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“O produtor deve tentar sempre se ater à melhor qualidade possível de sua época”

“Me pegou desprevenido mesmo! Mas vou te respondendo no voo… Ó aí!”, escreveu o produtor musical Bruno Giorgi na resposta ao e-mail que lhe enviei com as perguntas desta entrevista.

O filho de Lenine ainda não tem 30 anos e já é um dos nomes mais requisitados do Brasil em sua área. Praticamente nasceu dentro de estúdios e viu produtores lendários em ação, como Tom Capone (1966-2004).

Em 2006, Bruno Giorgi abriu o estúdio O Quarto, na Urca, Rio de Janeiro, onde atua como produtor e engenheiro de som. Uma busca com seu nome na internet levará a um escultor brasileiro homônimo (1905-1993). Nosso entrevistado foi indicado ao Grammy latino pela engenharia de som de Chão (2011), disco de seu pai. Ele assina a mixagem e masterização de Ottomatopeia (2017), disco mais recente do também pernambucano Otto.

Bruno Giorgi está em São Luís ministrando a oficina Introdução à produção musical, hoje (30), amanhã (1º./12) e depois (2/12), das 14h às 17h, no Centro Cultural Vale Maranhão, na programação do Conecta Música, evento paralelo de formação do Festival BR 135.

Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Flora Pimentel/ Divulgação

 

Bruno, qual é efetivamente o papel de um produtor musical e quais os limites de sua interferência no trabalho de um artista?
Tudo depende do projeto a ser produzido. Há projetos em que o produtor cria toda a parte musical em conjunto com o artista. Também existem os projetos em que só cabe ao produtor gravar da melhor forma possível, com a menor interferência possível.  Isso, hoje em dia, é definido pelo artista, não mais pelo produtor.

Um produtor musical necessariamente não precisa ser músico, mas isso ajuda?
Todo conhecimento ajuda. O produtor está no meio de um diálogo entre o artista (ou a banda), músicos, técnicos e público. Para conseguir trabalhar com essa gama de profissionais, quanto mais ferramentas ele tiver, melhor.

Pelão [o produtor João Carlos Botezelli, responsável pelo lançamento em disco de nomes como Adoniran Barbosa, Cartola e Nelson Cavaquinho], Hermínio Bello de Carvalho [letrista de música popular, descobridor de Clementina de Jesus] e o escritor Sérgio Porto [assinava com o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, foi ele quem encontrou o compositor Cartola trabalhando como flanelinha] produziram discos fundamentais, sem serem instrumentistas. São exceções?
Existem vários outros ótimos produtores que não são músicos. Esta é uma discussão interessante, inclusive. Quem é músico? É só quem toca um instrumento?

O quanto sentimento ajuda no trabalho de um produtor? Explicando melhor: cumprir o papel de produtor apenas pelo cachê resulta num trabalho menos bom que um produzido por alguém que se emocione com o trabalho do produzido?
Esta pergunta é muito boa e vai ser um dos motes da nossa oficina! Obrigado por ela. Acho que existem produtores que já chegaram em um grau de experiência que os permite trabalhar satisfatoriamente com quase qualquer projeto. No caso desta pergunta, que julgo ser bastante pessoal, respondo apenas por mim… Acho que o interesse de todas as partes é fundamental para o sucesso de qualquer material artístico. No fim das contas, o trabalho envolvido na produção de um disco é lento e muito subjetivo; é difícil conciliar projetos, pois o trabalho requer imersão… No meu dia a dia, acabo priorizando os projetos em que me sinto necessário de alguma forma e isso tem a ver, claro, com interesse. Respondendo mais diretamente: prefiro indicar algum profissional que imagino que se adeque melhor à proposta do artista se o projeto não me despertar interesse. Por outro lado… É muito difícil um trabalho não me interessar hoje em dia. A maioria das bandas e artistas que chegam até mim me conheceram através de algum projeto anterior em que trabalhei. Isso acaba fazendo uma espécie de “seleção natural”: quem me procura o faz por notar alguma afinidade estética com o que já produzi…

O barateamento das tecnologias facilitou a vida dos artistas por um lado. Por outro, pulverizou a produção. Com tanta oferta e tanta exposição, como se destacar? O produtor tem também algum papel fundamental nisso?
Não costumo pensar no avanço tecnológico como uma ameaça aos profissionais que precisam dominar alguma técnica. Também não acredito que a facilidade que veio com a tecnologia reduziu a qualidade das produções; acho o exato contrário. Tendo dito isso, acredito que só se sobressai o profissional com um trabalho consistente. Isso é difícil. Mas está muito mais fácil do que há 20 anos.

As formas de produzir e consumir música mudaram ao longo das últimas décadas: vinil, cd, download, streaming, a volta do vinil. Como você avalia esta linha do tempo?
O material base continua sendo a música. Acredito que o mercado muda, a forma de se ouvir música também muda, mas seguimos tentando fazer uma música que se conecte com o resto das pessoas no mundo. Por isto, acredito que esta mudança de paradigmas só venha como uma atualização do objeto que dá play na música e não em alguma característica desta arte. Acho que o produtor, diante disso, deve tentar sempre se ater à melhor qualidade possível de sua época. O meio dita pouca coisa (hoje em dia, quase nada).

Você já trabalhou com nomes importantes da música brasileira, entre os quais Lenine e Otto, em seu disco mais recente. Pode revelar aos leitores com o que você está ocupado atualmente?
Entreguei a versão física do disco novo da banda pernambucana Kalouv esta semana. Estou finalizando o primeiro disco do Deriva, projeto do Mateus Guedes, também de Recife. Mês que vem começarei o disco novo do Lenine. Esta semana também sai o disco novo do Cicero, que gravei ao lado do Pedro Carneiro.

