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Nome comum, artista raro

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Não houve lista de melhores discos lançados ano passado a que Silva não comparecesse com seu Vista pro mar (2014). Com este show o músico aporta hoje (2) pela primeira vez em São Luís: a apresentação acontece às 20h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), sob a chancela da Musikália Produções, do radialista Gilberto Mineiro. Os ingressos, à venda no local, custam R$ 30,00.

Coalhado de timbres e texturas sonoras particulares, o som de Silva evoca os anos 1980: é como se ele traduzisse a musicalidade daquela década com a tecnologia disponível hoje. Mas engana-se quem pensa em passadismo ou saudosismo pura e simplesmente. O cantor e compositor capixaba ataca de sintetizadores e toca outros instrumentos (é graduado em violino por uma faculdade capixaba) – no disco e no palco – em repertório completamente autoral – as 11 faixas de Vista pro mar são assinadas por Silva (Lúcio Silva de Souza) com o irmão Lucas Silva. Fernanda Takai participa de Okinawa.

Algumas letras falam em mar, tema evocado na capa de seu segundo álbum de carreira – sucessor de Claridão (2012) –, em que seu rosto aparece “desfigurado” por uma “onda”. “Eu não nasci do mar/ Mas sou daqui/ Já mergulhei pra não sair/ Quem é de preamar/ Se encontra aqui/ Não há mais maré-baixa/ Em mim/ Eu sou de remar/ Sou de insistir/ Mesmo que sozinho/ Só vai se afogar/ Quem não reagir/ Mesmo que sozinho”, diz a letra da faixa-título. Será que o poluído mar da Ilha lhe inspiraria?

Parte do disco foi gravada além-mar, em Lisboa, Portugal, por onde o músico passou em turnê e acabou na trilha sonora de uma novela portuguesa – Imergir, de um EP inaugural, lançado em 2011, embalou o enredo da global Além do horizonte.

No show de logo mais, o repertório passeia por músicas dos dois discos mais o EP. O show de abertura fica por conta do pré-lançamento de Alice ainda, de Nathália Ferro.

Vejam o clipe de Volta, gravado em Angola.

Alice ainda: um sonho realizado de Nathália Ferro

Após 10 meses de gestação, a cantora e compositora Nathália Ferro, 30, disponibilizou ontem (sábado, 25), para audição e download em seu canal no soundcloud, seu segundo disco, Alice ainda, sucessor do ep Instante (2013), que ela considera seu disco de estreia. A artista já conta 10 anos de carreira.

Produzido por Adnon Soares, da CasaLoca, o álbum traz 12 faixas, de 12 compositores, incluindo ela própria, e reflete seu amadurecimento artístico. A maioria das faixas é inédita. Pelo meio do disco, um bloco de regravações: O que não é de mim (Hermes de Castro/ Marcos Lamy), Maria de Jesus (Beto Ehongue), com incidental do poema O bicho, de Manuel Bandeira, e Ana e a Lua (Betto Pereira).

Também merecem destaque Porcelana (parceria de Nathália com Laila Razzo, autora do projeto gráfico de Alice ainda), Música do sereno (de Paulo César Linhares, seu namorado), Como qualquer chiclete (Phil Veras), Neguinha (Nathália Ferro) e Te deixando aos poucos (Adnon Soares e Léo Del Nery).

A banda base de Alice ainda é formada por Adnon Soares (guitarra, violão, teclado e sintetizador), Marlon (contrabaixo) e Sandoval Filho (bateria). O disco tem ainda participações especiais de João Simas (guitarra) e André Grolli (bateria). Memel Nogueira, que mixou o álbum, também gravou uma guitarra. Adnon divide com ela os vocais de Estranho seu, versão em português de Strange of mine, da Soulvenir, banda dele. Lucas Maciel canta com ela em Música do sereno. A eles, todos, ela derrete-se em elogios: “músicos excepcionais e amigos muito queridos”.

Alice ainda. Capa. Reprodução
Alice ainda. Capa. Reprodução

 

Através de uma rede social ela concedeu a entrevista a seguir ao blogue.

A Alice do título é uma personagem. Quem é Alice? E o que ela tem de Nathália Ferro? Há algo em tua Alice da Alice de Lewis Carroll; o que não pode faltar em teu país das maravilhas? A Alice do título é a parte sonhadora da Nathália. É preciso reservar em si uma parcela bem grande de devaneio pra trabalhar com arte sem deixar o sistema te sufocar. Eu vendi o meu carro pra pagar esse disco, dormi seis meses na CasaLoca, troquei o dia pela noite, fiquei longe da minha família e da vida “normal” pra fazer esse trabalho. Foi muita loucura. E foi incrível.

Ao longo desse período, algum arrependimento? Eu me arrependo de muita coisa, mas no entanto, não me adianta de nada, já que a gente só faz aquilo que tá apto e pronto pra fazer. Mesmo o errado tava certo. Eu tinha que aprender, tinha que caminhar pro que sou hoje. Eu gosto de aprender sempre, e me despojar daquilo que não serve. Então não sou muito de dar atenção pra nostalgias ou arrependimentos. Prefiro gastar minha energia com o presente.

São 12 faixas, 12 compositores, você se reafirmando como tal, o que já havia ocorrido em Instante. Como foi juntar tudo isso e dar unidade ao disco? Sinceramente, organizar esse repertório foi uma das partes mais gostosas do processo. Todas as músicas foram se insinuando pra mim de maneira muito natural, inclusive as que não compus. Tudo ali diz muito mais do que eu poderia dizer, e não diz nada do que eu não gostaria. Foi muito bom descobrir a efervescência de compositores muito jovens, e dar versões a músicas de outros consagrados. Difícil mesmo, e penoso, foi organizar a ordem do disco.

Praticamente morar na CasaLoca deve ter dado ainda mais organicidade ao disco. Conte um pouco mais da experiência de ter Adnon como compositor, produtor e participação especial. E instrumentista também [risos]. Ele é um irmão pra mim. Até quando a gente briga parece briga de irmão. Eu nunca vou poder expressar a gratidão que tenho por esse cara ter usado tanto do talento e do tempo dele pra me ajudar a realizar esse sonho. O Adnon tem um método bem heterodoxo de trabalho, o que às vezes torra a paciência da gente. Mas por outro lado ele é tão gênio, e tem um coração tão genuíno, que a gente releva. Pra mim foi um aprendizado pra vida inteira viver esses meses de imersão mesmo. Me ajudou a valorizar ainda mais esse trabalho e o trabalho criativo de quem se dedica à música.

Ele é, hoje, um produtor bastante requisitado, além de ter seus projetos próprios, CasaLoca, Soulvenir. Foi difícil conciliar a agenda? Foi [risos]. Muito. Eu sinceramente não sei como ele consegue. É um mistério pra todo ser vivente, e mais louco ainda é que ele vem fazendo trabalhos cada vez melhores. Eu gosto de ouvi-lo dizer: “o melhor trabalho da minha vida é sempre o que estou fazendo”.

Apesar do lançamento exclusivo em meio digital agora, há intenção de lançar o disco em formato físico? Ah, sim. Eu tô juntando a grana pra prensagem. Vai ter pré-lançamento dias 8 [na Calourada Geral da UFMA] e 31 de maio [no Teatro Arthur Azevedo, na abertura do show do 14 Bis, pelo projeto MPB Petrobras]. O show de lançamento oficial tá pra julho, tô com projeto aprovado pra patrocínio e devo fazer um catarse [site especializado em crowdfunding] nos próximos dias.