar. Eu estava no 10º. período eu passei no concurso do Correio, fui fazer um curso em Brasília, passei dois anos em Brasília, [fazendo o] curso superior de Administração Postal, que existia, hoje mudou, mas na época era a Escola Superior de Administração Postal, voltada para a área específica dos Correios. Hoje é o que eu sou, Administrador Postal dos Correios.

Você já tem quanto tempo de Correio? Eu entrei nesse curso em 1979, praticamente 35 anos. Já me aposentei pelo INSS, mas continuo trabalhando.

Como continuou sua trajetória na música até chegar ao bandolim? Aprendi a ler partitura, mas pela circunstância do vestibular eu larguei essa coisa de banda musical. Mas a partitura é fundamental na história. Saí da Escola [Técnica] e entrei na Escola de Engenharia. Lá eu conheci outras figuras importantes na minha vida musical. A primeira, Joãozinho Ribeiro [poeta e compositor], foi meu colega de turma. Teve outras pessoas importantes, Natan Souza, o irmão dele, Naassom Souza, é delegado de polícia hoje, Oder Lima. De outros cursos eu conheci Adelino [Valente, pianista e bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 20 de julho de 2014], fazia engenharia civil, era mais adiantado do que eu, já estava quase se formando. Eu entrei na Engenharia em 1975. Em 76 uma tia minha, Lili, viajou de férias para o Rio de Janeiro e de lá ela trouxe um violão de presente por eu ter passado no vestibular [risos]. Até hoje eu lembro a marca desse violão: Rei dos Violões, mas era um violão “peba” [risos]. Foi com esse que eu aprendi tudo, um violão de cordas de aço. Joãozinho já era músico, já tinha suas composições. Ele foi a primeira pessoa a afinar meu violão. Eu sabia ler música, mas não me toquei que eu sabia ler partitura. Joãozinho foi lá em casa, afinou o violão e me deu o conselho: “troca essas cordas, cordas de aço, tem que ser corda de nylon”. Eu ia comprando revistas, chamadas “vigu”, violão e guitarra, de cifra. Eu ia muito para a casa de João, trocar ideia, fazíamos o curso juntos, ele morava no Desterro, um casarão lá. Um dia ele me disse: “rapaz, Jansen, eu vou te dar um negócio que eu tenho guardado há muitos anos, eu estou vendo que tu estás gostando, tu te vira”. Ele foi lá e buscou um método de violão clássico, de um autor chamado Mateo Carcassi. Era uma cópia, até hoje eu tenho, não sei onde está, eu tenho muita coisa guardada. Quando eu folheei me veio a história das partituras. Preciosidade, eu me passei para esse método. Se você sabe ler partitura você não precisa de professor. Os métodos vêm praticamente como uma receita de bolo. Vem até a posição dos dedos da mão esquerda, 1, 2, 3, 4, a posição dos dedos da mão direita, P, I, M, A. Eu devorei o método todinho, nessa época eu já morava no Santa Cruz. Eu me lembro que minha mãe dizia: “menino, tu é só com esse lengo, lengo, lengo, não sai nada, eu não entendo nada do que tu estás fazendo” [risos], até o dia em que eu consegui tocar uma música pra ela, “ah, agora tu sabe tocar”.

E o bandolim? Aprendi a tocar violão erudito, partitura e tal, depois eu fui comprando outros métodos, outras coisas. Aqui em São Luís, na época, era muito difícil. Hoje eu acho até que não, diante da internet, tem tudo, tudo de graça, é muito mais fácil. Eu aprendi violão, fazia engenharia, era professor de matemática e física, ensino médio, ensinava particular, ganhava meu troquinho, comprava meus discos, música clássica, Segovia [Andrés Segovia, violonista espanhol], coisas difíceis de encontrar aqui em São Luís. Comecei a gostar de me envolver com o samba, escutar Martinho da Vila, Paulinho da Viola, o contato com Joãozinho [Ribeiro], Chico Buarque. Na época existiam os acordes naturais, o cara que estava mais desenvolvido só tocava em dissonância, coisas mais elaboradas. Joãozinho já estava nesse nível, ouvia muito Chico Buarque, Bossa Nova. O irmão de Natan [Souza] convivia com a gente, me deu um cavaquinho. Aí, violão clássico, partitura, cavaquinho, Brasileirinho [choro de Waldir Azevedo]. Brasileirinho me abriu as portas. Tinha um programa na TV Educativa, era um noticiário, mas a música de abertura, o pano de fundo, era Brasileirinho. Só que não tocava toda, aquilo me deixava doido. Tinha um ceguinho que tocava isso, na porta da Livraria ABC [hoje extinta], eu dava uma moedinha e o ceguinho tocava. Eu fiquei com esse cavaquinho, tinha que tirar de ouvido a música. Encontrar um disco de Waldir Azevedo, nem se fala, e partitura ainda menos [o bandolinista posa para fotos tocando o instrumento; a sonoridade é elogiada pelo chororrepórter]. Esse bandolim, eu vou te contar a história dele, eu não sei se tu vais conseguir ler aqui [aponta para o interior do instrumento], Tércio Ribeiro. Esse cara é quem faz o bandolim de Hamilton de Holanda. Eu fiz o concurso pro Correio e fui morar em Brasília, dois anos, de 1979 a 81. Coincidentemente Natan e Naassom já tinham ido na frente fazer esse mesmo curso. Natan tocava violão, eu tocava cavaquinho e violão, tinha o movimento do choro, a gente fazia grupo de choro lá em Brasília. Comprei centenas de partituras, centenas de discos, praticamente tudo de Jacob. No último semestre do curso, o cavaquinho não estava mais me satisfazendo, comprei um bandolim. Aí o bandolim entrou na minha vida.

