A fome e outros dramas humanos

Cena de Caranguejo Overdrive no programa da peça. Reprodução

 

SÃO PAULO – O ambiente é enfumaçado, ajudando a criar certo clima de podridão, durante pouco mais de uma hora em que o público vai conviver com o drama de Cosme, homem-caranguejo, para evocar o clássico do pernambucano Josué de Castro, uma das inspirações de Caranguejo Overdrive, peça de Pedro Kosovski (autor da ótima Cara de Cavalo), com Aquela Cia. de Teatro, do Rio de Janeiro, em cartaz no Teatro Caixa Cultural (Praça da Sé, 111, Centro, São Paulo/SP), de quinta a domingo (até 1º. de abril), às 19h15, com entrada franca (os ingressos podem ser retirados no dia das apresentações, a partir das 9h).

Um power trio – guitarra, baixo e bateria – executa a trilha sonora ao vivo, reverenciando Chico Science e Nação Zumbi, como de resto todo o movimento MangueBit, as outras referências fundamentais de Caranguejo Overdrive. O texto e as atuações são fortes, num roteiro carregado de denúncia social contra toda uma ordem de desmandos dos poderosos.

Cosme é um ex-combatente do exército brasileiro na Guerra do Paraguai. Quando volta a seu lugar de origem, onde havia sido catador de caranguejo, o mangue não existe mais, aterrado em nome do progresso. Qual os bichos que outrora lhe deram sustento, Cosme não tem mais como viver. É um personagem à beira de um colapso, entre policiais insensíveis (quase uma redundância) e uma prostituta – personagens típicos de zonas (perdão do trocadilho) portuárias.

O espetáculo é bem humorado – seria cômico se não fosse trágico – ao refazer a trajetória do Brasil desde a abertura, apontando idiossincrasias de nossos governantes e dos que os rodeiam. Ao biografar o país, os atores dAquela Cia. fazem verdadeiras caricaturas ao vivo de todos os ocupantes do Palácio do Planalto. De José Sarney ao ilegítimo, ninguém escapa do humor ferino e da crítica afiada de Kosovski.

Em cena, um homem se transforma literalmente em caranguejo, o corpo nu coberto de lama, que ele mesmo prepara durante o desenrolar dos acontecimentos. É importante frisar: sempre há ao menos duas ações transcorrendo simultaneamente em Caranguejo Overdrive, o que exige atenção e escolhas por parte da plateia. E, portanto, participação.

“Vocês pensam que é confortável ficar tanto tempo assim?”, ele indaga à plateia, referindo-se à posição incômoda em que se mantém durante certo tempo, demonstrando ótimo preparo físico, mas no fundo fazendo uma metáfora à fome e à inanição a que o personagem foi condenado. “Este corpo de lama que tu vê é apenas a imagem”, volta a Chico Science.

O dedo cavouca uma ferida que o Brasil havia superado, a fome, a cujo mapa o país foi devolvido pelos golpistas de plantão, que tomaram o poder de assalto. A fome, cujo primeiro tratamento sociológico e acadêmico foi dado justamente por Josué de Castro, autor de, entre outros, Geografia da fome e da ficção Homens e caranguejos. O texto do programa, aliás, afirma o desejo da companhia de que esta temática abordada em Caranguejo Overdrive se torne datada.

Com a pose prolongada do ator, a peça também debate, de modo sutil, o próprio fazer teatral: emular um caranguejo é dureza, como escrever e encenar espetáculos consistentes, longe do riso fácil e/ou de artistas consagrados em emissoras de televisão.

Caranguejo Overdrive é dinâmica e, como a lama metafórica de sua concepção e execução, incorpora os detritos sociais que são, afinal, elementos de denúncia do texto de Kosovski. À encenação a que assisti (sexta-feira, 23), por exemplo, já comparecia o assassinato brutal e covarde da vereadora carioca Marielle Franco, num dos momentos mais impactantes (e não são poucos) da peça.

Ceumar Solo encanta em seu reencontro com público brasiliense

[Sobre show que Ceumar apresentou ontem, em Brasília/DF, no Teatro da Caixa, pelo projeto Solo Música, da Caixa Cultural. Com agradecimentos e abraços ao casal amigo Glauco e Maira]

Em alguns momentos do show Ceumar dispensou o microfone

Ceumar subiu ao palco ontem (17) cantando à capela Oração do anjo (parceria dela com Mathilda Kóvak) e só foi amplificada pelo microfone da metade da música em diante. Já bastava para o êxtase da plateia do Teatro da Caixa, em Brasília/DF.

Comunhão é uma palavra que traduz a relação da cantora mineira radicada na Holanda com seu público. Ceumar não é cantora de multidões, embora lote teatros pelo país, quando passa por aqui. Ela confessou a saudade, assoou o nariz, ensinou o público a bater palmas (para acompanhá-la no coco Gírias do Norte, de Jacinto Silva e Onildo Almeida, que gravou em seu disco de estreia) e anunciou para agosto o lançamento de seu novo disco. “Já está quase pronto, mas não quero a concorrência da Fifa”, disse sorrindo.

O repertório do show de ontem passeou por músicas de todos os seus discos: O seu olhar (Arnaldo Antunes/ Paulo Tatit), Avesso (Ceumar/ Alice Ruiz), Outra era (Fagner/ Zeca Baleiro), Maravia (Dilu Mello/ Jairo José), Gira de meninos (Ceumar/ Sérgio Pererê), São Genésio (Gero Camilo/ Tata Fernandes), Pecadinhos (Zeca Baleiro), Boi de Haxixe (Zeca Baleiro), Achou! (Dante Ozzetti/ Luiz Tatit), Maldito costume (Sinhô), Óia pro céu (José Fernandes/ Luiz Gonzaga), Parede meia (Kléber Albuquerque), Maracatubarão (Ceumar), Rãzinha blues (Lony Rosa) e Onde qué (Sérgio Pererê), entre muitas outras em quase duas horas de um belo espetáculo.

Ao compositor piauiense Climério, que estava na plateia, ela dedicou sua interpretação de Flora, parceria dele com Ednardo e Dominguinhos. “É uma música linda, que eu já cantei há algum tempo. Nunca gravei. Está chegando a hora”, prometeu. À Dindinha (Zeca Baleiro), faixa que batizou seu primeiro disco, emendou a morna Sodade de Cesária Évora: “foi a música que inspirou Zeca a fazer Dindinha“, revelou, “tenho feito essa junção nos shows”.

Eram só ela e seu violão. Às vezes apenas ela, sua voz. E precisávamos de mais?