Tensões e obsessões

Cena de Para minha amada morta. Frame. Reprodução
Cena de Para minha amada morta. Frame. Reprodução

 

Viúvo que cria sozinho o filho pequeno, Fernando (Fernando Alves Pinto) é um advogado que ganha a vida num emprego que detesta: fotógrafo da polícia, fazendo os clássicos retratos de frente e perfil de detidos portando seu número de identificação ou cadáveres frescos na cena do crime.

Ele tem uma estranha obsessão por objetos de sua esposa morta: vive a lustrar joias, engomar vestidos (com que dorme abraçado), limpar sapatos e pô-los para pegar sol. Ao ir até o antigo escritório dela, também advogada, traz consigo mais uma pilha de pertences da mulher, incluindo uma sacola de fitas VHS.

Em meio a elas o fumante inveterado descobre ter sido traído e resolve investigar o passado da esposa, trocando uma estranha obsessão por outra, perigosa. A partir daí instala-se um clima de tensão permanente.

O labirinto de incertezas em que o espectador é jogado em Para minha amada morta [drama, Brasil, 2015, 105 min.] é tão bem urdido que em várias cenas somos pegos tentando adivinhar – e errando – qual será o próximo passo dado pelo protagonista.

Fernando se vale de sua função na polícia para obter dados sobre o amante de sua falecida esposa, anda armado e a cada esquina do filme esperamos um crime motivado por vingança – o que não acontece. Não é vingança o que Fernando quer, mas tentar entender o passado.

É a busca por esta espécie de acerto de contas que o leva ao convívio de Salvador (Lourinelson Vladmir), o amante da esposa morta, um ex-presidiário que buscou remissão em uma igreja evangélica na periferia em que vive com a mulher, duas filhas e um cachorro, onde Fernando vai parar.

Estreia do diretor Aly Muritiba em longa-metragem, Para minha amada morta é um drama com altas doses de suspense que foge de clichês. O filme foi premiado com sete candangos no 48º. Festival de Brasília, ano passado, incluindo os de melhor ator coadjuvante (Lourinelson Vladmir) e melhor direção.

Para minha amada morta pré-estreia no Maranhão na Tela, dia 24 de março, às 20h30, no Cine Praia Grande, em sessão gratuita e aberta ao público.

Homem de vícios antigos assistiu ao filme a convite da produção do festival.

7ª Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul se despede hoje de São Luís

https://i1.wp.com/www.cinedireitoshumanos.org.br/2012/img/banners_cidades/sao_luis.gif

Etapa São Luís encerra-se hoje; programação ainda percorrerá outras capitais até 20 de dezembro

Atendendo a pedidos do público, Cena Aberta reapresenta fragmentos de Negro Cosme em movimento na programação de hoje

Acontecem hoje as últimas quatro sessões da 7ª Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul em São Luís. A entrada é gratuita e o seu palco é o Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy), especialmente adaptado com bastante qualidade para a ocasião.

“Fazemos um balanço positivo de mais uma edição da Mostra, já consolidada como um dos mais importantes acontecimentos cinematográficos do Brasil. É a terceira vez que o evento acontece em São Luís e este ano optamos por fazer em uma sala maior, o que já garantiu, desde ontem (29) um novo recorde de público”, avaliou o cineasta Francisco Colombo, produtor local do evento.

Atendendo a pedidos, o grupo Cena Aberta reapresentará fragmentos do experimento teatral Negro Cosme em movimento, de Igor Nascimento, bastante aplaudido na última quarta-feira (28).

Confira a seguir a programação para o dia de hoje (para informações sobre sinopses, fichas técnicas e classificação indicativa, clique nos títulos).

13hUma, Duas Semanas (Fernanda Teixeira, Brasil, 17 min., 2012, ficção) > A Demora (Rodrigo Plá, Uruguai/ França/ México, 84 min., 2012, ficção)

Cena de "Negro Cosme em movimento"
Cena de “Negro Cosme em movimento”

15h > Reapresentação de fragmentos do experimento teatral Negro Cosme em movimento, do grupo Cena Aberta > Cachoeira (Sérgio Andrade, Brasil, 14 min., 2010, ficção)

O cineasta Eduardo Coutinho é o homenageado da Mostra (Foto: Vavá Ribeiro/ Folha)

17hCabra Marcado para Morrer (Eduardo Coutinho, Brasil, 119 min., 1984, documentário)

19hA Fábrica (Aly Muritiba, Brasil, 16 min., 2011, ficção) > Hoje (Tata Amaral, Brasil, 87 min., 2011, ficção)

“Se eu definisse o documentário, não fazia. Por isso não o defino.”

“O desejo não acaba nunca, né? E  teu problema é desejar que você tenha saúde física e espiritual, o que é complicado, pra poder fazer mais uns anos de cinema, o que é cada vez mais complicado.

Eu imagino que daqui a pouco, se eu tiver vivo, e as coisas se passam de repente, eu vou fazer documentário num palco em cadeira de rodas, aí eu vou ter que chamar os atores, então eu me vejo terminando feliz até de poder fazer um filme nem que seja em um estúdio de teatro chamando as pessoas, e fazer um filme de conversas, mesmo que seja em cadeira de rodas. Eu espero demorar pra chegar lá, mas pelo menos estarei trabalhando.

Agora crítica, não existe isso, cada filme é um filme, não tem filme da minha vida, e vai se somando um ao outro, eu fiz o Cabra [marcado pra morrer, 1984; o filme integra a programação da Mostra] porque tinha que fazer, passei quinze anos sem fazer nada e depois fiz Santo forte [1999; idem] e pude recomeçar uma carreira que tava jogada fora. E aí cada filme é igual e diferente do outro, sempre. Eu quero apenas fazer mais filmes, enquanto puder, do jeito que eu gosto de fazer, com uma certa liberdade, não de orçamento, mas pelo menos de escolher, de decisão final sobre um filme. E daí, quando somar tudo, alguém vai dizer o que presta e o que não presta, isso fica pra história. Mas pra mim, outras experiências fazendo o mesmo filme, que não é nunca o mesmo filme.”

Eduardo Coutinho em entrevista a Alcimeire Piana e Daniele Nantes, publicada em 2005 na revista Intermídias. A entrevista está coletada no volume da coleção Encontros [Azougue, 2009] dedicado ao documentarista, homenageado da 7ª. Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, cuja etapa São Luís tem início hoje, às 19h, no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy).

PROGRAMAÇÃO (DE HOJE)

19h > Sessão de abertura: O cadeado (Leon Sampaio, Brasil, 12 min., 2012, ficção) > A galinha que burlou o sistema (Quico Meirelles, Brasil, 15 min., 2012, documentário/ficção) > Menino do cinco (Marcelo Matos de Oliveira/ Wallace Nogueira, Brasil, 20 min., 2012, ficção) > A fábrica (Aly Muritiba, Brasil, 16 min., 2011, ficção). A sessão tem classificação indicativa de 12 anos.

Veja o trailer de A fábrica:

O blogue voltará a noticiar a etapa São Luís da Mostra. Todas as sessões são gratuitas e serão divulgadas aqui. Na de hoje recomenda-se chegar um pouco mais cedo: por ordem de chegada e respeitando o limite da sala (265 lugares mais três espaços reservados para cadeirantes) haverá distribuição de kits (sacola, camisa, catálogo, bloco, lápis, caneta). A sessão de abertura contará ainda com apresentação do Coral do Presídio Feminino.