Capa da primeira edição de “O choro”, de Alexandre Gonçalves Pinto. A obra foi relançada pela Funarte em 2009. Reprodução
Reproduzido de pensario.uff.br

Eu gostaria de falar um pouco dessa relação antiga que os Correios têm com o choro. Você meio que recupera isso em sua vida. O Alexandre Gonçalves Pinto, o Animal, era carteiro, autor de um livro chamado O ChoroEsse livro, se você for pesquisar, praticamente 60% dos músicos eram oriundos dos Correios. Praticamente toda folha que tu abres, fulano de tal, Correios.

Teus pais nunca implicaram com suas escolhas musicais quando você era jovem? Não, por que praticamente a minha carreira fora da música é exemplar. Eu era aluno primeiro lugar no primário, ginásio, no científico [os atuais níveis fundamental e médio]. Não implicaram, passei em vestibular, concurso. A minha parte eu estava fazendo. A música nunca foi profissional, eu nunca levei para o lado profissional.

Se você fosse eleger os seus principais mestres no bandolim, na música, quem figuraria nesta lista? Você tem um pouco de autodidata, mas tem sempre alguém que é uma referência importante, fundante, de nosso aprendizado. Eu reputo Joãozinho Ribeiro como uma pessoa muito importante. Se ele não tivesse afinado meu violão talvez eu tivesse desistido. É também uma questão de ouvir: Jacob [do Bandolim] é fundamental não só para os bandolinistas, mas para qualquer músico. Os músicos que conhecem Jacob se apaixonam. Um rapaz também muito importante foi o Marcelo [Moreira, violonista, fundador do Instrumental Pixinguinha e ex-diretor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo]. Quando eu voltei de Brasília, eu já tocava, mas queria fazer Escola de Música. Eu ficava um pouco acanhado, a Escola era ali no Monte Castelo, perto do Aldenora Belo [hospital especializado em tratamento de câncer], uma mansão, na frente tinha uma estátua de uma águia. Era Sinhô [João Pedro Borges, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], era Joaquim [Santos, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013], e eu “aí eu não entro” [risos]. Depois foi lá para a Rua da Saavedra [Centro]. Aí quando eu voltei de Brasília, já era 1983, mais ou menos, eu consegui me matricular e fui estudar com Marcelo. Aí quando eu toquei, Marcelo disse “não, rapaz, eu não tenho nada para te ensinar” [risos]. Eu frequentei diversos semestres e fiz uma amizade muito grande com ele. Marcelo era amigo de Joãozinho, ele soube que eu era amigo de Joãozinho, a amizade cresceu. Inclusive me ajudou a fundar o Instrumental Pixinguinha.

Você nunca viveu de música? Não. Já ganhei algum cachê, até com choro. Tinha um regionalzinho, eu, Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Zeca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013].

De que grupos musicais você fez parte? Quando eu voltei de Brasília, em 1981, “rapaz, eu tenho que formar um grupo aqui”. Convidei Joãozinho, Natan, Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], tinha um primo meu que tocava pandeiro, já faleceu. “Vamos fundar um grupo de choro”. Não teve nome esse grupo. Nós ensaiávamos no escritório de Natan, ele é engenheiro civil, tinha um escritório no Canto da Fabril, nós ensaiávamos lá. Joãozinho Ribeiro, [violão] seis cordas, Natan, seis cordas, Juca, cavaco, eu, bandolim, e pandeiro. Não deu certo, cada um foi para seu lado, depois eu fundei outro grupo, chamado Alma Brasileira. Era eu, Natan, Fernando Vieira [o falecido violonista Fernando Cafeteira, ex-integrante do Regional Tira-Teima], Paulo Trabulsi [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], cavaquinho, e Carbrasa, pandeiro. Com o Alma Brasileira nós chegamos a tocar bastante tempo. Depois se você quiser eu posso mostrar vídeo desse grupo. Depois se desfez. Depois eu fui para a Escola de Música, aí teve o Pixinguinha: eu, Solano, Marcelo, Domingos [Santos, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014], Paulinho da Flauta e Carbrasa. Esses eram grupos de choro. Agora eu fiz parte também de grupos de samba. Lá no Correio mesmo eu fundei o Arco Samba, com funcionários do Correio. Eram funcionários do Correio e pessoas que eu convidei. Éramos eu, cavaquinho, Quirino, banjo, Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], diretor da Escola de Música, era regente do coral do Correio, violão, aí tinha Bento, Carbrasa, Josebel, faziam parte desse grupo de samba. Participei também com esse pessoal aí do Remandiola, Força Maior.

