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Um bandolim imperial

Déo Rian 70 anos. Capa. Reprodução
Déo Rian 70 anos. Capa. Reprodução

 

Não à toa Déo Rian é apontado como o herdeiro musical de Jacob do Bandolim. Aquele se formou nos famosos saraus na casa deste. Em 2014, ao completar 70 anos de idade e 53 de música, Rian juntou-se aos músicos do Regional Imperial para uma celebração: para o bem do choro e da música brasileira, a história se repete, como aponta o violonista sete cordas João Camarero em texto emocionado no encarte do disco.

“Neste cd, apesar de ser mais um intérprete do que um compositor, a maioria do repertório é de minha autoria”, afirma Déo Rian noutro texto do encarte (há outro, ainda, de Jairo Severiano). Ele assina, sozinho ou em parceria, 13 das 14 faixas de Déo Rian 70 anos [Pôr do Som, 2015], algumas feitas a partir de veredas abertas pelo mestre Jacob, casos de O sarau do Luiz Santana [Jacob do Bandolim e Déo Rian] e Três amigos [Jacob do Bandolim, Damázio Baptista e Déo Rian].

É ele mesmo quem conta as histórias no encarte do disco: no segundo domingo de cada mês o amigo Luiz Santana organizava saraus que contavam com as presenças de Léo Viana (irmão de Pixinguinha) e do clarinetista Juvenal Peixoto, entre outros. Do maxixe Três amigos, Rian lembra-se de Jacob ter feito a primeira parte na década de 1960 e ele e Damázio terem-na completado em 1986. Ele conta ainda a história de Na casa do Manoel Rigaud: “na década de 60, Jacob do Bandolim e eu estávamos tocando na casa do nosso grande amigo, Manoel, quando Jacob fez este choro. Escreveu a partitura mas deixou vários compassos em branco; em 2013, completei e fiz esta homenagem póstuma ao excelente violonista do choro falecido em 1988” – Jacob, no entanto, não é creditado como autor no encarte.

Em Choro pro Déo ele recebe a homenagem do violonista Maurício Carrilho, autor da faixa, única não assinada por Déo Rian. Este homenageia o parceiro Damázio Baptista em Lembranças de um violão e a filha Fernanda na valsa Branquinha, que fecha o disco.

Na execução das peças Déo Rian (bandolim) acaba por tornar-se, por assim dizer, o sexto integrante do quinteto formado por João Camarero (violão sete cordas), Edu Guimarães (sanfona e piano), Lucas Arantes (cavaquinho), Júnior Pita (violão) e Rafael Toledo (pandeiro). E como se trata de uma celebração, em um disco festivo não podiam faltar parentes: o filho Bruno Rian (violinha em Bruno no choro, que o pai compôs em sua homenagem), a nora Aline Silveira (flauta em Com dor e tudo – composta por Déo Rian em 2009 ao chegar em casa reclamando-se da ciática –, Querendo bem, Choro pro Déo e Chorões do Bandolim de Ouro – em que homenageia os músicos frequentadores dos saraus de sábado da mítica loja carioca “Ao Bandolim de Ouro”, que fabricou, ainda na década de 1960 o bandolim com o qual Déo toca e grava até hoje), além de Rafael Mallmith (violão) e Marcus Thadeu (percussão).

O rico encarte de Déo Rian 70 anos traz ainda as capas de todos os discos gravados pelo bandolinista, desde a estreia, em 1970, tributando Ernesto Nazareth – também ídolo de Jacob –, além de algumas fotografias revelando o convívio do músico com, entre outros, nomes como Raphael Rabello, Orlando Silveira, Altamiro Carrilho, Dino, Canhoto, Meira, Carlos Poyares, Abel Ferreira, Luperce Miranda, Jorginho, Jonas, César Faria, Darly do Pandeiro, Carolina Cardoso de Meneses, Copinha e, é claro, Jacob do Bandolim.

O disco é síntese das misturas que são, digamos, a receita da longevidade do choro, para além de modismos. É o encontro da velha e jovem guardas para o registro de um repertório inspirado. Depois de ter integrado ou tocado junto com grupos como Época de Ouro, Noites Cariocas e Quinteto Villa-Lobos, entre outros, ele rejuvenesce e se reinventa ao figurar ao lado dos jovens componentes do Regional Imperial, cujos talentos são comprovados a cada nota.

“Esse álbum comemorativo traz o peso do seu legado como grande instrumentista e a leveza da maior herança que carrega: o dom de tocar choro, dessa vez com a maturidade de um intérprete no alto dos seus setenta, mas com os dedos ainda jovens”, afirma João Camarero. “Espero que os ouvintes curtam um autêntico clima de roda de choro”, espera, modesto, Déo Rian. Como não, rapaziada?

Hoje: noite preta no Chico

Divulgação

 

Sobrinho do veterano violonista sete cordas Francisco Solano, o bandolinista e guitarrista Ronaldo Rodrigues apresenta-se hoje (8), às 20h, no Chico Discos. Black & Tal, o show, tem três momentos distintos.

No primeiro, ao bandolim, com o tio ao sete cordas, reverencia o universo do choro, lembrando seus clássicos – o músico foi entrevistado pela série Chorografia do Maranhão e integra o grupo Novos Chorões, no Rio de Janeiro, onde está radicado desde 2008.

No segundo momento, também ao bandolim, Rodrigues será acompanhado por Orlando Moraes – autor das composições que serão executadas nesta parte do show –, violonista com quem estudou por vários anos, Jeff Soares (contrabaixo) e Stenio Luz (percussão).

No terço final do espetáculo, Rodrigues ataca de guitarra – o músico integrou a Som do Mangue de Beto Ehongue e cia., antes desta virar Nego Ka’apor. Franklin Nazareno (bateria) e Jeff Soares (contrabaixo) acompanham-no por roteiro instrumental de black music.

Atualmente Rodrigues está concluindo a graduação em bandolim pela Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Os ingressos para esta terceira edição de Black & Tal custam R$ 20,00. Chico Discos tem capacidade para 60 pessoas. A noite terá ainda discotecagem da Maré de Som.

Chorografia do Maranhão: Wendell de la Salles

Abre parêntese: ao tempo em que reproduzo cá no blogue a 49ª (de 52) entrevistas da série Chorografia do Maranhão, tenho a imensa alegria de compartilhar com os poucos mas fiéis leitores deste Homem de vícios antigos: o edital de apoio à publicação de livros 21/2015 da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema) aprovou o projeto Chorografia do Maranhão (clique aqui para baixar o resultado). Muito em breve, caros e caras, as entrevistas realizadas por este que vos perturba, Ricarte Almeida Santos e Rivanio Almeida Santos (fotografias), publicadas entre março de 2013 e maio de 2015 no jornal O Imparcial, reunidas em livro, aguardem! Fecha parêntese.

Bandolinista potiguar radicado há cerca de 10 anos em São Luís, membro honorário do Regional Tira-Teima é o 49º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Doutor em engenharia química e bandolinista, o potiguar Wendell Ferreira de la Salles ganhou este sobrenome de uma promessa da avó: com complicações na gravidez, ela batizaria o filho com o nome do santo do dia. Seu pai, o funcionário público João Batista de la Salles, iniciava ali um outro ramo onomástico na árvore genealógica da família.

Grande comprador de discos – “ele comprava mais do que ouvia” – foi seu pai uma das primeiras influências musicais do menino Wendell. Em meio a tão vasto acervo, logo os discos de choro chamaram-lhe a atenção.

Wendell nasceu em 22 de agosto de 1974, filho da professora do ensino fundamental Telúsia Ferreira de la Salles. É casado com Kátia Simone, também engenheira química natalense, com quem tem uma filha de oito anos – que lhe inspirou a música Anjo meu, gravada no disco de estreia do Regional Tira-Teima, que deve ser lançado em breve.

O 49º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão conversou com os chororrepórteres no novo Barulhinho Bom (Praia Grande) e contou, entre outras histórias, como começou a tocar ainda criança, a ida para o doutorado na França, o retorno ao Brasil – hoje é professor da Universidade Federal do Maranhão – e a acolhida entre os bambas do Tira-Teima.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

De onde vem teu sobrenome? É uma situação estranha. A família de meu pai efetivamente é Melo, exceto meu pai que tem esse sobrenome, de la Salles. Ele nasceu no dia de um santo, São João Batista de la Salles, e minha vó, que parece que teve problemas na gravidez, fez uma promessa, só que na hora do registro ela não botou João Batista de la Salles de Melo, ficou João Batista de la Salles. Aí vem dele.

Seus pais tinham algum envolvimento com música? Não. Meu pai sempre gostou de ouvir música, era um grande comprador de discos, mais comprava do que ouvia. A gente sempre teve uma variedade muito grande, eu sempre ouvi muita música por que meu pai comprava muitos discos, eu ouvia até mais que ele, ele comprava e eu ouvia. Até hoje continua mais ou menos assim. Ele tinha uma tendência a querer agradar os convidados. Se ele tinha amigos que gostavam de rock, ele ia e comprava rock, gostava de samba ele comprava discos de samba, de choro, discos de choro.

Mas sempre com um padrão de qualidade. É, sempre com um padrão de qualidade, sempre com bom gosto, em geral. O rock para ele era aquele rock tradicional, de Beatles, Rolling Stones, Elvis Presley. Mas isso foi mais na infância mesmo, depois ele deu uma parada, hoje é que está voltando [a comprar discos].

Ele tocava alguma coisa? Não. Na família, quem tocava era meu avô, pai da minha mãe. Ele nasceu no interior do Rio Grande do Norte, tocava cavaquinho, mas tocava forró.

E a música nordestina, tinha espaço na tua casa? Tinha. Sempre teve. Forró, eu gosto bastante, daquele tradicional, meus pais também.

No meio de toda essa coleção de discos de teu pai, você lembra o que chamou a atenção? Algo que você queria ouvir sempre, que repetia muito. Aquele disco que você ouviu até furar. É engraçado, realmente a variedade era grande, mas quando eu paro para pensar no que eu queria ouvir, ainda criança, eram discos de choro mesmo. Eu não lembro de botar outras coisas. Lembro das capas dos discos de Jacob [do Bandolim] que ele tinha, o disco de Assanhado, Vibrações, são as que mais vêm à cabeça ainda na época do vinil. Eu não tinha muito tempo para escolher, papai não dava tempo para escolhermos, ele estava o tempo todo botando algum disco, e a gente no clima, ali, sempre tinha festa lá em casa.

Além de músico, você tem outra profissão? Atualmente sou professor da UFMA, formado em engenharia química. Minha profissão efetiva, mesmo, deixou de ser a música há bastante tempo.

Houve algum momento de tua vida em que você atuou como músico profissional? A música permitiu até que eu concluísse uma graduação, que eu fizesse um mestrado em Natal, a situação financeira de meus pais não era muito fácil. Eu nunca tive problemas para fazer o que eu queria devido à música. Comecei a tocar muito cedo, meus pais não tinham muitas despesas comigo. A música serviu como profissão um bocado de tempo na minha vida, tocava na noite, sexta, sábado, domingo, desde oito, nove anos de idade. O primeiro regional que eu toquei foi um que meu pai criou. Ele se empolgou tanto quando me viu brincando com o cavaquinho que era de meu avô, que criou um grupo para eu tocar. Ele pagava os músicos para tocar comigo. Eu não tocava nada, sabia duas ou três músicas, ele pagava os músicos, tinha um cantor, eu entrava, toca minhas duas ou três músicas e eles continuavam, a noite toda.

Então o teu instrumento de origem é o cavaco? É o cavaquinho. Um cavaquinho que tinha na casa de meu avô, que eu achei velho, dentro de um armário, a primeira vez que eu peguei ele se assustou, já veio para tomar da minha mão. Ele já faleceu, uma das filhas guarda até hoje. Era um tonante, preto, nem sei se existe essa marca atualmente. Foi meu primeiro instrumento. Eu comecei a pegar, mesmo forçando a barra, ele não gostava que ninguém pegasse, eu pegava só para fazer barulho. Um dia ele pegou para me ensinar uma música, “quer aprender uma música?”, eu “quero”. Ele tocava poucas músicas, uma das que ele tocava, que ele solava no cavaquinho, era Naquela mesa [de Sérgio Bittencourt, feita em homenagem a seu pai, Jacob do Bandolim], foi a primeira música que ele me passou. Quando eu cheguei em casa mostrando pra meu pai, meu pai já se empolgou, aí pronto.

Você considera seu avô seu primeiro professor? Eu acho que sim. Foi ele quem primeiro me passou alguma coisa.

Como é que foi esse processo de transição do cavaquinho para o bandolim? Eu comecei exatamente nesse grupo que meu pai montou, a ir para o Clube do Choro em Natal. Eu comecei mais ou menos com oito anos. É sempre difícil eu saber a data que eu comecei por que meu pai tem uma tendência a diminuir. Se vocês forem falar com meu pai é capaz de ele dizer que eu comecei com quatro [risos dos chororrepórteres]. Então de tanto eu ouvir meu pai reduzindo, a idade com que eu comecei, eu fico em dúvida. Mas eu acho que eu tinha uns 10 anos mais ou menos, quando ele decidiu me levar para o Clube do Choro. Eles se reuniam acho que quarta-feira à noite. Quando cheguei lá foi um choque de realidade. Eu até ali não estava preocupado com o que eu fazia. Esse grupo que meu pai montou, a gente fazia qualquer coisa e eu estava agradando pela idade. Quando eu cheguei no Clube do Choro, não, o pessoal já comigo completamente diferente, eu comecei a revisar, a estudar, a escutar, montar repertório. Começa a tocar, as pessoas começam a falar, “instrumento para solista não é cavaquinho, é bandolim, tem muito mais possibilidades, uma maior escala, se você começar a tocar bandolim você vai largar o cavaquinho no outro dia”. No Clube do Choro não tinha solista de cavaquinho, mas tinha um solista de bandolim. Na época foi uma de minhas primeiras referências: João Juvanklin. Toca até hoje, tem vários cds lançados lá em Natal, eu toco várias músicas dele, é um excelente compositor. Para mim foi uma inspiração para eu migrar para o bandolim. Não lembro exatamente quando, me deram um bandolim de presente lá no Clube do Choro. E realmente, quando eu comecei a tocar bandolim eu deixei o cavaquinho de lado.

Você desperta para o choro em meados da década de 1980, quando o rock brasileiro estava no auge. Eu nunca fui muito de rock, essa geração do rock brasileiro, a minha esposa, por exemplo, conhece muita coisa dessa época, Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii, Legião Urbana, mas essa geração passou meio de lado para mim. Eu acho que eu já estava muito focado nisso aí [no choro], realmente foi muito intenso, eu acho que eu toquei tanto nesse período aí, dos 12 aos 20 anos, que quando eu tive uma situação que me permitiu largar o bandolim eu não senti saudade.

No bandolim você se considera meio autodidata? De início, sim. Mas as coisas foram acontecendo muito rápido. No momento em que eu estive no Clube do Choro eu comecei a aparecer mais e tinha um instituto de Música lá em Natal, o Instituto Valdemar de Almeida, e tinha vários cursos de música, curso de teoria, bandolim, cavaquinho, violão, e na época, o diretor do instituto fez uma apresentação no Clube do Choro e me ofereceu bolsas para eu estudar gratuitamente no instituto. Aí eu perguntei: “bolsa de quê?”, e ele “do que você quiser”. Aí eu disse que ia fazer cavaquinho, bandolim, teoria musical, vou fazer tudo. Ainda nessa época eu estudei cavaquinho, bandolim, com o professor Alexandre Moreira, que é sobrinho do João Juvanklin, que também é bandolinista, é uma família com vários bandolinistas, a esposa do Alexandre também é bandolinista, uma bandolinista canhota, muito boa, eu comecei a estudar no Instituto, bandolim, cavaquinho e teoria musical. Até então, aí, era basicamente de ouvido. Na época, mesmo você estudando, a gente não tinha facilidade de encontrar material como se tem hoje em dia. “Ah, gostei dessa música”, se você for esperar a partitura para aprender aquela música você não aprende. Não ia achar, não tinha internet para procurar, então eu acabei desenvolvendo uma capacidade muito grande de aprender música de ouvido. E eu não precisava estar com o instrumento para aprender, bastava ouvir. Isso acontece até hoje. Eu não perdi o bandolim, deixei de tocar, fiquei praticamente 10 anos sem tocar, mas eu não deixei de ouvir.

Quando você foi para a França você largou o bandolim? Não, na França, até 2004, eu fiquei lá de 2000 até 2004, lá eu cheguei até a fazer algumas gravações, não de choro. Eu participei de um projeto com um cantor que queria gravar a música de Jorge Brassan, era uma música em ritmo de bossa nova, ele queria dar uma mudada. Eu cheguei em Toulouse, eles estavam inaugurando uma linha de metrô e queriam criar uma música para tocar no lançamento desse metrô, e quando eu estava lá eu conheci um grupo chamado Le Famouse T, me disseram que tinha uma brasileira, eu fui me informar quem era, era a irmã do Armandinho Macedo [bandolinista] que fazia parte desse grupo. Ela tinha a intenção de fazer uma música voltada para o frevo, para tocar no lançamento desse metrô. O Armandinho de vez em quando aparecia na França. Ela soube que eu tocava bandolim e acabou me convidando para participar desse cd, que eles lançaram com o patrocínio da empresa de transportes. A gente gravou uma música, eu fui na França o ano passado, estava tocando essa música lá, era uma composição deles e eu gravei uma participação. Eu toquei, mas sempre tinha uma brincadeira lá e eu não abandonei o bandolim, a gente está fora, sente mais saudade da terra, era uma forma de eu me ligar ao Brasil. Mas quando eu voltei ao Brasil, praticamente fiquei sem pegar no bandolim, de 2004 até o ano passado. Pegava em casa, ocasionalmente. Foi um período conturbado, eu era de Natal, fui para a França, voltei para Maceió, fiquei dois anos em Maceió, depois vim para cá, quando eu estava em Maceió minha esposa engravidou, eu vim para cá com uma criança de 20 dias, entrei na UFMA, comecei a focar naquilo ali e a música foi ficando de lado, ficando de lado…

Além de teu avô quem você considera seus principais mestres? Meu avô foi importante no início. Eu diria o João Juvanklin, lá de Natal, nunca foi meu professor de bandolim, mas o fato de eu estar tocando frequentemente ali com ele, no Clube do Choro, aprendi bastante coisa com ele. O João Juvanklin tinha uma coisa que eu admirava bastante nele, era o som que ele tirava do bandolim. A gente encontra muitos bandolinistas bons, mas são poucos os que conseguem tirar do bandolim o som que o bandolim é capaz de fornecer.

Isso tem a ver com técnica? Ou com a qualidade do instrumento? Isso tem a ver com técnica, principalmente. Mas também com a qualidade do instrumento, se você pegar um instrumento ruim é difícil, mas um cara que tem o domínio da técnica consegue até tirar um som bonito num instrumento ruim. Agora tem muita gente com bons instrumentos que não consegue tirar esse tipo de som. E ele tirava. Um dos elogios que me fizeram a vida toda é exatamente em cima disso aí, que eu consigo tirar um som bonito do bandolim, provavelmente inspirado no que eu ouvia dele para produzir esse tipo de som.

Além de técnica e da qualidade do instrumento, onde você localiza o sentimento? O sentimento é importante. Quando a gente fala em técnica a gente só pensa em agilidade. Quando eu falo em técnica eu incorporo a questão do sentimento aí também. Você pega uma música como Vibrações, se você não colocar sentimento ali ela não rende, não flui, é uma música qualquer. Quando você escuta a gravação de Jacob do Bandolim [autor da música] você sente alguma coisa diferente, você sente as emoções que ele estava tentando imprimir quando estava tocando aquela música. Isso é outra coisa difícil também, você sentir que o cara que tá tocando aquela música está sentindo alguma coisa e não tocando mecanicamente. Se for mecanicamente a música não sai com qualidade.

Além de cavaquinho e bandolim você toca algum outro instrumento? Eu toco um pouco de violão sete cordas, um pouco de violão seis cordas, eu nunca tive um violão em casa. Quem toca em grupo de choro sempre vê os outros tocando e acaba aprendendo um pouquinho. Eu gosto de brincar um pouco com o violão, de sete, de seis, cavaquinho. Já toquei um pouco de violino, é a mesma afinação de bandolim, tive um pouco de dificuldade com o arco, mas se adapta, se eu quisesse insistir eu me adaptaria, a escala é a mesma coisa. Basicamente isso aí.

Já que você também toca cavaquinho, que lugar tem Waldir Azevedo em teu repertório? Hoje praticamente eu não toco Waldir Azevedo devido a eu ter focado muito no bandolim. Mas eu tenho um repertório muito grande de Waldir Azevedo, na época que eu tocava cavaquinho era essencialmente Waldir Azevedo. Meu pai tinha a coleção dele praticamente completa em vinil, eu gosto bastante.

E Jacob? Jacob tem um lugar bem especial. Eu tenho um repertório muito bom de Jacob do Bandolim. Na época em que eu comecei a tocar não era fácil encontrar. Eu aprendi muita coisa de Jacob pelo João Juvanklin, não pelos discos, eu olhava-o tocando. Da minha geração é uma das principais referências.

Além de instrumentista você desenvolve alguma outra habilidade na música? Compõe, arranja? Eu nunca fui muito de compor, acho que não tinha nem tempo para parar para compor, sempre fazia várias coisas paralelamente, além da música, várias outras atividades. Mas cheguei a fazer algumas composições, lá atrás. Quando eu cheguei à São Luís, depois que eu conheci o Regional Tira-Teima eles me falaram que estavam fazendo um disco de composições originais e perguntaram se eu não tinha alguma composição. Eu gravei duas no cd deles, minhas, uma que eu tinha feito lá atrás, e uma que eu compus especialmente para estar neste cd. Uma é Aguenta seu Florêncio, que eu fiz em homenagem a meu avô, seu João Florêncio [Ferreira]. Meu avô era daqueles que gostava de música a 150 quilômetros por hora, coisa que exigisse técnica. Eu fiz uma música para ele, faleceu há cerca de três anos. A outra é uma música que eu fiz para minha filha, recentemente, intitulada Anjo meu. Infelizmente não deu tempo de participar mais, o disco já estava praticamente pronto. Eles tinham intenção que eu incluísse o bandolim em outras músicas, mas isso ia terminar atrasando o lançamento do cd.

Você gosta de tocar com o Tira-Teima? Gosto! Foi engraçado, eu tava há quase 10 anos sem tocar, conheci-os meio por acaso, estava na casa de um professor da UFMA, toca piano, Adelino Valente [pianista e bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 20 de julho de 2014]. Desde que eu cheguei na UFMA a gente se encontrava pelos corredores e o pessoal dizia para ele: “ah, ele toca bandolim”, e me dizia: “ah, ele toca piano”, e ninguém botava muita fé: um professor de matemática que dizem que é muito bom e toca piano e um professor de engenharia química que toca bandolim [risos]. Foi passando um ano, dois, três anos, um dia ele me chamou para ir à casa dele, fomos tocar um pouquinho. Quando eu comecei a tocar ele começou a ligar. Ligou pra Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], pra Paulo [Trabulsi, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], o pessoal do Tira-Teima: “venha cá, venha cá”. Eles estavam na época do Tira-Teima Convida [temporada de apresentações em que o Regional recebia convidados, no Terraço do Hotel Brisamar] e eu participei com eles uma sexta-feira. Me convidaram para tocar, mas eu estou tocando sem compromisso. O fato de eles tocarem em uma data fixa, na sexta-feira, pra mim é um pouco complicado. Pode acontecer de um semestre eu ter aulas na sexta-feira à noite, os horários variam. Às vezes eu saio muito tarde. Se eu assumisse o compromisso eu teria que ir, então eu preferi ficar um pouco mais livre.

O que trouxe você à São Luís foi a UFMA? Foi a UFMA. Inclusive foi meio inusitado. Eu não queria vir para os lados de cá. Eu sou de Natal e tinha a intenção de ficar ali perto. Só que quando eu voltei do doutorado eu estava atrás de edital para professor, e dos editais que lançaram na época, normalmente esses editais exigem que você revalide o diploma. Todos os editais exigiam o diploma revalidado, menos o da UFMA. A UFMA não exigia a revalidação para a inscrição, só para a posse. Aí eu vim fazer, vim parar aqui.

Você, como engenheiro químico, com doutorado na área, consegue fazer alguma relação, se é que é possível, entre a música e a engenharia química e em que sentido uma coisa e outra se atrapalham e se ajudam? Eu acho que não atrapalha, mas também não ajuda. Quem trabalha na área da engenharia, se pudesse ter um lazer como a música, seria fantástico. É uma profissão estressante, um pouco pesada, principalmente em nível universitário, pega turmas enormes, conteúdo que envolve muito cálculo. Então você ter a opção de quando estiver estressado pegar um instrumento e dar uma relaxada, é fantástico. Eu me distraio facilmente com outras atividades, não só com música, mas com leitura, com tevê. Agora, relação direta, existem teses que falam da relação da matemática com a música; da engenharia, especificamente, eu não conseguiria fazer.

E os grupos de que você fez parte lá em Natal? Eu fiz parte desse que meu pai criou, eram Os Originais do Choro, deve ter durado uns três anos, aí eu fiz parte do Clube do Choro, enquanto ele existiu, devo ter ficado uns seis, sete anos. É aquele negócio, o pessoal se reunia para tocar, muita gente que tocava no Clube do Choro era músico profissional, depois começou a querer se expandir. Enquanto tocávamos às quartas-feiras, tudo bem, depois começaram a querer fazer sexta e sábado, aí começa a tirar opção de quem vive de música, então o Clube do Choro acabou, se dividiu em dois grupos, eu fiquei tocando em um e o outro foi para outro lado. Quando eu entrei na faculdade eu larguei tudo, sabia que era um curso pesado. Mas a música ainda estava muito perto e o pessoal, “não, vamos montar um grupo”, aí montamos um grupo de samba, Os Engenheiros do Samba. Eu tocava cavaquinho, era uma brincadeira de estudantes. No meio desse curso as bandas de samba sérias de Natal começaram a me ver tocando e eu comecei a receber convites, do Divina Chama, Verdadeira Chama, era outro nível, um negócio maior, multidões, palco grande, algo que eu nunca tinha tido com o choro. Começou a me dar uma renda e não exigia muito de mim.

