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Ditadura militar em debate no Circuito Universitário de Cinema

Hoje (29), no Colégio Universitário (Colun/UFMA), às 13h15, este que vos perturba dialoga com estudantes sobre Setenta [Brasil, documentário, 96min., direção: Emilia Silveira]. O título do documentário, que encontra e entrevista diversos deles, alude aos 70 militantes de esquerda exilados, trocados pelo embaixador suíço Giovanni Enrico Burcher, sequestrado pela resistência à ditadura militar.

A exibição integra o Circuito Universitário de Cinema, que está acontecendo em todas as capitais brasileiras e, em São Luís, tem como agente mobilizadora Nadia Biondo, estudante de Comunicação da UFMA. O circuito é realizado pela MPC & Associados e tem patrocínio da Petrobras. Suas sessões são gratuitas e abertas ao público.

O desvario autoritário de Natalino Salgado

FLÁVIO REIS*

Estamos assistindo, e o termo infelizmente é este, a mais um episódio de extrema irresponsabilidade e insensibilidade protagonizado pela administração superior da UFMA, sintetizado na posição imperial e intransigente do reitor Natalino Salgado em torno da questão da moradia estudantil, que se arrasta desde o início de sua gestão. Para ser mais preciso, a comunidade de estudantes acertou com a administração que findava, após uma pressão com a ocupação da reitoria por oito dias, o término das obras do prédio próximo ao bairro do Sá Viana. Recursos previstos para 2007 por emenda parlamentar na ordem de 5 milhões e liberados somente em dezembro, quando já havia tomado posse a nova administração, contemplavam com sobras a obra, cuja finalização estava orçada em cerca de 170 mil reais. Desde então, por mais incrível ou bizarro que pareça, a obra nunca foi concluída, a reitoria sempre enrolando os estudantes com evasivas, apesar das ações de pressão que envolveram novamente a ocupação da reitoria.

Nascido do descumprimento de um acordo herdado da administração anterior, o dilema da moradia estudantil, apesar de todo o dinheiro recebido pela universidade nestes últimos anos por conta do REUNI, espelha rigorosamente um modo de pensar a administração da universidade como resultante da concentração de decisões. É uma forma avessa não só à participação, mas, sobretudo, voltada ao esvaziamento dos colegiados superiores, estabelecendo um padrão de gestão, para usar uma palavra cara à atual reitoria, muitas vezes alheio à observância mínima das regras, das normas básicas de funcionamento da própria instituição, mesmo da maneira conservadora e concentradora de poderes como foram desenhados há décadas.

Em resumo, mesmo no modelo herdado, bastante afeito à concentração de poderes na reitoria, Natalino Salgado sempre extrapolou qualquer limite, o que tem ficado cada vez mais evidente nos últimos acontecimentos envolvendo perseguição a professores, a intervenção no COLUN, o total descaso em convocar o CONSUN, chegando mesmo a ter de fazê-lo apenas após intervenções da APRUMA junto ao Ministério Público, o encaminhamento do caso da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares e outros. Os registros em vídeo das poucas reuniões dos conselhos superiores atestam um comportamento despótico totalmente desconectado do ideal de participação necessário a uma instituição universitária. É a própria figura anacrônica de um coronel decidindo tudo para o puro assentimento de um colegiado dócil até as raias da incompreensão.

Estes são os ingredientes que de novo reaparecem, desta vez de uma forma mais crítica, brutal, no episódio em curso. Inconformados com a destinação do prédio da Moradia Estudantil para outros fins, abrigar mais um órgão da administração, a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis, os estudantes prejudicados reagiram. Sem nenhuma resposta clara por parte da reitoria sobre um problema grave que se arrasta há tanto tempo, e efetivado o descumprimento da destinação que sempre foi sua, diante da inauguração para outros fins, o estudante do curso de Ciências Sociais, Josemiro Oliveira, tomou uma atitude de risco, acorrentando-se às grades da entrada do prédio e decretando uma greve de fome que já dura três penosos dias. Jogado no tempo, com a ajuda apenas de colegas de moradia, membros da aguerrida direção da APRUMA e do DCE, alguns poucos professores e estudantes.

Isso mesmo! Greve de fome para conseguir uma audiência com o Magnífico Reitor para tratar de um assunto essencial a uma parcela de nossos estudantes, que deveriam estar vivendo em condições dignas e não passando as dificuldades terríveis que vez ou outra são denunciadas ou vêm à tona apenas por força de atitudes quase desesperadas como esta, mas compreensíveis diante da intransigência irresponsável da atual reitoria. Numa manifestação desastrada, como é de praxe, a direção da universidade já chegou a minimizar o número de estudantes atendidos pelo programa de moradia, quando a verdade é que o prédio seria até acanhado frente às necessidades atuais, com a expansão a toque de caixa que estamos vivenciando.