Depois você acabou virando uma lenda ao desaparecer do cenário do choro, do samba, musical enfim. O que aconteceu? Na verdade depois do show [o mítico show Homenagem à Velha Guarda, do Instrumental Pixinguinha, no Teatro Arthur Azevedo] eu não toquei mais em público, mas continuo tocando. Em 1990 foi o auge do Instrumental Pixinguinha. Eu achava naquela época que ali era o ponto de partida, dali nós iríamos ganhar o mundo. Depois do show parece que cresceu, ninguém mais queria ensaiar. Marcava ensaio, eu chegava lá, aparecia eu, Solano, Marcelo, dois, três não apareciam. Marcava outro ensaio, a mesma coisa. Aí eu digo, “rapaz, quer saber de uma coisa? Eu tou perdendo meu tempo aqui”. O trabalho todo montado, tudo feito, “eu não preciso disso aqui pra sobreviver”. O meu deleite é só pegar uma partitura, um bandolim e tirar qualquer música. Isso me satisfaz. Tanto que larguei, aí fui entrar nesse negócio de samba. Vamos tocar Fundo de Quintal, Grupo Raça, Roque do Cavaco, de 20 sambas que a gente tocava, tocava um chorinho. Mas eu continuo com a amizade com todas essas pessoas.

E em rodas domésticas? Ah, todo final de semana eu tou na casa desse aqui [aponta para um irmão que acompanhou a entrevista], fazendo um choro, tomando uma cervejinha. Volta e meia Biné [do Cavaco, Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014], que era cavaquinista do Pixinguinha, aparece, Solano tem uns anos que não aparece, mas de vez em quando aparecia. Eu continuo, eu estudo permanentemente.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Desses grupos qual o que você participou por mais tempo? E o mais marcante? O mais marcante foi o Pixinguinha, nós fizemos um trabalho à altura da Camerata Carioca, foi um trabalho naquele nível, música camerística, de arranjo, tudo, um negócio elaborado. Eu sei o que é vivenciar um grupo, sei as dificuldades, os pontos positivos e os pontos negativos. Eu tive a maior alegria no samba.

Além de instrumentista que outras habilidades você desenvolve na música? Eu componho choros, tenho cerca de 12, valsas e choros.

Você já participou de algum disco? Eu gravei, mas não chegou a ser lançado. A minha gravação, o disco saiu. Logo depois desse show do Pixinguinha, Marcelo fez a direção musical de um disco de Rosa Reis. Nesse show a gente tocava uma música de Joãozinho Ribeiro chamada Estrela. Rosa gravou no disco dela e tinha uma participação do bandolim. Eu fui ao estúdio, gravei, o conjunto todo foi gravar. Só que nessa gravação houve um problema técnico. Depois de gravado disseram que o bandolim estava desafinado. Me chamaram para refazer, eu disse “rapaz, eu não vou refazer” [risos]. E recentemente Gordo Elinaldo [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013] me chamou para participar de um cd que ele está produzindo com músicas autorais. Eu fui lá há uns meses e botei uma parte de bandolim.

O que significa o choro? O que é essa música para você? O choro é a verdadeira música brasileira. A essência da música brasileira é o choro. Você às vezes escuta, ontem mesmo eu estava escutando, me lembrando desse compromisso da entrevista, eu estava escutando Joãozinho tocar uma música dele chamada Saiba, rapaz. Aparentemente se pensa que é um samba, mas na verdade é um choro. Essa gravação que eu estava escutando, é uma gravação feita na TV Educativa, ele, Raul do Cavaco, Mascote [o multi-instrumentista Antonio Sales Sodré] no violão de sete cordas e Jeca no pandeiro. É um choro! Ele fez sem saber que estava fazendo choro. Está na essência do brasileiro.

Você tem acompanhado o desenvolvimento do choro no Brasil? Como você vê as novidades, os novos nomes, os novos estilos? Acompanho, sim. Eu vejo como uma evolução natural. Em 2014 já não se pode mais dizer que Hamilton de Holanda é novidade. Ele já tem quase 30 anos de carreira. Você olha agora, aqui mesmo, Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], Robertinho Chinês [bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013] fazendo coisas diferentes, e não são coisas que você não possa considerar como choro. Isso tem que ser compreendido, respeitado e admirado. Eu vejo com bastante satisfação.