E discos? Você chegou a gravar? Na época em que eu saí foi que o pessoal começou a gravar. O João Juvanklin gravou um disco patrocinado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, hoje ele tem uns seis ou sete, mas tudo gravado depois que eu saí de lá. Inclusive ele fala, sempre que a gente se encontra, que ele ainda queria que eu participasse de um cd dele. Eu esqueci de falar de um grupo: quando eu estava no Mestrado eu participei de um grupo de choro chamado Choro & Companhia. Foi o último grupo em que eu toquei, até ir embora para a França, de 1998 a 2000, estávamos com um projeto de gravar um cd na época. Não tinha mais nenhum grupo de choro e a gente de algum modo fez ressurgir. Foi interessante por que a gente foi chamado até para participar de festivais internacionais. Antes de eu ir estudar na França eu fui lá com esse grupo tocar, num Festival de Verão. Quando a gente voltou, o flautista desse grupo, é bem conhecido, o Carlos Heinze, estava gravando o cd dele e eu participei de duas músicas, correndo, antes de viajar, uma gravação feita às pressas.

Pra você, o que é o choro? Qual a importância dessa música? O choro foi que me fez praticamente gostar de música. O choro, por incrível que pareça, é uma música interessante para você começar a caminhar pela música brasileira. O choro é meio resultado de vários gêneros que acabaram culminando nesse estilo. Quem pensa em começar a tocar, um bom ponto de partida é o choro. Ele tende a ser um cara bem eclético, tende a ter uma preparação que permita ele transitar entre várias áreas da música brasileira. O músico de choro tem facilidade de se integrar com vários estilos musicais.

Você concorda que quem toca choro toca qualquer coisa? Qualquer coisa eu não diria, mas toca muita coisa. Tem alguns estilos musicais que são diferentes. Um solista de choro tem dificuldades de improvisar no rock, é uma linguagem totalmente diferente. Nessas músicas mais brasileiras ele tem mais facilidade de transitar entre elas.

Você se considera um chorão? Sim. É o gênero em que eu me sinto à vontade. A linguagem é muito comum quando a gente está há muito tempo naquele meio. Você ouve, já começa a improvisar, conhece aquela linguagem. Me considero um chorão, embora goste muito de samba também, devido a essa experiência que eu tive na graduação quando toquei em grupos de samba.

Quem você considera o maior nome do bandolim do Brasil? Em todos os tempos? Jacob!

Por que? Pelas composições dele. ele deu uma cara ao bandolim, se pedir para alguém citar, “diga 10 composições que você gosta ao bandolim”, nove vão ser de Jacob, se não forem as 10.

[O Imparcial, 15 de março de 2015]

Amilar: 100 anos de Choro

CESAR TEIXEIRA

Foto: divulgação
Capa da reedição em cd do disco de Amilar. Reprodução

 

Nascido na cidade de Pinheiro, em 15 de agosto de 1915, completa 100 anos de nascimento, hoje, o multi-instrumentista Amilar Arthur Costa Brenha, que se notabilizou no Maranhão como um dos grandes mestres do bandolim. Aos 11 anos de idade ele já se apresentava em emissoras de rádio, teatros e circos, onde teria como inspiração o virtuoso músico e amigo Laquimé.

Foi no circo que pode mostrar seu talento, a partir de 1926, não só como instrumentista, mas também como palhaço e atuando em comédias e dramas. Mudou-se aos 15 anos para São Luís, onde ampliou seus conhecimentos de violão e aprendeu banjo, rabecão, violão tenor, cavaquinho e bandolim, com o qual conquistaria fama.

Na capital, Amilar juntou-se a grandes músicos que tocavam em bailes e clubes. Entre eles, Chaminé (acordeom), Jorge Cego (trombone), Agnaldo (violão), Vital (bateria), Roque (rabecão), Hemetério (violino), que também alegravam as boates tradicionais da Zona do Baixo Meretrício (ZBM), como Monte Carlo, Cristal, Bela Vista, Casablanca, e as madames Maroca, Lili, Zilda… Depois curavam a ressaca no Hotel Central.

Viajando pelo norte do país com o Circo Teatro Íbis, o artista chegou até o Território Federal do Amapá. Para lá retornou no início de julho de 1958 no Rebocador Araguary, pondo um fim nas atividades circenses. Arranjou emprego na Companhia de Eletricidade do Amapá, guardou o bandolim, mas continuou participando com seus amigos das rodas seresteiras como violonista.

Em fevereiro de 1965, deixou a CEA e foi trabalhar na Prefeitura do município de Mazagão, ocupando os cargos de capataz, auxiliar administrativo e almoxarife. A essas alturas, seus dotes com o cavaquinho e o bandolim já tinham sido descobertos pelos seus colegas de trabalho, que sempre o convidavam para festividades públicas.

Candidatou-se e elegeu-se vereador pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), em 1972, tomando posse no ano seguinte, mas em 1976 renunciou ao mandato, descontente com o partido. Nesse mesmo ano foi convidado a ministrar aulas de violão na Escola Estadual D. Pedro I, o que iria compensar os baixos e atrasados salários da Prefeitura.

Para melhorar sua escolaridade, Amilar fez vários cursos na área da música e do folclore, capacitando-se para o Magistério de 1ª a 5ª Séries do 1º Grau, em 1980, por meio do Instituto de Educação do Território do Amapá, tendo recebido o registro de professor.

No Amapá integrou o conjunto de Aimoré Batista e os grupos de choro Os Piriricas, Café com Leite e o Regional E-2, da Rádio Difusora de Macapá, sempre tendo como fiel escudeiro o violonista Nonato Leal. Em 1986, com o apoio do governo do estado, gravou um disco em vinil com 12 músicas suas, entre outras, Piririca no Choro, Laquimé, Choro Café com Leite, Capitão Boca Torta e Mazagão no Choro.

Amilar Arthur Brenha sofria com as complicações do diabetes, que chegou a afetar seu olho direito. Faleceu em Macapá no dia 20 de abril de 1991. Muito querido no Amapá (considerado um verdadeiro tucujuense), na cidade de Mazagão virou nome de escola estadual e em Macapá nome de rua, no bairro Jardim Felicidade.

Desde maio deste ano o Projeto “Macapá no Choro”, reunindo músicos do grupo Pau e Cordas e seus convidados, vem realizando apresentações semanais no espaço cultural Casa do Chorinho para comemorar o centenário de Amilar, reconhecido como o precursor do choro no Amapá. No Maranhão, até agora, não foi lembrado. (Com informações de Nilson Montoril, Chico Terra e Renivaldo Costa)

Chorografia do Maranhão: César Jansen

[O Imparcial, 21 de setembro de 2014]

O recluso bandolinista César Jansen é o 40º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Já fazia tempo que tentávamos essa entrevista com o bandolinista César Jansen. Em torno de sua figura paira certo mistério. Apesar de ainda jovem e estudioso dedicado do bandolim, ele já não se apresenta mais para grandes plateias. Apenas rodas de amigos e familiares têm o privilégio de vê-lo e ouvi-lo tocar seu bandolim, de sonoridade potente, de modelo idêntico ao do mestre Jacob do Bandolim, confeccionado pelo luthier carioca Tércio Ribeiro, o mesmo que havia sido escolhido pelo autor de Vibrações para recuperar seus instrumentos. Jansen possui sete bandolins e de um dos modelos existem apenas dois iguais no Brasil. Além do dele, um é de Joel Nascimento, outra fera do bandolim e do choro.

Talvez nesse mistério residisse a nossa grande expectativa em entrevistar César Alberto Olívio Jansen, nascido no bairro do Bom Milagre, em São Luís, em 12 de setembro de 1956, filho de Nicomedes da Luz Jansen, fabricante de mosaicos perto da Rua de Santana, “cansei de ir lá visitá-lo, levar comida”, e Isabel Olívio Jansen, doméstica, “depois se empregou na secretaria de agricultura do Estado do Maranhão, onde se aposentou”.

Encontro marcado, os chororrepórteres tocaram a campainha do apartamento do músico 15 minutos antes da hora, quando foram recebidos carinhosamente por ele e sua esposa Soraia. Ainda deu tempo para que ele fosse buscar as filhas – Júlia e Laura – em um curso de inglês ali perto.

Depois a conversa transcorreu solta, entremeada por certa timidez do instrumentista, mas nada que limitasse a realização de uma rica entrevista. Colecionador voraz de tudo que se relacione ao choro e ao bandolim, César Jansen possui um acervo dos mais preciosos, em vídeos, discos, livros, cadernos de partituras e outros registros multimídia.

Fundador do Instrumental Pixinguinha – ao lado de Paulinho [Santos, flauta], Marcelo Moreira [violão], Domingos Santos [violão], Francisco Solano [violão sete cordas], Biné do Cavaco e Carbrasa [percussão] –, em 1990 participou, como bandolinista, do antológico show do grupo, Homenagem à Velha Guarda, no teatro Arthur Azevedo, quando, dentre outras peças, executaram a rebuscada Suíte Retratos, do genial maestro Radamés Gnattali.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Como era o ambiente musical em tua casa? O que te fez enveredar pelo campo da música? Nada de extraordinário na minha casa na minha infância. Minha mãe escutava muito Roberto Carlos, era uma coisa que ela fazia sempre, comprava todo ano o disco do Roberto Carlos. Papai, não, papai nunca [interrompe-se]. Depois que eu me entendi, eu questionei, queria saber por que eu tinha gosto pela música. Ele me disse que meu avô, Maximiano, tinha tocado violino. Eles eram de Viana.

Então você não tem uma memória musical mais profunda da infância? Não, a minha lembrança mais longínqua de música é que todo ano, em frente à minha casa, brincava o Boi [de Orquestra] de Rosário. Aquilo realmente me deixava [interrompe-se novamente]… era semelhante ao que é hoje, o Boi, a Catirina, as índias todas enfeitadas. Depois disso eu fiz o primário ali no Monte Castelo, no Grupo Escolar Estado do Piauí, até aí também não tinha nada a ver com música. O lance surgiu quando eu fiz uma espécie de vestibular para entrar para a Escola Técnica, um exame de admissão. Eu fui pra Escola Técnica, lá tinha ginásio na época, eu fiz o ginásio industrial e o curso técnico em eletromecânica. O ginásio eram quatro anos e o curso técnico três anos. No meio do ginásio eu entrei para a banda marcial, fui tocar tarol. Estudei com o mestre da banda, Manoel Ferreira, o nome dele. Conheci muita gente lá, hoje são músicos, tipo Camilo Mariano [baterista], foi contemporâneo meu, conheci Pipiu [Arlindo Pipiu, multi-instrumentista], também tocava tarol na banda, Nato Araújo [violonista], todos tocavam na banda. Quando eu estava na banda marcial – a Escola Técnica tinha duas bandas, uma marcial e uma musical –, eu recebi um convite para participar da banda musical tocando tarol. A musical era mais orquestrada, mas tinha uma parte percussiva, era um tarol, um bumbo e um surdo. Aí o tarolista estava saindo da Escola e eu recebi o convite para ir para lá. Só que para tocar tarol na banda musical tinha que aprender música, não era como na marcial que era só meter a vareta. Lá eu tinha que ter a partitura e ir pela partitura. Aí eu fui obrigado pelas circunstâncias a aprender música, eu estudei com João Carlos Nazaré [maestro], o pai da Alcione [cantora], ele era o mestre da banda. Ele era secundado por Nonato, o Mestre Nonato do Conjunto, então eu estudei com os dois. Lá eu aprendi a ler partitura, que é o grande lance.

O maestro João Carlos era muito exigente? Super-exigente! Durão! Primeiro que ele era militar. Meu amigo, se na marcial era dureza, na musical era muito mais.

E Nonato, era mais suave? Nonato era. Os alunos iniciantes recebiam a primeira dura com João Carlos, só para saber como era. Depois ele não perdia tempo com iniciantes, ele jogava pra Nonato. Na musical eu conheci Zé Américo Bastos [multi-instrumentista], Pinheirinho, Chico Pinheiro [clarinetista, ele chama-o inicialmente pelo apelido], Osmar do Trombone [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013], tudo tocava na banda na minha época de Escola Técnica. Aí foi, o lance da música começou aí nessa história.

Além de músico você tem outra profissão? Eu fiz a Escola Técnica, fiz o curso de eletromecânica. Ao final do curso técnico eu fiz vestibular para Engenharia Mecânica, na época era a FESMA, Federação das Escolas Superiores do Maranhão. Era lá na UFMA, a UFMA cedia um prédio e a FESMA funcionava lá, engenharia mecânica, civil, agronomia, se não me engano tinha outros cursos. O curso de engenharia mecânica são cinco anos, eu não cheguei a completar. Eu estava no 10º. período eu passei no concurso do Correio, fui fazer um curso em Brasília, passei dois anos em Brasília, [fazendo o] curso superior de Administração Postal, que existia, hoje mudou, mas na época era a Escola Superior de Administração Postal, voltada para a área específica dos Correios. Hoje é o que eu sou, Administrador Postal dos Correios.

Você já tem quanto tempo de Correio? Eu entrei nesse curso em 1979, praticamente 35 anos. Já me aposentei pelo INSS, mas continuo trabalhando.

Como continuou sua trajetória na música até chegar ao bandolim? Aprendi a ler partitura, mas pela circunstância do vestibular eu larguei essa coisa de banda musical. Mas a partitura é fundamental na história. Saí da Escola [Técnica] e entrei na Escola de Engenharia. Lá eu conheci outras figuras importantes na minha vida musical. A primeira, Joãozinho Ribeiro [poeta e compositor], foi meu colega de turma. Teve outras pessoas importantes, Natan Souza, o irmão dele, Naassom Souza, é delegado de polícia hoje, Oder Lima. De outros cursos eu conheci Adelino [Valente, pianista e bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 20 de julho de 2014], fazia engenharia civil, era mais adiantado do que eu, já estava quase se formando. Eu entrei na Engenharia em 1975. Em 76 uma tia minha, Lili, viajou de férias para o Rio de Janeiro e de lá ela trouxe um violão de presente por eu ter passado no vestibular [risos]. Até hoje eu lembro a marca desse violão: Rei dos Violões, mas era um violão “peba” [risos]. Foi com esse que eu aprendi tudo, um violão de cordas de aço. Joãozinho já era músico, já tinha suas composições. Ele foi a primeira pessoa a afinar meu violão. Eu sabia ler música, mas não me toquei que eu sabia ler partitura. Joãozinho foi lá em casa, afinou o violão e me deu o conselho: “troca essas cordas, cordas de aço, tem que ser corda de nylon”. Eu ia comprando revistas, chamadas “vigu”, violão e guitarra, de cifra. Eu ia muito para a casa de João, trocar ideia, fazíamos o curso juntos, ele morava no Desterro, um casarão lá. Um dia ele me disse: “rapaz, Jansen, eu vou te dar um negócio que eu tenho guardado há muitos anos, eu estou vendo que tu estás gostando, tu te vira”. Ele foi lá e buscou um método de violão clássico, de um autor chamado Mateo Carcassi. Era uma cópia, até hoje eu tenho, não sei onde está, eu tenho muita coisa guardada. Quando eu folheei me veio a história das partituras. Preciosidade, eu me passei para esse método. Se você sabe ler partitura você não precisa de professor. Os métodos vêm praticamente como uma receita de bolo. Vem até a posição dos dedos da mão esquerda, 1, 2, 3, 4, a posição dos dedos da mão direita, P, I, M, A. Eu devorei o método todinho, nessa época eu já morava no Santa Cruz. Eu me lembro que minha mãe dizia: “menino, tu é só com esse lengo, lengo, lengo, não sai nada, eu não entendo nada do que tu estás fazendo” [risos], até o dia em que eu consegui tocar uma música pra ela, “ah, agora tu sabe tocar”.

E o bandolim? Aprendi a tocar violão erudito, partitura e tal, depois eu fui comprando outros métodos, outras coisas. Aqui em São Luís, na época, era muito difícil. Hoje eu acho até que não, diante da internet, tem tudo, tudo de graça, é muito mais fácil. Eu aprendi violão, fazia engenharia, era professor de matemática e física, ensino médio, ensinava particular, ganhava meu troquinho, comprava meus discos, música clássica, Segovia [Andrés Segovia, violonista espanhol], coisas difíceis de encontrar aqui em São Luís. Comecei a gostar de me envolver com o samba, escutar Martinho da Vila, Paulinho da Viola, o contato com Joãozinho [Ribeiro], Chico Buarque. Na época existiam os acordes naturais, o cara que estava mais desenvolvido só tocava em dissonância, coisas mais elaboradas. Joãozinho já estava nesse nível, ouvia muito Chico Buarque, Bossa Nova. O irmão de Natan [Souza] convivia com a gente, me deu um cavaquinho. Aí, violão clássico, partitura, cavaquinho, Brasileirinho [choro de Waldir Azevedo]. Brasileirinho me abriu as portas. Tinha um programa na TV Educativa, era um noticiário, mas a música de abertura, o pano de fundo, era Brasileirinho. Só que não tocava toda, aquilo me deixava doido. Tinha um ceguinho que tocava isso, na porta da Livraria ABC [hoje extinta], eu dava uma moedinha e o ceguinho tocava. Eu fiquei com esse cavaquinho, tinha que tirar de ouvido a música. Encontrar um disco de Waldir Azevedo, nem se fala, e partitura ainda menos [o bandolinista posa para fotos tocando o instrumento; a sonoridade é elogiada pelo chororrepórter]. Esse bandolim, eu vou te contar a história dele, eu não sei se tu vais conseguir ler aqui [aponta para o interior do instrumento], Tércio Ribeiro. Esse cara é quem faz o bandolim de Hamilton de Holanda. Eu fiz o concurso pro Correio e fui morar em Brasília, dois anos, de 1979 a 81. Coincidentemente Natan e Naassom já tinham ido na frente fazer esse mesmo curso. Natan tocava violão, eu tocava cavaquinho e violão, tinha o movimento do choro, a gente fazia grupo de choro lá em Brasília. Comprei centenas de partituras, centenas de discos, praticamente tudo de Jacob. No último semestre do curso, o cavaquinho não estava mais me satisfazendo, comprei um bandolim. Aí o bandolim entrou na minha vida.

Capa da primeira edição de “O choro”, de Alexandre Gonçalves Pinto. A obra foi relançada pela Funarte em 2009. Reprodução
Reproduzido de pensario.uff.br

Eu gostaria de falar um pouco dessa relação antiga que os Correios têm com o choro. Você meio que recupera isso em sua vida. O Alexandre Gonçalves Pinto, o Animal, era carteiro, autor de um livro chamado O ChoroEsse livro, se você for pesquisar, praticamente 60% dos músicos eram oriundos dos Correios. Praticamente toda folha que tu abres, fulano de tal, Correios.

Teus pais nunca implicaram com suas escolhas musicais quando você era jovem? Não, por que praticamente a minha carreira fora da música é exemplar. Eu era aluno primeiro lugar no primário, ginásio, no científico [os atuais níveis fundamental e médio]. Não implicaram, passei em vestibular, concurso. A minha parte eu estava fazendo. A música nunca foi profissional, eu nunca levei para o lado profissional.

Se você fosse eleger os seus principais mestres no bandolim, na música, quem figuraria nesta lista? Você tem um pouco de autodidata, mas tem sempre alguém que é uma referência importante, fundante, de nosso aprendizado. Eu reputo Joãozinho Ribeiro como uma pessoa muito importante. Se ele não tivesse afinado meu violão talvez eu tivesse desistido. É também uma questão de ouvir: Jacob [do Bandolim] é fundamental não só para os bandolinistas, mas para qualquer músico. Os músicos que conhecem Jacob se apaixonam. Um rapaz também muito importante foi o Marcelo [Moreira, violonista, fundador do Instrumental Pixinguinha e ex-diretor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo]. Quando eu voltei de Brasília, eu já tocava, mas queria fazer Escola de Música. Eu ficava um pouco acanhado, a Escola era ali no Monte Castelo, perto do Aldenora Belo [hospital especializado em tratamento de câncer], uma mansão, na frente tinha uma estátua de uma águia. Era Sinhô [João Pedro Borges, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], era Joaquim [Santos, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013], e eu “aí eu não entro” [risos]. Depois foi lá para a Rua da Saavedra [Centro]. Aí quando eu voltei de Brasília, já era 1983, mais ou menos, eu consegui me matricular e fui estudar com Marcelo. Aí quando eu toquei, Marcelo disse “não, rapaz, eu não tenho nada para te ensinar” [risos]. Eu frequentei diversos semestres e fiz uma amizade muito grande com ele. Marcelo era amigo de Joãozinho, ele soube que eu era amigo de Joãozinho, a amizade cresceu. Inclusive me ajudou a fundar o Instrumental Pixinguinha.

Você nunca viveu de música? Não. Já ganhei algum cachê, até com choro. Tinha um regionalzinho, eu, Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Zeca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013].

De que grupos musicais você fez parte? Quando eu voltei de Brasília, em 1981, “rapaz, eu tenho que formar um grupo aqui”. Convidei Joãozinho, Natan, Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], tinha um primo meu que tocava pandeiro, já faleceu. “Vamos fundar um grupo de choro”. Não teve nome esse grupo. Nós ensaiávamos no escritório de Natan, ele é engenheiro civil, tinha um escritório no Canto da Fabril, nós ensaiávamos lá. Joãozinho Ribeiro, [violão] seis cordas, Natan, seis cordas, Juca, cavaco, eu, bandolim, e pandeiro. Não deu certo, cada um foi para seu lado, depois eu fundei outro grupo, chamado Alma Brasileira. Era eu, Natan, Fernando Vieira [o falecido violonista Fernando Cafeteira, ex-integrante do Regional Tira-Teima], Paulo Trabulsi [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], cavaquinho, e Carbrasa, pandeiro. Com o Alma Brasileira nós chegamos a tocar bastante tempo. Depois se você quiser eu posso mostrar vídeo desse grupo. Depois se desfez. Depois eu fui para a Escola de Música, aí teve o Pixinguinha: eu, Solano, Marcelo, Domingos [Santos, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014], Paulinho da Flauta e Carbrasa. Esses eram grupos de choro. Agora eu fiz parte também de grupos de samba. Lá no Correio mesmo eu fundei o Arco Samba, com funcionários do Correio. Eram funcionários do Correio e pessoas que eu convidei. Éramos eu, cavaquinho, Quirino, banjo, Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], diretor da Escola de Música, era regente do coral do Correio, violão, aí tinha Bento, Carbrasa, Josebel, faziam parte desse grupo de samba. Participei também com esse pessoal aí do Remandiola, Força Maior.

Depois você acabou virando uma lenda ao desaparecer do cenário do choro, do samba, musical enfim. O que aconteceu? Na verdade depois do show [o mítico show Homenagem à Velha Guarda, do Instrumental Pixinguinha, no Teatro Arthur Azevedo] eu não toquei mais em público, mas continuo tocando. Em 1990 foi o auge do Instrumental Pixinguinha. Eu achava naquela época que ali era o ponto de partida, dali nós iríamos ganhar o mundo. Depois do show parece que cresceu, ninguém mais queria ensaiar. Marcava ensaio, eu chegava lá, aparecia eu, Solano, Marcelo, dois, três não apareciam. Marcava outro ensaio, a mesma coisa. Aí eu digo, “rapaz, quer saber de uma coisa? Eu tou perdendo meu tempo aqui”. O trabalho todo montado, tudo feito, “eu não preciso disso aqui pra sobreviver”. O meu deleite é só pegar uma partitura, um bandolim e tirar qualquer música. Isso me satisfaz. Tanto que larguei, aí fui entrar nesse negócio de samba. Vamos tocar Fundo de Quintal, Grupo Raça, Roque do Cavaco, de 20 sambas que a gente tocava, tocava um chorinho. Mas eu continuo com a amizade com todas essas pessoas.

E em rodas domésticas? Ah, todo final de semana eu tou na casa desse aqui [aponta para um irmão que acompanhou a entrevista], fazendo um choro, tomando uma cervejinha. Volta e meia Biné [do Cavaco, Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014], que era cavaquinista do Pixinguinha, aparece, Solano tem uns anos que não aparece, mas de vez em quando aparecia. Eu continuo, eu estudo permanentemente.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Desses grupos qual o que você participou por mais tempo? E o mais marcante? O mais marcante foi o Pixinguinha, nós fizemos um trabalho à altura da Camerata Carioca, foi um trabalho naquele nível, música camerística, de arranjo, tudo, um negócio elaborado. Eu sei o que é vivenciar um grupo, sei as dificuldades, os pontos positivos e os pontos negativos. Eu tive a maior alegria no samba.

Além de instrumentista que outras habilidades você desenvolve na música? Eu componho choros, tenho cerca de 12, valsas e choros.

Você já participou de algum disco? Eu gravei, mas não chegou a ser lançado. A minha gravação, o disco saiu. Logo depois desse show do Pixinguinha, Marcelo fez a direção musical de um disco de Rosa Reis. Nesse show a gente tocava uma música de Joãozinho Ribeiro chamada Estrela. Rosa gravou no disco dela e tinha uma participação do bandolim. Eu fui ao estúdio, gravei, o conjunto todo foi gravar. Só que nessa gravação houve um problema técnico. Depois de gravado disseram que o bandolim estava desafinado. Me chamaram para refazer, eu disse “rapaz, eu não vou refazer” [risos]. E recentemente Gordo Elinaldo [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013] me chamou para participar de um cd que ele está produzindo com músicas autorais. Eu fui lá há uns meses e botei uma parte de bandolim.

O que significa o choro? O que é essa música para você? O choro é a verdadeira música brasileira. A essência da música brasileira é o choro. Você às vezes escuta, ontem mesmo eu estava escutando, me lembrando desse compromisso da entrevista, eu estava escutando Joãozinho tocar uma música dele chamada Saiba, rapaz. Aparentemente se pensa que é um samba, mas na verdade é um choro. Essa gravação que eu estava escutando, é uma gravação feita na TV Educativa, ele, Raul do Cavaco, Mascote [o multi-instrumentista Antonio Sales Sodré] no violão de sete cordas e Jeca no pandeiro. É um choro! Ele fez sem saber que estava fazendo choro. Está na essência do brasileiro.

