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Cesar Teixeira transborda poesia no vazio do Ceprama

[Sobre apresentação de Cesar Teixeira, ontem (3), no Ceprama]

“E o carnaval?” é pergunta que costumo ouvir e que tenho respondido com um “ainda não estou no clima do bumbumpaticumbumprugurundum”.

Depois de convidado para ir verouvir o Monobloco na Praça Deodoro, declinei. O grupo me interessa, tenho discos em casa, mas fujo de multidões.

Preferi ir verouvir Cesar Teixeira no Ceprama (ontem, 22h). Minha primeira saída “carnavalesca” em 2013. Ele o artista de quem seguramente mais vi shows na vida.

Ele que ontem fez uma apresentação quase perfeita. Mas o que não tirou nota dez foi o som, algo que lhe foge ao controle, impossível culparmos o artista naquele entra e sai do palco, as apresentações em sequência (grade), entram músicos (bandas) saem músicos, tudo tem que ser trocado muito rapidamente.

Este, aliás, outro aspecto do carnaval que precisa ser repensado, explico. Cesar Teixeira é exceção: fez uma apresentação de cerca de 50 minutos, com repertório completamente autoral, inédito e carnavalesco. Resgatou a nau catarineta (auto nordestino, catalogado por Mário de Andrade), do toré (ritmo indígena) e do baralho, além de frevos, marchas, marchas-rancho, sambas e até salsa, entre o bom humor, as homenagens (a Faustina e Rosa Papagaio) e a política (o congresso nacional sempre merecedor de críticas, piadas e avacalhação).

Os poucos que estavam no Ceprama puderam deliciar-se com um repertório original e diferente. Ou seja: em geral, o modelo sequencial das apresentações patrocinadas pelo governo em praças e quaisquer outros espaços públicos, acaba dando ao folião que se demorar por mais que um show por ali mais do mesmo: vários artistas cantarão e tocarão os mesmos clássicos carnavalescos que incluem aí de Moraes Moreira ao Bicho Terra, passando por Carmen Miranda e Chico Buarque, entre outros.

O Monobloco de graça na praça Deodoro, fazia o “carnaval da mistura” em horário próximo ao em que Cesar Teixeira fazia seu ótimo show para um Ceprama esvaziado, certamente não pela qualidade de seu espetáculo, em que ele se mostrava em plena forma artística, com repertório inédito, adequado ao período. Lá, no panteão sem bustos, o grupo carioca era escoltado pelos apadrinhados de sempre, cujos nomes mais se repetem nas programações oficiais. Perto da continência espúria o que significam qualidade e relevância artística?

“Se eu definisse o documentário, não fazia. Por isso não o defino.”

“O desejo não acaba nunca, né? E  teu problema é desejar que você tenha saúde física e espiritual, o que é complicado, pra poder fazer mais uns anos de cinema, o que é cada vez mais complicado.

Eu imagino que daqui a pouco, se eu tiver vivo, e as coisas se passam de repente, eu vou fazer documentário num palco em cadeira de rodas, aí eu vou ter que chamar os atores, então eu me vejo terminando feliz até de poder fazer um filme nem que seja em um estúdio de teatro chamando as pessoas, e fazer um filme de conversas, mesmo que seja em cadeira de rodas. Eu espero demorar pra chegar lá, mas pelo menos estarei trabalhando.

Agora crítica, não existe isso, cada filme é um filme, não tem filme da minha vida, e vai se somando um ao outro, eu fiz o Cabra [marcado pra morrer, 1984; o filme integra a programação da Mostra] porque tinha que fazer, passei quinze anos sem fazer nada e depois fiz Santo forte [1999; idem] e pude recomeçar uma carreira que tava jogada fora. E aí cada filme é igual e diferente do outro, sempre. Eu quero apenas fazer mais filmes, enquanto puder, do jeito que eu gosto de fazer, com uma certa liberdade, não de orçamento, mas pelo menos de escolher, de decisão final sobre um filme. E daí, quando somar tudo, alguém vai dizer o que presta e o que não presta, isso fica pra história. Mas pra mim, outras experiências fazendo o mesmo filme, que não é nunca o mesmo filme.”

Eduardo Coutinho em entrevista a Alcimeire Piana e Daniele Nantes, publicada em 2005 na revista Intermídias. A entrevista está coletada no volume da coleção Encontros [Azougue, 2009] dedicado ao documentarista, homenageado da 7ª. Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, cuja etapa São Luís tem início hoje, às 19h, no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy).

PROGRAMAÇÃO (DE HOJE)

19h > Sessão de abertura: O cadeado (Leon Sampaio, Brasil, 12 min., 2012, ficção) > A galinha que burlou o sistema (Quico Meirelles, Brasil, 15 min., 2012, documentário/ficção) > Menino do cinco (Marcelo Matos de Oliveira/ Wallace Nogueira, Brasil, 20 min., 2012, ficção) > A fábrica (Aly Muritiba, Brasil, 16 min., 2011, ficção). A sessão tem classificação indicativa de 12 anos.

Veja o trailer de A fábrica:

O blogue voltará a noticiar a etapa São Luís da Mostra. Todas as sessões são gratuitas e serão divulgadas aqui. Na de hoje recomenda-se chegar um pouco mais cedo: por ordem de chegada e respeitando o limite da sala (265 lugares mais três espaços reservados para cadeirantes) haverá distribuição de kits (sacola, camisa, catálogo, bloco, lápis, caneta). A sessão de abertura contará ainda com apresentação do Coral do Presídio Feminino.