Quem são os grandes nomes de destaque, hoje, além de Hamilton? Bandolinista tem o Danilo Brito, velocidade, mas não só, uma velocidade cristalina. Rogério Caetano, violão sete cordas fenomenal. Jorge Cardoso, morou inclusive aqui, trabalhou no Correio, convivi um ano com ele aqui, é um baita bandolinista, fez curso na Itália.

E o choro no Maranhão? Como você avalia, apesar da falta de ensaio [risos]? Eu acho que está um pouco parado, eu não vejo muita coisa, fora o teu programa [o dominical Chorinhos e Chorões, apresentado por Ricarte Almeida Santos na Rádio Universidade FM, 106,9MHz]. Assim como o samba, o choro tem essas idas e voltas. O Maranhão tem quatro pessoas que eu reputo como fundamentais: Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], é um cara que praticamente todo mundo passou pelas mãos dele, Turíbio Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013], Joaquim [Santos] e João Pedro [Borges]. Por coincidência são todos violonistas. Esses caras são fundamentais. Com Ubiratan eu cheguei a fazer um trabalho, Velhos Moleques, Antonio Vieira, Lopes Bogéa, Cristóvão Alô Brasil e Agostinho Reis [compositores]. Ubiratan dirigiu esse show e nós íamos ensaiar na casa de Vieira. Eu participei como bandolinista, Ubiratan escreveu os arranjos. Depois ele me deu os choros que ele tinha na época, eu cheguei a gravar na TVE um choro dele chamado Cabeça de choro.

Você se considera um chorão? Na contracapa do LP Vibrações, assim Jacob fala sobre Dino Sete Cordas: “Não é chorão autêntico porque não chega atrasado, raro beber e adora ensaiar”, então, sob a ótica de Jacob, também não sou um chorão autêntico [risos]. Mas é óbvio que Jacob estava de gozação com Dino, da mesma forma que eu comigo. É claro que me considero um chorão porque vivo, pesquiso, estudo, escuto e pratico essa música há quase 40 anos.

Chorografia do Maranhão: Raimundo Luiz

[O Imparcial, 15 de setembro de 2013]

Diretor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo e titular do bandolim do Instrumental Pixinguinha, Raimundo Luiz é o 15º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivânio Almeida Santos

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Bandolinista, cavaquinhista, violonista, violinista. Músico, enfim. Raimundo Luiz está em São Luís a passeio. Quer dizer: ele nunca retornou à cidade natal depois de chegar à Ilha entre 1975 e 76, movido pela curiosidade de descobrir o que era “a cidade”. Atualmente, visita Cedral e a baixada a trabalho, difundindo o choro e pesquisando-o, num movimento de mão e contramão como o da maré que o trouxe para cá, numa época em que para se chegar à São Luís eram necessários dois ou três dias de barco.

Raimundo Luiz Ribeiro nasceu em 15 de junho de 1960 no povoado Jacarequara, em Cedral – então Guimarães –, Litoral Ocidental Maranhense. Sobre a origem do nome de seu lugar, ele explica: “tinha uns alagados, os jacarés quaravam, ficavam lá de papo pra cima, quando tinha um sol quente”.

Sua genética musical talvez se explique pelo fato de o pai, o lavrador e carpinteiro Lucílio Ribeiro, ter sido “uma figura que adentrou muito na coisa do boi de zabumba, na época era o Boi do Jacarequara. Ele fazia parte do cordão, era um brincante”. O pai construiu a maioria das casas do povoado e outros adjacentes, por onde andava, entre o boi e a carpintaria. “Segundo alguns documentários históricos, o boi da região de Guimarães nasceu por ali, outros interiorezinhos, Damásio”, remonta Raimundo. Edite Rosa Ribeiro, sua mãe, era também lavradora, primeiro campo em que atuou o bandolinista do Instrumental Pixinguinha, hoje diretor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo.

Raimundo Luiz recebeu a chororreportagem nos jardins da EMEM, quando findava a tarde. Durante a conversa, tocou Elegante, choro de sua autoria, gravado em Choros Maranhenses, disco de seu grupo que registra o que entrega o título, e Flor Amorosa, de Joaquim Callado.

Entre discos que já tocou, lembra, além do citado Choros Maranhenses, do primeiro disco do Cacuriá de Dona Teté, onde compareceu de banjo e violino, além de Hongolô, de Cláudio Pinheiro – é dele o violino em Tocaia, de Cesar Teixeira, vencedora do Festival de Marabá/PA, em 1994. Aos pais, já falecidos, deixou um agradecimento: “Eu queria deixar um recado a meus pais, que mesmo na labuta da roça, no seu dia a dia de lavradores, mesmo sem me propiciar grandes condições de educação, me propiciaram estar aqui agora. Isso pra mim é extremamente saudável, enquanto homem e enquanto músico”.

Foto: Rivânio Almeida Santos

Jacarequara já virou nome de choro? Ainda não [risos], mas há perspectivas pra isso.

