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“Porque precisava responder tua dedicatória”

Gabriela,. Reprodução

 

Saudosistas dirão que no tempo das cartas era melhor, e haja carteiro gastar sola de bota e a flecha do cupido voar em slow motion. Antigamente era melhor, dirão, contrariando os adeptos dos aplicativos de relacionamento, tudo fácil, ao alcance de um clique, tudo efêmero, tempos modernos, tempos líquidos.

Uma das obsessões do escritor Bruno Azevêdo tem sido fotografar gente, sabe quem o acompanha pelas redes sociais. Desde Ostreiros, livro que dividiu com a fotógrafa Ana Mendes, o escritor vem contando histórias de gente simples, essas que supostamente não dariam uma biografia ou, uma vez escritas, estas biografias não despertariam interesse do público e encalhariam nas livrarias, ledo engano.

Gabriela, [Pitomba, 2018, 24 p., R$ 35,00] reúne em belo volume, embalado em envelope (ou não seria uma carta), diversos temas de interesse do autor: a foto-missiva tem uma pegada etnográfica, a emular Pierre Verger – todas as fotografias foram feitas em Salvador, Bahia –, passeando com leveza pela típica conversa entre amantes, que falam de seus objetos, símbolos e afinidades, não necessariamente nessa ordem.

No texto, aparecem outras obsessões de Bruno Azevêdo, como ficção científica, cinema e tipografia – este último, atestado pelo capricho editorial de sua casa, responsável por colocar definitivamente o Maranhão no mapa dos circuitos literários brasileiros, sobretudo os alternativos.

Estão lá ainda citações a valter hugo mãe, José Eduardo Agualusa, Geraldo Figueiredo (fotografado segurando o próprio poema), a vírgula do título dialogando com Clarice,, de Benjamin Moser, e um Belchior de raspão. A enchente do rio Paraguassu, na Bahia, em 1990, me liga diretamente à do Beberibe, década e meia antes, responsável por tornar raríssimo o Paêbiru de Zé Ramalho e Lula Cortes (1975).

O texto não legendando as fotos, as imagens em preto e branco dialogando com o colorido das páginas, cada qual de uma cor, enfeitada, não poderia ser diferente, qual uma carta de amor, “todas as cartas de amor são ridículas”. Uma beleza, uma beleza!

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Lideranças da ‘Teologia da Libertação’ escrevem aos cardeais; Casaldáliga envia poema

O manifesto assinado por 2 mil teólogos da libertação, entre eles d. Pedro Casaldáliga, Leonardo Boff e Jon Sobrino, pede ao futuro Papa, quem quer que venha a ser, que considere como prioritária a expectativa dos católicos por uma Igreja aberta para as mudanças exigidas pelo mundo contemporâneo. Casaldáliga ainda enviou um poema ao papa emérito Bento XVI.

POR DERMI AZEVEDO
DA CARTA MAIOR

Pela primeira vez na história da Igreja Católica, os cardeais eleitores do Papa recebem, de um bispo, um poema. O autor da poesia é o bispo emérito de São Félix do Araguaia/MT, o religioso catalão d. Pedro Casaldáliga, um dos representantes mais expressivos da Teologia da Libertação.

O texto foi também enviado ao papa emérito Bento XVI. Paralelamente, d. Pedro assinou na semana passada um manifesto de 2 mil teólogos da libertação, entre os quais o brasileiro Leonardo Boff e o espanhol Jon Sobrino, com ampla atuação em todo mundo e que foi punido pelo então cardeal Joseph Ratzinger, quando era prefeito (ministro-chefe) Congregação da Doutrina da Fé (antigo Santo Ofício).

O manifesto pede ao futuro Papa, quem quer que venha a ser, que considere como prioritária a expectativa dos católicos por uma Igreja aberta para as mudanças exigidas pelo mundo contemporâneo.

De Pedro do Araguaia para o Pedro de Roma:

“Deixa a Cúria, Pedro”
Deixa a Cúria, Pedro,
Desmonta o sinedrio e as muralhas,
Ordene que todos os pergaminhos impecáveis sejam alterados
pelas palavras de vida, temor.
Vamos ao jardim das plantações de banana,
revestidos e de noite, a qualquer risco,
que ali o Mestre sua o sangue dos pobres.
A túnica/roupa é essa humilde carne desfigurada,
tantos gritos de crianças sem resposta,
e memória bordada dos mortos anônimos.
Legião de mercenários assediam a fronteira da aurora nascente
e César os abençoa a partir da sua arrogância.
Na bacia arrumada, Pilatos se lava, legalista e covarde.
O povo é apenas um “resto”,
um resto de esperança
Não O deixe só entre os guardas e príncipes.
É hora de suar com a Sua agonia,
É hora de beber o cálice dos pobres
e erguer a Cruz, nua de certezas,
e quebrar a construção – lei e selo – do túmulo romano,
e amanhecer
a Páscoa.
Diga-lhes, diga-nos a todos
que segue em vigor inabalável,
a gruta de Belém,
as bem-aventuranças
e o julgamento do amor em alimento.
Não te conturbes mais!
Como você O ama,
ame a nós,
simplesmente,
de igual a igual, irmão.
Dá-nos, com seus sorrisos, suas novas lágrimas,
o peixe da alegria,
o pão da palavra,
as rosas das brasas…
… a clareza do horizonte livre,
o mar da Galileia, ecumenicamente, aberto para o mundo.