A música é a arte dos encontros

Joãozinho Ribeiro autografa hoje Milhões de uns – vol. 1 no Bip Bip, em Copacabana. Foto: Paulo Caruá

 

Mesmo de férias, o compositor Joãozinho Ribeiro não baixa a guarda. Explico: funcionário público federal, ele está no Rio de Janeiro, acompanhado da musa Rose Teixeira, a quem dedicou, entre outras, Te gruda no meu fofão, tema de espetáculo homônimo encenado pelo Laborarte em tempos idos. Pois se o funcionário público goza férias, o artista não. Ou ao menos não completamente: poeta e musa estarão hoje (20) à noite no mítico Bip Bip, na rua Almirante Gonçalves, em Copacabana, onde o primeiro autografa Milhões de uns – vol. 1 para cariocas e turistas que aparecerem.

Alfredinho, proprietário do mítico Bip Bip. Foto: Dario de Dominicis/ CartaCapital

A escolha não poderia ter sido mais apropriada e é cercada de coincidências. Tanto o Bip Bip quanto Joãozinho Ribeiro são menos conhecidos do que deveriam, dadas suas importâncias, um para a boemia carioca, outro para a música produzida no Maranhão, ambos para a cultura brasileira de modo geral. O bar foi fundado em 13 de dezembro de 1968, data da promulgação do famigerado Ato Institucional nº. 5, que acirrou as trevas da ditadura militar brasileira, de que o artista foi bravo combatente, destacado militante da greve da meia passagem, em São Luís do Maranhão, setembro de 1979.

As coincidências não param por aí: tanto João Batista Ribeiro Filho, o artista, quanto Alfredo Jacinto Melo, atual proprietário do bar, que adquiriu em 1984, são conhecidos por diminutivos. Outra coincidência reside no futebol: tanto Joãozinho quanto Alfredinho atualmente frequentam a segunda divisão, com seu “glorioso” Botafogo.

Como todas as noites (o bar abre às 19h30), a de hoje será pautada pela arte, cultura e solidariedade, além da confiança mútua entre proprietário e frequentadores, desta feita somada à do artista que, aproveitando um passeio, resolve estreitar os laços entre a cidade maravilhosa e a ilha magnética.

A noite de autógrafos de Joãozinho Ribeiro no Bip Bip tem entrada franca. Milhões de uns – vol. 1 será vendido por R$ 20,00 na ocasião.

O lirismo de Paulo Mendes Campos revisitado

O amor acaba. Capa. Reprodução

O título O amor acaba [Companhia das Letras, 280 p., 2013] pode soar pessimista, mas ao leitor menos avisado, que não conhece o autor, ou dele não lembra, será quase certeza do contrário: amor à primeira leitura, o amor começa.

Um dos “quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse”, como classificou o amigo Otto Lara Resende – um deles – sobre grupo completado por Hélio Pelegrino e Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos é desde sempre um dos maiores cronistas do Brasil.

Talvez dizer isso hoje soe fácil, a crônica, este brasileiríssimo gênero, caindo em desuso; mas não o era quando o mineiro ocupou redações cariocas, tempos de Antonio Maria, Rubem Braga, de Drummond e dos próprios colegas citados, para ficarmos em poucos – e grandes – exemplos.

As “crônicas líricas e existenciais” – o subtítulo – do volume (leia três textos, incluindo a crônica-título) revisitam um Paulo Mendes Campos entre o amor, o cotidiano, a boemia, o futebol, a poesia. Poesia, aqui, deixemos claro, tanto o escrever em verso responsável pela estreia literária do autor, quanto seu texto em prosa – as crônicas deste volume carregadas de… poesia!

Selecionadas por Flávio Pinheiro – que assina a apresentação do volume. Ivan Marques assina o posfácio –, as crônicas deste O amor acaba foram publicadas originalmente em jornais e revistas entre 1951 e 1990, a maioria em Manchete, mas também no Correio Paulistano, Diário Carioca e Jornal do Brasil, além dos livros Homenzinho na ventania (1962), Os bares morrem numa quarta-feira (1980) e Diário da Tarde (1981) – recentemente relançado pelo Instituto Moreira Sales, no formato pensado pelo autor, assunto para outra resenha. Como também merece outra resenha O mais estranho dos países – Crônicas e perfis (2013), também publicado pela Companhia das Letras.