Você ainda visita a região? Jacarequara eu estou tendo a satisfação de ir mensalmente. Nós colocamos no ano passado um projeto de interiorização do choro, eu e Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], e eu coloquei dentre as seis cidades de minha região, o município de Cedral, como coloquei Cururupu, Guimarães e outras pra cá [mais perto de São Luís]. Justamente pra tentar buscar essa coisa da música instrumental, que eu vi lá desde criança, molequinho, 10 anos. A minha cidadezinha, embora seja um povoado bem rural, tinha nem luz elétrica na época, tinha um quarteto de música na cidade, um quarteto de irmãos, um tocava trompete, outro a zabumbinha, pandeiro, a percussãozinha e um banjo. Esses homens adentravam em todas as manifestações folclóricas e religiosas dos povoadozinhos: festa de São Luís, Santa Luzia, São Sebastião, Santana, Divino, Pastor, até hoje é muito forte pra lá o pastoral. Eu adorava ver esses senhores tocando! Paralelo a essa coisa, a essa prática instrumental dele, também tinha as radiolas, que não são as radiolas de reggae de hoje. Eram pequenas radiolas de festa, que tocavam na época muita música instrumental, muito [o saxofonista] Saraiva, [o cavaquinhista] Waldir Azevedo, principalmente a música de sopro. Aquela coisa foi nascendo em mim esse desejo, esse sabor pela música instrumental. Daí eu comecei esse gosto musical.

Você se lembra de estar inserido nessas festas a partir de que idade? Acho que 12, 13, 15 anos. Até então a gente não ia pra festa, os pais não deixavam.

Dá para perceber nessas suas falas, a vivência musical na cidade, no povoado. Como era a vivência musical em casa? A vivência dentro da minha casa, não tinha. Praticamente assim, só rádio mesmo. Lembro que papai tinha rádio, escutava muito a Rádio Educadora de madrugada. Mas a gente não tinha radiola, não tinha nada de som na minha casa. Até pela própria carência mesmo, a gente morava em uma casinha de taipa, coberta de palha, não tinha luz, não tinha nada.

Com essa idade com que você começou a frequentar as festas já se interessou por querer aprender a tocar? A vontade de tocar era imensa, mas a condição, entendeu? Daí a primeira oportunidade que eu tive de vir morar em São Luís, até por uma curiosidade que eu tinha, de saber o que era a cidade. Só se viajava pra cá de barco, barco a vela. Eram dois, três dias pra chegar aqui, principalmente no inverno. Meus dois irmãos já moravam aqui, só os via de dois em dois anos. Eu ficava me questionando e aos meus pais, “pra onde meus irmãos tão?”, “tão pra cidade”, “e o que é a cidade?, eu também quero conhecer a cidade, como é que esse barco chega toda semana cheio de arroz, lata de querosene, onde é que se faz isso?”, eu ficava com aquela coisa em mim.

E o impacto com a cidade? Pode crer! Eu cheguei ainda na época dos jipes, achei uma coisa, a minha cabeça pirou. Tanto é que eu não voltei mais, já procurei meios de ficar por aqui mesmo. E fui buscando meu caminho musical.

Tua vinda, então, foi a passeio, e você não voltou mais? Eu tinha uma necessidade de ficar, uma necessidade pessoal mesmo. Eu queria fazer algo diferente. Essa coisa da música que eu tinha como raiz, lá não ia me proporcionar. Procurei alguns serviços, trabalhei em inúmeros locais, em casa de umbanda, como atendente, fazer os banhos, defumador. Vendi livros. Depois consegui um emprego de auxiliar de serviços operacionais numa empresa, e com esse primeiro emprego eu tive meu primeiro salário e comprei meu primeiro violão, novembro de 79.

Você chegou a trabalhar na roça? Literalmente na roça. Com 12, 13 anos. Capinando, abatendo, roçando, plantando, as mais diversas colheitas. Quando eu não ia pra roça, eu ia pra pesca, por que como eu já tava meio taludinho, como papai dizia e Luiz Gonzaga, que ele gostava muito de ouvir, enquanto ele ia pra roça eu ia pra pescaria, botar uma rede, tirar um sururu, de alguma forma, pra quando ele chegasse meio dia já ter o sustento [alimento].

Quais são as melhores lembranças desse período? Sinceramente, além desse sabor musical que eu adquiri na infância, mesmo sem saber tocar nada, essa cultura que eu tive, familiar, de respeito, de admiração pelo que eu sou hoje, por essa relação que meus pais me deram de entendimento, de família.