Você tem acompanhado o desenvolvimento do choro no Brasil? Como você vê as novidades, os novos nomes, os novos estilos? Acompanho, sim. Eu vejo como uma evolução natural. Em 2014 já não se pode mais dizer que Hamilton de Holanda é novidade. Ele já tem quase 30 anos de carreira. Você olha agora, aqui mesmo, Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], Robertinho Chinês [bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013] fazendo coisas diferentes, e não são coisas que você não possa considerar como choro. Isso tem que ser compreendido, respeitado e admirado. Eu vejo com bastante satisfação.

Quem são os grandes nomes de destaque, hoje, além de Hamilton? Bandolinista tem o Danilo Brito, velocidade, mas não só, uma velocidade cristalina. Rogério Caetano, violão sete cordas fenomenal. Jorge Cardoso, morou inclusive aqui, trabalhou no Correio, convivi um ano com ele aqui, é um baita bandolinista, fez curso na Itália.

E o choro no Maranhão? Como você avalia, apesar da falta de ensaio [risos]? Eu acho que está um pouco parado, eu não vejo muita coisa, fora o teu programa [o dominical Chorinhos e Chorões, apresentado por Ricarte Almeida Santos na Rádio Universidade FM, 106,9MHz]. Assim como o samba, o choro tem essas idas e voltas. O Maranhão tem quatro pessoas que eu reputo como fundamentais: Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], é um cara que praticamente todo mundo passou pelas mãos dele, Turíbio Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013], Joaquim [Santos] e João Pedro [Borges]. Por coincidência são todos violonistas. Esses caras são fundamentais. Com Ubiratan eu cheguei a fazer um trabalho, Velhos Moleques, Antonio Vieira, Lopes Bogéa, Cristóvão Alô Brasil e Agostinho Reis [compositores]. Ubiratan dirigiu esse show e nós íamos ensaiar na casa de Vieira. Eu participei como bandolinista, Ubiratan escreveu os arranjos. Depois ele me deu os choros que ele tinha na época, eu cheguei a gravar na TVE um choro dele chamado Cabeça de choro.

Você se considera um chorão? Na contracapa do LP Vibrações, assim Jacob fala sobre Dino Sete Cordas: “Não é chorão autêntico porque não chega atrasado, raro beber e adora ensaiar”, então, sob a ótica de Jacob, também não sou um chorão autêntico [risos]. Mas é óbvio que Jacob estava de gozação com Dino, da mesma forma que eu comigo. É claro que me considero um chorão porque vivo, pesquiso, estudo, escuto e pratico essa música há quase 40 anos.

Chorografia do Maranhão: Chiquinho França

[O Imparcial, 24 de agosto de 2014]

O bandolinista e guitarrista Chiquinho França é o 38º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Francisco Lopes da Costa nasceu em 14 de fevereiro de 1964, num lugarejo, a Fazenda Catanha, entre Santa Inês e Bom Jardim. Filho do agricultor Antonio Costa de Sousa e da doméstica Maria Lopes da Costa, tem 10 irmãos – dois já falecidos –, entre os quais o cantor e compositor Luis Carlos Dias, que lhe ensinou os primeiros acordes.

O França de seu nome artístico é corruptela do nome de batismo: sua mãe o chamava “Franca” e os amigos “França”, sempre diminuindo o Francisco, que acabou virando Chiquinho, um de nossos mais requisitados instrumentistas. “Um guitarrista que toca bandolim”, define-se.

Seus discos estão impregnados de rock, choro e ritmos da cultura popular do Maranhão. O primeiro, descobriu assim que ouviu o clássico The Wall, do Pink Floyd. O choro e o Maranhão estão fundidos em Santa Morena, clássico de Jacob do Bandolim que incluiu um bumba meu boi no arranjo de sua gravação. Seu registro instrumental para Filhos da precisão, de Erasmo Dibell, virou prefixo de programa de rádio – Chiquinho França havia se tornado, ele próprio, uma paixão da infância, quando subia em um muro para captar o sinal de uma rádio brasiliense e ouvir as gravações dOs Incríveis para Czardas – que acabou regravando – e O milionário.

Reprovado na banda de Raimundo Soldado, ele não desistiu da música – sorte a nossa! Sobre estes e outros episódios, Chiquinho França deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão, o 38º. da série, no Bar do Jósimo, na esquina das ruas do Alecrim e Pespontão, no Centro de São Luís – cidade pela qual se apaixonou, de onde nunca mais saiu.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Seu primeiro trabalho foi vendendo bolo? Sim. Mamãe fazia bolos para a gente vender para conseguir a alimentação de casa. Eu comecei a trabalhar com 10 anos de idade. Inclusive nesses trabalhos que eu fazia na rodoviária foi aonde eu me encontrei com o choro. Foi na rodoviária de Santa Inês, ouvindo um ceguinho, chamado Francisco das Chagas, Chaguinhas, que chamavam. Um anão. Ele usava um megafone, esses megafones é que eram a rádio das pequenas cidades. Não tínhamos sinal de televisão nessa época, até os anos 1970. Só pegávamos o sinal da rádio Nacional de Brasília. Era o contato que a gente tinha assim com a música. Na época o choro era um sucesso. É até hoje, mas na época a gente ouvia na programação de rádio.

Como era o ambiente musical em tua casa? O que se ouvia de música lá? Quase nada. Nem rádio a gente tinha. Era tudo no do vizinho. Muita pobreza, pobreza mesmo! Eu me lembro de rádio na minha casa, já fui eu que comprei, um radinho de pilha sem antena, eu tinha que subir no muro do quintal para sintonizar a rádio Nacional para ouvir Czardas [música do violinista e compositor italiano Vittorio Monti] tocada pelos Incríveis [grupo musical da Jovem Guarda] e O milionário [título aportuguesado de The millionaire, música do guitarrista e compositor inglês Mike Maxfield] também pelos Incríveis, eu achava aquele instrumental a coisa mais linda do mundo. Ambas eram prefixo e sufixo de um programa que eu, infelizmente, não recordo mais o nome. Mas eu sabia exatamente o horário em que o programa começava e terminava e eu ia lá para o muro para ouvir. Eu já sabia que eu queria ser músico mesmo, que eu era músico. Eu já tinha certeza disso.

A partir de que momento você teve essa certeza? Desde que eu, criança, ouvia as músicas. Isso me chamava a atenção e me remetia a um êxtase, digamos assim, eu saía dessa vida aqui, me pegava imaginando eu tocando aquele instrumento. Me impressionava muito como eles imprimiam o áudio nos vinis, eu ficava olhando para aquele vinil, tudo isso me causava curiosidade com relação ao áudio, eu tinha muita curiosidade com relação a esse tipo de gravação. Ficava me imaginando ali, sabia comigo que eu tinha que aprender a tocar um instrumento. Até que com 12 anos de idade eu dedilhei um violão que meu irmão Luis Carlos Dias [cantor e compositor] conseguiu emprestado com um amigo e estava lá em cima da cama dele. Foi a primeira vez que eu tive contato com um instrumento. Mas eu já curtia o ceguinho lá na rodoviária.

Ele tocava algum instrumento ou só usava o megafone? Ele tocava cavaquinho numa afinação inventada por ele. Eu não consegui pegar um acorde dele. Ele usava um amplificador delta que era alimentado por umas baterias de carro e um arame amarrado no pescoço [segurando o megafone], que ele cantava, e a esposa dele tocava pandeiro. Não tinha acompanhamento, ele tocava só as melodias, era só ele esse pandeiro. E harmonizava, ele fazia a melodia e dava um acorde, era um som distorcido, a amplificação do som muito ruim. Na rodoviária antiga de Santa Inês, ali na Laranjeira. Quando eu não estava na escola ou vendendo eu estava ali ouvindo-o tocar. Eu jogava a moeda, ele ouvia, eu cansei de ouvi-lo tocar [os choros] Tico-tico no fubá [Zequinha de Abreu], Brasileirinho [Waldir Azevedo], Vê se gostas [Waldir Azevedo e Otaviano Pitanga], Delicado [Waldir Azevedo], enfim, essas músicas, Dilermando Reis [violonista], ele tocava algumas coisas, Waldir Azevedo [cavaquinista] e o próprio Jacob do Bandolim [Jacob Pick Bittencourt, bandolinista]. Esses choros todos ele tocava lá, eu já curtia.

Desse teu encontro com o violão emprestado de Luis Carlos Dias, dali já deslanchou? Não, não. Luis Carlos não deixava eu pegar, eu era muito criança, o violão era dum amigo dele. Ele apareceu tocando [cantarola] “hoje é o dia do Santo Reis” [trecho de A festa do Santo Reis, de Márcio Leonardo, sucesso na voz de Tim Maia], eu decorei esses acordes. Quando ele largou o violão eu percebi que tinha facilidade, ritmo, aptidão para a música. Eu comecei a economizar uns trocados, o violão foi o do Luis Carlos, meses depois ele comprou um violão e fui na sombra dele, aprendendo os primeiros acordes com ele.

Então o violão foi teu primeiro instrumento. Hoje você toca vários. A partir de que momento você passou para outros? O Luis Carlos já entrou numa banda, começou a tocar guitarra. Ele foi sempre me influenciando, eu fui seguindo os passos dele. Eu entrei numa banda de baile, a gente chamava de conjunto, era Chica Cão, ela tocava acordeom, tinha uma banda de forró. A gente passava a noite inteira tocando, eu aprendi os primeiros acordes, ela me ensinou aquela harmona [harmonia], e eu viajava com ela para tocar forró naqueles interiores ali, Alto Alegre, a gente andava de lancha, Rio Pindaré, tocando esses bailes a noite toda, começando de nove até cinco da manhã.

Tocando violão? Tocando já guitarra.

Além de você e Luis Carlos há algum outro músico na família? Meu avô tocava acordeom, mas era só para tomar as pinguinhas dele. Trabalhava na roça, chegava, fazia aquelas melodias de Luiz Gonzaga mais fáceis, só pra curtição mesmo, não foi profissional.

Como foi a reação de teus pais quando você e Luis Carlos começaram a enveredar pelo caminho da música? Foi surpreendente e até inusitada. A coisa que eu tinha mais medo era de falar isso para minha mãe. Eu trabalhava de manhã, vendia leite, bolo, doces na rodoviária, e à tarde eu estudava. E aí surgiu uma oportunidade de viajar para Imperatriz. Eu escutei num parque de diversões na cidade um cara requisitando músicos para formar uma banda em Imperatriz. Aí ele me encontrou: “rapaz, ouvi falar que você toca”, eu já tocava nessa bandazinha pequena de forró.

Você tinha que idade? 14 anos. Aí eu digo: “eu não vou, minha mãe não deixa, eu estudo, e aqui eu ajudo a trabalhar”. E ele: “não, eu falo com tua mãe”. E minha mãe deixou. “Meu filho, olha, se isso for bom pra ti, é isso que você quer, eu já percebi, pode ir. Mas lá arranje um jeito de estudar também”. Aí eu fui dessa forma, parti para Imperatriz, pra começar uma carreira musical mesmo, profissional nessa época.

E como foram as coisas em Imperatriz? Como foi sua inserção? Eu fiquei apenas três meses e voltei. O cara que me levou, me levou para tocar numa cidade do Pará, próximo à Marabá, eu não vou recordar o nome agora, para tocar num cabaré. E não falou pra mim. Eu não me adequei, fiquei com medo, e voltei pra Santa Inês. Fui trabalhar com Raimundo Soldado [cantor e compositor maranhense] em Caxias. Eu fui pro Raimundo Soldado substituir um guitarrista chamado Elias, um monstro de harmonia. E eu, fraco, estava começando. Eu só toquei um baile, fui reprovado. Um cara me chamou, “pô, Chiquinho, os músicos acharam que você tem que estudar mais” e não sei o quê. De lá eu fui tocar nos Jovens, uma banda mais pop. O Raimundo Soldado tocava muito forró, apesar de as músicas dele serem brega, as harmonias que o guitarrista fazia eram uma coisa absurda. Ele agradava muito, foi sucesso nacional. Raimundo Soldado ainda hoje toca em rádio em São Paulo. Ele estourou um disco todinho na [gravadora] Copacabana.

E o que te tirou do forró e do pop? Ainda ali pela rodoviária de Santa Inês tinha uma loja de instrumentos. Naquela época quem fazia sucesso era essa rapaziada aí, [os cantores] José Augusto, Fernando Mendes, Wanderley Cardoso, o próprio Roberto Carlos. A gente ouvia essa música, basicamente. E tinha dois álbuns duplos, empoeirados, mais de dois anos lá encalhados, e eu curioso, fui ouvir, tinha uma vitrola para você ouvir o vinil antes de comprar. Era o The Wall, do Pink Floyd, aquele branco, duplo, e o outro era Minha História, um álbum verde, uma coletânea, de Chico Buarque de Holanda. Eu achei aquilo muito diferente. Aí fui trabalhar para comprar, o cara me vendeu num valor barato, um custo assim, já queria se ver livre, me vendeu duas peças maravilhosas, e achando que estava me enrolando, que estava me vendendo um material de péssima qualidade [risos].

E estava mudando tua vida? Estava me dando caminhos, abrindo portas para eu tocar música de qualidade. Me apresentou o melhor do rock progressivo, que é Pink Floyd, e Chico Buarque de Holanda, que é referência de nossa música popular brasileira.

Se você tivesse que nominar quem você considera teus principais mestres, quem você citaria? São muitos. O ceguinho é o primeiro. Depois eu conheci Armandinho [Macedo, bandolinista] tocando bandolim. Antes de conhecer o trabalho de Jacob do Bandolim eu conheci o Armandinho tocando Jacob do Bandolim, aí foi impactante. A Cor do Som, eu comprava tudo dA Cor do Som, e o outro, Pepeu Gomes [guitarrista], que também toca bandolim. Eu lembro de um pot-pourri que ele começa, já fazia com banda, era tudo muito diferente. É o que eu faço hoje nos meus shows, eu gosto de tocar com banda, e não é inventando, é o que os baianos já faziam, Pepeu e Armandinho. Então, Pepeu Gomes, Armandinho, Robertinho de Recife [guitarrista]. Aí vêm os grandes mestres, Jacob do Bandolim, Pixinguinha, gosto de George Benson [guitarrista], David Gilmour [guitarrista e cantor, vocalista do Pink Floyd]. São meus mestres que me inspiram, minha fonte para a música. Luis Carlos Dias me ensinou os primeiros acordes, mas ele já mudou para Imperatriz e eu fiquei em Santa Inês. Depois eu aprendi, mas ninguém me ensinou: eu aprendi olhando todo mundo tocar.

Depois que você assumiu a música, você trabalhou com outra coisa? É possível viver de música? Só música! Eu sou um operário da música, eu vivo de música. Não é fácil, não. Você tem que ser artista duas vezes. Eu sou produtor, ultimamente meu faturamento é muito mais como produtor que com meus próprios shows, eu faço muito pouco show, toco muito pouco, me apresento pouco por aí.

Mas não por falta de vontade. É por que você vai ficando mais exigente, cada vez mais. Eu dispenso show se não for para fazer com qualidade. Só pelo cachê eu não vou, mesmo às vezes precisando. Por esse respeito, eu tenho muito cuidado com a qualidade, de como eu vou me apresentar. E isso tem imprimido um respeito, eu sinto que eu tenho esse respeito no mercado por conta disso.

São quantos discos gravados até aqui? Cinco cds e um dvd. O primeiro foi um vinil, Novos tempos, o segundo foi o primeiro cd, Em cartaz, o terceiro foi Chiquinho França Instrumental, aquele da capa vermelha que tem os instrumentos na capa, o quarto foi Chiquinho França Instrumental, que eu estou vestido de azul, com uma guitarra branca. Na verdade são quatro cds, os outros dois foram coletâneas, o que tem o dedo assim [faz o gesto de legal, com o polegar erguido] foi o quinto, e o sexto foi o Solos, gravado ao vivo no Teatro [Arthur Azevedo], que é cd e dvd.

E agora saiu esse conjunto bonito. É, agora a gente fez uma nova coletânea [Som do Mará, em cd e dvd]. Eu estava sem disco e fiz aquela coletânea, ficou bem apresentado, gostei do material gráfico.

A partir de quando o bandolim entra na tua vida? Quando eu fui reprovado e dispensado e mandado embora da banda do Raimundo Soldado, quando eu estava saindo com minhas malas, o baterista, que era um cara que ficamos amigos, dormíamos no mesmo quarto, em duas redes, ele conversava comigo e dizia: “rapaz, não desiste, você tem talento, por mim você ficava”. Ele pegou e ligou para seu Cícero, da banda Os Jovens, de Codó, e o cara veio me buscar, eu nem voltei pra Santa Inês, fui direto pra Codó. Lá a recepção foi outra, era uma galera mais jovem, já tocava mais pop, eu já tocava algumas coisas dA Cor do Som. Lá eu me encaixei, fiquei tocando seis meses. E falei pra seu Cícero, que eu gostaria de comprar um bandolim. E ele foi em Teresina e trouxe um bandolim de presente pra mim, um bandolim Trovador. Aí eu não dormi mais, fui estudar bandolim.

Você nasceu em Santa Inês, foi para Imperatriz, depois Codó. Como é que foi até chegar em São Luís? Fui para Imperatriz e formamos a banda Bumbum de Bebê. Era eu, Luis Carlos, eu tocava na Bumbum de Bebê, na parte acústica, bandolim, Luis Carlos, violão, Alfredo Varela, bateria, e Zé Raimundo era o crooner, vocalista. Quando entrava a banda eu tocava contrabaixo e Luis Carlos era guitarrista, ele tinha mais nome, foi o melhor músico, guitarrista e vocalista daquela região na época. Quando nós trocamos o nome para Banda Quatro, aí eu assumi a guitarra e Luis Carlos o contrabaixo. Eu fiz meu primeiro show em Imperatriz, instrumental, e aí percebi a coisa de começar a tocar música instrumental. O primeiro disco, vinil, gravado em Imperatriz, que eu fiz de favor, no estúdio do Carlito Santos, na [rua] Coronel Manoel Bandeira, em Imperatriz, o disco chegou, eu coloquei nas lojas, e eu passava de 30 em 30 dias para pegar a grana, e estavam lá todos os discos [risos]. Rapaz, eu não consegui vender um exemplar nas lojas. Eu já tinha até vergonha, um cara ficava com pena de mim, um dono de loja, “pô, Chiquinho, não vendeu nenhum”. Eu gravei Filhos da precisão, do [cantor e compositor Erasmo] Dibell. Esse vinil veio pra cá pra São Luís e virou tema de abertura do programa MPM, que César Roberto apresenta, ele abria e fechava [o programa Mirante Popular Maranhense] e nas entrevistas tocava Filhos da precisão instrumental.

Foi a primeira gravação de Filhos da precisão? Antes do próprio Dibell? Foi. Foi antes do Dibell gravar. Destacou essa música instrumental, eu fiz um show instrumental, tentei fazer o lançamento desse disco em Imperatriz várias vezes, público nenhum. Eu tentei fazer um show instrumental no Teatro [Ferreira Gullar]. Chico Brasil era gerente do Armazém Paraíba, em Imperatriz. Eu falei “Chico, eu quero fazer um show instrumental no teatro. Tu patrocina?” Ele disse “na hora!”. Ninguém colocava gente naquele teatro, nem Neném Bragança [cantor]. Luís Brasília me deu a mídia na Mirante e aí nós fizemos uma mídia de um concerto instrumental no teatro. Na época a gente cobrava, tipo 10 reais hoje, como se fosse na moeda corrente de hoje, e os shows nacionais lá eram 60. Aí eu puto de raiva cobrei 60 reais, pra ninguém ir mesmo. Meu amigo, venderam todos os ingressos quatro horas da tarde, a 60 reais, e a gente teve que fazer duas sessões. Ganhei dinheiro e fiquei surpreso, uns 30 dias sem entender.

Que ano foi isso? 1983.

Uma coisa que se percebe em teu trabalho é o diálogo permanente entre rock, choro e ritmos da cultura popular do Maranhão. É intencional? Você se sente mais à vontade nesses gêneros? Há quem até me critique, “pô, teu disco não dá para ouvir, vem num estilo, de repente muda, não tem um estilo”. Mas são os estilos que eu gosto. Como é que eu vou fazer? Só se eu fizer discos diferentes. Eu fico com ciúme de fazer um disco só de guitarra e não colocar meu bandolim. É intencional mesmo, é meu estilo, é minha forma de fazer. Já tem pessoas que curtem isso, é interessante, é complicado você querer agradar todo mundo. É o que eu costumo dizer: eu nunca gravo o que eu não gosto. Agora, dentro do repertório que eu gosto, eu tento conciliar com o que meu público curte. Eu sempre escolho meu repertório no palco. Primeiro eu toco, se eu sentir que não houve empatia, eu fico “essa entra, essa não”, é dessa forma que eu monto meu repertório. Tem dado certo.

Além de bandolim, guitarra, baixo e violão, você toca algum outro instrumento? Na verdade eu toco guitarra e bandolim, são meus instrumentos. Nem violão, eu não acho que sou um violonista. Agora no estúdio eu toco até teclado, emendando, né? Mas eu não diria que eu toco. É guitarra e bandolim mesmo.

Algum projeto de disco pensado para breve? Eu sempre estou. Estou com um projeto agora, um trabalho novo, autoral, com ritmos maranhenses. Eu vou pegar, fazer uns dois sotaques de boi, cacuriá, tambor de crioula, pegar isso e transformar numa pegada universal. Pegar células desses ritmos, estou devendo há muito tempo. Era para esse ano, mas eu vou me ocupar, acabei aprovando um projeto na lei [estadual de incentivo à cultura] e consegui captar junto à Cemar [Companhia Energética do Maranhão] e estou trabalhando esse projeto, que é viajar com esse show Som do Mará, só que está indo com outro nome, não vai ser Som do Mará. Esse projeto foi criado para a Vale. O nome ficou Sons e Trilhos, a gente ia fazer o percurso até Parauapebas. Eu vou ficar ocupado com esse projeto até meados de outubro. Então eu não vou ter tempo de fazer esse meu trabalho esse ano, que seria Francisco 5.1, eu estou completando 51 anos de idade e é a sonoridade de dvd.

Fora os teus, que discos têm teus instrumentos na ficha técnica? São muitos, eu não vou lembrar [longa pausa, pensativo]. O Canta Imperatriz [disco com as finalistas de um festival de música da cidade] é um disco que ficou bom, que eu gosto, o projeto Viva 400 Anos [festival realizado em São Luís por ocasião dos 400 anos de sua fundação] tem o dedo da gente, eu assinei a produção daquele trabalho, aquele disco que Augusto [Bastos] produziu, Louvação a São Luís [disco comemorativo dos 390 anos da capital maranhense]. Aí tem os discos de Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013], participei, toquei bandolim, [os cantores e compositores] Zeca Tocantins, Neném Bragança, Wilson Zara. São pequenas produções em disco.

Você tem quantas composições? Muito pouco. Acho que umas 40. Mas nenhum choro. É incrível, eu gosto de choro, mas não consigo fazer. Eu tento, mas nem guardo, não gosto. Eu componho na pressão, eu sou um “jingleiro”. Se tu deixar aqui, pode passar à tarde para pegar, mas sou meio preguiçoso para compor. Mas choro eu não consigo.

Com essa tua dificuldade em compor choro, você se considera um chorão? Não, não me considero. Eu sou meio desconfiado. Por que eu não toco choro, aquele choro tradicional, eu não consigo ficar ali, tocar do jeito que é. Eu pego, boto uma correia no bandolim, faço com batera [bateria], contrabaixo, uma coisa mais pop, e já fiquei sabendo que tem chorão que não gosta. Eu acho que eu sou um guitarrista que toca bandolim.

Pra você, o que é o choro? É a nossa música brasileira, é o nosso jazz. Se duvidar, é o jazz mais bonito, mais complicado, mais rico do mundo, se formos colocá-lo no patamar de jazz. O choro normalmente tem três partes. Tem choros que têm três tons diferentes. Se você realmente não for um músico que conheça o choro você não sai tocando choro. Só se já conhecer as melodias e tiver uma noção do que é choro. Pode ser o músico que for, ele se perde, não acompanha. É complicado! O choro é abrangente, é baião, é frevo, é xote.

Ele pode ser bumba meu boi? Pode ser cacuriá? Pode, desde que se tenha a pegada do choro.

Você fez isso bem em Santa Morena [Jacob do Bandolim]. É, coube ali, ficou legal, né?

Chorografia do Maranhão: Adelino Valente

[O Imparcial, 20 de julho de 2014]

Engenheiro civil, professor universitário, bandolinista e pianista, fundador do Regional Tira-Teima, Adelino Valente é o 36º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

A entrevista com Adelino Valente, em sua casa, no Calhau, começa com ele mostrando uma velha fotografia emoldurada sobre uma mesa de centro: ao lado de outros músicos, ele figura como integrante do Conjunto Marista, sua “primeira escola musical”, um grupo especializado em jovem guarda, cujo sucesso extrapolou os muros do tradicional colégio, então no Centro de São Luís, e chegou a fazer muitos shows em cidades do interior, próximas à capital.

Sobre o piano vários discos, sobretudo de pianistas nacionais e internacionais, entre a bossa nova e o jazz, e um retrato de Letice Valente, sua filha, psicóloga e cantora, que ele elogia.

Adelino Valente da Silva Filho é filho de Dóris Moura da Silva e Adelino Valente da Silva, um português que chegou a vice-cônsul de Portugal, tendo aportado por aqui já com uma vocação musical. É o quinto de oito irmãos, todos com aptidões musicais. Em 16 de setembro de 1953, quando nasceu, sua família morava na Rua dos Afogados, esquina com Rua da Alegria, onde funcionava o vice-consulado de Portugal.