Tivesse a menor sensibilidade e disposição ao diálogo, o reitor deveria, ao tomar conhecimento de tal fato, de onde estivesse, garantir a audiência com os estudantes e evitar a continuidade de um espetáculo terrível, como é ver um estudante se acorrentar em greve de fome dentro da universidade pública para garantir a observância de um direito à moradia estudantil.

Numa circunstância destas é de se perguntar, para que serve um vice-reitor, por exemplo? Para figurar ao lado do reitor e simplesmente assistir a todo festival de desvarios autoritários que temos visto nas gravações estarrecedoras das poucas reuniões dos colegiados superiores, sem dizer uma palavra, esboçar um gesto? Para que servimos nós, professores, chefes de departamento, coordenadores, diretores de centro, se assistimos passivamente à transformação da universidade num território de desatinos administrativos e podemos conviver tranquilamente em nossos afazeres cotidianos com uma situação insana se desenrolando às nossas vistas, à espera de um simples gesto do homem que se considera o “dono da UFMA”.

Esta não é uma questão circunscrita, é a reafirmação continuada e sem freios de uma posição administrativa que está levando o personalismo mais danoso a ditar os rumos da universidade e protagonizando cenas lamentáveis, como foi a expulsão do professor Ayala Gurgel, movida por mero capricho, revertida depois pela justiça em caráter liminar e, agora, esta decisão abrupta, uma rasteira nos estudantes, culminando numa situação que pode ter desdobramentos sérios se ficarmos apenas observando como um espetáculo desagradável.

Diante deste quadro, a administração superior da universidade limitou-se até agora a postar uma nota cínica no site da instituição, onde afirma com todas as letras que “o Reitor tem se reunido sistematicamente com os representantes estudantis e grupos de alunos para ouvir demandas e reivindicações dos estudantes e atendê-los na medida do possível”. Não responde a uma única questão, limitando-se a dizer que a instituição não foi procurada pelos estudantes para agendar nenhuma audiência com a reitoria para tratar do problema e arrolando números da gestão atual, bem ao estilo da eterna propaganda que tanto lhes agrada e engana a sociedade sobre a real situação de desmandos administrativos que é a realidade hoje da UFMA.

Quanto tempo o corajoso Josemiro ficará ainda lá, acorrentado, para que o Magnífico se digne a conceder aos estudantes uma audiência, explicar as suas decisões e discutir uma resolução rápida? Sim, porque o reitor deve explicações, não só aos estudantes, mas a toda a comunidade acadêmica.

*Flávio Reis é professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA

Por um bom debate

Os posts recentes sobre a UFMA e seu reitor geraram algum debate, cá no blogue e fora dele. Alguns comentários grosseiros e/ou anônimos foram apagados, regras da casa. As caixas estão abertas a qualquer um/a, não precisa concordar comigo nem com qualquer autor que eu publique por aqui, mas carece ser educado/a, como buscamos sempre ser, e dar a cara pra bater, como sempre fazemos.

O texto abaixo, que recebi por e-mail, poderia estar na caixa de comentários, já que é resposta a um. Dada a importância do assunto, trago-o aqui para o espaço principal do blogue, provocar o bom debate uma de suas funções.

A Maria José a que ele se refere no início é a comentarista a quem responde, não é nenhum trocadilho infame e de viés homofóbico com o nome de pia do blogueiro, como já ousaram vis jornalistas, hoje desafetos, o morto & o vivo.

E cabe lembrar: é hoje (20) a eleição para a nova diretoria do Colégio Universitário (Colun).

Senhora Maria José, bom dia!

Sou Bartolomeu Mendonça, Sociólogo e titular da disciplina Sociologia no COLUN/UFMA. Não a conheço, mas frente a sua defesa do “Dono da UFMA” sustentada em uma pretensa verdade, achei-me no direito de lhe conceder algumas informações. As quais estendo ao debate.

1. É inverídico afirmar que a gestão anterior era composta por uma Diretora da APRUMA e mesmo que o fosse não há nada que impeça e é até saudável para a instituição ter gestores afinados com as causas dos servidores, das lutas trabalhistas que historicamente demonstram que contribuem para o aperfeiçoamento doas instituições públicas.