E na Escola de Música, você entrou quando? Trabalhando como operacional nessa empresa, eu tive o prazer de sair dessa coisa de rua, de office boy, e fui trabalhar numa sessão de fotocópias. Essa empresa ficava na rua Treze de Maio, que era próximo à Rua da Saavedra, onde era a Escola de Música. Sempre ia uma senhora lá, dona Maria José, chegava semanalmente com uma pilha de material de música pra tirar cópia. Eu tinha chegado na sessão na época e fiquei loucamente curioso pra saber que monte de coisa pretinha era aquela. “Ah, isso aqui é música, é partitura!”. Ela me levou à Escola de Música, em 1980, já fora do período de inscrição, me apresentou para a então diretora Olga Mohana. Ela já tinha esse sonho que nós temos até hoje, de ter uma Orquestra Sinfônica no estado. Ela já me viu tocando violino, já me ofereceu o violino pra estudar. Eu não tinha instrumento e queria isso mesmo.

Então você passou por violão, por conta própria… É, estudei esse violãozinho lá no bairro do Monte Castelo, morava lá com os parentes. Tive certa resistência por parte da família daqui: vim do interior, fui logo comprar um violão. Enfim, consegui mostrar pra todo mundo, que a partir do violão eu consegui chegar onde eu queria.

Você concluiu o curso de música por aqui? Me formei em violino. Comecei a estudar o violino, trabalhava fora também o violão, que eu tocava na Igreja da Conceição, no Monte Castelo, em grupo de jovens. Em 1984, sempre tinha em Brasília, Curitiba, esses festivais de verão, festivais de inverno, eu procurava sempre me aperfeiçoar no violino. Ia eu, várias pessoas aqui da Escola, pegava o ônibus, ia pra Curitiba, pra Brasília, fiz vários cursos, e consegui trabalhar o violino. Mas sempre, paralelo ao violino, eu estudava também o violão. Cheguei a estudar também cavaquinho, toquei em grupos de samba. Em 1987 eu peguei dois serviços com música, já era monitor na Escola de Música, de solfejo, teoria musical, e fui convidado pra ministrar aulas no [Colégio] Marista e nesse mesmo período fui convidado a fundar um coral com os funcionários dos Correios. Eu louco pra viver de música, aceitei os serviços. Trabalhava duas vezes por semana nos Correios e tinha uma carga horária no Marista também, trabalhando com educação musical em sala de aula, para o fundamental e também para o ensino médio. Passei quase 12 anos no Marista como professor de música, a [cantora] Flávia Bittencourt foi minha aluna lá.

A partir daí você passou a viver de música? Literalmente. Viver de música. O trabalho com o coral dos Correios foi tão bacana, viajamos vários regionais Norte e Nordeste. A Associação dos Correios, que na época era o [bandolinista] César Jansen, o [percussionista] Carbrasa, era todo mundo de lá, “vamos criar um grupo de samba”, e lá vem o professor Raimundo Luiz, criamos o Arco Samba, tocamos aí na época no Dunas Center [centro comercial, na Cohama], Maré Chic [próximo ao retorno do São Francisco]. Foi uma boa temporada também com a coisa do samba. Daí eu comecei a gostar do cavaquinho, viajei várias vezes para Brasília, estudei com [o cavaquinhista] Henrique Cazes, depois fiquei só com o bandolim.

Como se deu essa passagem, em definitivo, para o bandolim, que é o instrumento pelo qual você é mais reconhecido hoje?

Ele veio, acho que pelo gosto do choro, da coisa pequenininha lá do interior. Eu escutava o chorinho no bandolim, no cavaquinho, no saxofone, na sanfona e me identifiquei com a coisa do bandolim, abracei o bandolim. Embora eu nunca tenha abandonado o violino. Achei também mais vantagem financeira no bandolim, a gente estava sempre tocando o bandolim.

O sonho da orquestra vem desde a época de Olga Mohana. Como está esse processo hoje? Nós temos um núcleo de cordas que sustenta ainda esse sonho. Temos uma mini orquestra de 20, 25 músicos, uma pequena orquestra de câmara, sob a coordenação do professor Joaquim Santos [violonista]. O que falta para essa orquestra é vontade política. Pra que ela cresça, nesse ponto de vista da orquestra sinfônica, precisa ter muita força de vontade. Uma orquestra sinfônica eu a vejo vinculada à instituição, eu não vejo a Escola de Música tomando conta de uma orquestra, por que nós vamos deixar nossos afazeres didático-pedagógicos pra tomar conta de uma orquestra. Uma orquestra sinfônica, ela, em si, é uma instituição, e muito grande, por sinal. Muita gente pergunta por que a Escola não faz uma orquestra, não tem uma orquestra? Não tem que ter! A Escola já tem uma função, que cumpre muito bem. Eu acho, né? [risos].

Quando é que você passa a atuar como professor da Escola de Música? Em 83 eu já comecei a ministrar aula. Quando eu formei em 88, violino, eu fui nomeado. Nessa época não tinha concurso. Eu, [o violonista sete cordas] Domingos Santos, Zezé, Paulinho [Paulo Santos Oliveira, flautista], todo mundo trabalhava como monitor.

E o choro? Quando é que começou efetivamente? Minha participação no choro, eu entrei no Pixinguinha em 94, 95, o Pixinguinha começou em 90, eu entrei cinco, seis anos depois, comecei a trabalhar o bandolim no choro.