Arregimentador e arranjador de Antoniologia Vieira, disco dedicado à obra do compositor Antonio Vieira, com a participação de diversos nomes da música do Maranhão, entre os quais Zeca do Cavaco [cantor e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013], Zé Carlos [cantor e percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de novembro de 2013] e Léo Capiba [cantor e percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de maio de 2014], chegou a acompanhar o compositor, ao bandolim e piano, no teatro do Itaú Cultural, em São Paulo, em 2005. Também dividiu um disco, hoje esgotado, com o violonista Turíbio Santos [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013].

 

Adelino Valente define-se como “um apaixonado pela música, engenharia e magistério”. Seu depoimento à Chorografia do Maranhão foi ilustrado musicalmente por Todo o Sentimento [Chico Buarque e Cristóvão Bastos] e um medley de Ernesto Nazareth, executados ao piano.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Quando sua vocação para a música começou a aparecer? Minhas duas irmãs, Ana Clara e Fátima, estudavam piano. Eu, com cinco, seis anos, lembro de papai reclamando: “vocês não estão progredindo, vocês precisam estudar mais”. Quem ensinava minhas irmãs era Maria José Cunha, uma professora da Rua do Sol, Sinhazinha Carvalho, tia de [os irmãos] Marcelo [Carvalho, pianista] e Tutuca [cantor, compositor e produtor cultural], então, papai sempre reclamando, ele era muito exigente pra que todo mundo tocasse. E elas diziam: “papai, a gente nem piano tem, como é que a gente vai progredir?” Papai, “bom, se for o caso a gente vai comprar um piano”, e terminou comprando. Quando esse piano chegou eu tinha uns oito anos de idade. Quando minhas irmãs começaram a estudar, aquilo batia aqui no coração e eu não sabia explicar o porquê. Eu querendo me aproximar e elas me dando bisca, “sai daqui menino, tu vais desafinar o piano novo”. Eu não conseguia nem botar um dedo numa tecla. Meu irmão Fernando Silva, que estudava violino, chegou em casa, abriu o piano, tocou boleros, eu achava maravilhoso. Ele me deu oportunidade: “vem ouvir aqui, deixa eu te mostrar”. A primeira noção que eu tive de piano: tem essas duas pretinhas, o dó tá bem aqui; tem essas três pretinhas, o fá tá bem aqui [aponta teclas no instrumento], nunca me esqueci disso. Eu sentia uma emoção diferente; com oito anos consegui chegar ao piano, minhas irmãs não estavam lá. Eu comecei a tocar as músicas bobinhas que eu sabia, Parabéns a você, muito fácil, Noite feliz, eu cheguei e comecei a catar. Comecei a ver que o que eu sabia aqui dentro eu conseguia passar para o piano com a mão direita. Uma das vezes mamãe escutou eu tocar uma música de brincar de roda, e ela chamou papai: “Adelininho tá tocando Atirei o pau no gato”. Papai, que era músico, percebeu em mim alguma tendência musical. Com isso, minhas duas irmãs, que já tocavam clássicos, começaram a desistir. E eu comecei a chegar perto do meu primeiro instrumento, o piano. Com 10 anos, Fernando Silva, hoje juiz aposentado, começou a me orientar, eu achava que ele era o maestro. Nessa época eu já estudava no Marista e lá encontrei outras pessoas com aptidão musical. Esse grupo musical do Marista foi uma pré-escola, onde tivemos uma orientação importante do professor Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013]. Ele era do Liceu [Maranhense] e conheceu nosso grupo.

 

Esse grupo era o Conjunto Marista? Sim. O mais novo era Luiz Fernando [guitarrista], Celso [baterista] era o mais velho. Eu [contrabaixo], Rodrigo Caracas [tecladista] e Jomar Sadok [guitarrista] somos da mesma faixa etária. A gente começou a tocar tudo o que Roberto Carlos lançava, jovem guarda etc. Ubiratan chegou lá uma vez, nunca esqueço, mostrando a harmonia de Garota da Ipanema [Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes]. Aquilo, cada vez que ele mostrava, era um impacto. Acabou que terminei me especializando nisso, harmonias complicadas, dissonâncias, jazz, bossa. Mas naquele tempo… eu sei que esse conjunto nosso foi uma coisa importantíssima. Eu tocava em casa, devagarinho, minhas irmãs se conformaram e no Marista começou isso. Durou uns seis, sete anos. E todas as sessões [os eventos] no colégio tinham que ter participação desse grupo. E tocar bem naquela época era tocar igual ao disco.

Quem você considera seus principais mestres no piano? Eu já tive os principais mestres depois de bastante tempo. César Camargo Mariano, Cristóvão Bastos, Gilson Peranzzetta e Tom Jobim, entre outros.

Mesmo sem ter tido aulas com eles? Ou você teve aulas com algum deles? Pessoalmente não. Eu ia fazer a escola de Antonio Adolfo, no Rio, mas não cheguei a frequentar. Ele é maravilhoso, a filha dele, Carol Saboia, maravilhosa também. Isso foi numa etapa bem posterior, por que o primeiro instrumento foi piano, mas eu não continuei tocando fora de casa.

Então teu irmão acabou cumprindo um papel de te encaminhar para o piano. O primeiro mestre foi meu irmão. Fernando Silva, advogado, juiz, ele tem atualmente um piano de cauda em casa. No Marista eu tocava contrabaixo, meu professor era o Neném [da banda Os Incríveis, fenômeno da jovem guarda].

Ao que parece você já estava caminhando para ser multi-instrumentista. É, eu tocava ouvindo bastante o Pitomba [contrabaixista], do Nonato e Seu Conjunto. Eu ia para o [clube] Jaguarema, no carnaval, eu não dançava, eu e meu irmão Luis Fernando ficávamos observando. Olhei muito Agnaldo [Sete Cordas, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013] também, ele era guitarrista dos Fantoches. Neném, fora daqui, e Pitomba, aqui, foram dois caras em que me inspirei muito para tocar contrabaixo. Tinha também o Osmar, filho do maestro Pedro Gromwell, que tocava baixo acústico.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Você chegou a conhecer o professor Pedro Gromwell? Eu conheci, tive duas aulas com ele de violino, eu tinha apenas sete anos de idade, mas fiquei com medo. Ele era um senhor com o cabelo partido no meio, e papai dizia “tu vais ter que aprender com ele”. Ele me deu duas aulas teóricas. A primeira noção de compasso e tempo, eu não cheguei a pegar em instrumento nenhum. Ele chegou, na primeira aula, eu já estava dividindo. Eu, sem um preparo psicológico. Ele era um cara moreno, com os olhos claros, o cabelo partido no meio, uma gravata borboleta, era estranho. Mas foi bom. Na verdade, eu sou 90% autodidata. Depois eu fiz uns cursos por correspondência, harmonia para piano. É uma coisa intuitiva que foi crescendo.

O que vocês ouviam em casa, em termos de música? O que papai ouvia era fado, a música portuguesa. Eu realmente nunca fui muito voltado para ela. Ele trazia discos de Portugal, novidades, gravações. É uma música muito sentimental, mas não me emocionava, em termos de harmonia eu achava muito simples. E papai além de violino, tocava um pouco de violão.

Isso se mantém hoje ou sua relação com o fado mudou? Se mantém. Eu ouço se alguém tocar, mas eu comprar, eu não compro. Eu prefiro o trabalho da música brasileira. Agora papai se emocionava, chorava, ouvindo.

A música nunca pareceu ter a perspectiva de profissão. Não gostaria de dizer que ela tem ou teve um papel secundário, mas você tem outras formações? Sempre gostei muito de Matemática e Física. Eu entrei na Universidade para cursar Engenharia Civil e depois Licenciatura Plena. Fiz as pós-graduações já como professor da Universidade Federal do Maranhão. Agora, a paixão de nascença é a arte musical.

Houve alguma fase de sua vida em que você viveu de música? Ou ela sempre foi mais hobby? Levo a música muito a sério, sou muito perfeccionista, não é tocar por tocar. A música é um complemento. Apareceu um trabalho, ótimo! Não apareceu, a gente tem como se manter.

Com quem você aprendeu bandolim? É o seguinte: papai me deu as primeiras noções e eu fui evoluindo, ele tirando algumas dúvidas; como ele queria que eu estudasse violino e não deu certo, ele disse “meu filho, você vai estudar guitarra portuguesa”. Guitarra portuguesa é o xodó de todo português. Fomos passar umas férias em São Paulo e papai me levou na escola do professor Manoel Marques. Era o cara da guitarra portuguesa aqui no Brasil. Chegamos lá, pelo sotaque um já reconheceu que o outro era português, “esse é meu filho, tem 14 anos, toca um pouco de piano, um pouco de bandolim”. O professor me recebeu, pediu que eu tocasse os instrumentos que eu já estava tocando e ele se interessou: “esse menino tem que ficar aqui, não pode voltar para São Luís”, mas é tudo aquela coisa que você não tem condições de decidir. “Olha, o que ele já toca de bandolim, não vai dar trabalho nenhum para passar para a guitarra portuguesa, agora ele tem que passar aqui uns três meses, estudando a teoria musical”. É outra coisa que não vingou. Ele me deu um método de guitarra portuguesa, eu tenho até hoje guardado. Aí, papai tinha uma guitarra portuguesa, a influência dele foi fundamental. Ele não era um exímio tocador, mas na época, para a gente, era. Eu já estava tocando bandolim e a guitarra portuguesa era uma coisa nova, eu cheguei a tocar, com o livrinho do professor. Eu nunca tive dificuldade de tocar nenhum instrumento. Todos os instrumentos que eu peguei, eu consegui entender e tocar. Mas a gente precisa definir uns dois ou três instrumentos, no máximo.

 

Além do piano e bandolim, que outros instrumentos você toca? No segundo científico do colégio Marista, eu devia ter uns 17 anos, mais ou menos. Regina Telles [professora de artes], muito conhecida, apresentava um programa num canal de televisão, e eu fui escolhido para tocar todos os instrumentos que eu sabia. Eu cheguei a tocar 12 instrumentos,acompanhado por Zé Américo Bastos e Ubiratan Sousa. Não lembro se Antonio Paiva participou no baixo. Eu toquei piano, contrabaixo, bandolim, cavaquinho, violão, flauta doce, lápis – um instrumento inventado por nós no Marista, batendo o lápis no dente –, toquei Tico Tico no fubá [Zequinha de Abreu], toquei também guitarra e pistom. Não sei se esqueci de algum instrumento. Fiquei conhecido lá como o homem 10 instrumentos. Foi um programa muito bom, divulgou um trabalho, não lembro agora o canal. Eu fazia parte da banda do colégio Marista, era cornetista solo. O pistom eu toquei olhando o Helinho do Nonato [e Seu Conjunto]. Eu acabei me dedicando a dois instrumentos: o bandolim e o piano.

 

Antoniologia Vieira. Capa. Reprodução
Antoniologia Vieira. Capa. Reprodução

Foi por essa época que surgiu o Regional Tira-Teima? Como foi essa história? Ubiratan queria montar esse grupo. O bandolinista que ele conhecia era eu, do Marista. Na época em que ele me conheceu eu já me apresentava ao bandolim, fora do conjunto Marista. Dizia-me Ubiratan, “vamos montar um grupo”, mas quem? Ubiratan me ligou falando “encontrei um percussionista maravilhoso, vou levar no teu apartamento”. Liguei pra papai, pra ele ir conhecer a formação do grupo. Quando eu chego lá, vejo um senhor. Ubiratan me apresentou ao percussionista. “Como é seu nome?” “Antonio Vieira”. Ele foi o primeiro percussionista do Tira-Teima. Nós somos fundadores, sob o comando de Ubiratan. Eu peguei o bandolim, nesse tempo estava me dedicando muito, o piano estava até esquecido. Papai gostou, deu sua opinião favorável. Faltava cavaquinho, violão. Ubiratan convidou Cesar Teixeira, ele foi o primeiro cavaquinista do Tira-Teima. Às vezes ele ia num [ensaio], não podia ir em outro, chegou-se à conclusão que não ia dar, tinha outras ocupações, composição, inteligente demais, gosto muito dele. Ubiratan lembrou que tinha um rapaz estudando violão com ele, “muito interessado, Paulinho”. Eu disse: “rapaz, Paulinho é primo de minha esposa”. Era Paulo Trabulsi [cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], eu o conhecia do Marista. Paulo chegou se justificando, “olha, pessoal, eu estou começando, eu toco violão, cavaquinho eu estou arranhando”. Começou a treinar, Ubiratan orientando. Aí ficou Paulo no cavaquinho. Nós começamos a ser conhecidos até fora do Maranhão. Nos encontramos com o [Conjunto] Época de Ouro, Six [Francisco de Assis Carvalho da Silva, advogado e cavaquinhista, fundador do Clube do Choro de Brasília]. O Regional foi crescendo, faltava um violão, foi entrando gente. Arlindo [Carvalho, percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013] assumiu a segunda percussão, Fernando Vieira, que chamavam Fernando Cafeteira, já falecido, tocava violão, Chico Saldanha [compositor] também e depois Sadi Ericeira [violonista, irmão de Paulo Trabulsi].  Nós tivemos a grande sorte de contar com Hamilton Rayol como crooner, que voz maravilhosa! Faleceu com 57 anos. Ele cantava muito choro e muita MPB de qualidade. Feitio de oração [Noel Rosa e Vadico], Olhos nos olhos, de Chico Buarque, dentre outras canções. Além de grande cantor era uma pessoa maravilhosa. O Regional seguia seu trabalho e intuitivamente Vieira começou a me mostrar suas composições. Ao final dos ensaios, pegava o violão, tocava, eu ficava admirado. “Vieira, isso dá um trabalho bonito! A gente vai ter que fazer um disco”. Depois Zeca Baleiro entrou na jogada também. O disco que eu fiz [Antoniologia Vieira] foi primeiro,mas o show [O samba é bom, produzido por Zeca Baleiro, disco gravado ao vivo no Teatro Arthur Azevedo] foi primeiro a ser apresentado. Isso foi por volta de 2000. O Regional Tira-Teima já tinha acabado em 1984 por que Ubiratan foi embora daqui, se mudou para São Paulo. O Regional acabou com essa formação.

De onde vem o nome Tira-Teima? Tira-Teima é uma música de Ubiratan. É como se fosse um desafio para alguma música. É uma música muito bonita, inclusive nós tocávamos no grupo, entre outras. O Regional acabou em 1984, mais ou menos, mas a gente se encontrava sempre que podíamos.

Lances de agora. Capa. Reprodução

Por que você não tocou em Lances de Agora [1978], de Chico Maranhão? Eu ia tocar nesse disco, só tem que no dia da gravação [o disco foi gravado em quatro dias na sacristia da Igreja do Desterro] nasceu o Bruno, meu primeiro filho, artista, dublador de filmes e Analista de Sistemas, hoje residindo no Rio de Janeiro.

Além do Conjunto Marista e do Tira-Teima, de que outros grupos musicais você participou? A gente montou um grupo de bossa e jazz, eu no piano, Luiz Cláudio [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de junho de 2014] na percussão, Paulo Lima no baixo e Athos [Lima], filho dele [Paulo], na guitarra. O baterista era Celso Raposo, o mesmo do conjunto Marista. O grupo se apresentou em vários eventos sociais. Depois Paulo Lima saiu e entrou Antonio Paiva. Esse grupo tinha uma das melhores cantoras do Maranhão, que eu considero até hoje e pouca gente conhece: Lúcia Faria. É a Leny Andrade do Maranhão! Ela cantou muito por muito tempo no Rio de Janeiro, acompanhada por grandes pianistas, dentre eles Luiz Eça. Depois nós montamos o Quarteto Insensatez. A formação inicial sou eu no piano, Luiz Mochel [cantor], voz, [Arlindo] Pipiu no contrabaixo acústico e Arlindo Carvalho na bateria. Depois Pipiu se ocupou com o seu estúdio, aí entrou o Antonio Paiva no lugar dele, alternando com Pedro Duarte [contrabaixista e saxofonista]. Estamos fazendo diversos shows com a integração de Milla Camões e participação de Marina Vasconcelos [cantoras].

E como está a atividade musical hoje? O Insensatez a partir de agosto, setembro, voltará às suas atividades musicais. Tive participação especial como pianista em oito músicas no show do Marconi [Rezende, cantor], o último, [celebrando os] 70 anos de Chico Buarque, um show maravilhoso no Barulhinho Bom, muita gente, jovem, inclusive. Já estou começando a preparar um novo show, provavelmente em agosto, de Roberto Rafa [cantor e compositor]. Estudamos juntos no Marista, já fiz dois shows com ele, depois que ele retornou, ele passou 20 anos em Brasília. Em 2012 tocamos no Teatro Arthur Azevedo, depois na sede da Caixa Econômica [a APCEF, Associação do Pessoal da Caixa].

Além de multi-instrumentista você desempenha outras funções na música? Faço arranjos e componho temas. Depois que sair aposentado como professor da Universidade Federal do Maranhão pretendo começar a gravar os meus discos, com convidados, a maior parte de músicas de maranhenses. Aqui nós temos belas canções. Uma música que eu quero gravar, chama-se Fuga e Anti-fuga, de Sérgio Habibe. É lindíssima! Já mostrei para ele o arranjo que fiz no piano. Pretendo também incluir nesses trabalhos, músicas de Marcelo Carvalho, Tutuca, Ubiratan Sousa, Giordano Mochel, Luiz Reis e Tânia Maria, dentre outros compositores maranhenses.

Quem são os instrumentistas, no piano e no bandolim, que te chamam a atenção, hoje? No piano, Gilson Peranzzetta, César Camargo Mariano, Francis Hime, Cristovão Bastos. No bandolim, Jacob foi o mestre, Hamilton de Holanda, Déo Rian e admiro demais o Joel Nascimento.

No piano você dá mais ênfase à bossa; no bandolim, ao choro. O que significa essa música para você? Pra mim o choro é o Brasil. A bossa nova já é uma mistura que vem dos Estados Unidos, com o jazz misturado com o samba, com aquela batida atravessada. Mas no bandolim eu não toco só choro, eu toco música popular brasileira.

Chorografia do Maranhão: Wendell Cosme

[O Imparcial, 24 de novembro de 2013]

O cavaquinhista e bandolinista Wendell Cosme é o 20º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

São Cosme e São Damião têm duas datas no calendário religioso. Uma para a Igreja Católica, outra para a gurizada, que faz as festas pelas ruas, à cata dos bombons de promessa. Nascido em 27 de setembro de 1988, Wendell Cosme Vieira Pires levou o nome do primeiro no batismo. Evangélico, enverga no braço direito uma enorme tatuagem onde se lê “Jesus Cristo”.

Filho de Sonia Regina Correia Vieira e Everaldo da Paixão Pires Filho, mecânico falecido, o cavaquinhista e bandolinista ingressou recentemente no curso de Música da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Iniciou os estudos musicais aos 14 anos, quando aprendeu a tocar cavaquinho, após descobrir sua paixão por blocos tradicionais e a cultura popular do Maranhão, época em que ingressou na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (EMEM).

Casado e esperando o primeiro filho, o músico integra os grupos Argumento e Quarteto Cazumbá e já passou por vários outros, incluindo o Chorando Callado, que o revelou nas noites do saudoso Clube do Choro Recebe, no Bar e Restaurante Chico Canhoto.

Wendell Cosme recebeu a chororreportagem no estúdio de Júlio, no segundo piso de uma residência na Camboa. Na ocasião, tirou uma foto e postou no Instagram, relatando a felicidade em ser um dos entrevistados da série Chorografia do Maranhão. Também no celular mostrou em primeira mão a gravação do Argumento para Flanelinha de Avião, de Cesar Teixeira, com participação do sambista carioca Moyséis Marques. O entrevistado de hoje assina o arranjo.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Com que idade você começou a tocar? Acho que com 14 anos.

Isso fora já? Não. Eu comecei tarde mesmo. Poderia ter começado mais cedo.

O ambiente na tua casa favorecia o aprendizado da música? O que te estimulou? Todo domingo na casa da minha vó tinha confraternização, aquelas coisas de família e de vez em quando tinha um samba. Eu olhava, mas ainda não tinha muito interesse. Mais na frente teve um bloco, chamado Pierrô, lá no Cohatrac, quando eu estava morando já no Cohatrac Araçagy, por ali, mas também ainda não tocava, acompanhei. Já vim começar a tocar, eu comecei tocando retinta. Foi de onde eu comecei.

Nesse samba do quintal de tua vó tinha algum parente que tocava? Meu tio. Tio Erinaldo. Ele é irmão de meu pai. Ali eu já acompanhava, ele já saia pra tocar. Mas eu ainda era muito criança.

Como é que você foi parar na Escola de Música? Começou tocando antes de ir para a Escola, como é que foi? Nesse tempo eu fui morar na Cohab, já depois de ter conhecido o bloco tradicional, já tinha me chamado a atenção. O bloco Os Vampiros ensaiava na frente da minha casa. Eu comecei a gostar, todo mundo já participava, eu pedi pra meu pai uma retinta. Ele mandou fazer uma pra mim e eu comecei a tocar. Lá n’Os Vampiros tinha Chico Newman, um cavaquinhista que virava bicho tocando ali, tocava muito, muito mesmo. Eu ficava olhando e aquilo me chamou muito a atenção, “rapaz, esse cara toca muito, isso é bonito”. Aí um amigo meu, Eduardo, eu falei pra ele, “rapaz, eu quero começar a tocar cavaquinho, eu quero aprender”. Ele sempre ia lá, não tocava, ia levar o cavaquinho pra Chico Newman. Ele tinha um cavaquinho, me emprestou. Uma situação engraçada. Eu peguei o cavaquinho, fiquei fazendo zoada, mas não tocava. A primeira vez em que eu fui pegar aula de cavaquinho, o dono do cavaquinho apareceu, eu fiquei sem cavaquinho. Aí deu aquela travada. Fiquei sem instrumento, não tinha como continuar. Pouca grana, praticamente zero, minha mãe não trabalhava, meu pai era mecânico, aquela renda era mais pra ajudar em casa mesmo. Aí eu dei um tempo e tinha ganhado um celular de minha tia, comprou na loja, eu, “celular pra quê?”, naquela época ainda estava começando, eu vendi pra meu pai. Aí eu fui ao Centro com uma prima minha, que andava sempre comigo, a Natália, aí eu digo, “rapaz, eu vou comprar um som pra mim” – gostávamos muito de música, ficar escutando em casa –, “ou um cavaquinho?”. Comprei o cavaquinho e foi o início de tudo.

Você lembra que ano era isso? 2001, por aí. 2000.

O lance de cavaquinho veio do bloco. Podemos dizer que tua entrada na música tem um pé na cultura popular? Isso se mantém hoje? Isso. Se mantém! Eu sou louco por bloco tradicional.

Você já tocou em diversas outras manifestações. Toquei muito tempo no Boi Pirilampo, viajei muito com o Pirilampo, até pra fora do Brasil. Toquei essa temporada com o Nina [o Bumba Meu Boi de Nina Rodrigues]. Toquei com o [bumba meu boi] Brilho da Terra, um boi da Madre Deus que agora eu não lembro o nome. Já estava começando a gravar algumas coisas de bumba boi.

Qual a importância da ponte entre a cultura popular do Maranhão e a música instrumental que se produz aqui? Pra mim é superimportante. A cultura popular, a gente tem o bumba boi, o bloco tradicional, principalmente, que eu gosto demais, a tribo de índio, o divino [espírito santo]. Falando sobre isso eu já digo que fomos participar de um festival em Recife, Tremplin Recife Jazz, a gente chegou lá pra tocar, eu vou te falar a importância. A gente sempre achou superimportante montar um trabalho com os ritmos do Maranhão, é o sotaque daqui, uma coisa diferente, ninguém faz, chegamos para tocar lá, tinha um pessoal da França, uma orquestra de jazz da França, começamos a tocar tribo de índio, tam tam tam tam [imita com a boca o andamento percussivo], uns temas meus, rapaz, esses caras ficaram “o quê que é isso?”. Antes teve um grupo de choro da Paraíba, que tocava choro puxando pro forró, já é normal, o cara já está acostumado a ouvir choro com andamento de baião. Quando a gente tocou a tribo de índio, um jurado se levantou da banca e foi lá pra frente do palco para ver o que estava acontecendo, “que ritmo é esse?”. A gente tem que valorizar, tentar encaixar o máximo na música instrumental, no choro principalmente, a gente tem que explorar um pouco mais, acho que tem sido pouco explorado esse lado.

Nesse festival, no Recife, quando você fala a gente, era o Quarteto Cazumbá? Como é que está o quarteto hoje? Era o quarteto. Deu uma parada, todo mundo correndo pra um lado e pra outro. Mas temos uns convites, de Recife mesmo, do grupo Saracotia, um projeto de rodar o Nordeste, e a gente vai abrir pra eles, quando eles passarem por aqui, já no começo do ano que vem. Eles fazem muita coisa lá.

Quem foram teus mestres no cavaco? É importante eu falar do Eduardo, o Dudu. Foi ele quem me emprestou o cavaco, que nem era dele, na hora o dono apareceu. Ele foi um cara que me ajudou muito no início. Eu não digo que ele foi meu professor, ele falava “o dó é assim, o mi é assim”. O Chico Newman foi uma grande inspiração pra mim, não chegou a ser meu professor, não me deu aulas, mas me inspirava vê-lo tocar. Quando eu estava começando a engatinhar no choro, eu vi Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014] tocando na televisão, no Canal 20, no programa de César Roberto [radialista]. Tanto é que quando eu fui fazer a prova [de seleção] da Escola de Música, eu falei, parecia o ídolo mesmo, assim na frente, “rapaz, eu te vi tocando”.

Você foi aluno dele na Escola? Fui aluno do Juca. Ele foi meu principal professor na Escola de Música. É uma pessoa que eu sempre tirava dúvida de choro com ele, e fui correndo atrás.

Você falou que considera ter entrado um pouco tarde no ramo. Mas em compensação, parece que você pegou tudo muito rápido, se lembrarmos dos tempos do início, do Chorando Callado no Clube do Choro Recebe, pra hoje… Eu agradeço, claro que a Deus em primeiro lugar, 80% ao choro. Foi o que me fez dar esse salto, em relação até a outros músicos. Quando eu comecei a tocar choro, eu lembro que a gente ia ensaiar, com João [Eudes, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de fevereiro de 2014], Tiago [Souza, clarinetista], o início do Chorando Callado, eu tocava uns três, quatro choros, aí Wanderson [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de outubro de 2013] chegou logo dando pressão: “não, tem que pegar choro”, e isso foi uma coisa que empurrou. Não tinha negócio de partitura, eu ainda não sabia ler. Eu tava engatinhando nisso, botava o cd em casa, ficava escutando, e começava a tirar as coisas.

