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A faceta infantojuvenil de Josué Montello

O tesouro de D. José. Capa. Reprodução

 

Originalmente publicado em 1944, O tesouro de D. José e outros contos só ganhou nova edição já na década de 1980. Agora, por ocasião do centenário do autor (1917-2006) e iniciativa do escritor Wilson Marques, em parceria com a Casa de Cultura Josué Montello, o livro infantojuvenil ganha uma terceira edição pela editora Mercuryo Jovem [2017, 63 p.]. O caprichado volume tem ilustrações de Paola Brunelli.

Sete contos fantásticos apresentam aos leitores outra faceta de Josué Montello, realizados antes de ele se tornar o escritor consagrado como viria a ser reconhecido. Já estão ali marcas da prosa montelliana, a despeito dos verdes anos da juventude, às vezes desculpa para deslizes: prosa límpida e envolvente, sua terra natal como cenário, o cuidadoso tratamento literário dado a temas populares – ou simplesmente aos frutos puros de sua fértil imaginação.

“São pequenas histórias, muito bem escritas, lendas que se referem à terra maranhense, envolvendo homens e bichos. Josué resgatou estes causos, para não deixar que eles fossem tragados pelo esquecimento”, atesta na apresentação do livro o escritor Arnaldo Niskier, membro da Academia Brasileira de Letras, em que ocupa a cadeira 18, cujo patrono é o também maranhense João Francisco Lisboa.

Em O tesouro de D. José e outros contos Josué Montello fantasia a origem do dourado das águas do Rio Itapecuru (o conto-título), conta a história de um macaco que queria ser homem, antecipando a discussão sobre autoaceitação, sobretudo na ditadura da publicidade (A ambição do macaco), discorre sobre a força do amor (A princesa Julieta e A rainha das águas), a origem das flores (A lenda das flores), das saúvas (O bruxo) e das construções subterrâneas das formigas (O palácio da formiga).

Por vezes crianças e jovens terão que recorrer ao dicionário para descobrir o significado de uma ou outra palavra mais rebuscada do vocabulário de Montello. Por vezes adultos também precisarão fazê-lo – talvez mesmo o livro seja para estes, embora mergulhe profundamente no universo da fantasia, em geral vinculada à infância, já que ao tornarmo-nos adultos perdemos a capacidade de nos encantar com princesas, fadas e bichos e plantas que falam.

O autor de Os tambores de São Luís é capaz de nos devolver este encanto – ao menos enquanto dura a leitura de O tesouro de D. José e outros contos.

A magia de Montello

Exposição aborda o Josué Montello jornalista. Foto: Joseane Souza

 

Entrei ontem por acaso na Casa de Cultura Josué Montello (Rua das Hortas, 327, Centro), que não frequentava desde minha passagem pela assessoria de comunicação da então secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma), no governo Jackson Lago (2007-9).

Chamo de acaso o fato de ter ido lá com outro propósito, não especificamente para ver a exposição inaugurada ontem, dedicada ao Montello jornalista. Fui conduzido pela diretora da Casa, Joseane Souza, que me apresentou um vasto universo, formado por recortes de jornais e revistas com os quais o maranhense colaborou, além de livros reunindo sua produção jornalística, sobretudo crônicas. Um novo volume, reunindo crônicas inéditas no formato, está sendo preparado para o centenário do autor.

Do juvenil A Mocidade, jornal que reunia estudantes do Liceu Maranhense e do Centro Caixeiral e teve Montello como redator-chefe, a revistas como Manchete, Fatos & Fotos, O Cruzeiro e o Jornal do Brasil, até livros como Janela de Mirante, Fachada de azulejos e Areia do tempo, este último reunindo textos do imortal sobre a cultura francesa.

Romancista bastante conhecido por livros como Os tambores de São Luís, Cais da sagração, Um beiral para os bem-te-vis e Noite sobre Alcântara, entre inúmeros outros, Josué Montello, nascido em São Luís em 21 de agosto de 1917, foi vários e esta exposição abarca uma de suas facetas. Também por ocasião de seu centenário, o jornalista e professor universitário Ed Wilson Araújo prepara uma exposição baseada em Cais da sagração.

Em seguida, guiado por Wanda França, fiz uma visita ao museu anexo à Casa de Cultura Josué Montello, que reproduz parte do apartamento em que ele se hospedava quando visitava São Luís – mudou-se para o Rio de Janeiro ainda jovem, vindo a falecer ali, em 15 de março de 2006 – e abriga objetos pessoais. Entre inúmeros diplomas, certificados, medalhas e bibelôs, me chamaram bastante a atenção um troféu Juca Pato, que reproduz o personagem de Belmonte – prêmio literário concedido pela União Brasileira de Escritores (UBE), com apoio do jornal Folha de S. Paulo –, e um relógio de parede brinde do sebo Papiros do Egito, da saudosa Moema Alvim.

Ganhei quase duas horas entre uma visita e outra, entre uma conversa e outra, entre uma aula e outra. Sim, no fim das contas, é disso que se trata: Joseane e Wanda dão aulas gratuitas a quem esteja disposto a aprender. Entrei por acaso, repito, portanto não estava armado de apetrechos jornalísticos – gravador, bloco, caneta, máquina fotográfica: levava apenas o celular no bolso e nem este quis sacar para não interromper (a foto que ilustra este post é de Joseane, pedi depois por whatsapp). Seus olhos brilham ao falar do velho Montello – com quem conviveram.

Conversamos um bocado, sobre um monte de coisa. Depois do papo, percebi que é insignificante o que conheço de Montello. Que o mundo dele é universo vasto a ser desvendado – para além dos livros. Wanda me contou de suas aventuras em sebos por São Paulo, à cata de edições que não figuravam no acervo da CCJM. Descobriu por exemplo um Os tambores de São Luís de capa verde, da José Olympio – o homem-editora tema de uma das reportagens de Montello que vi expostas – “igualzinha a uma que temos aqui, só muda a cor”. Trouxe e incorporou ao acervo.

Ela me antecipou também a ideia de um concurso de redação para estudantes da rede pública estadual. Torço para que aconteça. Estudantes universitários que porventura conversem com elas teriam um bocado de temas menos insossos para escreverem suas monografias, dissertações, teses, para além dos cursos de Jornalismo e Letras.

Por exemplo, a geografia de Montello, a geografia em Montello, as transformações por que passou São Luís entre as páginas de seus livros e o que vemos hoje – para melhor ou pior os estudos dirão.

Da sacada do antigo apartamento do escritor, Wanda me contava histórias de um pé de abricó que caiu no dia dum aniversário de Montello, já após seu falecimento. Olhei para cima e vi um bem-te-vi num fio elétrico. Apontei, evocando o título de seu romance, ao que ela me revelou: “todo dia cinco horas da tarde um casal pousa aqui no beiral e fica cantando”.

Arrepiei-me e pude entender-lhes o brilho nos olhos: é o encanto com a magia de Montello. Despedi-me agradecendo e prometi voltar mais vezes, o que farei e recomendo. A exposição Arquivo pessoal de Josué Montello: trajetória e contribuições como jornalista literário fica em cartaz até 30 de junho, mas a CCJM pode ser visitada em qualquer época em dias úteis, das 13 às 19h.