2. Quanto à sociologia e a perseguição ao professor:

A perseguição à Sociologia e ao seu ministrante no COLUN ocorreu logo após a Gestão não Eleita tomar posse. Quando solicitei minhas cadernetas da disciplina Sociologia, que já vinha ministrando normalmente desde o início do ano, a Coordenação de Ensino Médio, também não eleita, encaminhou-me documento, muito mal escrito, diga-se, informando que deveria procurar o Coordenador de minha área (Ciências Humanas) e redistribuir minha carga horária, numa indicação de que não mais deveria continuar ministrando as aulas. Neste ínterim, o coordenador indicado do Ensino Médio divulgou aos alunos das minhas turmas que a Sociologia não era disciplina obrigatória e que, portanto, eles não tinham nenhuma obrigação de participar das minhas aulas.

Isso tudo gerou um grande mal estar e cenas de constrangimento entre mim e os alunos. Pelo que eu e o professor Luiz Alberto, Coordenador da Área de Ciências Humanas, fomos procurar a Coordenação de Ensino Médio, e o coordenador informou que era aquilo mesmo, que não tinha Sociologia no 3º. ano do Ensino Médio, pois não constava do sistema de notas do COLUN.  Nós retrucamos dizendo que ele não poderia interpretar as coisas daquela maneira, fazendo uma inversão, pois na prática desde o ano passado (2011) o professor (Bartolomeu) já ministrava regularmente a disciplina para essa série e que ao invés dele procurar inserir no sistema a disciplina preferiu perseguir o professor e usar de subterfúgio para desrespeitar a legislação federal que previa a obrigatoriedade da Sociologia nas três séries do Ensino Médio. O coordenador de ensino médio foi irredutível e disse que eu deveria parar minhas aulas no 3º. ano imediatamente.

Naquele momento eu disse que só sairia de sala de aula se ele formalizasse aquela ação, já que o documento que havia emitido anteriormente está mal feito e confuso, e se ele não formalizasse, só sairia se mandasse a segurança me tirar à força de sala. Depois disso as dificuldades em sala com alunos pioraram, geralmente um terço dos alunos de modo rotativo participavam das aulas por conta do boato de que eu estava irregular em sala.

Diante disso fizemos diversas campanhas públicas sobre o ataque que sofria a Sociologia no COLUN, informando que a direção não eleita estava retirando-a do 3º. ano. Depois da grande repercussão de nossa campanha, que atingiu os fóruns nacionais, a direção recuou, mas continuou criando situações embaraçosas entre mim e os alunos, como deixar que em meu horário eles saíssem para aulas de educação física. Embora essa disciplina seja também necessária, ela tem seu horário específico, não precisava criar tal situação.

Após uns meses com muitas cobranças houve uma sessão do Conselho Diretor do COLUN (que equivale à Assembleia Departamental nos Departamentos) e ali conseguimos reverter a proposição da direção e foi aprovada a inclusão da disciplina no sistema de notas, que na prática já estava na grade do 3º. ano desde 2011, embora a contragosto, expresso claramente por pelo menos um de seus membros que disse “vamos deixar isso para outro momento, vamos fazer uma comissão para discutir a situação”, numa clara manobra de postergar a decisão que já há muito estava atrasada e criar uma irregularidade artificializada para continuar atacando ao professor e a sua disciplina.

O resultado disso tudo é que muitos alunos incitados pela direção perderam conteúdos e ficaram de reposição e boa parte desses estão de prova final, já que conseguimos reverter a perseguição tanto à Sociologia quanto ao professor, que também é diretor da APRUMA, o que não é crime. Não aceito ser atacado porque me organizo com meus pares para lutar por melhorias no trabalho e na educação.

Enfim, a perseguição ocorreu e foi muito forte e deliberada, os asseclas da reitoria viram uma oportunidade de servir ao seu senhor, perseguindo um colega e subtraindo os direitos dos alunos à disciplina. Não fosse a nossa resistência teríamos saído de sala de aula com o “rabo entre as pernas”, como se diz, e os alunos ficariam sem a vivência e os conteúdos da disciplina.

Deturpar os fatos, invertendo-os, a ponto de apresentar a direção não eleita (ou melhor interventora) como responsável pela inclusão da disciplina é um expediente vergonhoso, mas, pelo que se vê, infelizmente tornado corriqueiro. Além de tudo isso, essa figura do interventor, mesmo prevista na legislação, é uma coisa anacrônica quando se busca o aumento da participação em todos os níveis e é mesmo lamentável que a reitoria da UFMA tenha optado por este caminho e, principalmente, que professores ainda se disponham a este papel.

Respeitosamente,

Bartolomeu Mendonça