Quando a gente se conheceu no Clube do Choro Recebe você tocava um cavaquinho cheio de fitinhas coloridas. Você se lembra das primeiras vezes em que tocou lá, com os nossos grandes mestres? Lembro sim. Aquilo foi um grande incentivo.

Depois do cavaquinho você se tornou também um grande bandolinista. Como é que o bandolim surge, em que momento passa a fazer parte dessa história? O bandolim surgiu depois de eu ter conhecido o Hamilton de Holanda, olhando ele tocando algumas coisas na televisão veio essa vontade de aprender. E pelo fato de não ter bandolinistas aqui. Tem o Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], poucos, poucos. Aí aparece um amigo meu, Dinho, querendo vender um bandolim velho e eu comprei da mão dele. Comprei e fui aprendendo só. Já sabia afinação, com a teoria musical que eu já tinha, eu peguei afinação e comecei a pegar os choros, a tirar alguma coisa de ouvido. De bandolim eu nunca tive aula com ninguém. Olhava algumas coisas na internet, olhava os grandes, Hamilton de Holanda, Jacob [do Bandolim].

Pra você, quem é a maior referência? Hamilton. Pra mim é o maior bandolinista de todos os tempos e não vai surgir um igual a ele tão cedo.

Maior do que Jacob? Eu sei que é uma pergunta escrota. É [risos], é escrota mesmo. Mas o Hamilton ele vê a música de outra forma, ele sabia que podia explorar muito mais o bandolim, abriu um leque.

Vocês já estiveram juntos? Eu assisti um workshop dele em Teresina, fui ao Rio assistir um show dele, fui ao camarim, conversei com ele, tenho um dvd autografado, “manda ver no 10 cordas aí”.

Você falou há pouco de pouca grana no começo e hoje é um cara que vive de música. Hoje eu posso dizer que vivo de música, tenho orgulho de dizer isso. No início foi barra, ia tocar pra ganhar cinco reais, pagava a passagem de ônibus, ficava com R$ 2,50, era o lanche ou pra jogar videogame. Vinha andando da rodoviária pra Cohab, ia tocar numa festa que não dava ninguém, a gente ia andando. Ralei, ralei, ralei mesmo.

Como era a reação dos familiares? No sentido de te mandar procurar fazer outra coisa. Minha mãe sempre me apoiou, meu pai também. Às vezes tinha uma tia que falava “mas não é melhor tu estudar?”. Aí eu botei uma coisa na cabeça, quando começou a dar certo, quando começou a caminhar, “rapaz, é isso que eu quero”. Aí eu comecei a focar, a correr atrás.

Mas você não chegou a ter outra formação. Não.

Você está na faculdade? Estou na UFMA. Faço música agora, graças a Deus! No início foi assim, mas graças a Deus eu tive o apoio da família.

É possível viver com dignidade, viver bem, com conforto, de música? Aqui em São Luís é difícil. Eu posso dizer que o grupo em que eu toco, o Argumento, me dá uma estrutura muito boa. É o maior grupo de samba daqui, uma referência. Todo mundo do grupo está vivendo dignamente.

Vocês só tocam no Maranhão? A gente vai muito em Teresina. A gente é muito tranquilo com relação a sair daqui, a gente vive o momento.

Como é a receptividade do público em Teresina? É legal. No início a gente foi várias vezes, a gente fez muitos shows legais lá.

Na tua cabeça tem algum conflito entre choro, samba e pagode? Ou você toca tudo com o mesmo gosto? Como é que você lida com isso? O choro a gente tem que estar sempre tocando, é muita nota, principalmente pra quem é solista. O samba, como eu faço só base, sou centrista, raramente faço solo. Se desse para conciliar os dois… Quando a gente vai tocar em festas, aniversários, a gente bota o choro, o pessoal é muito cabeça aberta. Esse lance de tocar em bloco, em boi, a gente se acostuma com várias vertentes.

Além do Argumento e do Chorando Callado, quais os outros grupos de que você já participou? Toquei muito tempo no Sob Medida, um grupo de samba, antes do Argumento. Antes do Sob Medida toquei no Palmares, grupo lá de Seu Riba, do Fundo de Quintal, já toquei com o Amigos do Samba, de Zé Costa, toquei no Fascinação, meu primeiro grupo de samba e pagode. Eu toquei com muita gente, fixo são esses, mas toquei com a Turma do Boneco, Samba Show.

E discos de que você participou? Muita coisa também. Deixa eu tentar lembrar algumas coisas importantes [pensativo]. Já gravei com Isaac Barros, Lena Machado, Madrilenus, estou produzindo o disco deles, Argumento, fiz arranjos, gravei o disco do Betto Pereira, com Camilo Mariano de batera, o Bóris fazendo arranjo, ele é uma grande referência no Rio, de samba e pagode, o Israel Dantas de violão. Participei de um projeto, acho que era do Sesc, também com Israel.

O que significou o Chorando Callado para você? Foi um divisor de águas. Foi onde tudo começou mesmo. Eu posso até arriscar a dizer, por todo mundo do grupo, a gente foi um grupo importante para a volta do choro aqui em São Luís. A gente começou a tocar e começou a surgir. Já tinha Pixinguinha e Tira-Teima, depois surgiram Um a Zero e outros, tocávamos direto. Foi na época em que o choro aqui deu uma levantada, tocávamos em aniversário, em bares.

Você considera que o grupo acabou? Eu acho que não, por que nós somos irmãos. João é padrinho de meu filho. Wanderson a gente está sempre se falando, é meu amigão. Tiago, a gente se fala pela internet, quando ele vem aqui a gente sai junto. Eu acho que o Chorando Callado não acabou.

Rola algum conflito entre a coisa religiosa e a música popular, ambiente de festas, bebida? Rola um pouco. Como eu nunca bebi, nunca fumei, isso foi uma coisa que sempre foi tranquilo, minha família, na igreja as pessoas respeitam minha profissão, sabem que eu vivo de música, ainda é meio complicado viver de música na igreja.

Você toca na igreja também? Ainda não. É um projeto. Eu acho muito sério. Eu não acho legal estar tocando na noite e estar tocando na igreja. Eu vejo dessa forma. Não tenho nada contra quem faz isso, mas acho meio complicado.

Cavaquinho e bandolim, os dois têm a mesma importância no teu fazer musical? Você tem preferência por algum? Não, não tenho preferência. Cavaquinho me acompanha mais, pelo fato de estar tocando samba todo o tempo, mas o bandolim também é importante, me abriu muitas portas.

Dessa geração mais nova, você e Robertinho [Chinês, bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013] são destaques, tanto no bandolim, quanto no cavaquinho. Vocês, com a pouca idade que têm, não deixam a dever aos grandes mestres, Raimundo Luiz, Juca, Paulo Trabulsi [cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013] e companhia. Como é tua relação com Robertinho? Eu e Robertinho somos grandes amigos, estamos o tempo todo nos falamos. Ele tem uma grande admiração por mim e eu por ele. A gente se dá super bem, estamos sempre conversando, trocando material, a gente sempre se ajuda. Hoje ele está com meu cavaquinho, mandou fazer outro, pegou o meu emprestado. Ele me empresta coisas.

Você gosta de produzir? Gosto. Arranjar e produzir eu gosto, eu me sinto bem. Quando eu faço um arranjo, que tu pega e vai escutar, eu acho legal. Quero me qualificar para fazer mais isso.

Pra você o que é o choro? Qual a importância dessa música para a música brasileira? É superimportante. É o carro chefe da música brasileira, até por ter vindo antes do samba. O choro ajuda os músicos a pensarem um pouco mais, a querer fazer coisas mais difíceis, elaborar mais. O choro é um dos grandes gêneros da música brasileira.

Você tem acompanhado o desenvolvimento do choro no Brasil hoje, os novos nomes? Tem muita gente fazendo coisas. Tem o Messias Brito, da Bahia, grande cavaquinhista, tem o Márcio Marinho em Brasília. Tem muita gente fazendo som, os meninos do Saracotia em Recife fazendo um som bem legal. Tem muita gente se movimentando. Eu acho que aqui é que a gente está mais parado, mas acho que a música tem acontecido. O Hamilton de Holanda disse outro dia numa entrevista, que achava que o instrumental no Brasil está super bem.

Você se considera um chorão? Eu gosto de valorizar a essência do choro. Eu acho que não me considero um chorão por que eu não sou super tradicional, eu gosto do moderno. Se eu fosse falar que me considero um chorão… eu acho que não. Eu me considero um músico que toca choro.

Quais os grandes nomes do choro na tua opinião? O que tu ouve e te chama a atenção? Eu gosto muito de Hamilton de Holanda, como eu já falei, pra mim é um gênio. Gosto muito do Danilo Brito [bandolinista], Luiz Barcelos [cavaquinhista], lá do Rio de Janeiro. Gosto muito de [os cavaquinhistas] Messias Britto, Márcio Marinho.

E o choro no Maranhão, como você tem observado desde quando começou a participar das rodas até hoje? O choro aqui, naquela época em que a gente começou, estava bem forte, a gente empurrou, empurrou e começou a acontecer. Com grandes músicos, que a gente tem aqui em São Luís. Hoje em dia eu não sei o que aconteceu que o choro aqui caiu, em termos de visibilidade. Eu sempre gostei, acho superimportante acontecer mais, acho que incentivou muitos músicos como eu, Tiago, João, a crescer e a se tornar referência, não só no choro.

Não sei se você concorda, mas hoje parece haver mais gente tocando choro, mas o choro tem menor visibilidade. Como você acha que podemos resolver a equação, no sentido de uma retomada do movimento choro no Maranhão de uma forma mais organizada? Tem muita gente tocando choro, na UFMA. É isso mesmo. A gente não tem onde assistir. Eu acho que isso depende muito da gente mesmo. Hoje em dia os bares querem cada vez mais essa música que está acontecendo na noite aí. Mas se a gente, nós, chorões, nos organizássemos, ver um local para começar a se encontrar de novo, acho que a gente conseguiria fazer voltar a acontecer isso. Depende muito da organização dos próprios músicos. Eu lembro que a gente tocava na Cohab, em um bar, eu nem sabia que saía isso em jornal. A gente parou de tocar lá e o anúncio continuou no jornal com meu telefone e de vez em quando me ligavam: “onde é que vai ter chorinho?”

Chorografia do Maranhão: Raimundo Luiz

[O Imparcial, 15 de setembro de 2013]

Diretor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo e titular do bandolim do Instrumental Pixinguinha, Raimundo Luiz é o 15º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivânio Almeida Santos

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Bandolinista, cavaquinhista, violonista, violinista. Músico, enfim. Raimundo Luiz está em São Luís a passeio. Quer dizer: ele nunca retornou à cidade natal depois de chegar à Ilha entre 1975 e 76, movido pela curiosidade de descobrir o que era “a cidade”. Atualmente, visita Cedral e a baixada a trabalho, difundindo o choro e pesquisando-o, num movimento de mão e contramão como o da maré que o trouxe para cá, numa época em que para se chegar à São Luís eram necessários dois ou três dias de barco.

Raimundo Luiz Ribeiro nasceu em 15 de junho de 1960 no povoado Jacarequara, em Cedral – então Guimarães –, Litoral Ocidental Maranhense. Sobre a origem do nome de seu lugar, ele explica: “tinha uns alagados, os jacarés quaravam, ficavam lá de papo pra cima, quando tinha um sol quente”.

Sua genética musical talvez se explique pelo fato de o pai, o lavrador e carpinteiro Lucílio Ribeiro, ter sido “uma figura que adentrou muito na coisa do boi de zabumba, na época era o Boi do Jacarequara. Ele fazia parte do cordão, era um brincante”. O pai construiu a maioria das casas do povoado e outros adjacentes, por onde andava, entre o boi e a carpintaria. “Segundo alguns documentários históricos, o boi da região de Guimarães nasceu por ali, outros interiorezinhos, Damásio”, remonta Raimundo. Edite Rosa Ribeiro, sua mãe, era também lavradora, primeiro campo em que atuou o bandolinista do Instrumental Pixinguinha, hoje diretor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo.

Raimundo Luiz recebeu a chororreportagem nos jardins da EMEM, quando findava a tarde. Durante a conversa, tocou Elegante, choro de sua autoria, gravado em Choros Maranhenses, disco de seu grupo que registra o que entrega o título, e Flor Amorosa, de Joaquim Callado.

Entre discos que já tocou, lembra, além do citado Choros Maranhenses, do primeiro disco do Cacuriá de Dona Teté, onde compareceu de banjo e violino, além de Hongolô, de Cláudio Pinheiro – é dele o violino em Tocaia, de Cesar Teixeira, vencedora do Festival de Marabá/PA, em 1994. Aos pais, já falecidos, deixou um agradecimento: “Eu queria deixar um recado a meus pais, que mesmo na labuta da roça, no seu dia a dia de lavradores, mesmo sem me propiciar grandes condições de educação, me propiciaram estar aqui agora. Isso pra mim é extremamente saudável, enquanto homem e enquanto músico”.

Foto: Rivânio Almeida Santos

Jacarequara já virou nome de choro? Ainda não [risos], mas há perspectivas pra isso.

Você ainda visita a região? Jacarequara eu estou tendo a satisfação de ir mensalmente. Nós colocamos no ano passado um projeto de interiorização do choro, eu e Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], e eu coloquei dentre as seis cidades de minha região, o município de Cedral, como coloquei Cururupu, Guimarães e outras pra cá [mais perto de São Luís]. Justamente pra tentar buscar essa coisa da música instrumental, que eu vi lá desde criança, molequinho, 10 anos. A minha cidadezinha, embora seja um povoado bem rural, tinha nem luz elétrica na época, tinha um quarteto de música na cidade, um quarteto de irmãos, um tocava trompete, outro a zabumbinha, pandeiro, a percussãozinha e um banjo. Esses homens adentravam em todas as manifestações folclóricas e religiosas dos povoadozinhos: festa de São Luís, Santa Luzia, São Sebastião, Santana, Divino, Pastor, até hoje é muito forte pra lá o pastoral. Eu adorava ver esses senhores tocando! Paralelo a essa coisa, a essa prática instrumental dele, também tinha as radiolas, que não são as radiolas de reggae de hoje. Eram pequenas radiolas de festa, que tocavam na época muita música instrumental, muito [o saxofonista] Saraiva, [o cavaquinhista] Waldir Azevedo, principalmente a música de sopro. Aquela coisa foi nascendo em mim esse desejo, esse sabor pela música instrumental. Daí eu comecei esse gosto musical.

Você se lembra de estar inserido nessas festas a partir de que idade? Acho que 12, 13, 15 anos. Até então a gente não ia pra festa, os pais não deixavam.

Dá para perceber nessas suas falas, a vivência musical na cidade, no povoado. Como era a vivência musical em casa? A vivência dentro da minha casa, não tinha. Praticamente assim, só rádio mesmo. Lembro que papai tinha rádio, escutava muito a Rádio Educadora de madrugada. Mas a gente não tinha radiola, não tinha nada de som na minha casa. Até pela própria carência mesmo, a gente morava em uma casinha de taipa, coberta de palha, não tinha luz, não tinha nada.

Com essa idade com que você começou a frequentar as festas já se interessou por querer aprender a tocar? A vontade de tocar era imensa, mas a condição, entendeu? Daí a primeira oportunidade que eu tive de vir morar em São Luís, até por uma curiosidade que eu tinha, de saber o que era a cidade. Só se viajava pra cá de barco, barco a vela. Eram dois, três dias pra chegar aqui, principalmente no inverno. Meus dois irmãos já moravam aqui, só os via de dois em dois anos. Eu ficava me questionando e aos meus pais, “pra onde meus irmãos tão?”, “tão pra cidade”, “e o que é a cidade?, eu também quero conhecer a cidade, como é que esse barco chega toda semana cheio de arroz, lata de querosene, onde é que se faz isso?”, eu ficava com aquela coisa em mim.

E o impacto com a cidade? Pode crer! Eu cheguei ainda na época dos jipes, achei uma coisa, a minha cabeça pirou. Tanto é que eu não voltei mais, já procurei meios de ficar por aqui mesmo. E fui buscando meu caminho musical.

Tua vinda, então, foi a passeio, e você não voltou mais? Eu tinha uma necessidade de ficar, uma necessidade pessoal mesmo. Eu queria fazer algo diferente. Essa coisa da música que eu tinha como raiz, lá não ia me proporcionar. Procurei alguns serviços, trabalhei em inúmeros locais, em casa de umbanda, como atendente, fazer os banhos, defumador. Vendi livros. Depois consegui um emprego de auxiliar de serviços operacionais numa empresa, e com esse primeiro emprego eu tive meu primeiro salário e comprei meu primeiro violão, novembro de 79.

Você chegou a trabalhar na roça? Literalmente na roça. Com 12, 13 anos. Capinando, abatendo, roçando, plantando, as mais diversas colheitas. Quando eu não ia pra roça, eu ia pra pesca, por que como eu já tava meio taludinho, como papai dizia e Luiz Gonzaga, que ele gostava muito de ouvir, enquanto ele ia pra roça eu ia pra pescaria, botar uma rede, tirar um sururu, de alguma forma, pra quando ele chegasse meio dia já ter o sustento [alimento].

Quais são as melhores lembranças desse período? Sinceramente, além desse sabor musical que eu adquiri na infância, mesmo sem saber tocar nada, essa cultura que eu tive, familiar, de respeito, de admiração pelo que eu sou hoje, por essa relação que meus pais me deram de entendimento, de família.

E na Escola de Música, você entrou quando? Trabalhando como operacional nessa empresa, eu tive o prazer de sair dessa coisa de rua, de office boy, e fui trabalhar numa sessão de fotocópias. Essa empresa ficava na rua Treze de Maio, que era próximo à Rua da Saavedra, onde era a Escola de Música. Sempre ia uma senhora lá, dona Maria José, chegava semanalmente com uma pilha de material de música pra tirar cópia. Eu tinha chegado na sessão na época e fiquei loucamente curioso pra saber que monte de coisa pretinha era aquela. “Ah, isso aqui é música, é partitura!”. Ela me levou à Escola de Música, em 1980, já fora do período de inscrição, me apresentou para a então diretora Olga Mohana. Ela já tinha esse sonho que nós temos até hoje, de ter uma Orquestra Sinfônica no estado. Ela já me viu tocando violino, já me ofereceu o violino pra estudar. Eu não tinha instrumento e queria isso mesmo.

Então você passou por violão, por conta própria… É, estudei esse violãozinho lá no bairro do Monte Castelo, morava lá com os parentes. Tive certa resistência por parte da família daqui: vim do interior, fui logo comprar um violão. Enfim, consegui mostrar pra todo mundo, que a partir do violão eu consegui chegar onde eu queria.

Você concluiu o curso de música por aqui? Me formei em violino. Comecei a estudar o violino, trabalhava fora também o violão, que eu tocava na Igreja da Conceição, no Monte Castelo, em grupo de jovens. Em 1984, sempre tinha em Brasília, Curitiba, esses festivais de verão, festivais de inverno, eu procurava sempre me aperfeiçoar no violino. Ia eu, várias pessoas aqui da Escola, pegava o ônibus, ia pra Curitiba, pra Brasília, fiz vários cursos, e consegui trabalhar o violino. Mas sempre, paralelo ao violino, eu estudava também o violão. Cheguei a estudar também cavaquinho, toquei em grupos de samba. Em 1987 eu peguei dois serviços com música, já era monitor na Escola de Música, de solfejo, teoria musical, e fui convidado pra ministrar aulas no [Colégio] Marista e nesse mesmo período fui convidado a fundar um coral com os funcionários dos Correios. Eu louco pra viver de música, aceitei os serviços. Trabalhava duas vezes por semana nos Correios e tinha uma carga horária no Marista também, trabalhando com educação musical em sala de aula, para o fundamental e também para o ensino médio. Passei quase 12 anos no Marista como professor de música, a [cantora] Flávia Bittencourt foi minha aluna lá.

A partir daí você passou a viver de música? Literalmente. Viver de música. O trabalho com o coral dos Correios foi tão bacana, viajamos vários regionais Norte e Nordeste. A Associação dos Correios, que na época era o [bandolinista] César Jansen, o [percussionista] Carbrasa, era todo mundo de lá, “vamos criar um grupo de samba”, e lá vem o professor Raimundo Luiz, criamos o Arco Samba, tocamos aí na época no Dunas Center [centro comercial, na Cohama], Maré Chic [próximo ao retorno do São Francisco]. Foi uma boa temporada também com a coisa do samba. Daí eu comecei a gostar do cavaquinho, viajei várias vezes para Brasília, estudei com [o cavaquinhista] Henrique Cazes, depois fiquei só com o bandolim.

Como se deu essa passagem, em definitivo, para o bandolim, que é o instrumento pelo qual você é mais reconhecido hoje?

Ele veio, acho que pelo gosto do choro, da coisa pequenininha lá do interior. Eu escutava o chorinho no bandolim, no cavaquinho, no saxofone, na sanfona e me identifiquei com a coisa do bandolim, abracei o bandolim. Embora eu nunca tenha abandonado o violino. Achei também mais vantagem financeira no bandolim, a gente estava sempre tocando o bandolim.

O sonho da orquestra vem desde a época de Olga Mohana. Como está esse processo hoje? Nós temos um núcleo de cordas que sustenta ainda esse sonho. Temos uma mini orquestra de 20, 25 músicos, uma pequena orquestra de câmara, sob a coordenação do professor Joaquim Santos [violonista]. O que falta para essa orquestra é vontade política. Pra que ela cresça, nesse ponto de vista da orquestra sinfônica, precisa ter muita força de vontade. Uma orquestra sinfônica eu a vejo vinculada à instituição, eu não vejo a Escola de Música tomando conta de uma orquestra, por que nós vamos deixar nossos afazeres didático-pedagógicos pra tomar conta de uma orquestra. Uma orquestra sinfônica, ela, em si, é uma instituição, e muito grande, por sinal. Muita gente pergunta por que a Escola não faz uma orquestra, não tem uma orquestra? Não tem que ter! A Escola já tem uma função, que cumpre muito bem. Eu acho, né? [risos].

Quando é que você passa a atuar como professor da Escola de Música? Em 83 eu já comecei a ministrar aula. Quando eu formei em 88, violino, eu fui nomeado. Nessa época não tinha concurso. Eu, [o violonista sete cordas] Domingos Santos, Zezé, Paulinho [Paulo Santos Oliveira, flautista], todo mundo trabalhava como monitor.

E o choro? Quando é que começou efetivamente? Minha participação no choro, eu entrei no Pixinguinha em 94, 95, o Pixinguinha começou em 90, eu entrei cinco, seis anos depois, comecei a trabalhar o bandolim no choro.

Você entrou no Pixinguinha tocando cavaquinho ainda, não é? Foi, no cavaquinho, fazendo base. O bandolinista era o Jansen. Carbrasa na percussão, depois entrou [o percussionista] Quirino, ou foi o contrário. Paulinho já foi do Pixinguinha, Zezé, [o violonista] Marcelo Moreira, Garrincha fez a percussão um bom tempo.

E a sua chegada à diretoria da Escola? Eu fui convidado em março ou abril de 2009. Ligaram da Secretaria [de Estado da Cultura, à qual a EMEM é vinculada] se eu aceitaria, passei umas horas pensando. Resolvi aceitar, não pelo cargo, mas pelos quase 30 anos que eu tinha, na época, de Escola de Música. Eu tinha na cabeça as necessidades que a gente desejava, enquanto professor. A gente já tem uma noção das perspectivas, acredito que eu já realizei algumas delas, estamos realizando outras. Há coisas muito boas que temos feito por aqui, sinceramente. Dentre elas a conclusão de nosso plano político-pedagógico. Não tinha! Era um documento antigo, metodologia antiga. Fizemos várias equipes, caímos para pesquisar, desde 2010. Terminamos em 2012, agora. Dois anos de pesquisa bibliográfica pra arrumar, adequar essa nova metodologia, novo padrão de ensino, baseado no currículo nacional.

Qual a diferença que hoje tem o processo de ensino-aprendizagem na Escola para o que era antes? O que significou a consolidação desse documento? Esse documento, diga-se de passagem, ainda não está aprovado no Conselho Estadual de Educação, embora já o estejamos utilizando. Ele traz de diferente uma série de fatores, entre eles as diversas metodologias de ensino que nós usamos hoje em sala de aula, tanto na teoria quanto na prática, os padrões de estudos, os novos métodos de teoria musical, ritmo, solfejo, que você aplica, estudos práticos em turmas coletivas, a descentralização dos cursos. Por exemplo, hoje nós temos cursos básico infantil, fundamental infantil, fundamental adulto e técnico profissionalizante, separou tudinho. Estamos reduzindo esse curso técnico profissionalizante, que era de cinco anos, para três anos.

Teoria e prática caminham juntas agora? Teoria e prática, não tem mais essa coisa de passar um ano na teoria para depois chegar na prática. Entrou, caminhando junto.

Durante muito tempo a Escola de Música teve um perfil erudito. Como está o espaço da música popular hoje, na formação? A gente sempre tem procurado acabar com essa linguagem, que é pejorativa. A gente tem que procurar fazer a música, a boa música. A Escola de Música está mais aberta, hoje a gente vê muito evento popular, dizem que “a música popular chegou à escola de música”; não é isso: não se trata de música popular ou erudita, é a música, o povo quer ouvir música de qualidade.

