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Ato-show Filhos da Liberdade marca 50 anos do golpe militar em São Luís

O Memorial Maria Aragão, na praça homônima projetada por Oscar Niemeyer, tem forma de pássaro, um dos maiores símbolos de liberdade, pelo fato de voarem.

Hoje os homens até voam, mas precisam de imensas carcaças de metal, nem sempre seguras, nada singelas. E que não cantam, apesar dos muitos fonezinhos de ouvidos distribuídos.

Lembro que, reza a lenda, Santos Dumont teria morrido triste por ver sua invenção usada para a guerra.

Generais, com o apoio de civis, sobretudo empresários, implantaram a ditadura militar para evitar a “ditadura comunista”. Por aí, pelo começo, percebemos o quão foi ridículo este período de nossa história.

Quase 30 anos após a redemocratização permanecemos ridículos: até hoje ninguém foi punido por crimes cometidos durante a ditadura militar. Os maiores avanços da Comissão Nacional da Verdade foram o esclarecimento da morte do ex-deputado Rubens Paiva e a mudança do atestado de óbito de Vladimir Herzog, restabelecendo a verdade: o jornalista foi morto, não suicidou-se, como rezavam os documentos oficiais há até bem pouco tempo.

Não se trata de revanchismo ou rancor, mas de memória. Somente com a punição exemplar dos envolvidos nos crimes atrozes cometidos nos 21 anos da ditadura brasileira poderemos ter a certeza de que não seremos vitimados por um novo período de chumbo. Por esse lado, ainda bem que as murchas, ops, marchas da família foram pífias, ridículas, insignificantes.

Dito isto, deixo o recado e o convite: hoje (31), quando o golpe militar (que só mesmo idiotas podem chamar “revolução”) completa 50 anos, às 19h, o ato-show Filhos da Liberdade tomará o espaço do pássaro do comunista, na Praça Maria Aragão (não por acaso outra comunista), para marcar a efeméride. Não para comemorar os 50 anos do golpe, mas justamente para lembrar, para evitar que outro ocorra.

“Com as bandeiras nas ruas ninguém pode nos calar”, o ato-show acontecerá mesmo com as greves que paralisam a capital. “Ninguém vai ser torturado com vontade de lutar”.

Divulgação

A alegria já vem

O diretor chileno Pablo Larraín é autor de outros dois filmes em que aborda a ditadura militar de seu país. Em No, conta a história do referendo convocado por Augusto Pinochet, diante das pressões internacionais, com que o ditador pretendia legitimar seu mandato.

Sim e não, as opções, teriam, cada uma, 15 minutos diários nos televisores da população, por onde as mentiras do regime invadiam os lares – muitos acreditavam que o referendo seria mera formalidade, que o “sim” venceria independentemente do resultado das urnas. O tiro saiu pela culatra, a história é conhecida: ainda que o resultado tenha sido apertado, o “não” a Pinochet e à ditadura por ele comandada venceu no Chile em 1988.

A história é centrada em René Saavedra (Gael García Bernal), um publicitário que em uma das primeiras cenas da película aparece tentando convencer a direção de uma empresa de refrigerantes sobre um comercial por ele produzido.

Baseado em O plebiscito, de Antonio Skármeta, em No, como na história por ele documentada, o publicitário joga com as armas do inimigo: o que Saavedra vende são sonhos e promessas, embaladas pela alegria e pelo colorido de quem sonhava com um futuro melhor – e democrático – para o país.

Merece destaque a montagem do filme: ao espectador é difícil afirmar com precisão o que foi filmado para No e o que são imagens de arquivo da época do plebiscito.

Talvez o trunfo da campanha vitoriosa tenha sido justamente não explorar a podridão do massacre perpetrado pelos militares que comandavam o Chile, as torturas, desaparecimentos e assassinatos promovidos por Pinochet e cia. Justo por que grande parte da população enxergava nos militares bons e eficientes governantes.

Qualquer semelhança com o Brasil – país-palco da mais longeva ditadura militar sul-americana – não seria mera coincidência, mas elas param por aí: enquanto o Chile não tardou a punir seus agentes da ditadura, aqui justiça e verdade ainda engatinham, a anistia geral e irrestrita ainda protege carrascos e agentes de pijama zombam da Comissão Nacional da Verdade.

No é um filme inspirador. Didático sem ser chato, aborda um período difícil da história recente, sem recorrer tão somente ao seu lado mais trágico e cruel. No fundo, sua principal mensagem é a da esperança: tomei o título emprestado de um jingle da campanha vitoriosa.

Serviço: No está em cartaz no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Sessões: 16h, 18h e 20h. Ingressos: R$ 12,00.