Com sua leveza e lirismo, Paulo Mendes Campos permanece atual e sua leitura tem muito a nos ensinar, de estudantes do ensino fundamental – onde o conheci em livros de gramática e paradidáticos – a jornalistas, mas não só. A quem se interessa pela vida e pelo que de mais prosaico esta tem. Ou a quem precisa, vez por outra, dar um tempo no corre corre para observar o que realmente importa: o canto de um passarinho, o sorriso de uma criança, um boteco com os amigos, um beijo em quem se ama, uma crônica de Paulo Mendes Campos.

Obituário: Retão

O Retão: saudades e lembranças, após mais de 30 anos de serviços prestados à boemia da Ilha

Localizado na Avenida Vitorino Freire (entre Camboa e Areinha), na altura da Vila Passos, o Restaurante Retão era um espaço por que tínhamos muito carinho, onde costumeiramente íamos beber, eu e minha esposa – que chegou a comemorar um aniversário no recinto –, nós e os pais dela, mamãe e alguns amigos iniciados em nosso particularíssimo roteiro de baixa gastronomia – às vezes este grupo inteiro somado, de uma vez.

“E aí, meu patrão?!”, sempre me saudava o garçom da noite, logo que eu lhes pisava a calçada, onde em geral ficávamos fugindo da parte interna, sempre mais abafadiça e barulhenta – a exceção eram as noites de chuva (o Retão sempre funcionava à noite, algo em torno de entre 18h e meia noite). Depois dos apertos de mãos e abraços, tanto faz termos ido ali ontem ou há muito sem aparecer, já devidamente instalados em uma mesa ao vento, saltava o pedido: “o de sempre!”. E cervejas começavam a ser enfileiradas enquanto o tira-gosto era preparado.

Espaço simples, mas muito agradável, sua calçada e vento era o que havia de bom na região, com sua cerveja gelada e tira-gosto de vitamina B3, os três bês de bom, bonito e barato – sempre ótimas pedidas seus pratos de alcatra, frango e carne de sol, entre outros, porções “consideradas”, sempre acompanhadas de batatas fritas, salada e farofa. As contas, trazidas por seus garçons oficiais, os dois únicos que se revezavam nas noites, sempre nos assustavam. “Só isso?”, indagávamo-nos entre os comensais, sempre esperando uma conta mais cara, diante de tantas garrafas vazias enfileiradas aos pés da mesa e um ou mais pratos já recolhidos por Humberto e George, eles, os dois garçons no revezamento noite após noite.

A música não era o seu ponto forte e o aparelho de DVD podia exalar tanto um forró de plástico da pior qualidade quanto uma coletânea “momentos de amor” anos 70-80 e até mesmo apresentações de manifestações juninas de nossa cultura popular, ao longo dos festejos de São João.

Era, às vezes, nossa esticada natural após fazer a feira semanal, nas noites de quinta. Ou a parada obrigatória na sexta, para um papo qualquer, extensão do trabalho ou apenas bobagens para descontrair e aliviar a seriedade da vida, sempre tão corrida, após mais uma semana de missão cumprida. Canto de matar o calor que castiga a Ilha cotidianamente, mesmo quando a noite já caiu.

Depois de mais de 30 anos de serviços prestados à boemia da capital maranhense, o Retão fechou as portas. Sem maiores detalhes, Humberto confidenciou-me prejuízos que sua mãe, proprietária do local, estaria tendo. O espaço está lá, fechado e bem localizado. Torço para que renasça feito Fênix pelas mãos de alguma alma bondosa que queira ver contentes alguns habitués dali. Do contrário, restarão boas lembranças e saudade – as que me ocorrem todo dia, toda vez que passo ali em frente. Como hoje, com este obituário já escrito, quando parei defronte para tirar a fotografia que o ilustra.