Mas durante muito tempo as escolas de música e os conservatórios meio que negligenciaram a música popular. Em Pernambuco o choro está tendo um papel fundamental no conservatório de música, o próprio Marco César [bandolinista] esteve aqui recentemente e disse que foi uma luta, uma conquista recente. Nós fizemos ano passado, isso também foi uma conquista, nós tínhamos aqui na Escola encontros que a gente denominava de semanas. Semana de piano, semana de canto lírico, semana de violão. A partir do ano passado, nós decidimos fazer encontros de música de câmara. Aí você junta, esse aqui do piano, com aquele ali do canto, com esse aqui do violão erudito e trabalha conjuntamente e no final da semana, você está trabalhando vários núcleos no mesmo período e no mesmo palco e fica a coisa camerística. Foi um ganho que a Escola teve. Para esse ano nós já estamos pensando, nesse segundo encontro, que será agora em novembro, dentro do Encontro de Música de Câmara, a primeira Oficina de Choro do Maranhão. Eu tive um contato há duas horas com [o flautista] Toninho Carrasqueira, ele já está fazendo contato com outros. Em breve teremos a definição desse grupo, da oficina que estará dentro do encontro.

Falando em choro, qual a situação do Pixinguinha hoje? E o que significa este grupo para você? O Pixinguinha, para mim, é minha identidade pessoal maior. É o que eu mais trabalho, o que eu mais toco, o choro é o gênero que eu abracei, com que convivo diariamente. O Pixinguinha tocou nove anos na Lagoa da Jansen e depois que eu assumi a Escola não tive mais tempo. Preocupado com a gestão, eu não tinha como sair daqui sete da noite, chegar lá, tocar até meia noite. Eles ficaram lá os quatro, depois resolveram deixar. De lá para cá temos tocado muito em eventos particulares. Ao menos duas vezes por mês a gente toca. Nossa perspectiva é trabalharmos o segundo cd.

O que significou para você o fato de o Pixinguinha ter sido o primeiro grupo a gravar um disco de choro no Maranhão, registrando músicas tanto de vocês, membros do grupo, quanto de chorões que estavam inéditos? Isso foi uma pesquisa muito interessante que a gente começou a fazer logo que pensamos em gravar. Saímos buscando as pessoas. O choro de Zé Hemetério [Viajando pra Carajás], eu pensei logo, eu morava próximo dele no Monte Castelo, próximo à Estrada de Ferro na época. Toquei com ele no Canta Nordeste [festival de música da Rede Globo], defendemos a música do César Nascimento. Zezé procurou outros e assim a gente saiu caçando, Nuna Gomes [Um Sorriso]. Esse registro, pra mim, foi fantástico, não pelo fato de ser o primeiro grupo, mas por registrar, ver a coisa acontecendo, colher a partitura, copiar, registrar.

Esse disco foi registrado nos estúdios da Escola de Música? Como está esse estúdio hoje? Tudo foi feito lá, masterização, uma parte foi feita com o Henrique Duailibe, que na época era técnico do estúdio. Hoje ele está um pouquinho a desejar, mas muito em breve, já estamos com os recursos alocados para dar uma recauchutada. Vamos trocar toda essa parte de informática e de áudio.

Choros Maranhenses. Capa. Reprodução

O [disco] Choros Maranhenses me parece ter tido um desdobramento com o Caderno de Partituras de Zezé. O que o Pixinguinha está pensando para o segundo disco? Há alguma relação com esse caderno? Com certeza! Esse segundo disco a gente vai tirar uma boa parte do que já pesquisamos por onde andamos, com esse projeto no interior, e buscar outras pesquisas, até pra fazer um segundo caderno, se for o caso, e ampliar esse repertório do choro, o qual já vai fazer parte do nosso acervo bibliográfico. A Escola de Música tem um projeto apoiado pela Fapema [Fundação de Amparo à Pesquisa e Desenvolvimento Científico do Maranhão] de digitalização de todo o acervo. Todos os equipamentos já estão chegando, pra gente digitalizar tudo o que nós temos, fitas k7, VHS, LPs, tudo vai ser digitalizado e vamos criar também um banco de partituras de autores maranhenses. É bom que toda a cidade esteja sabendo, os artistas que não têm suas músicas copiadas, escritas, podem trazer que a Escola vai fazer isso. Já temos profissionais e bolsistas contratados para isso.

Como você está observando a cena brasileira do choro hoje? Cada dia que você põe um programa, assiste um canal, a gente vê coisa nova, impressionante, a gente pira. Novas invenções, novos retratos da música, do choro. Pra mim é extremamente inovador, criativo, interessante. É uma nova roupagem. É igual aquela capa do cd do Pixinguinha: aquele monte de tinta, vem a do meio, a de fora, é tudo se renovando.

Que nomes você destacaria? Pelo Maranhão mesmo eu falaria do Robertinho [Chinês, bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], acho que é um grande nome que temos por aqui, tem uma pegada própria dele, tem uma versatilidade muito boa, acho muito interessante o trabalho.

E dos grandes mestres, de outras gerações? Quem é a sua grande referência? Não vamos falar do Jacob [do Bandolim], por que Jacob é Jacob e é de todos. Eu pessoalmente adoro o Joel [Nascimento, bandolinista], estudei três vezes com ele, em três oficinas. Foi o Joel quem me deu um laboratório de bandolim. Fui o bebezinho do Joel. É um cara que tem um jeito todo especial de lidar com o aprendiz.

Hoje os bandolinistas mais jovens, todo mundo cita, é quase uma unanimidade, o Hamilton de Holanda. Com certeza! O Hamilton é uma referência. Em 90 e alguma coisa eu era aluno do Joel e o Hamilton também era aluno do Joel. Nós éramos da mesma sala, nos encontrávamos. Nessa época o Hamilton já era o Hamilton. As palavras do Joel para o Hamilton eram “você já é músico, já faz o que faz, tem o domínio do instrumento, o que você faz é seu, é isso mesmo”, isso em sala de aula.

Se a gente observa bem o choro feito em São Paulo, Rio, Porto Alegre, Recife, Pará, tem estilos particulares. Você consegue identificar isso? O disco do Pixinguinha meio que deu uma mostra do nosso estilo. Você acha que temos um jeito próprio de fazer choro no Maranhão? Essa mistura, essa identidade do choro do Maranhão está nessa riqueza rítmica que a gente absorve, não tem como se livrar disso. Se você vai no Recife tem algo diferente, o Pará tá bem aqui, a gente tá nesse meião, sem falar nessa polirritmia que a gente tem aqui. O cd do Instrumental veio com essa cara.

Você se considera um chorão? Com lágrimas! [risos]. Eu gosto. Gosto muito de choro, mas eu não sou só choro. Mas eu diria que 90% do meu eu é choro.

Isso te faz um chorão. Isso me faz um chorão [risos].

Carlinhos Patriolino recebe amigos Entre Notas

A primeira vez que ouvi falar no cearense Carlinhos Patriolino foi em 2010, quando ele emprestou seu talento a Pra chorar no Rio, parceria de Ricarte Almeida Santos e Gildomar Marinho, gravada em Pedra de cantaria, segundo disco do segundo.

O bandolim do talentoso músico foi fundamental para o choro da dupla, letra de Ricarte, música de Gildomar.

Ano passado foi minha vez: parceria deste que vos perturba com Lena Machado (estreando como compositora) e Gildomar Marinho, o maranhense gravou, com o bandolim de Patriolino, Perdão de cônjuge, em seu terceiro disco, Tocantes. Acompanhando o processo de produção do disco, eu já havia ouvido versões cruas da parceria. Finalmente, antes de o disco sair, Gildomar me mandou por e-mail o mp3 com a gravação definitiva de nosso sambossa: as oito cordas do cearense eram o que faltava.

A honra de tê-lo em uma singela criação só aumentou minha admiração pelo bandolinista, sem dúvidas um dos maiores do país. E é dele que quero falar. Ou melhor: de seu projeto Entre Notas, inaugurado semana passada. Que bimestralmente irá reuni-lo a um parceiro, algum talentoso instrumentista ou algum talentoso artista da voz.

Os vídeos da série serão disponibilizados no canal do músico no Youtube. Para a estreia, Patriolino convidou ninguém menos que Nonato Luiz, talentoso violonista, seu conterrâneo. Juntos, tocaram Vivências, de autoria do bandolinista, título de seu novo disco, a ser lançado em breve.

“O projeto surgiu da vontade de gravar com pessoas que eu aprecio. Quis chamar grandes músicos que são meus amigos para tocar músicas que a gente gosta”, declarou Patriolino no material de divulgação de Entre Notas. O release não afirma, mas não será má ideia, num futuro breve, os registros tornarem-se disco e/ou dvd, não é?

Confiram Carlinhos Patriolino (bandolim) e Nonato Luiz (violão) em Vivências:

Chorografia do Maranhão: Ronaldo Rodrigues

[O Imparcial, 1º. de setembro de 2013]

O blogue voltará ao assunto em tempo hábil, mas avisa, de já: Ronaldo Rodrigues tocará na próxima terça-feira (28), às 19h, no Teatro da Cidade (antigo Cine Roxy), ocasião em que se apresenta naquele palco o grupo Jorge Amorim e Tribo. Os ingressos custam R$ 20,00.

Do rock e blues ao choro: 14º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão cursa bacharelado em bandolim na UFRJ e planeja para breve uma apresentação de seu grupo, Novos Chorões, em São Luís

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Era um sábado ensolarado e o Regional Tira-Teima passava o som para uma apresentação na Barraca Paradise (Av. Litorânea). Naquela ocasião o músico Ronaldo Rodrigues daria uma canja com eles, antes de receber alguns amigos na casa dos pais, onde se hospedava, para uma deliciosa favada.

Bandolinista e chorão, Ronaldo já foi – ainda é, melhor dizendo – guitarrista e bluesman. Teve passagens por grupos em São Luís – Palavra de Ordem, Bota o Teu Blues Band e Som do Mangue, hoje Nego Ka’apor – além de uma temporada em Londres, onde chegou a tocar no palco paralelo de um festival que tinha ninguém menos que James Brown no palco principal.

Ronaldo Pinheiro Rodrigues Filho nasceu em 28 de março de 1977, filho dos administradores de empresas Raimundo Pinheiro Rodrigues e Maria Ceci de Miranda, que a princípio desencorajaram-no do ofício. Mas Ronaldo teimou. E considera seu tio Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013] – integrante do Regional Tira-Teima, ele acompanhou parte da entrevista – o maior responsável pelo que é hoje.

Cursando o bacharelado em bandolim na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ronaldo tem vindo semestralmente à Ilha, matar as saudades de familiares e amigos. Planeja para entre dezembro e janeiro trazer para cá uma apresentação de seu grupo, Novos Chorões, chancelado pelo homem-dicionário musical Ricardo Cravo Albin. Voltar à Ilha em definitivo não está em seus planos. Ao menos não por enquanto.

Além de músico, você tem outra profissão? Não. Hoje em dia sou só músico. Estou estudando na UFRJ, fazendo o bacharelado em bandolim, com o professor Paulo Sá. É o primeiro curso de bacharel na América Latina, não tem outro. Não tem ninguém ainda que tenha se formado, tem três alunos na minha frente, mais antigos. São duas vagas por ano. A tendência é aumentar. Por ser a única da América, o pessoal de fora, até dos Estados Unidos, está procurando vir para cá.

Eu sabia de cursos de bandolim na Itália. O [bandolinista] Jorge Cardoso foi estudar lá. Então, o Paulo Sá, o doutorado dele é de lá.

Quando você partiu para o Rio? Em 2007. Eu trabalhava com navegação e larguei tudo para ir pra lá, pra arriscar, como tou arriscando até agora.

Você atuou em outras áreas antes de se dedicar integralmente à música. Eu morei quatro anos na Inglaterra, onde aprendi a falar bem o inglês. Devido ao inglês, quando voltei pra cá, eu consegui um emprego com navegação, que exige inglês. Aí fui pegando jeito e passei cinco anos fazendo isso.

Como era o universo familiar na infância? A música era forte? Não. Música lá em casa é bem difícil. Meus pais não têm esse costume de escutar música, não é uma prática deles.

Como é que começou teu interesse por música? Através dos amigos, que gostavam de música, pelas amizades da adolescência. Eu tenho um amigo chamado Cassiano Viana, jornalista, está lá no Rio, a gente se fala com frequência.

Quais foram as primeiras descobertas musicais? Parece que antes de cair no choro você passou pelo rock. Pelo blues. Então, esse Cassiano Viana tinha uma banda chamada Palavra de Ordem aqui, bem antiga, era pop rock. Eu comecei tinha 11, 12 anos, ele me ensinou a tocar baixo. Aliás, eu tava pegando baixo, e pedi à minha mãe um contrabaixo e ela veio com uma guitarra, que ela não sabia a diferença de baixo e guitarra [risos]. Como eu não sabia tocar nada também, peguei a guitarra. Aí começou o rock assim, fiz parte de uns grupos de blues.

Você lembra o nome desses grupos? Tem a Bota o Teu Blues Band, foi uma delas, e a Palavra de Ordem, antes de ir pra Londres. Na família, além de Solano, tem Jean Carlos, que escuta muito rock progressivo. Ele ia muito no [programa de rádio] Vertentes, que era na Mirante, com [o radialista] Gilberto Mineiro. Com ele eu escutei muito progressivo, ele sempre me apoiava pra tocar, o filho dele tava morando uma época na Inglaterra e ele ofereceu, se eu quisesse ir pra lá passar um tempo. Eu não tava conseguindo passar em vestibular nenhum aqui. Aí eu fui pra lá, com a guitarra debaixo do braço.

Lá você também estudou? Lá eu toquei em várias jams de blues, jam sessions, aí teve um grupo de rock chamado Plastic Grapes, Uvas de Plástico. Com eles eu até toquei num festival, que é comparado com o Woodstock, o Woodstock que rendeu. Quando a gente tava num palco paralelo que dava uma parada a gente escutava James Brown, que ainda era vivo, no palco principal. Acho que em 1999 ou 2000.

Você aprendeu a tocar com mais ou menos que idade? Que já sentia certa segurança… Acho que com 15, 16 anos.

Lá em Londres você passou quatro anos só tocando? Não. Lavei e limpei muito prato [risos]. Mas tentando sempre na música. Aí com quatro anos resolvi voltar. Até então eu escutava muito rock e muito blues. Fui me interessar por música brasileira lá. A concorrência, é que nem um gringo chegar aqui e querer tocar choro e samba. Um dia eu toquei Garota de Ipanema [Vinicius de Moraes e Tom Jobim] sem querer, brincando, e todo mundo ficou assim, ahn?

E como é que começou essa história do choro? Quando eu voltei de Londres eu falei “vou tocar choro, quero tocar choro”. Liguei até pra Solano pra pedir umas aulas de violão. Eu não fazia noção do que era. Ele disse: “traz teu instrumento aqui, vamos fazer uma roda”, e eu cheguei com um violão de aço. Aí ele disse: “não, encosta teu instrumento aí”, e eles ficaram tocando, eu fiquei vendo, acho que tava o Tira-Teima todo. No final, eu falei que tocava guitarra, e Celson [Mendes, violonista] tirou uma guitarra do carro dele e um amplificadorzinho. Aí eu falei “eu não toco choro. Eu toco blues, jazz”, ele tirou um tema de jazz, e aí eu fiquei à vontade.

Voltando pra Londres: tua descoberta da música brasileira, digamos assim, ela começou com aquele brincar com Garota de Ipanema ou houve algum disco? Como foi? Eu paguei uma aula para um professor do Rio Grande do Sul, não recordo o nome dele agora, eu o vi tocando uma vez num barzinho, música brasileira, peguei um cartão e ele dava aula e eu comecei a ter aulas com ele, aulas muito boas. Ele perguntou: “você quer fazer o quê?” “Eu quero tocar música brasileira”. Tinha muita MPB, bossa, Vinicius de Moraes, Chega de Saudade [Tom Jobim e Vinicius de Moraes], Tom Jobim.

No teu universo familiar não teve muita vivência musical. Teus pais nunca te atrapalharam? Nunca pediram que você se desinteressasse pela música? Um pouquinho. Aqui em São Luís tem pouco acesso à cultura, à arte, é uma coisa meio assim, underground, eu acho até normal eles se preocuparem em ter um filho que vai se especializar em uma coisa que vai dar o quê, né? Demorou um pouquinho para eles apoiarem. Hoje em dia eles apoiam muito. Tanto é que eu estou lá, graças ao apoio deles.

E o bandolim? A partir de quê a escolha por este instrumento? Solano viu que eu tinha facilidade com melodia e o bandolim é um instrumento melódico e ele sugeriu que eu comprasse um. Solano é da família, eu chamo de tio, primo do meu pai. Eu lembro muito bem de um barzinho que tinha lá perto do Barramar e Solano falou pra papai: “Ronaldo tá nesse negócio de música, então vai pra Escola de Música [do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo], bota na Escola”. Mas conselho que é bom… Se fosse desde aquela época…

Então Solano tem uma grande responsabilidade pelo que és hoje. Se perguntarmos então quem foi a pessoa que mais te influenciou? Claro! Foi Solano, sem dúvida. E o Tira-Teima [Solano diz que o levou para o regional].

Ele foi estagiário do Tira-Teima? [risos] Foi. Inclusive fui eu quem apresentou o [flautista] João Neto pra vocês [fala diretamente para Solano, que concorda]. Eu já conhecia João Neto de outros carnavais. Ele tava no Rio, na Escola Portátil, ele apareceu aqui, a gente se encontrou, e eu disse: “rapaz, tem um pessoal aqui que é bom pra porra!”.

João Neto também é um cara que vem do blues e do rock para o choro. Vocês já tinham tocado juntos antes? Juntos não. Eu tocava no Som do Mangue [banda liderada por Beto Ehongue, hoje Nego Ka’apor], ele na [banda] Mandorová, a gente dividiu uma noite uma vez. Era a mesma turma.

Como foi a tua inserção no choro no Rio de Janeiro? Você hoje ocupa um espaço, é reconhecido por nomes como Ricardo Cravo Albin. Como é que foi esse processo? Foi aquilo, assim, eu cheguei com meu instrumento debaixo do braço.

Quem te deu aula aqui de bandolim? Ninguém. Foi sozinho. Tem uma figura muito importante, que foi o Moraes, toca violão, é um bom compositor, foi até certo estágio na Escola de Música. Com ele eu estudei teoria musical. Eu pensei que quando acabasse o livro de teoria musical todas as perguntas estariam respondidas, mas só fez aparecer mais perguntas. Música instrumental, não só o choro, mas o jazz, o Moraes me ajudou muito. Eu cheguei no Rio com uma bagagenzinha, tanto teórica quanto prática. Fui à Escola Villa-Lobos, um curso técnico, onde encontrei o Paulo Sá, ele estava montando ainda o curso da UFRJ, e ele deu esse toque logo no começo e propôs que eu fizesse o vestibular quando acontecesse. Na Escola Villa-Lobos foi que eu conheci os meninos, que a gente formou o grupo lá. No dia da prova [de seleção].

O que tem nesse disco? [um demo com que Ronaldo presenteou a chororreportagemEsse disco é um cartão de visitas. Tem músicas, tem nossos contatos, ele só roda no PC, tem um releasezinho. Tem três composições. Choros, que a gente sentou pra conversar, criar um conceito. Dois nomes surgiram: [os grupos] Água de Moringa e Tira Poeira. Era mais ou menos alguma coisa entre as duas coisas o que a gente estava querendo criar. Era mais esse conceito de fazer uma música instrumental, além de choro, bem elaborada, com um toque mais moderno, sofisticado. A gente está tentando pegar essa cara.

Qual a idade dos Novos Chorões? Vai fazer seis anos. Eu falo seis anos, mas os dois primeiros anos foi mais a gente aprendendo mesmo, todo mundo se juntando com o objetivo de tocar bem e sabendo a deficiência de cada um, mas cada um batalhando, evoluindo, estudando.

Vocês saíram já chancelados pelo Ricardo Cravo Albin. O que isso significa? A gente fazia um choro na feira de antiguidades da Praça XV, a gente arriscou fazer passando o chapéu, sem nenhum patrocínio. Em um desses o Ricardo estava lá presente e convidou a gente a abrir os saraus que ele fazia no Instituto Cravo Albin, na Urca, lá onde ele administra, toma conta. Aí tivemos a chance de tocar com [o bandolinista] Joel Nascimento, o Sarau com Joel, a gente fez umas quatro, cinco vezes com ele.

Quando você faz a transição do blues para o choro, houve um abandono do blues ou hoje você usa elementos do blues para tocar choro? Eu carrego muitos elementos da guitarra para o bandolim, mas eu parei de fazer isso por que estava atrapalhando. São duas linguagens diferentes. Eu vejo mais hoje em dia na faculdade as técnicas do instrumento. Eu pensei que o bandolim fosse me ajudar na guitarra, mas não ajuda muito não. São técnicas realmente diferentes.

Você continua tocando guitarra? Continuo.

Em grupos de rock? Não. Lá no Rio eu estou acompanhando um baterista chamado Jorge Amorim, que é um baterista de música autoral, tem muito da world music, morou mais de 19 anos fora, nos Estados Unidos, na Europa, e nos encontramos lá no Rio e propôs a gente levantar o trabalho dele aqui. Eu tinha outros músicos com quem estava tocando guitarra, jazz. A gente levantou esse repertório e tem tocado por aí.

Você foi para o Rio, se inseriu na movimentação chorística carioca, conquistou um espaço considerável para o grupo. Dá pra viver de música lá? Dá pra sobreviver. Falta muito. Acho que a gente dá um passo de cada vez, priorizando a qualidade do trabalho, pra gerar trabalho, bons trabalhos. Trabalhando em projetos também. A gente tem projetos separados, a maneira como vamos preparando, a gente vai estudando, já conseguimos algumas coisas com Sesc, Prefeitura, faz muito barzinho. Ainda é meio apertado, mas é questão de tempo. Todos do grupo vivem de música. Eu vim aprender a ser músico há pouco tempo: tem que se dedicar muito.

As coisas têm mudado de uns tempos pra cá, mas no Maranhão o artista ainda é o faz tudo: pensa projeto, carrega caixa, ensaia, toca, canta. Existe alguma diferença do Rio? Como é a realidade de vocês, hoje? Tem isso no Rio também. O produtor só vai se interessar em produzir algo, quando aquele algo tá pronto ou meio pronto. A gente continua se produzindo ainda, mas vai chegar um ponto que vai despertar interesse do produtor que faça isso pra gente. Antes da internet o mercado era outro, o artista não estava tão na pista como está hoje. Mas ainda é isso, a gente fazendo projeto, ensaiando, carregando as coisas.

Você toca em outros grupos? Acontece de fazer substituições, principalmente entre alunos da escola, quando alguém não pode, me indica e vice versa. Mas basicamente eu tenho tocado só com os Novos Chorões e com o Jorge Amorim.

Você se considera um chorão? O que significa ser chorão, para você? Eu me considero um chorão. Ser chorão é você saber aplicar a linguagem que o choro oferece. Cada estilo de música tem sua linguagem, os seus detalhes específicos. Ser chorão, acho que é isso, é saber que gênero é aquele, de que maneira aquilo é tocado, é composto. Ser chorão é mais aquele músico que se especializou naquele gênero, no caso o choro, e que muitos [músicos] não são abertos a outros [gêneros]. O choro está na música instrumental e a música instrumental é bem abrangente, tanto é que o choro abrange outros ritmos, não só o choro: você tem a polca, tem o maxixe, o frevo, a valsa, a ciranda lá em Pernambuco, o bumba meu boi aqui.

Tem o Beatles in choro [caixa de discos em que diversos instrumentistas tocam músicas dos Beatles em ritmo de choro, sob a batuta do cavaquinhista Henrique CazesPor que os Beatles, as composições deles são bem tonais como é o choro. O blues, por exemplo, já não é. Eu tive muita dificuldade para partir para a música popular brasileira por que meu ouvido sempre foi modal, por que o blues é modal. Os Beatles é isso, as composições dão certinho com o choro por que tem todo esse tipo de composição, tônica. O choro vai mais ainda, tem as modulações, são três partes. Os Beatles normalmente são duas partes, tem choro de duas partes, mas encaixa legal. Antigamente eu tentava fazer uma comparação do choro com o jazz, mas tem mais diferenças do que semelhanças. A semelhança é justamente na mistura da música erudita com a música negra.

O improviso. O improviso nem tanto, por que o choro ele é mais preso pra improviso do que o jazz, o jazz é muito mais aberto. É uma característica do jazz. Até harmonicamente ele te dá liberdade para o improviso.

A semelhança talvez seja mais cultural. O jazz ainda é uma manifestação de confirmação das raízes negras. Aqui não tem isso. O choro foi elitizado.

Mas você não acha que dá pra dizer que o jazz é o choro dos Estados Unidos e o choro é o jazz do Brasil? Acho isso muito perigoso. Outra semelhança que tem é justamente a acessibilidade do negro, através das bandas militares. Lá também, quando surgiram, muitas bandas marciais deram chances a pessoas sem condições de uma educação musical e onde foram expostas ideias.

Qual a importância do choro para a música brasileira? O choro representa o que a música brasileira tem de melhor pra mostrar. É o que o Brasil tem de melhor para mostrar com relação à música. É o mais elaborado, é o bem feito, mostra o poderio de composição dos brasileiros, sua identidade.

Você parece muito à vontade na seara do blues e do choro. Você se sente mais à vontade na tristeza do blues ou na alegria do choro? Boa pergunta! Não sei. Acho que as duas coisas. É o yin e o yang. Eu nunca tinha pensado nisso.

Como você observa o movimento do choro, a cena, hoje no Brasil? Durante muito tempo o choro foi associado à “música de velho”. De uns tempos para cá parece ter havido uma mexida nessa ordem. Com certeza! A gente vê no Rio a Escola Portátil. É de super importância o que o pessoal está fazendo: pegar uma garotada, muita gente nova se interessando, vendo a importância que o choro tem e eu acho muito legal a oportunidade de ter o pessoal tarimbado dando os toques específicos daquele gênero de música. Quem quiser tira bom proveito daquilo e tem muitos jovens que estão fazendo isso. O cenário da música lá no Rio, tem muita gente nova, muita gente boa.