Você entrou no Pixinguinha tocando cavaquinho ainda, não é? Foi, no cavaquinho, fazendo base. O bandolinista era o Jansen. Carbrasa na percussão, depois entrou [o percussionista] Quirino, ou foi o contrário. Paulinho já foi do Pixinguinha, Zezé, [o violonista] Marcelo Moreira, Garrincha fez a percussão um bom tempo.

E a sua chegada à diretoria da Escola? Eu fui convidado em março ou abril de 2009. Ligaram da Secretaria [de Estado da Cultura, à qual a EMEM é vinculada] se eu aceitaria, passei umas horas pensando. Resolvi aceitar, não pelo cargo, mas pelos quase 30 anos que eu tinha, na época, de Escola de Música. Eu tinha na cabeça as necessidades que a gente desejava, enquanto professor. A gente já tem uma noção das perspectivas, acredito que eu já realizei algumas delas, estamos realizando outras. Há coisas muito boas que temos feito por aqui, sinceramente. Dentre elas a conclusão de nosso plano político-pedagógico. Não tinha! Era um documento antigo, metodologia antiga. Fizemos várias equipes, caímos para pesquisar, desde 2010. Terminamos em 2012, agora. Dois anos de pesquisa bibliográfica pra arrumar, adequar essa nova metodologia, novo padrão de ensino, baseado no currículo nacional.

Qual a diferença que hoje tem o processo de ensino-aprendizagem na Escola para o que era antes? O que significou a consolidação desse documento? Esse documento, diga-se de passagem, ainda não está aprovado no Conselho Estadual de Educação, embora já o estejamos utilizando. Ele traz de diferente uma série de fatores, entre eles as diversas metodologias de ensino que nós usamos hoje em sala de aula, tanto na teoria quanto na prática, os padrões de estudos, os novos métodos de teoria musical, ritmo, solfejo, que você aplica, estudos práticos em turmas coletivas, a descentralização dos cursos. Por exemplo, hoje nós temos cursos básico infantil, fundamental infantil, fundamental adulto e técnico profissionalizante, separou tudinho. Estamos reduzindo esse curso técnico profissionalizante, que era de cinco anos, para três anos.

Teoria e prática caminham juntas agora? Teoria e prática, não tem mais essa coisa de passar um ano na teoria para depois chegar na prática. Entrou, caminhando junto.

Durante muito tempo a Escola de Música teve um perfil erudito. Como está o espaço da música popular hoje, na formação? A gente sempre tem procurado acabar com essa linguagem, que é pejorativa. A gente tem que procurar fazer a música, a boa música. A Escola de Música está mais aberta, hoje a gente vê muito evento popular, dizem que “a música popular chegou à escola de música”; não é isso: não se trata de música popular ou erudita, é a música, o povo quer ouvir música de qualidade.

Mas durante muito tempo as escolas de música e os conservatórios meio que negligenciaram a música popular. Em Pernambuco o choro está tendo um papel fundamental no conservatório de música, o próprio Marco César [bandolinista] esteve aqui recentemente e disse que foi uma luta, uma conquista recente. Nós fizemos ano passado, isso também foi uma conquista, nós tínhamos aqui na Escola encontros que a gente denominava de semanas. Semana de piano, semana de canto lírico, semana de violão. A partir do ano passado, nós decidimos fazer encontros de música de câmara. Aí você junta, esse aqui do piano, com aquele ali do canto, com esse aqui do violão erudito e trabalha conjuntamente e no final da semana, você está trabalhando vários núcleos no mesmo período e no mesmo palco e fica a coisa camerística. Foi um ganho que a Escola teve. Para esse ano nós já estamos pensando, nesse segundo encontro, que será agora em novembro, dentro do Encontro de Música de Câmara, a primeira Oficina de Choro do Maranhão. Eu tive um contato há duas horas com [o flautista] Toninho Carrasqueira, ele já está fazendo contato com outros. Em breve teremos a definição desse grupo, da oficina que estará dentro do encontro.

Falando em choro, qual a situação do Pixinguinha hoje? E o que significa este grupo para você? O Pixinguinha, para mim, é minha identidade pessoal maior. É o que eu mais trabalho, o que eu mais toco, o choro é o gênero que eu abracei, com que convivo diariamente. O Pixinguinha tocou nove anos na Lagoa da Jansen e depois que eu assumi a Escola não tive mais tempo. Preocupado com a gestão, eu não tinha como sair daqui sete da noite, chegar lá, tocar até meia noite. Eles ficaram lá os quatro, depois resolveram deixar. De lá para cá temos tocado muito em eventos particulares. Ao menos duas vezes por mês a gente toca. Nossa perspectiva é trabalharmos o segundo cd.