Enquanto grava disco novo, Lenine disponibiliza show no youtube

Turnê de Chão foi captada por câmeras instaladas no corpo de técnicos e roadies

Lenine considera Chão seu disco mais rock’n roll. E tudo começou com uma guinada: a captação acidental do canto de um passarinho quando o artista pernambucano gravava as bases do álbum lançado em 2011.

É um disco cheio de efeitos e bases pré-gravadas, algo mantido no show com bastante competência – o blogueiro assistiu-o no Teatro Arthur Azevedo. Chão era realmente diferente de tudo o que Lenine havia produzido até então e causou certo estranhamento em fãs adeptos do “em time em que está ganhando não se mexe”.

Ali estão os sons do coração do neto – que aparece na capa do disco, deitado sobre o peito de Lenine –, máquinas de lavar, pisadas na brita, passarinho, serra elétrica, chaleira e cigarras, reproduzidos nas 130 apresentações (em 80 cidades do Brasil e do mundo) ao longo da turnê, que durou dois anos e nove meses.

Câmeras GoPro foram instaladas ao lado dos músicos – JR Tostoi e Bruno Giorgi – e no peito de técnicos de som e roadies para captar imagens de Chão. O áudio foi captado em duas apresentações ao vivo. Lenine disponibilizará, a partir de hoje (13), uma por dia, as 22 faixas gravadas de Chão ao vivo.

O “orquidoido” – como se define, por ter mais de cinco mil espécies de orquídeas em sua coleção – está em estúdio, gravando Carbono, seu 11º. álbum – são 14 ao todo, mas o artista exclui trilhas e coletâneas da soma.

É a primeira vez que Lenine disponibiliza um show completo no youtube. Dia 4 de abril ele poderá ser visualizado completo, como playlist. Carbono será lançado no início de maio.

Confira o primeiro vídeo disponibilizado por Lenine:

Palco, o Chão de Lenine

Sobre Chão, show que Lenine apresentou ontem (6) no Teatro Arthur Azevedo

Para os mais puristas, acostumados à acústica de seu violão percussivo, Chão, o show que Lenine apresentou ontem (6) no Teatro Arthur Azevedo, talvez tenha exagerado na eletrônica. Eram ele, revezando-se entre violões, e os com ele produtores do disco que batiza o espetáculo, a turnê, JR Tostoi e Bruno Giorgi, músicos jogando nas mais de onze entre contrabaixos, guitarras, bandolins, computadores e uma pá de instrumentos, equipamentos e toda uma parafernália eletrônica.

Tudo para recriar ao vivo a atmosfera do disco, permeado de efeitos e interferências sonoras não musicais para alguns, barulhos cotidianos: a batida do coração do neto do compositor (ambos estampam a capa de Chão), passos, uma chaleira, motosserra, um canário, cigarras, máquinas de lavar e escrever. No palco, Lenine se sentiu em casa, em espetáculo que está percorrendo o Brasil apenas em teatros, justo pela necessidade de fazer o público sentir-se dentro do som, no caso, (n)a casa do pernambucano.

Chão, show e disco, mostram que, mesmo Lenine sendo hoje um artista extremamente popular graças a várias de suas músicas terem comparecido a trilhas sonoras de novela e programas de tevê outros, seu público não é de se contentar com o fácil, com o óbvio. Daí ele poder se permitir guinadas como a presenciada pelo público ludovicense, que ontem lotou completamente o Arthur Azevedo.

Lenine cantou o repertório inteiro do disco novo e trouxe ao público diversos sucessos da carreira, como Rua da Passagem (Trânsito, parceria com Arnaldo Antunes), A rede (com Lula Queiroga), Leão do Norte, Candeeiro encantado (com Paulo César Pinheiro), Tubi Tupy (com Carlos Rennó) e Jack Soul Brasileiro, entre outras. A ponte (com Lula Queiroga) pareceu feita sob medida para a ilha de São Luís.

Ponte Pernambuco-Maranhão no camarim

Entoando a clássica Não deixe o samba morrer (Edson/ Aloísio), chamou ao palco Alcione, convidada da noite, com quem trocou elogios e interpretou O silêncio das estrelas (parceria de Lenine com Dudu Falcão) e Relampiano (com Paulinho Moska).

No bis, deixou o público cantar Paciência (parceria com Dudu Falcão) – um de seus maiores êxitos – e repetiu Se não for amor eu cegue (parceria com Lula Queiroga), do disco novo.

Aos quase 30 anos de carreira, Lenine segue em plena forma. O amante de orquídeas, a quem já dedicou o título de um disco – Labiata (2008) –, estreou em 1983, com Baque solto, que dividiu com Lula Queiroga. Somente 10 anos depois viria o hoje raro Olho de peixe (1993), um de seus melhores discos, dividido com o percussionista Marcos Suzano. Mas foi O dia em que faremos contato (1996) que o tornou um compositor realmente popular. O álbum, cujo projeto gráfico remete a obras de ficção científica – a faixa-título é assinada por Lenine e Bráulio Tavares, este um autor de –, trouxe músicas como Hoje eu quero sair só (parceria com Mu Chebabi e Caxa Aragão) e Dois olhos negros (de Lula Queiroga) – ambas ficaram de fora do repertório do show em São Luís.