Como é a relação dos mais novos com os mais velhos? É generosa, de competição, de desconfiança? Acho muito bem vinda. Eu costumo fazer parte de uma roda de choro todos os sábados na [loja de instrumentos musicais] Bandolim de Ouro. Tem muita gente com idade, que eu considero chorões. Sempre que a gente chega eles gostam. Falam “ah, vocês que vão continuar” e tal. Voltando a falar da cena, acho que o Rio caiu um pouquinho. Teve um boom, mas acho que está aparecendo mais coisas em São Paulo. Recife sempre foi um polo diferente e independente, tem a sua escola. Até [o bandolinista] Luperce Miranda, falando de bandolim, lógico, Jacob [do Bandolim] foi a escola que mais foi passada, mas Luperce é uma escola completamente diferente, é outra técnica. Depois de formar estou querendo fazer um doutorado sobre isso, a influência italiana no Brasil. A maneira que ele toca é um bandolim napolitano, a maneira que Luperce toca tem mais trinado, estou estudando ele.

Qual o significado de Jacob para o bandolinista moderno? Jacob além de fazer muitas composições clássicas de choro, fez muitas composições moderníssimas, apesar do discurso conservador que ele tinha. Tem que passar por Jacob, não tem jeito!

Quais as tuas maiores referências para blues e para choro. Olha, blues, eu escutei muito Clapton. Sou fascinado por Eric Clapton [guitarrista e cantor]. Tive tudo dele. Estou passeando mais pela praia do jazz hoje em dia. O blues eu larguei um pouquinho. O blues te limita um pouco, esse ouvido tonal, eu fiquei muito preso ao blues. Tenho escutado muito jazz, escutado as guitarras de Charlie Christian, o primeiro jazzista que tirou a guitarra do acompanhamento e botou no solo, [os guitarristas] West Montgomery, aí vem Joe Pass, George Benson, eu tenho ouvido mais isso. Mas o blues é essencial pra tocar jazz. No choro tem Pixinguinha. Acho que é o grande mestre, até mesmo em relação a essa mudança do choro bem tradicional, que veio de Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazaré. Aí Pixinguinha vem e dá uma quebrada, depois daquela viagem à Europa com Os Oito Batutas. É a referência mais completa.

Que chorões, hoje, te chamam mais a atenção? Eu tenho admirado muito o maestro Laércio de Freitas [pianista]. Ele seria um. No bandolim tem o Ronaldo do Bandolim [do Trio Madeira Brasil], que é muito bom, pra mim é o melhor, com relação ao instrumento, hoje em dia. Tem o Danilo Brito, que tem uma técnica, uma mão direita impressionante, com muita naturalidade. Vi um show dele no Rio, fiquei impressionado. Admiro muito os professores também. O Paulo Sá toca choro, mas o disco dele é bem eclético. [O cavaquinhista] Henrique Cazes, peguei aula de prática de conjunto, [o violonista] Marco Pereira, harmonia profissional, tem uma cabeça muito moderna, excelente improvisador.

A renovação de que você fala que acontece no Brasil, você também tem percebido no Maranhão? Sim, sim. Quando eu saí daqui, tinha o Tira-Teima fazendo, era só o Tira-Teima. Apresentei João Neto pra Solano, ele passou a ir com frequência e era só isso. Agora, depois de uns anos, quando eu voltei, já tinha uns três bandolins. Eu fiquei impressionado a última vez que eu estive aqui, toquei com o Tira-Teima no Barulhinho Bom e o João Neto trouxe o Robertinho [Chinês, cavaquinhista e bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], impressionante. Ele tem uma facilidade, uma técnica apuradíssima. Fiquei feliz de ver.

Encontro de chorões sábado na AABB

Menos chorados e mais frevados, os dois vídeos acima dão pequena amostra do talento do bandolinista pernambucano Marco César, que, além de executar magistralmente seu instrumento, assina a direção musical da Orquestra Retratos do Nordeste, a que assistimos antes de começar esta falação acá.

Tudo isso para deixar-lhes com água na boca: o mestre estará em São Luís neste sábado (27), ocasião em que tocará acompanhado do Regional Tira-Teima, às 21h, na Associação Atlética Banco do Brasil (AABB). A produção não informou o valor do ingresso.

Descendente direto da nobre linhagem do também pernambucano Luperce Miranda e de Jacob do Bandolim, Marco César é tão importante que sua vinda tirou a poeira do blogue do radialista Ricarte Almeida Santos, que em primeira mão nos deu esta ótima notícia.

Provocação: foi num deste encontros de feras, como o próprio radialistamigo classifica, em agosto de 2007, que surgiu a ideia do saudoso Clube do Choro Recebe. Na ocasião, Paulinho Pedra Azul, após um show na ilha, encontrou-se informalmente com os chorões daqui, no Bar do Chico Canhoto. No sábado seguinte, 1º. de setembro, o Tira-Teima recebeu Léo Spirro e o resto é a deliciosa história que durou cerca de três anos e os poucos mas fieis leitores deste blogue bem conhecem. Sábado agora  eu mesmo já imagino a grande roda de choro que se formará em torno do ilustre Marco César, com canjas as mais diversas, instrumentais e cantadas.

Chorografia do Maranhão: Robertinho Chinês

[Mais uma entrevista com “bonus track”; essa saiu um pouquinho menor nO Imparcial de 28 de abril de 2013]

Robertinho Chinês foi saudado como garoto prodígio do cavaquinho e bandolim ao tocar, de igual pra igual, com grandes mestres do choro no Maranhão. Detalhe: o quinto entrevistado da Chorografia do Maranhão acabara de deixar a infância 

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Robertinho ou Robertão? Eis uma pergunta que Chorografia do Maranhão não fez a Jorge Roberto da Silva dos Reis, revelado há alguns anos como garoto prodígio do instrumento que deu sobrenome a mestres como Carrapa, Índio, Jair, Juca e Zeca. Tinha de 13 para 14 anos quando começou a frequentar as rodas do Clube do Choro Recebe. Não demorou muito a enveredar pelo bandolim de mestres como Evandro, Jacob, Reco e Ronaldo, para ficarmos também naqueles a quem o instrumento deu sobrenome artístico.

Robertão ou Robertinho?, vice-versa, a pergunta não feita se justificaria: Robertinho, o diminutivo de seu nome de batismo, o nome artístico herdado do sobrenome artístico do pai; Robertão por sua estatura: 1,92 de altura. O talento e o discernimento e a modéstia, faltam fita ou régua pra medir – Robertinho conversa feito gente grande (e aqui não estamos falando da altura física).

Nascido em São Luís em 16 de setembro de 1993, Robertinho Chinês é filho da assistente social Nivalna Justo da Silva e do contabilista Rosanil Carlos dos Reis, percussionista do grupo Espinha de Bacalhau, mais conhecido no universamba da Ilha por Chico Chinês, uma das grandes influências e incentivadores do filho.

Robertinho Chinês não bebe nada alcoólico – ao fim da conversa secou uma garrafa de água. Conversou com os chororrepórteres no Bar do Léo, que tem seu disco no vastíssimo acervo. Feitiço da vila, de Noel Rosa e Vadico, foi a música que o garoto escolheu para encerrar a conversa em uma tarde de sábado chuviscosa.

Qual o teu universo musical familiar? Sempre teve música na tua casa, na tua família? Além de teu pai, tua família tem outros músicos? Meu pai foi o grande influenciador, por sempre gostar muito de samba. O samba sempre esteve muito presente na minha vida. Minha família, de modo geral, é muito ligada à música, apesar de não ter tantos músicos assim. Mas a música sempre foi muito presente na minha casa.

Quando tu foste descoberto como garoto prodígio da música no Maranhão, por ter começado a tocar cavaquinho muito novo, numa entrevista ao jornalista baiano Iuri Rubim, tu disseste que, depois de tocar, o que tu mais gostavas era de estudar. Isso continua? Continua. Não como eu gostaria que fosse, pela escassez de tempo, da correria do dia a dia, mas o estudo dos instrumentos, da música, e das outras coisas ainda está muito presente.

Tu começaste pelo cavaquinho. Por que a escolha pelo bandolim? Eu comecei a tocar bandolim por insistência do [violonista] Luiz Jr. Ele falava, “ah, bicho, cavaquinho tu já tá tocando o que tem pra tocar. Tu precisa ter um instrumento que te dê uma amplitude maior, te dê um novo horizonte”. Daí ele insistiu tanto, passaram uns dois, três anos, eu fiquei mais próximo dele, e consegui um bandolim. O primeiro bandolim que eu tive foi graças a ele, ao [pianista] Carlinhos Carvalho [irmão de Luiz Jr.], que se juntaram com mais alguns amigos e me deram um bandolim de presente. Ele foi o grande incentivador para que isso acontecesse, pra eu tocar bandolim hoje.

Foi a escolha correta? Meu instrumento mesmo é o cavaquinho. Bandolim até hoje eu ainda estou aprendendo. Eu não posso dizer que eu toco, é um instrumento bastante difícil de tocar. A maior dificuldade que eu tenho até hoje é querer tocar bandolim bem, que eu ainda não consegui.

Cavaquinho tu toca com maior tranquilidade. Não é bem tranquilidade, mas eu tenho uma segurança maior tocando cavaquinho que bandolim. Não que eu domine nenhum dos dois, mas o cavaquinho eu acho que eu consigo desenvolver um pouco melhor.

Qual a diferença básica entre o cavaquinho e o bandolim, para os leigos? A diferença, de cara, é a afinação. O bandolim tem a afinação tenor, mi, lá, ré, sol. No caso do [bandolim de] 10 cordas, tem um par a mais, que é o dó. No cavaquinho é ré, sol, si, ré. E o número de cordas, obviamente.

As possibilidades no cavaquinho são mais limitadas? Muitos falam que sim, mas depende do que a pessoa entenda como limitado, por que hoje a gente vê cavaquinho de cinco cordas, o [cavaquinhista] Márcio Marinho, o [cavaquinhista] Arley Henrique, lá de Minas, os caras tão fazendo no cavaquinho o que ninguém imaginou, tocando coisas bastante difíceis, tocando lances de melodia e harmonia que nunca tinham existido na história do instrumento. Eu acho que não é tão limitado quanto o pessoal diz.

Tu tens preferência por um instrumento ou outro? Tu vieste para a entrevista e trouxe o bandolim, não o cavaquinho. Na capa do disco apareces empunhando o bandolim, e não o cavaquinho. Preferência não existe, mas hoje, pela necessidade, eu tenho que estudar mais o bandolim. Mas os dois instrumentos são grandes paixões na minha vida.

Você é muito instigado pelo bandolim, parece que ele te move, que ele te desafia, não é? É a necessidade de estar buscando sempre algo novo, ter que estar desenvolvendo algo no instrumento. É muito complexo. Se eu passar um dia sem pegar, no outro dia parece que é a primeira vez que eu tou triscando no instrumento, pelo grau de dificuldade que ele tem.

Tu começaste a tocar com quantos anos? Comecei a estudar música, se eu não me engano, foi com oito, nove anos, lá no Monte Castelo, com Joãozinho [posteriormente indagado sobre o sobrenome do professor, Robertinho disse que não sabia. “Bota Joãozinho do Monte Castelo que todo mundo sabe quem é”]. Fiz aula com ele um bom tempo, depois fui pra Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo], aprendendo nas rodas de choro, de samba.

Além de Joãozinho, quem mais foram teus mestres? De instrumento mesmo foi o Joãozinho. Mas o [o professor] Juca [do Cavaco] teve uma influência boa na minha formação como solista de cavaquinho, o [cavaquinhista] Paulo Trabulsi também contribuiu bastante. Eles eram minhas referências de cavaquinho aqui. Tem o Waldir [Azevedo] também, que não precisa nem falar, mas aqui eram eles, e hoje ainda são. Os caras têm uma contribuição muito importante pra música daqui, pro choro.

Tu citas o Waldir como grande instrumentista. Quem são os teus instrumentistas preferidos, restringindo ao cavaquinho e ao bandolim? Cavaquinho posso dizer que é o Waldir Azevedo. Atualmente é o [cavaquinhista] Pedro Vasconcelos, sem dúvidas, foi importantíssimo pra mim. É meu amigo particular, professor lá em Brasília, tem o Márcio Marinho, que eu sou bastante fã. De bandolim minha maior escola é o Jacob [do Bandolim], mas aí tem também o Ronaldo [do Bandolim, do Trio Madeira Brasil], Joel Nascimento, Pedro Amorim. Atualmente é o Hamilton [de Holanda], que eu acho que foi de grande influência na minha música e é influência até hoje, pra muita gente, nesse instrumento.

Por que ele tem uma levada mais jovem e você acaba se identificando muito com isso, não é? Costuma se dizer que a história do bandolim tem o antes do Hamilton e o depois do Hamilton. Por que o que ele vem fazendo por esse instrumento, acho que vai demorar muito tempo pra aparecer outra pessoa com a mesma importância. Ele conseguiu mudar aquela visão do bandolim como apenas um instrumento específico do choro e do samba, como era antigamente. Ele mostra que não é só isso, que a gente pode ir muito além, com os lances de bandolim solo, das formações que ele vem fazendo, tocar com banda, trio, duo, enfim.

Teus pais sempre te apoiaram na tua vocação musical? Meu pai sempre apoiou bastante. Minha mãe no começo tinha certo receio de eu ser músico. Ela gostava que eu estudasse música, mas tinha aquela preocupação, por que músico é sempre mal visto, o lance da boemia, ela tinha preocupação com esse lance de bebedeira, da farra. Mas eles sempre deram todo apoio e suporte que eu precisei, na medida em que eles podiam fazer pra mim. Tudo o que eles puderam fazer, eles fizeram.

Tu estás fazendo faculdade de música? Ou outra faculdade? Estou fazendo o curso superior, licenciatura em música, na UFMA.

Tem uma pressão de alguém da tua família, ou de fora, para tu teres uma carreira paralela? Tipo, se a música não der certo, vai ser advogado, vai ser médico, por que é isso que dá dinheiro. Pode até existir, mas nunca ninguém chegou e falou isso pra mim. O pessoal da minha família, em geral, não só meu pai, minha mãe, meus irmãos, o povo lá de casa, todo mundo sempre apoiou bastante. Lutaram junto comigo pra que isso acontecesse. Se eu sou músico hoje eu devo muito a eles.

Você começou a estudar música com oito anos. Quando foi que se considerou ou que começou a atuar como músico, profissionalmente? Até hoje eu não me considero músico profissional, por conta das minhas limitações. A gente vive em constante aprendizado. É difícil a gente falar que é músico profissional com essa gama de músicos que tem hoje espalhado em todo canto. Pra gente falar que toca um instrumento é bem complicado. Prefiro dizer que eu tou aprendendo todo dia esses dois instrumentos que eu tento tocar.

Quando foi que tu ganhaste teu primeiro cachê com música? Lembra o que fez com o dinheiro? Eu acho que foi numa roda de samba. Foi engraçado. Meu pai ia tocar num samba lá na Fonte do Ribeirão, eu tava aprendendo a tocar cavaquinho. Levei o cavaquinho numa sacolinha [risos], aí chegou lá, parece que o pessoal da harmonia faltou, só tinha o Cacá [do Banjo] tocando banjo. Eu sempre levava, pra ir pegando, praticar o que eu estudava. Nesse dia eu fiquei sentado, quando me espantei já tava tocando na roda com o pessoal. No final já rolou um cachê, mas eu não lembro exatamente quando foi. O que eu fiz com o dinheiro não recordo agora, não.

O primeiro cachê deve ter sido motivo de muita alegria pra ti. É, por que estar estudando e já estar ali tocando, com os caras que eram referência pra mim, aí pegar ali cinquentinha, sei lá quantos contos, era um mundaréu de dinheiro [risos].

De lá pra cá já se vão anos, veio o Choro Pungado, veio muita coisa na tua vida, tu participando de vários grupos de samba, tocando com grandes nomes do samba nacional. Tu moras com teus pais, depende deles. Mas dá para viver de música hoje? Tuas necessidades hoje poderiam ser supridas por tua atividade musical? Hoje o mercado da música em São Luís permite a um músico da tua qualidade viver de música? Dá sim. Eu moro com meus pais, mas se eu quisesse morar só, dava para viver tranquilo. Tem muita gente que vive exclusivamente da música, eu digo que é operário da música. Dá pra viver. Mas acontece uma coisa bem chata. A gente vê muitos músicos bons aqui na cidade que acabam não tendo pra onde correr e tendo que viver da música comercial. Não tão fazendo aquilo que eles realmente gostam de fazer, que é tocar música instrumental, samba de qualidade, não desmerecendo o samba midiático, mas muita gente hoje se reclama disso, bastante músico, até da minha geração.

Tu tens que fazer isso de vez em quando? Tenho. Pela necessidade, pela falta de opção. Aqui a gente sofre de um problema cultural muito sério, vocês sabem disso, como é a realidade. Infelizmente não temos para onde correr. Espero bastante que mude um pouco esse cenário um dia.

Tu participaste de um acontecimento muito importante na história do choro recente do Maranhão: o grupo Choro Pungado. O que significou estar tocando com aquela turma? Foi importantíssimo. Eu bem novinho, com 13, 14 anos. Na verdade era o Quartetaço, a primeira formação deles. Aí o Ricarte disse “vai lá, vai ter uma formação legal, eu te boto pra dar canja com os meninos, lá no [projeto] Clube do Choro [Recebe]”. Aí Ricarte e Luiz Jr. botaram o pé na parede pra eu participar do grupo. Foi uma escola muito grande, não só de choro, mas de música instrumental, os caras são referência pra muita gente. Luiz Cláudio, Luiz Jr., Rui Mário, João Neto, todos eles são importantíssimos pra música daqui da nossa cidade, do estado, e também pra música brasileira, pela história deles e pela musicalidade particular de cada um.

O Choro Pungado tinha uma proposta muito interessante que era mesclar o choro aos ritmos da cultura popular do Maranhão. Ele foi formado dentro da ideia do Clube do Choro Recebe, de estabelecer o diálogo dos chorões com artistas da música popular, da música cantada. O que tu acha que foi responsável pela vida curta do grupo? Houve alguma briga nesse processo de separação? É complicado trabalhar em grupo por que cada um pensa de um jeito, cada um acredita numa coisa diferente. Foi bom o tempo que durou, foi um aprendizado pra todos nós. Acho que foi importante o que a gente fez, por que eu acredito que nunca ninguém tenha feito o que o Choro Pungado fez na época, juntar os ritmos de nossa cultura popular com clássicos do choro, clássicos da música brasileira. Não houve briga, não. Foi pela falta de tempo de alguns, outros já não acreditavam mais no trabalho.

De que outros grupos musicais você já participou como integrante? Participei do Espinha de Bacalhau, dOs Madrilenus, uma temporada de seis meses, Farinha d’Água, que eu fiz um tempo com João Neto e João Eudes; do Argumento.

Antes de falarmos nele, além de teu disco solo, de que outros discos já participaste? O disco da Lena Machado [Samba da Minha Aldeia, 2010], o da Célia Maria que vai sair agora, produzido e dirigido por Luiz Jr. Teve o do Gildomar Marinho [Olho de Boi, 2009], com participação da Ceumar [na faixa Alegoria de Saudade, samba-choro de Gildomar Marinho], discos de carnaval, festival, gravação de São João, eu sempre tou muito envolvido nessas épocas.

Além de instrumentista, que outras habilidades tu desenvolves na música? Eu tento forçar um pouco esse lance da composição. Tou tentando partir agora pra esse lado do arranjo, tentar desenvolver um pouco mais da musicalidade, que é importante também. Não só tocar um instrumento, mas ver a música um pouco mais na frente.

O que te inspira pra compor? Vai muito do momento, das coisas que eu tou passando. Engraçado é que eu sempre componho quando estou muito triste, ou sozinho em casa ou aconteceu algo muito sério. Sempre foi assim, a maioria [das composições] sai assim.

Quantas músicas tu tens? Não tenho muita coisa não. Acho que tem umas cinco no disco, minhas ou em parceria, com Jr., com Pipiu. Tem umas agora que eu tou compondo, teve umas duas que eu fiz de bandolim solo, cavaquinho solo, mas acho que não deve passar de umas 15 músicas, por que muita coisa do que eu faço eu gosto no momento, mas depois eu deixo de mão, por que eu não acho mais legal.

Qual a tua experiência com outros ritmos que não choro e samba? Já toquei algumas coisas diferentes em shows, não é uma coisa que eu busquei. Admiro muito, mas não tenho esse conhecimento. É de grande importância para o instrumento, para a técnica, mas ainda não tenho. Pretendo chegar um dia a estudar, conhecer um pouco mais, a ter domínio dessa área.

Pra você, o que é o choro? E qual a importância do choro para a música brasileira? Tem toda importância. As principais referências da nossa música são da escola do choro. O choro eu costumo dizer que é a festa do brasileiro: em todo canto que a gente vai vê ali um grupo de choro tocando, num barzinho ali, ou num show grande acolá, vê grandes instrumentistas hoje tocando choro, ou que saíram daquela escola de choro, e vê muita gente nova se interessando por esse gênero.

Tu te consideras um chorão? É complicado a gente se intitular alguma coisa. Mas eu tento buscar conhecer bastante do que é produzido no choro, não só de hoje, mas do pessoal mais antigo, dos primórdios.

Como é que tu ouves música? Pelo seguinte: temos entrevistado pessoas mais velhas, que se lembram do rádio, de como era difícil conseguir vinis. E tu estás na era do download. Baixar música, comprar cd, como é que tu faz? Pela carência da gente em encontrar disco aqui fica quase inevitável a gente não ter que baixar música, discos. Sempre que posso e encontro, compro. Agora mesmo eu estive lá no Rio [de Janeiro], passei uma semana lá, entrava nas lojas feito doido. Gastei mais dinheiro comprando disco do que passeando na cidade. Sempre que eu posso eu compro bastante cds, dvds.

Quando tu vais ao Rio, tu manténs contato com os músicos de lá? Em Brasília sabemos que sim. O Rio foi a primeira vez que eu fui, agora no começo de março. Eu conhecia algumas pessoas de lá, cantores com que eu tinha trabalhado aqui, acompanhado, também alguns músicos, que vieram de lá pra cá fazer shows, criou-se uma amizade. Eu ‘tive lá agora, fiz contato com alguns, liguei pra Julieta [Brandão], primeira cantora de lá que eu acompanhei. Ela disse “ah, legal que tu tá vindo. Vou te botar pra fazer uns shows aqui comigo”. Chegando lá ela arrumou uns trabalhos, apareceram uns negócios pra dar canja, lá pela Lapa. Foi importante ver que a coisa é mais séria do que a gente imagina.

Como é que tu tens observado o desenvolvimento do choro em todo o Brasil? Há um grande desenvolvimento, sempre. Até os caras que são de outras áreas a gente vê buscando o choro, gente que não tocava choro e tá tocando choro hoje.

E o movimento choro em São Luís do Maranhão? Sinceramente tá uma coisa bem triste. Teve época que a gente tinha música instrumental aqui de segunda a segunda. Chegava no [bar e restaurante] Antigamente [então na Praia Grande], segunda-feira tinha lá o [cavaquinhista] Roquinho tocando com o [grupo] Um a Zero, terça tinha o Juca tocando com o [Instrumental] Pixinguinha no lá no [bar] Por Acaso [Lagoa da Jansen], quarta-feira tinha o [Regional] Tira-Teima não sei aonde, sábado o Clube do Choro Recebe, que era famosíssimo. Hoje a gente quase não vê choro acontecendo. Uma coisa bem triste é chegar no [bar] Barulhinho Bom [Lagoa], quinta-feira, o Tira-Teima, os caras que são referência do choro, tocando pra duas mesas. A cena está bem complicada, embora pudesse estar bem melhor diante do que já foi.

A que tu credita essa desarticulação? Nós, músicos, temos uma parcela de culpa grande nisso, mas o problema maior é a questão cultural, do pessoal absorver o choro como música, não só o choro, mas a música de boa qualidade, por conta da mídia em si, que tem compromisso com a propaganda.

Mesmo nesse terreno meio árido, é possível observar o surgimento de novos valores? Tem muita gente boa surgindo. A gente vê [o bandolinista e cavaquinhista] Wendell [Cosme] tocando bandolim, ele é respeitado no Brasil todo. O pessoal vê ele tocando no youtube, nessas coisas aí de internet, os caras ficam doidos. Aí fora, o pessoal que é referência do choro dá valor; aqui, ninguém quer dar valor.

Que outro instrumentista tu destacarias como alguém que merece atenção? Um cara que pra mim é uma referência muito grande e que eu acho que não tem o valor que merece aqui, como muita gente, é o [sanfoneiro e pianista] Rui Mário, um instrumentista fora do sério. Pra mim ele é um dos principais de nossa cena instrumental.

Luiz Jr. te dirigiu em teu disco. Como tu o observas? É um bom músico, com ideias bastante boas e interessantes. Tenho um respeito grande por sua música.

Como foi o processo de seleção de repertório de Made in Brazil [seu disco de estreia]? Foi uma correria danada. Esse disco surgiu por culpa do [músico Arlindo] Pipiu. Tinha aberto o edital [da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão], ele me ligou, eu gravava bastante com ele. Nisso, ele já saiu ligando pra [os compositores] Josias [Sobrinho], Cesar [Teixeira], “vamos pegar música, dá uma música aí pro Roberto gravar”. Tem música do Pipiu também. Teve muita gente com que não se conseguiu contato de imediato e o prazo já estava vencendo e faltava parte do repertório. Aí eu tive que compor algumas, eu só tinha uma música pronta. Fiz no calor do momento pra fechar o repertório do disco.

Já estás pensando no segundo? Eu tou pensando em gravar um disco novo, mas eu fico muito preocupado, por conta da qualidade dos discos instrumentais que estão saindo hoje em dia. Pela quantidade de bandolinistas que eu tou conhecendo, alguns com quem eu já tenho amizade, é uma coisa muito séria. Eu achei legal ter feito este disco, foi um aprendizado, mas me preocupo bastante em fazer disco novo. A vontade sempre tem, o lance de a gente estar botando em prática o que a gente estuda, o que a gente está vivendo.