O que significou para você o fato de o Pixinguinha ter sido o primeiro grupo a gravar um disco de choro no Maranhão, registrando músicas tanto de vocês, membros do grupo, quanto de chorões que estavam inéditos? Isso foi uma pesquisa muito interessante que a gente começou a fazer logo que pensamos em gravar. Saímos buscando as pessoas. O choro de Zé Hemetério [Viajando pra Carajás], eu pensei logo, eu morava próximo dele no Monte Castelo, próximo à Estrada de Ferro na época. Toquei com ele no Canta Nordeste [festival de música da Rede Globo], defendemos a música do César Nascimento. Zezé procurou outros e assim a gente saiu caçando, Nuna Gomes [Um Sorriso]. Esse registro, pra mim, foi fantástico, não pelo fato de ser o primeiro grupo, mas por registrar, ver a coisa acontecendo, colher a partitura, copiar, registrar.

Esse disco foi registrado nos estúdios da Escola de Música? Como está esse estúdio hoje? Tudo foi feito lá, masterização, uma parte foi feita com o Henrique Duailibe, que na época era técnico do estúdio. Hoje ele está um pouquinho a desejar, mas muito em breve, já estamos com os recursos alocados para dar uma recauchutada. Vamos trocar toda essa parte de informática e de áudio.

Choros Maranhenses. Capa. Reprodução

O [disco] Choros Maranhenses me parece ter tido um desdobramento com o Caderno de Partituras de Zezé. O que o Pixinguinha está pensando para o segundo disco? Há alguma relação com esse caderno? Com certeza! Esse segundo disco a gente vai tirar uma boa parte do que já pesquisamos por onde andamos, com esse projeto no interior, e buscar outras pesquisas, até pra fazer um segundo caderno, se for o caso, e ampliar esse repertório do choro, o qual já vai fazer parte do nosso acervo bibliográfico. A Escola de Música tem um projeto apoiado pela Fapema [Fundação de Amparo à Pesquisa e Desenvolvimento Científico do Maranhão] de digitalização de todo o acervo. Todos os equipamentos já estão chegando, pra gente digitalizar tudo o que nós temos, fitas k7, VHS, LPs, tudo vai ser digitalizado e vamos criar também um banco de partituras de autores maranhenses. É bom que toda a cidade esteja sabendo, os artistas que não têm suas músicas copiadas, escritas, podem trazer que a Escola vai fazer isso. Já temos profissionais e bolsistas contratados para isso.

Como você está observando a cena brasileira do choro hoje? Cada dia que você põe um programa, assiste um canal, a gente vê coisa nova, impressionante, a gente pira. Novas invenções, novos retratos da música, do choro. Pra mim é extremamente inovador, criativo, interessante. É uma nova roupagem. É igual aquela capa do cd do Pixinguinha: aquele monte de tinta, vem a do meio, a de fora, é tudo se renovando.

Que nomes você destacaria? Pelo Maranhão mesmo eu falaria do Robertinho [Chinês, bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], acho que é um grande nome que temos por aqui, tem uma pegada própria dele, tem uma versatilidade muito boa, acho muito interessante o trabalho.

E dos grandes mestres, de outras gerações? Quem é a sua grande referência? Não vamos falar do Jacob [do Bandolim], por que Jacob é Jacob e é de todos. Eu pessoalmente adoro o Joel [Nascimento, bandolinista], estudei três vezes com ele, em três oficinas. Foi o Joel quem me deu um laboratório de bandolim. Fui o bebezinho do Joel. É um cara que tem um jeito todo especial de lidar com o aprendiz.

Hoje os bandolinistas mais jovens, todo mundo cita, é quase uma unanimidade, o Hamilton de Holanda. Com certeza! O Hamilton é uma referência. Em 90 e alguma coisa eu era aluno do Joel e o Hamilton também era aluno do Joel. Nós éramos da mesma sala, nos encontrávamos. Nessa época o Hamilton já era o Hamilton. As palavras do Joel para o Hamilton eram “você já é músico, já faz o que faz, tem o domínio do instrumento, o que você faz é seu, é isso mesmo”, isso em sala de aula.

Se a gente observa bem o choro feito em São Paulo, Rio, Porto Alegre, Recife, Pará, tem estilos particulares. Você consegue identificar isso? O disco do Pixinguinha meio que deu uma mostra do nosso estilo. Você acha que temos um jeito próprio de fazer choro no Maranhão? Essa mistura, essa identidade do choro do Maranhão está nessa riqueza rítmica que a gente absorve, não tem como se livrar disso. Se você vai no Recife tem algo diferente, o Pará tá bem aqui, a gente tá nesse meião, sem falar nessa polirritmia que a gente tem aqui. O cd do Instrumental veio com essa cara.

Você se considera um chorão? Com lágrimas! [risos]. Eu gosto. Gosto muito de choro, mas eu não sou só choro. Mas eu diria que 90% do meu eu é choro.

Isso te faz um chorão. Isso me faz um chorão [risos].