Uma pergunta clichê: que discos tu levaria para uma ilha deserta? Os discos do Hamilton, com certeza. Tem os discos do [Trio] Aquário, que eu sou fã. Tem muita gente que não gosta do trio do Pedro Vasconcelos, [o violonista] Rafael dos Anjos e o Eduardo Belo, contrabaixo. Esse disco [Primeiro, 2010] eu acho que vai ficar pra história da música instrumental, uma coisa particular, de gosto. A maioria dos que escutam fica de cara com a maneira que eles interpretaram aquilo ali, um disco basicamente de canções, mas o que eles fizeram ali nos seus instrumentos, vai ser difícil aparecer outro disco para ser tocado com aquele sentimento, com aquela expressão. Acho que eles foram bastante felizes.

Qual foi o choro mais bonito que tu já ouviu? É complicado. Pra mim todo choro é bonito, principalmente os que eu gosto de tocar. Eu tou numa coisa agora de tentar pegar a maior possibilidade de choro que eu puder. Pela falta de estar tocando choro constante, acaba que a gente vai esquecendo as músicas que estudou, que tirou. Se a música é boa, independente de estilo, gênero.

Mas tem alguma música que te marca, tipo, “poxa, essa música eu gostaria de ter feito”? Uma música que eu gostaria de ter feito é o Flor da vida [do disco 01 byte 10 cordas, 2005], que o Hamilton compôs e também o Virtude de esperança [Brasilianos 2, 2008]. São músicas fantásticas, ele foi bastante feliz quando compôs essas músicas.

Fora do universo do choro e do samba, o que te interessa? Eu me interesso por todo tipo de música de qualidade que é produzida. Eu sou fã da boa música.

Na entrevista com [o violonista e professor] João Pedro Borges [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013] ele citou teu nome como alguém que lhe enche os olhos. O que significa agradar uma figura como ele? Eu fico surpreso com uma coisa dessas. João Pedro é uma escola universal do violão. Em todo canto que a gente chega, a gente ouve falar dele. Só não aqui, que o povo não dá valor a nada que é daqui. Em todo lugar que eu chego o povo fala, “ah, o João Pedro Borges lá do Maranhão”. Eu fico muito feliz pela história dele, ele é um músico muito classudo, tem um bom gosto musical incrível. Ele me citar numa entrevista, eu fico bastante feliz e emocionado.

Tu estás com 19 anos e é senhor de si nos instrumentos que tocas, embora tu tenhas uma modéstia em assumir ser um grande músico. Maria bandolim: tu és muito assediado por conta de tocar um instrumento? [Risos] Não sei, é complicado falar. Assédio, assédio, não. Mas existe o pessoal que se deslumbra com os instrumentos, tem aquela curiosidade. Assédio, pelo menos comigo não. Mas tem outras pessoas aí que são assediadas bastante. Não posso citar nomes para não comprometer [gargalhadas gerais].

Chorografia do Maranhão: Agnaldo Sete Cordas

Lenda viva do instrumento que lhe deu sobrenome artístico, o ludovicense Agnaldo Sete Cordas, 85, é o segundo entrevistado da série Chorografia do Maranhão.

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

A entrevista com Agnaldo Sete Cordas começou de maneira descontraída – e assim se manteve até o final. Ele já contava causos antes mesmo de ligarmos o gravador e acionarmos o botão da máquina fotográfica. Nós quatro – ele, o fotógrafo e os dois chororrepórteres – em pé, aguardando Chiquinho [o proprietário do bar] com as chaves do Chico Discos (Rua 13 de Maio, 389-A, altos, esquina com Afogados, Centro), onde a entrevista aconteceu num sábado à tarde, horário em que o bar normalmente não abre e o foi exclusivamente para a ocasião.

Agnaldo Sete Cordas é uma lenda viva do instrumento que acabou por lhe emprestar o sobrenome artístico, tendo tocado com diversos artistas de sucesso nacional, quando de suas passagens pela ilha. Não por acaso, poucos dias antes de receber a ligação convidando-o a dar um depoimento à série Chorografia do Maranhão, ele havia começado a rabiscar em um caderno suas memórias. Uma espécie de “fique por dentro” particular, em que, a caneta, em papel pautado, lembra “histórias, curiosidades, manias de antigos e novos chorões”. Gente com quem tocou, formação de bandas, orquestras e regionais, rodas, farras, datas e causos em geral engraçados – que em parte ele repesca na entrevista, às vezes recorrendo ao caderninho de anotações.

Entre estas últimas lembra quando Cardoso [lenda entre os seresteiros do Maranhão] ia batizar uma filha sua e Six [o cavaquinhista Francisco de Assis Carvalho da Silva, lenda entre os chorões] – ambos já falecidos – chegou e mandou dispensar o padrinho. Foram todos para a igreja, aberta mediante o pagamento do último ao padre. O batizado aconteceu em meio a uma roda de choro. “Meu compadre era um bom companheiro”, disse, referindo-se a Six.

Agnaldo de Jesus Sousa, seu nome de pia, nasceu no Desterro, em São Luís, em 1º. de janeiro de 1928, filho do clarinetista Benedito Sousa, professor de música, e Sabina Martins Sousa. Tem 13 filhos, 13 netos e um bisneto. “O choro é uma música que não se acaba”, vaticina, pouco antes de atender ao celular: era [o bandolinista] Raimundo Luiz, diretor da Escola de Música do Estado Lilah Lisboa, convidando-o para uma roda. No toque do celular do jovem senhor, Odeon, de Ernesto Nazareth.

Agnaldo, o Sete Cordas e o caderno de memórias

Além de músico, qual tua outra profissão? Eu nunca tive profissão assim. Era empregado numa firma, a Francisco Aguiar e Cia. Entrei lá em junho de 1942. Era office-boy, como se diz hoje em dia, levava os telegramas para os Correios. Entrei lá de calça curta [risos]. Passei 17 anos lá. Depois saí, passei uns anos fora e depois, em julho de 1961, eu me empreguei na Companhia de Água e Esgotos. Naquela época era água e luz junto. O governador da época, Newton Belo, foi quem separou água para um lado e luz para outro, eu fiquei na parte da água. Me aposentei em 17 de fevereiro de 1993.

Com quem tu aprendeste a tocar? Eu aprendi a tocar esse instrumento, sem ser esse aqui, foi um violão de seis cordas. O namorado da minha irmã tinha um e deixou o violão lá em casa, aí eu fui pegando quando ele saía e aquilo foi me dando vontade de tocar, de aprender. E de repente mudou-se lá pra casa um vizinho, que era de Caxias e eu soube que ele tocava violão. E a gente ficava até tarde da noite, ele passando as notas. Depois apareceu outro moço que tocava muito bem violão, o nome dele era Ricarte, morava no Monte Castelo [os entrevistadores espantam-se com a coincidência]. Ele ia lá pra casa, levava o violão e eu ficava manjando aquelas notas. Quando ele saía eu ia fazer e não acertava. Pensei em largar de mão. Mas o tempo foi passando e eu fui pegando gosto pelo instrumento.

E depois substituiu pelo sete [o violão de sete cordas]? O sete foi o seguinte: depois de passar muito tempo nesse violão de seis, eu passei pela guitarra, por que pra tocar nos grupos que tinha em São Luís, eu fui fundador do Nonato e Seu Conjunto, pra tocar em grupos assim eu passei pra violão elétrico, depois eu peguei guitarra, mas eu não sabia tocar guitarra, por que eu tocava com dedeira. Para este violão foi da seguinte forma: muitos anos, eu tocava no Lira, e ia para casa descansar, e dia de domingo eu ia para o barzinho lá defronte lá de casa, tomar aquela cerveja com os amigos. Num domingo eu tava sentado lá quando chegou Six, seu Dega, irmão dele, Carlinhos [Leite], Jonas [Pereira da Silva], aquele que tocou com Jacob [do Bandolim, no Conjunto Época de Ouro]. Seu Dega quando me olhou, disse “olá, meu compadre! Olha quem tá aqui! Esse aqui é o Carlinhos, o violonista que toca com Jacob do Bandolim”. Ele tava com o violão de sete cordas, eu com o de seis, ele me deu o instrumento, mas eu não acertei uma nota, entreguei o instrumento pra ele [risos]. Mas nessas alturas eu não estava com o grupinho. Estava eu, Careca no bandolim, sentou Carlinhos com o sete cordas, tinha um menino com um tamborim pra fazer ritmo, Six no cavaquinho e finado Marreta com um gravador Philips. Aí o samba começou. Essa música foi tocada lá, aquele dia, um choro de Waldir Azevedo por nome Contraste [parceria com Hamilton Costa]. Essa música eu tenho gravada numa fita, acompanhada pelo Carlinhos. Aí depois, nessas alturas, a farra começou. Cantou [Léo] Spirro, cantou Seu Dega.

Na tua juventude, de que modo vocês ouviam música? Nós ouvíamos rádio que nós mesmos fabricávamos. Esse mesmo rapaz que me ensinou violão, Mizael, ele enrolava motor de avião, de compressor, essas coisas, era inteligente. Ele enrolou umas bobinas e disse que íamos captar uns sons da PRJ-9, Rádio Difusora do Maranhão. Funcionava ali defronte o Mercado Central, no prédio do SIOGE [o Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado, hoje abandonado]. Ela entrava no ar e quem tinha rádio ouvia. Então nós fizemos um tal de rádio galena. Era feito com uma bobina de fio, um telefone antigo, pegava só o fone, fazia adaptação, pegava chumbo com enxofre, botava numa colher no fogo. Aquilo quando diluía, ficava aquela pedra brilhante. Através daquela pedra amarrava uma agulha na pontinha do fio, botava o fone no ouvido e sintonizava a estação. Só tinha essa aqui no Maranhão. Eu ouvia longe… Eu me lembro tão bem de uma música que Isaurinha Garcia cantava, [cantarola:] “aquele aperto de mão não foi um adeus” [Aperto de Mão, de Jaime Florence, Augusto Mesquita e Dino 7 Cordas], parece que era essa música. E eu ouvia aquele violão e “meu Deus, o meu não dá esse som”. Aí foi que aconteceu, quando Carlinhos chegou lá na Cohab com aquele violão, aí eu me envaideci pelo som do instrumento. Fiz uma carta pra minha mãe, que morava no Rio de Janeiro, pedindo pra ela me dar um violão, que tinha visto um violão aqui, e tinha vontade de tocar num de sete cordas. Fiz sem esperança. Um dia de sábado eu tava em casa com a mulher, quando parou o carro do Correio lá na porta. “Olha, Marilene”, minha mulher, que tava lá, “é bem roupinha de menino que mamãe tá mandando pros netos”. Quando eu abri, era um violão sete cordas, Del Vecchio, já afinado. Quando eu peguei esse violão, a notícia correu rápido. Fui inaugurar esse violão e a aporrinhação dos colegas, “tu nãos sabe tocar nem de seis, quanto mais de sete”. Eu pensava em tirar a sétima corda, não tava acertando. Foram quatro anos, me dediquei, fui acertando. Uma vez aquele Biné, irmão de Bastico, disse “Agnaldo, esse violão tem que falar grosso”, e ele me gozava com isso. Fui lutando, Deus foi me ajudando, fui entrando nos grupos. Aí apareceram uns seguidores, que se envaideceram pelo instrumento também. Mascote, Bastico, Chiquinho, eu tenho o nome deles aqui [aponta o caderno], se metiam e largavam por que não acertavam. Entre o grupo que se interessou ficou [Francisco] Solano, Elinaldo, o mais competente, foi quem pegou com mais facilidade, Domingos [Santos]. O resto desistiu. Toquei muito nas noitadas por aí.

Teu pai dava aulas de música e tocava no exército. Ele de alguma forma influenciou o senhor a ser músico ou havia um desencorajamento, que músico naquele tempo era vagabundo, mal visto. Como era essa relação? Naquela época violonista era vagabundo, era mal visto. Ele não sabia, eu pegava esse violão escondido. Ele queria que eu estudasse telegrafia, o código Morse, ele me passava para estudar. Ele não queria negócio de violão, nem bola, o caso era estudar, e era o que eu não gostava.

Você chegou a jogar bola? Eu jogava bola. Até quebraram minha clavícula, aí eu larguei logo.

O senhor fundou o Nonato e Seu Conjunto. No ano de 1962, num daqueles bancos, defronte o Lítero, na praça João Lisboa. Eu tava trabalhando no DAES [Departamento de Água e Esgotos], chegou um colega que tocava comigo na rádio, Rafinha, e Osmaro contrabaixista. Ele disse que não tinha mais nenhum grupo tocando, o que Nonato tava tinha acabado, por causa de molecagem dos músicos. Aí eu disse “vamos convidar Nonato”. Eu peguei folga no serviço e fomos os três. Nonato tava lá em cima tocando piano. Quando desceu a gente disse: “Nonato, nós estamos formando um grupo pra tocar, tu não queres tomar parte?”. De cara ele disse que não. Aí a gente conversou, ele disse que dava a resposta amanhã. Voltamos no mesmo horário e eu combinei com a turma: “se Nonato aceitar, o nome vai ser Nonato e Seu Conjunto, a gente bota uns papeizinhos em um copo, Nonato e Seu Conjunto, o que ele tirar vai dar Nonato e Seu Conjunto” [risos]. No outro dia ele tava ensaiando uma música. Quando ele desceu, “como é, Nonato, resolveu?”, e ele “é, eu vou aceitar”. A gente, êêê, aquela comemoração. Vambora escolher logo o nome do grupo, já tava combinado. Ele meteu a mão no copo, deu Nonato e Seu Conjunto. Daí ficamos. Eu já tinha meu instrumento, eu tinha meu violão elétrico, o baterista tinha a bateria dele, o contrabaixista tinha o baixo, o pistonista tinha o pistom, o saxofonista, que é Nero, já tinha o sax, o cantor era Murilo Oliveira. Depois passou a ser Cardoso. Aí fizemos o grupo, começamos a ensaiar. De repente pegamos o contrato para tocar as tertúlias do Lítero, que começava às oito da manhã. Começava oito, terminava dez. Durou bastante tempo. Aquilo era uma brincadeira, a gente tocava na base da brincadeira, pegava um cachezinho pra levar pra casa. Aí passamos a pegar contrato pra festas de casamento, colação de grau, tocávamos lá no Casino [Maranhense], que era na [avenida] Beira Mar. E o grupo foi tomando frente e só tínhamos nós na praça. Depois foi que surgiu o CurtiSom, Os Colegiais, Os Fantoches. Mas de início éramos só nós, tanto aqui na cidade quanto no interior. Essa baixada toda nós tocamos, e também do outro lado, a gente pegava Vargem Grande, Itapecuru, Chapadinha.

Quem foi o músico que mais te influenciou no começo da carreira? Era o Careca, que tocava bandolim e cavaquinho. Tinha os olhos gateados. Era exímio músico. Tocava violão também. Ele pegava o violão dele, lá no João Paulo, ele vendia pastel numa cesta desse tamanho [gesticula com as mãos]. Quando ele chegava com o violão dele lá no João Paulo, aí faziam a roda, ele cantava até um samba assim [cantarola:] “violão amigo/ venha ouvir meus ais”. Ele cantava essa música, toca violão, aí a canalha fazia a roda e ele vendia o pastel todinho. Quando passava pro cavaquinho, foi quando surgiu aquele choro que o Jacob fez por nome Flamengo [de Bonfiglio de Oliveira], esse era o começo [toca a introdução]. E o Careca tocava isso e chamava a atenção. Aí eu fiz amizade com ele. Eu estudava no Teixeira Mendes, onde é a Caixa Econômica hoje, e eu saía do colégio e passava pra brincadeira. Mamãe falava, “meu filho, vai pra casa”, e eu tava atrás do instrumento.

Você já viveu só de música, a música já te sustentou? Já vivi. Sustentei a família muito tempo na música. Eu tinha um patrão muito agressivo, uma vez ele me passou um carão na frente de Mascote, lá no balcão. Eu já tinha mais de 10 anos da empresa e ele perguntou se eu tinha vontade de sair da firma. “Então faça o seguinte: o que você vai levar de indenização, dá para abrir um negócio para você”, ele disse. E me orientou a, quando me perguntassem o porquê de eu deixar a firma, eu devia responder que era de livre e espontânea vontade. Assim fiz, era 1958 ou 59. Não recebi nada. Passei dois anos vivendo apenas com o ordenado que eu ganhava na rádio Timbira, como violonista do regional. E tocava por fora pra levar pra casa.

Você chegou a gravar discos com Nonato? Ele gravou, mas eu não tava mais no grupo. Quando ele gravou, tava [Arlindo] Pipiu, Zé Américo, Chico do Zuca, saxofonista, Garrincha. Nonato adquiriu um empréstimo no Lítero e foi à São Paulo comprar um instrumental novo. Nosso baixo não tinha trastes, era gavetão. Quando Nonato veio de São Paulo trouxe um contrabaixo elétrico, mas sem trastes, trouxe bateria nova. No dia da inauguração desses instrumentos, foi uma coisa gozada. Nós fomos tocar no Clube Alvorada, ali no Tirirical, um clube da Força Aérea Brasileira. Garrincha antes de chegar já tinha enchido a cara. Na hora que começou a festa, só dava Nonato, o clube cheio de gente, Garrincha cheio do pau, a gente foi tocar uma música [faz o ritmo com a boca], na hora em que ele foi fazer uma frase, estourou os dois tambores, rasgou de meio a meio. Nonato com aquela calma terminou a música e o show na bateria. Garrincha continuou no grupo, mas aprontou muito das suas.

O senhor teve algum estudo formal de violão? Não. Aprendi na raça. O pouquinho que aprendi foi só pra me divertir.

Além de Nonato e Seu Conjunto, de que outros grupos musicais você participou? Primeiro nós tínhamos o Grupo Difusora. Nós tocávamos em aniversário, éramos eu e Zé Cantanhede, dois violões de seis cordas, Careca no bandolim e violão tenor, que ele tocava que era uma beleza, Racinha na maraca e no pandeiro, ele era canhoto, Maneco baterista, Osmaro contrabaixo, Antonio Rodrigues sax tenor e Toinho acordeom. Aconteceu que até uma vez a Dalva de Oliveira se apresentando no Teatro Arthur Azevedo, aquela música [cantarola:] “Ave Maria, lá rá ri” [Ave Maria no morro, de Herivelto Martins], rapaz, nós ensaiamos a música e Rodrigues antes de começar a função era uma dor de cabeça e não teve jeito de ele descer para tocar e quem fazia o solo era ele. Quando chegou na hora dessa música, ele veio de lá, mesmo com a dor de cabeça, ninguém esperava isso dele. Na hora do solo, o saxofone saiu de detrás da cortina, a coisa mais linda, todo mundo aplaudiu. Depois eu passei seis anos com Nonato, tocando no Lítero, festa de carnaval, aquelas músicas que até hoje em dia se toca. Nonato depois que criou asas começou a dar ordens dentro do grupo. Aí ele dizia: “só fica no grupo quem ensaiar”. Eu era empregado, não podia ensaiar, Cardoso, do Banco do Brasil, também não podia ensaiar. Ninguém podia deixar o trabalho para ensaiar. Aí ele já queria botar Oberdan e Pitomba no grupo, eu fui me aborrecendo e larguei. Quando eu saí do grupo, uma noite eu tava em casa, quando recebi um convite para uma seresta na Rua Oswaldo Cruz. Foi a última vez que eu toquei com Nonato, foi na inauguração dessa boate. Depois eu entrei nos Fantoches, em 1968, na vaga de Sinhô, [o violonista] João Pedro Borges. Passei oito anos nos Fantoches. Raimundo Sebastião Coelho, sargento do exército, era o chefe. Tínhamos três pistons, três saxofones, botijão de gás tocado com dois vergalhões, aquilo fazia uma zoada, “taca-taca, taca-taca, taca-taca” [imita o som percussivo do botijão com a boca].

E regional de choro, em quais tu tocou? Regional de choro, não teve assim um seguro. Eu me unia com [o flautista] Serra [de Almeida, primeiro entrevistado da série Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3/3/2013], a gente tocava umas pisadas em ritmo de choro, o repertório todo de Altamiro Carrilho.

Só vocês dois ou tinha mais gente? Às vezes tinha um pandeirista, às vezes não.

Tinha nome essa formação de vocês? Não, não tinha.

Vocês tocavam em vários lugares, no Hibiscos [bar da época, o entrevistado localizou-o nas proximidades do Detran, Castelão]? No Hibiscos nós tínhamos grupo. Era eu, Serra, Spirro, Zé Branco e Juca [do Cavaco]. Não tinha nome o grupo. Depois do Hibiscos foi que nós fomos para a Caixa Econômica [a Serenata Caixa Alta, na Associação do Pessoal da Caixa – APCEF].

Você compõe, faz arranjos? Não. Às vezes eu crio uma ou outra coisinha diferente [improviso na execução de uma música], pra não ficar bitolado.

Já participou da gravação de discos? Não.

Mas acompanhou grandes nomes nacionais. Dalva de Oliveira, no Casino Maranhense. Quem mais me deu trabalho foi a Maysa Matarazzo.

Deu trabalho por quê? Ela botava um pó na bebida. Pelo menos, no dia em que nós fomos ensaiar, fomos eu, o rapaz do ritmo e o acordeonista, ela tava no Hotel Central. Quando nós chegamos lá, ela tava no banho. Ficamos esperando. Ela saiu do banho toda de roupão, bonita, nos cumprimentou, os olhos bonitos. Ela cantou uma música, passou uns 10 minutos, disse que não queria mais ensaiar. “Eu não quero mais ensaiar, tá tudo bom”. Lá no [Teatro] Arthur Azevedo, estavam tocando artistas locais, a atração era ela, e o teatro cheio de gente. A caminhonete chegou com ela e nos chamaram, estava na hora. Quando subiu ao palco ela disse que não queria cantar com o regional, começou a cantar só. Tinha outro contrato pra mesma noite, no Casino. Ela também se recusou a tocar acompanhada pelo regional e mandou chamar Mascote, um violonista muito bom de que ela tinha ouvido falar. Depois ela se negou a cantar também com ele, o povo já ensaiando uma vaia, quando ela começou a cantar Meu mundo caiu. No outro dia, nos jornais, foi um escândalo.

E outros nomes? Dóris Monteiro, Linda e Dircinha Batista, Ademilde Fonseca, Ângela Maria, Núbia Lafayette, Nora Ney, Dalva de Andrade, Alcides Gerardi, Orlando Dias, Blecaute, Genival Lacerda, Cauby Peixoto, Silvio Silva, Altemar Dutra, Carlos Gonzaga, Nelson Gonçalves, Anísio Silva, Sivuca, Jackson do Pandeiro, Conceição de Oliveira, Orlandira Matos, Suely, Maria Diniz, Célia Maria, Naná Ramires, Ivone Mendes, Elza Lopes, Lourdinha Costa, Sérgio Miranda, Bico Doce, Roberto Müller, Cardoso, Moacir Neves, Escurinho do Samba, Álvaro Duarte, Joaquim Fernandes, Nilton Vieira, José Penha.

O que significa o choro pra ti? Eu considero uma das melhores músicas. É o gênero que eu abraço, é o que eu gosto. E o choro, eu vou te dizer uma coisa: só toca o choro quem sabe. É uma música difícil. Não pode ter erro, de jeito nenhum.

Quem é o artista que você mais admira dentro do universo do choro? Aqui em São Luís eu gosto bastante do Serra. Gosto do Juca. Fomos companheiros de muito tempo. Quando ele começou a tocar cavaquinho, eu disse: “esse menino vai dar um bom cavaco”, e não me enganei. Nacionalmente, um nome que eu admiro é Jacob, o estilo de Jacob.

Tu falaste em vários espaços em que havia música ao vivo. Como tu vê São Luís hoje, em termos de espaço para a apreciação de boa música, choro? Tens saído para ver isso? Se eu passar e escutar um ritmo de choro ou sambas canções, eu paro para ouvir. Mas se eu passar e escutar uma pagodada doida, mal tocada, com três cavaquinhos, um banjo fazendo aquele centro doido, dando umas notas que não tem na música, eu não paro pra ouvir isso aí.

Tu estás escrevendo tuas memórias, né? Umas coisas que fui lembrando de minha juventude e fui anotando. O tempo em que militei na Zona do Baixo Meretrício, eu tocava por lá, apreciava as noitadas, toquei com muita gente. A zona era conhecida, tinha as [pensões] de luxo e tinha as vagabundas.

Quando foi que o senhor teve a ideia de registrar as memórias? Foi semana retrasada, eu não tou fazendo nada, vou me lembrar das coisas aqui que eu passei e comecei a escrever.

O senhor pretende publicar esse material? Publicar isso aqui? [risos]. Eu não sei, comecei a fazer para mostrar pros colegas. Parafuso [o sonoplasta Elvas Ribeiro] se lembra dessas pessoas todas. Onde eu botei aqui o regional [que tocava na ZBM na época]? [Lendo um trecho das anotações] Eu ainda recordo, apesar do tempo, as casas que tinham música ao vivo: Casa Branca, Maroca, Lili, Zilda Preta. O grupo que tocava era assim: Vital, baterista, Jorge Cego, trombone, Haroldo, banjo, Santinho, pistom, Seu Riba, pistom, Amilar, bandolim, Roque, rabecão, Zé Hemetério, violino. Outros músicos davam canja: Osvaldo, baixo, Apolinário, banjo, Mr. Jones, bateria, Padilha, violino. Nome das pessoas que animavam o salão do Bar Hotel Central, do senhor Maia: Vital, baterista, Lauro Leite, violino, Pajebinha, sax alto, Haroldo, banjo, Zé Hemetério, violino, Chaminé, acordeom, Cunha, pianista, Roque, rabecão, Santinho, pistom, Seu Riba, pistom [continua lembrando outras formações, que tocavam em outros espaços]. Olha como eu botei aqui [continua a leitura]: a casa de Lili era frequentada por pessoas mais escolhidas. Não tinha bagunça. Quando acabava o movimento das outras casas, nós, digo, Zequinha de Jagunço, Amilar, Agnaldo, Zé Penha, Xereta, irmão de China, que era amigo de Cleres… Zequinha de Jagunço se dava com a dona da pensão, a Lili, por isso ele nos levava para tocar até de manhã, e eu ia por que sempre eu ficava com uma puta [gargalhadas gerais]. Ora se eu ia pra lá pra ficar de graça? Amanhecia lá.

[O Imparcial, 17 de março de 2013]